Mostrar mensagens com a etiqueta A. M. Dean. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta A. M. Dean. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

O Bibliotecário. A Biblioteca Perdida. AM Dean. «Era aceitável que se despedissem para tratar cada um dos seus assuntos como se a conversa sobre um colega morto fosse uma coisa banal? Por certo haveria mais coisas para dizer, alguém devia admitir…»

jdact

«(…) Sabem quem disparou?, inquiriu Emily, com uma hesitação na voz que denunciou o seu próprio mal-estar. Continuava sem entender porque alguém quereria matar Arno Holmstrand. Era, sem dúvida, o rosto mais conhecido da universidade, mas era também um homem idoso, com bem mais de setenta anos. Essencialmente, era um ancião reservado e um pouco excêntrico. Não o conhecia muito bem. Haviam-se encontrado algumas vezes e Arno argumentara uns comentários estranhos acerca da investigação de Emily, os problemas que, já se esperavam que um velho professor levantasse sobre os trabalhos dos seus discípulos. Contudo, o relacionamento entre eles não passara disso. Eram colegas, não amigos. Todavia, isso em nada aliviava o choque. Uma morte no campus, e ainda por cima um assassínio, não era uma notícia de todos os dias. E Emily não podia evitar sentir um certo carinho por Arno, embora valorizasse mais a reputação profissional do professor do que o relacionamento pessoal entre ambos. Não fazem ideia, respondeu Jim Reynolds. Os detectives continuam no edifício e a ala encontra-se fechada. E assim ficará durante todo o dia. Ernily bebeu um gole de café frio, mas desta vez o gesto de levar o copo aos lábios pareceu forçado, óbvio, quase desrespeitoso. Era um comportamento demasiado normal para ser feito à luz de tais novidades. Nem acredito que isto tenha sucedido aqui. Maggie Larson ainda mostrava uma expressão de medo. Que alguém tenha tido a coragem... Deixou que se apagasse o eco das suas palavras. Havia uma declaração implícita: ninguém se sentia seguro agora que haviam assassinado um dos seus colegas. O grupo mergulhou num prolongado silêncio, interrompido apenas pela campainha a tocar atrás deles. A sessão seguinte de aulas estava prestes a começar. Entreolharam-se com preocupação antes de cada um seguir para as suas obrigações. Emily sentiu uma incómoda compunção quando tiveram de seguir caminhos separados. Era aceitável que se despedissem para tratar cada um dos seus assuntos como se a conversa sobre um colega morto fosse uma coisa banal? Por certo haveria mais coisas para dizer, alguém devia admitir a emotividade daquela situação.
Eu, bem..., lamento muito o que sucedeu ao Arno. Foi tudo o que conseguiu dizer. Estava surpreendida por aquela perda a afectar tanto. A reacção emocional que experimentava teria sido mais compreensível no caso da morte de um amigo do que de alguém como Arno Holmstrand, que nunca o havia sido. Aileen mostrou-lhe um ligeiro sorriso e abandonou o local. Lutando contra a comoção que sentia, Emily regressou ao seu gabinete, abriu a porta e entrou na minúscula sala. Era surpreendente a facilidade com que a disposição de uma pessoa mudava e quão avassaladora podia ser uma tragédia. Até ter recebido a notícia da morte de Arno, a sua mente estivera focada numa outra coisa: no encontro futuro com o homem que amava. A ú1tima quarta-feira antes do fim de semana prolongado de Acção de Graças significava apenas uma aula logo pela manhã. O resto do dia, se Emilv conseguisse, seria passado a tratar dos preparativos para a ansiada viagem que a levaria de Minneapolis a Chicago, onde passaria o fim de semana com o seu noivo, Michael. Haviam-se conhecido há quatro anos, também no período de Acção de Graças, ele era um inglês a estudar perto de casa na sua área de especialidade, e ela uma impaciente estudante de mestrado que fazia investigação no estrangeiro, tentando partilhar o significado da grande tradição americana com os antigos suseranos coloniais, e desde então, aquele era o dia deles.
Todavia, essa feliz recordação terminou de forma abrupta. O coração de Emily batia descontrolado e a adrenalina aumentara desde que soubera do assassínio ocorrido no campus. Fez um esforço para reprimir o mal-estar que sentia e ligou o computador na sua secretária. Por muito forte que fosse, o choque não podia roubar-lhe forças para encarar todo um dia de trabalho. Deixou cair para cima da mesa o correio que carregara na dobra do braço até àquele momento. Não reparou no sobrescrito amarelo colocado entre dois folhetos de cores brilhantes, porque ainda estava a pensar no assassinato e na sensação de perda. Os seus olhos não notaram a peculiar e elegante caligrafia nem se fixaram na ausência de franquia e de remetente. Foi algo que passou despercebido e se misturou com tudo o resto». In A. M. Dean, O Bibliotecário, A Biblioteca Perdida, 2012, tradução de Dina Antunes, Clube dos Livros, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-724-124-6.

Cortesia de CAutor/JDACT

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O Bibliotecário. A Biblioteca Perdida. AM Dean. «Aquele indisciplinado não só o tratara com rudeza como lhe havia torcido o pulso. Fora de si, puxou as mãos contra o peito e esfregou-as para aliviar a dor. Enquanto girava na cadeira…»

jdact

«(…) Os estranhos calafrios que tinham percorrido o corpo de Emily foram substituídos por pele de galinha. Um homicídio em Carleton College era algo inaudito, mas o assassínio de um colega... A notícia deixou-a assustada e em choque. Foi perseguido pelo corredor, acrescentou Aileen. Havia sangue no exterior do gabinete. Não vi o interior. A sua voz tremeu; olhou para Emily. Não deste conta que a polícia andava pelo campus? Emily, ficou paralisada com a novidade. Havia reparado nas viaturas da polícia quando estacionara o carro antes das aulas da manhã, mas não lhes dera importância. As forças da ordem não eram uma presença invulgar ali. Não tinha ideia de que era por isso. Emilv fez uma pausa antes de indagar: porquê o Arno? Não lhe ocorria que outra coisa perguntar. Não é essa questão que me preocupa, retorquiu Emma Ericksen, a colega de Emil-v em História das Religiões. E o que te preocupa?, quis saber Emily. Se atacaram e assassinaram um dos nossos colegas aqui, no campus, então quem é o próximo?

No exterior da sala de reuniões identificada como 26 H, Burton Gifford entregou a pasta de couro a um empregado e lançou-lhe um olhar que deixava claro o seu desejo de ficar a sós após a conclusão da reunião matinal. Desviando-se enquanto os restantes homens abandonavam a sala e percorriam o corredor em direcção à saída, ignorou os numerosos autocolantes de proibido fumar e sacou de um Pall Mall sem filtro de uma cigarreira que trazia no bolso superior do casaco e acendeu-o. Pertenceu à comissão consultiva de política externa do presidente durante os dois anos em que este havia permanecido no poder, sendo um leal apoiante do seu trabalho no Médio Oriente, apesar de o homem no comando não partilhar do seu desejo de que se mostrasse mais agressivo, que negociasse mais a reconstrução do pós-guerra. Tinha-se transformado num dos assessores mais influentes, levando a cabo tarefas políticas e assegurando que o presidente distinguia amigos de inimigos. Gifford vinha do mundo dos negócios, e os negócios não eram senão um mundo de contactos. Gostava de pensar que o presidente estava bem relacionado, ou menos bem relacionado, graças à sua sabedoria e influência. E não estava de todo errado. Ele era o tipo que facilitava os contactos, e o presidente a voz moral que depois os seleccionava.
Um homem chamado Cole permanecia imóvel nas sombras. O seu rosto invisível esboçava desprezo pelo corpulento e influente intermediário político, um homem poderoso de muitos contactos cujo aspecto evocava a imagem de um gato gordo. Estava inchado fisicamente e na sua vaidade. Nada mais existia senão aquilo que fosse relevante para os seus próprios desígnios. Era um defeito pelo qual pagaria, hoje mesmo. Gifford deu uma longa passa no corredor vazio, a beata meio fumada a pender dos seus lábios enquanto usava ambas as mãos para compor o casaco. Cole escolheu esse momento para sair de um gabinete situado do outro lado do corredor e assim aproveitar a distracção e a posição vulnerável daquele homem. Agarrou-o pelos pulsos e, com um movimento único e suave, arrastou-o de volta para a sala de reuniões. Que diabo está a fazer?, inquiriu Gifford, perplexo, deixando cair o cigarro dos lábios.
Não faça barulho e isto será mais fácil, replicou Cole. Manteve o sujeito preso com a mão esquerda enquanto com a direita fechava tranquilamente a porta atrás deles. E agora sente-se. Atirou o homem para uma das cadeiras recentemente desocupadas e situada em redor da enorme mesa de reuniões. Gifford estava indignado. Aquele indisciplinado não só o tratara com rudeza como lhe havia torcido o pulso. Fora de si, puxou as mãos contra o peito e esfregou-as para aliviar a dor. Enquanto girava na cadeira para encarar o seu atacante, pôs-se a arengar: aviso-o já, caro jovem, que não sou o tipo de pessoa que fica sentada e aceita este… Abandonou o discurso retórico a meio quando deu a volta por completo e conseguiu ver as mãos do seu agressor, que acabava de enroscar o silenciador a uma Glock 32 de calibre .357 SIG. Sei perfeitamente quem você é, senhor Gifford ,replicou Cole sem se dar ao trabalho de levantar a cabeça. É por isso que estou aqui.
A cólera condescendente e a sensação de superioridade de Gifford foram substituídas pelo terror e pela impotência. O que..., o que quer?, indagou sem tirar os olhos da arma. Este momento, respondeu Cole, que destravou a arma mal colocou o silenciador. Este momento é tudo o que desejo. Não entendo, proferiu Gifford, horrorizado, empurrando instintivamente a cadeira para trás, como se assim conseguisse alguma protecção contra a ameaça que tinha diante de si. O que quer…, de mim? Apenas isto, respondeu Cole. Não quero nada mais. Não se trata de um interrogatório nem de um rapto. Então, do que se trata? Cole ergueu por fim o olhar e fixou-o nos olhos aterrados de Burton Gifford. É o fim. Não..., não entendo. Sim, já imaginava que não ia compreender, declarou Cole, e disparou três balas ao coração de Gifford, que acabaram com a conversa. O ombro direito de Cole suportou o recuo da pistola e os disparos abafados pelo silenciador ecoaram ligeiramente na enorme sala. Gifford ficou de boca aberta ao ver o rasto de fumo sair do cano da arma donde foram disparadas as três balas que se encontravam alojadas na parte superior do seu corpo. Abateu-se sobre a cadeira quando o sangue começou a escorrer das feridas do peito e das costas. Cole viu-o exalar o último suspiro e desapareceu nas sombras». In A. M. Dean, O Bibliotecário, A Biblioteca Perdida, 2012, tradução de Dina Antunes, Clube dos Livros, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-724-124-6.

Cortesia de CAutor/JDACT

quinta-feira, 9 de julho de 2015

O Escriba. A. M. Dean. «O homem parou de protestar. Estava acostumado a ser repreendido, pelo que o olhar furioso de Simon não o perturbava. Para além disso, havia qualquer coisa de diferente no companheiro. O homem feroz, que nunca vira estremecer..»

jdact

Hays Mews, Londres
«(…) Os ruídos continuaram, fazendo fugir as memórias de infância. Convencido de que Emily estava bem escondida, a sua motivação alterou-se. Fechá-los dentro de casa e esperar que tudo corresse pelo melhor não fazia parte da sua natureza, e livrar a casa dos intrusos transformou-se em prioridade. Percorreu a divisão com o olhar, procurando qualquer coisa que pudesse brandir como arma. Os castiçais da lareira eram demasiado pequenos para intimidar quem quer que fosse, e tão-pouco serviam como ameaça real caso a intimidação não resultasse. O candeeiro de esquina era difícil de manobrar e pesado. E foi então que no canto oposto viu a solução. Deus te abençoe, Em. Embora nunca tivesse jogado, a paixão de Emily pelo golfe transformou-se de súbito numa das suas maiores virtudes: o bem abastecido saco de tacos encontrava-se encostado a um canto. Implicara com ela tantas vezes por causa do seu amor pelo desporto. Quando corresse com os intrusos de casa, teria de lhe pedir desculpa. Andrew avançou pé ante pé até ao saco e extraiu um pesado taco de madeira; em seguida dirigiu-se silenciosamente para o corredor central. A cada passo, o som de vozes abafadas e o restolhar de papéis tornava-se mais audível e mais próximo.
No gabinete de Emily Wess, um dos homens estacou subitamente. Com os dedos metidos ainda no meio de uma pilha de pastas e documentos, perguntou-se se seria verdade. A dúvida não durou muito. Sabia o que tinha nas mãos: sucesso. Simon sempre fora um homem prático, todavia, em momentos como aquele, não podia evitar que a emoção exigisse uma parcela igual da sua atenção. Afinal, o esforço e a dedicação à causa possuíam um objectivo espiritual, e Simon sempre albergara um lado espiritual. Naquele momento, nada podia ofuscar o significado daquilo que estava ali para reclamar. Era a maior tarefa que alguma vez empreendera e seria certamente uma das maiores proezas da sua vida. Encontrei. A palavra foi pronunciada como um suspiro. Apesar da sensação de êxito, não era de índole a permitir que o espanto triunfasse sobre a sua atenção às circunstâncias. O casal estaria certamente a dormir algures naquela casa, por isso, nada de conversa.
Ao mesmo tempo que o outro homem se voltava para ele, Simon retirou a pasta almofadada da pilha existente no interior da gaveta. Segundos depois já se encontrava aberta e contemplavam ambos o seu precioso conteúdo: uma solitária e antiga folha de papel acastanhado e engelhado pelo tempo. Tens a certeza? O segundo homem examinou a folha, desconcertado pela inscrição antiga que cobria a superfície. Era desconfiado por natureza, uma característica que diversas vezes o ajudara ao longo da sua difícil vida; e, naquele instante, a sua incredulidade nata parecia justificar-se. Não parece um mapa. O primeiro homem analisou o documento até ao mais ínfimo pormenor. O companheiro tinha razão: não parecia um mapa. Contudo, a letra manuscrita era familiar, condizendo na perfeição com a caligrafia do Livro, o antigo diário que lhes servia de infalível guia desde sempre. Tenho a certeza absoluta. Ainda assim, o outro homem não estava convencido. Não entendo como vai isso levar o Arthur até à chave de pedra. Se regressassem para junto do líder sem o mapa verdadeiro, as repercussões seriam severas. Simon fitou-o com uma expressão de súbito implacável. A sua vontade era esmurrá-lo por aquele imperdoável desrespeito, mas naquele momento encontrava-se mais preocupado com o ruído que até uma reprimenda sussurrada poderia gerar. Já tinham falado o suficiente. Lançou ao companheiro um olhar encolerizado. O homem parou de protestar. Estava acostumado a ser repreendido, pelo que o olhar furioso de Simon não o perturbava. Para além disso, havia qualquer coisa de diferente no companheiro. O homem feroz, que nunca vira estremecer, por mais terríveis que fossem as circunstâncias, tremia de excitação. Os olhos quase brilhavam na escuridão da casa.
Andrew Wess avançou mais alguns passos pelo corredor, parando por fim junto à porta do escritório de Emily. Lá dentro, o som de alguém a revolver as gavetas havia sido suplantado por murmúrios e pelo arrastar de pés, e mais recentemente pelo silêncio. Ao aproximar-se, o medo que Andrew sentia deu lugar à raiva. Ouvira falar do aumento do número de assaltos em Londres e imaginava um par de adolescentes rufiões no interior da pequena divisão, embriagados ou sob o efeito de drogas e agindo com base no princípio de que tudo o que desejavam na vida podia ser roubado. Pouco importavam os danos ou a insegurança e o medo que podiam incutir aos outros. Esse pensamento enfurecia-o. Na sua terra, no Ohio, pegavam nesse tipo de vândalos e tinham com eles uma pequena conversa atrás de um barracão. Não fazia ideia de qual era o método utilizado em Londres, mas não ia deixá-los devassar assim livremente as suas vidas. Encostado à parede, a fúria levou-o a agir. Respirando fundo e mobilizando toda a sua coragem, girou para a esquerda e atravessou-se na moldura da porta. Foi um erro, que a sua falta de experiência e de maturidade não permitiram avaliar.
Que diabo fazem nesta casa!, vociferou e, com a mão esquerda, ergueu bem alto o taco, cuja cabeça revestida a titânio quase tocava no tecto. O facto de os intrusos não serem adolescentes ébrios foi algo que registou em menos de um segundo. A surpresa ao ver dois homens altos e fortes debruçados sobre a secretária foi suplantada pelo choque ao escutar dois disparos rápidos, que ecoaram no silêncio da noite mesmo antes de a última palavra ter saído da sua boca. O homem mais perto dele sacara da pistola com extraordinária rapidez e disparara sem hesitar. Andrew Wess caiu no chão já sem vida; o seu coração fora atravessado por duas balas». In A. M. Dean, O Escriba, tradução de Dina Antunes, Clube do Autor, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-724-204-5.

Cortesia CAutor/JDACT

quarta-feira, 11 de março de 2015

A Biblioteca Perdida. Conhecimento é poder… A. M. Dean. «Sabendo de quê? Conhece Arno Holmstrand, da História? Claro, respondeu Emily. Todos conheciam o professor que era o baluarte do Departamento de História. Mesmo que Emily não pertencesse aos dois departamentos, o de História e o de Religião…»

Alexandria, Egipto 
jdact

Minessota. 9h05
«(…) O dia que iria mudar a vida da professora Emily Wess começou de forma bastante banal. Não havia indícios de tragédia, nenhum sinal de urgência no modo como ela tinha começado a mesma rotina matinal que mantinha todos os dias durante o semestre lectivo. Tinha feito a sua corrida, dado a sua aula, bebido o seu café da manhã. Mesmo assim, enquanto o pesado ar de Outono que respirava todas as manhãs no campus do Carleton College passava por suas narinas, sentia que havia algo errado. Alguma coisa, que não sabia definir completamente, fez arrepiar sua pele quando ia da sala de aula para o seu gabinete. O dia tinha um aspecto estranho, um jeito incomum que ela não conseguia descrever. Bom dia, pessoal, disse ao surgir do corredor central do Leighton Hall, um edifício de três andares onde ficava o Departamento de Religião. Dirigiu-se para a porta que conduzia ao seu gabinete. Este fazia parte de um grupo de salas dispostas em torno de um pequeno espaço comum ao qual se tinha acesso por uma porta, que, não fosse por isso, não chamaria muito a atenção. Quatro outros professores tinham gabinetes no mesmo espaço. Eles, mais um colega, estavam de pé em um dos cantos quando Emily entrou. Ela sorriu, mas o grupinho estava completamente absorto numa conversa meio sussurrada. Depois de um período mais longo que o habitual, um olá emergiu em resposta vindo de alguém do grupo, mas ninguém se voltou para cumprimentá-la. Foi nesse momento que tomou consciência de uma atmosfera estranha que estivera presente durante toda a manhã e que até aquele momento não tinha captado completamente a sua atenção. Um silêncio esquisito tomava conta dos corredores. Seus colegas entreolhavam-se obliquamente e tinham expressões preocupadas.
Apanhando as chaves dentro da bolsa, Emily parou em frente a um conjunto de escaninhos e esvaziou o conteúdo do seu, uma braçada de correspondência: lixo postal que havia deliberadamente deixado acumular por duas semanas. Achava um aborrecimento fazer aquilo todos os dias. Continuava a ouvir as vozes abafadas dos colegas atrás dela. Olhou por sobre os ombros no momento em que encaixava uma chavinha na porta do seu gabinete. Um dos zeladores o encontrou esta manhã, disse uma voz baixa, deliberadamente sussurrada, que Emily pôde entreouvir. Não dá para acreditar, disse outra voz. Tomei café com ele ontem mesmo. Maggie Larson, a professora de Ética Cristã que fizera a última observação, tinha uma expressão sóbria no rosto. Não, pensou Emily consigo quando olhou com mais atenção. Ela parece perturbada. A sua curiosidade se aguçou quando ela percebeu que perturbada também não era a palavra certa. Não, ela parece amedrontada. Emily deixou a chave na posição em que estava na fechadura e virou-se para os colegas. Algo estava absorvendo a atenção deles. Algo que não parecia, ou não soava, bem. Desculpem-me, não quero parecer mal-educada, mas o que está acontecendo?, perguntou, dando um passo na direcção deles. Aquela estranha atmosfera de tensão ia ficando mais densa a cada palavra, mas Emily não sabia de que outra maneira poderia se inserir na conversa deles, já que não sabia de nenhum detalhe, nem mesmo sabia qual era o assunto.
Os outros, entretanto, não pretendiam mantê-la desinformada. Acho que ainda não está sabendo, respondeu uma colega. Aileen Merrin era professora titular da cadeira de Novo Testamento. Ela também fora membro da banca que seleccionara Emily quando ela se candidatou ao seu cargo quase dois anos antes, e Emily, desde essa época, nutria um carinho por ela. Emily esperava que, quando chegasse a época, ficasse tão bem de cabelos grisalhos quanto Aileen. Com certeza não, disse Emily tomando um gole de café frio de um copinho descartável. Feito havia mais de uma hora, tinha ficado frio, mas o acto de erguer o café até os lábios ajudava a disfarçar o embaraço daquele momento com algo um pouco mais normal. Sabendo de quê? Conhece Arno Holmstrand, da História? Claro, respondeu Emily. Todos conheciam o professor que era o baluarte do Departamento de História. Mesmo que Emily não pertencesse aos dois departamentos, o de História e o de Religião, ainda assim conheceria o académico mais famoso e eminente da faculdade. Ele descobriu algum outro manuscrito perdido? Ou foi expulso de algum país do Médio Oriente por ter violado as leis da escavação arqueológica? A seu ver, toda a vez que se fazia menção ao nome de Holmstrand, era no contexto de alguma importante descoberta ou aventura académica. Ele não levou a faculdade à falência com mais uma de suas viagens, verdade? Não, ele não fez nada disso, disse Aileen, que de repente assumiu uma expressão de mal-estar. A sua voz se transformou num sussurro: ele está morto. Morto!?, perguntou Emily, forçando levemente a sua entrada no grupo com um empurrãozinho, abalada com a notícia. De que vocês estão falando? Quando? Como? Ontem à noite. Acham que ele foi morto, aqui no campus. Eles não acham, eles têm certeza, interpôs Jim Reynolds, um especialista em Reforma Protestante. Foi assassinado. Três tiros bem no peito; foi isso que ouvi. Estava à mesa do gabinete. Trabalho de profissional». In A. M. Dean, A Biblioteca Perdida, Conhecimento é poder…, e poder pode matar, tradução de Lenita Esteves, Editora Prumo, 2012, ISBN 978-85-7927-298-1.

Cortesia de EPrumo/JDACT

quinta-feira, 5 de março de 2015

A Biblioteca Perdida. Conhecimento é poder… A. M. Dean. «Concentrou sua atenção, fixou o olhar no volume e separou três páginas. Com toda a energia que pôde reunir, arrancou-as do livro. Os passos que ouviu no corredor lhe fizeram retomar o foco…»

jdact

Prólogo
«A bala que havia perfurado o seu pulmão permanecia alojada no tórax, mas o velho já não sentia a dor causada por ela. Essa dor se transformara em foco, mesmo que a sua visão periférica estivesse perdendo nitidez. Aquilo era esperado. Arno Holmstrand sabia que eles viriam. Os eventos da semana anterior tinham deixado pouco espaço para dúvidas. Estava pronto. Tivera de apressar os preparativos, mas agora estava tudo em ordem. O palco estava montado e ele fizera o necessário. A única coisa que faltava era completar a última tarefa e depois rezar para que os seus esforços não fossem por água-abaixo. Desabou na poltrona de couro cru atrás da mesa. A superfície de mogno diante dele parecia brilhar, reflectindo e espalhando a luz fraca de um abajur pelo escritório escuro. Uma beleza estranha num momento daqueles. Esticou os braços e pegou o livro que estava aberto sobre o tampo de madeira e, por um momento, a dor que lhe queimava o peito voltou. Se aquilo era necessário, servia como um último lembrete: não havia saída a não ser terminar com tudo. Concentrou sua atenção, fixou o olhar no volume e separou três páginas. Com toda a energia que pôde reunir, arrancou-as do livro. Os passos que ouviu no corredor lhe fizeram retomar o foco. Arno pegou um isqueiro dourado que ganhara quando fora padrinho de casamento de um aluno anos atrás e o acendeu. Segurando as páginas arrancadas sobre uma pequena lixeira ao lado do seu pé, aproximou a chama do papel. No momento seguinte, as páginas já estavam a queimar. Soltando-as na lixeira, observou-as enquanto se enrugavam e eram consumidas pelas chamas alaranjadas. Recostou-se na poltrona. O último acto estava completo. Arno juntou as mãos, entrelaçou os dedos e olhou na direcção da porta do escritório, que se abriu bruscamente. O rosto do homem que o encarava parecia feito de aço, sem nenhuma emoção. Alisando com a mão a jaqueta de couro preta que delineava os contornos de um corpo atlético, examinou rapidamente a sala, olhou a pequena fogueira no cesto de papéis e apontou uma arma na direcção do velho sentado à mesa. Arno ergueu os olhos, fixando-os directamente nos do adversário. Eu estava esperando, suas palavras eram calmas, dotadas de um tom tranquilizador de autoridade. Na entrada do escritório, o homem com a arma não vacilou. Embora tivesse corrido minutos antes, sua respiração já estava novamente em ritmo cadenciado. Arno abandonou a familiaridade fingida da sua voz, que agora assumia um tom estritamente profissional. Vocês me acharam. Um feito e tanto. Mas termina aqui. O homem mais jovem lançou um olhar curioso para Arno e, por um momento, diminuiu o passo. A autoconfiança do velho não era esperada, não naquele momento. Aquilo era a sua derrota. No entanto, estava placidamente sentado, numa calma que perturbava. O intruso respirou fundo. Depois, sem piscar, deu dois tiros, um logo após o outro, directo no peito de Arno. A sala escureceu. Arno Holmstrand ficou olhando o vulto do intruso ficar mais apagado, virar-se e depois sair. A escuridão tomou conta de tudo. Depois, não havia mais nada.
A torre da antiga igreja assomava sobre a cidade, que lá em baixo começava, como de costume, a movimentar-se. Algumas luzes pontilhavam as salas dos colleges em torno da praça e furgões de entrega manobravam na High Street, abastecendo lojas para o próximo dia de trabalho. A lua estava baixa no céu, os primeiros raios de sol ainda ocultos pela noite. Precisamente às 5h30, o imenso ponteiro de ferro do relógio atingiu a sua marca. Por trás do mostrador de metal, um pequeno pino de madeira, deliberadamente inserido em meio à velha engrenagem, partiu-se em dois. O cordão que estava atado ao pino soltou-se e o pacote que ele mantinha suspenso no topo da torre começou sua planeada queda. Depois de uma trajectória em queda livre ao longo dos cento e vinte e quatro degraus da escada em espiral, ao pé daquela torre do século XIII, o pacote chocou-se contra a espessa fundação de pedra. O detonador acoplado à extremidade externa do pacote dobrou-se com o choque, produzindo a sua carga de ignição precisamente direccionada. Antes que o detonador tivesse se incendiado totalmente, o pacote de C4 rompeu-se, explodindo com uma fúria desenfreada. Numa imensa bola de fogo, a antiga igreja ruiu». In A. M. Dean, A Biblioteca Perdida, Conhecimento é poder…, e poder pode matar, tradução de Lenita Esteves, Editora Prumo, 2012, ISBN 978-85-7927-298-1.

Cortesia de EPrumo/JDACT