domingo, 28 de fevereiro de 2021

Objecto Quase. José Saramago. «Esta queda não é uma qualquer queda de Chaplin, não se pode repetir outra vez, é única e por isso excelente, como quando juntos estiveram os feitos de Adão e as graças de Eva»

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«(…) E não antecipemos, embora saibamos que a cadeira se vai partir: mas não é ainda, primeiro há-de o homem sentar-se devagar, nós, os velhos, dão-nos a lei os trémulos joelhos, há-de pousar as mãos ou agarrar com força os braços ou abas da cadeira, para não deixar descair bruscamente as nádegas enrugadas e o fundilho das calças no assento que lhe tem suportado tudo, como é escusado especificar, que todos somos humanos e sabemos. Pelo lado da tripa, esclareça-se, porque este velho há muitas e também diversas razões, e antigas elas são, para duvidar da sua humanidade. No entanto, está sentado como um homem. Ainda não se recostou. O seu peso, mais um grama menos um grama, está igualmente distribuído no assento da cadeira. Se não se mexesse, poderia ficar assim a seu alvo até ao pôr do Sol, altura em que o Anobium costuma recobrar forças e roer com vigor novo. Mas vai mexer-se, mexeu-se, recostou-se no espaldar, pendeu mesmo um quase nada para o lado frágil da cadeira. E ela parte-se.

Parte-se a perna da cadeira, rangeu primeiro, depois dilacerou-a a acção do peso desequilibrado, e num repente a luz do dia entrou deslumbrante pela galeria de Buck Jones, iluminando o alvo por causa da conhecida diferença entre as velocidades da luz e do som, entre a lebre e a tartaruga, a detonação ouvir-se-á mais tarde, surda, abafada como um corpo que cai. Demos tempo ao tempo. Não está mais ninguém na sala, ou quarto, ou varanda, ou terraço, ou; enquanto o som da queda não for ouvido, somos nós os senhores deste espectáculo, podemos até exercitar o sadismo de que, como o médico e o louco, temos felizmente um pouco, de uma forma, digamos já, passiva, só de quem vê e não conhece ou in lume rejeita obrigações sequer só humanitárias de acudir. A este velho não.

Vai a cair para trás. Aí vai. Aqui, mesmo em frente dele, lugar escolhido, podemos ver que tem o rosto comprido, o nariz adunco e afiado como um gancho que fosse também navalha, e se não se desse o caso de ter aberto a boca neste instante, teríamos o direito, aquele direito que tem toda e qualquer testemunha ocular, que por isso diz eu vi, de jurar que não há lábios nela. Mas abriu-a, abre-a de susto e surpresa, de incompreensão, e assim é possível distinguir, embora com pouca precisão, dois rebordos de carne ou larvas pálidas que só pela diferença de textura dérmica se não confundem com a outra palidez circundante. A barbela estremece sobre a laringe e mais cartilagens, e o corpo todo acompanha a cadeira para trás, e no chão já rolou para o lado, não longe, porque todos devemos assistir, o pé da cadeira partido. Espalhou uma poeira amarela aglomerada, verdade que não muita, mas bastante para em tudo isto nos comprazermos na imaginação duma ampulheta cuja areia se constituísse escatologicamente das dejecções do coleóptero: por onde se vê a que ponto seria absurdo meter aqui Buck Jones e o seu cavalo Malacara, isto supondo que Buck mudou de cavalo na última estalagem e monta agora o cavalo de Fred. Deixemos porém este pó que não é sequer enxofre, e que bem ajudaria o cenário se o fosse, ardendo com aquela chama azulada e soltando aquele seu malcheiroso ácido sulfuroso, ó rima. Seria uma óptima maneira de o inferno aparecer assim como tal, enquanto a cadeira de belzebu se parte e cai para trás arrastando consigo satanás, asmodeu e legião.

O velho já não segura os braços da cadeira, os joelhos subitamente não trémulos obedecem agora a outra lei, e os pés que sempre calçaram botas para que se não soubesse que são bifurcados (ninguém leu a tempo e com atenção, está lá tudo, a dama pé de cabra), os pés já estão no ar. Assistiremos ao grande exercício ginástico, o mortal para trás, muito mais espectacular este, embora sem público, do que os outros vistos em estádios e jamores, do alto da tribuna, no tempo em que as cadeiras ainda eram sólidas e o Anobium uma improvável hipótese de trabalho. E não está ninguém que fixe este momento, o meu reino por uma polaroid, gritou Ricardo III, e ninguém lhe acudiu porque pedia cedo de mais. O nada que temos em troca deste tudo de mostrar o retrato dos filhos, o cartão de sócio e a vera imagem da queda. Ai estes pés no ar, cada vez mais longe do chão, ai aquela cabeça cada vez mais perto, ai Santa Comba, não santa dos aflitos, santa padroeira sim daquele que sempre os afligiu. As filhas do Mondego a morte escura ainda por agora não choram. Esta queda não é uma qualquer queda de Chaplin, não se pode repetir outra vez, é única e por isso excelente, como quando juntos estiveram os feitos de Adão e as graças de Eva. E por nela termos falado, Eva doméstica e serviçal, mandante na proporção, benfeitora de desempregados se sóbrios, honestos e católicos, buraco de martírio, poder medrado e merdado à sombra deste Adão que cai sem maçã nem serpente, onde estás?» In José Saramago, Objecto Quase, 1978, Porto Editora, 2015, ISBN 978-972-004-655-0.

Cortesia de PortoE/JDACT

JDACT, José Saramago, Literatura, Política, Cultura, Nobel, MLCT,

A Bicicleta que Fugiu dos Alemães. Domingos Amaral. «Infelizmente, não via parisienses da segunda estirpe e era nesse momento que lhe nascia na alma uma nova vaga, mais racional e compreensiva: os citoyens estavam em pânico…»

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Paris, 4 de Junho de 1940

«(…) Durante as horas seguintes, Carol vagueou por Paris numa apatia entristecida. Nem a Hirondelle revelou a habitual magia e, pela primeira vez, não se sentiu a voar. Aliás, a maior parte do tempo levara a bicicleta pela mão ou sentara-se num banco qualquer, nas Tulherias, nos Campos Elísios, mais tarde em frente à Catedral de Nôtre-Dame, a matutar, deprimida. Não estava apaixonada por Jean-Luc, ele não lhe tinha partido o coração, a questão não era essa! Numa primeira vaga de raiva, concluiu que aquela separação inesperada agravava a sensação dolorosa por ser um manifesto da mudança radical de Paris. Jean-Luc era um símbolo francês, um exemplo de falta de resiliência, de vertigem medrosa e de uma mesquinha ausência de solidariedade. Tal como no romance de Victor Hugo, Os Miseráveis, no presente também existiam os fugitivos e os lutadores que construíam barricadas nas ruas! Jean-Luc pertencia ao grupo dos primeiros.

Infelizmente, não via parisienses da segunda estirpe e era nesse momento que lhe nascia na alma uma nova vaga, mais racional e compreensiva: os citoyens estavam em pânico e, tendo familiares nas províncias, era natural colocarem-se a uma distância segura dos panzers. Jean-Luc fora lúcido, se não partisse hoje de comboio, poderia não o conseguir fazer depois. Após essa curta acalmia, uma terceira onda de emoções levantava-se, crispada e barulhenta, denegrindo o amigo por a haver ignorado, por não mostrar sequer a decência e o cavalheirismo de a informar. Ela não teria revertido a decisão dele, nem esperado uma sugestão para o acompanhar. Mas fugir como um tolo? Caramba, não se viam ainda botifarras nazis nos boulevards e Jean-Luc nem sequer era judeu, comunista, ou soldado, não estava no topo das preocupações alemãs!

De repente, a minha prima lembrou-se da opinião de Polly sobre os franceses e deu por si a concordar com a americana. Andavam aterrados e o desaparecimento intempestivo de Jean-Luc provava-o. Não que o namorado apresentasse falta de apetite sexual, essa parte não validava a teoria de Polly, mas…

Um pensamento intrometeu-se e o coração magoado de Carol acelerou a batida. E se estivesse grávida? Jean-Luc fora-se embora sem qualquer preocupação com essa minúscula probabilidade! Esquecera-a sem lhe dar sequer um romântico beijo de despedida, na gare, como no final dos filmes americanos. Porém, a minha prima dera-se e, mesmo com as precauções tomadas, podia sempre existir um percalço! Na universidade, conhecia pelo menos duas alunas que haviam engravidado sem querer. Aquela dor na barriga, que já sentira várias vezes, seria um pequeno embrião a germinar? Enxotou a tolice. Não estava grávida, o sentimento de abandono é que a fazia pensar assim. A única conclusão certa era a de que o namorado não prestava, ponto final. Decidida, começou a desconstruí-lo. Que parvo, sempre com a boca torta de nojo, ao vê-la comer mexilhões! O odor dele também lhe repugnava, mas o pior era mesmo o cabelo, oleoso, lambido e raramente lavado. Isso e a incapacidade para dar uns passos de dança. Não tinham mesmo nada a ver um com o outro, aquela fora uma mera ligação entre dois solitários, fraca e ténue!

Até na cama era maçador, um aspirante a médico sem qualquer curiosidade pela anatomia feminina. Nem por uma vez a beijara nos mamilos ou lá em baixo e possuía-a sempre deitado em cima dela, que abria as pernas e pronto, um calorzinho no ventre e já está! Agora que pensava nisso, nunca ficara por cima, a tal posição de que Polly tanto gostava. Aliás, o lendário prazer explosivo de que as outras mulheres falavam, que se devia procurar como se fosse o Santo Graal dos romances da Távola Redonda, nunca Carol o encontrara! Jean-Luc era um banal iniciador, sem prática ou jeito, que nem sequer ascendia ao nobre estatuto de ter sido o seu primeiro homem. A dado momento, tanta era a sua irritação que até olhou com brusquidão para a Hirondelle quando esta tombou com o vento, talvez por estar mal encostada ao banco. Levantou-se, furiosa, prestes a brindar com palavrões a bicicleta, como se esta fosse uma extensão de Jean-Luc. Porém, um raio de lucidez atravessou-a: não seriam justos tais desatinos, a Hirondelle nunca lhe falhara, nem um mísero furo tivera em dois anos, revelara-se um monumento de resiliência. Enquanto Paris a abandonava, a fiel bicicleta continuava com ela! Então, levantou-a do chão e acarinhou-a, passando a palma da mão direita no selim. Se algo parecido com amor existia no seu coração, era por aquela bicicleta!» In Domingos Amaral, A Bicicleta que Fugiu dos Alemães, Casa das Letras, 2019, ISBN 978-989-780-124-2.

Cortesia CdasLetras/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Literatura, Paris, 

Enquanto Salazar Dormia. Domingos Amaral. «Sentámo-nos ao balcão da pastelaria. Michael puxou de um maço de cigarros, ofereceu-me um e acendeu outro. Depois perguntou: a Mary quer que tu a ajudes? Sim»

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Lisboa, 22 de Junho de 1995

Mary

«(…) Estava perplexo. Mary era uma mulher experiente e vivaça, mas nunca esperei um currículo tão vasto. Chamou-te cobarde? A pergunta de Michael atingiu-me como um tiro no peito. Mary tinha dito aquilo na intimidade, não era possível ele saber. A não ser que..., fosse um hábito de Mary. Consciente de ter acertado em cheio, o meu amigo riu-se: sempre a mesma Mary. Faz isso com todos. Insulta-nos, provoca-nos, e depois trepa por nós a cima. Diz-me, Jack, a Mary pediu que a montasses? Corei. Michael deu uma gargalhada e depois gritou, no meio do Rossio: bem-vindo ao clube dos namorados da Mary! Fingiu ter um copo na mão, ergueu o braço e executou um brinde à minha saúde, com pompa e circunstância. Era um patife teatral, o meu amigo! Desatou a rir e o seu riso contagiou-me, e pouco depois já eu ria às gargalhadas. As pessoas que passavam por nós também riam, divertidas. A custo, recuperámos a seriedade, e Michael avisou: o problema é esse, Jack. Muitos homens na cama, muitos segredos que deixam de o ser. Nestes tempos, é preciso ter cuidado. Os alemães têm amigos por todo o lado.

O lembrete de Michael soou-me exagerado. Desconhecedor do furtivo mundo da espionagem, tinha a atrevida ignorância de duvidar. Ela pareceu-me mais preocupada com o coronel... Diz que ele anda a falar com os comunistas, contrapus. Com ela é que ele não fala muito, resmungou Michael. O meu amigo começou a andar na direcção da Suíça e segui-o. A pastelaria, onde a afluência de refugiados obrigara a abrir uma esplanada para a rua, fora baptizada pelos portugueses de Bompernasse, pois podiam observar-se por lá muitas e belas pernas de mulheres estrangeiras. Francesas, belgas, holandesas, judias da Alemanha ou da Polónia, calçavam soquettes, saíam à rua sem meias, luvas ou chapéus, e penteavam o cabelo curto, à refugiada. Aliviadas por terem escapado à guerra, aos black outs, às bombas ou às perseguições da Gestapo, viviam Lisboa como um oásis, um nirvana de paz e felicidade, e mostravam as pernas ao sol, lendo revistas e fumando cigarros, numa animação estranha aos costumes lusitanos.

À frente da Suíça, um agitado grupo de portugueses discutia a recente ocupação de Timor pelos japoneses. Deviam ser funcionários públicos, saídos do emprego há pouco. Alguns tinham na lapela cruzes de Lorena, emblema da França Livre, outros emblemas da RAF inglesa, que usavam com orgulho apesar das multas da PSP. A 20 metros do grupo, dois circunspectos homens de casaco cinzento, provavelmente da PVDE, vigiavam o ajuntamento para evitar o descambar das polémicas. Cá estão os nossos amigos, resmungou Michael. Diversas vezes me confessara a embirração que nutria pelos agentes da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, a PVDE, que considerava gente de segunda categoria. Mal formados, quase todos originários da PSP, não falavam línguas, e Michael descrevia-os como paus-mandados, capazes de incomodar, perseguir e torturar, sem saberem distinguir um francês dum polaco. Porém, embora reconhecesse que existiam influências germânicas e do fascismo italiano na PVDE, Michael considerava que a Gestapo não dominava a polícia de Salazar. Explicara-me que o capitão Agostinho Lourenço, o chefe da PVDE, não era pro-nazi mas sim um neutro, que cumpria estritamente as ordens de Salazar. Para o meu amigo, havia na PVDE homens mais perigosos do que o chefe, como o tenente Marrano, que Michael considerava um filho da pu…, formado na Alemanha pela Gestapo, um sinistro esbirro a quem dava gozo perseguir os judeus e os comunistas.

Sentámo-nos ao balcão da pastelaria. Michael puxou de um maço de cigarros, ofereceu-me um e acendeu outro. Depois perguntou: a Mary quer que tu a ajudes? Sim. E tu queres ajudá-la, ou só queres continuar a montá-la? Sorri: as duas coisas. Ele riu-se. Acenou ao empregado atrás do balcão e pediu duas aguardentes. O homem veio, pousou dois copos, encheu-os e retirou-se. O problema não é a ajuda que vais dar, disse ele. O problema é ajudá-la a ela, à mulher do James. Permaneci calado. Michael prosseguiu, revelando-me uma novidade: ontem chegou um tipo novo a Lisboa. Ralph Jones. Para pôr ordem na casa. Fez uma pausa, depois de dar um trago na aguardente, e baixou o tom de voz, como que a conferir gravidade ao que ia dizer. O coronel Bowles é perigoso. Olhei para ele: por causa dos comunistas? Michael franziu as sobrancelhas, dando-me a entender que não era local para falar em tal tema. Mudou de assunto e perguntou: queres ver a minha nova faca? Tirou do bolso do casaco um coldre, e mostrou-me a faca. A lâmina era afiada, brilhante, límpida como um espelho onde os nossos copos se reflectiam. Segurou-a pelo cabo de madeira trabalhada e afirmou orgulhoso: é uma Randall, igual às que o exército americano usa. Mandei-a vir de lá. Gosto de americanas...» In Domingos Amaral, Enquanto Salazar Dormia, 2006, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-174-6.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Lisboa, Guerra Mundial, Literatura, Conhecimento,

sábado, 27 de fevereiro de 2021

A História Secreta do Ocidente. Nicholas Hagger. «Estamos focalizando o período que vai da Reforma até o início do século XX. Depois da longa estabilidade das Idades Médias dominadas pela Igreja, quando havia heresias…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Este livro conta a história de como a revolução mundial brotou dos últimos 550 anos. É o primeiro livro a examinar as raízes da revolução mundial e a contar a história submersa dos eventos que deram forma ao nosso tempo, a história que não aparece nos livros de história ou nos jornais. A que tipo de Nova Ordem Mundial tendem as civilizações norte-americana e europeia? Para entender o movimento revolucionário mundial nos nossos dias, é vital obter uma visão aprofundada da Nova Ordem Mundial como processo moldado pelo impacto de sucessivas revoluções. Até onde é preciso retroceder em busca das revoluções que culminaram na Revolução da Nova Ordem Mundial? Retrocedendo, a Revolução Russa tem uma ligação causal com a Revolução da Nova Ordem Mundial, assim como a Revolução Imperialista do século XIX. Ambas se originaram no clima criado pelas revoluções Americana e Francesa. O clima que criou essas revoluções não teria ocorrido sem as três revoluções protestantes anteriores: a da Reforma, a Puritana e a Gloriosa.

Estamos focalizando o período que vai da Reforma até o início do século XX. Depois da longa estabilidade das Idades Médias dominadas pela Igreja, quando havia heresias, cruzadas, dinastias familiares e conflitos pelo poder, as revoluções se multiplicaram. A Renascença foi uma revolução cujo início pode ser fixado em 1453. Em 1485, a investida de Henry Tudor na Inglaterra não deixou de ser uma revolução. Em 1494, os Medici foram depostos, fugiram de Florença e Savonarola instituiu uma breve república democrática. Seus sermões contra a corrupção papal inspiraram a Reforma, que começou com Lutero, expandiu-se nos anos 1530 para a Inglaterra, onde Thomas Cromwell levou a cabo uma revolução social, e para a França através de Calvino, dividindo a Cristandade. Para ser bem compreendida, a Reforma tem que ser vista como uma revolução que tinha por detrás a acção de uma mão oculta. A Contrarreforma dos anos 1550 ampliou mais ainda a separação entre católicos e protestantes. A chamada revolução ceciliana (de William Cecil) no governo da Inglaterra durante o reinado de Elizabeth I criou uma nova visão imperialista, enquanto a Revolução Puritana posterior dominou o século XVII. A Restauração foi uma contrarrevolução contra os puritanos. Então veio a Revolução Gloriosa: o católico Jaime II foi expulso do trono e a Inglaterra finalmente se tornou protestante, aumentando ainda mais a divisão na Cristandade. Mais uma vez, uma organização secreta agia nos bastidores.

No século VIII, a Revolução Americana chocou a Inglaterra, o que levou quase imediatamente à Revolução Francesa e à chamada Idade da Razão. Organizações secretas estavam em acção por trás dessas duas revoluções. Do revolucionarismo nasceu o Romantismo (em si mesmo uma revolução), enquanto a nova religião da Razão gerou a Revolução Industrial, que impulsionou o (segundo) Império Britânico e o Império Germânico. Nesse cenário, houve supostas revoluções na Europa em 1830, 1848 e 1871. Na Rússia, houve muita actividade revolucionária na segunda metade do século XIX, culminando com a Revolução de 1917 e o advento de Staline. Organizações Secretas estavam em acção.

No século XX, uma sucessão de mudanças leva a uma revolução mundial. Durante 550 anos, as revoluções influenciadas por associações secretas se sucederam, como um terremoto depois do outro, uma maré depois da outra. Todas essas revoluções começaram com uma ideia oculta, embora a comunicação social as faça parecer meramente políticas. Em todas, o idealismo estimulado nos primeiros dias se corrompeu na prática.

Qual é o significado dos mais recentes acontecimentos da revolução mundial que está ocorrendo agora? Para compreendê-lo, temos que voltar ao passado e examinar as principais revoluções dos últimos 550 anos para ver se emerge um padrão que também esteja por trás dos mais recentes acontecimentos.

Nosso método será começar há 550 anos e formar um quadro progressivo da influência das organizações secretas sobre cada revolução, uma a uma, o que nos permitirá compreender o tempo presente. À medida que passarmos de uma revolução à outra, examinaremos cada um dos quatro estágios de nossa dinâmica revolucionária, que é um conceito inteiramente novo. Avançaremos em ordem cronológica, seleccionando os acontecimentos necessários para que a dinâmica revolucionária seja revelada, mas também os que possam fornecer um quadro da revolução e uma percepção do seu significado. Isso pode envolver algum detalhamento. Esse detalhamento é essencial, pois o que falta na nossa compreensão dessas revoluções é o seu significado. Os acontecimentos não se perderam: foram deixados pela maré da História, como cascas de siri, algas ou pedregulhos numa praia, mas a maré de significado retrocedeu. Para entender a presente revolução mundial, temos que redescobrir o conhecimento perdido que suscitou os acontecimentos das revoluções passadas, o que só pode ser feito reinterpretando de maneira nova os detalhes relativos a esse conhecimento perdido que mais se destacam. Tendo recapturado a dinâmica revolucionária de uma revolução por meio dos seus principais acontecimentos e do seu significado perdido, vamos então nos deter para reflectir e nos reconectar ao nosso tema principal». In Nicholas Hagger, A História Secreta do Ocidente, 2005, Editora Cultrix, 2011, ISBN 978-853-161-103-2.

Cortesia de ECultrix/JDACT

JDACT, Nicholas Hagger, Literatura, Narrativa, 

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Domingos Amaral. Por Amor a uma Mulher. «Estava aterrada ao perceber que o seu amado príncipe se fascinara por aquela galega loira e sardenta. E mais ficou quando o escutou questionar a mãe…»

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Lanhoso, Março de 1120

«(…) Os seres humanos fod… muito quando se sentem vencedores, mas para a minha investigação o mais relevante foi descobrir que também o arcebispo Gelmires já sabia da relíquia, naquela época, e já a desejava encontrar, tal como a rainha Urraca. Os planos de ambos contra o Condado Portucalense e a independência do novo reino de Portugal eram antigos...

Guimarães, Março de 1120

Em Lanhoso, na manhã seguinte à secreta conversa entre as duas irmãs, o arcebispo Gelmires mandou retirar as suas tropas, alegando graves crimes cometidos por Urraca, e partiu para a fronteira fluvial do Minho, acampando aí, à espera do desenrolar de uma conspiração que julgava dominar. Perante tal desfeita, a rainha Urraca perdeu a relutância que na véspera ainda tivera e convenceu-se de que Gelmires a traíra mais uma vez. Em vez de atacar Lanhoso, como esperava o prelado de Compostela, propôs a paz a dona Teresa, e logo ali foi assinado um tratado entre as duas filhas de Afonso VI, que, embora não cedesse à mais nova o ambicionado trono da Galiza, lhe garantia a posse dos territórios fronteiriços de Tui a Zamora.

Em inesperada concórdia, dona Urraca e seus homens retiraram pela mesma estrada que seguira Gelmires, e foram dar com ele ainda acampado. Furiosa, a rainha de Leão e Castela mandou prender o arcebispo traidor. Quanto a nós, portucalenses, regressámos a Guimarães acompanhados pelo príncipe, embora notando que Fernão Peres nos tratava com secura. Só viríamos a perceber que iríamos ser hostilizados pelo galego já na cidade, onde apareceu igualmente Gomes Nunes Pombeiro, acompanhado pela mulher e pelas filhas. Com o tratado assinado, o senhor de Toronho estava aliviado: nem Tui fora saqueada, nem teria de prestar vassalagem a Urraca! Notava-se-lhe tal alegria que logo disponibilizou as suas meninas para casarem com nobres portucalenses. Porém, Fernão Peres rejeitou a ideia.

É cedo para isso, rosnou. Roma não paga a traidores!, citou o Trava, enquanto a rainha, ao seu lado, abanava a cabeça, em concordância. A curiosa Chamoa perguntou qual o significado daquela expressão, mas o tio mandou as crianças brincarem para o pátio do castelo, dizendo que aquelas não eram conversas para ter à frente delas. Já cá fora, Maria e Chamoa saltaram ao eixo até que pouco tempo depois surgiram no pátio Gomes Nunes e Elvira Trava, que com um ar preocupado pegaram na mão das filhas e partiram. Foi a primeira vez que o meu melhor amigo viu Chamoa Gomes, e a primeira vez que vi a minha Maria. Estávamos também no pátio, mas eu, mais do que curioso com as moças, sentia-me intrigado, pois desconhecia porque se desagradara o Trava. Já Afonso Henriques, apenas me perguntou: quem é aquela, a loira?

Os cabelos cor de mel de Chamoa, o seu sorriso encantador, os seus belos olhos verdes e as suas profusas sardas haviam-no encantado. A prima Raimunda revelou-me que foi nesse dia que sentiu uma primeira pontada de ciúme, enquanto me ouvia esclarecer: são as sobrinhas do Trava, de Tui. Estava aterrada ao perceber que o seu amado príncipe se fascinara por aquela galega loira e sardenta. E mais ficou quando o escutou questionar a mãe, já de novo na sala: podemos ir a Tui? Lembro-me de ter visto dona Teresa franzir a testa e resmungar: a Tui? Não há lá nada de jeito, a não ser ursos! Ides é para Lamego, com quem vos trouxe!

Embora ainda fôssemos crianças, percebi perfeitamente que ela se referia a meu pai e meu tio, e recordo que o príncipe se virou para a mãe com um olhar inquisidor. Todos havíamos já notado uma clara animosidade desde a partida de Lanhoso, mas só ali percebemos que o sentimento de traição e deslealdade que se apoderara da rainha e do seu amante, por terem sido abandonados pelos portucalenses em Lanhoso, teria graves consequências. Pouco depois, a rainha informou que meu pai e meu tio seriam afastados do governo do Condado e que Paio Soares continuaria na Maia. O meu melhor amigo não ficou satisfeito, pois não queria abandonar a mãe, e com alguma esperança acercou-se dela para lhe expor um pedido. Incomodada, dona Teresa revirou os olhos». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, História, Literatura, A Arte, 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Por Amor a uma Mulher. Domingos Amaral. «A rainha Urraca, embora compreendesse a lógica perversa daquelas preferências da irmã, continuava incrédula, o que levou dona Teresa a recordar o passado de forma vaga, mas subtilmente ameaçadora»

 

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Lanhoso, Março de 1120

«(…) Dona Teresa insistiu: depois de a deixar, o arcebispo acusaria dona Urraca de ter envenenado o conde Henrique, oito anos antes, em Astorga, inflamando assim os ódios dos portucalenses, que correriam a cercar e derrotar a megera, matando-a para saciar a sua sede de vingança. Terminada a golpada, um entusiasmado Gelmires colocaria no trono o seu protegido, o filho da rainha, Afonso Raimundes.

O arcebispo sabe que haveis usado peçonha com meu marido Henrique, para o castigar por não vos dar a relíquia da Terra Santa! Dona Urraca ficou espantada e dona Teresa continuou: sabeis bem quanto o Gelmires deseja relíquias, no passado já nos roubou as de Braga. Ele quer descobrir a que meu marido escondeu e depois entregá-la a vosso filho, coroando-o imperador! Petrificada, a rainha Urraca perguntou à irmã: como o sabeis? Dona Teresa murmurou, depois de lhe piscar o olho: não vos esqueçais de que meu amigo Fernão é filho de Pedro Froilaz, o perceptor de vosso filho Raimundes e grande aliado de Gelmires. Estão unidos, só vós o impedis! Dona Urraca, desesperada, enfureceu-se: miseráveis, canalhas!

A rainha de Leão e Castela desenvolvera ao longo da vida duas paixões: uma pela traição, outra pela desconfiança. Incapaz de não desconfiar, habituara-se a trair e, como era costumeira a trair, desconfiava que todos eram iguais a ela. Porque me revelais essa vil intriga?, perguntou. Dona Teresa explicou: odiava o Gelmires, por causa das querelas entre Compostela e Braga e do roubo das relíquias que ele praticara nessa cidade. Entre dois males, preferia que a irmã se mantivesse rainha e lhe concedesse a regência dos territórios que lhe pertenciam, como Toronho, Celanova, Límia, Astorga e Zamora. Antes isso que o Gelmires vitorioso e vosso filho Afonso Raimundes imperador, pois eles nunca me darão a Galiza, constatou.

A rainha Urraca, embora compreendesse a lógica perversa daquelas preferências da irmã, continuava incrédula, o que levou dona Teresa a recordar o passado de forma vaga, mas subtilmente ameaçadora. Também eu estava em Astorga, quando meu marido morreu... Além disso, o Gelmires lembra-se da conspiração de Toledo, contra o nosso irmão Sancho. Se vos matam, a próxima serei eu. O pacto entre as irmãs justificava-se, pois, com uma lógica de sobrevivência mútua. Afinal, eram duas mulheres num mundo de homens, sempre hostilizadas e criticadas por todos. Eles querem eliminar-nos, estamos a mais, murmurou dona Teresa. Todavia, a teimosa Urraca resistia, pois estava crente de que, mesmo abandonada pelos soldados do arcebispo, conseguia vencer os portucalenses. Além disso, ainda pensava na relíquia, pois perguntou: o antigo alferes de vosso marido, Paio Soares, está por cá? Talvez desejasse prendê-lo, para lhe extrair informações, mas quando dona Teresa lhe garantiu que ele continuava refugiado na Maia, a rainha ficou ligeiramente desiludida, pois um dos seus objectivos da invasão seria inatingível para já. Decidida, dona Urraca terminou o colóquio, mas dona Teresa sabia que lhe havia abalado as convicções, sempre frágeis e volúveis.

Dentro da cela onde se escondera, a minha prima Raimunda viu dona Urraca partir, saindo das masmorras no meio da chuvada e montando o seu cavalo, sempre dissimulada pelo capuz, e esperava que dona Teresa se recolhesse quando, para sua surpresa, apareceu Fernão Peres, vindo de uma outra cela. Foi assim que tomámos conhecimento da pérfida intriga daquele dueto de espertos. Dona Teresa, entusiasmada, perguntou ao amante: Gelmires acreditou que lhe damos a relíquia? Fernão Peres Trava limitou-se a um sorriso confirmativo: o arcebispo aceitara a promessa. Embora ainda não tivessem garantido o desfecho pretendido, a euforia logo se apoderou dos dois amantes. A prima Raimunda contou-nos que se desataram a beijar no corredor das masmorras, festejando o seu diabólico plano. Ali mesmo, empolgada com a antecipação de uma glória sem batalhas, dona Teresa levantou as saias, amparando-se na parede, e deixou que o Trava a possuísse com terna, mas fogosa, intensidade». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, História, Literatura, A Arte, 

Por Amor a uma Mulher. Domingos Amaral. «Sem lhe dar tempo para pensar, dona Teresa alegou que a irmã fora conduzida para uma armadilha. Lanhoso era um castelo inexpugnável, resistiria meses ao cerco, e as tropas portucalenses…»

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Lanhoso, Março de 1120

«(…) Os seus perceptores compreenderam a preocupação, mas Paio Soares revelou-se intransigente: jamais colocaria as suas tropas em risco nos arrabaldes de Lanhoso! Porém, e por mais veementes que fossem os seus argumentos, não convenceram o jovem príncipe. Enervado, o rico-homem da Maia amuou e declarou que, se não seguiam os seus conselhos, não valia a pena perder tempo. Na verdade, o que ele tinha era um medo fantasmagórico de dona Urraca, e por isso escolheu afastar-se mais uma vez para a sua Maia. Exaltado, saiu pela porta da torre de menagem e gritou: Ramiro, preparai o meu cavalo!

Naquela primeira vez que o vi, Ramiro era um jovem franzino, da mesma idade do que o príncipe. Filho bastardo de Paio Soares, encolhia-se na sua presença, pois era tratado com dureza. Ao chegar perto do cavalo, que o filho não conseguia acalmar, o pai gritou-lhe: sois um tolo, dai cá isso! Montou em dois tempos o seu alazão e olhou com desprezo para o bastardo, que logo correu atrás. Todos tivemos pena dele, tão mal vestido e humilhado em público. Mas logo o príncipe nos relembrou os seus desejos, dizendo, sempre voluntarioso: vamos para Lanhoso! Ao princípio da noite, uma pequena comitiva chegou à povoação, já cercada por dona Urraca e Gelmires, e foi necessária a intervenção de Fernão Peres Trava para que fosse autorizada a nossa entrada no castelo. Já na presença de dona Teresa, que ceava, o Trava revelou a sua profunda desilusão com os portucalenses. Onde estão as nossas tropas?, perguntou, indignado. Os irmãos de Ribadouro explicaram que haviam considerado mais prudente deixá-las em Guimarães, defendendo a cidade, e que Paio Soares temera vis emboscadas em redor de Lanhoso, preferindo regressar à Maia com os seus homens. Deixam a vossa rainha à mercê da irmã?, enfureceu-se o Trava.

Também Bermudo considerou aquela, uma traição indigna, e os irmãos Trava só atenuaram a sua fúria ao saberem que fora o príncipe que forçara a comitiva a vir ajudar a mãe. Ao menos, alguém corajoso!, exclamou Fernão Peres. Para espanto dos presentes, dona Teresa considerou uma tolice o príncipe ter vindo a Lanhoso, pois não só arriscava a própria vida, como o fazia sem tropas, não auxiliando a mãe em nada. Urraca pode, de uma assentada, matar-me a mim e ao meu filho! Mirando Afonso Henriques, em cuja cara se pressentia a desilusão com a reacção maternal, perguntou-lhe: não vos avisei já para não lutardes com mulheres?

Agrestes com os portucalenses, dona Teresa e seu amante logo nos dispensaram, atribuindo-nos uns quartos numa habitação secundária da alcáçova, e provavelmente nenhum de nós teria sabido da surpreendente intriga que veio a urdir-se, não fosse a minha prima Raimunda ter revelado, mais uma vez, as suas habilidades de espia, e escutado uma inesperada e improvável conversa que aconteceu nessa noite.

Começara a chover e só as sentinelas não se haviam recolhido, quando alguém abriu a ponte levadiça a um solitário cavaleiro, deixando-o entrar sem sequer retirar o capuz. Era dona Urraca, a quem sua irmã enviara uma mensagem secreta, alegando que deviam parlamentar. Embora bulhassem constantemente, nos intervalos dessas polémicas as duas irmãs davam-se bem. Sempre que podiam encontravam-se em segredo, longe dos seus conselheiros, e decidiam livremente o que desejavam. Em Lanhoso, repetiram o costume familiar e, para não serem vistas, desceram às masmorras vazias e frias. Iluminada apenas pela chama de dois archotes, Urraca parecia envelhecida por tantas guerras e zangas, ora com o marido, Afonso I de Aragão, ora com o filho, ora com a irmã, ora com os incontáveis amantes com quem folgava. Imprevisível, inquieta e turbulenta, não era dotada para o governo dos seus reinos, e muita da balbúrdia que consumia a Hispânia nascia das vibrações drásticas daquele útero inconstante, daquela alma atormentada e daquela inteligência fogosa, mas limitada. Talvez por isso, notavam-se já nela muitas rugas, cabelos cinzentos, tremura nas mãos e um ligeiro arfar nos enfraquecidos pulmões.

Sem lhe dar tempo para pensar, dona Teresa alegou que a irmã fora conduzida para uma armadilha. Lanhoso era um castelo inexpugnável, resistiria meses ao cerco, e as tropas portucalenses, que estavam a ser reunidas em Guimarães, em breve fustigariam os flancos das dela, desgastando-as até à exaustão. Estes desfiladeiros são mortais, garantiu dona Teresa. Não só notara que a irmã desconhecia a agressiva geografia do local, como que parecia esgotada por semanas de combates e saudosa do seu actual amante, um nobre castelhano qualquer. Por isso, dona Teresa acrescentou sem piedade: o Gelmires vai trair-vos. Amanhã vai retirar as suas tropas, e deixar-vos à minha mercê! O exército que cercava Lanhoso era vasto, deveria contar talvez cinco mil homens, mas desses apenas metade eram os leoneses e os castelhanos de dona Urraca, os outros eram galegos e pertenciam ao arcebispo de Compostela. Se estes retirassem, a vantagem numérica de dona Urraca face aos portucalenses diminuía muito. A ira fez a rainha parecer ainda mais envelhecida e alucinada. Pode lá ser, o Gelmires ressona na sua tenda!, exclamou». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, História, Literatura, A Arte, 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Objecto Quase. José Saramago. «Também agora se sentou este homem velho que primeiro saiu de uma sala e atravessou outra, depois seguiu por um corredor que poderia ser a coxia do cinema…»

 

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«(…) Maravilhosa música que ninguém ouviu durante meses e anos, sem descanso, nenhuma pausa, de dia e de noite, na hora esplêndida e assustadora do nascer do Sol e nessa outra ocasião de maravilha que é adeus luz até amanhã, este roer constante, contínuo, como um infinito realejo de uma nota só, moendo, triturando fibra a fibra, e toda a gente distraída a entrar e a sair, lá ocupada com as suas coisas, sem saber que dali sairá, repetimos, numa hora assinalada, de pistolas em punho, o Anobium, enquadrando o inimigo, o alvo, e acertando ou acentrando, que é precisamente acertar no centro, ou fica a ser desde agora, porque alguém tinha de ser o primeiro. Maravilhosa música afinal composta e tocada por gerações de coleópteros, para seu gozo e nosso benefício, como foi sina da família Bach, tanto antes como depois de João Sebastião. Música não ouvida, e se ouvisse que faria, por aquele que sentado na cadeira com ela cai e forma na garganta, de susto ou surpresa, este som articulado que talvez não venha a ser grito, uivo, muito menos palavra. Música que vai calar-se, que se calou agora mesmo: Buck Jones vê o inimigo caindo inexoravelmente para o chão, sob a grande e ofuscante luz do Sol texano, enfia nos coldres os revólveres e tira o grande chapéu de abas largas para enxugar a testa e porque Mary se aproxima a correr, de vestido branco, agora que o perigo já passou.

Haveria, porém, algum exagero em afirmar que todo o destino dos homens se encontra inscrito no aparelho bucal roedor dos coleópteros. Se assim fosse, teríamos ido viver todos para casas de vidro e ferro, portanto ao abrigo do Anobium, mas não ao abrigo de tudo, porque, afinal, por alguma razão existe, e para outra também, esse misterioso mal a que damos, nós cancerosos em potência, o nome de cancro do vidro, e essa tão vulgar ferrugem, que, vá alguém desvendar estes outros mistérios, não ataca o pau-ferro mas desfaz literalmente o que só ferro for. Nós, homens, somos frágeis, mas, em verdade, temos de ajudar a nossa própria morte. É talvez uma questão de honra nossa: não ficarmos assim inermes, entregues, darmos de nós qualquer coisa, ou então para que serviria estar no mundo? O cutelo da guilhotina corta, mas quem dá o pescoço? O condenado. As balas das espingardas perfuram, mas quem dá o peito? O fuzilado. A morte tem esta peculiar beleza de ser tão clara como uma demonstração matemática, tão simples como unir com uma linha dois pontos, desde que ela não exceda o comprimento da régua.

Tom Mix dispara os seus dois revólveres, mas ainda assim é necessário que a pólvora comprimida nos cartuchos tenha poder suficiente e seja em quantidade suficiente para que o chumbo galgue a distância na sua trajectória ligeiramente curva (não tem que fazer aqui a régua), e, tendo cumprido as exigências da balística, fure primeiro à boa altura o colete de pano, depois a camisa talvez de flanela, a seguir a camisola de lã que de Inverno aquece e de Verão absorve o suor, e finalmente a pele, macia e elástica, que primeiramente se recolhe supondo, se a pele supõe, se não supura apenas, que a força dos projécteis ali se quebrará, e cairão portanto as balas por terra, na poeira do caminho, a seu salvo o criminoso até ao próximo episódio. Não foi porém assim. Buck Jones já tem Mary nos braços e a palavra Fim nasce-lhe da boca e vai encher o ecrã. Seria a altura de se levantarem os espectadores, devagar, seguirem pela coxia para a luz crua que vem da porta, porque foram à matinée, fazendo força para regressar a esta realidade sem aventura, um pouco tristes, um pouco corajosos, e tão mal apontados à vida que na carreira de tiro espera, que há mesmo quem se deixe ficar sentado para a segunda sessão: era uma vez.

Também agora se sentou este homem velho que primeiro saiu de uma sala e atravessou outra, depois seguiu por um corredor que poderia ser a coxia do cinema, mas não é, é uma dependência da casa, não diremos sua, mas apenas a casa em que vive, ou está vivendo, toda ela portanto não sua, mas sua dependência. A cadeira ainda não caiu. Condenada, é como um homem extenuado por enquanto aquém do grau supremo da exaustão: consegue aguentar o seu próprio peso. Vendo-a de longe, não parece que o Anobium a transformou, ele cow-boy e mineiro, ele no Arizona e em Jales, numa rede labiríntica de galerias, de se perder nela o siso. Vê-a de longe o velho que se aproxima e cada vez mais de perto a vê, se é que a vê, que de tantos milhares de vezes que ali se sentou a não vê já, e esse é que é o seu erro, sempre o foi, não reparar nas cadeiras em que se senta por supor que todas são de poder o que só ele pode. S. Jorge, santo, veria ali o dragão, mas este velho é um falso devoto que se mancumunou, de gorra, com os cardeais patriarcas, e todos juntos, ele e eles, in hoc signo vinces. Não vê a cadeira, ainda agora vem a sorrir de cândido contentamento, e chega-se a ela, sem reparar, enquanto esforçadamente o Anobium desfaz na última galeria as derradeiras fibras e aperta sobre as ancas o cinto dos coldres. O velho pensa que irá descansar digamos meia hora, que talvez dormite mesmo um pouco nesta boa temperatura do princípio de Outono, que certamente não terá paciência de ler os papéis que traz na mão. Não nos impressionemos. Não se trata de um filme de terror; com quedas assim se fizeram e farão excelentes cenas cómicas, gags hilariantes, como os fez o Chaplin, todos temos na memória, ou o Pat e Patachon, ganha um doce quem se lembrar». In José Saramago, Objecto Quase, 1978, Porto Editora, 2015, ISBN 978-972-004-655-0.

Cortesia de PortoE/JDACT

JDACT, José Saramago, Literatura, Política, Cultura, Nobel, MLCT,

O Enigma de Jefferson. Steve Berry. «… cujos lábios pálidos tremiam, assim como a mão que apontava a arma. O jovem apertou o gatilho. O cão da arma estalou. A cápsula foi detonada»

Cortesia de wikipedia e jdact

30 de Janeiro de 1835

«O presidente Andrew Jackson estava com um revólver apontado contra o peito. Uma visão estranha, mas não totalmente incomum para um homem que passara quase a vida toda combatendo em guerras. Ele estava saindo da Rotunda do Capitólio, caminhando na direcção do Pórtico Oriental, seu humor sombrio combinando com o clima naquele dia. O secretário do Tesouro, Levi Woodbury, o ajudava a caminhar, assim como a sua fiel bengala. O Inverno tinha sido severo naquele ano, especialmente em se tratando de um corpo esquelético de 67 anos, seus músculos estavam extraordinariamente tensos, seus pulmões sempre congestionados.

Ele se aventurara a vir da Casa Branca somente para se despedir de um antigo amigo, Warren Davis, da Carolina do Sul, duas vezes eleito para o Congresso, uma vez como aliado, um democrata jacksoniano, e a outra como um nulificador. Seu inimigo, o ex-vice-presidente John C. Calhoun, havia inventado o Partido Nulificador, e seus membros acreditavam realmente que os estados podiam escolher as leis federais que desejavam obedecer. A tarefa do diabo era como ele descrevia essa insensatez. Não haveria país algum se os nulificadores tivessem conseguido o que queriam, o que, ele imaginava, era a verdadeira intenção deles. Felizmente, a Constituição citava um governo unificado, não uma liga frouxa em que todos pudessem fazer o que bem entendessem. O povo é supremo, os estados não.

Ele não tinha planeado comparecer ao funeral, mas mudou de ideia na véspera. Independentemente das suas desavenças políticas, ele gostava de Warren Davis; assim, toleraria o sermão deprimente do capelão, a vida é incerta, particularmente para os idosos, e então passaria pelo caixão aberto, murmuraria uma oração e voltaria para a Rotunda. A multidão de curiosos era impressionante. Centenas tinham vindo para vê-lo rapidamente. Ele sentira falta daquela atenção. Quando se encontrava no meio da multidão, era como se estivesse cercado pelos seus filhos, feliz com todo aquele afecto, amando-os devidamente como um pai. E havia muito do que se orgulhar. Ele acabara de realizar o impossível, saldar a dívida interna do país, plenamente quitada durante o 58º ano da república, no sexto ano de sua presidência, e muitos naquela multidão bradavam a sua admiração por isso. No andar superior, um dos seus secretários de gabinete lhe contou que os espectadores tinham desafiado o frio principalmente para ver a Velha Nogueira.

Ele sorriu ao ouvir a referência à sua rigidez, mas suspeitava do elogio. Era do seu conhecimento que muitos temiam que ele rompesse com a prática precedente e se candidatasse a um terceiro mandato, entre esses, membros do seu próprio partido, alguns dos quais cultivavam ambições presidenciais particulares. Os inimigos pareciam estar por todos os cantos, especialmente ali, no Capitólio, onde os representantes do sul do país ficavam cada vez mais ousados, e os do norte, cada vez mais arrogantes. Manter algum tipo de ordem havia se tornado difícil, mesmo para o seu pulso forte. E pior ainda, recentemente, ele se surpreendera perdendo o interesse pela política. Todas as grandes batalhas pareciam ter ficado para trás. Apenas dois anos o separavam do fim de seu governo, e então sua carreira estaria terminada. Por essa razão, ele permanecia reservado em relação à possibilidade de um terceiro mandato. Pelo menos, a perspectiva de que se candidatasse novamente mantinha seus inimigos afastados. Na verdade, ele não nutria intenção alguma de exercer um novo mandato. Aposentara-se em Nashville. De volta ao seu lar no Tennessee e a sua adorada Hermitage. Mas primeiro havia essa questão do revólver. O desconhecido bem-vestido, apontando aquela pistola de uma só bala contra ele, havia surgido dentre os espectadores, seu rosto dissimulado por uma barba negra e espessa. Quando era general, Jackson derrotara britânicos, espanhóis e tropas indígenas. Como duelista, ele certa vez matara em nome da honra. Nenhum homem o amedrontava. E, certamente, tampouco aquele louco, cujos lábios pálidos tremiam, assim como a mão que apontava a arma. O jovem apertou o gatilho. O cão da arma estalou. A cápsula foi detonada.

Um estrondo soou, ecoando nas paredes de pedra da Rotunda. Mas nenhuma fagulha causou a ignição da pólvora no tambor. A arma negou fogo. O agressor pareceu perplexo. Jackson sabia o que havia acontecido. O ar frio e húmido. Ele já lutara muitas batalhas sob a chuva e sabia da importância de se manter a pólvora a seco. A ira invadiu-o. Agarrando a sua bengala com as mãos, como uma lança, ele investiu contra o seu agressor. O jovem largou o revólver. Uma segunda pistola apareceu, com seu o cano agora a apenas poucos centímetros do peito de Jackson. O homem puxou o gatilho. A cápsula de percussão reagiu, mas não houve fagulha. Segunda falha». In Steve Berry, O Enigma de Jefferson, 2011, Editora Record, 2012, ISBN 978-850-140-205-9.

Cortesia de ERecord/JDACT

JDACT, Steve Berry, Literatura, USA, Século XIX, 

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Contos Proibidos. Rui Mateus. «O chamado caso do fax de Macau ou caso Ernaudio dar-me-ia o último argumento de peso para escrever este livro. A propósito de um conflito…»

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«(…) A Revolução Portuguesa tomara-se um marco essencial para a compreensão dos grandes acontecimentos políticos mundiais da segunda metade do século XX, se bem que os políticos portugueses, que pouco tinham feito para que o 25 de Abril acontecesse, também não a soubessem promover, nem conseguissem dela tirar os louros que, por direito próprio, Portugal merecia. A transformação pacífica de Portugal num país livre e democrático foi um acontecimento não só inédito como exemplar, que viria a contribuir de forma absolutamente decisiva para a falência de inúmeros regimes totalitários em África, na América Latina e no próprio Leste Europeu e para um desanuviamento da tensão nas relações internacionais. A descolonização total do Continente Africano e os processos de democratização na Península Ibérica e na América Latina seriam o primeiro resultado da Revolução de Abril. O fim do apartheid e das ditaduras comunistas no Leste Europeu, pela via do diálogo e do pluripartidarismo, seriam também consequência da vitória das forças democráticas, primeiro em Portugal, depois, como reflexo dessa vitória, encontrariam força suficiente no seio da Internacional Socialista e no seio da NATO para rejeitar soluções de submissão unilateral nos chamados diálogos Leste Oeste e Norte Sul. Na base da força moral das forças democráticas, perante os graves conflitos entre o Leste e o Oeste e na escolha da via para a libertação dos Povos, nos anos 80, estaria sempre presente o exemplo português a que André Malraux chamaria a primeira vitória dos mencheviques sobre os bolcheviques. Bastaria referir, a este propósito, a situação de ruptura a que quase se chegou no seio da NATO por causa do regime sandinista na Nicarágua, sobre as propostas conducentes a um processo de desarmamento unilateral na Europa Ocidental e sobre um eventual apoio europeu a formas de luta armada a conduzir por países da Linha da Frente na África Austral, como forma de pôr fim ao regime do apartheid na África do Sul. Seria o exemplo da moderação da vitória dos mencheviques em Portugal que, na maior parte dos casos, mesmo quando a revolução portuguesa já parecia esquecida, cimentaria as decisões de bom senso que acabariam por prevalecer e moderaria os ímpetos revanchistas dos republicanos norte-americanos e os ataques de pacifismo serôdio de alguns socialistas europeus. Portugal esteve no epicentro de uma grande ameaça à paz tendo a solidariedade internacional, que nos faltou durante tantos anos, finalmente funcionado. Entre as várias opções que se colocariam aos capitães de Abril e as várias receitas preconizadas para Portugal prevaleceria o bom senso. Mas os partidos políticos e seus principais dirigentes rapidamente desperdiçariam este enorme património, em lutas intestinas e com vaidades provincianas. Hoje, visto de fora para dentro, Portugal regressou ao seu estatuto de país insignificante e receptor. Não foram conseguidos os grandes objectivos da Revolução de Abril e o País encontra-se entre a Europa e a mediocridade. Parece que o povo português não consegue libertar-se do fatalismo da I República. Este meu livro de memórias, assim o espero, é também uma contribuição contra esse fatalismo.

O chamado caso do fax de Macau ou caso Ernaudio dar-me-ia o último argumento de peso para escrever este livro. A propósito de um conflito, em nada diferente dos conflitos que devassam o interior dos partidos políticos portugueses e que se prendem com situações de poder; a propósito de um financiamento político relativamente insignificante e em nada, a não ser no montante, diferente dos que têm sido feitos ao longo dos últimos vinte anos a partidos políticos e organizações afins, confundiu-se a árvore com a floresta e iniciou-se a investigação à corrupção em Portugal de tal forma que, ao contrário do que tem acontecido noutros países europeus, se inviabilizaria o conhecimento da verdade e, como tal, o combate à corrupção. Em vez de se optar por um esclarecimento idóneo e completo, a que os Portugueses têm direito, sobre o estado da Nação em matéria de tráfico de influências e de corrupção, cortando o mal pela raiz ou, caso se verificasse que a verdade poderia ser fatal, a Assembleia da República em acto público entendesse fazer um acto de contrição para bem da democracia, criando moratórias e regras novas, o Ministério Público parece ter assumido a responsabilidade de definir o interesse nacional. Produzindo uma acusação sem provas numa total inversão de valores e, mesmo admitindo a convicção do investigador em relação a um crime que não existiu, ignorando a máxima de Séneca: quem, podendo, não manda que o delito se não faça, manda que se faça.

Não há Democracia sem a participação dos cidadãos na vida do seu país. Escolheu-se definir, em Portugal, que o enfâse dessa participação se faça através de partidos políticos. Mas faltam ainda definir regras estritas sobre a democracia interna nos partidos que os impossibilite de se transformarem, como tem vindo a acontecer em Portugal, em aparelhos burocráticos fechados que impedem essa mesma participação». In Rui Mateus, Contos Proibidos, 1996, Publicações Dom Quixote, 1996, ISBN 972-201-316-5.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

JDACT, Rui Mateus, Conhecimento, Política,

Contos Proibidos. Rui Mateus. «Na Áustria, com Bruno Kreisky, na Holanda, com Joop den Uyl, na Bélgica e até na Itália, graças à ameaça do P.C. de Enrico Berlinguer, emergem igualmente partidos sociais-democratas…»

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«(…) A vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial, a criação da Organização do Tratado do Atlântico Norte, o lançamento dos alicerces da União Europeia não viabilizariam, contudo, o acesso dos países do Sul ao fenómeno de desenvolvimento dos seus vizinhos mais a norte e, até meados dos anos 70, a Europa viveu num clima de completa desunião. Entre democracias mais ou menos formais no Norte e Centro, ditaduras medíocres e subservientes de inspiração cristã na Península Ibérica, uma ditadura militar com reminiscências pan-arábicas na Grécia e uma imensidão de regimes comunistas totalitários e despóticos, proclamados pela via revolucionária em nome da classe operária, a Leste. O início da luta dos Movimentos de Libertação contra o colonialismo português na Guiné, em Moçambique e em Angola, empurrados pela miopia e desinteresse ocidental para os braços da União Soviética, dariam lugar ao chamado Movimento dos Capitães que a 25 de Abril derrubaria, para surpresa de todos, dentro e fora de Portugal, a ditadura iniciada com o Estado Novo, em 1933, por António Oliveira Salazar. Este levantamento pacífico e sem objectivos políticos claros, provocado quer por razões de natureza sindical, quer pela derrota psicológica dos militares portugueses nas guerras coloniais, viria a influenciar a evolução política mundial deste fim de século. Durante mais de uma década, até à entrada de Portugal como membro de pleno direito na Comunidade Europeia, em 1986, o nosso pequeno e subdesenvolvido país, até então quase esquecido do seu contexto europeu, mobilizaria de forma inédita todas as atenções mundiais com a sua Revolução dos Cravos» e teria reflexos profundos na Europa e no Mundo. A nossa revolução seria quase instantaneamente adoptada por praticamente todas as forças democráticas internacionais, tendo-se democratas cristãos, liberais, socialistas e até comunistas em todas as suas imagináveis versões, em determinados momentos e por diferentes motivos, considerado próximos do nosso 25 de Abril. Para o Partido Socialista, que protagonizaria de certo modo os aspectos positivos da Revolução e que imprimiria a sua marca ao sistema político constitucional vigente, esta seria também a sua década dourada…

Em Abril de 1974, a social-democracia europeia entra na sua fase de apogeu. Partidos filiados na Internacional Socialista, a que o PS português também pertence, estão então no governo na Alemanha Federal, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Finlândia, Grã-Bretanha, Holanda, Israel, Luxemburgo, Noruega e Suécia. Na Escandinávia, os movimentos sociais-democratas de inspiração sindical começam a desprender-se do conservadorismo em que a sua dependência operária os lançara e a ansiar por um maior protagonismo internacional. Na Grã-Bretanha, a onda de revolução social da segunda metade dos anos 60 contra o chamado establishment reabre as portas ao Partido Trabalhista liderado por Harold Wilson, que se mostra impotente para travar a vaga que transformaria aquele partido, tradicionalmente moderado, num dos mais radicais da Internacional Socialista. Na Alemanha, a democracia controlada do pós-guerra deu lugar a um novo Partido Social-Democrata com forte liderança de Willy Brandt e Helmut Schrnidt os quais, apesar das nuances entre si, tinham o objectivo comum de transformar novamente a Alemanha num país unificado e no motor da Europa. Na Áustria, com Bruno Kreisky, na Holanda, com Joop den Uyl, na Bélgica e até na Itália, graças à ameaça do P.C. de Enrico Berlinguer, emergem igualmente partidos sociais-democratas dispostos a dar nova cara ao socialismo. Socialismo até então caracterizado essencialmente pelo seu eurocentrismo. Nos Estados Unidos também sopram ventos de mudança e, quando o 25 de Abril acontece em Portugal, já a administração republicana de Richard Nixon está ferida de morte com o caso Watergate. Quando James Carter e Walter Mondale lançam a sua plataforma eleitoral de cooperação internacional e de defesa dos Direitos Humanos, em 1976, Willy Brandt prepara-se para ser eleito presidente da Internacional Socialista, com base num programa de actividades não muito diferente dos valores proclamados pelos democratas americanos e com a firme intenção de pôr fim ao eurocentrismo, dando início a uma nova fase de cooperação internacional entre socialistas democráticos, que alcançasse todos os continentes». In Rui Mateus, Contos Proibidos, 1996, Publicações Dom Quixote, 1996, ISBN 972-201-316-5.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

JDACT, Rui Mateus, Conhecimento, Política,   

Objecto Quase. José Saramago. «Nenhum desses teve o prémio à espera nos lábios de Mary, nem a cumplicidade do cavalo Raio que vem por trás e empurra o cow-boy tímido pelas costas para os braços da rapariga…»

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«(…) Humilhar-se-á quem tal verificação fizer, pois não é menos que humilhante usar pistola no sovaco e ter um taco de madeira carunchosa na mão, esfarelando-o debaixo da unha que para isso nem precisaria de ser tão grossa. E depois arredar com o pé a cadeira partida, sem ao menos irritação, e deixar cair, também cair, o pé inútil, agora que acabou o tempo da sua utilidade, que precisamente é a de se ter partido. Em algum lugar foi, se é consentida esta tautologia. Em algum lugar foi que o coleóptero, pertencesse ele ao género Hilotrupes ou Anobium ou outro (nenhum entomologista fez peritagem e identificação), se introduziu naquela ou noutra qualquer parte da cadeira, de qual parte depois viajou, roendo, comendo e evacuando, abrindo galerias ao longo dos veios mais macios, até ao sítio ideal de fractura, quantos anos depois não se sabe, ficando porém acautelado, considerada a brevidade da vida dos coleópteros, que muitas terão sido as gerações que se alimentaram deste mogno até ao dia da glória, nobre povo nação valente. Meditemos um pouco na obra pacientíssima, esta outra pirâmide de Queóps, se isto são maneiras de grafar egípcio em português, que os coleópteros edificaram sem que dela nada pudesse ver-se por fora, mas abrindo túneis que de qualquer modo irão dar a uma câmara mortuária. Não é forçoso que os faraós sejam depositados no interior de montanhas de pedras, num lugar misterioso e negro, com ramais que primeiro se abrem para poços e perdições, lá onde deixarão os ossos, e a carne enquanto não for comida, os arqueólogos imprudentes e cépticos que se riem das maldições, naquele caso como se diz egiptólogos, neste caso como se deverá dizer lusólogos ou portugalólogos, a seu tempo chamados. Ainda sobre estas diferenças de lugar onde se faz a pirâmide e esse outro onde vai instalar-se ou é instalado o faraó apliquemos el cuento e digamos, de acordo com as sábias e prudentes vozes dos nossos antepassados, que num lado se põe o ramo e no outro se vende o vinho. Não estranhemos portanto que esta pirâmide chamada cadeira recuse uma vez e outras vezes o seu destino funerário e pelo contrário todo o tempo da sua queda venha a ser uma forma de despedida, constantemente voltada ao princípio, não por lhe pesar assim tanto a ausência, que mais tarde será para longes terras, mas para cabal demonstração e compenetração do que despedida seja, pois é bem sabido que as despedidas são sempre demasiado rápidas para merecerem realmente o nome. Não há nelas nem ocasião nem lugar para o desgosto dez vezes destilado até à pura essência, tudo é balbúrdia e precipitação, lágrima que vinha e não teve tempo de mostrar-se, expressão que bem quereria ser de profunda tristeza, ou melancolia como outrora se usou, e afinal fica careta, ou ficacareta que é evidentemente pior.

Caindo assim a cadeira, sem dúvida cai, mas o tempo de cair é todo o que quisermos, e enquanto olhamos este tombo que nada deterá e que nenhum de nós iria deter, agora já sabido irremediável, podemos torná-lo atrás como o Guadiana, não de medroso, porém de gozoso, que é modo celestial de gozar, também sem outra dúvida merecido. Aprendamos, se possível, com Santa Teresa de Ávila e o dicionário, que este gozo é aquela sobrenatural alegria que na alma dos justos produz a graça. Enquanto vemos a cadeira cair, seria impossível não estarmos nós recebendo essa graça, pois espectadores da queda nada fazemos nem vamos fazer para a deter e assistimos juntos. Com o que fica provada a existência da alma, pela demonstrativa via de um efeito que, dito está, precisamente não poderíamos experimentar sem ela. Torne pois a cadeira à sua vertical e comece outra vez a cair enquanto à matéria voltamos.

Eis o Anobium, que este é o nome eleito, por qualquer coisa de nobre que nele há, um vingador assim que vem do horizonte da pradaria, montado no seu cavalo Malacara, e leva todo o tempo necessário a chegar para que passe o genérico por inteiro e se saiba, se nenhum de nós viu os cartazes no átrio da entrada, quem afinal de contas realiza isto. Eis o Anobium, agora em grande plano, com a sua cara de coleóptero por sua vez carcomida pelo vento do largo e pelos grandes sóis que todos nós sabemos assolam as galerias abertas no pé da cadeira que acabou agora mesmo de partir-se, graças ao que a dita cadeira começa pela terceira vez a cair. Este Anobium, já isto foi dito por forma mais ligada às banalidades de genética e reprodução, teve predecessores na obra de vingança: chamaram-se Fred, Tom Mix, Buck Jones, mas estes são os nomes que ficaram para todo o sempre registados na história épica do Far-West e que não devem fazer-nos esquecer os coleópteros anónimos, aqueles que tiveram tarefa menos gloriosa, ridícula até, como de terem começado a atravessar o deserto e morrido nele, ou vindo pé ante pé pela vereda do pântano e aí escorregar e ficar sujo, malcheiroso, que é vexame, castigado com as gargalhadas da plateia e do balcão. Nenhum destes pôde chegar ao ajuste de contas final, quando o comboio apitou três vezes e os coldres foram ensebados por dentro para saírem as armas sem demora, já com os indicadores enganchados no gatilho e os polegares prontos a puxar o cão. Nenhum desses teve o prémio à espera nos lábios de Mary, nem a cumplicidade do cavalo Raio que vem por trás e empurra o cow-boy tímido pelas costas para os braços da rapariga, que não espera outra coisa. Todas as pirâmides têm pedras por baixo, os monumentos também. O Anobium vencedor é o último elo da cadeia de anónimos que o precedeu, em todo o caso não menos felizes, pois viveram, trabalharam e morreram, cada coisa em sua hora, e este Anobium que sabemos fecha o ciclo, e, como o zângão, morrerá no acto de fecundar. O princípio da morte». In José Saramago, Objecto Quase, 1978, Porto Editora, 2015, ISBN 978-972-004-655-0.

Cortesia de PortoE/JDACT

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domingo, 21 de fevereiro de 2021

Objecto Quase. José Saramago. «Desgraçadamente, o mogno, verbi gratia, não resiste ao caruncho como resiste o antes mencionado ébano ou pau-ferro»

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«(…) Muito menos nesta destrinça de questões botânicas que de sinónimos não cuida, mas cuida de verificar dois diferentes nomes que a gente diferente deu à mesma coisa. Pode-se apostar que o nome de pau-ferro foi dado ou pesado por quem teve de o transportar às costas. Aposta pela certa e ganha. Se de ébano fosse, teríamos provavelmente de acoimar de perfeita a cadeira que está caindo, e acoimar ou encoimar se diz porque então não cairia ela, ou viria a cair muito mais tarde, daqui por exemplo a um século, quando já não nos valesse a pena sua de cair. É possível que outra cadeira viesse a cair no lugar dela, para poder dar a mesma queda e o mesmo resultado, mas isso seria contar outra história, não a história do que foi porque está acontecendo, sim a do que talvez viesse a suceder. O certo é bem melhor, principalmente quando muito se esperou pelo duvidoso.

Porém, uma certa perfeição haveremos de reconhecer nesta afinal única cadeira que continua a cair. Foi construída não de propósito para o corpo que nela tem vindo a sentar-se desde há muitos anos mas escolhida por causa do desenho, por acertar ou não contradizer em excesso o resto dos móveis que estão perto ou mais longe, por não ser de pinho, ou cerejeira, ou figueira, vistas as razões já ditas, e ser de madeira costumadamente usada em móveis de qualidade e para durar, verbi gratia, mogno. É esta uma hipótese que nos dispensa de ir mais longe na averiguação, aliás não deliberada, da madeira que serviu para dela cortar, moldar, afeiçoar, grudar, encaixar, apertar e deixar secar a cadeira que está caindo. Seja pois o mogno e não se fale mais no assunto. A não ser para acrescentar quanto é agradável e repousante, depois de bem sentados, e se a cadeira tem braços, e é toda ela mogno, sentir sob as palmas das mãos aquela dura e misteriosa pele macia da madeira polida, e, se curvo o braço, o jeito de ombro ou joelho ou osso ilíaco que essa curva tem.

Desgraçadamente, o mogno, verbi gratia, não resiste ao caruncho como resiste o antes mencionado ébano ou pau-ferro. A prova está feita pela experiência dos povos e dos madeireiros, mas qualquer de nós, se animado de espírito científico bastante, poderá fazer a sua própria demonstração usando os dentes numa e noutra madeira e julgando a diferença. Um canino normal, mesmo nada preparado para uma exibição de força dental circense, imprimirá no mogno uma excelente e visível marca. Não o fará no ébano. Quod erat demonstrandum. Por aqui poderemos avaliar as dificuldades do caruncho. Nenhuma investigação policial será feita, embora este fosse justamente o momento propício, quando a cadeira apenas se inclinou dois graus, posto que, para dizer toda a verdade, a deslocação brusca do centro de gravidade seja irremediável, sobretudo porque a não veio compensar um reflexo instintivo e uma força que a ele obedecesse; seria agora o momento, repete-se, de dar a ordem, uma severa ordem que fizesse remontar tudo, desde este instante que não pode ser detido até não tanto à árvore (ou árvores, pois não é garantido que todas as peças sejam de tábuas irmãs), mas até ao vendedor, ao armazenista, à serração, ao estivador, à companhia de navegações que de longe trouxe o tronco aparado de ramos e raízes. Até onde fosse necessário chegar para descobrir o caruncho original e esclarecer as responsabilidades. É certo que se articulam sons na garganta, mas não conseguirão dar essa ordem. Apenas hesitam, ainda, sem consciência de hesitar, entre a exclamação e o grito, ambos primários. Está portanto garantida a impunidade por hemudecimento da vítima e por inadvertência dos investigadores, que só pro forma e rotina virão verificar, quando a cadeira acabar de cair e a queda por enquanto ainda não fatal estiver consumada, se a perna ou pé foi malevolamente cortado e criminosamente também». In José Saramago, Objecto Quase, 1978, Porto Editora, 2015, ISBN 978-972-004-655-0.

Cortesia de PortoE/JDACT

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Objecto Quase. José Saramago. «A cadeira começou a cair, a ir abaixo, a tombar, mas não, no rigor do termo, a desabar. Em sentido estrito, desabar significa caírem as abas a. Ora, de uma cadeira não se dirá…»

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«Apartada do mundo, a consciência elabora sua vingança. Talvez a maior de todas seja a linguagem, destinada a ferir e referir as coisas à distância. Talhada sob medida pelas mãos de um grande escritor, tal distância, modulada ora de modo espacial, ora temporal, está sempre presente nestas seis breves e tensas narrativas de José Saramago. Será temporal em Cadeira, quando a linguagem rodopia em travellings velocíssimos em torno de um caruncho que rói, em câmera lenta, o sustento de um ditador até este cair, literalmente, de podre. Será espacial em Refluxo, onde um rei manda instalar no centro geométrico de seu país um imenso cemitério para banir de suas terras todo vestígio de morte. Será ambas, e intrínsecas à consciência humana, em Coisas e Embargo, narrativas de prender o fôlego, em que uma revolta de objectos e a falta de gasolina denunciam o círculo vicioso da existência. Absurdos, líricos, irónicos, estes contos traduzem um capitalismo em agonia, atmosfera de fim de linha, de sociedades em que os bens de consumo circulam às expensas da própria vida. Daí a escrita que se move em ciclos, emulando ritmos alternados de crise e prosperidade, parodiando a circulação também incessante, distanciada e sem sentido das mercadorias. Publicados pela primeira vez em 1978, estes contos evidenciam ainda as raízes do maravilhoso em Saramago. Não se trata, neste caso, do recurso à fábula enquanto identidade, mas sim como revolta da fantasia à indigência do real (vide o centauro, no conto de mesmo nome, marchando irremediavelmente para o mar e para a morte). Daí o permanente poder de crítica destes escritos, capazes de fundir, com extrema habilidade e conhecimento de causa, o poético, o político». In Sinopse

«O ditador caiu duma cadeira, os árabes deixaram de vender petróleo, o morto é o melhor amigo do vivo, as coisas nunca são o que parecem, quando vires um centauro acredita nos teus olhos, se uma rã escarnecer de ti atravessa o rio. Tudo são objectos. Quase»

«Se o homem é formado pelas circunstâncias, é necessário formar as circunstâncias humanamente»

Cadeira

A cadeira começou a cair, a ir abaixo, a tombar, mas não, no rigor do termo, a desabar. Em sentido estrito, desabar significa caírem as abas a. Ora, de uma cadeira não se dirá que tem abas, e se as tiver, por exemplo, uns apoios laterais para os braços, dir-se-á que estão caindo os braços da cadeira e não que desabam. Mas verdade é que desabam chuvadas, digo também, ou lembro já, para que não aconteça cair em minhas próprias armadilhas: assim, se desabam bátegas, que é apenas modo diferente de dizer o mesmo, não poderiam afinal desabar cadeiras, mesmo abas não tendo? Ao menos por liberdade poética? Ao menos por singelo artifício de um dizer que se proclama estilo? Aceite-se então que desabem cadeiras, embora seja preferível que se limitem a cair, a tombar, a ir abaixo. Desabe, sim, quem nesta cadeira se sentou, ou já não sentado está, mas caindo, como é o caso, e o estilo aproveitará da variedade das palavras, que, afinal, nunca dizem o mesmo, por mais que se queira. Se o mesmo dissessem, se aos grupos se juntassem por homologia, então a vida poderia ser muito mais simples, por via de redução sucessiva, até à ainda também não simples onomatopeia, e por aí fora seguindo, provavelmente até ao silêncio, a que chamaríamos o sinónimo geral ou omnivalente. Não é sequer onomatopeia, ou não é formável ela a partir deste som articulado (que não tem a voz humana sons puros e portanto inarticulados, a não ser talvez no canto, e mesmo assim conviria ouvir de mais perto), formado na garganta do tombante ou cadente, embora não estrela, palavras ambas de ressonância heráldica que estão designando agora aquele que desaba, pois não se achou correcto juntar a este verbo a desinência paralela (ante) que perfaria a escolha e completaria o círculo. Desta maneira fica provado que não é perfeito o mundo. Já de perfeita se apelidaria a cadeira que está a cair. Porém, mudam-se os tempos, mudam-se vontades e qualidades, o que foi perfeito deixou de o ser, por razões em que as vontades não podem, mas que não seriam razões sem que os tempos as trouxessem. Ou o tempo.

Importa pouco dizer quanto tempo este foi, como pouco importa descrever ou simplesmente enunciar o estilo de mobiliário que tornaria a cadeira, por obra de identificação, membro de uma família decerto numerosa, tanto mais que como cadeira pertence, por natureza, a um simples subgrupo ou ramo colateral, nada que se aproxime, em tamanho ou função, desses robustos patriarcas que são as mesas, os aparadores, os guarda-roupas ou pratas ou louças, ou as camas, das quais, naturalmente, é muito mais difícil cair, senão impossível, pois é ao levantar da cama que se parte a perna ou ao deitar que se escorrega no tapete, quando partir a perna não foi precisamente o resultado de escorregar no tapete. Nem cremos que importe dizer de que espécie de madeira é feito tão pequeno móvel, já de seu nome parece que fadado ao fim de cair, ou será conto-do-vigário linguístico esse latim cadere, se cadere é latim, porque devia sê-lo. Qualquer árvore poderá ter servido, excepto o pinho por ter esgotado as virtudes nas naus da índia e ser hoje ordinário, a cerejeira por empenar facilmente, a figueira por rasgar à traição, sobretudo em dias quentes e quando por causa do figo se vai longe de mais no ramo; excepto estas árvores pelos defeitos que têm, e excepto outras pelas qualidades em que abundam, como é o caso do pau-ferro onde o caruncho não entra, mas que padece de peso demasiado para o volume requerido. Outra que também não vem ao caso é o ébano, precisamente porque é apenas diferente nome de pau-ferro, e já foi visto o inconveniente de utilizar sinónimos ou supostos serem-no». In José Saramago, Objecto Quase, 1978, Porto Editora, 2015, ISBN 978-972-004-655-0.

Cortesia de PortoE/JDACT

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