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domingo, 3 de janeiro de 2016

O que Aconteceu a Lucrécia de Médici? Gabrielle Kimm. «Pararam em frente das duas barricas. Lucrécia sentiu um nó de repulsa na garganta ao ver o emaranhado escorregadio a contorcer-se abaixo da superfície da água. Enfia o teu braço aqui»

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A sua última duquesa. Toscânia 1559
«(…) Uma moça de cozinha, com uma mão enrolada numa serapilheira, fez um esgar de dor quando a água a ferver do panelão que tentara retirar do lume lhe caiu em cachão sobre o pulso. A serapilheira de que se libertara com um movimento rápido caíra sobre as labaredas e incendiara-se, emitindo um brilho intenso que lhe iluminava a cara distorcida. Poucas pessoas haviam reparado no que acontecera, mas os três cozinheiros haviam-se virado ao mesmo tempo e olhavam, embasbacados, para a rapariga, com um ar chocado. Um tinha na mão uma concha a pingar; umas gotas de sopa caíram ao chão, aos pés dele. Lucrécia ficou petrificada. E depois o ruído voltou ao normal e o grito ficou reduzido a uma lamúria ofegante; a rapariga recuou, a cambalear, agitando a mão queimada e afastando com a outra as pesadas saias da serapilheira em chamas. Acometida de um pânico súbito perante aquele marasmo, Lucrécia correu para a rapariga. Depressa! Despacha-te! Tens de mergulhar a mão em água fria! Lucrécia pegou-lhe na mão incólume, mas a rapariga deu um grito surdo, tentando soltar-se. No entanto, Lucrécia não a largou. Não! Vem comigo..., tens de vir. Vanni, onde há água? Giovanni mantinha-se, ansioso, à porta. Lucrécia repetiu a pergunta: onde? Onde havemos de ir, Vanni? Ao poço, lá fora? Não..., é muito longe. E depois Lucrécia teve uma ideia, embora as entranhas se lhe revolvessem ao pensar nisso. Puxou a rapariga pelo braço, atravessou a cozinha e embrenhou-se nas sombras do outro extremo. Anda, ordenou. Por aqui. Pararam em frente das duas barricas. Lucrécia sentiu um nó de repulsa na garganta ao ver o emaranhado escorregadio a contorcer-se abaixo da superfície da água. Enfia o teu braço aqui. Elas não te fazem mal e a água está fria.
A rapariga encolheu-se, a choramingar, tentando libertar-se de Lucrécia. Manteve o braço queimado encostado ao peito. Vou fazer o mesmo, disse Lucrécia e, cerrando os dentes, agarrou no braço vermelho e inflamado da rapariga pelos dedos, fechou os olhos e mergulhou os braços de ambas na barrica antes que a companheira tivesse oportunidade de esquivar-se. A água estava espessa, opaca e viscosa, e as enguias deslizavam à volta umas das outras em nós sedosos. A manga de Lucrécia cobria-lhe a maior parte do braço, mas elas colavam-se horrivelmente em torno da sua mão; ela sentiu o roçar ocasional de uns dentes aguçados, mas nada que a magoasse. Os dedos da rapariga estavam rígidos e tentava soltar-se da mão de Lucrécia, respirando pela boca e observando a barrica com os olhos arregalados. Como te sentes agora?, perguntou Lucrécia. Estavam encostadas uma à outra, tão juntas que ela sentia o cabelo da rapariga no pescoço. Sorriu, mas não foi retribuída. Pouco depois, disse: talvez já seja suficiente. Tenho a mão gelada. Vamos ver. Tirou o braço da barrica e largou a mão da rapariga. A manga de seda cor de ameixa, ensopada, adquirira um tom castanho-escuro até acima do cotovelo e colava-se a ela como uma segunda pele, a brilhar com o visco das enguias. Umas pingas grossas mancharam a saia e Lucrécia inclinou-se para a frente e esticou o braço para o lado. Com a outra mão, pegou nas rendas do ombro e depois, com um ar enojado, puxou a manga molhada.
Pegou-lhe com as duas mãos, afastando-a do corpo, e torceu-a, fazendo cair mais gotas viscosas no chão poeirento. A moça de cozinha começou a examinar a queimadura. A mancha vermelha estava mais esbatida e as gotas de água agarravam-se e os pêlos que sobressaíam na vermelhidão do pulso esguio. Tocou a medo no sítio magoado, com um dedo trémulo, e em seguida olhou para Lucrécia. Está um bocadinho melhor, disse. Obrigada, signorina. Não era preciso fazer isto por mim. Lucrécia viu a rapariga a olhar para o vestido castanho-avermelhado, lindo e coberto de jóias..., agora sujo de visco de enguia. Viu-a olhar para o braço nu e para a manga amachucada e molhada que tinha na mão, e perguntou a si própria no que estaria a pensar. Como a encararia? Como uma jovem aristocrata benevolente e compadecida, disposta a sacrificar uma parte do seu guarda-roupa sumptuoso para ajudar uma serviçal em apuros? Como uma rapariga tonta, vestida de duquesa, mas incauta e infantil, que sujava as suas belas roupas por capricho? Ou, pior ainda, apenas como uma intrometida que só servia para estorvar?» In Gabrielle Kimm, A sua Última Duquesa, O que aconteceu a Lucrécia de Médici?, 2010, tradução de Maria Duarte, Planeta Manuscrito, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-657-328-7.

Cortesia de Planeta/JDACT

sábado, 24 de outubro de 2015

O que Aconteceu a Lucrécia de Médici? Gabrielle Kimm. «Os cisnes acasalavam para a vida, pensou. Teriam estes dois morrido juntos, acompanhando-se até à morte, ou a proximidade seria apenas obra do acaso?»

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A sua última duquesa. Toscânia 1559
«(…) Os dois primos encontravam-se mesmo à porta da cozinha abobadada, do lado de dentro, sem ninguém dar pela sua presença devido ao caos fumegante provocado pelos preparativos do banquete. Lucrécia tinha a boca seca: perante esta actividade fervilhante, uma sensação efervescente de ansiedade começava a dissipar a tristeza que a notícia de Giulietta lhe causara. Humedeceu os lábios e em seguida deu uma cotovelada a Giovanni e apontou para uma mesa comprida. Anda, Vanni, tira uma!, disse ela em voz baixa. Porquê eu? Porque o Angelo gosta mais de ti do que de mim e, se te vir a tirá-la, não ficará tão irritado como ficaria comigo. Tu sabes que é por isso que tudo é sempre culpa minha, porque me obrigas afazer tudo por ti. Giovanni parecia zangado, mas aproximou-se da mesa e tirou uma de cerca de uma dúzia de romãs que estavam numa taça de madeira. Deu-a à prima. Lucrécia passou o dedo do meio pela coroa pontiaguda da romã, aproximou-a do nariz e em seguida enterrou a unha do polegar na casca, fazendo um pequeno orifício em meia-lua. Esgravatou com o dedo, revelando uma mancha redonda de sementes brilhantes vermelho-rosado, retirou algumas e depositou-as na mão estendida de Giovanni. Ele sorriu e levou a palma da mão à boca. Ela retirou mais umas quantas para si.
Ficaram ali durante algum tempo a comer sementes de romã, a observar e a escutar. O grande tampo de pedra cinzenta do forno estava calcinado e brilhava por cima das chamas. O fumo saía em rolos e contornava a saliência de pedra, como se emergisse da boca de um dragão sonolento pensou Lucrécia; ganhava um tom azulado ao enovelar-se num feixe de luz que entrava por uma janela alta. As labaredas eram intensas, e os contornos dos três homens que as vigiavam pareciam difusos, como se se resumissem pinceladas cor de laranja e azul muito escuro. Um deles afastou-se do calor e limpou o suor da face, fazendo uma careta. Nas prateleiras da cimalha, estavam pendurados vários nacos de carne embrulhados em pano, a defumar; assim suspensos dos terríveis ganchos de ferro lembravam forcas, uma sugestão perturbante. E no outro extremo da cozinha, viam-se duas barricas de carvalho abertas debaixo de uma janela. Lucrécia estremeceu. Lá dentro, a superfície do líquido agitou-se. Puxou a manga de Giovanni e indicou. Enguias, apontou, com um esgar. E que tal os cisnes?, perguntou Giovanni. Apontou para outra mesa comprida. Travessas, pratos e panelões estavam empilhados a uma ponta, taças enormes de fruta e montes de vegetais descascados acumulavam-se no meio e seguiam-se pilhas de alcachofras, abóboras cor de laranja e rosadas e uma colorida taça de majólica cheia de feijão-verde. Na outra ponta, junto da qual se encontravam os dois primos, viam-se os corpos inertes de dois cisnes descomunais. Jaziam lado a lado, com o pescoço esguio enrolado e sem vida. A cabeça de um deles estava pendurada, e os olhos, vítreos, contemplavam o chão.
Lucrécia aproximou-se e tocou num com a ponta do dedo. A carne estava fria, como argila crua, debaixo das penas aveludadas. Os cisnes acasalavam para a vida, pensou. Teriam estes dois morrido juntos, acompanhando-se até à morte, ou a proximidade seria apenas obra do acaso? Outros dois cisnes lamentariam agora a perda dos seus parceiros enquanto nadavam sozinhos em águas desconhecidas? Lucrécia abstraiu-se dos cisnes e viu noutra mesa uma profusão espantosa de esculturas de açúcar. Tocando nas costelas de Giovanni, apontou para a exposição. Aquelas não são..., disse ele. Ela interrompeu-o: Cópias das esculturas preferidas do papá? Sim. As do jardim das traseiras. Não são lindas? Giovanni esfregou umas das esculturas com dois dedos e levou-os à boca. Nhamm. Tens razão. São lindas, concordou. Não, Vanni! Se o Angelo te vê, mata-te! Giovanni resfolegou e em seguida voltou a passar os dedos húmidos pela parte de trás da sorridente ninfa de açúcar. Chupou-os outra vez. Sorriu. És nojento! Giovanni abriu a boca para retorquir, mas antes que pudesse dizer alguma coisa um grito assustou os dois primos, que deram meia volta. Lucrécia ficou sem fôlego. O momento prolongou-se. Por instantes, o caos que reinava na cozinha transformou-se num quadro pintado, silencioso, suspenso e imóvel». In Gabrielle Kimm, A sua Última Duquesa, O que aconteceu a Lucrécia de Médici?, 2010, tradução de Maria Duarte, Planeta Manuscrito, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-657-328-7.

Cortesia de Planeta/JDACT

domingo, 13 de setembro de 2015

O que Aconteceu a Lucrécia de Médici? Gabrielle Kimm. «Espera! Ela meteu-se para dentro. Giovanni ficou ali, com o peso do corpo assente num pé, a olhar para a janela. Pouco depois, Lucrécia reapareceu, com um cestinho de palha numa mão e uma corda comprida enrolada na outra»

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A sua última duquesa. Toscânia 1559
«(…) Podia estar à beira de completar quinze anos, mas nesse dia tudo se conjugava para fazê-lo sentir-se uma criança. Nessa tarde, quando ajudara Crezzi a levantar-se, à saída da horta, de repente parecera-lhe bastante diferente. Tão crescida, apesar de ser tão pequena e magra, e tão bonita, a situação fizera-o sentir-se desajeitado e estúpido. Como se as mãos e os pés fossem grandes de mais e já não condissessem com o resto. Em geral, nas idades deles, um ano e meio de diferença não se notava tanto. Mas ela fizera-lhe aquela careta, como de costume, e tudo ficara bem. E, agora Pietro..., tão confiante, a falar-lhe das suas conquistas. Não era que tivesse grandes motivos para se gabar da última noite, Maria iria com um qualquer. Ao aproximar-se da janela do quarto de Lucrécia, Giovanni parou. A culpa é toda tua. Ouviu a voz dela nessa tarde. De quê? De tudo. Resfolegou e chamou-a. Ficou à espera. Voltou a chamá-la. Seguiu-se um manuseamento dos atilhos momentâneo e ruidoso e em seguida as duas portadas abriram-se e embateram na parede. Lucrécia debruçou-se na janela, a fazer uma careta devido à luz. Estou quase pronta. Não te vás embora, pediu ela. Giovanni anuiu, mexendo a cabeça. Lucrécia perguntou: aconteceu alguma coisa? Ele encolheu os ombros.
Espera! Ela meteu-se para dentro. Giovanni ficou ali, com o peso do corpo assente num pé, a olhar para a janela. Pouco depois, Lucrécia reapareceu, com um cestinho de palha numa mão e uma corda comprida enrolada na outra. Debruçou-se, a morder o lábio inferior, e começou a fazer descer o cesto. Giovanni levantou os braços e aparou-o; espreitou lá para dentro e, apesar da atrapalhação, sorriu ao ver um nó de fita cor de fogo, encaracolada como um pequeno lírio alaranjado. Retirou-o e começou a brincar com ele. Não estragues isso!, ordenou Lucrécia. Puxou o cesto para cima, ora com uma mão ora com a outra. É uma espécie de favor. Como se fosses um cavaleiro. Eu..., eu estou a praticar para duquesa.
Giovanni fez uma vénia exagerada e, com a cabeça quase encostada aos joelhos, ouviu um risinho vindo de cima. Endireitou-se. Encontrei o meu cesto agora mesmo num velho baú. Lembras-te dele?, gritou Lucrécia. Claro. Ele inclinou a cabeça para trás para a ver melhor e o sol bateu-lhe nos olhos. Protegeu-os com a mão na horizontal. Depois de o papá se zangar tanto daquela vez..., por causa do telhado. Não sabia que ainda o tinhas. Nem eu. Mas foi uma boa partida, não foi? Giovanni olhou para baixo e passou os dedos pela fita, recordando que ficara com o rabo a arder da última vez que pegara naquele cesto. Lucrécia podia ter ficado fechada no quarto, mas ele apanhara uma sova no dia em que os dois subiram ao telhado do castelo, um acto imprudente e estúpido, tal era a sede de aventura de ambos. A sugestão fora dela, que o admitira ao tio Cosmo, mas fora ele, Giovanni, a receber o castigo mais severo.
O sentimento de injustiça ainda não se dissipara passados dois anos. No entanto, Crezzi tinha razão: fora uma boa partida, a única ao alcance de ambos durante os três dias de clausura dela. Ele procurara pequenos tesouros, roubara umas coisas da cozinha e pusera-as dentro do cesto de Crezzi, que o içara e lhe mandara em troca umas mensagens tontas escrevinhadas à pressa. Parecia que tudo aquilo se passara há muito tempo. Não te vás embora..., disse Lucrécia. Desço já. A voz dela parecia pastosa, como se tivesse estado a chorar, pensou Giovanni, ou talvez mais como se tentasse não chorar naquele momento. Por que seria? As portadas fecharam-se outra vez e o canto das cigarras voltou a ouvir-se quando Giovanni se sentou, encostado à parede, com os joelhos encolhidos e as mãos pousadas neles, a mexer e a remexer no nó de fita cor de laranja». In Gabrielle Kimm, A sua Última Duquesa, O que aconteceu a Lucrécia de Médici?, 2010, tradução de Maria Duarte, Planeta Manuscrito, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-657-328-7.

Cortesia de Planeta/JDACT

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

O que Aconteceu a Lucrécia de Médici? Gabrielle Kimm. «Olhou para um lado e para o outro e, depois de certificar de que estavam sós, acrescentou: passei uma boa parte da noite a acariciar a jovem Maria Fabbro em todos os sítios certos. A filha do Paolo?»

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A sua última duquesa. Toscânia 1559
«(…) Lucrécia fez urna pausa e observou ostensivamente a velha. Depois, ainda com uma ruga de preocupação na testa, levantou a mão e perguntou: a mudança incomoda-te muito, Giulietta? A mudança? Para Ferrara. Espero que não a consideres terrivelmente cansativa. Giulietta não respondeu. Mudou de posição e, sem dar por isso, deslocou-se para o feixe de luz que entrava pelo orifício da portada. Este atingiu-lhe o meio da cara e do corpo, cortando-a ao meio. Eu..., eu não vou, respondeu. Lucrécia ficou a olhar para ela. A sua mãe acha que é preferível a menina começar de novo, com uma mulher mais nova que cuide de si. Giulietta falou num tom categórico, e a firmeza da sua decisão foi óbvia para Lucrécia. Mas... Sentiu o calor das lágrimas nos olhos, mordeu a ponta da língua e engoliu várias vezes em seco entes de falar. Mas..., eu quero que venhas comigo. Eu sei, cara. É mesmo certo que...? Giulietta fez um sinal afirmativo. Mas porquê? E por que razão ninguém me avisou antes? Sem resposta. Lucrécia susteve o fôlego, sem saber se lhe apetecia chorar ou enfurecer-se com a ama. A enormidade das alterações que estavam iminentes agigantou-se, imparável e inexorável como um batalhão de soldados em marcha; alterações súbitas e reais para ela como nunca haviam sido até então. Lucrécia nem sequer admitira a hipótese de Giulietta não ir com ela para Ferrara. Olhou para a velha e viu, provavelmente pela primeira vez, a enfermidade provocada pela idade. Um pouco chocada, imaginou o crânio por debaixo da pele enrugada, os ossos cobertos pela carne magra, e depois, como se a dor fosse sua, sentiu a expectativa da perda com a mesma intensidade de Giulietta.
Abraçou a ama, ciente da rigidez óssea da velha, e ambas permaneceram assim durante algum tempo. Afastando-se e obrigando-se a sorrir a Giulietta, Lucrécia perguntou, com uma leveza propositada: Onde queres que ponha o pobre vestido estragado? Giulietta enxugou os olhos com um lencinho de linho. Naquele velho baú junto da porta. Não se incomode a dobrá-lo, cara. Não tem conserto. Lucrécia pegou no vestido roto, aproximou-se do grande baú trabalhado junto da porta e levantou a tampa. Houve qualquer coisa inesperada que lhe chamou a atenção. Oh!, exclarnou ela. Oh, Giulietta, vê o que encontrei aqui. Não sabia onde estava..., há meses que não o via!
Giovanni coçou o pescoço da égua e sorriu quando ela franziu o focinho, deleitada, chegando-se prra a frente e semicerrando os olhos num abandono ocioso. Levantou a cabeça no momento em que um jovem corpulento com uns vinte e cinco anos se dirigiu para o pátio das cavalariças, sorrindo ao ver a expressão do pónei. Ela gosta disso, não gosta?, perguntou ele. Pietro. Giovanni baixou-lhe a cabeça. Pietro estendeu a mão, pô-la em concha debaixo do nariz da égua e obrigou-a a virar a cabeça para ele. As éguas são como as mulheres... Se as acariciarmos no sítio certo, fazem tudo por nós, disse, com um ar de autoridade. Olhou para um lado e para o outro e, depois de certificar de que estavam sós, acrescentou: passei uma boa parte da noite a acariciar a jovem Maria Fabbro em todos os sítios certos. A filha do Paolo?
Pietro fez um sinal afirmativo, com um sorriso presunçoso. Giovami engoliu em seco. Veio-lhe à mente a imagem da filha do albardeiro, apetecível como um pêssego maduro. Era frequente ver Maria nas imediações das cavalariças e, sempre que tal acontecia, dava consigo a pensar demasiado em seios. Sentiu-se corar. Espero que o pai não descubra, acrescentou. Eu não daria muito por ti se isso acontecesse. Pietro sorriu outra vez, pôs um fardo de feno ao ombro, atravessou o pátio a assobiar, passou por debaixo do lintel e entrou no armazém da forragem. Giovanni deu uma última palmadinha ao seu pónei. Começou a encaminhar-se lentamente para o casarão, dando um pontapé numa pedra e levantando um nuvem de pó». In Gabrielle Kimm, A sua Última Duquesa, O que aconteceu a Lucrécia de Médici?, 2010, tradução de Maria Duarte, Planeta Manuscrito, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-657-328-7.

Cortesia de Planeta/JDACT

O que Aconteceu a Lucrécia de Médici? Gabrielle Kimm. «O que gostaria de vestir, cara? Acho que prefiro o castanho-avermelhado, respondeu Lucrécia, e Giulietta ajoelhou-se, passou os braços por baixo de várias camadas de tecido e tirou uma saia e um corpete de damasco»

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A sua última duquesa. Toscânia 1559
«(…) Ele é muito atraente, não é, o duque?, perguntou Lucrécia, libertando-se dos saiotes. Atravessou o quarto, aproximou-se da mesinha perto da janela e pegou num retrato minúsculo com uma requintada moldura dourada. É. E muito inteligente, segundo afirma o papá. Isso é tão importante, não achas Giulietta? Não queria casar com um homem que não fosse inteligente. Lucrécia pousou o retrato, baixou a voz e acrescentou com convicção: nunca diria tal coisa ao papá ou à mamã, mas acho que preferia casar com um homem pobre mas inteligente do que com um nobre idiota. Bem, nesse caso é uma jovem muito afortunada, porque os seus pais lhe arranjaram um aristocrata inteligente, disse Giulietta. Que também é bonito, afirmou Lucrécia.
É como diz. Lucrécia estava em camisa. Como seria ficar em camisa na presença dele? O que pensaria dela o duque? Imaginou os seus olhos cravados nela e sentiu um aperto nos mamilos. Respirando devagar, viu a luz a pintar uma faixa brilhante nas costas de Giulietta quando a velha se debruçou sobre um baú comprido e trabalhado que se encontrava aos pés da cama. O que gostaria de vestir, cara? Acho que prefiro o castanho-avermelhado, respondeu Lucrécia, e Giulietta ajoelhou-se, passou os braços por baixo de várias camadas de tecido e tirou uma saia e um corpete de damasco castanho-claro, ricamente bordado. Levantou-se à frente de Giulietta, que susteve o fôlego quando a velha lhe enfiou o vestido novo pela cabeça e o apertou bem.
Mangas cor de ameixa? Lucrécia sorriu em sinal de assentimento. Giulietta abriu um baú de carvalho mais pequeno e encontrou duas mangas roxo-avermelhado rematadas por rendas soltas nos ombros. O braço, disse Giulietta, distraída, e Lucrécia estendeu o braço, pálido e magro na penumbra. O tecido delicado da camisa creme via-se através dos cortes ornamentais na manga de seda. Quando estiver pronta, vou aos estábulos para ver se o Vanni já acabou, informou Lucrécia. Ai isso é que não vai, minha querida. A voz de Giulietta perdeu a ternura habitual. Ele está a chegar e se a menina for 1á abaixo suja-se e teremos de voltar a mudar-lhe a roupa. Quem estará presente no banquete desta noite? Uma mudança deliberada de assunto. Giulietta ficou a pensar. Bem, o duque trará o seu grupo, evidentemente, talvez umas doze pessoas, e depois estará o seu pai e a sua mãe e... O Vanni... Claro..., e creio que o seu pai pediu a vários dignitários de Florença que comparecessem. O outro braço, minha querida.
E tu..., tu irás, Giulietta, não é verdade? Não, cara, esta noite não. Perguntei à sua mãe se podia comer sossegada cá em cima. Oh, Giulietta, não te sentes bem?, Lucrécia tomou as mãos da velha nas suas. A segunda manga, que ainda não estava presa, caiu-lhe do ombro. Não, cara, de maneira nenhuma, apenas um pouco cansada. Tenho tanta pena! Por que diz isso, filha? Lucrécia apontou para o vestido amarrotado que estava no chão, do outro lado do quarto. Parece que te dou sempre muito trabalho. Vou apanhar o vestido, pô-lo de parte e... Giulietta esfregou a testa da rapariga com o polegar, como se concedesse uma bênção episcopal, e em seguida deu-lhe uma palmadinha na face. Desfrute esta ocasião tão importante, cara. Sinto-me muito contente por ficar aqui em cima sozinha. Aquele pobre vestido já não serve para nada excepto para deitar fora. Agora, dê-me o seu braço e deixe-me acabar de prender essa manga». In Gabrielle Kimm, A sua Última Duquesa, O que aconteceu a Lucrécia de Médici?, 2010, tradução de Maria Duarte, Planeta Manuscrito, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-657-328-7.

Cortesia de Planeta/JDACT

terça-feira, 18 de agosto de 2015

O que Aconteceu a Lucrécia de Médici? Gabrielle Kimm. «Giulietta afastou o cabelo emaranhado da cara de Lucrécia. Sim, cara, ele. O duque. Já não falta muito para desposá-lo, não é verdade? Tenho de ir mudar de roupa, disse Lucrécia, e Giulietta estendeu-lhe uma das mãos encarquilhadas»

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A sua última duquesa. Toscânia 1559
«(…) O primo sorriu-lhe. Pobre Giulietta!, exclamou ele. És uma desilusão para ela.
Lucrécia ficou boquiaberta. Eu? És um patife, Giovanni..., ela acha que tu é que tens uma influência péssima em mim, se queres saber. A culpa é toda tua. De quê? Lucrécia pensou e depois respondeu: De tudo. Não te enganas, disse Giovanni, escarvando o chão com o calcanhar. Lucrécia deu-lhe um beijo na face. Anda, corre comigo. Lucrécia desatou a correr; Giovanni apanhou-a com facilidade e juntos atravessaram à pressa os jardins. Um aroma intenso a lavanda aquecida pelo sol intensificou-se quando as saias de Lucrécia roçaram nos arbustos. Destruíste aquele canteiro, disse Giovanni, apontando com a cabeça para uma série de plantas pisadas. A culpa é tua. Lucrécia encolheu os ombros. Já te disse que a culpa de tudo é tua. Giovanni empurrou-a e ela tropeçou noutro canteiro. Mais plantas esmagadas. Um cheiro pungente a tomilho. Recuperando o equilíbrio, Lucrécia estendeu o braço para afastar o primo, mas ele escapou-se, correndo mais depressa, e desapareceu numa esquina. As pedras bem calcetadas do caminho estalaram debaixo dos pés de Lucrécia, que foi atrás dele, passando por baixo do arco amplo com ameias que dava acesso ao pátio.
Giulietta encontrava-se num dos degraus de pedra, um pigmeu em comparação com as grandes portas de carvalho. A velha fez um esgar de censura ao ver os dois vultos a correr para ela, quase sem fôlego. Olhando para Giovanni, Lucrécia viu-o esboçar um sorriso de troça antes de fazer uma vénia a Giulietta com um floreado espalhafatoso. Aborrecida, a velha estalou a língua e deitou-lhe um olhar fulminante. Ele endireitou-se e, sem dizer uma palavra, fugiu para os estábulos a galope. Lucrécia viu-o afastar-se e em seguida virou-se para Giulietta, com a cara a arder depois da corrida. A velha resmungava entredentes, embora Lucrécia tivesse a certeza de que todas as palavras lhe eram dirigidas. Giulietta estendeu um braço atrás das costas da rapariga e encaminhou-a para a escuridão fria do vestíbulo. Aquele rapaz vai ser a minha morte, cacarejou. Oh, é um... Todos os dias acontece mais uma coisa e nenhum de vocês aprende... e repare no seu aspecto, e enquanto falamos estão a preparar o banquete, e... O banquete? Sim, cara, o banquete. Quantas vezes é preciso eu dizer-lhe que será esta noite? Ele chegará ao anoitecer..., e olhe para si. Mete medo!
Ele? Lucrécia parou, de olhos arregalados. Esqueci-me de que era esta noite. Giulietta agarrou-a pelos ombros, obrigou-a a virar-se e inclinou-se tanto que o rosto de ambas ficou ao mesmo nível, com os olhos brilhantes de preocupação. Com o nariz saliente e os olhos muito juntos, a ama fazia lembrar a Lucrécia, tantas vezes, uma águia ansiosa. Giulietta afastou o cabelo emaranhado da cara de Lucrécia. Sim, cara, ele. O duque. Já não falta muito para desposá-lo, não é verdade? Tenho de ir mudar de roupa, disse Lucrécia, e Giulietta estendeu-lhe uma das mãos encarquilhadas. Lucrécia pegou nela e sufocou um lamento quando os dedos duros da velha lhe apertaram a palma macia da mão. Afastou-se. O que é? Nada.
Mas Giulietta tinha virado a mão para cima e visto com os seus próprios olhos. Fazendo estalar a língua outra vez, incrédula, pespegou um beijo rápido e seco na esfoladela, virou outra vez a mão de Lucrécia para baixo e deu-lhe uma palmadinha nos nós dos dedos com a outra mão. Juntas, percorreram o corredor abobadado, desembocaram no pátio central, voltaram a entrar em casa pelo outro extremo e subiram a escadaria larga que conduzia aos quartos. Nos aposentos de Lucrécia, onde as portadas estavam fechadas devido à inclemência do Sol, a luz era fria e difusa. No centro de cada portada, havia um pequeno orifício redondo; uma lâmina de luz saída de cada orifício cortava o aposento na diagonal, esguia e direita como uma lança de torneio. Lucrécia inclinou-se para espreitar por um dos orifícios, com as mãos em concha à volta dos olhos, mas como a luz excessiva do Sol não lhe permitiu ver coisa nenhuma, fechou-os e recuou.
Venha cá, cara, para lhe desfazer os atilhos, disse Giulietta. A pestanejar, Lucrécia virou-se de costas para a ama e Giulietta começou a desapertar-lhe o corpete e a cantarolar. Adoro essa canção, comentou Lucrécia. Canto-a desde que a menina era bebé. Pergunto a mim própria se ele cantará para eu ouvir enquanto me tira o espartilho, proferiu Lucrécia, falando mais com os seus botões do que com Giulietta. Imaginou uns dedos desconhecidos a mexerem-lhe nas costas e, ao espalmar as mãos na parte da frente do corpete engomado, sentiu um formigueiro na pele da nuca. Ele cantaria? Diria alguma coisa? Rir-se-ia consigo..., ou preferiria despir a sua nova esposa no meio de um silêncio expectante? Lucrécia vislumbrou mentalmente os olhos sombrios do duque, o sorriso lento, e, com um sussurro, o vestido escorregou e caiu-lhe aos pés no chão. Giulietta fez urna pausa, mas não comentou». In Gabrielle Kimm, A sua Última Duquesa, O que aconteceu a Lucrécia de Médici?, 2010, tradução de Maria Duarte, Planeta Manuscrito, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-657-328-7.

Cortesia de Planeta/JDACT

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

O que Aconteceu a Lucrécia de Médici? Gabrielle Kimm. «Ele apanhou-a e atirou-se a ela. Agarrou-a pelos joelhos e derrubou-a. Ela levantou os braços para proteger a cara e, ao cair, faltou-lhe o ar. Antes de ter tempo sequer para recuperar o fôlego, o rapaz soltou-lhe as pernas…»

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«Ele não detecta nenhum sopro. Nem movimento. Nem vida. Acabou. Ao enfiar a mão debaixo do tecido amachucado da camisa dela, os seus dedos tocam num seio pequeno: já frio, raiado de azul-claro, como mármore maleável. Ela não é mais do que uma estátua mole. As curvas geladas deslizam confortavelmente sob o calor da concha da sua mão, que lhe acaricia a pele e se surpreende com esta estranha impassibilidade. Ao contemplá-la, ele vê por fim a imagem que desejava há tantos meses. Ela é bela. Silente e sem vida, ela é na verdade bela. O reflexo perfeito voltou e o espelho está de novo sem mácula. Ele imagina o calor da sua própria carne dentro daquela imobilidade fria e arrepia-se. Sabe que tem de o fazer».

A sua última duquesa. Toscânia 1559
Um calor pesado instalara-se na tarde, obrigando a paisagem a uma imobilidade cintilante. A casa imponente era alta, maciça e quadrada, e o tom ocre da pedra e o vermelho descorado dos telhados com goteiras davam um ar mais suave aos muros semelhantes aos de uma fortaleza; à luz clara do dia, as ameias arqueadas dos telhados projectavam colheradas de sombras azul-escuras a todo o comprimento dos muros. As cigarras cantavam ritmadamente, sem parar, ora em coro ora em dessintonia, e uma sensação soporífera de letargia quente pairava sobre o castelo como um cobertor cozido pelo sol. Uma porta abriu-se com ruído nas traseiras da casa e, dando um grito, uma mulher jovem saiu a correr, agarrada às saias e com a respiração entrecortada. Olhou para trás de relance, arquejou e aumentou a velocidade. Outro vulto, masculino, saiu pela mesma porta atrás dela. A sua sombra lembrava uma mancha de tinta suja debaixo dos pés. Por um momento, foi como se as cigarras sustivessem o fôlego: os únicos sons no meio do silêncio entorpecedor eram os passos assustados da rapariga e o andar mais pesado do jovem que se aproximava depressa. Ela correu ao longo de um caminho entre canteiros de flores e plantas, atravessou um deles frenética e, a lamuriar, dirigiu-se para a vegetação mais alta juntos dos portões que conduziam à horta murada.
Ele apanhou-a e atirou-se a ela. Agarrou-a pelos joelhos e derrubou-a. Ela levantou os braços para proteger a cara e, ao cair, faltou-lhe o ar. Antes de ter tempo sequer para recuperar o fôlego, o rapaz soltou-lhe as pernas e obrigou-a a deitar-se de costas, agarrando-a pelos pulsos e encostando-os às ervas, ao lado da cabeça. Ela debateu-se, mas ele foi mais forte. Segurou-a pelas ancas com os joelhos, e a cara dos dois jovens ficou a menos de trinta centímetros de distância. Durante uma fracção de segundo, os olhares de ambos cruzaram-se. És um patife, Giovani!, exclamou a rapariga, soltando uma gargalhada. Larga-me! Tu és..., disse Giovanni, a arfar, demasiado vagarosa, mais nada. Vá..., admite! Sem largar os pulsos finos dela, o rapaz apoiou-se ainda mais neles; apesar de continuar a estrebuchar, a rapariga não conseguiu sentar-se. Acumulou saliva na boca e levantou a cabeça. Giovanni sorriu. Tu não te atreverias, exclamou ele, mas ela respirou fundo pelo nariz. Giovanni rolou e ficou deitado de costas, fora do seu alcance, fazendo uma caret. Meu Deus, és nojenta, Lucrécia!
Lucrécia sentou-se, cuspiu para o chão e em seguida deitou-lhe a língua de fora. Giovanni deixou-se ficar, estatelado, com a cara meio escondida nas plantas emaranhadas; ergueu uma sobrancelha e fez-lhe um sorriso trocista. Lucrécia atirou-se a ele, mas o rapaz agarrou-a pelo pé, fê-la cair de costas, e ambos ficaram estiraçados no meio da vegetação, a rir sem motivo. Uma voz ao longe sobressaltou-os. Lucrécia! Olharam um para o outro. Lucrécia, cara, onde estás? Suspirando, Lucrécia disse: Tenho de ir..., já devia estar de volta há horas. Anda comigo, Vanni. O rapaz levantou-se de um salto, todo ele pernalta como uma marioneta ansiosa, e estendeu os braços para ajudar a prima a erguer-se. Ela pegou-lhe na mão e levantou-se, sorridente, mas, para sua surpresa, Giovanni não retribuiu o sorriso. Em contrapartida, franziu um pouco o sobrolho, de repente ficou atrapalhado e constrangido, esfregou os olhos com o punho e corou. A voz fez-se ouvir outra vez.
Lucrécia passou os dedos pelos cabelos e encontrou terra agarrada à testa; afastou-a e examinou a sujidade alojada debaixo das unhas. Virou as mãos. Tinha as palmas esfoladas e sujas das ervas e rasgara mais um vestido: o grande rasgão no sítio da anca não era do género daqueles que se podiam consertar. Com o tecido roto a esvoaçar, começou a dirigir-se para à casa na companhia do primo. A Giulietta vai zangar-se comigo outra vez, Vanni, disse. Ela acha que eu devia... Lucrécia fez uma voz mais grave e uma careta, imitando o ar solene e o nariz adunco da ama, comportar-me como uma herdeira Médici, com uns impressionantes dezasseis anos. Empinou o queixo, em jeito de troça, e a expressão de Giovanni desanuviou-se outra vez». In Gabrielle Kimm, A sua Última Duquesa, O que aconteceu a Lucrécia de Médici?, 2010, tradução de Maria Duarte, Planeta Manuscrito, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-657-328-7.

Cortesia de Planeta/JDACT