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sábado, 22 de setembro de 2012

Atouguia da Baleia. As suas origens. «Quando no ano de 193 antes da era cristã a Península Ibérica foi invadida pelas legiões Romanas, já encontraram todo o litoral Atlântico da Lusitânia povoado, principalmente junto aos portos e baias existentes na foz dos vários rios…»



jdact e cortesia de wikipedia

Origens de Atouguia da Baleia
História
«Sabe-se pelo estudo da ciência antropológica que muitos milénios antes da era Cristã já a Península Ibérica era habitada por povos de raças e origens diversas, e que estes povoadores se aglomeravam especialmente, formando povoados castrejos nos planaltos serranos, ou ainda com mais incidência junto dos grandes estuários, baías ou abras dos rios existentes ao longo da Costa Atlântica da Península Ibérica. Como a sobrevivência desses povos dependia dos recursos naturais da época. Tais como; a caça, a pesca, e muitos frutos silvestres, então existentes.
Eis pois aqui, uma das muitas razões que os levavam, a assim procederem, procurando preferencialmente esses locais para sua habitação e sobrevivência. Nesses estuários abundavam grandes e variadas quantidades de peixes e outros afins, da fauna marítima, tais como cetáceos de grandes proporções que ali recorriam para se alimentarem das espécies suas preferidas, o que muitas vezes lhes era fatal essa ousadia.
Nestas lagoas imensas de águas temperadas e semi-cálidas, também existiam em abundância muitas espécies de crustáceos e bivalves que ao tempo os habitantes de suas margens consumiam em grande quantidade para sua alimentação quotidiana, como se comprova pela existência fóssil dos muitos concheiros achados em locais que foram habitados por povos coevos dessas eras. Além da fauna marítima tão propícia à sobrevivência dos nossos antepassados humanos também a luxuriante flora circundante os favorecia como coutada de caça onde abundavam imensas espécies de animais selvagens, (algumas de grande porte) tais como; o touro, o javali, o veado, etc.; além de muitas outras de menor tamanho; como a lebre, o coelho, e outras, de sua ordem.
Devido ao contínuo processo erosivo da crosta terrestre provocado pela pluviosidade enorme nessas eras, muitos sedimentos aluvionosos iam sendo colocados nas margens dessas lagoas, dando aso a que se formassem enormes sapais ao seu redor, criando autênticos paraísos de sobrevivência às aves migratórias que a eles recorriam para nidificar e se alimentarem da grande profusão de répteis e outras espécies necessárias à sua preservação.
Portanto, nestes estuários, lagoas e abras grandemente existentes na Costa Atlântica da Península Ibérica, não faltava alimentação natural, aos primitivos povoadores humanos, ai instalados.

Os Ibéros
Pela descrição que nos conta a História Universal, sabemos que a Península Ibérica foi habitada pelos Ibéros e depois invadida pelos Celtas que juntamente com outros povos (Suevos, Gregos, Cartagineses, etc.) se juntaram, formando os Celtiberos ocupando toda a Península, para cá dos Pirinéus.
Este povo Celtibero dividiu-se em vários grupos distintos com nomes diferentes e áreas demarcadas. Entre os cinco agrupamentos, um tinha o nome Lusitânia, que ocupava grande parte do território peninsular a oeste, entre os rios Douro e Tejo. Mais ou menos entre os meridianos 38-40, e os paralelos 8-10, como seja parte da actual costa Atlântica do litoral Português, mais concretamente entre os dois rios citados. Esta parte da Ibéria era habitada pelos Lusitanos». In Junta de Freguesia de Atouguia da Baleia, Turismo, Município de Peniche.

Cortesia da JF de Atouguia da Baleia/JDACT

terça-feira, 12 de junho de 2012

Reflexos das alterações políticas de finais do século XIV em concelhos da Estremadura litoral. Manuela Santos Silva. «… que Ruy de Azevedo considerou a mais fidedigna das cópias da carta de doação original da Atouguia a Guilherme de Cornibus, 1148, estaremos de posse do mais antigo vestígio de organização territorial em terras da Estremadura no período pós-Reconquista»



Lourinhã
Cortesia de wikipedia

Resumo
No período subsequente à sua reconquista pelo Rei de Portugal a região da Estremadura litoral foi organizada em unidades autónomas, das quais apenas algumas, normalmente as que tinham surgido em torno de uma povoação acastelada com uma dimensão apreciável, mantiveram uma ligação directa com a Coroa. Aproveitando a apetência de alguns potenciais povoadores provindos de outras regiões da Cristandade, o rei Afonso Henriques permitiu-lhes o estabelecimento e o gozo de privilégios especiais em alguns locais desta área; em outras zonas optou por aproveitar a capacidade organizadora e defensiva das Ordens Religiosas Monásticas ou Militares. Durante o conturbado período de 1383/1385, contudo, a Coroa de Portugal, por motivos sobretudo estratégicos, optou, porém, por garantir em quase todos os pontos do seu reino uma submissão sem intermediários independentes ao seu domínio, concluindo assim uma reforma administrativa iniciada há um século.

«A estratégia do primeiro rei de Portugal para o povoamento da zona costeira a Norte de Lisboa proporcionou, logo a partir de meados do século XII, a existência e coexistência de diversas formas de organização do espaço e das gentes. Assim, assegurando-se de que, em pelo menos três castelos da região, se poderiam aquartelar exércitos comandados por vassalos seus, de lealdade e obediência comprovadas, permitiu-se alienar outras faixas do território, nomeadamente as mais expostas aos perigos que poderiam surgir do mar, a particulares e a ordens religiosas militares, escolhendo como limite setentrional, antes do já anteriormente povoado território de Leiria, a zona de Alcobaça que doou à Ordem de Cister.
Deste complexo mosaico administrativo, apenas iremos seguir a evolução de uma das suas partes: aquela que serviu de base à nossa Dissertação de Doutoramento e que compreende ainda assim um grande concelho régio e quatro pequenos concelhos senhoriais, nem todos, porém, com a mesma data de origem, e mesmo com historiais bastante diferentes que apenas referiremos sumariamente no que à concretização do nosso objectivo se revelar necessário.
E este consiste em analisar as transformações operadas sobretudo na esfera política regional com o advento de uma nova dinastia. Não é de estranhar que o período conturbado de 1383-85 tenha trazido alterações a nível, por exemplo, dos detentores de cargos de outorga régia, mas a originalidade que esta micro-região apresenta vai bastante mais além deste tipo de alterações, como teremos oportunidade de demonstrar. Mas como se caracteriza, em termos das suas origens e do seu passado histórico recente, a região que iremos analisar?
A sua maior originalidade consiste no facto de, logo nos anos subsequentes às tomadas das cidades do vale do Tejo, algumas das suas zonas territoriais terem sido objecto de doação a estrangeiros, designados por "francos", embora pertencentes a presumíveis diversas nacionalidades.
Se for verdadeira a data assinalada no documento apócrifo que Ruy de Azevedo considerou a mais fidedigna das cópias da carta de doação original da Atouguia a Guilherme de Cornibus, 1148, estaremos de posse do mais antigo vestígio de organização territorial em terras da Estremadura no período pós-Reconquista. Pelas lições até nós chegadas tratar-se-ia de uma mercê feita àquele cruzado de forma individual mas hereditária e justificada pelo facto do agraciado e seus parentes terem participado de forma meritória na tomada da cidade de Lisboa aos muçulmanos. As origens do senhorio franco da Lourinhã não estão tão bem documentadas como as da Atouguia ou mesmo de Vila Verde dos Francos pois falta-nos a carta régia em que se concedia aquela faixa litoral da Estremadura a sul da Atouguia a Jordão, seu comprovado primeiro donatário e alcaide. De facto, o documento mais antigo que possuímos para a história deste senhorio e concelho é o seu foral, infelizmente não datado e que apenas conhecemos pela confirmação posterior do seu teor levadas a cabo pelo terceiro rei de Portugal. O seu prólogo não deixa porém dúvidas: identifica o texto como sendo o da carta de foral:
  • "quam Domnus Jurdanus concedente illustri Rege domno Alfonso dedit populatoribus de Laurian tam presentibus quam futuris".
Temos, assim, Jordão como provável primeiro senhor da Lourinhã e como certa a sua capacidade reconhecida pelo primeiro rei de Portugal de outorgar uma carta de foro aos seus pares e/ou súbditos. A ausência de outros testemunhos escritos tem levado a que se deduza a primeira parte da evolução histórico-administrativa da Lourinhã dos dados conhecidos e encarados como praticamente indiscutíveis para a Atouguia. Daí que se não duvide normalmente da similitude das origens dos dois senhorios. Pensa-se que a sua doação terá tido lugar em data próxima da concessão da Atouguia a Guilherme de Cornibus, que terá tido como motivação o reconhecimento do serviço prestado por Jordão também na conquista de Lisboa e que o seu foral, elaborado pelo seu Senhor com o consentimento de Afonso Henriques, deve ter sido elaborado pela mesma data em que Guilherme de Cornibus outorgou forais aos dois grupos nacionais que povoavam a Atouguia, Francos e Galegos». In Manuela Santos Silva, Reflexos das alterações políticas de finais do século XIV em concelhos da Estremadura litoral, Conferência proferida no dia 29 de Abril de 1998 no Instituto de Documentação Histórica Medieval da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Documentos Medievais Portugueses. Documentos Régios, Volume I, Tomo II.

Cortesia de Universidade do Porto/JDACT

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Atouguia da Baleia. A Igreja de São Leonardo. «Uma das principais realizações góticas que definem o que se convencionou chamar Gótico Paroquial, um fenómeno construtivo que percorreu grande parte do país, em particular as principais localidades do litoral, durante os reinados de D. Dinis e D. Afonso IV, entrando, mesmo, pelas primeiras décadas do século XV

Cortesia de jfadabaleia

Nota Histórico-Artistica
«A igreja de São Leonardo de Atouguia da Baleia é uma das principais realizações góticas que definem o que se convencionou chamar Gótico Paroquial, um fenómeno construtivo que percorreu grande parte do país, em particular as principais localidades do litoral, durante os reinados de D. Dinis e D. Afonso IV, entrando, mesmo, pelas primeiras décadas do século XV.

Com efeito, são muitas as afinidades que se podem encontrar entre estes templos, em cujo grupo se incluem igrejas como as de Santa Maria de Sintra, Santo André de Mafra, Santa Maria do Castelo de Tavira, Matrizes de Alcochete ou de Caminha, etc. São invariavelmente templos de três naves escalonadas, seccionadas por arcos formeiros apontados. A fachada principal forma uma espécie de triângulo, com corpo central a dois registos (abrindo-se, no primeiro, o portal, normalmente inscrito em gablete e, no segundo, ampla rosácea), enquanto que a cabeceira é tripartida, com capela-mor de dois tramos, o último poligonal, e absidíolos de esquema idêntico, porém de menores dimensões.

A construção do conjunto anda atribuída à transição para o século XIV e, estilisticamente, alguns autores reconhecem nela indícios de arcaísmo, em particular ao nível dos capitéis (DIAS, 1994, p.100, na linha de outros autores), embora esta apreciação mereça ser revista num século XIV bastante heterogéneo em termos decorativos. Sintoma disso mesmo é a inusitada qualidade do baixo-relevo da Natividade, um frontal de altar realizado no século XIV, único no país e pleno de naturalismo, apesar da rigidez natural do pano de fundo.
Pouco depois de terminada a obra, a igreja começou a ser enriquecida com enterramentos por parte dos mais importantes senhores locais. De 1371 é a inscrição de Domingos Bartolomeu, vassalo do rei e corregedor da Estremadura, que se fez sepultar na nave central. No século XV, a igreja tornou-se um monumento emblemático da principal estirpe que governou a vila, os Condes de Atouguia. O primeiro conde, D. Álvaro Gonçalves de Ataíde, jaz na capela que mandou construir pelos meados do século. E, na década de 60, contam-se importantes realizações, como o coro-alto, obra patrocinada pela Condessa de Atouguia, D. Guiomar de Castro, "pela alma do senhor conde", como indica a inscrição comemorativa da iniciativa.

No início do século XVI, a matriz de Atouguia era uma importante igreja da Estremadura, a ponto de ser novamente enriquecida com empresas vincadamente manuelinas. A principal é o portal da sacristia, em arco canopial regular. No exterior da capela-mor, o coroamento passou a integrar ameias, uma solução característica do ciclo artístico de D. Manuel.

Nas décadas seguintes, o interior foi esteticamente actualizado, com inclusão de pinturas murais (de que restam escassos elementos), mas a história da igreja acompanhou, de perto, a da própria vila: a partir do momento em que Atouguia perdeu importância, em benefício de Peniche, a igreja ressentiu-se, não mais voltando a ser objecto de grandes reformas, o que permitiu que tivesse chegado até aos nossos dias em relativo bom estado de conservação.
O restauro do conjunto ocorreu na década de 70 do século XX (uma fase já tardia na actividade emblemática da DGEMN) e iniciou-se pela consolidação de património integrado, no caso as pinturas murais e o painel da natividade. Houve, no entanto, uma efectiva preocupação em aplicar o "velhinho" conceito de "unidade de estilo", o que determinou a demolição do coro-alto, por exemplo, entre outras obras consideradas pós-medievais». In PAF, IGESPAR.

Cortesia de IGESPAR/JDACT