Mostrar mensagens com a etiqueta Bartolomeu Dias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Bartolomeu Dias. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 22 de maio de 2014

O Navegador da Passagem. A História de um Descobridor que o Mundo Ignorou. Deana Barroqueiro. «Eu, Pêro da Covilhã... Eu, Afonso de Paiva... Eu, Bartolomeu Dias...Eu, João Infante... Eu, Diogo Dias... juro que na execução e obra deste descobrimento que vós, meu Rei e Senhor, me mandais fazer, com toda a fé, lealdade, vigia e diligência…»

jdact

Jaz aqui, na pequena praia extrema, o Capitão do Fim. Dobrado o Assombro, o mar é o mesmo: já ninguém o tema! Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro. In Fernando Pessoa, ‘Mensagem

«(…) Acabo de saber que a rainha D. Isabel de Castela autorizou a viagem de descobrir de Cristóvão Colombo. Lançou a assombrosa novidade com uma voz desdenhosa que disfarçava a sua arrelia; porém, ouvindo o murmúrio de descrença e ira dos presentes, ergueu a mão num gesto apaziguador e acrescentou mordaz: - Pelos vistos, a minha estimada prima tem mais confiança nesse rebolão do que nós e crê que ele achará a derrota para a Índia navegando para Ocidente! Como mais vale prevenir do que remediar, temos de nos adiantar na corrida, não vá esse homem ter tratos com o demo e passar-nos à frente! Quando os risos cessaram, el-rei prosseguiu, animando-se à medida que falava: - Mem Rodrigues e Pedro Astoniga já partiram por mar para a Guiné e de lá seguirão, através da Tamala dos Fulas, para o interior da África, a fim de buscarem também ai novas do Preste João, o descendente do grande Salomão e da rainha de Sabá, pois João Afonso de Aveiro ouviu dizer ao rei de Benim que, a vinte luas de andadura para oriente das suas terras, existe o reino cristão do Ogané, a quem muitos outros povos prestam homenagem e fazem grandes peregrinações para receberem das suas mãos uma cruz de latão que veneram como santa relíquia.
Fez uma pausa e o seu olhar sombrio varreu a sala até pousar nele, perscrutador, como se estivesse a avaliá-lo. Sentiu um arrepio de angústia eriçar-lhe a pele. A armada de Bartolomeu Dias, com os seus capitães João Infante e Diogo Dias, não tardará em sair rumo ao Congo para daí prosseguir viagem até descobrir a passagem para o Oriente. Levará com ele os dois negros salteados por Diogo Cão para os devolver à sua terra e quatro degredados que deixará nesses lugares, onde dirão donde vêm e buscarão saber dos seus habitantes se ali chegaram novas do Preste João.
Fez nova pausa como se esperasse alguma pergunta, mas não era nenhuma surpresa que el-rei lhe desse alguns desses condenados que se salvavam da forca ou do cutelo oferecendo-se para explorar novas terras, pois Sua Alteza usava dizer a quem disso se espantava que lhes dava a vida porque um homem custa muito a criar e havia aí muitas ilhas para povoar. Como ninguém falasse, o rei João dirigiu-se a Pêro da Covilhã e a Afonso de Paiva: - Assi, tereis acção concertada com estes vossos companheiros e todos levarão cartas minhas para o Preste. Tu, Pêro, rumarás ao Levante, em busca da rota das especiarias, e tratarás de saber se há mesmo um Preste João das Índias, como dizem os antigos, enquanto tu, Afonso de Paiva, seguirás na Etiópia até achares esse Negus que dizem ser o verdadeiro Presbítero João. Levareis estas pastas de latão, com letras talhadas em língua portuguesa, arábica, latina, grega e hebraica, para mostrardes ao Imperador e a quem bem vos parecer. Mestre Rodrigo entregou-lhes as pastas, da feição de uns grossos medalhões, onde se lia ElRey Dom João de Portugal, Irmão dos Reys Christãos. Tendes tudo aquilo de que haveis mister: cartas, mapas, roteiros?, perguntou ainda.
 - Sim, meu senhor, Afonso de Paiva curvou-se numa profunda vénia. - Os vossos astrónomos e cosmógrafos são os melhores do mundo!, gabou Pêro da Covilhã, saudando com igual acatamento. - Sim, bem o sei, disse João II, sorrindo na direcção da sua junta de sábios, os quais se inclinaram também em sinal de agradecimento. Prestai agora o vosso juramento sobre este Livro Sagrado, ordenou Diego de Orty, pondo-lhes diante uma Bíblia e uma folha escrita. Um a um, pousaram a mão direita sobre o livro de capas vermelhas e letras douradas, lendo em uníssono as palavras do texto do bispo: - Eu, Pêro da Covilhã... Eu, Afonso de Paiva... Eu, Bartolomeu Dias...Eu, João Infante... Eu, Diogo Dias... juro que na execução e obra deste descobrimento que vós, meu Rei e Senhor, me mandais fazer, com toda a fé, lealdade, vigia e diligência, eu vos hei-de servir, guardando e cumprindo vossos regimentos que para isso me forem dados, até tornar onde ora estou, ante a presença de vossa real Alteza, mediante a graça de Deus em cujo serviço me enviais. Acabado o juramento, ajoelharam e, curvando as cabeças, receberam a bênção do bispo, indo em seguida beijar a mão que el-rei lhes estendia: - Ide os quatro, com a graça de Deus, mas deixai comigo a Bartolomeu Dias, que temos um ultimo negócio a tratar. Que teria el-rei para lhe dizer ainda? Os quatro homens ergueram-se e, fazendo as suas cortesias de despedida, abandonaram a sala, seguidos pelo seu olhar apreensivo». In Navegador da Passagem, A História de um Descobridor de Mundos, que o Mundo Ignorou, Deana Barroqueiro, Porto Editora, 2008, ISBN 978-972-0-04162-3.

Cortesia de Porto Editora/JDACT

sábado, 9 de março de 2013

O Navegador da Passagem. A História de um Descobridor que o Mundo Ignorou. Deana Barroqueiro. «A um vilão peco não há cousa que lhe não pareça que fará - lançou-lhe el-rei, com um sarcasmo tão violento que fez o piloto enrubescer de humilhação e, enfim, não faz nada! Nunca mais digas que o podes fazer, antes guarda muito segredo disso…»

jdact

Jaz aqui, na pequena praia extrema,
o Capitão do Fim. Dobrado o Assombro,
o mar é o mesmo: já ninguém o tema!
Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro.
Fernando Pessoa, in ‘Mensagem

«Fora convocado juntamente com o irmão Diogo e o capitão Infante, aos sete dias do mês de Maio do ano da graça do Senhor de mil quatrocentos e oitenta e sete, às casas de Santarém onde el-rei pousava aquando de uma das suas costumeiras andanças por desvairados lugares do reino a fim de conhecer o que se passava sob a sua governação e dar remédio aos males do povo, premiando os bons servidores e castigando os venais. A roda da fortuna girara de novo na sua vida, desta vez em seu benefício, ao provocar a queda de Diogo Cão das boas graças de João II, por não ter descoberto o cabo de África, ao contrário do que afirmara. Do mesmo modo como, no regresso da sua primeira viagem, havia cumulado o navegador de benesses pela falsa descoberta, contemplando-o com dez mil reais brancos e um brasão de armas, el-rei não hesitara agora, provado o seu erro, em correr com ele para sempre da corte como se fora um cão raivoso.
O moto do Príncipe Perfeito era Por tua Lei e por tua Grei, a sua divisa um pelicano ferindo o próprio peito para alimentar com o seu sangue os filhos no ninho e, como homem e cavaleiro, exigia de si tanto ou mais do que pedia aos seus servidores, raramente desculpando erros ou traições. Assim, ainda no auge da fúria, el-rei atentara nele, que, com outros capitães, assistia, aturdido, à penosa cena de humilhação do valoroso navegador, e encarregara-o de prosseguir a malograda viagem e descobrir por fim a passagem do Atlântico para o Índico. A convocação desse dia seria seguramente para el-rei lhes dar o seu regimento e últimas instruções. Sua Alteza estava a comer, numa mesa armada sobre um estrado alcatifado, tendo de pé a seu lado o cunhado, que se mantinha em silêncio, com o olhar sem vida dos seus olhos verdes quase brancos pairando por sobre as cabeças dos assistentes, fitando alhures. Diziam as más-línguas da corte que el-rei o queria sempre por perto para o ter mais vigiado, não fosse o dissimulado duque de Beja e de Viseu pretender vingar a morte do irmão mais velho e urdir uma nova conspiração para o assassinar.
Não deteve o pensamento muito tempo nestes mexericos cortesãos, pois o seu espírito estava prenhe de outros cuidados e ambições mais terrenas, ardendo em ânsias de receber finalmente a tão esperada ordem de partida. Inquietou-o uma assistência tão numerosa, entre emissários estrangeiros, astrónomos, pilotos, capitães e cortesãos, mas também de espiões como Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva. El-rei comia pouco e com tanta detença que causava pena e fadiga a quem o assistia, parecendo mais interessado na prática que entretinha com os embaixadores e cortesãos do que com a comida que tinha no prato. - Nenhum navio redondo consegue fazer a torna-viagem da Mina - a fala vagarosa e entoada pelo nariz tirava graça e sabor às suas palavras - por causa das grandes correntes que há no mar, somente as nossas caravelas de velas latinas o podem fazer.
 - As caravelas são como os cavalos mouros, disse alguém, vivas, velozes, mas também dóceis e sóbrias, próprias para viagens aventurosas. O Príncipe Perfeito saudou o dito com agrado, seguro de que em nenhuma outra parte da Cristandade, além de Portugal, se construíam navios latinos e o segredo da sua construção estava bem guardado. Pêro de Alenquer, o maior piloto da Costa da Guiné e a quem se deviam muitas descobertas daquela derrota, disse com um sorriso de confiança: - Meu senhor, juro-vos que serei capaz de trazer da Mina qualquer nau, por muito grande que seja. - Não se pode fazer - replicou el-rei, com secura. - Já muitas vezes foi tentado, porém, todas as naus que lá mandei não conseguiram tornar ao reino. - Eu fá-lo-ei, Sereníssimo Senhor - insistiu Alenquer, com orgulho, sem atentar no rosto fechado de João II, desde já a isso me obrigo!
 - A um vilão peco não há cousa que lhe não pareça que fará - lançou-lhe el-rei, com um sarcasmo tão violento que fez o piloto enrubescer de humilhação e, enfim, não faz nada!
Depois de comer, retirou-se a uma outra sala para receber aqueles que previamente convocara, causando espanto a todos os presentes e ao próprio Pêro de Alenquer ao enviar-lhe recado que lhe queria falar e, sem uma palavra, o piloto seguiu atrás dos convocados e entrou na sala em último lugar. El-rei tinha o rosto grave e a voz soou um pouco brusca, quase dura, quando dirigiu a palavra a Alenquer, que se mantinha diante dele de olhos baixos mas de cabeça erguida. - Pêro, se há pessoa que por seu ofício e arte de navegar merece ser favorecida e honrada, essa pessoa és tu e já o afirmei perante muitos. A causa de te haver dito aquilo de há pouco, e peço-te que me perdoes o agravo, foi porque cumpria a meu serviço... - ante o olhar desconcertado do piloto, justificou-se com um ligeiro sorriso de ironia: - Para ter o ouro da Mina guardado da cobiça de outros reinos, tenho de fazer crer que navios redondos como os deles não podem fazer a torna-viagem e até tenho dado ordens para afundarem algumas naus velhas e sem préstimo nos mares da Guiné, para os escolhos darem à costa e se julgue que foi desastre, provando que com tais embarcações não é possível fazer-se a volta do mar. Nunca mais digas que o podes fazer, antes guarda muito segredo disso e eu te farei grande mercê. Pêro de Alenquer curvou-se com muito acatamento, já esquecido da pública humilhação pelo pensamento da mercê que iria receber do seu generoso senhor que quando cometia uma injustiça contra qualquer dos seus vassalos sempre lhe dava uma compensação superior à ofensa que infligira». In Navegador da Passagem, A História de um Descobridor de Mundos, que o Mundo Ignorou, Deana Barroqueiro, Porto Editora, 2008, ISBN 978-972-0-04162-3.

Continua
Cortesia de Porto Editora/JDACT

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

João de Barros. Décadas. «Porém, a estas razões houve outras em contrário, que, por serem conformes ao desejo de el-rei, lhe foram aceites. E as principais que o moveram, foram herdar esta obrigação com a herança do reino, e o infante dom Fernando, seu pai ter trabalhado neste descobrimento, quando por seu mandado se descobriram as ilhas de Cabo Verde»

Cortesia de notasereflexoes

«Como el-rei dom Manuel, no segundo ano do seu reinado, mandou Vasco da Gama com quatro velas ao descobrimento da Índia.
Falecido el-rei dom Joam sem legítimo filho que o sucedesse no reino, foi alevantado por rei (segundo ele deixara em seu testamento) o duque de Beja, dom Manuel, seu primo co-irmão, filho do infante dom Fernando, irmão de el-rei dom Afonso; a quem por legitima suceção era devida esta real herança, da qual recebeu posse pelo cetro dela, que lhe foi entregue em Alcácer do Sal, a vinte sete dias de Outubro do ano de nossa redenção de mil quatro centos noventa e cinco; sendo em idade de vinte e seis anos, quatro meses e vinte cinco dias (como mui particularmente escrevemos em a outra outra nossa parte intitulada Europa, e ali em sua própria crónica).
E porque, com estes reinos e senhorios, também herdava o prosseguimento de tão alta impresa como seus antecessores tinham tomado, que era o descobrimento do oriente por esse nosso mar oceano, que tanta industria, tanto trabalho, e despesa, por discurso de setenta e cinco anos tinha custado, quis logo, no primeiro ano de seu reinado, mostrar quanto desejo tinha de acrescentar à coroa deste reino novos títulos sobre o senhorio de Guiné, que, por razão deste descobrimento, el-rei dom Joam, seu primo, tomou, como posse da esperança de outros maiores estados que por esta via estavam por descobrir. Sobre o qual caso, no ano seguinte de noventa e seis, estando em Montemor-o-Novo, teve alguns gerais conselhos: em que ouve muitos e diferentes votos, os mais foram que a Índia não se devia descobrir. Por que, além de trazer consigo muitas obrigações, por ser estado mui remoto para poder conquistar e conservar, debilitaria tanto as forças do reino que ficaria ele sem as necessárias para sua conservação.

jdact

Quando mais que, sendo descoberta, podia cobrar este reino novos competidores, do qual caso já tinham experiência, no que se moveu entre el-rei dom Joam e el-rei dom Fernando de Castela, sobre o descobrimento das Antilhas, chegando a tanto, que vieram repartir o mundo em duas partes iguais para o poder descobrir e conquistar. E pois desejo de estados não sabidos, movia já esta repartição, não tendo mais antes os olhos que esperança deles e algumas amostras do que se tirava do bárbaro Guiné, que seria vindo a este reino quanto se dizia daquelas partes orientais. Porém, a estas razões houve outras em contrário, que, por serem conformes ao desejo de el-rei, lhe foram aceites. E as principais que o moveram, foram herdar esta obrigação com a herança do reino, e o infante dom Fernando, seu pai ter trabalhado neste descobrimento, quando por seu mandado se descobriram as ilhas de Cabo Verde, e mais por singular afeição que tinha à memória das cousas do infante dom Anrique, seu tio, que fora o autor do novo título do senhorio de Guiné que este reino houve, sendo propriedade mui proveitosa sem custo de armas e outras despesas que têm muito menores estados do que ele era. Dando por razão final, aqueles que punham os inconvenientes a se a Índia descobrir, que Deus, em cujas mãos ele punha este caso, daria os meios que convinham a bem do estado do reino.

Cortesia de purl

Finalmente el-rei assentou neste descobrimento, e depois, estando em Estremoz, declarou a Vasco da Gama, fidalgo de sua casa, por capitão mor da vela que havia de mandar a ele, assim pela confiança que tinha de sua pessoa como por ter acção nesta ida, cá, segundo se dizia. Estevam da Gama, seu pai já defunto, estava ordenado para fazer esta viagem em vida de el-rei dom Joam. O qual, depois que Bartholomeu Dias veio do descobrimento do cabo de Boa Esperança, tinha mandado cortar a madeira para os navios desta viagem, por a qual razão el.rei dom Manuel mandou ao mesmo Bartholomeu Dias que tivesse cuidado de os mandar acabar segundo ele sabia que convinha, para sofrer a fúria dos mares daquele grão cabo de Boa Esperança, que na opinião dos mareantes começava criar outra fabula de perigos, como antigamente fora a do cabo Bojador, de que no principio falamos. E assim, pelo trabalho que Bartholomeu Dias levou ao apercebimento destes navios como para ir acompanhando Vasco da Gama até o por na paragem que lhe era necessária à sua derrota, el-rei lhe deu a capitania de um dos navios que ordinariamente iam à cidade de São João da Mina.
E sendo já no ano de quatrocentos noventa e sete, em que a frota para esta viagem estava de todo prestes, mandou el-rei, estando em Montemor-o-Novo, chamar Vasco da Gama e os outros capitães que haviam de ir em sua companhia, os quais eram Paulo da Gama, seu irmão, e Nicolau Coelho, ambos pessoas de quem el-rei confiava este cargo. E posto que por algumas vezes lhe tivesse dito sua tenção acerca desta viagem, e disso lhe tinha mandado fazer sua instrução, pela novidade da impresa que levava, quis usar com ele da solenidade que convém a taes casos, fazendo esta fala publica, a ele e aos outros capitães, perante algumas pessoas notáveis que eram presentes, e para isso chamadas». In João de Barros, Décadas, Selecção, Prefácio e notas de António Baião, Colecção de Clássicos Sá da Costa, Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa, 1945.

Cortesia Livraria Sá da Costa/JDACT

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Bartolomeu Dias: «O “Capitão do Fim”. “Há tempos de coruja e tempos de falcão”, ouvira-lhe dizer mais de uma vez e, na verdade, D. João II mostrara-se no início da sua governação como a coruja, encoberta mas sempre à espreita, atacando na sombra para se assenhorear da sua presa. Agora, forte no seu pouso, como todos podiam ver, era chegado o tempo de o falcão voar à conquista de outros céus e de mais ricos terrenos de caça»

Cortesia de flickr

«Os leais servidores ali presentes, e ele era um dos seus mais fervorosos admiradores, sabiam que o “Príncipe Perfeito” não podia apresentar pontos fracos na sua governação. Fizera aumentar o seu poder esmagando o crescente número dos inimigos e descontentes, sobretudo entre a mais alta nobreza do reino e no seio da própria família, mandando degolar por crime de traição o duque de Bragança, D. Fernando, confiscando-lhe os vastíssimos domínios de terras, vilas e cidades, assim como os imensos bens de fortuna, em favor da Coroa.
Ao abater sem hesitações o mais poderoso fidalgo do reino, para mais seu primo e ainda cunhado da rainha, el-rei fizera despertar grande ódio e temor entre a nobreza, ciosa dos seus privilégios, nomes e brasões. Por obra da intervenção divina ou graças à sua poderosa rede de espiões, não tardara a descobrir uma nova conspiração para o assassinar, cujo chefe desta vez lhe era ainda mais próximo, pois se tratava de D. Diogo, o duque de Viseu, irmão preferido de D. Leonor e a quem ele criara em sua casa como a um filho. De novo se adiantara aos inimigos, atraindo o cunhado ao paço e, sem hesitações, apunhalara-o com a sua própria mão.

Cortesia de cnc

Ao receber a notícia da morte do irmão, a rainha rompera em gritos e prantos desesperados que se ouviram por todo o paço, sem que as aias lograssem impedi-la de arrancar os cabelos e torcer e ferir os braços e el-rei, informado do seu estado, fora visitá-la para lhe falar das culpas do irmão e das causas que tivera para o matar, mas, perante os seus gritos e a recusa de o ouvir, ameaçara-a de a tomar também por culpada na mesma intriga do duque de Viseu. D. Leonor, varada de medo, sufocara, então, o pranto mas não o ódio que lhe crescia no peito.

Os homens, nas cousas que lhe muito cumprem, dissera ao sair dos aposentos da esposa com o rosto fechado e os olhos raiados de vermelho, se de facto são homens, não devem ter nenhuma conta com as tenções nem desejos das mulheres, as quais são sempre mais inclinadas a seus particulares apetites e vontades, que a toda boa razão e honra de seus maridos.
Mandara prender e degolar em público, para servir de lição, todos os que haviam conspirado com o cunhado e nem escaparam os que haviam logrado fugir e esconder-se em Castela, julgando-se a salvo, Pois Pêro da Covilhã por lá andara, qual lebréu a farejar e a levantar a caça, até todos serem descobertos e o seu castigo confiado a alguns assassinos a soldo.
Ao todo, justiçara oitenta adversários, alguns de muita qualidade como Álvaro de Ataíde e Fernando de Meneses e, para não escandalizar as almas piedosas, fizera envenenar encobertamente, na cisterna onde o encarcerara, o bispo de Évora, seu inimigo principal.

Cortesia de retratosreaisportugueses

Só então os atemorizados opositores, entre os quais se incluía a rainha D. Leonor, encolheram as garras e converteram-se pelo menos aos olhos do mundo em vassalos submissos, tendo a Coroa ganho finalmente o poder e a riqueza de que o generoso D. Afonso V a esbulhara, entregando-os nas mãos gananciosas dos nobres, por via de mercês e privilégios. Mas por quanto tempo os guardaria?
Sois muito má de servir
e sois sempre ravinhosa,
nam quereis ver nem ouvir,
também tocais de raivosa;
sois soberba, sois infinta,
sois muito forte mulher.

A sua atenção fora mais uma vez desviada para o jogo das cartas. A trova lançada àquela dama da rainha poderia servir também à Sereníssima Senhora, sua ama, e escutou-a como um aviso e uma ameaça a el-rei que se mostrava sempre indiferente ante o perigo.
Há tempos de coruja e tempos de falcão”, ouvira-lhe dizer mais de uma vez e, na verdade, D. João II mostrara-se no início da sua governação como a coruja, encoberta mas sempre à espreita, atacando na sombra para se assenhorear da sua presa. Agora, forte no seu pouso, como todos podiam ver, era chegado o tempo de o falcão voar à conquista de outros céus e de mais ricos terrenos de caça.
Os arautos e passavantes tocaram as trombetas, anunciando a sua chegada e pondo fim ao jogo de cartas. Sua Alteza entrou na sala com o bispo D. Diego de Ortiz e os seus conselheiros mais privados, tomando assento na cadeira real, com os pés pousados sobre uma almofada de veludo carmesim». In Navegador da Passagem, Deana Barroqueiro, Porto Editora, 2008.

Wikipédia/Deana Barroqueiro/Porto Editora/JDACT

domingo, 20 de novembro de 2011

Bartolomeu Dias: «O “Capitão do Fim”. Não muito longe do estrado, um numeroso grupo de damas e gentis-homens jogava um jogo de cartas com trovas da invenção de Garcia de Resende, o escrivão da puridade d'el-rei e poeta nas horas vagas, muito ao gosto da corte…»

Cortesia de vidaslusofonas

«As paredes da sala principal da casa onde pousava D. João II tinham sido revestidas, para a audiência, de ricos panos de seda e de rás. Sobre um alto estrado forrado de veludo vermelho, com dossel de brocado carmesim, sentados de cada lado da cadeira real ainda vazia, a sereníssima rainha D. Leonor e o príncipe presidiam aos jogos e danças com que os cortesãos entretinham a espera da embaixada. De pé, um pouco atrás da rainha, viu o duque D. Manuel a quem el-rei concedera os bens e títulos de duque de Viseu e de Beja, do primogénito Diogo, a fim de apaziguar a esposa e manter satisfeito esse cunhado ambicioso, dissimulado e escorregadio como uma enguia.

Ao chegar da sua ultima viagem, achara D. Afonso muito formoso e espigado para os seus quase doze anos de idade, porém mais inclinado às coisas do avô D. Afonso V que às de seu pai, como este mesmo reconhecia. “É mais brando e macio do que cumpre a um príncipe herdeiro de um grande trono”, ouvira-o dizer um dia, vendo o filho trocar o jogo de canas pelo sarau de poesia. Desta vez, a função a que assistia seria seguramente ao gosto do moço príncipe.
Seu pai ordenara a todos os que tinham logrado permissão de assistir ao recebimento das embaixadas para se apresentarem em trajo de gala e com os seus melhores atavios, no que fora prontamente obedecido, pois, dada a singular austeridade de D. João e o seu defeso de luxos e ostentações, escasseavam as ocasiões para os cortesãos alardearem a sua opulência e supremacia e ninguém iria desperdiçar tão raro ensejo. Assim, os nobres e as suas damas luziam com soberba galanteria as sedas e brocados roçagantes, cheios de cor e de bordados, adornados com as suas mais belas jóias de oiro e pedraria.

Cortesia de esquilo

De igual modo, os oficiais do serviço de Sua Alteza trajavam de veludo e os seus moços e criados vestiam as librés de gala, desde o mordomo-mor, que dirigia as cerimónias, ao porteiro-mor, com a sua hoste de porteiros de maça e reis d'armas, assim como o vedor-mor, com os vedores da Fazenda, os dois mestres-sala ou ainda a capela real com todos os seus tangedores e cantores, além de inúmeros arautos e passavantes com trombetas, tambores, charamelas e sacabuxas, todos engalanados.

NOTA: Charamela era um instrumento musical com uma palheta metida numa caixa que se soprava com força, como nas buzinas. A sacabuxa assemelhava-se a uma trompa.

Não muito longe do estrado, um numeroso grupo de damas e gentis-homens jogava um jogo de cartas com trovas da invenção de Garcia de Resende, o escrivão da puridade d'el-rei e poeta nas horas vagas, muito ao gosto da corte, como lhe era dado ver pela grande animação dos jogadores, com os risos e malícias que ecoavam pela sala, de mistura com algumas zangas e amuos dos perdedores. Por desfastio, juntou-se aos espectadores que aplaudiam e vaiavam os jogadores.
Havia quarenta e oito cartas, cada uma com sua trova escrita, metade de mulheres e metade de homens, sendo doze trovas de louvor e doze de deslouvor para cada grupo. Bem baralhadas as cartas, o jogador tirava uma em nome de certa dama ou de gentil-homem e lia a trova em voz alta em sendo de louvor, aplaudia-se o visado, em sendo de escárnio, todos apupavam e se riam do desafortunado ou da desventurada. Ouviu o nome de um seu conhecido e prestou atenção à leitura da maliciosa D. Joana de Mendonça que proclamava:

Vossos dias já passaram,
logo pareceis passado,
sois das damas enjeitado
e nunca vos enjeitaram.

Cortesia de jcabral

Não pôde deixar de sorrir, pois, pelo menos naquele caso, a trova de escárnio acertara em cheio, visto o fidalgo ser bem servido de anos, muito emproado e amador confesso de damas a quem muito importunava e que dele zombavam sem dó nem piedade:

Sois mais pai que servidor,
sois mais avô que galante,
por isso des hoje avante
deixai as damas, senhor.

Ainda os risos não tinham esmorecido e já o estribeiro-mor, Francisco Homem, lia a sua trova a uma dama, cujo nome não ouvira, de novo absorto em outros pensamentos, com o olhar preso no estrado onde se sentavam as três pessoas mais chegadas a el-rei, o seu filho e herdeiro, a mulher e o cunhado e, no entanto, os dois últimos haveriam de ser os seus maiores inimigos, dissimulados e feros, trabalhando à sombra dos parentes de Castela, não desperdiçando a mínima ocasião de se opor aos seus desígnios». In Navegador da Passagem, Deana Barroqueiro, Porto Editora, 2008.

Continua
Wikipédia/Deana Barroqueiro/Porto Editora/JDACT

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Navegações Portuguesas: Parte XIX. A Nau da Índia. «Caracterizava-se como um navio redondo de alto bordo, com uma relação de 3:1 entre o comprimento e a largura máxima, três ou quatro cobertas, castelos de popa de três pavimentos (tolda, alcáçova e chapitéu) e proa de dois (guarita e sobreguarita) cuja arquitectura se integra perfeitamente no casco; arvorava três mastros, o grande e o traquete com pano redondo, e o da mezena com pano latino»

Cortesia de ronaldorossi 

Nau.
«A nau portuguesa do século XVI pode caracterizar-se como um navio redondo de alto bordo, com uma relação de 3:1 entre o comprimento e a largura máxima, três ou quatro cobertas, castelos de popa de três pavimentos (tolda, alcáçova e chapitéu) e proa de dois (guarita e sobreguarita) cuja arquitectura se integra perfeitamente no casco; arvorava três mastros, o grande e o traquete com pano redondo, e o da mezena com pano latino. É um navio de carga por excelência, destinado a percorrer longas distâncias em rotas conhecidas, tirando partido do aparelho pelo conhecimento prévio dos regimes de ventos, mas andava armado com peças de grande calibre:
  • «A nau da Índia era.... um transporte armado em guerra», como tão bem definiu Oliveira Martins (Portugal nos Mares, vol. I, reed., 1988, p. 98).
Com o regresso de Bartolomeu Dias da viagem em que dobrou o cabo da Boa Esperança (1487-1488), ficou claro que eram necessários navios de tipo diferente da caravela para enfrentar os «mares que lhe comiam os navios», mares estes «tão grandes que os não podia navegar com as caravelas», segundo as palavras que Gaspar Correia atribui a João Infante, que seguia na armada (Lendas da Índia, vol. I, Porto, 1975, pp. 8-9).


Cortesia de freephotosbiz e naudaindia

Por outro lado, uma vez conhecidos os condicionalismos físicos de navegação no Atlântico Sul, na primeira viagem à Índia, em 1497-1499, Vasco da Gama pôde evitar a rota seguida por Bartolomeu Dias, que progrediu penosamente ao longo da costa ocidental africana contra ventos e correntes que lhe eram adversos. Fazendo uma grande volta no mar, que aproximou a armada da costa do Brasil, Gama contornou os ventos gerais ou alíseos tirando partido do velame redondo das suas naus, adequado para navegar com vento pela popa. Como acontece amiúde na navegação à vela, uma rota mais longa no espaço torna-se mais curta se for percorrida com vento favorável.
A nau respondia também a uma maior necessidade de carga. As viagens para o Oriente eram mais longas, pelo que se transportava maior quantidade de alimentos sólidos e líquidos para o sustento da tripulação, tanto mais que a rota impunha longos períodos de navegação sem ver a costa ou quaisquer pontos de apoio, como sucedia precisamente nessa volta pelo largo. Acrescia o factor comercial:
  • o comério das especiarias implicava o transporte de uma carga valiosa, mas volumosa, que requeria espaços adequados para o seu acondicionamento.
  • A tudo respondia a nau, com o seu casco bojudo, e ampla capacidade de acomodação.
Sabemos que a viagem de Gama foi preparada com especial cuidado, tendo-se começado a fabricar os navios ainda no reinado de D. João II. Testemunhos da época atestam que estes navios não seriam muito diferentes daqueles que, do mesmo tipo, já eram conhecidos tanto em Portugal como na Europa. É porém possível deduzir que se atentou no reforço da estrutura do casco e na embarque de sobresselentes que não poderiam ser facilmente substituídos numa viagem tão longa (como velas e cordas, por exemplo).


Cortesia de ramilawordpress 

A nau da Índia destacar-se-ia talvez por dois factores em relação aos navios seus similares:
  • especial robustez de construção, segundo se pode deduzir de alguns apontamentos esparsos na documentação e pelos remanescentes arqueológicos, 
  • uma superfície vélica superior ao que seria normal, tal como surge na iconografia da época (nomeadamente nas relações ilustradas da Carreira da Índia, como a Memória das Armadas, da Academia das Ciências de Lisboa, e o Livro de Lizuarte de Abreu, da The John Pierpont Morgan Library, ambos representando navios do terceiro quartel do século XVI).
A experiência mostrou que o comércio das especiarias e de outros bens não poderia vir a estabelecer-se sem recurso à força armada. Sendo um navio de carga, a nau portuguesa do século XVI foi armada com peças de artilharia que lhe atribuíram uma capacidade militar naval imprescindível para a segurança da navegação. Mas era sobretudo um navio comercial; para a guerra naval os Portugueses empregaram sobretudo outro tipo de embarcações, como o galeão e a caravela redonda.
Tem sido muito discutido o problema do gigantismo destas embarcações. Na verdade sabe-se que as naus de Vasco da Gama teriam até uns 120 tonéis de arqueação (correspondendo à capacidade efectiva de transportar 120 tonéis no espaço abaixo da coberta, porque era assim que se media a arqueação nesta época), e por estes valores, ou um pouco acima, andavam as embarcações similares que navegavam para outros destinos comerciais, no Atlântico, no Mediterrâneo ou nos mares do Norte da Europa. Mas as naus da Índia eram notoriamente maiores, tendo chegado rapidamente aos 400, 500 e 600 tonéis: a maior das naus de Pedro Álvares Cabral, que partiu para a Índia em 1500, logo depois de Vasco da Gama, já teria 300 tonéis. Mas não devem ter fundamento as notícias que dão conta de naus portuguesas, no século XVI, com 1000 ou mais tonéis, a não ser em casos absolutamente exepcionais. Estes valores aparecem em testemunhos de natureza a mais diversa, quase sempre produzidos por autores pouco ou nada ligados ao mar ou com conhecimento dos aspectos técnicos da navegação. Na verdade, quando aparecem os tratados portugueses de arquitectura naval, a partir de c. 1570, e se multiplicam os documentos técnicos, desde c. 1590, torna-se patente que nestes documentos, que reflectem um conhecimento profundo da arte da construção naval, os valores médios andam pelos 500 a 600 tonéis para as maiores das naus, e mantêm-se pelos inícios do século XVII. Nesta centúria houve tendência para registar um aumento das tonelagens, chegando (agora sim) aos 900 e 1000 tonéis, atestados em documentos técnicos, apesar destes valores serem mais invulgares que correntes. Não obstante, é certo que quando se começaram a construir naus com quatro cobertas, estas teriam maior arqueação que as de três: porém os peritos nunca se entenderam, como se verifica em vários pareceres do segundo quartel de Seiscentos, achando vários deles que as naus de cobertas, mais pequenas e robustas, eram preferíveis». In Francisco Contente Domingues, Instituto Camões.

Bibliografia:
CASTRO, Filipe Vieira de, A Nau de Portugal. Os navios da conquista do Império do Oriente 1498-1650, Lisboa, Prefácio, 2003.
DOMINGUES, Francisco Contente, Os Navios do Mar Oceano. Teoria e empiria na arquitectura naval portuguesa dos séculos XVI e XVII, Lisboa, Centro de História da Universidade de Lisboa, 2004.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Passagem do cabo da Boa Esperança: «Ao dobrar o cabo da Boa Esperança, na viagem de 1487-1488, Bartolomeu Dias operou uma verdadeira revolução geográfica, mais do que provar a intercomunicabilidade do Atlântico e do Índico, a viagem deixou claro que o mundo não era como Ptolomeu tinha idealizado, ou a Europa do tempo julgava que ele tinha pensado»

Cabo da Boa Esperança
Cortesia de wikipedia 

Passagem do cabo da Boa Esperança
«A mundivisão da Idade Média, patente nos mapas chamados T-O, dividia o mundo em três partes:
  •  Europa,
  • Ásia,
  • África.
Formando um círculo rodeado de água por todos os lados. Tratava-se de uma representação convencional em que a terra emergia do oceano, estando os três continentes separados entre si por três grandes cursos de água:
  • Don (entre a Europa e a Ásia),
  • Mediterrâneo (entre a Europa e a Ásia),
  • o Nilo (entre a África e a Ásia).
Os continentes eram todos circumnavegáveis, comunicando pela orla marítima que a todos rodeava. A partir dos princípios do século XV, porém, o aparecimento no Ocidente da tradução da Geografia de Ptolomeu impôs-se rapidamente como padrão do pensamento geográfico. Na realidade não é seguro que o texto que correu correspondesse exactamente ao que pensava o geógrafo alexandrino; mas o que está verdadeiramente em causa é o que os eruditos europeus acreditavam que tivesse sido a lição ptolemaica.

Mapa da região do Cabo da Boa Esperança
Cortesia de wikipedia
De acordo com o texto divulgado a partir de então em múltiplas cópias manuscritas, e desde 1477 por via impressa, os oceanos eram grandes mares fechados e rodeados por terra, não havendo assim intercomunicação entre o Atlântico e o Índico. Este novo conceito ganhou tal expressão que um emissário do rei português que foi verificar o estado de progressão do mapamundo encomendado por D. Afonso V ao cartógrafo italiano Fra Mauro, o qual foi concluído em 1459, ao verificar que, no fundo, era um mapa T-O, foi de opinião que se devia concluir a encomenda apenas para não perder a quantia que o monarca já avançara. Isto é: como mapa T-O que era «provava» a circumnavigabilidade de África, mas não era nisso, portanto, que os geógrafos mais conhecedores da época acreditavam.
Ao dobrar o cabo da Boa Esperança, na viagem de 1487-1488, Bartolomeu Dias operou uma verdadeira revolução geográfica:
  • mais do que provar a intercomunicabilidade do Atlântico e do Índico, a viagem deixou claro que o mundo não era como Ptolomeu tinha idealizado, ou a Europa do tempo julgava que ele tinha pensado.

Cortesia de aprenderbrincando
Editada 7 vezes entre 1477 e 1490, a Geografia esteve por esse motivo fora dos prelos até 1507, segundo a explicação de Armando Cortesão, altura em que passou a apresentar as «tábuas novas», que mostravam já a comunicação entre o Atlântico e o Índico. Mas a edição continha ainda as tábuas antigas, em que essa ligação não figurava, prova suficiente do peso da herança clássica na formação intelectual da época, ainda que desmentida pela experiência concreta das navegações». In Francisco Contente Domingues, Instituto Camões.

Cortesia de pmlnasc
Veja-se, a propósito, a Crónica de João de Barros - «Décadas da Ásia»:
  • «Partidos dali, houveram vista daquele grande e notável cabo, ao qual por causa dos perigos e tormentas em o dobrar lhe puseram o nome de Tormentoso, mas el-rei D. João II lhe chamou cabo da Boa Esperança, por aquilo que prometia para o descobrimento da Índia tão desejada».
Cortesia de Instituto Camões/JDACT

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Caravela dos Descobrimentos: Um navio adequado para a exploração marítima

novafloresta
O termo caravela ocorre pela primeira vez na documentação portuguesa em 1255, encontrando-se ainda em 1754, numa obra impressa, e num manuscrito de 1766. É portanto fácil de compreender que encobre referências a múltiplas embarcações, desde a pequena caravela latina de um mastro até à caravela redonda ou de armada, passando pela caravela latina de dois mastros, que protagonizou as viagens de exploração atlântica até 1488, sem deixar porém de continuar a ser utilizada depois desta data em várias circunstâncias.

Cadamostro, navegador de Veneza, dissera um dia: «... serem as caravelas portuguesas os melhores navios de vela que andavam sobre o mar e, se fossem providas de todo o necessário, poderiam navegar por toda a parte...»
A caravela latina apareceu nos Descobrimentos em 1440, segundo atesta Zurara: «Bem é que no ano de 40 se armaram duas caravelas a fim de irem àquela terra do Rio do Ouro, mas porque houveram acontecimentos contrários, não contamos mais de sua viagem». In rónica dos Feitos de Guiné, cap. XI.
Tratar-se-ia da caravela com dois mastros de pano latino, uma coberta e um pequeno castelo de popa, com um só piso, com cerca de 50 tonéis de arqueação. Navio ideal para singrar em mares desconhecidos, pela facilidade com que bolinava (isto é, progredia em ziguezague contra o sentido dominante do vento), a caravela podia navegar junto à costa e entrar em embocaduras de rios: um navio adequado para a exploração marítima, portanto. Mas é também o maior navio até então empregue nas viagens de descobrimento, representando por isso a vantagem e necessidade de progredir para Sul com uma embarcação capaz de levar os tripulantes até mais longe, combinando uma autonomia adequada com as qualidades marinheiras que essas viagens exigiam.

Foi por isso o navio empregue nestas viagens até Bartolomeu Dias dobrar o cabo da Boa Esperança. Mas é bem provável, como aventou Jorge de Matos, que o impedimento para a continuação da última viagem de Diogo Cão (terminada em 1486 ou 1487) tenha sido precisamente a falta de autonomia da caravela, agora patente pelo alongamento das explorações marítimas. Ou seja, o navegador ter-se-ia visto constrangido a voltar para trás, face a uma costa desértica (onde não tinha a certeza de poder reabastecer-se) e sem provisões que garantissem o retorno com segurança (sobretudo água potável). Em reforço desta explicação ocorre o facto de a armada de Bartolomeu Dias incorporar uma naveta para abastecimentos, capitaniada por seu irmão Diogo Dias, que foi abatida uma vez cumprida a sua função, servindo de apoio às duas caravelas de exploração. Depois do regresso a Lisboa, em finais de 1488, os navegadores deram conta ao rei da sua impossibilidade de prosseguir a viagem por não terem navios fortes para enfrentar os «mares grossos» que encontraram. Por isso, Vasco da Gama levará naus na primeira viagem a fazer a ligação marítima com o Oriente, navios que, entre outras vantagens apresentavam uma capacidade de carga muito superior, e portanto maior autonomia nas viagens de longo curso.

A Caravela Vera Cruz nos 150 Anos da A.N.L
«Eram formosíssimas, de pequeno calado, muito veleiras e demandando pouca água, portanto aptas a navegar junto à costa, com as suas velas triangulares e o casco mais comprido e estreto do que o das naus ou de qualquer outro navio de vela, mas arredondado e de bordadura alta. Ofundo era estreito e o casco terminava num esporão de abordagem, só com um castelo na popa, para que à proa nada impedisse a caravela de cortar oa ventos, podendo virar de bordo com grande rapidez». In O Navegador da Passagem.
Na documentação técnica existem regimentos relativos à construção de outro tipo de caravelas. As caravelas redondas, um nome moderno que vingou na historiografia, pela mesma razão que se chamam  navios como a nau ou o galeão. Ou seja, são navios que armam pano redondo, na realidade velas com formato trapezoidal, ganhando aquela designação pelo aspecto que tomam quando enfunadas pelo vento. Caravelas armadas ou de armada são designações de época, que indiciam a sua funcionalidade. Caravela de armada significa quase sempre que se destinava à navegação em armada ou ao serviço de armadas.
A caravela redonda possui castelos de popa e proa, ao contrário da latina, que não pode ter qualquer estrutura erguida sobre a proa do navio, por causa da manobra da verga do mastro do traquete. Deste ponto de vista, a caravela redonda está mais próxima das naus e galeões que da sua congénere latina.
Descobrimentos, viagens e explorações portuguesas: datas e primeiros locais de chegada de 1415-1543, principais rotas no Oceano Índico (azul), territórios portugueses no reinado de D. João III (verde)

Não existe qualquer indicação minimamente segura quanto à cronologia dos diversos tipos de caravelas, depois de estabelecida a primazia da latina de dois mastros nas navegações atlânticas da segunda metade de Quatrocentos. Pimentel Barata avançou a hipótese de a caravela latina de três mastros ter aparecido já pelos finais do século XV  embora só se documente pelo primeiro quartel da centúria seguinte.
Nos finais desse século as caravelas utilizadas eram de 50 tonéis, com castelos da popa de dois pisos, dois mastros com panos latinos e bocas de fogo para falcões (as peças de artilharia que o calado permitia), navios velozes, capazes de lutar contra mares tempestuosos e ventos poderosos»  « ... eram como gaivotas, capazes de voar por entre quaisquer cabos, pontas e promontórios e também de pousar em qualquer angra, praia, além de fugir dos perigos tão rápida como o vento... » In O Navegador da Passagem.    
Teria já dois pavimentos à popa, tolda e chapitéu aberto à ré, e uma mareagem de grades à proa. Para a tonelagem avençou os 100 tonéis, o que parece ser perfeitamente razoável, dado o comprimento de quilha requerido para a implantação de três mastros. A caravela redonda ou de armada ter-lhe-ia sucedido pelo segundo quartel do século, tomando paulatinamente o lugar da forma anterior (Pimentel Barata, op. cit., pp. 30-31). Julgamos porém ser muito plausível que a caravela redonda tenha aparecido bem mais cedo, muito provavelmente com a viagem de Pedro Álvares Cabral.
Wikipédia/Instituto Camões/JDACT

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Bartolomeu Dias: O «Capitão do Fim»

Rota da viagem de Bartomoleu Dias (1487-88)
Wikipédia
Bartolomeu Dias (c. 1450 - 1500) foi um navegador português que ficou célebre por ter sido o primeiro europeu a navegar para além do extremo sul de África, «dobrando» o Cabo da Boa Esperança e chegando ao oceano Índico a partir do Atlântico
Jaz aqui, na pequena praia extrema,
O Capitão do Fim. Dobrado o Assombro,
O mar é o mesmo: já ningém o tema!
Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro.
(Fernando Pessoa, «epitáfio de Bartolomeu Dias», in Mensagem)
(Deana Barroqueiro)
Dele, que possuía origens judaicas, não se conhecem os antepassados, mas mercês e armas a ele outorgadas passaram a seus descendentes. Seu irmão foi Diogo Dias. Há quem o diga descendente de Dinis Dias escudeiro de D. João I e como navegador descobrira Cabo Verde em 1445. Ignora-se onde e quando nasceu, no entanto alguns historiadores sustentam ter ele nascido em Mirandela, Trás-os-Montes.
Na sua juventude terá frequentado as aulas de Matemática e Astronomia na Universidade de Lisboa e serviu na fortaleza de São Jorge da Mina. Estava habilitado quer a determinar as coordenadas de um local, quer a enfrentar tempestades e calmarias como as do Golfo da Guiné.

Estátua de Bartolomeu Dias na Cidade do Cabo
Wikipédia
Em 1486, D. João II confiou-lhe o comando de duas caravelas e de uma naveta de mantimentos com o intuito público de saber notícias do Preste João. Ao comando da caravela S. Pantaleão estava João Infante. O propósito não declarado da expedição seria investigar a verdadeira extensão para Sul das costas do continente africano, de forma a avaliar a possibilidade de um caminho marítimo para a Índia. Porém antes disso, capitaneara um navio na expedição de Diogo de Azambuja ao Golfo da Guiné.

Segundo as palavras de Deana Barroqueiro: «Bartolomeu Dias aparece-nos como um comamdante a quem não é atribuído o justo valor e como um homem que caminha para a morte triste e amargurado, sem saudades do passado, mas orgulhoso do que fez e capaz de reconstituir passo a passo a viagem que o tornou o primeiro português a ultrapassar o Cabo e a abrir o caminho para o grande desígnio de D. João II». «Vivendo sob a égide de três reis, em tempo de grandes perturbações políticas e sociais, mas também de intensa efervescência cultural e científica, Bartolomeu Dias foi espectador, agente e por vezes peão nos lances mortais dos perigosos jogos de poder...». «Entregara-se de corpo e alma à empresa, porém o Venturoso, em favorecimento dos seus validos, acabara por lhe negar a honra que lhe pertencia por direito próprio, concedendo-a a Vasco da Gama. Mas atropelos e injustiças...». Como dissera um poeta:
Faz o tempo outra volta:
tornam-se boas vontades
maus desejos,
honram mais quem mais se solta,
e em todalas verdades
catam pejos.
Marinheiro experiente, o primeiro a chegar ao Cabo das Tormentas, como o batizou em 1488, um dos mais importantes acontecimentos da história das navegações. A expedição partiu de Lisboa em Agosto de 1487. Em Dezembro atingiu a costa da actual Namíbia, o ponto mais a sul cartografado pela expedição de Diogo Cão. Continuando para sul, descobriu primeiro a Angra dos Ilhéus, sendo assaltado, em seguida, por um violento temporal. Treze dias depois, procurou a costa, encontrando apenas o mar. Aproveitando os ventos vindos da Antárctica, que sopram vigorosamente no Atlântico Sul, navegou para nordeste, redescobrindo a costa, que aí já tinha a orientação este-oeste e norte (já para leste do Cabo da Boa Esperança, que foi renomeado pelo rei português D. João II, assegurando a esperança de se chegar à Índia. Continuou para leste, cartografando diversas baias da costa da actual África do Sul (úteis no futuro como portos naturais), e chegando até à baía de Algoa (800 km a leste do cabo da Boa Esperança), então conhecido como Cabo das Tormentas.
Bartolomeu Dias foi o primeiro navegador a navegar longe da costa no Atlântico Sul. A sua viagem, continuada por Vasco da Gama, abriu o caminho maritimo para a Índia.

Seria em 1500 o principal navegador da esquadra de Pedro Álvares Cabral. A carta de Pero Vaz de Caminha faz diversas referências a ele, apontando para a confiança total que nele tinha Cabral. Quando a armada navegava em direção ao Cabo, após sua estada no Brasil, um forte temporal causou o naufrágio de quatro naus, entre elas a de Bartolomeu Dias.
«... com a sua espantosa façanha, ultrapassou a dimensão de português e fez-se História de outras nações como a África do Sul onde, com direito a estátua e museu, goza de estatuto de herói primordial...». In Navegador da Passagem.
Wikipédia/Deana Barroqueiro/Porto Editora/JDACT