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domingo, 12 de março de 2017

Erec e Enide. Manuel V. Montalbán. «Há quarenta anos que Riquer não é o meu chefe, mas sim meu mestre. E assim continua. Não é insultante o tom de Myrna, mas sim completamente irónico»

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«(…) É que a lenda arturiana é uma certeza em si mesma, como a religião católica ou a terapia à base de pílulas de alho. A Myrna quer brigar comigo e exibe a sua expressão mais desafiante enquanto me diz: eu creio como Hume, insisto, Hume, David Hume, meu compatriota, que só são válidos os raciocínios experimentais relativos a factos ou à experiência. Citar Hume nesta altura é como citar Santo Agostinho a propósito do Bem e do Mal. Todas as tuas dúvidas racionalistas rendem-se perante o teu filho adoptivo, Parsifal, o demandador do Santo Graal. - E quem é que te disse a ti que verdade é que estou à procura quando ironizo sobre o evidente, a cristandade do mito do Santo Graal? Ainda que seja por vezes tão idealista, estou de acordo com Duby quando diz que o historiador destas épocas avança às cegas e algumas das suas perguntas permanecem sempre sem resposta. Isso já o disseram Agamémnon e o se porqueiro. Não é um demérito, pelo contrário. O fascinante do passado e muito especialmente da Idade Média e tudo o que não sabemos. Porque é que mentes a ti própria? O que fascina é a loucura do cavaleiro à procura da transcendência, não o que essa enteléquia revela das condições subjectivas e objectivas comprováveis no século XII ou XIII. Quando eu me meti no romanismo a visão erudita dominava tudo, acumulativa de grandes ou pequenos desvelos e, agora, assume-se, pelo contrário, maioritariamente, como um avant-la-lettre do realismo mágico. Isso explicaria, por exemplo, o trabalho de Vargas Llosa sobre uma obra capital do cavalheirismo, Tirant lo Blanc. que, a propósito, foi assessorado pelo teu chefe, Martín de Riquer.
Há quarenta anos que Riquer não é o meu chefe, mas sim meu mestre. E assim continua. Não é insultante o tom de Myrna, mas sim completamente irónico, sobretudo a última afirmação dirigida ao Prémio Carlomagno e ao homem mais homenageado, pelo menos, das ilhas de San Simon, e assim o entendem os outros porque se riem da graça e conseguem dissipar toda a sombra de oposição na nossa sobremesa, que para meu desespero se alonga até que aparecem os primeiros bocejos, entre eles os meus, invasores, sem misericórdia para com o desejo que os meus olhos enviam a Myrna. Basta já de dizer disparates. Deixa que este par de mentecaptos vá para a cama. E quando parece evidente que vão para a cama, procuro na minha carteira a pílula de Viagra e engulo-a com a ajuda do resto de um excelente vinho de Gytian. Há que controlar o açúcar no sangue, justifico-me e Myrna aplaude. Finalmente descobrimos onde é que o emérito doutor Júlio Matasanz guarda o açúcar.
Despedimo-nos os quatro à medida que chegávamos aos nossos quartos, Myrna no primeiro andar, pelo que digo em voz alta: tens cá uma sorte. Eu estou no trezentos e um. Uma suíte mas lá em cima, lá em cima. Os outros descolam e entro nos meus aposentos, tentando adivinhar os efeitos que a pílula pudesse ter causado na minha psique ou no meu chouriço, e como a psique parece excitada, o chouriço permanece em repouso e à espera, talvez, da provocação da presença física de Myrna. Da presença física de uma mulher quase sessentona que já não encaixava no formato da exaltante Myrna War Breast de há trinta anos? Não quero ficar a sós com esta evidência, não fosse os efeitos do Viagra reagirem ao contrário, e visto quanto antes o pijama à espera que Myrna toque à minha porta, enquanto a recordo anos atrás em sequências estimulantes que não chegam à minha memória com a fluidez esperada, pelo contrário, aparecem como ruídos outras situações como aquela em que Myrna muito bêbeda começou a mi… quando eu tentava penetrá-la por detrás e no dia seguinte, morta de vergonha, não assistiu às sessões do congresso. Já passou um quarto de hora desde que tomei a pílula de Viagra e começa a ser urgente que Myrna War Breast se apresente com toda a sua matéria da Bretanha, e assim o interpreto quando oiço toques discretos na minha porta. Não posso evitar levar a mão ao sexo para verificar se prometia uma alta madrugada sem piedade e noto-o quase a fazer recordar os seus melhores momentos, mas ao abrir a porta de sorriso feito sai-me o Estremoz com cara de delinquente biológico. Desculpa que te incomode, mestre, mas não terás por aí algum digestivo ou sais de frutos? Os mariscos caíram-me mal nas úlceras e o senhor da recepção disse que ainda não reabasteceram a farmácia. Até amanhã». In Manuel Vázquez Montalbán, Erec e Enide, 2002, Difel, Algés, 2003, ISBN 972-29-0651-8.

Cortesia de Difel/JDACT

sexta-feira, 10 de março de 2017

Erec e Enide. Manuel V. Montalbán. «Desta fonte não te aproximes nem sequer um pouco encontrarás outra que da Lagoa da Memória faz brotar a sua fresca água»

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«(…) Erec e Enide são dois pedaços de carne baptizados, sentenciou Estremoz: tem um grande mérito que te atrevas com esses dois adolescentes, dois marmelos que Chrétien Troyes inventou para expor uma fábula sobre o amor segundo as chaves do século XII. Ou a senhora ia para a cama com o seu guarda-costas, caso de Guinevere e Lancelote, ou iam os amantes jovens fazer garganteios para as florestas desfolhadas. Atrevo-me a lembrar-te que nem Erec nem Enide foram duas invenções de Chrétien Troyes e que toda a mitologia arturiana parece nascer de si própria. embora se sustente a historicidade da maioria das personagens, de Artur por exemplo, em relatos como Sueño de Rhonabwy, onde aparece metade deus metade guerreiro. Já Rhys, demonstrou que Artur é a resultante lendária de diferentes chefes militares por vezes medievais e pode-se mais ou menos rastrear essa historicidade nos outros cavaleiros da Távola Redonda. Erec está inserido na tradição celta e assim se configurou o Gereint Mabinogiou. Geoffrey Mobinogiou descreve Artur como um guerreiro contra Hades, não contra Roma. Figueiro converte-se num director de orquestra sorridente e dá a entrada a Myrna, mas nem ela sabe a quê.
Hades, Hades..., recorda, Myrna. Encontrei nas moradas de Hades, à direita, uma fonte... Myrna descobre o que lhe pede Figueiro e a duas vozes recitam a tabuinha órfica de Petélia que está no British Museum.

Encontrei nas moradas de Hades, à direita, uma fonte,
e junto dela erguido um branco cipreste.
Desta fonte não te aproximes nem sequer um pouco
encontrarás outra que da Lagoa da Memória
faz brotar a sua fresca água. Diante estão os guardiães
diz-lhes: sou filha da Terra e do Céu estrelado,
a minha linhagem também é celeste. Vós já o sabeis
estou seca de sede e morro. Pelo que dai-me já
a água fresca que flui da fonte da Memória...

Figueiro e Myrna estão emocionados como só o estariam um tenor e uma soprano no final de um dueto e comentam que era a reivindicação mais melancólica da Memoria que nos tinha legado a literatura antiga, e apoiado por este triunfo emocional, Figueiro crê chegado o momento oportuno de voltar ao rei Artur para reforçar: que Artur fosse, já, uma personagem sem dúvida histórica, não retira a aura lendária que envolve tudo o que diz respeito ao arturiano. De tudo isso emana um encantamento simbólico e ritual situável num território igualmente imaginário.
Não discordo desta afirmação do português, mas parece-me absurdo nesta altura da minha vida e das indagações sobre a chamada matéria da Bretanha, que ainda insistamos na historicidade de Artur e dos seus cavaleiros. A matéria da Bretanha tem valor por si mesma e em si mesma, como uma religião ou uma cultura, e insistir nas suas historicidades faria parte de um dos cinco milhões de inutilidades em que se poderia empenhar qualquer inteligência com vontade de perder tempo. Era já um passo em frente que um marxista como Figueiro d’Amaral assumisse o simbólico como um valor per se e abandonasse o neopositivismo ao Círculo de Viena, um empirismo logicista ou materialismo dialéctico para tirar a magia à demanda do Santo Graal ou aos jogos de recuperação amorosa de Erec. Pois bem, Myrna põe-se neopositivista e arremete contra o idealismo que sobrevive como prova convincente para aceitar como se fosse certa a lenda arturiana». In Manuel Vázquez Montalbán, Erec e Enide, 2002, Difel, Algés, 2003, ISBN 972-29-0651-8.

Cortesia de Difel/JDACT

Erec e Enide. Manuel V. Montalbán. «… uma tese sobre a minha contribuição para o estudo da canção nacional espanhola e que se comovia cada vez que eu murmurava: este niño se lleva la flor. Que los otros no»

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«(…) Ainda que este tipo de encontros livres tivessem praticamente desaparecido nos últimos cinco anos e eu retivesse como uma sombra do meu amor-próprio os semifracassos sexuais dos últimos congressos: Leyden, Madrid, Montpellier, que me tinham obrigado a interpretar perante o doutor Buscarons o estúpido papel de marido septuagenário escassamente atraído, já, pela sua própria esposa e necessitado de uma sexualidade bioquímica. Viagra, disse ele, enquanto o seu cérebro procurava contra-indicações e não as encontrava. Não. Não és cardíaco. Não. Não sou. E receitou-me Viagra quarenta e oito horas antes de partir para a Galiza, um tesouro de comprimidos romboidais escondido na minha carteira. Um comprimido meia hora antes mais ou menos da previsão da situação sexual e relaxação mental, como antes, dissera-me Buscarons, como se antes fosse o tudo e agora o nada. Também não era assim. O meu cérebro deseja, mas ainda não o faz a partir da derrotada percepção do ancião no qual sobrevive o desejo e não a potência, mas sim da angústia do homem que necessita uma transfusão de mulher e pressente que já não seria fácil para ele procurá-la entre as mulheres jovens e sobretudo novas, à maneira das terras virgens que propiciam a tensão da conquista. Por vezes ainda pressinto uma tensão homem-mulher com as minhas alunas e deixar-me-ia levar por ela, como noutras ocasiões, mas o sete da minha nova década paralisa-me, activa o sentido do ridículo e a substituição do tal como sou pelo tal como me vêem. Jamais, jamais se disse que o doutor Matasanz cometera um deslize ao insinuar-se a esta ou aquela aluna ou professora auxiliar, nem nunca se me atribuiu fracasso algum na cama, podendo exibir uma agenda cheia de direcções propícias, mas que correspondem a mulheres que cresceram comigo, que se gastaram comigo e que só as poderia convocar para que me aplaudissem ou para que eu as aplaudisse a elas, tudo menos convocá-las para uma operação harém saudade em que Paquita Rubial exercesse o papel de esplêndida mamona mas com meia dentadura já postiça ou Mercedes Anglés voltasse a insistir em que lhe atasse aqueles noutros tempos transparentes punhos dos quais se prolongava um dorso de navio, dos melhores navios, com um … no qual se podiam comer sopas e uma c… dantesca, não debalde por mim se vai à cidade doente, escreve Dante. Outras quinze sobreviventes na minha memória erótica, de um total de quarenta e cinco mulheres que me acompanharam numa cama ou num instrumento equivalente, conduziam-me a uma sexualidade memorizada, mas não havia carne fresca, salvo a daquela bolseira italiana empenhada em levar para a frente uma tese sobre a minha contribuição para o estudo da canção nacional espanhola e que se comovia cada vez que eu murmurava: este niño se lleva la flor. Que los otros no.
Este menino leva a flor, os outros não, digo a Myrna mal fica envolvida pelos três homens que a esperavam meditativos sobre as bondades de um menu escasso, mas atractiva a caldeirada ou o sortido de mariscos, por mais que o português lhes oponha a maldição daquele que partilha o seu corpo com o colesterol. Você não tem colesterol? Não, mas poderia ter. É uma graça indirectamente dirigida a Myrna, acostumado a que se ria de tudo quanto diga, inclusive das anedotas mais disparatadas e, com efeito, desata-se a rir, ciente de que o faz sem sentido da adoração, mas sim como um simples acto reflexo compensatório do meu trabalho. Um caldinho e pernil com grelos, peço para estupefacção de Estremoz García e Figueiro d’Amaral, carcomido o primeiro por todas as úlceras que cabem num estômago humano e muito especialmente as de um catedrático por oposição, e afogado em colesterol o português, como só se pode afogar em algo um português. Totalmente. Myrna olha para mim com um ar gozão e desafiador. Está a dizer-me: logo não vais poder dormir, e sabia que eu lhe estava a responder: isso depende de ti. Os outros dois estão interessadíssimos na minha intervenção no congresso, ambos surpreendidos pela minha dedicação a Erec e Enide, os dois mitos arturianos menos estudados pelos investigadores, talvez porque não escondam qualquer mistério». In Manuel Vázquez Montalbán, Erec e Enide, 2002, Difel, Algés, 2003, ISBN 972-29-0651-8.

Cortesia de Difel/JDACT

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Erec e Enide. Manuel V. Montalbán. «Não. O sentido demasiado vulgar com que utilizas a expressão de “a ideia platónica do egoísmo”. Sei que é frequente a utilização desta fórmula, mas não é clarificadora…»

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«(…) Acompanho-os até aos seus quartos, sublinhando com um gesto que o de Myrna estava demasiado afastado da minha suite e nos seus olhos presumi a picardia de uma interrogação. Achas? Ficámos de nos encontrar um quarto de hora depois para o jantar e aproveito o tempo para pentear a minha cabeleira branca, levemente azulada por causa dos cosméticos, essa cabeleira que as minhas alunas adoram quando pousa sobre ela um raio de sol, o raio de sol de sempre, que penetra pelo vitral de sempre, ao longo dos meus quarenta anos de docência como catedrático e que já desde as suas origens adivinhou a situação exacta das minhas prematuras cãs. O cabelo e as mãos. Sei que gostam das minhas mãos capazes de traçar sulcos no ar, que secundam as minhas explicações sobre o papel do veado nos rituais célticos, o animal que fazia a ligação entre os deuses e os homens, aqueles que conduzem à sidh, o além-túmulo, ou o traçado das minhas mãos no ar atrás da metempsicose nas origens de crenças sobre a transmigração das almas de uns corpos para os outros. Através do movimento das suas mãos percebemos a corrida do veado ou o momento em que as almas saem de uns corpos e ocupam outros, diziam-me as raparigas com entusiasmo. Nos anos 50 aplaudiam, por vezes, o final das minhas aulas. Nos anos 60 foi desaparecendo esta possibilidade à medida que os estudantes se tornaram politicamente mais activos e didacticamente mais desconfiados e, inclusive, provocadoramente cínicos, embora possa dizer, com orgulho, que nunca tive nas minhas aulas nem um princípio de contestação, nem meia algazarra, o que os meus colegas não gostavam nada. E que para os rapazes tu és o saber e isso não discutem, por muito que leiam O Idiota da Família. Não liam O Idiota da Família, mas eu sim, com a mesma curiosidade com que lia o Hara Kiri ou o National Ramport ou a Vogue, para estar em dia com tudo e ter a réplica adequada a qualquer intervenção de um delegado de turma ou de qualquer das amigas de Madrona que tinham alcançado graças à Dunia ou à Vogue uma certa capacidade de entender, por fim, a sua condição feminina, não aos níveis de Simone de Beauvoir, mas quase. A Myrna ria-se do que chamava a minha versatilidade intelectual, paralela por vezes, convergente outras com a minha versatilidade vital e considerava-se uma especialista nas minhas versatilidades desde que no começo da nossa relação fixámos mais de uma vez a hora da verdade, o momento em que eu chegaria a um congresso com uma mala maior do que a habitual e viveríamos juntos para sempre. Quem perde a cátedra? Questionei-me, questionou-se, questionámo-nos e ela estava decidida a perdê-la. E faço-o consciente de que sou uma imbecil, de que atraiçoou mais de cem anos de luta pela igualdade das mulheres e que tu não mereces que eu faça este gesto porque és um egoísta, não um egoísta mais, o egoísta por antonomásia. A ideia platónica do egoísta. Não é verdade. Não é verdade? Que tu sejas um egoísta? Não. O sentido demasiado vulgar com que utilizas a expressão de a ideia platónica do egoísmo. Sei que é frequente a utilização desta fórmula, mas não é clarificadora da verdadeira dialéctica platónica. No platonismo as ideias não são necessariamente protótipos que actuam como referentes comparativos do real. Vai levar no …, atirou-me em corectíssimo castelhano e quando verificou que as minhas malas eram as de sempre, ou seja, aquela mala funcional com rodas. uma das primeiras, que tinha comprado em Colónia, deduziu ou induziu que não, que não viveríamos juntos para sempre e não foi por isso que deixou de ir para a cama comigo naquele encontro, embora a notasse um pouco distante, precisa e terminante como sempre, mas distante, como se estivesse e não estivesse comigo. como se aguardasse com impaciência o final dos coitos e do congresso. Vinte anos separavam-nos daquele encontro clarificador, uns dez congressos ou simpósios mais, uma ou outra celebração especial de homenagem a uma qualquer glória das literaturas românicas. E nunca mais voltámos a falar da possibilidade de fugir de nós mesmos para sermos outros. juntos, mas outros, e, no entanto, tínhamos de repente a necessidade de nos encontrar sem esperar congressos reais e eu inventava pretextos para viajar a Londres ou ela para vir até Barcelona, Madrid ou Granada onde nos encontrávamos porque sim, porque necessitávamos de o fazer». In Manuel Vázquez Montalbán, Erec e Enide, 2002, Difel, Algés, 2003, ISBN 972-29-0651-8.

Cortesia de Difel/JDACT

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Erec e Enide. Manuel V. Montalbán. «Oferece-me a sua face para que a beije e procuro aproximar o meu beijo à comissura dos seus lábios, ao mesmo tempo que estendo a mão aos dois cabrestos arturianos…»

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«(…) Com Figueiro d’Amaral tive um debate quase furioso no encontro arturiano de Saint-Malo quando eu defendi a tese de que o ciclo de Chrétien de Troyes testemunha a crise da cavalaria ou o início da irreversível crise da cavalaria e que só a chamada literatura cavalheiresca manteve com vida o mito do cavaleiro medieval até que foi definitivamente substituído pelo mercenário renascentista e mesmo admitindo que alguma vez houvesse cavaleiros como aqueles que foram descritos literariamente, estiveram sempre muito próximos de ser mercenários, como é o caso do Cid, invento que por vezes creio historificado e outras meramente literaturizado pelo não menos eminente don Ramon Menéndez Pidal. Que zombasse sobre a existência real ou literária do Cid indignou o português, que começou a gritar disparates como, por exemplo, que ele, apesar de ser marxista-leninista, insistiu, marxista-leninista, acreditava na existência histórica do Cid e na honesta historicidade do Cantar del Mio Cid. Disse-lhe que eu não era marxista-leninista, mas sim só aproximadamente popperiano e não acreditava nem deixava de acreditar na existência real biológica ou literária do Cid, antes pelo contrário. Quando recuperei o meu assento junto de Myrna senti um beliscão no antebraço e um sussurro junto da minha orelha: desde quando é que tu és popperiano? Disse-o só para o fo… Quanto ao outro, o extremado Estremoz, repetia até à exaustão que era meu discípulo, apesar de se ter doutorado pela Universidade de Salamanca, e tudo isso porque fiz parte do júri do seu doutoramento e também do que lhe outorgou a cátedra, votando a seu favor porque a tese de doutoramento não era má e os meus votos para a sua cátedra outorgavam-me os de outros dois membros do júri quando eu quisesse beneficiar um dos meus discípulos optantes igualmente à cátedra. Sabia, pois, que mal me visse no cais, o grande cretino do Estremoz García se baixaria em inclinada reverência e exclamaria: salve, divino mestre!
E o menéndezpidalianomarxistaleninista português faria com a mão uma pistola e dava-me dois tiros, enquanto os olhos de Myrna me diriam: não os pude evitar. Mas alguma coisa transtornou as nossas vidas porque, à medida que se aproximam, os três olham-me cada vez mais sorridentes e já desembarcados não há salve nem tiros, nem os olhares cúmplices de Myrna, como se alguma coisa tivesse mudado em mim, não neles, e a minha nova natureza os forçasse a alterar a pose em presença de um ilustre professor já embalsamado e Myrna capta-o melhor que ninguém porque adopta compostura de récita teatral e exclama: Deus salve Carlos Magno, aquele por quem a alegria e o prazer regressou à nossa corte! Deus salve o mais bem-aventurado dos criados por Deus ! Era mais ou menos um fragmento coral do final de Erec e Enide, com o acrescento da alusão ao Prémio Carlomagno, e agradeço com um sorriso que procuro que seja simpático. Oferece-me a sua face para que a beije e procuro aproximar o meu beijo à comissura dos seus lábios, ao mesmo tempo que estendo a mão aos dois cabrestos arturianos, que ma apertam com vontade de ma amputar. Como é que se come por aqui? Myrna tinha chegado com uma das suas fomes míticas e era inútil desviá-la desta obsessão quando o corpo lhe pedia alimento e calorias, pelo que ilustrei-a sobre o digno jantar que a esperava no hotel, tendo em conta que o seu funcionamento estava em fase experimental e em certo sentido tinha-se esforçado para receber a minha homenagem. Ocupa-nos tanto o cérebro o ruído do rodar das malas sobre o empedrado que não fica espaço mental para urdir uma conversa e as sombras não ajudam a que os meus olhos ou os de Myrna transmitam uma mensagem suficiente. Mas o seu meio-sorriso revela-me que está consciente de que há uma conversa muda entre nós e que se tornaria explícita mal superássemos os obstáculos da fome, do português e do cretino do meu falso discípulo falsamente predilecto. Recordei-a nua, acentuando com as suas mãos a tenacidade dos seus seios, despreocupada da humidade quente do seu sexo loiro e não fui capaz de juntar a imagem com o seu tempo ou com o seu exacto congresso, ou talvez fosse o ícone erótico que sugeria a história dos nossos encontros arturianos acamados». In Manuel Vázquez Montalbán, Erec e Enide, 2002, Difel, Algés, 2003, ISBN 972-29-0651-8.

Cortesia de Difel/JDACT

terça-feira, 7 de abril de 2015

Erec e Enide. Manuel V. Montalbán. «Compreendo que a letra é vexatória para a inteligência humana, mas uma certa dose de irracionalidade ajuda-nos a continuar a ser racionais no fundamental. Como este movimento irracional que me leva ao cais…»

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«(…) Já o conhecimento entre ele e ela parte da defesa contra os vexames do anão na presença da rainha Guinevere e para a continuação do seu renascimento como cavaleiro, Erec deverá salvar Enide dos três cavaleiros ladrões, de cinco cavaleiros agressivos, do conde Galoain, dos gigantes traidores ou do conde de Limours, o qual finalmente vence com a ajuda do rei Guivert, o Pequeno, um falso inimigo providencial. Depois Erec e Enide chegam à última prova, a libertação de Maboagrain, príncipe encantado, ligada à grande festa fim de trajecto, A Alegria da Corte, presidida por Artur e Guinevere, com a última prova do seu combate com Maboagrain, para libertá-lo da maldição que o obriga a defender um vergel que é, ao mesmo tempo, prisão de amor. As sequências finais de Erec e Enide foram sempre vistas por mim como agridoces, ambíguas, melancólicas apesar do final feliz. A Alegria da Corte, o nome da casa de Llavaneres que Madrona herdou da sua mãe e que se chamava estupidamente El Remolí de Vent e a que a minha mulher concordou em mudar o nome ainda que arguisse que A Alegria da Corte era demasiado parecido com La Alegria de la huerta, uma zarzuela que julgava ser inconsistente como todos quantos pensaram educar o seu gosto musical nos detestáveis, grosseiros e asfixiantes serões de ópera do Liceu. Eu tinha herdado do meu pai uma certa curiosidade pela zarzuela, já que ele se julgava um bom barítono e se atrevia a cantar quando eu era pequeno, nas escassas reuniões da nossa escassa família ou dos escassos amigos de meus pais. À medida que eu fui crescendo foi renunciando às veleidades líricas, talvez porque lhe desse vergonha fazê-lo diante de mim e recorria às sessões de casa de banho para entoar uma ou outra ária:

Mi aldea
como el alma se recrea al volverte a contemplar
mis lares
despues de cruzar los mares otra vez vuelvo a mirar.

O meu pai nunca tinha sido um homem demasiado expressivo, mas mais tarde compreendi que a minha ascensão cultural o tinha despojado do laconismo que exibia e, desde que eu passei o exame do Estado com distinção, reinava naquela casa o silêncio porque eles nem se falavam por cansaço e nem me falavam por timidez, e eu correspondia da mesma maneira, não por orgulho mas sim porque compreendi que o meu código nunca mais seria o seu. Mas, por vezes, canto zarzuela. Mais tenor que barítono lanço-me à La tabernera del puerto:

No puede ser
esa mujer es buena
no puede ser
una vulgar sirena.

Compreendo que a letra é vexatória para a inteligência humana, mas uma certa dose de irracionalidade ajuda-nos a continuar a ser racionais no fundamental. Como este movimento irracional que me leva ao cais para ver se chega a lancha de Myrna, um pouco angustiado porque só faltam dois barcos regulares e, ao chegar mais tarde, Myrna teria de procurar um barqueiro simpático que estivesse disposto a levá-la às ilhas. E rompe o mar, como se o iluminasse, a lancha que a traz, tenho a certeza, e confirma-o o brilho da sua cabeça dourada por um excelente tom que evoca a cor natural da sua bem acabada juventude, ainda que o meu prazer pela chegada se dissipe ao vê-la acompanhada por dois colegas que se vão, não pelo melhor, insinuando: o chato do Figueiro Amaral e o insuportável Aurelio Estremoz Garcia, para servir a Deus e a si como costuma repetir uma e outra vez, pensando que é engraçadinho ou ateu, na sua imperfeição». In Manuel Vázquez Montalbán, Erec e Enide, 2002, Difel, Algés, 2003, ISBN 972-29-0651-8.

Cortesia de Difel/JDACT

domingo, 1 de março de 2015

Erec e Enide. Manuel V. Montalbán. «O que nos importa a nós, catedráticos de Literatura Medieval, o uso contingente que cada apresentação lida faça desses mitos? O mais jovem cavaleiro da Távola Redonda enamora-se e casa-se com Enide…»

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«[…] Camelot e os cavaleiros da Távola Redonda conseguiram meter-se na indústria cultural do século XX e provavelmente do século XXI como mitos intrusos que evocam e representam, portanto, a relativa ausência de um vencido que deve a sua sobrevivência a essa ausência, sem a suficiente história para ser codificado e com a suficiente magia para se colar às portas traseiras da memória literária. Mas Artur, obstinadamente, promete voltar, assim como o rei Sebastião ou Emiliano Zapata ou o general MacArthur, para terminar a obra que deixaram por concluir. As mitologias são só relativamente interactivas, são antes classistas e sobretudo assumem a estratégia da comparação carregada de preconceitos religiosos ou filosóficos, com vontade de hegemonia religiosa ou filosófica. E essa vontade de hegemonia, implícita ou explícita, a que desencadeia o processo comparativo, mas é difícil conservar esses preconceitos quando comparamos mitologias desproporcionadas e sucessivas. É o caso da grega e da arturiana não puramente céltica, mas sim passada pela grega. Se o rei Artur é filho de Alexandre Magno, tal como o apuraram Ralf, Hefer e Olshki, de quem o são Erec ou Enide? As suas origens estão nos mitos celtas, entroncados com a família dos amantes hercúleos que devem vencer mil dificuldades por causa do seu amor, como Tristão e Isolda na sua manifestação mais obstinada. Erec e Enide foram referentes cambiáveis segundo os gostos interpretativos de diferentes épocas, mas normalmente passam da leitura normativa de protagonistas que posam para expressar o amor cortês ou como aprendizes de uma nova forma de amar e neste sentido são mitos abertos ao metabolismo de todos os tempos. Quando eu era um estudante sob a autoridade do doutor Martín de Riquer no final dos anos 40, começo dos anos 50 do século XX, predominava a interpretação épica das façanhas de Erec para defender a sua amada; mas quando eu era professor auxiliar de Riquer, dez anos mais tarde, a influência do cinema de Antonioni, concretamente ou o restabelecimento da ética do casal, fazia com que os estudantes se apropriassem da história como fábula da insegurança do amor que deve reconstruir-se todos os dias. Entre o ler Erec e Enide como um manual de épica amatória ou lê-lo como uma angustiada manifestação da crise do casal medeia muita razão e muita sem-razão, ainda que por vezes devessemos abandonar a nossa ambição de especialistas determinadores de verdades cada vez menos questionáveis ou mutáveis, porque as verdades movem-se, crescem, decrescem, e, por vezes, inclusive, desaparecem. Deveríamos compreender e apoiar a leitura secular e a propriedade geral dos mitos, ou seja, a socialização dos mitos, e desculpem o uso da expressão tão pouco académica, e também socialmente tão referida. Erich Kohler sustenta em A Aventura Cavalheiresca que as lendas encobrem histórias reais e que chega um momento em que não se distinguem lenda e história real, pelo que deduzo eu, quando entram na história da literatura não nos interessa fazer muito esforço em saber a extensão da verdade histórica que há num mito, numa lenda resolvida literariamente. Podemos fixar-nos metas eruditas mas sabemos que a literatura depende do leitor e que cada leitor descodifica o que lê à margem das nossas instruções tanto mais intransferíveis quanto a proposta literária mais se afasta do contemporâneo. Nós necessitamos de saber específico para ler apaixonadamente Erec e Enide, mas os leitores contemporâneos, se os houvesse, de uma versão de leitura convencional, fariam a sua própria escolha de significantes em função de cada substrato pessoal, da informação cultural incluída...[…]
Onde é que vais parar, Júlio, questionar-se-ão, neste momento da leitura, todos, mas sobretudo Myrna, e olhar-me-á da sua cadeira com olhos divertidos? Uma abjuração do erudito? Então, para que é que servimos se não for para descobrir, um dia, de que mito era filho Erec ou Enide? O que nos importa a nós, catedráticos de Literatura Medieval, o uso contingente que cada apresentação lida faça desses mitos? O mais jovem cavaleiro da Távola Redonda enamora-se e casa-se com Enide para iniciar então uma retirada vida amorosa muito criticada pelos outros cavaleiros, infradotados para compreender que Erec prefira o amor à guerra. E é então, quando conhecedor dessas críticas, que Erec prepara uma aventura sem limites: Enide seguirá à sua frente, sozinha, exposta aos perigos do mundo e quando surjam as ameaças, Erec sairá em sua defesa, para a recuperar em cada lance». In Manuel Vázquez Montalbán, Erec e Enide, 2002, Difel, Algés, 2003, ISBN 972-29-0651-8.

Cortesia de Difel/JDACT

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Erec e Enide. Manuel V. Montalbán. «Meus caros colegas e amigos: outorga-me uma certa liberdade de forma e de fundo o facto de estar a pronunciar esta conferência no dia da minha morte como catedrático, quase a ingressar no Limbo dos eméritos, que somos algo assim como capitães-generais»

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«(…) Saio do hotel, contorno a praça de palmeiras com uma fonte e a esplanada de um restaurante para me dirigir pela avenida emoldurada por buxos centenários que conduzia até ao Mirador da Boca da Ria, que sobretudo contempla o fragmento de auto-estrada que salta através do céu para unir Vigo com Marín e Pontevedra. Nunca tinha visto buxos tão majestosos, tão libertos da sua condição de arbustos e tão bem plantados; em contraste, a sua disciplina com a liberdade com que tinham crescido na ilha acácias, castanheiros, tílias, camélias, pinheiros, eucaliptos e plátanos emergentes sobre tapetes espontâneos de ervas trepadeiras filhas das chuvas galegas, como os fetos que coabitam com as palmeiras nesta frágua ilha de vegetais robinsons de um primitivo naufrágio da natureza. O buxo foi na antiguidade um símbolo funerário e, ao mesmo tempo, de imortalidade pelo seu perene verdor, morte e eternidade, por isso substitui a palmeira do Sul na celebração do Domingo de Ramos dos povos nórdicos e encarna o mistério do ciclo da vida e da morte em quase todas as mitologias. E ali está como um desmesurado vegetal para ilhas tão pequenas, quase impossíveis em função das construções que crescem dia a dia, como se tentassem reconverter passados tão tristes ou tão canalhas. Para um homem de70 anos, quase 71, é impossível percorrer esta avenida sem alarme, entre a ameaçadora presença da natureza questionando a minha hegemonia de predador de tudo o que é vivo, sejam alfaces, sejam avestruzes. Avestruzes ou cangurus. Lembro-me da indignação moral que vivi quando verifiquei que a carne de avestruz ou de canguru tinha penetrado no nosso mercado alimentar, como se não nos bastasse uma nutrição criminosa baseada na escravidão e sobre-exploração de vacas, borregos, porcos, frangos e, inclusive, de trutas, lagostas, ostras de cultura, uma miserável oferta para o apregoado Rei da Criação, normalmente um malvado imbecil que mereceria morrer de fome.
Merecê-lo-ia, se não soubesse a lista de reis godos ou dos carolíngios ou das capitais do mundo resultante da queda do Muro de Berlim ou de como cozinhar os seus próprios crimes, elevando-os à condição de gastronomia. A cultura patrimonial e a linguagem divulgadora são as provas convincentes da nossa hegemonia, tendo em conta que o dinossauro morreu porque era um dinossauro e as formigas irão sobreviver depois de nós, mas escravas de uma logica cavernária que as impedirá de lutar pelo poder contra os ácaros e contra as mulheres. Os ácaros ganharão. Sinto-o pelas formigas e pelas mulheres, ainda que as duas alternativas circulem prepotentes da aparente ausência de vontade de poder, as formigas, ou da denúncia da masculina vontade de poder, as mulheres. Sarcástica mentira, sobretudo para o velho catedrático que observou cinquenta anos de ascensão das suas colegas femininas, com uma capacidade de mordedura e embuste perfeitamente masculina, quando não utilizaram mesmo as mamas ou as co…, das quais carecem quase todos os homens. Sinto-o. Sou um misógino. Mas as mulheres não poderão com os ácaros. Os ácaros aguentam, inclusivamente, a bomba de neutrões e não necessitam de se disfarçar de outra coisa para permanecerem no ar ou nos nossos pulmões. Estão em todo o lado. São Deus. Repetem o poder do invisível para criar ou destruir o visível.
[…]
Meus caros colegas e amigos: outorga-me uma certa liberdade de forma e de fundo o facto de estar a pronunciar esta conferência no dia da minha morte como catedrático, quase a ingressar no Limbo dos eméritos, que somos algo assim como capitães-generais sem comando de praça ou rainhas-mães com urgentes e urgidos príncipes herdeiros. E se escolhi como matéria Eric e Enide, o primeiro romance do ciclo arturiano de Chrétien Troyes, é porque não passou à nossa cultura arturiana como o mais relevante, sepultado pela prepotência simbólica de outros heróis, Parsifal e Lancelote os mais singulares, nada menos que as histórias do demandador do Santo Graal, ou seja, da Redenção, ou seja, do Absoluto, ou o cavaleiro maldito por um amor excessivo com a rainha Guinevere, a mulher do patrão. Tereis observado certas liberdades expositivas no início deste discurso final, quase sem citações, porque a velha querela, mesmo para os romanistas da minha geração, entre manière e matière, revive ainda que não a convoquemos e ressuscitou-me, exigindo-me que uma conferência informal não tenha outra forma que a informalidade, dentro dos limites. A cultura literária, derivada do possível substrato mítico e simbólico greco-latino, alimentou-se desses referentes e disfarçou-os ou modificou-os em contacto com mitos e símbolos que lhe chegaram dos bárbaros, sejam as sagas nórdicas ou o avassalador brio dos heróis ário-germânicos tão recentemente recodificados por Wagner e pelo nazismo ou os mitos celtas que se colaram na literatura da Baixa Idade Média e do primeiro Renascimento, mais tarde relegados até que regressam com o romanticismo, com a força que, por vezes, conservam os vencidos e os mortos. […] In Manuel Vázquez Montalbán, Erec e Enide, 2002, Difel, Algés, 2003, ISBN 972-29-0651-8.

Cortesia de Difel/JDACT

domingo, 21 de dezembro de 2014

Erec e Enide. Manuel V. Montalbán. «São actos que exemplificam a vontade de me portar bem comigo mesmo, muito meritoriamente, porque à minha volta não costuma haver habitualmente esse círculo protector familiar que, observo, envolve os homens maduros…»

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«(…) Chegaria rapidamente a San Simón o implacável anoitecer de Dezembro e o meu observatório seria inútil, sem outro remédio senão ir até ao cais à espera dos últimos transbordos do dia, decido, assim, antecipar o breve passeio permitido pelas ilhotas unidas no seu canto da baía de Vigo, apenas um pretexto terrestre que tinha cumprido funções de centro religioso, templário, disputado por reis e bispos, conventual e sanitário, prolongado lazareto, caserna, prisão de vermelhos durante e depois da guerra civil de 1936, albergue dentro da rede de Albergues Nacionais do Movimento Nacional Sindicalista, lar para órfãos de marinheiros, ruína e pré-ruína restaurada pela Xunta da Galiza para a converter em centro cultural, convocada uma vez mais a cultura para tapar os horrores da vida e da história e transformar-se na sua metáfora. - Você insiste em que a sede do encontro em sua homenagem seja San Simón, don Júlio? Talvez em La Toja ou na Universidade de Santiago fosse tudo mais amplo. - San Simón, se está em condições. - Esperemos que esteja.
Eu sabia da existência do projecto de remodelação de San Simón como consequência de uma conferência no Club Faro de Vigo e a sua indutora, Marisa Real, tinha-me facilitado uma visita às ilhas na companhia de dois arquitectos, Pilar Rojo, da Consellería de Cultura, e Pepe Pichel. Fiquei encantado com a assessoria dos meus acompanhantes e pelo lugar, sobretudo por arqueologias emocionais tão diversas como desafortunadas, sepultadas pelo tempo, agora ressuscitadas ou restauradas por uma equipa técnica dirigida pelo arquitecto César Portela, e quando tive de escolher o cenário da minha homenagem de aposentação lembrei-me que a conotação cul-de-sac das ilhas, tão próximas e, ao mesmo tempo, tão distantes da terra chamada firme, as convertia num palco de despedida de um especialista em saberes tão arqueológicos como os medievais e quase contemporâneo da arqueologia carcerária do lugar, segundo me tinha informado na monografia de José António Orge Quinteiro, inventário de horrores da repressão franquista. O conselleiro de Cultura do governo autónomo, o senhor Perez Varela, forçou o andamento da restauração e a minha homenagem terá um marco melhor ou pior acabado, mas estará pronto nas ilhas unidas pela ponte tão sóbria como bela e rítmica, de uma eficácia de engenharia militar bordado o granito por vegetações como crostas, pátinas do tempo neste caso criadas pelas humidades do mar e das que chegam com o vento através da ria. Mas antes de sair tenho de verificar a minha tensão e o índice de açúcar no sangue e tiro o meu equipamento provisório para verificar que estou com 11,7 e 7,5, uma excelente tensão, e, pelo contrário, apesar das horas que já passaram desde o almoço tenho 180 de índice de açúcar, nada alarmante ainda que limite com o heterodoxo. O ritual das verificações da minha tensão arterial e as idas e vindas do que não tem um nome determinado mas que poderá ser considerado uma sombra de diabetes, fazem parte dos sublinhados do dia; e puxar a manga do meu punho esquerdo para receber a peça da máquina Omron RX Matusaka-Japão ou procurar o dedo mais irrigado para receber a picadela do Glucometer Elite são prazeres litúrgicos que substituíram a quase proibição do álcool, que não respeito, e do tabaco, que, de facto, respeito. São actos que exemplificam a vontade de me portar bem comigo mesmo, muito meritoriamente, porque à minha volta não costuma haver habitualmente esse círculo protector familiar que, observo, envolve os homens maduros ou os velhos ameaçados por doenças crónicas e deteriorantes. A minha mulher, Madrona, cumpriu perfeitamente um papel inicial de indutora a estas rotinas sanitárias, mas depois, como em tudo, respeitou a minha liberdade de compromisso e decisão, tanto na matéria arturiana como na prevenção da diabetes e da hipertensão.
No vestíbulo do pequeno hotel Stella Maris aguardam-me os cartazes que anunciam o acontecimento que começará depois de amanhã:
  • Homenagem ao professor emérito Jútio Matasanz das Reais Academias da Historia e da Língua. Simposium: A regeneração de um mito arturiano Erec e Enide. Com o patrocínio da Xunta da Galiza, da Real Academia da Língua Espanhola, Real Academia da Historia, Universidade de Barcelona, Yale University, Universidades de Vigo e de Santiago de Compostela e da Societe Arturienne.
Toda esta informação está colocada sobre um fundo que reproduz o perímetro da gravura de Dürer O Cavaleiro, o Diabo e a Morte. Não tive qualquer intervenção na escolha do motivo gráfico e se me tivessem consultado eu teria proposto uma outra alternativa, sobretudo nestes tempos em que os assuntos arturianos se estudam na sua relação com o miniaturismo a que deu lugar, miniaturismo tão presente na formidável edição dos manuscritos de Chrétien de Troyes a cargo de Bushy Kates. A gravura de Dürer desagrada-me porque fiquei desencantado com ela numa determinada altura. Tinha-a visto tantas vezes reproduzida e tantas vezes a tinha imaginado, apesar da sua condição de gravura, como uma impressionante e quantitativamente importante peça, que quando pude ver o original pareceu-me uma minúcia que atraiçoava a transcendência do assunto, como se fosse a própria prova de que maniére e matiére se podem dissociar. Talvez me desagrade também que se teria seleccionado a impossível dialéctica entre cavaleiro e a morte para a sessão final da minha própria carreira universitária, da minha própria vida e, no fim de contas, eu mesmo tenha contribuído para a construção do meu imaginário: um cavaleiro do trabalho intelectual bem executado que invade os últimos anos que lhe atribui o código genético como os cavaleiros medievais invadiam os bosques aparentemente proibidos para os desvelar». In Manuel Vázquez Montalbán, Erec e Enide, 2002, Difel, Algés, 2003, ISBN 972-29-0651-8.

Cortesia de Difel/JDACT

sábado, 22 de novembro de 2014

Erec e Enide. Manuel V. Montalbán. «Tinha a cara bonita, mas demasiado pequena para justificar a sua arrogância, quase impertinência que, sem dúvida, se sustentava sobre o triângulo harmonioso da cintura e dos peitos, ainda que se se conseguisse deixar de olhar para eles…»

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«Seriam’eu na ermida de San Simon
e cercáronmi as ondas que grandes son
eu atendend’o meu amigo! E verrá?

Estando na ermida, ant’o altar
cercáronmi as ondas grandes do mar
eu atendend’o meu amigo! E verrá?

E cercáronmi as ondas, que grandes son
nen ei barqueiro nen remador
eu atendend’o meu amigo! E verrá?

E cercáronmi as ondas do alto mar
non ei barqueiro nen sei remar
eu atendend’o meu amigo! E verrá?

Non ei barqueiro nen remador
morrerei, fremosa, no mar maior.
eu atendend’o meu amigo! E verrá?

Non ei barqueiro nen sei remar
morrerei eu, fremosa, no alto mar
eu atendend’o meu amigo! E verrá?»
Mendinho, ‘século XIII

«Estava eu na ermida de San Simón/ e cercaram-me as ondas que grandes são/ eu esperando o meu amigo! Virá?// Estando eu na ermida ante o altar/ cercaram-me as ondas grandes do mar/ eu esperando o meu amigo! Virá?// E cercaram-me as ondas que grandes são/ nem tenho barqueiro nem sei remar/ eu esperando o meu amigo! Virá?// E cercaram-me as ondas do alto mar/ não sou barqueiro nem sei remar/ eu esperando o meu amigo! Virá?// Não tenho barqueiro nem remador/ morrerei, formosa, no mar maior/ eu esperando o meu amigo! Virá?// Não tenho barqueiro nem sei remar/ morrerei formosa no alto mar/ eu esperando o meu amigo! Virá?»

«O prémio Carlomagno ilumina-se. Fez parte, suponho, dos meus sonhos e aí está, ao meu alcance. Só me levantarei para o ir receber a Mainz ou a Bruxelas, ainda está por decidir, no começo da próxima Primavera. Lembro-me dele todos os dias, quando acordo, e imagino-me a recebê-lo, tenho, inclusive, já pensado o eixo do pequeno discurso que devo pronunciar. Vou por aí de discurso em discurso ainda que lhe chame conferências e amanhã, precisamente amanhã, 23 de Dezembro, vou pronunciar um sobre A Transubstanciação Mítica de Erec e Enide. Da janela do meu quarto do hotel posso ver o percurso das escassas lanchas que vêm de Cesantes até ao pequeno porto das unidas ilhas de San Simon e de San Antonio, e, ainda que ignore a que horas seja o transbordo de Myrna, confio que o simples gesto de me assomar, de me encostar no parapeito, encurtará a chegada de Mrs. War Breast. Com a vetustez de quase 30 anos, Myrna War Breast aparecia em flashback num encontro de arturianos em Exeter, um impressionante cabelo loiro curto, pescoço ao estilo de Modigliani mas corrigido pela ginástica rítmica de todas as manhãs, cintura de vespa para aumentar ao máximo a oferta dos seus dois peitos suficientes e ao mesmo tempo espectaculares, capazes de ficarem suspensos no vazio sem soutien, uma homenagem da natureza a si mesma, os peitos de Myrna, a nona maravilha do mundo, como costumam qualificá-los os artúricos, arturistas ou arturianos. E como Burton observara o efeito que Myrna me tinha causado, advertiu-me: - Júlio, ela é perigosíssima. Tem apenas trinta anos e já se divorciou duas vezes. Mas esta é das que se divorciam para se casar e adora substituir um especialista em assuntos arturianos por outro especialista em assuntos arturianos. Vem aqui, seguramente, à caça.
Tinha a cara bonita, mas demasiado pequena para justificar a sua arrogância, quase impertinência que, sem dúvida, se sustentava sobre o triângulo harmonioso da cintura e dos peitos, ainda que se se conseguisse deixar de olhar para eles e se se levantasse a vista via-se um notável rosto onde os lábios e os olhos segredavam e, ao mesmo tempo, prometiam malícias, sobretudo os olhos que pareciam saber tudo e ter visto tudo sobre ti. Era do mais bonito que eu jamais tinha contemplado em qualquer universidade ou congresso, especialmente entre o professorado, e, talvez por isso, me tivesse custado dois encontros, o de Exeter e o de Saint-Malo, até considerá-la como um colega mais, competitivo e extraordinariamente preparado, sobretudo no tratamento do Graal da lenda arturiana, a partir de um certo fascínio por Parsifal, o Galês, o filho da Dama Viúva, de quem Myrna avaliava que lhe bastava a contemplação da passagem de cinco cavaleiros para saber que não podia ter outro destino que não fosse o da cavalaria. A maternidade três vezes referendada de Myrna tinha-a ajudado a assumir o papel da mãe de Parsifal, aterrorizada pela sorte do seu filho mais novo e único, já que o seu esposo e os filhos mais velhos tinham morrido em lances de cavalaria. Parsifal era como se fosse um filho adoptivo de Myrna, especialmente na versão de Chrétien de Troyes, e sentia demasiado concluído o Parsifal de von Eschenbach, ainda que assumisse o grande interesse de sublinhar a dualidade da personagem, herói contraditório, bom e mau ao mesmo tempo. Nem sequer uma professora especialista em literatura medieval pode negar de todo a dependência à sua época de culminação adolescente, a de Myrna ultimada com os anos 50, quando o cinema transformava heróis ambíguos em bens de consumo. Raramente um especialista em matéria arturiana ou da Bretanha é apenas um especialista num assunto tão subtil como breve, pelo que a maioria dos especialistas entram por outras causas da Baixa Idade Média ou, inclusive, vão até ao Renascimento ou se exilam, como Myrna, noutras épocas e culturas e conseguem, como ela, ser uma autoridade universal em Defoe. Porquê precisamente Defoe? Porque estava ao serviço da revolução burguesa? Não. Sou partidária de Defoe porque era um confidente, esteve condenado ao pelourinho e, no entanto, criou o protótipo do herói do seu tempo, o Robinson Crusoe». In Manuel Vázquez Montalbán, Erec e Enide, 2002, Difel, Algés, 2003, ISBN 972-29-0651-8.

Cortesia de Difel/JDACT