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terça-feira, 27 de outubro de 2020

O Perfume. Patrick Suskind. «No século XVIII viveu em França um homem que se inseriu entre as personagens mais geniais e mais abomináveis desta época que, porém, não escasseou em personagens geniais e abomináveis»

Cortesia de wikipedia e jdact

A história de um assassino

«Esta estranha história passa-se no século XVIII e é fruto de um extraordinário trabalho de reconstituição histórica que consegue captar plenamente os ambientes da época tal como as mentalidades. O protagonista é um artesão especializado no ofício de perfumista, e essa arte constitui para ele, nascido no meio dos nauseabundos odores de um mercado de rua, uma alquímica busca do Absoluto. O perfume supremo será para ele uma forma de alcançar o Belo e, nessa demanda nada o detém, nem mesmo os crimes mais hediondos, que fazem dele um ser monstruoso aos nossos olhos. Jean-Baptiste Grenouille possui no entanto uma incorrupta pureza que exerce um forte fascínio sobre o leitor. O Perfume, publicado em 1985, de um autor então quase desconhecido, foi considerado um dos mais importantes romances da década e nunca mais deixou de ser reeditado desde então, totalizando os 4 milhões de exemplares vendi dos, só na Alemanha, e 15 milhões em países estrangeiros. Foi traduzido em 42 línguas. Este fenómeno transformou-o num dos mais importantes livros de culto de sempre». In Sinopse

«No século XVIII viveu em França um homem que se inseriu entre as personagens mais geniais e mais abomináveis desta época que, porém, não escasseou em personagens geniais e abomináveis. É a sua história que será contada nestas páginas. Chamava-se Jean-Baptiste Grenouille e se o seu nome, contrariamente aos de outros grandes facínoras de génio, como, por exemplo, Sade, Saint-Juste, Fouché, Bonaparte, etc., caiu hoje em dia no esquecimento, tal não se deve por certo a que Grenouille fosse menos arrogante, menos inimigo da Humanidade, menos imoral, em resumo, menos perverso do que os patifes mais famosos, mas ao facto de o seu génio e a sua única ambição se cingirem a um domínio que não deixa traços na História: ao reino fugaz dos odores. Na época a que nos referimos dominava nas cidades um fedor dificilmente imaginável para o homem dos tempos modernos. As ruas fediam a lixo, os saguões fediam a urina, as escadas das casas fediam a madeira bolorenta e a caganitas de rato e as cozinhas a couve podre e a gordura de carneiro; as divisões mal arejadas fediam a mofo, os quartos de dormir fediam a reposteiros gordurosos, a colchas bafientas e ao cheiro acre dos bacios. As chaminés cuspiam fedor a enxofre, as fábricas de curtumes cuspiam o fedor dos seus banhos corrosivos e os matadouros o fedor a sangue coalhado. As pessoas fediam a suor e a roupa por lavar; as bocas fediam a dentes podres, os estômagos fediam a cebola e os corpos, ao perderem a juventude, fediam a queijo rançoso, leite azedo e tumores em evolução. Os rios fediam, as praças fediam, as igrejas fediam e o mesmo acontecia debaixo das pontes e nos palácios. O camponês cheirava tão mal como o padre, o operário como a mulher do mestre artesão, a nobreza fedia em todas as suas camadas, o próprio rei cheirava tão mal como um animal selvagem e a rainha como uma cabra velha, quer de Verão quer de Inverno. Isto porque neste século XVIII a actividade destrutiva das bactérias ainda não encontrara fronteiras e não existia, assim, qualquer actividade humana, quer fosse construtiva ou destrutiva, qualquer manifestação da vida em germe ou em declínio, que estivesse isenta da companhia do fedor. E era, naturalmente, em Paris, que o fedor atingia o índice mais elevado, na medida em que Paris era a maior cidade da França. E no seio da capital existia um lugar onde o fedor reinava de uma forma particularmente infernal, entre a Rua aux Fers e a Rua de la Ferronerie, na realidade, o Cemitério dos Inocentes. Durante oitocentos anos, tinham-se transportado para lá os mortos do Hotel Dieu e os das paróquias vizinhas; durante oitocentos anos havia-se trazido até ali, dia após dia, em carroças, os cadáveres que eram atirados às dúzias para fundas valas; durante oitocentos anos, havia-se acumulado camadas sucessivas de ossos nas carneiras e ossuários. E foi só mais tarde, em vésperas da Revolução Francesa, quando algumas destas valas comuns se abateram perigosamente e o fedor deste cemitério a abarrotar desencadeou entre os habitantes das margens do rio não apenas protestos mas verdadeiros motins, que acabaram por encerrá-lo e esvaziá-lo, tendo sido os milhões de ossos e crânios empurrados à pá na direcção das catacumbas de Montmartre e construído um mercado, em sua substituição, neste local. Aqui, no sítio mais fedorento de todo o reino, nasceu Jean-Baptiste Grenouille, a 17 de Julho de 1738. Foi um dos dias mais quentes do ano. O calor pesava como chumbo sobre o cemitério, projectando nas ruelas vizinhas o seu bafo pestilento, onde se misturava o cheiro a melões apodrecidos e a trigo queimado. Quando começou com as dores de parto, a mãe de Grenouille encontrava-se de pé, atrás de uma banca, na Rua aux Fers, a escamar as carpas que acabava de estripar. Os peixes, supostamente pescados no Sena nessa mesma manhã, já cheiravam pior do que um cadáver. A mãe de Grenouille não distinguia, no entanto, entre o cheiro a peixe e o de um cadáver, na medida em que o seu olfacto era extraordinariamente insensível aos cheiros, e, além disso, a dor que lhe apunhalava o ventre eliminava toda a sensibilidade às sensações exteriores. Apenas desejava que a dor parasse; desejava pôr termo o mais rapidamente possível a este repugnante parto. Era o seu quinto. Todos os outros se haviam verificado atrás desta banca de peixe e sempre se tratara de nados-mortos, ou quase, porque a carne sanguinolenta que dela se escapava não se diferençava grandemente das miudezas de peixe que juncavam o solo, e também não possuía, além disso, muito tempo de vida; à noite, tudo era varrido a trouxe-mouxe e levado nas carroças, em direcção ao cemitério ou ao rio. Era o que deveria passar-se, uma vez mais, naquele dia e a mãe de Grenouille, que ainda era jovem, vinte e cinco anos feitos, que ainda era bonita, que conservava quase todos os dentes e tinha ainda cabelos e que, independentemente da gota, da sífilis, e de uma leve tuberculose não sofria de qualquer doença grave, que esperava viver ainda muito tempo, talvez cinco ou dez anos, e talvez até mesmo casar um dia e ter verdadeiros filhos na qualidade de respeitável esposa de um artesão viúvo (por exemplo)..., a mãe de Grenouille desejava que tudo já tivesse acabado. E quando as dores de parto se fixaram, agachou-se, deu à luz debaixo da sua banca de peixe tal como das vezes anteriores e cortou com a faca de peixe o cordão umbilical do recém-nascido. Em seguida, porém, e devido ao calor e ao mau cheiro que ela não apercebia como tal mas como algo de insuportável e estonteante, um campo de lírios ou uma divisão demasiado pequena a transbordar de junquilhos, desmaiou e caiu para o lado e rolou debaixo da banca até ao meio da rua, onde ficou estiraçada com a faca na mão. Gritos, correrias, a multidão de basbaques à roda e alguém que vai chamar a Polícia». In Patrick Suskind, O Perfume, A história de um assassino, 1985/1986, Editorial Presença, 2013, ISBN-978-972-231-448-0.

Cortesia de EPresença/JDACT

JDACT, Patrick Suskind, Mistério, Crime,

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

O Perfume. Patrick Suskind. «Sim, asseverou a ama. E se ele não tem o odor que tu, a ama Jeanne Bussie, da Rua Saint-Denis, achas que deve ter, isso significa que é um filho do Diabo?»

jdact

«(…) Contudo, vou dizer-te uma coisa: não és a única ama na paróquia. Há centenas de mães adoptivas de primeira qualidade, que se bateriam por ter o direito de, a troco de três francos semanais, amamentar este encantador recém-nascido ou alimentá-lo a papas, sumo de frutas ou qualquer outra comida... Então, dê-o a uma delas! ... Por outro lado, não é aconselhável passar, assim, uma criança para outros braços. Quem sabe se irá dar-se tão bem com um leite que não seja o teu? Está habituada ao odor dos teus seios e, é necessário que o entendas, ao bater do teu coração. E o padre voltou a aspirar longamente esse bafo quente que se desprendia da ama. Vais levar esta criança para tua casa, acrescentou, tomando consciência de que as suas palavras não provocavam qualquer efeito sobre a ama. Falarei deste assunto ao prior. Vou propor-lhe que, doravante, te pague quatro francos por semana. Não!, recusou a ama. Bom. Digamos cinco, então! Não! Mas, afinal, quanto é que queres mais?, gritou-lhe Terrier. Cinco francos é imenso dinheiro como paga deste trabalho insignificante que consiste em alimentar uma criança! Não quero dinheiro nenhum, redarguiu a ama. Só quero o bastardo fora da minha casa. Mas porquê, boa mulher?, replicou Terrier e voltou a remexer no cesto com as pontas dos dedos. É uma criança adorável. Tem as faces rosadinhas, não chora, dorme bem e está baptizado. Está possuído pelo Diabo! Terrier apressou-se a retirar a mão do cesto. Impossível!, exclamou. É totalmente impossível que um recém-nascido esteja possuído pelo Diabo. Um recém-nascido não é um ser humano, mas apenas um esboço e a sua alma ainda não se encontra formada. Não oferece, consequentemente, qualquer interesse para o Diabo. Ele já fala? Tem convulsões? Faz deslocar os objectos no quarto? Exala mau cheiro? Ele não cheira absolutamente a nada, observou a ama. Estás a ver? Isso é um sinal importante. Se fosse possuído pelo Diabo, teria que cheirar mal! E, a fim de tranquilizar a ama e de pôr à prova a sua própria coragem, Terrier levantou o cesto e colocou-o debaixo do nariz. Não me cheira a nada de especial, declarou, após ter fungado uns instantes. Absolutamente a nada de especial. Parece-me, no entanto, que há qualquer coisa nas fraldas que deita cheiro, acrescentou, ao mesmo tempo que estendia o cesto à mulher para obter a confirmação das suas palavras.
Não é disso que falo, redarguiu a ama secamente, afastando o cesto. Não estou a falar-lhe do que há nas fraldas. É claro que as suas fezes deitam cheiro. Mas é ele, o bastardo, que não tem odor. Porque está de boa saúde!, ripostou Terrier. Não tem odor porque tudo corre bem. Só as crianças doentes têm odor. Toda a gente sabe que uma criança com bexigas cheira a bosta de cavalo; que se tiver a escarlatina cheira a maçãs sorvadas e que, quando sofre de tuberculose, cheira a cebolas. Esta está de boa saúde e nada mais tem. Querias que cheirasse mal? Os teus próprios filhos cheiram mal? Não, retorquiu a ama. Os meus filhos têm o odor que pertence aos filhos do homem.
Terrier voltou a pousar, cuidadosamente, o cesto no chão, dado que começava a sentir os primeiros indícios de raiva que a teimosia dessa mulher lhe inspirava. Não era de excluir a hipótese de que a continuação desta disputa lhe exigisse o uso dos dois braços para gesticular mais à vontade e não queria que o recém-nascido fosse afectado. Então, cruzou as mãos atrás das costas, empinou a barriga proeminente na direcção da ama e só depois retomou a palavra. Estás, portanto, certa de saber a que deve cheirar o filho do homem que é também um filho do bom Deus?... Apesar de tudo, gostaria de te recordar que a criança está baptizada, retrucou. Sim, asseverou a ama. E se ele não tem o odor que tu, a ama Jeanne Bussie, da Rua Saint-Denis, achas que deve ter, isso significa que é um filho do Diabo?
O padre retirou a mão esquerda de trás das costas e brandiu-a, ameaçadoramente, sob o nariz da ama com o indicador curvado e semelhante a um ponto de interrogação. A ama reflectiu. Não lhe agradava que a conversa assumisse a forma de um interrogatório teológico, em que ela ficaria, obviamente, numa situação de inferioridade. Não foi isso que eu quis dizer, replicou ela, fazendo marcha atrás. É o senhor que deve decidir se este caso tem ou não a ver qualquer coisa com o Diabo, padre Terrier, pois eu não tenho competência para isso. Apenas sei que este recém-nascido me horroriza, porque não cheira ao que devem cheirar as crianças». In Patrick Suskind, O Perfume, 1986, Editorial Presença, Grandes Narrativas, nº 12, 1991/1999, ISBN 978-972-231-448-0.

Cortesia de EPresença/JDACT

domingo, 8 de janeiro de 2017

O Perfume. Patrick Suskind. «Quando se bate a esta porta é sempre por uma questão de dinheiro. Sonho abrir, um dia, a porta a alguém que venha falar-me de outra coisa. Alguém, por exemplo, que me traga uma pequena lembrança»

jdact

«(…) Nada. E de onde vem o sangue que lhe corre por baixo das saias? Dos peixes. Ela levanta-se, atira a faca para o lado e afasta-se para se lavar. Mas eis que, contra todas as expectativas, a coisa por baixo da banca de peixe põe-se a chorar. As pessoas acorrem, e, sob um enxame de moscas, no meio das tripas e cabeças cortadas de peixe, descobre-se e liberta-se o recém-nascido. As autoridades entregam-no a uma ama e a mãe é presa. E dado que ela não hesita em confessar que certamente teria deixado morrer o fedelho como já fizera, aliás, com os outros quatro, abrem-lhe um processo, é condenada por vários infanticídios, e, algumas semanas mais tarde, cortam-lhe a cabeça na Praça de Greve. Nesta altura, a criança já tinha mudado três vezes de ama. Nenhuma delas quisera conservá-la mais do que uns dias. Afirmavam que ele era guloso demais, mamava por dois, tirava o leite da boca dos outros recém-nascidos e o pão da boca das amas, na medida em que uma amamentação rentável era impossível com um único recém-nascido. O oficial da polícia encarregado deste caso, um tal La Fosse, começava a ficar farto e já estava disposto a mandar a criança para um centro de reagrupamento de enjeitados e órfãos, situado ao fundo da Rua Saint-Antoine, de onde partiam diariamente bandos de crianças destinadas ao grande orfanato estatal de Ruão. Na medida, porém, em que estes transportes eram efectuados por carregadores de cestos de ráfia, onde, para uma maior rentabilidade, se metiam até quatro recém-nascidos; (como, por conseguinte, a taxa de falecidos pelo caminho era extraordinariamente elevada) como, por este motivo, os carregadores tinham por missão preocuparem-se somente com os recém-nascidos que fossem baptizados e estivessem munidos de um bilhete de transporte conforme as leis e que devia ser visado à chegada a Ruão, mas como a criança Grenouille não era baptizada nem, aliás, possuidora de um nome que pudesse constar num bilhete de transporte conforme a lei, e como, por outro lado, era inimaginável que a Polícia abandonasse anonimamente uma criança, colocando-a à porta do centro de reagrupamento, o que seria a única maneira de eliminar as restantes formalidades, numa palavra, devido a toda uma série de dificuldades burocráticas e administrativas que a expedição do bebé aparentemente levantava, e porque, além disso, o tempo urgia, o oficial de polícia La Fosse optou por renunciar a pôr em prática a sua primeira decisão e deu instruções para que se entregasse esse rapazinho a qualquer instituição religiosa, a troco de um recibo, para que o baptizassem e tomassem decisões quanto ao seu futuro. Conseguiram depositá-lo no Convento de Saint-Merri, na Rua Saint-Martin. Recebeu o baptismo e o nome de Jean-Baptiste. E dado que, nesse dia, o prior se encontrava de bom humor e dispunha ainda de fundos para as obras de caridade, a criança não foi enviada para Ruão, mas ficou às custas do convento. Confiaram-na, assim, a uma ama chamada Jeanne Bussie na Rua Saint-Denis, e, até nova ordem, concederam três francos por semana a essa mulher.
Algumas semanas mais tarde, Jeanne Bussie apresentou-se com um cesto debaixo do braço, à porta do Convento de Saint-Merri. Aqui tem!, dirigiu-se ao padre Terrier, um monge calvo e cheirando um pouco a vinagre, que veio abrir-lhe a porta. E pousou o cesto na soleira da porta. O que é isto?, questionou Terrier, ao mesmo tempo que se inclinava sobre o cesto e cheirava, supondo tratar-se de víveres. O bastardo da infanticida da Rua aux Fers! O padre remexeu no cesto, até pôr a descoberto o rosto do recém-nascido adormecido. Está com bom aspecto!, observou. Com as faces rosadinhas e bem alimentado. Porque engordou à minha custa. Porque me chupou e sugou até aos ossos. Agora, no entanto, acabou-se. Podem continuar a alimentá-lo com leite de cabra, papas, sumo de cenoura. Este bastardo devora tudo. O padre Terrier era um homem pacífico. Cabia-lhe a responsabilidade da gestão dos fundos para obras de caridade do convento e da repartição de dinheiro pelos pobres e necessitados. Em troca, apenas desejava ouvir um obrigado e que, quanto ao resto, o deixassem em paz. Tinha horror aos pormenores técnicos, porque os pormenores significavam sempre dificuldades e as dificuldades significavam sempre uma perturbação da sua tranquilidade de espírito, o que lhe era impossível suportar. Sentiu-se irritado por ter vindo abrir a porta. Desejava que esta pessoa pegasse no cesto, voltasse a casa e deixasse de o importunar com os problemas do recém-nascido. Endireitou-se lentamente e aspirou o odor a leite e a lã de ovelha que a ama exalava. Era um odor agradável. Não compreendo o que queres, retorquiu o padre. Não compreendo onde queres chegar. Acho que era melhor que o recém-nascido ficasse ainda um bom pedaço de tempo a ser amamentado por ti. Para ele sim, mas não para mim, redarguiu a ama num tom áspero. Emagreci cinco quilos, e, no entanto, como por três. E tudo a troco de três francos por semana! Ah! Agora entendo!, exclamou Terrier, quase aliviado. Estou a ver. É de novo uma questão de dinheiro. Não!, objectou a ama. Sim. É sempre uma questão de dinheiro, contrapôs o padre. Quando se bate a esta porta é sempre por uma questão de dinheiro. Sonho abrir, um dia, a porta a alguém que venha falar-me de outra coisa. Alguém, por exemplo, que me traga uma pequena lembrança. Por exemplo, fruta ou umas nozes. Não faltam coisas deste género, que possam trazer-se no Outono. Flores, talvez. Ou podia, simplesmente, aparecer alguém que me dissesse num tom amável: Deus o abençoe, padre Terrier! Um bom dia para si! Contudo, morrerei sem que isso aconteça. Quando não é um mendigo, é um comerciante, e se não é um comerciante é um artesão e quando não pede esmola, apresenta uma factura. Já nem sequer posso pôr um pé na rua. Mal saio, não consigo dar três passos sem ser abordado por indivíduos que querem dinheiro. Não é esse o meu caso!, replicou a ama». In Patrick Suskind, O Perfume, 1986, Editorial Presença, Grandes Narrativas, nº 12, 1991/1999, ISBN 978-972-231-448-0.

Cortesia de EPresença/JDACT

sábado, 31 de dezembro de 2016

O Perfume no 31. Patrick Suskind. «O camponês cheirava tão mal como o padre, o operário como a mulher do mestre artesão, a nobreza tresandava em todas as suas camadas…»

jdact

«No século XVIII viveu em França um homem que se inseriu entre as personagens mais geniais e mais abomináveis desta época que, porém, não escasseou em personagens geniais e abomináveis. É a sua história que será contada nestas páginas. Chamava-se Jean-Baptiste Grenouille e se o seu nome, contrariamente aos de outros grandes facínoras de génio, como, por exemplo, Sade, Saint-Juste, Fouché, Bonaparte, etc., caiu hoje em dia no esquecimento, tal não se deve por certo a que Grenouille fosse menos arrogante, menos inimigo da Humanidade, menos imoral, em resumo, menos perverso do que os patifes mais famosos, mas ao facto de o seu génio e a sua única ambição se cingirem a um domínio que não deixa traços na História: ao reino fugaz dos odores. Na época a que nos referimos dominava nas cidades um fedor dificilmente imaginável para o homem dos tempos modernos. As ruas tresandavam a lixo, os saguões tresandavam a urina, as escadas das casas tresandavam a madeira bolorenta e a caganitas de rato e as cozinhas a couve podre e a gordura de carneiro; as divisões mal arejadas tresandavam a mofo, os quartos de dormir tresandavam a reposteiros gordurosos, a colchas bafientas e ao cheiro acre dos bacios. As chaminés cuspiam fedor a enxofre, as fábricas de curtumes cuspiam o fedor dos seus banhos corrosivos e os matadouros o fedor a sangue coalhado. As pessoas tresandavam a suor e a roupa por lavar; as bocas tresandavam a dentes podres, os estômagos tresandavam a cebola e os corpos, ao perderem a juventude, tresandavam a queijo rançoso, leite azedo e tumores em evolução. Os rios tresandavam, as praças tresandavam, as igrejas tresandavam e o mesmo acontecia debaixo das pontes e nos palácios. O camponês cheirava tão mal como o padre, o operário como a mulher do mestre artesão, a nobreza tresandava em todas as suas camadas, o próprio rei cheirava tão mal como um animal selvagem e a rainha como uma cabra velha, quer de Verão quer de Inverno. Isto porque neste século XVIII a actividade destrutiva das bactérias ainda não encontrara fronteiras e não existia, assim, qualquer actividade humana, quer fosse construtiva ou destrutiva, qualquer manifestação da vida em germe ou em declínio, que estivesse isenta da companhia do fedor. E era, naturalmente, em Paris, que o fedor atingia o índice mais elevado, na medida em que Paris era a maior cidade da França. E no seio da capital existia um lugar onde o fedor reinava de uma forma particularmente infernal, entre a Rua aux Fers e a Rua de La Ferronerie, na realidade, o Cemitério dos Inocentes. Durante oitocentos anos, tinham-se transportado para lá os mortos do Hotel-Dieu e os das paróquias vizinhas; durante oitocentos anos havia-se trazido até ali, dia após dia, em carroças, os cadáveres que eram atirados às dúzias para fundas valas; durante oitocentos anos, havia-se acumulado camadas sucessivas de ossos nas carneiras e ossuários. E foi só mais tarde, em vésperas da Revolução Francesa, quando algumas destas valas comuns se abateram perigosamente e o fedor deste cemitério a abarrotar desencadeou entre os habitantes das margens do rio não apenas protestos mas verdadeiros motins, que acabaram por encerrá-lo e esvaziá-lo, tendo sido os milhões de ossos e crânios empurrados à pá na direcção das catacumbas de Montmartre e construído um mercado, em sua substituição, neste local. Aqui, no sítio mais fedorento de todo o reino, nasceu Jean-Baptiste Grenouille, a 17 de Julho de 1738. Foi um dos dias mais quentes do ano. O calor pesava como chumbo sobre o cemitério, projectando nas ruelas vizinhas o seu bafo pestilento, onde se misturava o cheiro a melões apodrecidos e a trigo queimado. Quando começou com as dores de parto, a mãe de Grenouille encontrava-se de pé, atrás de uma banca, na Rua aux Fers, a escamar as carpas que acabava de estripar. Os peixes, supostamente pescados no Sena nessa mesma manhã, já cheiravam pior do que um cadáver. A mãe de Grenouille não distinguia, no entanto, entre o cheiro a peixe e o de um cadáver, na medida em que o seu olfacto era extraordinariamente insensível aos cheiros, e, além disso, a dor que lhe apunhalava o ventre eliminava toda a sensibilidade às sensações exteriores. Apenas desejava que a dor parasse; desejava pôr termo o mais rapidamente possível a este repugnante parto. Era o seu quinto. Todos os outros se haviam verificado atrás desta banca de peixe e sempre se tratara de nados-mortos, ou quase, porque a carne sanguinolenta que dela se escapava não se diferençava grandemente das miudezas de peixe que juncavam o solo, e também não possuía, além disso, muito tempo de vida; à noite, tudo era varrido a trouxe-mouxe e levado nas carroças, em direcção ao cemitério ou ao rio. Era o que deveria passar-se, uma vez mais, naquele dia e a mãe de Grenouille, que ainda era jovem, vinte e cinco anos feitos, que ainda era bonita, que conservava quase todos os dentes e tinha ainda cabelos e que, independentemente da gota, da sífilis, e de uma leve tuberculose não sofria de qualquer doença grave, que esperava viver ainda muito tempo, talvez cinco ou dez anos, e talvez até mesmo casar um dia e ter verdadeiros filhos na qualidade de respeitável esposa de um artesão viúvo (por exemplo)..., a mãe de Grenouille desejava que tudo já tivesse acabado. E quando as dores de parto se fixaram, agachou-se, deu à luz debaixo da sua banca de peixe tal como das vezes anteriores e cortou com a faca de peixe o cordão umbilical do recém-nascido. Em seguida, porém, e devido ao calor e ao mau cheiro que ela não apercebia como tal mas como algo de insuportável e estonteante, um campo de lírios ou uma divisão demasiado pequena a transbordar de junquilhos, desmaiou e caiu para o lado e rolou debaixo da banca até ao meio da rua, onde ficou estiraçada com a faca na mão. Gritos, correrias, a multidão de basbaques à roda e alguém que vai chamar a Polícia. A mulher mantém-se prostrada no chão com a faca na mão e volta lentamente a si. Perguntam-lhe o que se passou. Nada. E o que faz ali com a faca?» In Patrick Suskind, O Perfume, 1986, Editorial Presença, Grandes Narrativas, nº 12, 1991/1999, ISBN 978-972-231-448-0.

Cortesia de EPresença/JDACT