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domingo, 8 de setembro de 2013

A Fonte das Bicas. Centro de Estudos Documentais do Alentejo. João Miguel Simões. «A “Fonte das Bicas” é, com todo o merecimento, o ‘ex-libris de Borba’ e, o monumento mais amado pela população. … datando dos finais do século XVIII, já se teceram várias lendas em torno da fonte»

jdact

Envolvimento e importância sócio-cultural do monumento
«A Fonte das Bicas é, com todo o merecimento, o ex-libris de Borba e, sem dúvida, o monumento mais amado pela população local. Apesar de ser um monumento recente, datando dos finais do século XVIII, já se teceram várias lendas em torno da fonte. Por exemplo, é tradição local que cada uma das bicas da fonte se destina a cada uma das idades da população:
  • a da direita aos solteiros,
  • a do meio aos casados,
  • a da esquerda aos viúvos.
E que quem daquela água beber nunca mais abandona Borba. Assim, a Fonte das Bicas assume um papel de união da população e de vínculo à terra natal. A Fonte das Bicas é utilizada, desde o início do século XX, em inúmeros emblemas e logotipos, sintoma de que é o monumento mais identificativo do concelho. Contudo, a sua importância transcende claramente o nível local ou regional, já que foi classificada como Monumento Nacional logo nas primeiras classificações, pelo decreto de 16 de Junho de 1910. Esta importância excepcional do ponto de vista artístico foi logo, em 1907, referenciada pelo autor da primeira e única monografia exclusivamente dedicada a Borba, o padre António Joaquim Anselmo, ao afirmar: a fonte da praça D. Amélia, vulgarmente Fonte das Bicas, é uma edificação que no seu género não encontra facilmente igual em todo o paiz.
Túlio Espanca, autor do estudo mais aprofundado que existe de momento sobre Borba, afirma que: das várias fontes que abasteceram a vila, antigamente, esta é, sem contestação, a mais importante e sumptuosa de todas, excedendo mesmo, em monumentalidade e traça arquitectónica as suas congéneres, coevas, da província transtagana. A Fonte das Bicas assume, assim, especial importância, tanto para a população local, como para a comunidade científica, merecendo, desta forma, o apreço dos primeiros e o estudo dos segundos.

A importância da água na vila de Borba e os antecedentes da Fonte das Bicas
A vila de Borba situa-se num local rico em água, elemento essencial à vida e à cultura dos alimentos. Esta abundância originava, como nos relata, em 1758, o padre da igreja matriz, Estêvão Matos d'Oliveira Castro, que cada habitação tivesse o seu quintal, com respectivo poço: de excellente ágoa de que uzão os moradores para beberem e regarem suas hortaliças. Além dos poços urbanos, a vila possuía também diversas fontes públicas, das quais se destacava a Fonte dos Finados, construída em frente à igreja matriz de Nossa Senhora do Soveral: digna do melhor mérito e estimação, por que conforme a observação dos médicos, além de serem as suas ágoas muito puras e saborosas, são as mais salutíferas do continente.
A localização desta Fonte dos Finados aparece muito próxima à actual Fonte das Bicas, devendo a sua história ser analisada, para melhor se compreender a génese do actual monumento implantado na Praça da República. Através dos livros de actas das vereações da Câmara Municipal de Borba, é possível reconstituir este percurso. O cuidado do município pelas fontes e pelo abastecimento de água ao núcleo urbano é uma constante na história de Borba. Em 1703, a Câmara Municipal juntou a nobreza e povo de Borba para decidir o que fazer com o dinheiro que revertia para a Câmara com a contratação das sisas, tendo-se decidido aplicar o referido dinheiro na reparação das fontes: e porquanto neste prezente anno de mil e setesentos e três na rematasão que se fes do dito comtrato das Sizas se fes com condisão que tirado o próprio pertensente à Fazenda Real, os mais que sobrase se gastaria em obras utens e nesesárias ao bem commum deste povo e porquanto elles ditos abaixo asinados emtendião que a obra mais comua e nesessária ao bem comum deste povo hera o reedificarem-se as fontes que nelle há thé donde chegar a dita quantia que s'obrigou do próprio, porquanto estas estão imcapases de se poderem usar dellas porque mais sam charcos que fontes de cujo uso as pesoas que dellas usão lhe hé motivo e preiudisial.
Os estragos nas fontes da vila eram originados pela sua grande utilização, pois, além de servirem os populares, saciavam a sede aos forasteiros e às suas cavalgaduras, além de servirem para lavar a roupa e regar as terras: e como outrosim visem que de se fazer a ditta obra rezultava grande comodo e utilidade não somente aos moradores desta villa e pasageiros que por nella fazem caminho mas que também pellas ágoas que se ande descobrir que andáo perdidas rezultava cómodo às fazendas foreiras a Sua Magestade que tem giros como também para os gados da tapada real».

In João Miguel Simões, A Fonte das Bicas, Centro de Estudos Documentais do Alentejo, Edições Colibri e CEDA, Lisboa, 2002, ISBN 972-772-344-6.

A amizade de AMG

Cortesia de Colibri/JDACT

sábado, 23 de julho de 2011

Braga. Escadório do Bom Jesus do Monte: Haverá um percurso alquimista na escadaria? Parte IXc. «A Fé constitui a passagem de um estado a outro, que ainda não se vê, mas se vislumbra no horizonte. Assim sendo, no cimo vamos precisamente encontrar a estátua da Fé representada por uma mulher de olhos vendados, já que a Fé é a capacidade de ver com o coração»

Cortesia de wikipedia 

Escadório das Três Virtudes.
«O Escadório das Virtudes, que são as Virtudes Teólogas e não as Cardeais, que aqui não figuram, reforçando desta feita o alcance católico do programa, executado já no tempo do arcebispo D. Gaspar de Bragança, na segunda metade do século XVIII, acrescentado portanto ao Escadório dos Sentidos, e já da provável traça de Carlos Amarante. O esquema geral é idêntico ao anterior, uma imagem central ladeada por outras duas, pese embora as fontes encontrarem-se instaladas em grandes nichos, no meio do espaldar das escadas. As figuras complementares são, neste caso, alegóricas e não remetem para a Bíblia ou para a mitologia. A fonte comporta um símbolo relativo à virtude teóloga correspondente.

1ª Fonte das Virtudes: A Fé
Símbolos: Cruz
A estátua central representa a , figura de mulher com os olhos vendados, segurando um cálice com uma hóstia na mão esquerda e com a direita apontando para o ouvido. Na legenda lê-se: Fé. Fides... Argumentum nom apparentium...Ex auditu: Auditus Autem per verbum Christi. Ad Hebr. 11, 1, Rom. 10, 17. - «Fé...argumento das coisas que se não veêm...a fé é pelo ouvido: e o ouvido pela palavra de Cristo».
«A Fé constitui a passagem de um estado a outro, que ainda não se vê, mas se vislumbra no horizonte. Assim sendo, no cimo vamos precisamente encontrar a estátua da Fé representada por uma mulher de olhos vendados, já que a Fé é a capacidade de ver com o coração».

Cortesia de wikipedia 

À esquerda a estátua da docilidade. É uma mulher com o braço esquerdo levantado, apertando na mão uma serpente. No braço direito um escudo com uma cabeça de elefante, rematada por uma ampulheta coroada com uma sepente entre dois espelhos. A inscrição diz:
  • Docilidade. Corde enim creditur ad justitian. Ad Rom. 10, 10. - «Com o coração se crê para alcançar a justiça».
À direita a estátua da confissão, sustentando na mão esquerda as Tábuas da Lei e com a direita apontando para os mandamentos. A inscrição diz:
  • Confissão. Ore auten confessio fit ad saluten. Ad Rom. 10, 10. - «Mas com a boca se faz a confissão para conseguir a salvação».
In Peregrinar/Maria.

(Continua)
Cortesia de Gabriel/Peregrinar/Maria/JDACT

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Braga. Escadório do Bom Jesus do Monte: Haverá um percurso alquimista na escadaria? Parte IXb. «Na literatura romana, a crucificação é descrita como punição cruel e temida, não sendo aplicada aos cidadãos romanos, mas apenas aos escravos e aos não romanos que houvessem cometido crimes atrozes, como assassínio, furto grave, traição e rebelião. A cruz não é mencionada no Antigo Testamento»


Cortesia de wikipedia 

Escadório das Três Virtudes.
«O Escadório das Virtudes, que são as Virtudes Teólogas e não as Cardeais, que aqui não figuram, reforçando desta feita o alcance católico do programa, executado já no tempo do arcebispo D. Gaspar de Bragança, na segunda metade do século XVIII, acrescentado portanto ao Escadório dos Sentidos, e já da provável traça de Carlos Amarante. O esquema geral é idêntico ao anterior, uma imagem central ladeada por outras duas, pese embora as fontes encontrarem-se instaladas em grandes nichos, no meio do espaldar das escadas. As figuras complementares são, neste caso, alegóricas e não remetem para a Bíblia ou para a mitologia. A fonte comporta um símbolo relativo à virtude teóloga correspondente.

1ª Fonte das Virtudes: A Fé
Símbolos: Cruz
O cruzamento desses dois eixos maiores realiza a cruz de orientação total. A concordância, no homem, das duas orientações, animal e espacial, põe o homem em ressonância com o mundo terrestre imanente; a das três orientações, animal, espacial e temporal, com o mundo supra temporal transcendente pelo meio terrestre e através dele. A cruz tem, em consequência, uma função de síntese e de medida. Nela se juntam o céu e a terra. Nela se confundem o tempo e o espaço. Ela é o cordão umbilical, jamais cortado, do cosmo ligado ao centro original. De todos os símbolos, ela é o mais universal, o mais totalizante. A tradição cristã enriqueceu prodigiosamente o simbolismo da cruz, condensando nessa imagem a história da salvação e a paixão do Salvador. A cruz simboliza o Crucificado, o Cristo, o Salvador, o Verbo, a segunda pessoa da Santíssima Trindade. No entanto, não podemos esquecer que a cruz é mais do que uma figura de Jesus, uma vez que se identifica com a história humana e com a nossa própria pessoa.

Cortesia de wikipedia

Note-se ainda que a crucificação era uma forma de pena oriental que foi introduzida no Ocidente pelos persas. Foi pouco usada pelos gregos, mas muito utilizada pelos cartagineses e romanos. Na literatura romana, a crucificação é descrita como punição cruel e temida, não sendo aplicada aos cidadãos romanos, mas apenas aos escravos e aos não romanos que houvessem cometido crimes atrozes, como assassínio, furto grave, traição e rebelião. A cruz não é mencionada no Antigo Testamento. Os romanos crucificavam os criminosos inteiramente nus e não motivo para se pensar que tenha sido feita alguma excepção para Jesus. As vestes do crucificado eram entregues aos soldados (Mt 27, 35). Uma inscrição com o nome do criminoso e a natureza do seu crime era feita sobre uma tabuinha, que o condenado levava pendurada no pescoço até o local da execução; essa tabuinha com a inscrição foi depois afixada acima da cabeça de Jesus na cruz. Por ironia de Pilatos, a inscrição de Jesus não indicava um crime, mas registava simplesmente a expressão «rei dos judeus» (Mt 27, 37; Mc 15, 26; Lc 23, 38; Jo 19, 19-22).
No Novo Testamento, o simbolismo teológico da cruz só aparece numa afirmação do próprio Jesus e nos escritos de Paulo. Jesus disse que aqueles que o seguem deve tomar a sua própria cruz, perdendo assim a vida para conquistá-la (Mt, 38; 16,24; Mc 8, 34; Lc 9,23; 14,27). Não se trata apenas uma alusão à sua própria morte, mas também da afirmação de que seu seguimento exige a «negação de si mesmo» (Mc 8,34), o total desprezo pela própria vida, pelo bem estar, pelas posses pessoais, a tudo aquilo a que se deve renunciar para seguir a Jesus. Paulo pregava Cristo e Cristo crucificado, embora isso fosse escândalo para os hebreus e loucura para os gentios (1Cor1, 23; 2,2) ...

Cortesia de wikipedia

«Ouçamos, mais uma vez, Fulcanelli, a este propósito:
  • «A cruz tem a marca dos três pregos que serviram para imolar o Cristo-matéria, imagem das três purificações pelo ferro e pelo fogo».
  • Do sacrifício do homem-físico, crucificado entre dois mundos, desperta o homem-espírito, o Christos ou Iluminado.
Por essa razão, no letreiro em cima pode ler-se: «Correrão dele águas vivas». In Peregrinar/Maria.

(Continua)
Cortesia de Gabriel/Peregrinar/Maria/JDACT

Braga. Escadório do Bom Jesus do Monte: Haverá um percurso alquimista na escadaria? Parte IXa. «A fé geralmente é associada a experiências pessoais e pode ser transmitida a outros através de relatos. Nesse sentido é geralmente associada ao contexto religioso e a decisão de «ter fé» é unilateral, ou seja, depende da vontade exclusiva de quem quer ter fé»

Cortesia de wikipedia

Escadório das Três Virtudes.
«O Escadório das Virtudes, que são as Virtudes Teólogas e não as Cardeais, que aqui não figuram, reforçando desta feita o alcance católico do programa, executado já no tempo do arcebispo D. Gaspar de Bragança, na segunda metade do século XVIII, acrescentado portanto ao Escadório dos Sentidos, e já da provável traça de Carlos Amarante. O esquema geral é idêntico ao anterior, uma imagem central ladeada por outras duas, pese embora as fontes encontrarem-se instaladas em grandes nichos, no meio do espaldar das escadas. As figuras complementares são, neste caso, alegóricas e não remetem para a Bíblia ou para a mitologia. A fonte comporta um símbolo relativo à virtude teóloga correspondente.

Nota: As virtudes mais excelentes são as virtudes teólogas, , Esperança e Caridade, que se referem directamente a Deus; mas também são importantes as virtudes morais, que aperfeiçoam o comportamento do individuo nos meios que conduzem a Deus. Se pensamos no modo de adquiri-las, umas são virtudes naturais ou adquiridas, pois são conseguidas com as forças da natureza; outras, sobrenaturais, se são concedidas por Deus, de modo gratuito. As virtudes teólogas sempre são sobrenaturais ou infusas; mas as virtudes morais podem ser adquiridas ou infundidas por Deus.
  • O ser humano pode realizar actos bons com as forças naturais, adquirindo virtudes. Por exemplo: a sinceridade, a laboriosidade, a discrição, a lealdade...
As principais virtudes morais, chamadas também cardeais, porque são o ponto de apoio das demais virtudes são:
  • a prudência,
  • a justiça,
  • a fortaleza,
  • a temperança.

Cortesia de blogimagens

A prudência é a virtude que dispõe a razão prática para discernir, em toda as circunstâncias o nosso verdadeiro bem, escolhendo os meios justos para realiza-lo.
A justiça é a virtude que nos inclina a dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido, tanto individual como socialmente.
A fortaleza é a virtude que no meio das dificuldades assegura a firmeza e a constância para praticar o bem.
A temperança é a virtude que refreia o apetite dos prazeres sensíveis e impõe a moderação no uso dos bens criados.

Benignidade,  Fonte: Coração, CARIDADE.  Paz
Confidência,  Fonte: Arca, ESPERANÇA.  Glória
Docilidade,  Fonte: Cruz, FÉ. Confissão

1ª Fonte das Virtudes: A Fé
Símbolos: Cruz
A fé geralmente é associada a experiências pessoais e pode ser transmitida a outros através de relatos. Nesse sentido é geralmente associada ao contexto religioso e a decisão de «ter fé» é unilateral, ou seja, depende da vontade exclusiva de quem quer ter fé. A bíblia, um livro religioso e considerado sagrado por muitas religiões cita bastante a fé. Nela se encontra a seguinte definição geral: «(...) a fé é acreditar em coisas que se esperam, a convicção de factos que se não vêem, independentemente daquilo que vemos, ou ouvimos».
A fonte da Fé apresenta uma cruz simples com três goteiras nas aberturas dos cravos e a inscrição: Ejus fluent aquae vivae. Joan. 7, 38. - «Correrão dele águas vivas».


Cortesia de wikipedia

Segundo Chevalier e Gheerbrant a cruz é o terceiro dos quatro símbolos fundamentais, juntamente com o centro e o círculo e o quadrado. E estabelece uma relação entre os três outros:
  • pela intersecção das duas linhas rectas que coincidem com o centro, abre o centro para o exterior;
  •  inscreve-se no círculo, que divide em quatro segmentos;
  • engendra o quadrado e o triângulo, quando suas extremidades são ligadas por quatro linhas rectas.
A simbologia mais complexa deriva dessas singelas observações. Foram elas que deram origem à linguagem mais rica e mais universal. Como o quadrado, a cruz simboliza a terra; mas exprime dela aspectos intermediários, dinâmicos e subtis. A simbólica do quatro está ligada, em grande parte, à da cruz, principalmente ao facto de que ela designa um certo jogo de relações no interior do quatro e do quadrado. A cruz é o mais fulcral dos símbolos. Apontando para os quatro pontos cardeais, a cruz é, em primeiro lugar, a base de todos os símbolos de orientação, nos diversos níveis de existência do homem. A orientação total do homem exige um triplo acordo: a orientação do sujeito animal com relação a ele mesmo; a orientação espacial, com relação aos pontos cardeais terrestres; e, finalmente, a orientação temporal com relação aos pontos cardeais celestes. A orientação espacial articula-se sobre o eixo Este-Oeste, definido pelo nascer e pôr-do-sol. A orientação temporal articula-se sobre o eixo de rotação da Terra, ao mesmo tempo Sul-Norte e Em baixo-Em cima». In Peregrinar/Maria.

(Continua)
Cortesia de Gabriel/Peregrinar/Maria/JDACT

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Braga. Escadório do Bom Jesus do Monte: Haverá um percurso alquimista na escadaria? Parte VIII. «A figura segura uma bilha que verte água, sendo as aranhas os animais simbólicos que a acompanham. Esta fonte representa, fundamentalmente, a acção e o destino forjado pelo homem. A mão, como veículo privilegiado do tacto, é o símbolo da actividade e do poder»

Cortesia de 3ilchuminho 

«O escadório dos cinco sentidos, é uma alegoria ao corpo humano mas está longe de constituir uma elegia. Ao contrário ele representa a mundovisão católica sobre o seu carácter pecaminoso e efémero, acrescido de uma desmistificante narrativa sobre o carácter erróneo do conhecimento sensorial; se é pelos sentidos que «se deriva o princípio do nosso conhecimento», como escrevia um dos primeiros moralistas do Bom Jesus, a atitude do crente não pode ser passiva nem acrítica no acto de conhecer. É necessário ir além das ilusões da imagem, como dizia Santo Agostinho ou o Padre António Vieira, é necessário ir além de todos os dados imediatos da percepção, dizem sem cessar todas as fontes do Escadório dos Cinco Sentidos. Tudo o que é sensorial é do domínio do reino animal:
  • «e serão sempre animais a exemplificar nas várias fontes as capacidades de cada sentido como que a quererem dizer que não é essa a condição humana».

Cortesia de caminhosromanos e wikipedia

5ª fonte dos sentidos: Fonte do Tacto
Símbolos: aranhas - mulher, cântaro

Na Fonte do Tacto uma figura tem uma bilha segurada por duas mãos, donde cai água, sendo as aranhas animis simbólicos.

Cortesia de wikipedia 

A figura segura uma bilha que verte água, sendo as aranhas os animais simbólicos que a acompanham. Esta fonte representa, fundamentalmente, a acção e o destino forjado pelo homem. A mão, como veículo privilegiado do tacto, é o símbolo da actividade e do poder. É passiva naquilo que retém e activa naquilo que liberta. A mão é signo do labor, sendo extremamente interessante o facto de estar aqui associada à bilha, pois as bilhas construídas pelo oleiro são os elementos do nosso karma, o fruto das nossas acções. A aranha é a tecelã da realidade e senhora do destino e o fio por ela tecido é o meio ou suporte da realização espiritual.

Cortesia de postaisdantigamente 

A estátua central da fonte é de Salomão, segurando o ceptro, com a inscrição: Salomão. Venter meus intremuit ad tactum ejus. Cant. Cap. 5, v 4. - «Salomão. As minhas entranhas estremeceram ao seu toque». À esquerda a estátua de Isaías que diz: Isaias. Tetigit os meum. Isai. 6 - «Isaias. Tocou a minha boca». À direita a estátua de Isaac, cego com as mãos estendidas à procura do filho e proferindo: Isaac cego. Accedehuc, ut tangam te, filii mi. Genes, 27. - «Chega-te a mim, meu filho, para que te toque».

Cortesia de lenialaurel
Midas pediu a Dionísio que lhe concedesse o dom de transformar em ouro tudo que tocasse; mas não pôde mais alimentar-se, pois toda a comida que tocava transformava-se em ouro; para se purificar, banhou-se nas águas do rio Pactolo, cujo fundo ficou coberto de pepitas de ouro.
 
Tacto – Mulher segurando Cântara – Ar – elemento Masculino
Aranha (teia) – Ar – elemento Masculino

Há ainda a assinalar, relativamente ao escadatório dos cinco sentidos, que em todas as suas fontes encontramos a presença de cinco interessantes castelos ou torreões formados por quatro taludes e uma porta. Fulcanelli diz-nos a propósito da representação do Athanor alquímico:
  • «Os fornos estão representados como se fossem torreões com os seus taludes, as suas ameias, as suas seteiras».
O Athanor é o seio no qual se juntam os quatro elementos (torreão quadrado com quatro taludes) que são zelosamente vigiados (as ameias) com o objectivo de alcançar a obra (seteiras), permitindo a libertação do quinto elemento (a porta).

Termina o Escadório dos Cinco Sentidos e falarei no novo escadório, das Três Virtudes, que data de 1837». In Peregrinar/Maria.

Cortesia de Gabriel/Peregrinar/Maria/JDACT

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Braga. Escadório do Bom Jesus do Monte: Haverá um percurso alquimista na escadaria? Parte VII. «A boca é o símbolo da força criadora, o órgão da palavra ou Verbo. Por isso, a seu lado aparece o macaco ou cinocéfalo que também representa o deus Thot no Egipto. Os macacos, para muitas culturas estes primatas representam os instintos básicos da natureza humana»

Cortesia de vivoviajando

Com a devida vénia ao Gabriel e ao sítio Peregrinar/Maria.

«O escadório dos cinco sentidos, é uma alegoria ao corpo humano mas está longe de constituir uma elegia. Ao contrário ele representa a mundovisão católica sobre o seu carácter pecaminoso e efémero, acrescido de uma desmistificante narrativa sobre o carácter erróneo do conhecimento sensorial; se é pelos sentidos que «se deriva o princípio do nosso conhecimento», como escrevia um dos primeiros moralistas do Bom Jesus, a atitude do crente não pode ser passiva nem acrítica no acto de conhecer. É necessário ir além das ilusões da imagem, como dizia Santo Agostinho ou o Padre António Vieira, é necessário ir além de todos os dados imediatos da percepção, dizem sem cessar todas as fontes do Escadório dos Cinco Sentidos. Tudo o que é sensorial é do domínio do reino animal:
  • «e serão sempre animais a exemplificar nas várias fontes as capacidades de cada sentido como que a quererem dizer que não é essa a condição humana».

Cortesia de caminhosromanos/wikipedia

4ª fonte dos sentidos: Fonte do Paladar
Símbolos: macacos-boca

Na fonte do paladar a figura deita água pela boca e tem na mão esquerda uma maçã e de cada lado um macaco.

Cortesia de skyscrapercity
A boca é o símbolo da força criadora, o órgão da palavra ou Verbo. Por isso, a seu lado aparece o macaco ou cinocéfalo que também representa o deus Thot no Egipto, o escriba divino que toma nota da palavra de Ptah, o deus criador.
Os macacos, para muitas culturas estes primatas representam os instintos básicos da natureza humana. Na Europa Cristã, os macacos foram desde sempre alvo de desagrado, devido à sua sexualidade desinibida.

Cortesia de postaisdantigamente 

Jónatas - Ganimedes/São José - PALADAR - Esdras
A estátua cental representa José do Egipto com um cálice na mão direita e um prato com frutas na esquerda e a inscrição Joseph. De benedictione domini in terra ejus, de pomis coeli, et rore. Deuter. 33, 13. - «A tua terra seja cheia das bênçãos do senhor, dos frutos do céu e do orvalho».

Na mitologia grega, Ganímedes era um príncipe de Tróia, por quem Zeus se apaixonou. Nas imediações de Tróia, o jovem cuidava dos rebanhos do pai, quando foi avistado por Zeus. Atordoado com a beleza do mortal, Zeus transformou-se em uma águia e raptou-o, possuindo-o em pleno vôo. Ganimedes foi levado ao Olimpo e, apesar do ódio de Hera, substituiu a deusa Hebe e passou a servir o néctar aos deuses, bebida que oferece a imortalidade, derramando, depois, os restos sobre a terra, servindo aos homens. Em homenagem ao belíssimo jovem, Zeus colocou-o na constelação de Aquarius.

Cortesia de excursvirtbraga 
À esquerda Jónatas com uma lança, desculpando-se de ter provado o mel do cortiço que tem ao lado, dizendo Jonathas. Gustans gustavi in sommitate vergae; et ecce morior... I Reg. C 14. «Jonatas. Provei um pouco de mel na ponta duma vara; e eis porque morro...»
Na estátua da direita Esdras segurando um cálice e pão, com o letreiro:
  • Esdras. Gusta panem et nom derelinquas nos sigut pastor in medio luporum. Esdr. 4 C. 5 - «Esdras. Prova o pão, e não nos abandones, como o pastor no meio dos lobos».
Boca (paladar) – Água – elemento Feminino
Macaco – Ar – elemento Masculino

Note-se que nas primeiras representações egipcías, temos quatro tipos designados para a Mãe na sua forma estrelada, tratando-se de representações dos quatro elementos, sendo estes qautro tipos os seguintes:
  • Hipopótamo para a água,
  • Macaco para o ar,
  • Leão para o fogo, 
  • Crocodilo para a terra». 
In Peregrinar/Maria.

Cortesia de Gabriel/Peregrinar/Maria/JDACT

quinta-feira, 3 de março de 2011

Braga. Escadório do Bom Jesus do Monte: Haverá um percurso alquimista na escadaria? Parte VI. «O olfacto, tal como a visão, encontra-se muitas vezes associado à clarividência, à capacidade de percepcionar aquilo que o sentido físico não capta. A figura da fonte deita água pelo nariz, tem nas mãos uma caixa aberta e de cada lado um cão»

Cortesia de caminhosromanos 

Com a devida vénia ao Gabriel e ao sítio Peregrinar/Maria cito algumas frases. 
«O escadório dos cinco sentidos, é uma alegoria ao corpo humano mas está longe de constituir uma elegia. Ao contrário ele representa a mundovisão católica sobre o seu carácter pecaminoso e efémero, acrescido de uma desmistificante narrativa sobre o carácter erróneo do conhecimento sensorial; se é pelos sentidos que «se deriva o princípio do nosso conhecimento», como escrevia um dos primeiros moralistas do Bom Jesus, a atitude do crente não pode ser passiva nem acrítica no acto de conhecer. É necessário ir além das ilusões da imagem, como dizia Santo Agostinho ou o Padre António Vieira, é necessário ir além de todos os dados imediatos da percepção, dizem sem cessar todas as fontes do Escadório dos Cinco Sentidos. Tudo o que é sensorial é do domínio do reino animal:
  • «e serão sempre animais a exemplificar nas várias fontes as capacidades de cada sentido como que a quererem dizer que não é essa a condição humana».

Cortesia de caminhosromanos/wikipedia

3ª Fonte dos Sentidos: Fonte do Olfacto
Símbolos: cão – nariz

Na fonte do Olfacto a figura da fonte deita água pelo nariz, tem nas mãos uma caixa aberta e de cada lado um cão.

Cortesia de flickr  
Na Idade Média o cão nem sempre se associou a uma simbologia positiva. No entanto, progressivamente ele tende a representar o símbolo, por excelência, da fidelidade, tal como, de resto, foi transmitido pelos autores da Antiguidade. Louis Charbonneau-Lassay refere, que a arte cristã «le hizo justicia e hizo de él el símbolo de Fidelidad, de todas las fidelidades. En este sentido estaba echado al pie de las reinas y de las mujeres de bien, en sus monumentos funerarios, y también a los pies de los señores vasallos y de los escuderos fieles». Gerd Heinz-Mohr reitera esta simbologia, referindo que a Idade Média elevou o cão a símbolo «de fidelidade dos vassalos para com o Senhor das terras, da mulher para com o marido».

Cortesia de flickr
O símbolo do cão é bastante complexo na sua tradição mitológica. Frequentemente comparece associado à idéia de morte, à imagem dos infernos e do mundo subterrâneo. 
O Dicionário de Símbolos, afirma que a primeira função mítica do cãoé a de guia do homem na noite da morte, após ter sido seu companheiro no dia da vida (1992, p.176). Consta também ser intercessor e intermediário entre vivos e mortos, estando ligado à trilogia dos elementos,  terra, água e lua.

 
Cortesia de postaisdantigamente
Noé - Jacinto /Vir Sapiens - OLFACTO - Sunamita
A estátua por cima da fonte é de um varão sustendo a capa com a mão direita e pegando numa flor com a esquerda e a inscrição: Vir sapiens. Florete flores quasi lilium e date odorem. Eccl. 39, 19. «Varão sábio. Dai flores como o lírio e rescendei suave cheiro».

Jacinto era um jovem mortal muito amado pelas divindades, principalmente por Apolo que o seguia aonde quer que ele fosse. Certa vez em que ambos se divertiam com um jogo:
  • Apolo lançou o disco com tal habilidade para o céu que Jacinto olhando admirado correu para pegá-lo, ansioso por fazer sua jogada. Porém, o disco caiu em terra e voltando, bateu na testa de Jacinto, que caiu desmaiado. Apolo correu em desespero até Jacinto e com toda sua habilidade médica tenta reavivar o corpo de Jacinto, mas a sua cura estava além de qualquer habilidade. Apolo se sente tão culpado por sua morte que promete que Jacinto viveria pra sempre com ele na memória do seu canto.
O canto entoaria a canção do seu destino e ele se transformaria numa flor. Uma flor muito semelhante ao lírio, porém, roxa. Nela foi gravada a saudade e o pesar de Apolo com o lamento "Ai! Ai!" que ele escreveu na flor, como até hoje se vê. A flor carrega seu nome e renasce toda a Primavera relembrando o seu destino (a flor mencionada não parece ser o jacinto moderno).

Cortesia de excursvirtbraga 
À esquerda está Noé sustentando nos braços um cordeiro, junto dum altar com a inscrição: Noé. Odoratus est dominus odorem suavitatis. Genes. 8.- «Noé. Percebeu o Senhor um suave cheiro».
À direita Sunamites abraçada a uma palmeira dizendo: Sunnamites. Statura tua assimilata est palmae...et odor oris tui sicut malorum. Cant. Cantic. Cap. 7, vv 7 e 8. - «A tua estatura é semelhante a uma palmeira... e o cheiro da tua boca é como o das maçãs». Recordemos que a maçã é o fruto do conhecimento e da imortalidade. Contudo, esta fruta possuia um sentido ambíguo durante a Idade Média.
Por um lado foi identificada como aquela que causou o pecado original. Porém, também pode ter um significado positivo, pois, segundo Lurker, desde o século XI a maçã nas mãos do menino Jesus e na de Maria significava uma referência à absolvição do pecado e à vida eterna.

 «O olfacto, tal como a visão, encontra-se muitas vezes associado à clarividência, à capacidade de percepcionar aquilo que o sentido físico não capta». In José Ramos.

Nariz (olfacto) – Terra – Elemento Feminino
Cão (animal lunar) – Água – Elemento Feminino

In Peregrinar/Maria.

Cortesia de Gabriel/Peregrinar/Maria/JDACT

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Braga. Escadório do Bom Jesus do Monte: Haverá um percurso alquimista na escadaria? Parte IV. «Esta fonte procura mostrar o lado transcendente do próprio sentido, aqui representado através do Sol, símbolo da claridade que permite conhecer a verdadeira realidade, oculta nas sombras da ignorância. A águia, como animal solar, constitui a aspiração a essa mesma luz que vem do alto»

Cortesia de flickr 
Com a devida vénia ao Gabriel e ao sítio Peregrinar/Maria cito algumas frases.

Escadório dos Cinco Sentidos 
Este lance dos escadórios é da responsabilidade do arcebispo D. Rodrigo de Moura Teles que não os chegou a ver concluidos pois morreu em Setembro de 1728. Para a conclusão, a administração da confraria obteve os recursos de um modo singular:
  • A Companhia de Jesus e o seu colégio da Igreja de São Paulo em Braga estava em litígio com outros colégios de Braga, em particular com o Convento dos Congregados. Ocorreram em Braga manifestações dos estudantes dos outros colégios contra os jesuitas. Estes conseguiram fazer prender os rapazes mais rebeldes, e obrigar as suas famílias a pagar multas proporcionais aos seus rendimentos.
O dinheiro recebido foi entregue à confraria para a feitura das estátuas de pedra que terminariam o escadório dos cinco sentidos.

Cortesia de fotothing
Os jesuitas inspirados na mitologia Grega escolheram as figuras, que a Mesa da Confraria em Edital de  Abril de 1774 julgou «indecorosíssimas e indecentíssimas». Em satisfação a este edital foram mudados os nomes e os dísticos às imagens:
  • Argos passou a chamar-se Vir Prudens;
  • Orfeu passou a designar-se por Editum;
  • Jacinto deu lugar a Vir Sapiens;
  • Ganimedes passou a Joseph;
  • Midas passou a chamar-se Salomão.
Nesta parte do escadório estão cinco lances de escadas, intervalados por patamares com fontes alegóricas aos cinco sentidos, pela seguinte ordem: Visão, Audição, Olfacto, Paladar e Tacto.
Paulo Pereira afirma que neste escadório procede-se ainda a uma hierarquia do tema dos cinco sentidos, como que revelando no percurso ascensional o grau de corporeidade que se deve atribuir a cada um dos sentidos em causa. O primeiro sentido é o da Vista e o último o do Tacto, começando no mais incorpóreo dos sentidos, a águia é o animal alegórico e o Sol preside à alegoria, terminando no mais corpóreo e impuro, a aranha é o animal escolhido para simbolizar esta faculdade.


Cortesia de caminhos romanos/wikipédia 
O escadório dos 5 sentidos é uma alegoria ao corpo humano mas está longe de constituir uma elegia. Se é pelos sentidos que «se deriva o princípio do nosso conhecimento», como escrevia um dos primeiros moralistas do Bom Jesus, a atitude do crente não pode ser passiva nem acrítica no acto de conhecer. É necessário ir além das ilusões da imagem, como dizia S. Agostinho ou o Pd. António Vieiraé necessário ir além de todos os dados imediatos da percepção, dizem sem cessar todas as fontes do Escadório dos Cinco Sentidos. Tudo o que é sensorial é do domínio do reino animal e serão sempre animais a exemplificar nas várias fontes as capacidades de cada sentido como que a quererem dizer que não é essa a condição humana.

A 1ª fonte dos sentidos. Fonte da Visão
Símbolos: sol e águia. Visão
Na fonte da Visão existe uma estátua lançando água pelos olhos e tem na mão esquerda uns óculos. Três águias olham para o sol.


Cortesia de pbase
Estamos perante uma dupla referência Solar: a Águia, com o seu forte simbolismo solar, ela pode olhar o sol de frente, e o próprio Sol. A águia identifica-se com forte conteúdo simbólico e que se encontra bem presente em variadas representações heráldicas no Ocidente medieval, sendo mesmo uma das mais comuns representações de animais nos brasões.
«Esta fonte procura mostrar o lado transcendente do próprio sentido, aqui representado através do Sol, símbolo da claridade que permite conhecer a verdadeira realidade, oculta nas sombras da ignorância. A águia, como animal solar, constitui a aspiração a essa mesma luz que vem do alto. A vigilância é também uma das suas características». In José Ramos.
Moisés - Argos/Vir Prudens - VISTA - Jeremias
A estátua central é a imagem de um pastor com a mão sobre o peito e os olhos fechados. A inscrição é Vir prudens quasi in somnis vide et vigilabis. Eccles. C. 13, v. 17. - «Varão prudente, toma-as (as lisongeiras palavras) por um sonho e assim vigiarás».
Segundo a mitologia, Argos Panoptes, Argo de muitos olhos, era um gigante com 100 olhos. Servo fiel de Hera, é incumbido pela deusa de tomar conta de Io, uma princesa e amante de Zeus transformada em novilha. Era um excelente boiadeiro, visto que, quando dormia, mantinha 50 de seus olhos despertos. Hera homenageou Argos, transformando-o em pavão, a sua ave sagrada, em cuja cauda pôs 100 olhos.
À direita a estátua de Moisés, tendo na cabeça 2 raios de luz e na mão direita a vara com a serpente enroscada. A inscrição diz: Moysés. Quem cumpercussi aspicerent, sanabantur. Num.21, 9. - «Moisés. Aqueles que, feridos, a olhavam, saravam»

Cortesia de skyscrapercity
À esquerda a estátua de Jeremias representa o sol e tem na mão direita uma vara com olhos, significando a que lhe mostrou numa visão. Na inscrição diz: Jeremias. Virgam vigilantem ego video. Jer. IEu vejo uma vara vigilante». Tudo fica mais claro se recordarmos que a vara ou cajado é o símbolo do conhecimento que permite ao sábio caminhar seguramente.
Outra possibilidade de interpretação é a  associação aos 4 elementosAqui aparecem-nos aos pares, o que também acontece em Tomar, nas construções dos Templários». In Peregrinar/Maria.
Vista (visão), Sol, Fogo, elemento Masculino
Águia, Ar, elemento Masculino

Cortesia de Gabriel/Peregrinar/Maria/JDACT

sábado, 15 de janeiro de 2011

Braga. Escadório do Bom Jesus do Monte: Haverá um percurso alquimista na escadaria? Parte III. «A letra M está ainda associada ao Pentagrama, símbolo por excelência da magia praticada desde tempos imemoriais no Hemisfério Norte. A letra M expressão alfabética do hieróglifo das ondas da água, símbolo do Grande Oceano, fonte de sabedoria. É uma letra ao mesmo tempo masculina e feminina»

Cortesia de  flickr
Com a devida vénia ao Gabriel e ao sítio Peregrinar/Maria cito algumas frases.

«Ainda a simbologia da escadaria do Bom Jesus
No Escadório dos Cinco Sentidos o caminho continua serpentiforme, pela estrutura em M das próprias escadas. «Segundo H. P. Blavatsky, esta é a mais sagrada das letras, assumindo um carácter místico quer no Ocidente quer no Oriente. Representa as ondas na Água do grande Oceano Primordial. É a Matriz, a Mater, a Mãe, Mut no Egipto, Maria no cristianismo, Maya no budismo, etc. É a Matéria Primordial como princípio da Grande Obra alquímica».
A letra M está ainda associada ao Pentagrama, símbolo por excelência da magia praticada desde tempos imemoriais no Hemisfério Norte. A letra M expressão alfabética do hieróglifo das «ondas da água», símbolo do «Grande Oceano», fonte de sabedoria, é realmente uma letra mística para muitos idiomas. É uma letra ao mesmo tempo masculina e feminina.

Cortesia de flickr 
1ª fonte: As Fontes das Serpentes
«Vamos encontrar duas extraordinárias fontes, uma de cada lado da escada, comportando na sua base um recipiente para o qual são vertidas as águas. Sobre este encontram-se 4 cabeças de crocodilo dirigidas para os 4 pontos cardeais. Este facto é muito significativo já que o crocodilo, nas mais diversas mitologias, é o Senhor das Águas Primordiais. Trata-se de uma divindade que reina no mundo inferior, constituindo assim um símbolo das trevas e da morte, mas também do renascimento. Equivale ao Seth egípcio e ao Tifão grego. Para os Miztecas e os Aztecas, a Terra nasceu de um crocodilo que vivia no Mar Primordial; para os Maias, a Terra era carregada às costas de um crocodilo. É o Senhor dos Mistérios da Vida e da Morte, o grande iniciador.
Sobre as 4 cabeças de crocodilo desenvolve-se uma espiral ascendente de 9 voltas, por onde corre a água que é vertida, no cimo da mesma, pela boca de uma serpente para o interior de um cálice. A espiral evoca a evolução de uma força, de um estado. Representa os ritmos repetidos da vida, assim como todo o carácter cíclico do caminho evolutivo. O número 9 anuncia ao mesmo tempo um fim e um recomeço, faz a transposição para um novo plano através de um processo de morte e renascimento. É o número da iniciação.
Assinala o fim de uma fase do desenvolvimento espiritual e o início de uma outra superior. Fecha um ciclo de multiplicidade, para um reencontro com a Unidade, pois, esotericamente 10=1+0=1.

Cortesia de skyscrapercity
A serpente encarna a vida original, visto que as Águas Primordiais e a terra profunda formam a Substância Primordial da qual é constituída a serpente. Dessa forma, encontramo-la ligada às correntes de água subterrâneas, as quais são a origem oculta da Terra, da energia telúrica. A serpente simboliza a sabedoria e os iniciados, pois ela é a atenção constante, o eterno rejuvenescimento e a guardiã do poder e dos tesouros ocultos».
Para Paulo Pereira também se pode interpretar em termos alegóricos como se tratando da redenção do peregrino ou romeiro. «Da serpente, símbolo cristão do pecado brota o elemento purificador por excelência, que preside a todo o sacromonte, mas muito em especial ao segmento seguinte, dedicado aos cinco sentidos. O Mal transforma-se em Bem através do domínio dos instintos (dos sentidos) e pela valorização do espírito e não dos fundamentos corpóreos e carnais da existência».
No dizer de José Fernandes Pereira, que dedicou ao Escadório dos Cinco Sentidos um importante estudo: «a animação luminosa de todo o conjunto constitui um dos seus elementos estruturantes. No percurso ascensional, o espectador, saído de um verdadeiro túnel de penumbra, encontra-se de súbito mergulhado numa zona de intensa luminosidade, intensificada pela omnipresença do branco da cal, pontuado pelo negro granito de fontes e esculturas. (…) à forma dinâmica e movimentada da pedra associa-se o fluxo ininterrupto da água lançada do alto por uma serpente: repetição, movimento dentro do movimento, em suma, definição clara de uma estética barroca».

No terraço imediatamente anterior ao conjunto de escadas dedicadas aos cinco sentidos encontram-se duas capelas em cada extremo, uma a Capela das Quedas (Jesus cai sob o peso da cruz e Cireneu ampara-lhe o madeiro - E vieram a um lugar chamado Golgota), outra a Capela da Crucificação (Era a hora da terça quando o crucificaram), como que acentuando a dor de Cristo ou a via dolorosa como elemento de purificação.


Cortesia de flickr

2ª fonte: Fonte das Cinco Chagas
Símbolos. Cálice  e escudo
«No primeiro pátio jorra a Fonte das Cinco Chagas. A fonte lança, numa concha de 7 semi-círculos, 5 vertentes saídas de um escudo. Estes 5 orifícios formam o quincôncio, ou seja, a quinta-essência que tem o poder de agir sobre a matéria e de tranformá-la. Representa o homem espiritual que desperta do quadrado da matéria que constitui a sua personalidade. Cinco são os sentidos que permitem captar as cinco formas sensíveis da matéria e assim, transcendê-la».
Quanto ao cálice para onde jorra a água, ele representa o vaso que contém a poção da imortalidade e da abundância. É o seio materno do qual emana o Leite da Vida, leite esse que não é mais do que o Soma, bebida da imortalidade. O cálice é também o símbolo do coração do iniciado».

Cortesia de wikipedia
Esta fonte é encimada por uma eloquente inscrição que diz: «PURPUREOS / FONTES ODIUM / RESARAVIT / ADOXUM / NUNC IN CHRISTALLOS HIC TIBI / VERTIR AMOR», o que em tradução de Alberto Feio «Rubras fontes abriu o ódio amargo, para ti agora o amor aqui as converte em cristais», acentuando nesta mensagem ao peregrino o valor redentor do sofrimento do Salvador. A cartela da fonte apresenta em relevo os instrumentos da Paixão de Cristo». In Peregrinar/Maria.

Cortesia de Gabriel/Peregrinar/Maria/JDACT

domingo, 26 de dezembro de 2010

Braga. O Pórtico do Bom Jesus do Monte: Haverá um percurso alquimista na escadaria? Parte II. Júpiter é o deus do raio e do trovão, e é precisamente o raio que encontramos na sua fonte. No homem está associado ao elemento vital e, na Alquimia, o metal que lhe corresponde é o estanho

Cortesia de skyscrapercity 

Com a devida vénia ao Gabriel e ao sítio Peregrinar/Maria cito algumas frases.

5ª fonte: Fonte de Mercúro
Símbolos: Mão segura o caduceu
«No patamar seguinte encontra-se a Fonte de Mercúrio. Ele é o filho do Sol e da Lua, assumindo assim o papel de mediador. É o princípio de todas as ligações, dos intercâmbios, do movimento e da adaptação. Mercúrio porta o caduceu, símbolo de uma natureza dualista na qual se confrontam e se harmonizam os princípios contrários e complementares: negativo-positivo, passivo-activo, feminino-masculino, etc.
No homem está relacionado com a inteligência e o discernimento. Nos metais alquímicos é o Mercúrio propriamente dito.

Cortesia de viajandoevivendo
Mercúrio: rápido como o pensamento, era o mensageiro de Júpiter e dos outros deuses. Mercúrio está identificado com Hermes dos gregos. Os atenienses e seguindo o seu exemplo outros povos da Grécia, e depois os romanos, colocavam Hermes/Mercúrio nas encruzilhadas das cidades e grandes estradas, porque Hermes/Mercúrio presidia às viagens e aos caminhos. Tem por atributo sandálias aladas, que significam a força de elevação e a aptidão para os deslocamentos.
Hermes simboliza os meios de troca entre o Céu e Terra, a mediação, em suma, meios que se podem perverter em comércio simoníaco ou elevar-se, ao contrário, até a santificação. Assegura a viagem, a passagem entre os mundos infernais, terrestres e celestes. (Chevalier e Gheerbrant, 1998)

Cortesia de conexaosirius  
Assim, a mudança, a transição, a passagem de um estado a outro forma personificados em Mercúrio. O caduceu de Mercúrio é, por excelência, o símbolo do Iniciado.

Associação entre fontes e capelas:
Capela da Flagelação (Açoutes) com a Fonte de Mercúrio.
Flagelação (Açoutes), é uma obra incompleta e de má qualidade de Fonseca Lapa, escultor de Vila Nova de Gaia. Cristo está atado a uma coluna. A inscrição diz: Apprehendit Pilatus Jesum, et flagelavit. Joan. 19, 1-«Prendeu Pilatos a Jesus, e o fez açoutar».

Cortesia de fotothing
6ª fonte: Fonte de Saturno
Símbolos: Mão, ceifeiro
Em seguida temos a Fonte de Saturno. Ele é o planeta ligado à morte, pois ceifa tudo aquilo que não constitui uma verdadeira realidade. Por isso, Saturno é aquele que põe à prova as obras e as ideias, acabando por ceifar todas as falsas realidades temporais. Daí que o seu símbolo, que está gravado na sua fonte, seja a foice. Deste modo, está associado a todo o fenómeno de desprendimento da história do ser humano:
  • Desde a ruptura do cordão umbilical do recém-nascido até ao despojamento do ancião, passando pelos vários desprendimentos e renúncias que a vida nos proporciona;
  • Libertação dos instintos e da parte animalizante.
Constitui um factor importante na conquista da vida espiritual. Saturno representa o cessar de um ciclo e o início de um novo. No homem, corresponde ao corpo físico. Na Alquimia, relaciona-se com o chumbo e a cor negra da matéria dissoluta e putrefacta».

Cortesia de facebook
Saturno, pai de Júpiter. Na simbologia esotérica, indica o caminho da disciplina, da responsabilidade e do trabalho. O simbolismo do Saturno romano não se identifica com o Cronos grego. Entre os romanos ele representa a era de ouro. O herói civilizador, que ensina o cultivo da terra. Nas festas que lhe eram consagradas, as Saturnais, as relações sociais eram invertidas, os criados mandavam em seus senhores e estes serviam os seus escravos à mesa. Isso talvez seja uma obscura lembrança do facto de que Saturno havia destronado o pai, Urano, antes de, por sua vez, ser destronado por seu filho Zeus ou Júpiter. Para os sumérios e babilónios, Saturno é o astro da justiça e do direito, ligado às funções solares de fecundação, de governo e de continuidade na sucessão dos reinos e das estações.

Associação entre fontes e capelas:
Capela da Coroação de Espinhos com a Fonte de Saturno.
Na capela, temos um quadro que é formado por 3 figuras, e é obra do escultor Evangelista Vieira. Tem a inscrição: Exivit Jesus portans coronam spineam. Joan. 19, 5, «Saíu Jesus trazendo a coroa de espinhos».

Cortesia de profchatinho
7ª fonte: Fonte de Júpiter (deslocada do lugar original)
Continuando a ascensão da escadaria chegamos ao pátio circular onde se encontrava a fonte de Júpiter (actualmente está no alto, próximo de um hotel). Astrologicamente, Júpiter encarna o princípio do equilíbrio, da autoridade, da ordem, da abundância e da preservação da hierarquia estabelecida. Júpiter é o deus do raio e do trovão, e é precisamente o raio que encontramos na sua fonte. No homem está associado ao elemento vital e, na Alquimia, o metal que lhe corresponde é o estanho».

Júpiter, Deus supremo dos romanos, corresponde ao Zeus dos gregos. É apresentado como a divindade do céu, da luz diurna, do tempo que faz, e da também do raio e do trovão... poder soberano, presidente do conselho dos deuses, aquele de quem emana toda a autoridade.
Júpiter simboliza a ordem autoritária, imposta do exterior. Seguro do seu direito e do seu poder de decisão, não busca nem diálogo nem persuasão, troveja. (Chevalier e Gheerbrant, 1998)

Cortesia de travel
Zeus, descende dos reinos de Urano e de Cronos. É o organizador do mundo interior e exterior:
  • é dele que depende a regularidade das leis físicas, sociais e morais. Senhor dos deuses no panteão romano, era o deus do trovão, do céu, do tempo e do universo.
Na simbologia esotérica Júpiter representa o Mestre. Na simbologia astrológica, Júpiter é crescimento, evolução, necessidade de aperfeiçoamento e fé, desejo de dar sentido à vida.
Símbolo: Zeus simboliza o reino do espírito, deus único. Lançando o relâmpago, simboliza o espírito e o esclarecimento da inteligência humana. Desencadeando o raio, simboliza a cólera de Deus, a punição, o castigo, a autoridade ultrajada é o justiceiro. (Chevalier e Gheerbrant, 1998).

Capela do Caminho do Calvário, está representado Cristo levando aos ombros a cruz, arrastado por um soldado romano e seguido por Cireneu e várias mulheres. A inscrição diz: Bajulans sibi crucem exivit in...calvariae locum. Joan. 19, 5.-«Levando a cruz às costas, saíu para...o lugar do calvário».

Cortesia de monumentosportugueses
A partir daqui as fontes deixam de estar associdas a uma divindade. Começa uma nova fase, mas antes de passarmos a esta nova parte da escadaria onde o percurso serpentiforme é ainda mais vincado, temos novo umbral, desta vez ladeado por duas colunas e uma enorme serpente enrolada em cada coluna. Estamos perante uma representação da Kundalini, quer nas duas serpentes na passagem à segunda fase, quer no próprio percurso serpentiforme». In Peregrinar/Maria

Cortesia de Gabriel/Peregrinar/Maria/JDACT