sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Teresa Medeiros. A Conquistadora. «Assentou um pé na cadeira e olhou por cima da multidão. Uma pequena onda de ansiedade atravessava o ar agreste como as lâminas reluzentes enfiadas nas bainhas dos homens…»

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«(…) O dia estava cinzento, tão sombrio e calmo como os rostos que enchiam o salão da entrada. As nuvens que se acumulavam no céu do fim da tarde prometiam chuva; a tensão pairava no ar e não parecia querer desaparecer tão cedo. Mer-Nod franziu o sobrolho, vincando mais as rugas que lhe marcavam a testa, enquanto contemplava a rara tristeza que se abatera sobre a corte naquele dia melancólico. Não se ouviam vozes arrebatadas discutindo. Não se ouviam gargalhadas, música, as histórias dos poetas. Uma espessa camada de apreensão pousava sobre as línguas das pessoas, reduzindo centenas de vozes a um murmúrio. Os poetas sentavam-se aos pés de Mer-Nod, identificando-o como o seu chefe apesar do seu silêncio. Encostadas às paredes de teixo macio, as harpas continuavam por tocar, como brinquedos esquecidos. Pelo salão circulavam criados que enchiam as taças de cerveja e os ouvidos de boatos. Com a cabeça inclinada para trás e os olhos fechados numa prece muda a Morigu, um malabarista sentado no chão de pernas cruzadas embalava as nove maçãs douradas que tinha no colo.

Mer-Nod puxou para trás o cabelo longo e escuro que lhe caía sobre os ombros. Madeixas grisalhas emolduravam-lhe o rosto, suavizando a severidade do seu nariz aquilino e dos seus olhos escuros e penetrantes. Um lábio inferior carnudo contradizia a solenidade do queixo proeminente, onde despontava a barba grisalha de um dia. Assentou um pé na cadeira e olhou por cima da multidão. Uma pequena onda de ansiedade atravessava o ar agreste como as lâminas reluzentes enfiadas nas bainhas dos homens, que se empertigavam em todos os pontos de observação do salão. Nos seus rostos queimados pelo sol desenhavam-se as linhas finas que só o vento sabe gravar. Gibões justos sem mangas expunham corpos sólidos e musculosos sem um grama de gordura. Os guerreiros espalhavam-se pelo salão de entrada, alguns fazendo a corte às jovens, outros conversando em voz baixa com camponeses e pastores. Quando atravessaram o salão, foram recebidos com palmadinhas nas costas e palavras de estímulo da multidão que abrira caminho para lhes dar passagem. Eram os membros do Fianna, os protectores e adoradores de Erin. Guerreiros e caçadores, que percorriam a ilha fazendo amor e criando lendas a cada hora dos seus dias errantes. E agora muitos deles morriam, um a um, os seus corpos mutilados apodrecendo na humidade dos bosques.

Mer-Nod suspirou e fechou os olhos, sabendo que assim ninguém ousaria dirigir-lhe a palavra. Todos partiriam do princípio de que ele estava compondo. Como gostaria de agradar-lhes! A sua mão ansiava por uma pena. Que história vitoriosa haveria sobre a vitória de Kevin sobre o monstro! Já fazia planos para a métrica da peça, os dedos longos martelando o compasso no braço de carvalho da sua cadeira. À porta, o burburinho subia de tom e as pessoas empurravam-se umas às outras numa grande excitação, dando passagem ao rei, que ia participar com eles na vigília. Os rostos fechados de tanta inquietação abriram-se em sorrisos encorajadores, não se atrevendo a mostrar medo ao homem que com eles se misturava. As suas passadas eram longas e seguras. Substituíra o traje de cerimónia por uma túnica curta, semelhante à usada pelos seus soldados. Com um metro e oitenta, tinha a altura mínima requerida para entrar no Fianna. O seu corpo era musculoso e uma graciosidade leonina caracterizava cada movimento.

Um ou outro fio branco crescia obstinado na cabeleira escura e cacheada. O seu rosto atraía as atenções. Olhos azul-escuros rodeados por uma espessa franja de cílios espreitavam por trás da madeixa de cabelo que ameaçava escondê-los. O nariz era recto, não fino o suficiente para ser considerado aristocrático. Uma barba escura cobria-lhe o queixo, em volta dos lábios cheios. A boca alargava-se num sorriso juvenil que deslumbrava os seus cortesãos; uma boca que se reduzia a um traço quando comandava seus homens numa batalha». In Teresa Medeiros, A Conquistadora, 1998, Planeta Manuscrito, Grupo Planeta, 2010, 2014, ISBN 978-989-657-517-5.

Cortesia de PManuscrito/GPlaneta/JDACT

JDACT, Teresa Medeiros, Literatura, Narrativa, Cultura,