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segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Decifração em Textos Medievais. Apertio Libri. Arnaldo Espírito Santo. «A conclusão que se impõe é que a escrita alegorizante está tão divulgada como a interpretação alegórica, mesmo em textos vernáculos, cuja leitura ou decifração não pode ser feita sem esta perspectiva»


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Conferências. Decifração
«(…) Um dos instrumentos mais úteis para a criação de parâmetros comuns foram as listas infindáveis de nomes próprios com explicação etimológica. Da autoria, pelo menos parcial, de S. Jerónimo, ou a ele atribuídos, chegaram até nós vários tipos desta espécie de elencos de significados etimológicos e simbólicos de nomes proprios. Às vezes as etimologias são forçadas, outras quase absurdas ou contra o génio da língua; a culpa não é de Jerónimo que assim as encontra já vulgarizadas. Dou um exemplo: Belial enim ínterpretatur absque jugo. Et notandum est quod omnes, qui ebrietatem sectantur, filií Belial vocentur.
Traduzo: Belial quer dizer sem jugo. E note-se que todos aqueles que seguem a embriaguês se chamam filhos de Belial. E uma sentençazinha de carácter moralizante que como tal estava destinada a ter futuro. Rabano Mauro, no século IX, repete-a ipsis verbis nos seus Comentários aos Livros dos Reis; e Angelomus de Luxeuil, do século IX, faz o mesmo nas suas Enarrationes in libros Regum. Haimo d'Auxerre (também do século IX) cita a primeira parte, Belial quer dizer sem jugo, omite a segunda parte, que associa sem jugo a embriaguês, mudando completamente o rumo da interpretação ao acrescentar: misticamente ordena-se à Igreja, oprimida pelo Diabo com o pesadíssimo jugo da idolatria, que, libertada pela paixão do Senhor, celebre as festividades etc.
Mas o mesmo autor, num comentário às Epístolas de S. Paulo, aplica a mesma etimologia de Belial a um outro contexto, extraindo dela este significado: Belial quer dizer sem jugo, significando o diabo que sacudiu da sua cerviz o jugo de Deus Omnipotente. Assim se foi propagando este pequeníssimo comentário de autor em autor, como aconteceu a muitos outros, até constituir um lastro de cultura, por enquanto no âmbito do texto escrito. Mas um dia um pregador, leitor destes comentários, utilizou-o num sermão. E daí passou para o domínio público. Foi exactamente isso que aconteceu, já que o mesmo Haimo de Auxerre utilizou essa expressão numa das suas homilias. Utilizou-a também Godefroid d’Admont no século XII nas suas Homiliae dominicales. E sobretudo foi utilizada por um autor desconhecido num dicionariozinho que serviu de índice às Homilias Dominicais e que exerceu, decerto, uma influência incalculável na elaboração de tantas homilias de que não nos resta hoje uma só palavra. Forma-se assim uma cadeia de transmissão que talvez venha a encontrar o seu destino final em alguma obra vernácula, e quem sabe se foi cientemente ou não que o seu autor utilizou essa expressão. Não sei se tal aconteceu. Só sei que a mesma expressão vai aparecer em Guibert de Nogent, séculos XI-XII, nos seus Moralia in Genesim, em Bruno Segui (séculos XI-XII) no Comentário ao Pentateuco, em Rupert de Deutz (séculos XI-XII), no tratado sobre a Santíssima Trindade e no comentário aos doze Profetas menores. Enfim, num autor desconhecido de uns sermões, em Pedro Abelardo (século XII), e em mais meia dúzia de Autores.
A conclusão que se impõe é que a escrita alegorizante está tão divulgada como a interpretação alegórica, mesmo em textos vernáculos, cuja leitura ou decifração não pode ser feita sem esta perspectiva. E quando lermos, num autor qualquer, que em hebraico Adam quer dizer Homem, ou que ou o texto grego ou o texto hebraico de determinado passo da Bíblia apresenta uma leitura diferente da versão latina, não vamos deduzir apressadamente que o autor lia essas línguas, mas simplesmente que retirou a sua informação de um comentário anterior ou de um lexicon do género daqueles que tenho vindo a considerar. E não nos precipitemos a indicar a sua fonte porque a origem da sua informação pode derivar de uma dúzia de autores.

Segundo as leis da alegoria
A alegorização do texto, quer como forma de escrita, quer como método hermenêutico, tem as suas leis. A expressão leges allegoriae é usada por S. Jerónimo (2 vezes), por Beda (5 vezes) e por João Escoto Erígena (1 vez). Dissemos há pouco que, em rigor, só pode ser objecto de decifração alegórica um texto construído sobre uma cifração alegorizante, no sentido, insisto, de que um sistema coerente de isotopias instaura um processo de remissões, termo a termo, para um universo referencial de outra natureza, pela coexistência sistemática de dois níveis de significado, o literal e o simbólico. S. Jerónimo é, talvez, o autor que revela uma consciência mais aguda da distinção entre poiética e hermenêutica, entre codificação e descodificação». In Arnaldo Espírito Santo, Da Decifração em Textos Medievais, IV Colóquio da Secção Portuguesa da Associação Hispânica de Literatura Medieval, Lisboa 2002, Edições Colibri, Lisboa, 2003, ISBN 972-772-425-6.

Cortesia de Colibri/JDACT

Decifração em Textos Medievais. Apertio Libri. Arnaldo Espírito Santo. «É-lhe conferida uma dignidade e uma sublimidade que ultrapassa a simples interpretação de um texto. Por trás disso, está a leitura do plano de Deus, sobre o sentido da vida humana, do drama da história»

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Conferências. Decifração
«(…) Mas voltemos ao texto de S. Jerónimo. Epidémio, quando chegou a Belém da Judeia, entregou a Jerónimo, que aí fazia vida monástica, um rol de perguntas ou questões que lhe eram trazidas da parte de Algásia. E a alegorização do texto prossegue. Ao ler o bilhete, Jerónimo vê nas questões de Algásia um sinal de que nela se realizam de uma forma completa o interesse pela sabedoria que trouxera a Rainha de Sabá dos confins do mundo para ouvir a sabedoria de Salomão. E configura-se a seguinte isotopia per allegoriam: Jerónimo igual a Salomão, e Algásia igual à Rainha de Sabá. Mas ele não se considera à altura de Salomão, pois que nem antes nem depois houve homem que o superasse em sabedoria. Mas ela, sim, ela, Algásia, é uma verdadeira Rainha de Sabá, ela em cujo corpo domina o pecado e cujo espírito está inteiramente convertido a Deus, porque é isso que na língua latina significa Saba, a saber, conversão.
Estamos, pois, em presença de um de muitos exemplos de escrita alegorizante. Não se trata, na maior parte dos casos, do uso das técnicas retóricas da Antiguidade com o recurso à metáfora, à metonímia, ao símile e a toda a panóplia de tropos e figuras. Isso também existe em Jerónimo. Mas é mais que isso, é um desdobrar permanente de um significado em vários significados de realidades que estão a outro nível, no texto e além do texto. Não se trata apenas de uma isotopia coerente que remete termo a termo, metaforicamente, para um universo referencial de outra natureza. Trata-se, sim, de um discurso cujo significado é aberto porque se entra nele com a chave de decifração que é o alfa que estava no princípio e o ómega que estava no fim. Faço uma pergunta: acaso quem assim escreve, embrenhado nas florestas do significado, poderá seguir outro caminho na interpretação do texto que não seja per allegoriam? De certo que não. Aliás, a resposta está neste riquíssimo proémio da Epístola a Algásia, no qual, após uma análise preliminar das questões que lhe são propostas, Jerónimo faz de imediato o diagnóstico: dei-me conta de que as tuas questõezinhas dizem respeito apenas ao Evangelho e aos Apóstolos. Isso quer dizer que quanto ao Velho Testamento, ou não o leste bastante, ou não o entendeste. E porquê? A resposta é dada por Jerónimo: primeiro, porque o Velho Testamento está cheio de obscuridades; segundo porque está envolto em prefigurações do futuro; assim sendo, todo ele necessita de interpretação.
Em resumo, o que diz Jerónimo é que a questão não está em legere mas em legere satis e, mais ainda, em intellegere, ou seja, não está em ler, mas em ler bem e entreler ou ler entre: ler entre as obscuridades de um texto de outras épocas, por vezes de transmissão corrompida, e principalmente entre as obscuridades de sentido decorrentes do próprio mistério nele contido e da prefiguração futura escondida sob a capa dos acontecimentos presentes. O que é quase o mesmo que dizer: não é possível ler senão perspectivando o presente na mira do futuro, recorrendo para isso à interpretação per allegorian. Não há outra forma de passar do nível da lectio ao do intellectus, da lição ao da intelecção.
Há uma lei essencial da alegoria que vários autores repetem e que S. Jerónimo formula da seguinte maneira: a porta oriental do Templo, da qual surge a verdadeira luz e pela qual entra e sai o sumo-sacerdote, está sempre fechada, e só se abre a Cristo que tem a chave de David, que abre e ninguém fecha: fecha e ninguém abre. Nesta simples frase, com toda a beleza poética e majestade bíblica, Jerónimo, por uma série de referências em cadeia que passam pelo Profeta Ezequiel, pelo Apocalipse e pelo Cântico dos Cânticos, Jerónimo, digo, repete um princípio que, como já referimos, se encontra no comentário ao Apocalipse de Vitorino de Petau: a chave do Antigo Testamento é o próprio Cristo. A interpretação alegórica, ou simplesmente o comentário bíblico medieval é, deste modo, como que assimilado aos passos da tradição bíblica em que se fala da apertio tibrí. É-lhe conferida uma dignidade e uma sublimidade que ultrapassa a simples interpretação de um texto. Por trás disso, está a leitura do plano de Deus, sobre o sentido da vida humana, do drama da história, da criação e do universo. Mas por Ser uma tarefa grandiosa reservada a santos varões de reconhecida idoneidade, e atentamente vigiada pela Igreja para assegurar a sua ortodoxia, criou desde cedo uma certa padronização». In Arnaldo Espírito Santo, Da Decifração em Textos Medievais, IV Colóquio da Secção Portuguesa da Associação Hispânica de Literatura Medieval, Lisboa 2002, Edições Colibri, Lisboa, 2003, ISBN 972-772-425-6.

Cortesia de Colibri/JDACT

domingo, 23 de outubro de 2016

Decifração em Textos Medievais. Arnaldo Espírito Santo. «… eructavit cor meum verbum bonum; o que traduzido segundo a letra da versão latina daria: o meu coração arrotou uma palavra boa».

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Conferências. Decifração
«(…) A alegoria está no trâmite final que identifica a minha carne com a minha palavra. A interpretação alegórica é pois um percurso que vai da análise da materialidade do discurso, passa pela sua integração no contexto, e remata com a extrapolação fundamentada nos dois níveis anteriores, Sobretudo no contexto, como acontece neste caso em que Cristo, um pouco antes, declarara que a sua carne era pão celeste, forçando de todas as maneiras, per allegoriam, os seus ouvintes a recordarem-se dos seus antepassados que preferiram o pão e a carne dos Egípcios ao chamamento divino. E foi por isso que disse: A carne de nada aproveita. Com este remate voltamos ao sentido literal do início, mas agora enriquecido de outros sentidos que lhe são conferidos pelo contexto. Digamos, por conclusão, que em princípio só deveria haver interpretação alegórica quando o texto contivesse em si uma linguagem já de si alegórica ou alegorizante, como no caso acima analisado; deveria, pois, imperar o princípio segundo o qual o nível da decifração deve corresponder ao nível da cifração, e deve haver uma corrente contínua entre sentido literal, contexto, e significação alegórica. Estes são os princípios que estão presentes em muitos escritores medievais, não apenas como exegetas do texto, mas também como fazedores dos seus próprios textos. 
Significado dos nomes próprios
Um dos fundamentos da interpretação alegórica foi desde tempos imemoriais a decifração dos nomes próprios a partir do seu significado como substantivo comum. O hebraico é uma daquelas línguas em que o nome próprio, em muitos casos, mantém viva e transparente a motivação do significado, no sentido que lhe foi dado por Stephen Ulmann. De facto Bethlehem é um nome próprio composto de dois substantivos comuns, dos quais Beth significa casa e lehem pão. É quase um processo natural que alguém comente, a propósito do nascimento de Cristo em Bethlehem, que ele aí nasceu porque é o pão da vida, como um dia afirmou de si próprio segundo o Evangelho de S. João; ou, como fez S. Jerónimo, diga: salve Bethlehem, casa do pão, onde nasceu o pão que desceu do céu. S. Jerónimo usa abundantemente deste processo alegórico na escrita das suas cartas, de tal modo que um editor moderno terá necessidade de lhes acrescentar umas notas para que o texto seja inteligível. Assim procedeu, por exemplo, numa carta a Algásia, onde relata que o seu discípulo Apodémio, fazendo jus ao significado do seu nome, fez uma longa viagem para o visitar. Esta alegorização tem como base a etimologia de Apodemius, que significa aquele que viaja fora do seu país. Umas linhas abaixo, continuando no mesmo estilo de discurso, Jerónimo escreve que o mesmo Apodémio, deixando Roma para trás, se dirigiu a Bethlehem, para encontrar nela o pão celeste, numa alusão clara a dois factos: um de carácter linguístico, que consiste em descodificar o nome próprio atribuindo-lhe o significado dos elementos que o constituem: Bethlehem = casa do pão; o outro facto é de carácter literário, pois subentende uma remissão implícita, mas apreensível no ambiente da cultura cristã do seu tempo, uma remissão, digo, para a afirmação de Cristo: eu sou o pão que desceu do céu. Avançando um pouco mais, diremos que a alegorização se constrói e se impõe pela associação destes dois factos, o linguístico e o literário. Sem um deles, o outro também não era suficiente para a construção do ambiente alegórico do discurso. Mas S. Jerónimo não se fica por aqui, e completa o seu raciocínio: dirigiu-se para Bethlehem para encontrar nela o pão celeste e, restaurado, arrotar no Senhor. Este estranho arrotar, quase de mau gosto, é simplesmente mais uma referência literária, que se encontra no salmo 44, e que aliás é citado na forma por ele consignada na Vulgata: eructavit cor meum verbum bonum; o que traduzido segundo a letra da versão latina daria: o meu coração arrotou uma palavra boa. É claro que a tradução latina é demasiado literal, já que no hebraico o verbo rahasch, que está subjacente a eructare, significa propriamente deitar cá para fora, exalar, exprimir. Daí que os tradutores mais recentes tenham traduzido por o meu coração transborda num belo poema, ou coisa parecida. Jerónimo, porém, alegoriza com o sentido literal de eructavit porque só assim podia associar os dois factos em que fundamenta a sua alegorização, isto é, a casa do pão (Bethlehem), o pão do céu, (referência ao Evangelho de S. João) e a saciedade que provoca em quem dele se alimenta, simbolizada no arroto do coração. Queria acentuar, mais uma vez, uma das leis da alegoria: a conservação do significado literal das palavras». In Arnaldo Espírito Santo, Da Decifração em Textos Medievais, IV Colóquio da Secção Portuguesa da Associação Hispânica de Literatura Medieval, Lisboa 2002, Edições Colibri, Lisboa, 2003, ISBN 972-772-425-6.

Cortesia de Colibri/JDACT

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Memórias da Grande Guerra. Jaime Cortesão. «Aqui na ‘Lísbia’, a rapaziada sempre avara nos louvores aos mestres (Meu Deus!, com que razão!...) é ouvi-la falar dum deles: tem extremos de carinho»

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O Génio do Povo. Dezembro de 1916
«(…) Vencer numa arrancada, sem preâmbulos, à doida, amigos, que ideal! Agora que se passem oito ou dez meses na instrução de soldados, em compras de material, criando oficiais, a improvisar um exército, no máximo de segurança e método possível com estes nervos e o desarranjo anterior, oh!, isso é insuportável. Se fosse questão de uns oito ou dez dias a resolver, vá, tolera-se todos os diabos! Mas assim: um ror de meses, um ano, uma eternidade. Sabe-se lá! E muitos cançam, duvidam, verberam... Não obstante a preparação lá segue. Verdade, verdadinha, ninguém estava acostumado a trabalhar. Oficiais de gabinete, habituados ao ronronar burocrático, comandam uns, ao sol e ao vento, e outros vêem-se a braços com trabalho. Adivinha-se um arquejar imenso e aflito. É o arrancar duma locomotiva enferrujada. E aqui, além, no tumulto da obra, dentre a poeira levantada pelo formilhar das gentes, surgem a pouco e pouco caras de homens, arrugadas de energia, vultos ásperos de construtores, ofegantes, absorvidos na grande faina. Hão-de ver: esta guerra vai abrir uma escola de vontades e caracteres. Dentre a caótica massa humana erguem-se já, algumas figuras nítidas. Por enquanto são escorços a carvão, máscaras em três vincos, olhos fitos, bocas premidas, masseteres obstinados que se contraem. Já as escolas de oficiais milicianos deitaram cá para fora algumas centenas deles, em Lisboa e Porto. Aqui na Lísbia, a rapaziada sempre avara nos louvores aos mestres (Meu Deus!, com que razão!...) é ouvi-la falar dum deles: tem extremos de carinho. À uma, todos o incensam. Esse homem raro, pois alcançou o respeito unânime dos alunos, é o tenente-coronel Pereira Bastos, director da Escola.
Ouço, no acaso das ruas, discípulos seus de todos os credos políticos: sempre o mesmo culto desvanecido pelo mestre. Desvanecido, sim! Orgulham-se dele! E eis como o pintam. Claro e insinuante na cátedra, do mesmo passo atencioso e enérgico fora dela, imperturbavelmente calmo e correcto, conseguiu numa terra de maldizentes e cépticos, veneração para si, um alto respeito para a sua nova missão e, no pior dos casos, que se aproximassem da República. Em obra tamanha, a influência moral dum verdadeiro mestre, como este, perdura no tempo e a distância. Vamos ter uma guerra de milicianos, lembrem-se disso. A memória das suas palavras há-de inspirar mais tarde muito acto nobre e heróico. E os exercícios continuam. Enquanto a 1ª Divisão se prepara nas linhas de Torres, mais 10000 homens se concentram em Tancos. Oh!, e os risinhos de certa gente, porque o Afonso Costa assistiu, montado num cavalo, em companhia do ministro da Guerra, ao desfilar desses milhares de homens, ao findar os exercícios... O Afonso Costa a cavalo... Hão-de concordar que é de morrer a rir! Pois é certo: meia Lisboa disse a sua gracinha. Há espirituosos que levam tudo isto de troça. Muita gente começa mesmo a convencer-se de que não estamos em guerra. Que importam os avanços das nossas tropas em território inimigo, no Leste Africano, agora um êxito, logo um revés? Coisas nas colónias.
Também a Ibo foi atacada por um submarino. Vêm os periódicos e dizem que à entrada do Tejo os navios da nossa divisão têm rocegado e feito explodir minas dos boches e esse trabalho é inçado de perigos e extenua. Tudo isso, afirma-se à boca pequena, são cantigas do Leote, para mostrar serviços. Um grande número destes detractores fala apenas pela preocupação da esperteza. É vezo do indígena. A eles, ninguém os engana. Outros... Outros lá têm as suas razões e aproveitam o ambiente». In Jaime Cortesão, Memórias da Grande Guerra, Obras Completas, Portugália Editora, Lisboa, 1969.

Cortesia PortugáliaE./JDACT

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Memórias da Grande Guerra. Jaime Cortesão. «Tudo comenta, insinua, segreda, baralha. E agora vá de chacota. São as revistas que jogam ‘piada’. Por exemplo, “venham aqui ao Eden e ouçam o fado do Ganga”».

O Cristo de Neuve-Chapelle 
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O Génio do Povo. Junho de 1916
«(…) A Inglaterra presta-nos o seu concurso financeiro para podermos entrar eficazmente na luta. E quanto à nossa entrada na guerra o governo inglês reconhece plenamente a lealdade de Portugal e a assistência que já lhe está dando e convida-o a uma maior cooperação militar ao lado dos aliados na Europa. E, dias passados, manhã clara de Agosto, o Suffolk e o Narcissus, da armada britânica, fundeiam no Tejo; vêm saudar Portugal. O contra-almirante Yelverton e os seus oficiais, os correctos gentlemen de bordo, atravessam a multidão efusiva, por um dia de brasas, e lá vão saudar o Chefe do Estado ao Palácio de Belém. Uma visita rápida, não há tempo para recreios, Cascais e a Sintra; um almoço de marinheiros ingleses e portugueses no Castelo da Pena, ao ar livre; aclamações e abraços, shake-hands, e eles lá voltam para a sua faina. Dois belos dias! Chegaram depois as missões militares inglesa e francesa para concertar assuntos que dizem respeito à nossa cooperação ao lado dos aliados. Vamos então entrar em guerra. Já não há, dúvidas. Devem, pois, ter acabado os manejos que procuravam inutilizar o nosso esforço: Qual? Vão ver. Muito pelo contrário. Q próprio Governo, reconhecendo a necessidade urgente de fazer a propaganda da guerra, resolve iniciar uma série de comícios junto aos grandes monumentos nacionais. Pelos vistos dão-nos razão. O primeiro desses comícios realiza-se na Batalha. E lá falam entre outros o António José Almeida e Afonso Costa. Resultado: o povo aplaude. Ele compreende sempre, porque não está contaminado. Mas a propaganda contrária recrudesce. O que aí vai agora a propósito da pena de morte! Sob a capa do respeito pela vida humana ataca-se o Governo violentamente. Contra a pena de morte reuniram-se todos os que têm combatido a nossa intervenção na Europa. Foi aprovada afinal somente em caso de guerra com país estrangeiro e apenas no teatro de guerra. Mas a oposição foi tal que durante a sessão no Parlamento se distribuíram nas galerias papelinhos escritos à máquina cheios de insultos e insídias e com um incitamento claro ao assassinato dos bandidos, que querem a pena de morte. O papelinho no género é perfeito. Aquilo vem de alto. É uma canção de ódio. Cada período, a jeitos de estrofe, depois de apontar os criminosos à sanha popular, termina regularmente por este ritornelo, bradando a voz de matar: Fogo! Fogo! Fogo!
O ministro da Guerra, por seu lado, não pára. Nos fins de Setembro Lisboa anima-se com a passagem de tropas, automóveis, viaturas militares: é a mobilização da Iª divisão que vai exercitar-se para as linhas de Tancos. Mas o fermento da desordem já lavrou nas mesmas tropas. Parte dum regimento de Lisboa, não sei a que pretexto, insubordina-se. O general Pereira Eça, homem de rápidas decisões e processos rudes, sufoca tudo prontamente. Mas afirma-se que tudo isto é um conto do vigário. Já se diz que o Governo não terá coragem para continuar com os comícios. Cobrem aquilo de ridículo. E começa-se a descrer geralmente da ida das nossas tropas para a França. Tudo comenta, insinua, segreda, baralha. E agora vá de chacota. São as revistas que jogam piada. Por exemplo, venham aqui ao Eden e ouçam o fado do Ganga. Vale a pena: venham. O Ganga é o carroceiro afadistado desta Lisboa gingona. Foi arrancado à rua. É assim mesmo. Sem tirar nem pôr. Cheira ainda a alcouce e a cavalariça. Então o Amarante delicioso no papel. Vem a matar: calças justas, blusa azul arremangada, a faixa na cinta descaída à banda, o boné atirado para a nuca, e sobre a gorja nua um carão deslavado a respirar insolência. E o que ele canta e diz! Gaba o grande sistema nacional da lambada. E aquilo dito em calão, sublinhado pelo guizalhar do macho, muito rufia, muito refilão, muito português, é de enternecer. Aí vem ele a gingar, a prisca entalada nos dedos e chicote caído do sangradoiro. O público sorve-lhe as palavras e os gestos.
Canta:

E quando chegar o dia
em que a gente for p'ra guerra'.

Vai o macho e põe-se a guizalhar.

Aí! Ó! Sempre estás c’uma pressa!

E a multidão ri. Ri... E cada um, ao voltar a casa vai dizendo com os seus botões que afinal talvez o Ganga tenha razão...» In Jaime Cortesão, Memórias da Grande Guerra, Obras Completas, Portugália Editora, Lisboa, 1969.

Cortesia PortugáliaE./JDACT

sábado, 21 de março de 2015

Decifração em Textos Medievais. Apertio Libri. Arnaldo Espírito Santo. «… a busca de sentido per allegoriam foi o método mais comum seguido pelos comentadores patrísticos e medievais. Só no âmbito da Patrologia o substantivo allegoria (busca de isotopias no domínio da fundamentação da fé) ocorre 2316 vezes…»

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Conferências. Decifração
«(…) O pão parte-se e reparte-se tal como a Escritura se abre e comenta. O comentário ou decifração do conteúdo do texto é assim como parti-la em pedaços e distribuí-la como pedaços de pão. O homem interior (são palavras de Abelardo) alimenta-se e sustenta-se do alimento espiritual, tal como o homem exterior de alimento corporal. Metaforicamente o texto é como uma broa de pão de milho que tem uma côdea dura, a letra, que é necessário romper para chegar ao miolo do sentido interior. Aqueles comentários cuja leitura lenta e fastidiosa nos faz sorrir ou nos causa desprazer são, de facto, fruto de grande erudição e de profundas meditações. Em muitos casos representam a visão actualizada da leitura e são por isso um manancial de informações sobre a transmissão dos textos originais: daquilo que o tempo deixa cair como desinteressante, e daquilo que a modernidade conserva, apesar de antigo. O texto de Pedro Abelardo está cheio dessas alusões implícitas ao passado. Um texto medieval como este é constituído por uma primeira camada de origem bíblica, não só nas ideias mas no próprio vocabulário. Hoje, a leitura ou edição de um texto escrito sob o domínio desta forma mental necessita de um conhecimento não superficial da Bíblia, da doutrina da Igreja, da liturgia, e dos comentaristas anteriores. Uma afirmação tão anódina, aparentemente, como até que viesse Cristo para lhes abrir as escrituras remete para o comentário ao Apocalipse de Vitorino Petau que diz: Hic ergo aperit et resignat, quod ipse signaverat testamentum, isto é, foi Cristo que selou o Testamento, só ele o pode desselar porque ele é o conteúdo da própria Escriturar que antes da sua vinda era um texto como que enigmático. Ou para as palavras de Orígenes: Enquanto não veio Cristo, a lei estava perdida, fechado o discurso profético, velada a leitura do Velho Testamento, e até hoje, quando os Judeus lêem Moisés, têm um véu sobre o coração. Condenáveis são aqueles que amam o véu e censuram os comentadores que procuram descerrar o Véu. Outra referência, a das duas faces do texto, a espiritual e a corporal, a littera e o sensus interior, conduz-nos também a Orígenes que diz que o livro escrito por dentro e por fora simboliza o sentido espiritual (por dentro) e o sentido literal (por fora). De facto, a busca de sentido per allegoriam foi o método mais comum seguido pelos comentadores patrísticos e medievais. Só no âmbito da Patrologia o substantivo allegoria (busca de isotopias no domínio da fundamentação da fé) ocorre 2316 vezes, número extraordinariamente elevado em relação à ocorrência de tropologia (sentido moral) 704 vezes, e de anagoge e anagogia (sentido escatológico) 441 vezes. Foi mesmo criado o verbo allegorizare, formado a partir do grego, no sentido de interpretar alegoricamente. A primeira ocorrência surge, e com razão, em Tertuliano. Estava a criar-se uma autêntica escola de comentadores da Escritura, Tertuliano morreu em 230, que consolidava a sua linguagem técnica e os seus métodos, com grande influência, desde o início, do método alegórico usado por Fílon de Alexandria (primeira metade do séc. I d. C.) e antes dele aplicado pelos estóicos ao comentário dos poemas homéricos. Esta foi a tendência generalizada durante toda a idade patrística e medieval. Não é necessário um estudo aprofundado da aplicação em contexto das 233 ocorrências de per allegoriam para termos uma ideia clara da extensão do seu significado e dos seus usos e abusos. Darei apenas uma amostra, com a análise de algumas ocorrências, do método por excelência da hermenêutica medieval.
E começo por Tertuliano, que passo a resumir. Trata-se de argumentar sobre a ressurreição da carne. O que está em causa é a afirmação de Cristo caro non prodest, o corpo de nada aproveita não interessa, não importa, afirmação que parece prejudicar a doutrina da ressurreição. Tertuliano, no início da sua argumentação, esclarece que o sentido da afirmação deve ser tirado da materialidade das palavras. Uma observação importante como ponto de partida para os limites a estabelecer na interpretação alegórica. A seguir analisa o contexto em que a afirmação foi pronunciada: os discípulos tinham ficado assustados quando Cristo disse que lhes daria a sua carne a comer. Por isso corrige essa impressão dizendo que é o Espírito que vivifica e acrescentando que a carne de nada aproveita. Onde está então a alegoria? Está na interpretação do que se segue. Querendo Cristo significar o que se deve entender por Espírito, prosseguiu à maneira de explicação: As palavras que eu vos disse são espírito, são vida. Um pouco atrás o mesmo Cristo dissera: Quem ouve as minhas palavras... tem a vida eterna. Então, conclui Tertuliano, Cristo, ao instituir no discurso a palavra vivificadora, já que a palavra é espírito e vida, afirmou também que a palavra é a sua carne porque a palavra se fez carne, e por isso deve ser apetecida e devorada pelo ouvido, ruminada pela inteligência, e digerida pela fé». In Arnaldo Espírito Santo, Aperto Libri. Uma representação simbólica da descodificação textual, Da Decifração em Textos Medievais, coordenação de Ana Morais, Teresa Araújo, Rosário Paixão, IV Colóquio da Secção Portuguesa da Associação Hispânica de Literatura Medieval, Lisboa 2002, Edições Colibri, Lisboa, 2003, ISBN 972-772-425-6.

Cortesia de Colibri/JDACT

domingo, 1 de março de 2015

Memórias da Grande Guerra. Jaime Cortesão. «A propaganda pelo facto é sempre a melhor, tinha-me respondido António José Almeida. Há dois homens, um dos quais pertence ao Governo, que encarnaram esta ideia. Já não há dúvida. Vamos entrar em guerra»

Pátio das osgas, desenho de Sousa Lopes 
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O Génio do Povo. Junho de 1916
«(…) A fé é o primeiro postulado da vida para o homem e para os povos. E o homem só por esse esforço sublime ultrapassa a sua estreita animalidade. Se esta excedência é necessária aos indivíduos é imprescindível para os povos. Ai dos que não crêem num grande destino! Uma Pátria, um povo que não ilumine a hora que passa com a visão do Futuro não se impondo uma alta missão, a si mesmo se condena à morte. E todavia há factos reveladores de que este grande esforço mergulha as raízes no que há de mais belo no passado. Portugal confia no seu destino, e volta os olhos suplicantes para as suas divindades gentílicas. Outrora, à partida das naus, dirigiam-se as procissões e as preces a Santa Maria de Belém. E ao surgir dos grandes feitos ou dos grandes homens, os olhos do povo viam aparições de milagre, os altos sinais reveladores cheios da força do Destino. Hoje é a multidão que invade os templos, e a Pátria reza a S. Camões a maior divindade lusitana. Já Lisboa fizera do dia de Camões o Dia Santo da cidade, mas ei-la organiza agora a sua procissão. Lá passa o cortejo: carros alegóricos, figuras evocadoras, palmas, abadas de flores aos pés da estátua do Épico... Mas há uma parte da Nação que não vive este culto. Não o vive porque desconhece tanto o bardo como o epos. É o sonâmbulo povo das aldeias, o povo sem letras e sem cultura que não seja a cristalização moral dos aforismos, das cantigas, das lendas seculares.
Também esse povo, a seu modo, numa floração misteriosa de instinto, nos põe a alma às claras. Dizia, há dias, um jornal de província que em terras de Coimbra e seus lugares vizinhos se afervorava o culto pela Rainha Santa e que entre o povo corria a voz de que ela aparecera no caminho, a um batalhão de mobilizados, anunciando-lhes a vitória. As rosas da lenda, que Santa Isabel dava em abadas aos pobres, voltam a florir secretamente no coração do povo. Também eles, os rudes cavões portugueses e as ingénuas mulherinhas das aldeias, vestem de flores a velha espada das nossas épicas façanhas. Não; eles não conhecem Camões. Mas sabem de cor a história da Santa das Rosas. E sobre o crepúsculo da sua fé e amor pátrio acenderam, num sorriso, aquela estrela de milagre. Porque não hão-de semear de estrelas a sua infinita sombra, que papita em desejos de luz?

O Palácio na Lama. Setembro de 1916
A propaganda pelo facto é sempre a melhor, tinha-me respondido António José Almeida, a quando o interpelara. Há dois homens, um dos quais pertence ao Governo, que encarnaram esta ideia: o ministro da Guerra Norton de Matos e o comandante da Divisão Naval, Leote Rego. São duas forças. Duas tremendas vontades. Devido a eles a nossa participação tem já teatro, o que é indispensável para a multidão. O Povo só aprende olhando. A 2 de Julho foi a parada das Sociedades de Instrução Militar Preparatória. Norton Matos, o general Pereira Eça e o seu estado-maior assistem ao desfile, junto à estação central dos caminhos de ferro. O Chefe do Estado e o Chefe do Governo, com outros dos seus membros, estão na larga varanda do Nacional. A multidão delira. É um reboar de vivas e aclamações. Depois é o corpo de marinheiros, que desfila nas grandes artérias da cidade. O comandante Leote Rego passa em revista. E os senhores já viram o carinho que o nosso povo tem por essa rapaziada de blusa e boina? Não sabem porquê? É o melhor espelho da Raça para um português se mirar.
Agora temos melhor: é a 22 de Junho, a grande parada de Montalvo com as forças que se têm exercitado em Tancos. Lá estão na larga tribuna, ao lado do Chefe do Estado, os membros do Governo, os presidentes das Câmaras, os ministros e os adidos militares estrangeiros, assistindo ao desfile dos 20000 homens, que ali tiveram os seus três meses de aprendizagem. Uma aura viva de esperança refrigera a sede de todas as almas. O Exército ressurge. E depois seguem-se sem interrupção os exercícios finais dessas tropas, enquanto a Marinha de Guerra realiza, também com a assistência do Governo, os seus exercícios de combate. Mas pouco antes Afonso Costa e Augusto Soares chegaram da sua viagem à Inglaterra e à França. Por toda a parte magnificamente recebidos. A 7 de Agosto os dois ministros anunciam à câmara o resultado dos seus trabalhos no estrangeiro. Grande sessão solene a que assiste o Chefe do Estado e os ministros aliados. Já não há dúvida. Vamos entrar em guerra». In Jaime Cortesão, Memórias da Grande Guerra, Obras Completas, Portugália Editora, Lisboa, 1969.

Cortesia PortugáliaE./JDACT

sábado, 31 de janeiro de 2015

No 31. Memórias da Grande Guerra. Jaime Cortesão. «Pois até no período do nosso heroísmo, quando nos ocupava e se realizava a temerária empresa das Índias, o rei Manuel mandava cartas às suas vilas e cidades, explicando as vantagens de tais e tão perigosos empreendimentos»

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O Génio do Povo
Junho de 1916
«(…) 11 de Abril: tomada de Kionga. Era tempo para uma hora de agitação e desafogo. Em Maio a mobilização; e agora concentram-se e exercitam-se as tropas em Tancos. É pouco? O suficiente por agora para atiçar a fogueira e alimentar a grande labareda. Todavia há quem afirme e deseje ainda a vitória da Alemanha. A propaganda germanófila continua a fazer-se descaradamente. Antes da declaração da guerra vendiam-se em Portugal 30 000 exemplares por mês do A. B. C., revista germanófila da Espanha. Diz-se que a venda diminuiu. Será. Mas vêem-se ainda por aí às dúzias os velhos fregueses deliciando-se na sua leitura.
Alguém, um médico ilustre, neutro em matéria política, a crer nas suas afirmações, mas germanófilo a atentar-lhe nas palavras, revelou-me em conversa como quem enuncia uma hipótese as esperanças deles. À minha afirmação de que a vitória da Alemanha seria a nossa ruína e possivelmente a perda da independência: que não. À Alemanha também não convém que a Espanha realize uma hegemonia peninsular. Não. Ela vence. Restaura-se a Monarquia; colocam no trono um príncipe alemão; e nem ao menos nos tiram as colónias. Alguns cortes no mapa da Europa. Talvez profundos. Mas deixarão o suficiente para um príncipe germânico se criar uma ilusão de império. Sim. Deve ser a solução conjecturada. E esta gente não pára; não desanima. No escuro vão furando sempre. Há pequenas coisas denunciadoras.
E que faz o Governo? Por que não aproveita a primavera das almas para lançar a boa semente? Oh!, por mim não se dirá que não cumpro o meu dever. De combinação com o ministro da da Guerra escrevo a Cartilha do Povo para o soldado. Mas o plano fica em meio. Por minha culpa? Não. Mas como tenho um lugar no Parlamento, é ali que me cumpre falar. A 20 de Maio faço a minha interpelação sobre a política geral do Governo; e neste caso particular dirijo-me ao António José Almeida dizendo: Até agora não vejo que o Governo tratasse de fazer a propaganda dos nossos deveres militares. Dir-se-ia que Vexa está convencido de que uma única palavra sua, espécie de Fiat jeóvico, bastará para levar os nossos exércitos à guerra. Se nos convencemos de que o nosso povo está desde já resolvido a todos os sacrifícios pela Pátria, vivemos num engano. A ideia da nossa cooperação militar, em qualquer dos campos da batalha, como necessidade nacional, que de facto é, ainda não entrou completamente no espírito público. Dizia Michelet que nos povos uma ideia apenas se torna em força e actividade quando incubada pelo sentimento e fecundada pela força do coração. Dêem-se, pois, àquela ideia, por uma larga propaganda, todos os estímulos afectivos: explique-se ao povo que esse facto importa à nobreza do nosso nome, à dignidade nacional e que o exigem todas as necessidades materiais e morais. Enquanto o Governo se esquece de a fazer, faz-se por todo o Portugal a propaganda contrária. Sabe Vexa o que fizeram os outros países, quando entraram na guerra? Eu apontarei algumas das formas que ali tomou a propaganda do Governo. Na Inglaterra, o Governo de SM Britânica foi até à propaganda pelos cartazes ilustrados afixados nas paredes e o generalíssimo Roberts, a mais culminante figura de então no exército inglês, dirigiu às crianças das escolas de todo o Reino Unido uma mensagem em que lhes explicava as causas, as vantagens e a nobreza da guerra em que a sua Pátria ia entrar. Na França, o governo da República criava o Jornal dos Exércitos, para leitura dos soldados, e ao lado dos mais ilustres artistas franceses, os membros do Governo, com Viviani à frente, foram dos primeiros a escrever para os poilus gauleses palavras de confiança, de incitamento e carinho. E na Itália, Gabriel d’Anunzio, junto ao pedestal da estátua de Garibaldi, rodeado dos membros do governo italiano, pregava aos soldados o evangelho das altas virtudes cívicas e o seu verbo de fogo desdobrava ao vento os guiões da batalha. Aqui, onde não existe a mesma educação cívica, numa nação que ainda hoje sofre do esgotamento causado pelas espantosas empresas doutras eras, Vexa não começaram essa propaganda. Pois até no período do nosso heroísmo, quando nos ocupava e se realizava a temerária empresa das Índias, o rei Manuel mandava cartas às suas vilas e cidades, explicando as vantagens de tais e tão perigosos empreendimentos. Em todos os países e em todos os tempos foi necessário para boa marcha dos negócios públicos uma estreita solidariedade entre governantes e governados. Essa necessidade avulta nas democracias e torna-se indispensável para a realização de factos como aquele que hoje o nosso brio nos exige. Essa solidariedade deve estabelecer-se com mostras da mais carinhosa atenção por parte do Governo. Que o nosso soldado saiba por que motivos sagrados é que lhe exigem sacrifícios e que tenha também a certeza de que o seu Governo, enquanto ele combater, vela carinhosamente pelas suas famílias. Só assim se estabelecerá o estado de graça e de fé que nos leve à luta e à vitória. Sente-se essa necessidade. É mister desde já levar por toda a parte a bandeira que apenas alguns trazem nas mãos». In Jaime Cortesão, Memórias da Grande Guerra, Obras Completas, Portugália Editora, Lisboa, 1969.

Cortesia PortugáliaE./JDACT

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Memórias da Grande Guerra. Jaime Cortesão. «Estes são os iniciados: adoram a essência. Os outros, que proclamam esse culto a cada passo, e se dizem seus detentores, são os profanos: degradando-se ao fetichismo, prosternam-se a um manipanso»

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O Génio do Povo
Março de 1916
«(…) E como? Encarnando o ideal comum, obedecendo ao génio da raça a que as duas nações pertencem. Vitalizando-nos, do mesmo passo voltávamos a radiar energias fecundas. Trata-se duma luta mundial de grave risco e desmedido alcance? Nós, mal atingimos a maioridade em Aljubarrota, logo, em nossa pequenez, definimos a vida como uma força que tanto mais se exalta, quanto multiplicada pelo perigo e pela grandeza do fim. O mundo foi depois o teatro das nossas acções. Combate-se pela libertação humana? Mas o pensamento da independência tem sido o fulcro activo da consciência nacional, e as lutas pelas liberdades individuais vêm de tão longe, na história pátria, que se lhe buscarmos o início até às origens da grei, as duas datas coincidem. É um grito, que não se cala. Se o abafam na boca, restruge depois mais violento. Não; é mais ainda? O gigantesco esforço dos povos vai descobrir um mundo novo do espírito? Melhor. Aprestemo-nos então para que ao abordá-lo assentemos na carta, como outrora, o nosso padrão das Descobertas. Aí está. Se desde logo nos atraiu a causa dos aliados e ansiámos secundá-la não foi apenas pelo sentimento de fidelidade aos tratados. É que chegara a hora de reviver e reassumir a nossa grande missão civilizadora. O povo encarnou esta verdade genialmente, dissemos nós. Genialmente, pela intuição superior de todos os interesses e porque obedeceu ao génio próprio, às suas mais íntimas e puras virtualidades.
Assim realizaram profundamente, e sem o dizer, o culto da Tradição. Estes são os iniciados: adoram a essência. Os outros, que proclamam esse culto a cada passo, e se dizem seus detentores, são os profanos: degradando-se ao fetichismo, prosternam-se a um manipanso. Assemelha-se a tradição àquela Fénix da fábula. Quando o corpo está decrépito, antes que a morte venha, procura por seu alvedrio incendiar-se com a antecipada certeza de que renasce das cinzas. O antigo corpo, esse ardeu; mas o princípio activo reencarnou. Por isso os que a adoram na sua velha e primitiva forma dão-se a ilusão de certos sentimentais que, em memória do seu canto antigo, conservam a ave empalhada debaixo duma redoma.
Não nos esqueçamos: viver é progredir; mas demos ainda ao berço alguma coisa do túmulo. A esfera armilar continuará a ser na bandeira pátria um símbolo de ansiedade infinita e de domínio sobre a terra. O contrário seria renegar séculos de história. Mas deixe de atestar apenas um passado de violência e conquista. Que se dilate e inscreva, à chama das duas cores da vida, o viço da Terra e o sangue do Homem, na ânsia limitada em que elas pulsam. Dominámos o Mundo pela superfície? Afundemos-lhe esse domínio até ao coração; e a mão, que pesou sobre ele, ajude agora a libertá-lo». In Jaime Cortesão, Memórias da Grande Guerra, Obras Completas, Portugália Editora, Lisboa, 1969.

Cortesia PortugáliaE./JDACT

domingo, 16 de novembro de 2014

Memórias da Grande Guerra. Jaime Cortesão. «Os dois poetas lusitanos, epónimos das duas nações, sagram com a sua assistência o acto ingénuo da turba. Irá então reatar-se o ciclo truncado das nossas lutas épicas? Irá cumprir-se a profecia de Edgard Quinet?»

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O Génio do Povo
Março de 1916
«(…) Mazina, Kuangar, Naulila... Nomes que soam como bofetadas. Depois hesita-se, disputa-se, combate-se. Já a face arrefece. Alguns querem mesmo oferecer a outra. Mais um passo: requisitam-se os navios... E a hora grande bateu: estala a declaração da Alemanha. Na Câmara a sala, de pé, desde as carteiras até às galerias, ao formigueiro humano, delira e aclama, com uma só boca: Viva a República! Viva a guerra! As almas abriram caminho dumas para as outras e a emoção de cada um multiplica-se pelo entusiasmo frenético da turba. Ao meu lado este grande Gavroche, que passou a vida a rir e a descrer, tem os olhos afogados em lágrimas. Uma voz vai erguer-se talvez com fria dúvida, mas a onda de fogo tudo engole.
Uma seriedade nova vinca as frontes e põe labaredas nos olhos. Comungamos a Pátria; somos em estado de graça. Não durmo nessa noite. É um diálogo entre mim e a consciência. Decido oferecer-me para partir, e ao dia seguinte, em carta ao Ministro da Guerra, Norton de Matos, declaro-lhe sacrificar a essa grande obrigação os sagrados deveres de família, pois entendo que esta guerra terá para o bem da Humanidade consequências tamanhas, quais ninguém mesmo pode prever desde já. Por terras de Portugal, nas cidades, o povo ergue-se ao grito de guerra. Em Lisboa uma multidão imensa vai à Câmara Municipal manifestar ao Chefe do Estado o seu apoio. Céu azul-rútilo. Dia de apoteose na Terra e nas almas. Olavo Bilac, o grande poeta brasileiro, assiste ao desfilar da multidão e do alto duma varanda saúda o povo que o aclama. Ao sair do Palácio do Município, na carruagem presidencial, além do ministro inglês e do Chefe do Governo, A. J. d’Almeida, vai também Guerra Junqueiro. Os dois poetas lusitanos, epónimos das duas nações, sagram com a sua assistência o acto ingénuo da turba. Irá então reatar-se o ciclo truncado das nossas lutas épicas? Irá cumprir-se a profecia de Edgard Quinet? Quando ele, em 1845, visitava Portugal, dizia de nós: Dans le silence qui les environne, ces hommes ont l’air de continuer la bataille autour du corps du roi Sebastien.
E acrescentava: Et pourtant, malgré cet engourdissement mortel, je jurerai que le feu moral couve encore quelque part. Cette terre recommencera, de trembler et de jeter des éclairs. Em verdade, a nossa vida, há um século, denuncia-se apenas por isolados clarões de relâmpago. Esta nação, mal lhe roubaram a escota e a espada, que descobriu e avassalou meio mundo, ficou-se para aí abismada na contemplação da sua última aventura heróica. O pensamento da sua independência ainda a levanta para resgatar a liberdade, e, apenas quando a afrontam no seu brio, estremece e ergue-se toda ela, fulgurada pela mesma raiva: é na aurora e no ocaso do século XIX, com as invasões napoleónicas e com o ultimatum. Mas, esfriada a canícula patriótica, recai a dormitar. Só a mudança de regime de novo a abala profundamente, de tal modo reacendeu aos seus olhos a estrela da esperança. É inútil negá-lo: uma grande parte da Nação não pensa nem sofre. Há três séculos que está entorpecida. Ignorância, egoísmo e cobardia. São o zelo à esquerda. Por si nada valem. E dentre os que se disputam a primazia de factores da massa inerte, os valores mais altos uniram-se em torno à bandeira da República por adaptação necessária a esta lei natural: só as formas e as ideias progressivas são elementos de vida contínua, isto é, se multiplicam.
Foi essa parte da Nação, poucos chefes e muito povo, que, ao estalar a Grande Guerra, encarnou genialmente esta verdade. E mais o povo do que os chefes. Os grandes nunca a disseram toda. Mas a arraia teve relâmpagos de intuição secreta. Em Portugal é assim: calam-se os profetas da grei, mas a Sibila do Povo lá delira os oráculos. Que diabo fazemos sobre a Terra? Ocupamos, mercê das colónias, um lugar entre as maiores nações. Mas trata-se duma presença meramente passiva e corporal. Obstruímos o Mundo. Eis a ocasião de tomar lugar na vida, em presença activa do espírito. De contrário, o desmedido corpo morre, e arredam-nos, sem clemência, do caminho dos vivos. O nosso esforço colonizador elevara-nos à função preeminente de pátria-mãe duma outra nação. Desprezámos há muito tão elevado encargo, o que só redunda em desprestígio próprio. Excelente ensejo para recuperar o ascendente materno, tornando-nos, pelo exemplo, a sua inspiradora moral». In Jaime Cortesão, Memórias da Grande Guerra, Obras Completas, Portugália Editora, Lisboa, 1969.

Cortesia PortugáliaE./JDACT

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Memórias da Grande Guerra. Jaime Cortesão. «’Vem tarde este livro’, mas cedo todavia para a visão inteira e larga da nossa luta. Também para a justiça dos homens e para a comovida curiosidade com que tu, ó leitor, o deverás folhear, ‘eu sei que é infinitamente cedo ainda’»

Jaime Cortesão em França
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«Este livro vem tarde.
A guerra e as prisões (a guerra sempre) não me deixaram forças para fazê-lo antes. A própria violência da guerra atingiu esta pequena obra na sua primeira forma. Durante as horas serenas ou terríveis de França eu o tinha apontado com a pena e com o lápis, escrevendo e desenhando. Perderam-se esses apontamentos na batalha do Lys, ficando-me apenas alguns poucos que enviara para Portugal. Foi, com eles e com restos de cartas e recordações que eu reconstituí o perdido, e rascunhei, de novo as minhas memórias. Também porque elas abrangem as muitas modalidades da nossa guerra cujo teatro se estendeu desde a própria pátria à África e à França, as variações do tempo nessa larga curva não me consentiam que o escrevesse, como ele hoje vai, com esse pouco de verdade, que ainda assim por vezes tão grande dor custa a dizer-se. Direi apenas o que vi e ouvi. Sofri demais para poder mentir. O sentido da verdade e a coragem de a dizer são as maiores conquistas que esta guerra deu aos que nela mergulharam a fundo. Por isso me rio tristemente tanto dos que, sem terem posto o pé numa trincheira, querem contar a guerra, como daqueles que tendo lá estado venham para público, penteados e lustrosos, na sua fatiota de heróis, poisar para a galeria. O que todos, todos puderam sentir nesta guerra foi a sua infinita capacidade de misérias. Muitos, em nome de altos princípios, deram-se com heroísmo sereno às mais dolorosas provações. E alguns, quando colocados na contingência dos deveres terríveis, foram sublimes. Tiveram nos dias cinzentos horas de claridade divina. Mas só assim, amassada com oiro e lama, a verdade é humana, é inteira e grandiosa. O homem, o mais alto, só o foi, só o é em relação à sua e à baixeza dos outros. Este livro vem tarde, mas ainda vem a tempo. Lentamente, a história da grande guerra há-de escrever-se, povo a povo, tomo a tomo. Quanto a nós, queremos apenas traçar-lhe uma das páginas. As obras definitivas na História ou na Arte virão mais tarde, muito mais tarde. Os grandes homens como os grandes acontecimentos só podem ser vistos e admirados a distância.
Uma estrela, vista de perto (dado que a pequena, distância pudesse olhar-se) seria um confuso vendaval de fogo e lava destruidora. Vistas à distância imensa a que nós as olhamos cabem às centenas no mesmo fitar de olhos e espalham nas noites sem lua uma doce claridade. A distância, a distância no espaço e no tempo, é a condição indispensável para que os astros, os homens e os factos tenham beleza. Que os Tácitos e os Homeros de hoje, se é que os temos, poisem o cálamo egrégio, deslacem as cordas da lira canora. É cedo. Mas quando o estatuário das obras definitivas e imorredouras largar, de escopro na mão, para jogar ao mármore o primeiro talho, já então ele tomou para o arranjo da sua estátua qualquer linha fugaz das que animam este gesso efémero. Eles virão e hão-de colher um pouco destas páginas, onde há lágrimas, risos, misérias, drama e epopeia.
Há quem pretenda, eu sei, que esta, a nossa guerra, não dá um canto de epopeia. Que é mero assunto para relatos frustes, coisas de somenos, frioleiras. Felizmente os que assim falam não definem a nossa guerra mas o seu temperamento, marcado pela faculdade estreita de ver o riso e a espuma das coisas. Nem por isso a nossa guerra, como as outras, deixa de se repassar de sofrimento e de epopeia. Para isso bastava a batalha do Lys e a arrancada épica daqueles homens, que, vencendo a inércia e a descrença dos grandes chefes, conseguem, através de tudo, marchar para a frente, onde se ganhava a vitória. Vem tarde este livro, mas cedo todavia para a visão inteira e larga da nossa luta. Também para a justiça dos homens e para a comovida curiosidade com que tu, ó leitor, o deverás folhear, eu sei que é infinitamente cedo ainda». In Jaime Cortesão, Memórias da Grande Guerra, Obras Completas, Portugália Editora, Lisboa, 1969.

Cortesia PortugáliaE./JDACT

quinta-feira, 27 de março de 2014

Os Livros. Manuel António Pina. «E está visto que uma ligação directa não chega para pôr em marcha uma vida como a tua, de subúrbio, ou para ir de encontro a um destino diferente do abono da Caixa ou de um poste de betão»

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O Livro
«E quando chegares à dura
pedra de mármore não digas: água, água!,
porque se encontraste o que procuravas
perdeste-o e não começou ainda a tua procura;
e se tiveres sede, insensato, bebe as tuas palavras
pois é tudo o que tens: literatura,
nem sequer mistério, nem sequer sentido,
apenas uma coisa hipócrita e escura, o livro.

Não tenhas contra ele o coração endurecido,
aquilo que podes saber está noutro sítio.
O que o livro diz é não dito,
como uma paisagem entrando pela janela de um quarto vazio».

Resposta
«Algo mais elementar que o espaço e o tempo,
e a escuridão luminosa do Areopagita,
uma hipótese ilegível, antes do pensamento,
uma sílaba só de uma palavra não dita,
sem sentido e sem finalidade, apenas uma ocasião,
como um olho único e cego que vê
do fundo da sepultura da razão,
vaste comme la nuit et comme la clarté.

Um sonho
de uma sombra de quê?»

Poemas de Manuel António Pina, in ‘Livro

In Manuel António Pina, Os Livros, Editora Assírio Alvim, Lisboa, 2003, ISBN 972-37-0861-2.

Cortesia AAlvim/JDACT

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Decifração em Textos Medievais. Apertio Libri. Arnaldo Espírito Santo. «Este pão é a Escritura, o qual pão, ou seja, a qual escritura os homens, como crianças sem forças, antes da vinda de Cristo, pediam que lhes fosse partido, ou seja, que lhes fosse aberta e interpretada»

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Conferências. Paradigma
«(…) Refiro esta cena para advertir que este livrinho que está aberto na mão do anjo não é o mesmo livro que, no capítulo V, é objecto da cerimónia da apertio libri nem tem a mesma carga simbólica. Aí tratava-se de um livro selado por sete selos, cujo conteúdo nunca chega a ser revelado; aqui, no cap. X, trata-se de um livrinho aberto que foi entregue por um anjo ao Profeta como sucederá com Ezequiel, e que é doce na boca porque contém a palavra de Deus. Mas porque é que é amargo no estômago? Diferença significativa em relação ao livro de Ezequiel. Sobre este aspecto da simbologia do livro a exegese patrística e medieval é muito parca, pois todos se confinam, de uma maneira ou de outra, ao isótopo da penitência, que decorre da doçura da leitura e da pregação. Acentuemos, porém, que a palavra de Deus não se apresenta, nem a Ezequiel nem ao autor do Apocalipse, como mensagem oral, mas como um livro que é preciso comer. Relevamos ainda uma outra verificação: a simbologia da apertio libri transita de Ezequiel, em contexto normal do exercício da actividade profética, para contextos apocalípticos ou de fim do mundo. Assim a vamos encontrar no 4.º livro de Esdras, um apócrifo escrito em finais do séc. I d. C. Aí a abertura dos livros (não do livro) será feita diante do firmamento, para que venha à luz do dia a maldade dos homens. Aqui a função simbólica da apertio libri remete para o grande dia, o do julgamento. No Apocalipse, que recolhe a mesma tradição, a abertura dos livros onde está contido o registo das acções dos homens é feita diante do trono. Por esses livros foram ou serão julgados os mortos.
Com esta segunda abertura do livro completamos dois elementos essenciais da cultura medieval, o fim do mundo e o julgamento individual: o livro é uma ameaça tremenda porque contém a prova da futura condenação. É evidente que se trata mais uma vez de um símbolo, neste caso de um locus terribilis. Pelo livro se recebe a missão, pelo livro se recebe a mensagem divina, pelo livro se recebe a conversão, pelo livro se muda de vida, pelo livro se é julgado. Um dos casos mais interessantes deste género de abertura do livro é o que ocorre num fragmento copta do Apocalipse de Henoch, um apócrifo do séc. V da nossa era, mas que apresenta as mesmas características dos apócrifos judaicos. Assim como João, o autor do Apocalipse, assim também Henoch é arrebatado. Mas se no Apocalipse o arrebatamento se pode entender de uma forma espiritual, no caso de Henoch diz-se expressamente que foi arrebatado corporalmente ao céu. Uma vez aí, Henoch não só recebe a revelação dos mistérios, mas ainda lhe é apresentado um livro, selado com três selos, no qual se encontra escrito o nome e os desígnios de Deus. É este o conteúdo da revelação feita a Henoch. O nome escrito é o da Santíssima Trindade, clara interpolação de origem cristã. Mas além disso, é atribuída a Henoch a função de escriba das acções dos homens. Trata-se de um outro livro que vem desempenhar as mesmas funções da segunda abertura do livro que encontramos no Apocalipse e que se relaciona com o juízo final.

Decifração
A abertura do livro é a fundamentação da vida da Igreja e, por ela, da sociedade ocidental. Segundo um autor de finais do séc. VIII que em plena época carolíngia escreveu um comentário ao Apocalipse, a abertura do livro dá-se após a descrição da forma da Igreja. E esse autor explica que depois de a Igreja ser fundada pelos Apóstolos e pelos restantes pregadores entre os gentios, começaram a fazer-se os comentários aos livros do Velho e do Novo Testamento: comentários avalizados por serem escritos por santos doutores e por estarem de acordo com a norma da fé apostólica.
Nesta perspectiva, o decifrador do texto por excelência, neste caso, do texto bíblico, é o comentador, o expositor, enfim, o autor de comentários. E, mais ainda, o comentador tem uma função importante na vida da Igreja, tão importante como a do apóstolo e a do pregador, porque é ele que vai renovando a própria doutrina interpretada segundo a norma apostólica da fé. Dele se espera que seja um vir ou um doctor sanctus. Retenhamos deste texto a equação apertio libri apertio divinarum scripturarum. Permitam-me um salto do séc. VIII para o séc. XII a fim de cotejar um texto belíssimo de Pedro Abelardo, extraído do seu Epítome de Teologia Cristã. Diz Abelardo, em texto que traduzo:

Este pão é a Escritura, o qual pão, ou seja, a qual escritura os homens, como crianças sem forças, antes da vinda de Cristo, pediam que lhes fosse partido, ou seja, que lhes fosse aberta e interpretada, e não havia quem lho partisse, até que Cristo veio para lhes abrir as Escrituras. Por isso diz João no Apocalipse: E ninguém podia abrir o livro e quebrar os selos.

Depara-se-nos aqui a mesma imagem da abertura do livro cujo conteúdo está cifrado, não obstante ser um alimento essencial. Na belíssima expressão de Abelardo o pão é a escritura e a escritura é o pão». In Arnaldo Espírito Santo, Aperto Libri. Uma representação simbólica da descodificação textual, Da Decifração em Textos Medievais, coordenação de Ana Morais, Teresa Araújo, Rosário Paixão, IV Colóquio da Secção Portuguesa da Associação Hispânica de Literatura Medieval, Lisboa 2002, Edições Colibri, Lisboa, 2003, ISBN 972-772-425-6.

Cortesia de Colibri/JDACT

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O Homem e o Livro. História dos Livros. M. Iline. «Este primeiro livro não se parece nada com os dos nossos dias. Tinha pés e mãos e não estava arrumado numa prateleira: sabia falar e até cantar. Enfim, ‘era um livro vivo!’ “Era um homem”»

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O Livro Vivo
«Como seria o primeiro livro? Seria impresso ou escrito à mão? Seria de papel ou de qualquer outro material? E se, por acaso, ainda existe, em que biblioteca se poderá encontrar?
Conta-se que houve uma vez um homem suficientemente ingénuo para querer procurar este primeiro livro em todas as bibliotecas do mundo. Passava dias inteiros a rebuscar em montes de livros carcomidos e amarelecidos pelo tempo. Já tinha o fato e o calçado cobertos duma espessa camada de pó, como se acabasse de chegar duma longa viagem por uma estrada poeirenta. Por fim, caiu duma daquelas grandes escadas que se apoiam nas prateleiras das bibliotecas, e morreu. Mas, ainda que ele tivesse vivido mais cem anos, as suas pesquisas não teriam tido resultado. O primeiro livro já tinha aparecido na terra muitos milhares de anos antes de ele nascer.
Este primeiro livro não se parece nada com os dos nossos dias. Tinha pés e mãos e não estava arrumado numa prateleira: sabia falar e até cantar. Enfim, era um livro vivo! Era um homem. Nesses tempos remotos, quando os homens não sabiam ler nem escrever, quando não existiam nem livros, nem papel, nem tinta, nem caneta, as tradições dos antepassados, as leis e as crenças não se conservavam em prateleiras mas na memória dos homens. Estes morriam, mas as tradições continuavam vivas e transmitiam-se de pais para filhos. Ao passarem de boca em boca, as histórias modificavam-se um tanto: acrescentavam-se umas coisas e esqueciam-se outras. O tempo polia-as como a água dum rio pule as pedras. A lenda dum bom guerreiro tornava-se a história dum gigante que não temia nem o dardo nem as setas, que corria pelos bosques como um lobo e dominava as alturas como uma águia.
Nos recantos ignorados deste mundo há ainda uns velhotes que contam estas histórias de que nunca poderíamos encontrar a origem escrita; chamam a essas histórias contos de fadas ou lendas. Há muito tempo, na Grécia, costumava-se cantar a Ilíada e a Odisseia, que eram as histórias das guerras havidas entre gregos e troianos. E passaram séculos antes que se escrevesse o que se cantava. Um cantor, ou aedo, como lhe chamavam os gregos, era sempre bem recebido numa festa.
Imaginemo-lo sentado, encostado a uma coluna larga, com a lira pendurada por cima dele. O banquete está quase no fim, estão vazias as grandes travessas de carne e vazios estão também os cestos de pão. Acabaram de retirar as taças de ouro de duas asas; os convidados estão satisfeitos e esperam a música. O aedo pega na lira, tange as cordas e começa a longa história do astucioso Ulisses e do valoroso Aquiles. Os cantos dos aedos eram lindos, mas os nossos livros são muito mais agradáveis porque, com alguns escudos, podemos comprar uma edição da Ilíada que se traz facilmente na algibeira. E este livrinho não nos pede nada, nem de comer nem de beber, e nunca está doente nem morre. E isto faz-me lembrar uma história: História de uma Biblioteca Viva.
Era uma vez, em Roma, um comerciante rico que se chamava Itelius. Contam-se maravilhas das suas fabulosas riquezas. O seu palácio era tão vasto que nele teriam cabido todos os habitantes da cidade. Reunia todos os dias, à mesa, trezentas pessoas escolhidas entre os cidadãos mais ilustres e mais cultos. Não havia só uma mesa em casa de Itelius; havia trinta, todas cobertas de magníficas toalhas bordadas a ouro.
Itelius dava aos seus convidados os mais finos cozinhados, mas, nesse tempo, não se ofereciam aos convidados só pratos escolhidos: era preciso dar-lhes também os prazeres duma conversa espirituosa. Ora, a Itelius nada faltava, excepto a instrução. Mal sabia ler. As pessoas que aceitavam os seus convites com prazer, riam dele à socapa.
Era-lhe impossível sustentar uma conversa à mesa, e se, por acaso, conseguia que lhe dessem atenção, reparava que os convidados reprimiam a custo os seus sorrisos. Não podia suportar semelhante coisa, Mas era demasiado preguiçoso para estar muito tempo a ler um livro e não estava habituado a maçar-se. Itelius pensou muito tempo na maneira de remediar o caso e, finalmente, achou o que lhe era preciso».

In M. Iline, O Homem e o Livro, História dos Livros, Biblioteca Cosmos, direcção de Bento de Jesus Caraça, nº 1, Epopeias Humanas, Lisboa, 1947.

Cortesia de Cosmos/JDACT

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Da Decifração em Textos Medievais. Apertio Libri. Arnaldo Espírito Santo. «Perspectivada em várias vertentes, a questão da decifração em textos medievais, tanto no regresso aos testemunhos, como através de mensagens enigmáticas sinalizando o fechamento de sentidos…»

jdact

In Memoriam de Maria Isabel Raposo

Aperto Libri. Uma representação simbólica da descodificação textual
Paradigma
«(…) É, pois, neste enquadramento que se dá a apertio libri. Todo o formulário que a acompanha pode ser interpretado como um adventus imperial, ou seja, como um cerimonial de entronização no poder, entronização do cordeiro e do seu povo que reinará sobre a terra. Assim sendo, o livro surge aqui como símbolo do poder, já que ser digno de receber o livro e de quebrar os seus selos é o mesmo que ser digno de receber a virtude, a divindade, a sabedoria, a fortaleru, ãhonra, a-glória, e a bênção. Se a implantação da Igreja em estado incoativo sobre as ruínas do mundo pagão finalmente destruído, ou se a implantação da Igreja em estado de perfeição consumado, ou, ainda, se o fim dos tempos e a implantação do Reino de Cristo por toda a eternidade. Estas três interpretações tiveram em todos os lances da história os seus defensores e os seus adeptos.
O que mais aqui importa referir é que antes de ser lida a sua mensagem, o que nunca virá a acontecer, só com o simples desenrolar da cerimónia da sua abertura, à medida que vão sendo quebrados os selos, executa-se, passo a passo, selo a selo, a destruição do universo visível, que pode simplesmente simbolizar o antigo estado de coisas, a antiga civilização, a antiga moral, os antigos deuses, as antigas formas de poder. A mensagem do livro, que nunca chega a ser lida, simbolizará a implantação de uma nova cultura, entronizada pelo cristianismo. Parece ser esse o significado da presença dos quatro evangelistas simbolizados nos quatro animais, das sete igrejas representadas nos sete anjos, dos patriarcas e dos apóstolos figurados nos vinte e quatro anciãos. São estes os fundamentos em que vai assentar a nova organização da humanidade.
Enfim, aqui temos os elementos de uma majestosa codificação simbólica do advento do livro como fonte inspiradora de uma nova ordem das coisas e revelação de um sentido para o universo que tende para o seu criador. A abertura do livro contém em si estas duas faces de um mesmo paradigma: por um lado o judaísmo, o cristianismo, o maometismo, a lei moisaica, a cristã, a muçulmana, constituem-se como religiões do livro; por outro lado, o livro nunca deixará de ser um referente sacral, que tem como paradigma o grande livro da criação onde estão inscritos os planos divinos sobre a humanidade e o universo. Mudar de livro é mudar de religião. Só o cristianismo se manteve fiel ao livro do judaísmo, o Antigo Testamento, porque sempre se assumiu como continuidade da antiga na nova Aliança.
Tal continuidade revela-se na simbologia do livro, como no paralelismo de instruções e significado entre determinadas expressões dos capítulos 5 e 10 do Apocalipse e os capítulos 2 e 3 do Profeta Ezequiel. O livro do Apocalipse, escrito por dentro e por fora, encontra-se já em Ezequiel. Há no entanto diferenças de pormenor verdadeiramente significativas entre as duas aberturas do livro. Em Ezequiel não há selos, ou seja, o conteúdo não está selado e, por isso, ao contrário do que acontece no Apocalipse, o conteúdo é declarado como sendo constituído por lamentações, gemidos e prantos, conteúdo esse que o Profeta é convidado a pregar aos filhos de Israel. Mas nada que se pareça com a cerimónia da entronização do cordeiro que vimos no Apocalipse. Além disso, o Profeta é convidado a comer o livro que a mão de alguém lhe estende. Esse gesto significa que Ezequiel recebeu o conteúdo e a investidura da sua missão, tal como Isaías e Jeremias, que a receberam quando mão invisível lhes tocou nos lábios.
Ezequiel comeu o livro, uma expressão simbólica da assimilação do seu conteúdo, que encontramos em português na metáfora: devorar um livro. E depois de o comer sentiu que na boca era doce como o mel. Recordo de passagem a expressão do salmista: Como são doces as tuas palavras na minha boca, mais doces que o mel. O que significa que o conteúdo do livro devorado por Ezequiel era a palavra de Deus. No Apocalipse há um passo idêntico a este, no qual o Evangelista é convidado a comer o livro, que diz o seguinte:
  • Depois vi um outro anjo forte que descia do céu, vestido de uma nuvem, e com o arco-íris sobre a sua cabeça; o seu rosto era como o sol, e os seus pés como colunas de fogo; tinha na mão um livrinho aberto, e pôs o pé direito sobre o mar, e o esquerdo sobre a terra, e gritou em alta voz…, etc.
E logo a seguir:
  • E ouvi a voz do céu que novamente me falava e que dizia: vai e toma o livro aberto da mão do anjo, que está de pé sobre o mar e sobre a terra. Fui ter com o anjo, dizendo-lhe que me desse o livro. Ele respondeu-me: toma-o e devora-o; ele fará amargar o teu estômago, mas na boca será doce como o mel. Tomei o livro da mão do anjo, devorei-o, e na minha boca era doce como mel; mas depois que o devorei, o meu estômago ficou amargo. E disse-me: é necessário que ainda profetizes a muitas nações, povos, línguas e reis.
In Arnaldo Espírito Santo, Aperto Libri. Uma representação simbólica da descodificação textual, Da Decifração em Textos Medievais, coordenação de Ana Morais, Teresa Araújo, Rosário Paixão, IV Colóquio da Secção Portuguesa da Associação Hispânica de Literatura Medieval, Lisboa 2002, Edições Colibri, Lisboa, 2003, ISBN 972-772-425-6.

Cortesia de Colibri/JDACT