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quinta-feira, 10 de março de 2011

Fundação Robinson: O Convento de São Francisco de Portalegre. Parte IV. A Igreja de S. Francisco de Portalegre. Notas em torno de um programa de musealização. «...âncora e testemunho dessa confluência dinâmica entre memória, herança e criação a que a nova Convenção-Quadro do Conselho da Europa sobre Património Cultural...»

Detalhe do altar-mor da igreja do convento
Cortesia de publicacoesdafundacaorobinson 

Com a devida vénia a António Filipe Pimentel.

«... Porém, reduzir  a uma dimensão local um projecto que tem, inquestionavelmente, na igreja de São Francisco a sua pedra fundacional, seria comprometer as potencialidades que detém do ponto de vista do aludido imperativo de conservação integrada dos bens culturais e da sua indeclinável relevância para as noções (que lhe subjazem) de cidadania aberta e de património comum. De facto, o intrincado (e fascinante) processo de reelaboração perpétua da sua estrutura morfológica, que a presente reabilitação patenteia com notável nitidez, impõe que se colham todas as possibilidades que fornece, porquanto deixa agora o caminho aberto aos historiadores da arte, a quem devolve um elo de particular significado na reconstituição de cadeias formais (não apenas no plano arquitectónico, mas no das artes aplicadas: da retabulária à azulejaria e à pintura a fresco) que podem e devem promover uma mais eficaz compreensão de caminhos que são vias de comunicação em rede, do ponto de vista do património comum: desde logo da arquitectura religiosa e particularmente franciscana (ela mesma uma imensa rede, não só no espaço metropolitano, como no nacional e ultramarino e com elos que se afirmam em claras inter-relações transfronteiriças), mas igualmente das artes em sentido lato (v.g. no trabalho do estuque, que afirma claramente a singularidade de Portalegre e que muito importa, de igual modo, não encarar apenas de uma perspectiva local, mas claramente numa  relação supranacional, único modo de compreender o fenómeno em toda a sua extensão e riqueza: estética, desde logo, mas igualmente social e económica).

Aspecto de uma das capelas colaterais
Cortesia de publicacoesdafundacaorobinson

A igreja de São Francisco de Portalegre contém, assim, em escala não comum, a um tempo pela sua dimensão original  de sede de um paradigmático cenóbio menorita, pelo destino (que comunga com outros) de reafectação ao uso fabril que lhe seria outorgado pelas circunstâncias históricas que lhe coube viver e, finalmente, pelo presente programa de reabilitação (ao convertê-la em núcleo museológico, no quadro do alojamento da Colecção Sequeira e no âmbito, mais vasto, do Espaço Robinson que em seu redor se desenvolve e articula), uma capacidade de trabalhar em rede que seria grave erro negligenciar, ou subvalorizar ao firmar as linhas do seu programa de musealização.
Programa que, naturalmente, deverá desde logo assentar a sua base mobilizadora entre os equipamentos culturais e museológicos sedimentados no próprio município: o Museu Municipal, onde se recolhe um importante acervo, a um tempo de valor histórico, artístico e antropológico, que associa o legado
do Estado Novo, nas suas dimensões eclesiástica e senhorial, ao da sociedade nova sete e oitocentista e mesmo à criação contemporânea; o Museu das Tapeçarias, em associação à respectiva fábrica, onde, pela reconversão operada por Guy Fino, em meados do século XX, se recolhe uma tradição artesanal e fabril que se inscreve entre a velha Fábrica Real, instalada no antigo Colégio de São Sebastião (cuja libertação, por força da expulsão dos Jesuítas, em 1759, constitui vanguarda do processo de extinção geral dos institutos regulares consumado com a legislação de 1834) e a Fábrica Robinson, que haveria de brotar, no século XIX, na cerca do convento Franciscano; a Casa-Museu José Régio, enfim, cuja personalidade e obra literária constituem, elas mesmas, âncora e testemunho dessa confluência dinâmica entre memória, herança e criação a que a nova Convenção-Quadro do Conselho da Europa sobre Património Cultural dá força jurídica e que, de forma pioneira, ilustraria, no coleccionismo cristocêntrico a que se dedicou, a força central e antropológica dessas imagens a cuja recolecção, por sua vez, Rui Sequeira iria dedicar vida, recursos e energia.

Colunas de retábulo, finais século XVIII
Cortesia de publicacoesdafundacaorobinson

Nesse sentido, o desafio que ora se coloca é o de entender a reabilitação da igreja de São Francisco de Portalegre e a própria musealização da Colecção Sequeira, não como um museu, estável e finito, mas como um pólo dinâmico de confluência entre memória, herança e criação, promovendo, por meio do património (e do seu estudo, preservação e divulgação) e do direito dos cidadãos de participarem na vida cultural, o desenvolvimento económico e social da comunidade em que se inscreve. E divulgando, por esse modo, as noções de cidadania aberta e de cultura da paz que só ele pode gerar:
  • por isso mesmo que o património,
  • por natureza,
  • constitui lição, a um tempo material e imaterial,
  • de compreensão, integração e diálogo.

In António Filipe Pimentel, A Igreja de S. Francisco de Portalegre. Notas em torno de um programa de musealização, Fundação Robinson, Publicação 10, 2009, ISSN 1646-7116.

Continua.
Cortesia de Publicações da Fundação Robinson/JDACT

sexta-feira, 4 de março de 2011

Coimbra. Torre da Universidade: Parte II. Ex libris da cidade, reabriu para visitas regulares após. As Visitas à Torre irão decorrer todos os dias úteis com entradas às 11:00 UTC e 15:00 UTC.

Cordesia de os4estarolas

De facto, em tal matéria, pesaria por muito tempo o enigma contido na provisão de D. João V, de 1728, dirigida ao reitor Francisco Carneiro de Figueiroa, onde, sobre as plantas para a nova torre por ele enviadas, riscadas por Gaspar Ferreira (que dirigira a edificação da Biblioteca), o monarca afirmava que «mandandose ver por Arquitectos desta corte não aprovarão a Arquetetura da d.ª Torre e pello mais perito se mandou fazer a que com esta se vos remete, com a q. enviastes, da mesma altura e grandeza, mas de milhor fabrica». Pouco mais de um ano depois, no início de 1730, determinava o Rei que, «pª satisfaçam do Arquitetto que fez a planta p.ª a torre da un.de» (cujo nome, uma vez mais, se não indicava), se despendesse da arca escolar a quantia de 48 000 rs., verba que, na verdade, produz violento contraste com os modestos 6 400 rs. que, em Março de 28, haviam sido entregues a Gaspar Ferreira para o mesmo efeito.

Cortesia de almocrevedaspetas

A Torre da Universidade de Coimbra, ex libris da cidade, reabriu para visitas regulares após um longo período de inactividade. As Visitas à Torre irão decorrer todos os dias úteis com entradas às 11:00 UTC e 15:00 UTC, custo de 10.00€, e uma sessão extra às 16:00 UTC para a comunidade universitária (grátis, com apresentação do cartão de identificação).

Cortesia de skyscrapercity
Os Sinos. «O Cabrão será, entre os estudantes, tão famoso quanto a Torre da Universidade onde está instalado: é o sino cujo som, ainda hoje, desperta para as aulas. Não é difícil adivinhar por que lhe foi dada a carinhosa alcunha… Já a Cabra é o sino cujo som serve para marcar o fim do dia de aulas. Finalmente, o Balão, outro sino da Torre, só toca em doutoramentos ou ocasiões festivas».

Galinha
Quando lhe perguntarem «Preto é, Galinha o pôs em Coimbra?», deverá ser dos poucos novos alunos que sabem que lhe estão a falar do portão principal do Jardim Botânico da UC.
Feito em ferro forjado com aplicações em bronze, foi desenhado, precisamente, por Mestre Galinha.

Cortesia de uc
Monumentais
Monumentais são, em Coimbra, as Escadas que te levam à Alta Universitária. Na totalidade, 125 degraus, divididos por cinco lanços de escadas, cada um representando, em contas pré-Bolonha, um ano de curso. E embora possa ser apenas um mito que cair num daqueles lanços representa reprovar no ano respectivo, bem mais difícil do que acreditar nesta estória é conseguir chegar ao cimo das Monumentais com fôlego.

Cortesia de uc
Raposa
A raposa é o mais odiado dos animais na Academia de Coimbra, isto porque «Apanhar a raposa» significa não passar de ano. A expressão está relacionada com um certo azulejo da Faculdade de Direito, junto ao qual os alunos esperavam antes das provas e onde está desenhado aquele animal. O ódio é de tal forma que o dito azulejo está agora esbatido dada a força dos pontapés que, ainda hoje, lhe aplicam os estudantes que reprovam.

Cortesia de uc
República
Uma República é uma casa tradicional habitada por estudantes, que partilham as tomadas de decisão e a gestão do seu funcionamento. Juntam as tradições à irreverência e assentam em valores como a democracia e a vida em comunidade. É uma forma diferente, e muito própria, de viver a UC.
As suas origens remontam ao século XIV, quando D. Dinis, por diploma régio de 1309, promovia a construção de casas na zona de Almedina, destinadas a estudantes, mediante pagamento de um aluguer. O montante seria fixado por uma comissão, expressamente nomeada pelo Rei, constituída por estudantes e por «homens bons» da cidade.

Cortesia de rof2000





Cortesia da Universidade de Coimbra/JDACT

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Coimbra. Torre da Universidade: Há dias assim... Ex libris da cidade, reabriu para visitas regulares após um longo período de inactividade. As Visitas à Torre irão decorrer todos os dias úteis com entradas às 11:00 UTC e 15:00 UTC. A construção da torre universitária acabaria por ser viabilizada, concluindo-se em Julho de 1733

Cordesia de os4estarolas

A Torre da Universidade de Coimbra, ex libris da cidade, reabriu para visitas regulares após um longo período de inactividade.
As Visitas à Torre irão decorrer todos os dias úteis com entradas às 11:00 UTC e 15:00 UTC, custo de 10.00€, e uma sessão extra às 16:00 UTC para a comunidade universitária (grátis, com apresentação do cartão de identificação).

Com a devida vénia a António Filipe Pimentel.
«Na longa sucessão de sedimentos edificados que configura o Paço das Escolas, a torre setecentista que alberga o relógio e os sinos que regulam a vida académica constitui, obviamente, uma das mais jovens adições. E, não obstante, é ela, mais que nenhuma outra, a imagem icónica por excelência, não apenas da secular instituição mas, por via dela, e da ligação idiossincrática que plasmou com a cidade onde se alberga, da própria urbe, sobre a qual avulta como um farol dominando o promontório onde, de facto, morfologicamente se levanta.

A sua proto-história remonta a 1537, quando, recém-chegada a Coimbra e na iminência de alojar-se no velho Paço Régio, a Universidade insiste, junto de D. João III, justificando que «nã podia aver boa ordem sem relógio», na transferência de Lisboa do especioso instrumento e do competente sino, adquiridos em finais do século XV. Dois anos mais tarde o monarca autorizaria a sua colocação no interior do pátio, «sobre a porta da emtrada do terrro dos paços», mas o complexo esquema funcional engendrado pelo reitor Frei Diogo de Murça, de molde a albergar, a partir de 1544, o pleno das faculdades no que haviam sido os aposentos da Rainha, seria responsável pela transumância do precioso engenho (aliás de um novo, que entretanto o substituíra) para uma situação mais próxima da logística escolar que lhe competia regular:
  • o cubelo voltado ao pátio, que abrigava as escadas centrais dos aposentos do Rei, alteado em virtude dessa operação e mais tarde demolido.
Problemas estruturais decorrentes da edificação, sobre essa torre, da nova casa do sino, estarão provavelmente na origem da decisão, tomada em 1561, de levar a cabo a edificação de uma torre de raiz, alojada junto ao ângulo noroeste do terreiro, cujos planos seriam cometidos a João de Ruão. Quanto à torre actual, ocupando sensivelmente o mesmo local, seria erguida entre 1728 e 1733 e para a história da sua edificação sobreviveria extensa informação.


Cortesia de almocrevedaspetas
De facto, em tal matéria, pesaria por muito tempo o enigma contido na provisão de D. João V, de 1728, dirigida ao reitor Francisco Carneiro de Figueiroa, onde, sobre as plantas para a nova torre por ele enviadas, riscadas por Gaspar Ferreira (que dirigira a edificação da Biblioteca), o monarca afirmava que «mandandose ver por Arquitectos desta corte não aprovarão a Arquetetura da d.ª Torre e pello mais perito se mandou fazer a que com esta se vos remete, com a q. enviastes, da mesma altura e grandeza, mas de milhor fabrica». Pouco mais de um ano depois, no início de 1730, determinava o Rei que, «pª satisfaçam do Arquitetto que fez a planta p.ª a torre da un.de» (cujo nome, uma vez mais, se não indicava), se despendesse da arca escolar a quantia de 48 000 rs., verba que, na verdade, produz violento contraste com os modestos 6 400 rs. que, em Março de 28, haviam sido entregues a Gaspar Ferreira para o mesmo efeito.

Cortesia de deiuc
De facto, suspensa a obra por ordem do monarca e repreendida competentemente a Escola, requisitaria este a planta e orçamento da torre, exigências que o reitor satisfaria, entre justificações, não, aliás, sem promover a realização de nova planta (a «última planta do M.e»), decerto mais cuidada, impetrando ao Rei se dignasse conceder licença para a sua prossecução «de contrario se perderia a despesa feita». Reservaria, porém, para o fim o melhor argumento: o de que o próprio soberano havia «mostrado dezejos de q. na vnd.e floreça a sciencia de Mathematica p.ª q. lhe havia S. Mag.e ordenado comprasse l.os novos, e instrumentos Mathematicos, e parecer necessário haver na Torre hum observatório por não achar o P.e D.os Capaci outro citio maes capas, e com a mayor altura e largura della se evitava a g.de despeza se se houvesse de fazer o observatório em outra p.te como reprezentara a S. Mag.e e a largura bastava ser capas p.ª vinte pessoas».
 


Ponderado o conturbado processo em que a obra da torre tinha convertido (uma vez consumada a demolição da antiga), e vista a traça feita pelo mestre universitário, decide-se então encarregar Lázaro Leitão Aranha de que «mostrasse a d.ª planta aos Arquitettos desta Corte». E, desaprovada esta, «se mandou fazer outra pello Arquitetto Romano António Canavari», a qual se expediria para Coimbra, a 17 de Dezembro antecedida, na véspera, da ordem para o pagamento dos 48 000 rs. «p.ª satisfação do Arquiteto». A construção da torre universitária acabaria, pois, por ser viabilizada (nessa circunstância se inscrevendo a documentação conhecida), concluindo-se em Julho de 1733.

Cortesia de skyscrapercity
Mas também Gaspar Ferreira tem parte de relevo na obra final. Se o seu palmarés de entalhador, metido a Arquitecto o não habilitaria, certamente, a conceber a nova torre à altura da grandeza a que a Universidade estava habituada, essa mesma sua intuição para o rigor da execução do ornato e a ciência prática adquirida na Casa da Livraria, desde que assumira a sua direcção, não deixariam de ser reconhecidas pela Mesa, ao confiar-lhe igualmente, afinal, a direcção da nova empresa, rendendo-se como em quase tudo no controverso negócio em que a erecção da torre se havia convertido, à situação de facto entretanto criada. Pelo que a ele se deve, inquestionavelmente, essa demonstração de «saber fazer» e avulta no trabalho realizado, sem o que o risco do romano se teria fatalmente pervertido». In António Filipe Pimentel.

Cortesia de noticiasuniversia
Algumas expressões que utilizei/utilizo e são voz corrente na «cidade do bazófias».

Os Sinos. «O Cabrão será, entre os estudantes, tão famoso quanto a Torre da Universidade onde está instalado: é o sino cujo som, ainda hoje, desperta para as aulas. Não é difícil adivinhar por que lhe foi dada a carinhosa alcunha… Já a Cabra é o sino cujo som serve para marcar o fim do dia de aulas. Finalmente, o Balão, outro sino da Torre, só toca em doutoramentos ou ocasiões festivas».


Efe-erre-á. «Criado na Academia de Coimbra como arma de luta política (Efe-erre-á queria na verdade simbolizar FRA, Frente Republicana Académica), este grito generalizou-se a partir de meados do séc. XX, inicialmente na UC, mas depois também nas outras universidades e politécnicos. Hurra! Hurra! Hurra!».

Em nova oportunidade falarei na «Galinha», «Monumentais», «Raposa» e «República».

In Memoriam de MLAC
Cortesia da Universidade de Coimbra/JDACT

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Fundação Robinson: O Convento de São Francisco de Portalegre. Parte III. A Igreja de S. Francisco de Portalegre. Notas em torno de um programa de musealização. A personagem Rui Sequeira e o seu invulgar desígnio missionário não poderão ser escamoteados, por essa via proporcionando um elo transversal a todo o Espaço Robinson e à cultura da comunidade operária que o gerou e habitou

Foto de Fernando Guerra
Cortesia de publicaçõesdafundaçãorobinson

Com a devida vénia a António Filipe Pimentel, Fundação Robinson, Publicação 10, 2009, p. 26-37, ISSN 1646-7116

«Encontra-se já em fase final o lento e complexo processo de reabilitação da antiga igreja do Convento de São Francisco de Portalegre, que as consequências decorrentes das vicissitudes da extinção das ordens religiosas, em 1834, conduziriam, sucessivamente, à expoliação, desafectação e quase ruína: enquanto, na zona residencial do antigo cenóbio, vingava (entre outras) a semente do que viria a ser a Fábrica Robinson, que nos seus anos de ouro promoveria a transfiguração quase integral do complexo monástico, com a sua fachada funcional e a erecção das altaneiras chaminés que iriam modelar a própria imagem da cidade. Numa clara inversão de valores do que fora a hierarquia original das construções, até que, pesando, por seu turno, sobre a unidade industrial, a usura do tempo, possibilitasse a circunstância azada da devolução à cidade do conjunto edificado assim sedimentado, harmonicamente integrado num Espaço Robinson que promoveria a remissão, por seu intermédio (e em clara leitura de contemporaneidade), desse passado total, monástico e industrial, projectado no futuro de uma nova vocação cultural - onde interagem a arqueologia (medieval e industrial), a museografia, o turismo e a nova criação -, (re)outorgando, por essa via, ao velho núcleo franciscano, a relevância a um tempo afectiva e simbólica que por séculos detivera na vida da cidade.

Século XVIII, finais
Cortesia de publicaçõesdafundaçãorobinson

 Do acerto da decisão política que alicerça e sustenta a recuperação deste património singular testemunha eloquentemente a recente ratificação, pelo próprio Estado Português (em sede parlamentar), da Convenção-Quadro do Conselho da Europa sobre Património Cultural, assinada em Faro em Outubro de 2005. Documento esse que - na senda das convenções entretanto firmadas em Granada (1985, sobre património arquitectónico), La Valetta (1992, sobre património arqueológico) e Florença (2000, sobre a paisagem) - lança as bases de um processo novo de cooperação entre Estados, nesse domínio particular, ao mesmo tempo que estabiliza a noção de que o património cultural é uma realidade dinâmica, na qual se inter-relacionam, não apenas o património histórico e artístico dito material, mas as tradições e a própria criação contemporânea: nessa dimensão assentando as suas bases a própria ideia de património comum europeu, justamente alicerçado na assunção da sua diversidade cultural e na própria noção de pluralismo. E é neste pressuposto teórico - em redor do qual gravita a própria produção conceptual da UNESCO em torno da noção de património imaterial - que assenta, não somente a consciencialização da necessidade de uma conservação integrada dos bens culturais, mas da sua relevância para a própria ideia de cidadania aberta, escorada na crença de que o património comum é o resultante de uma confluência dinâmica entre memória, herança e criação. Postulado esse por sua vez estribado no reconhecimento do direito dos cidadãos de participarem na vida cultural e na convicção de ser o património uma matriz indispensável, seja ao desenvolvimento humano (no plano geral), seja (mais particularmente) a um modelo de desenvolvimento económico e social assente no uso durável dos recursos e na dignidade da pessoa: por sua vez reputados fundamentais para a dinamização de uma cultura de paz, assente no respeito das diferenças e em factores de aproximação, compreensão e dialogo, que o património e a sua preservação (pela própria multidisciplinaridade que requer e pelas pontes transnacionais que por natureza fomenta) têm, justamente, particulares condições para favorecer.

Século XVIII, segunda metade
Cortesia de publicaçõesdafundaçãorobinson

É neste contexto que a decomposição do Espaço Robinson entre núcleos expositivos, criativos e escolares e a correlativa recuperação das estruturas monásticas (protagonizadas pela Igreja de São Francisco, mas também pelo claustro e áreas residenciais adjacentes) e industriais adquire o seu sentido pleno: na própria complementaridade arqueológica que promove entre o tempo longo da sua vocação religiosa e espiritual - que acompanha a sedimentação de Portalegre como vila e depois cidade, entre a Baixa Idade Média e o Barroco - e o tempo novo da Revolução Industrial e da afirmação da urbe como centro fabril. O qual, antes de alimentar-se, no século XIX, dos despojos gerados pela legislação desamortizadora (e de as altivas chaminés da corticeira Robinson rasgarem o céu sobre o perfil da urbe) se plasmara já numa ampla metamorfose da imagem da cidade velha (marcada ainda pela Sé e pelos grandes casarões conventuais), agora modernizada pela presença - em escala singular - de um conceito novo de palácio, assumido como imagem de marca de uma nova classe possidente de aspirações (ou ligações) aristocráticas, com claras relações trasfronteiriças (ao Barroco e Rococó extremenhos) e a novas actividades económicas (com a consequente alteração mental e cultural) em que importa sobremodo atentar.

Popular, séculos XIX-XX
Cortesia de publicaçõesdafundaçãorobinson

A história e as vicissitudes do Convento de São Francisco são, pois, a ponte necessária na ligação deste tempo ao que o antecede, balizado pelas estruturas fortificadas da povoação medieval (também elas ponto de chegada de um passado mais longo, que narra os avatares do estabelecimento aqui de uma comunidade humana), enquanto as da Fábrica Robinson (pela mediação do Espaço Robinson) projectam ambos no presente e no futuro: numa rara e feliz ilustração da confluência dinâmica entre memória, herança e criação atrás referida. Esta a razão porque muito importa não perder de vista o conjunto de intersecções que se consubstanciam em São Francisco de Portalegre, a um tempo no plano histórico e cultural como no artístico e patrimonial, na hora de promover a sua musealização.

Com efeito, primeiro cenóbio a estabelecer-se na povoação medieval, logo na fase inicial da vertiginosa difusão pelo espaço europeu que conheceria a nova congregação fundada, em inícios do século XIII, pelo poverello de Assis (e um dos primeiros dessa observância em todo o Reino); implantado, como de regra, na periferia do agregado urbano e, por essa via, funcionando como pólo dinamizador da sua expansão, o convento, aqui como em toda a parte, converter-se-ia em centro irradiador de uma espiritualidade nova (assente na imitação de Cristo e na imagem da vida cristã que configuram a sua peculiar Regra de Vida) que, seja por intermédio da pregação, seja da sociabilidade própria de mendicantes, seja ainda da difusão do próprio conceito (e modo de vida) das Ordens Terceiras, constitui um poderoso factor de aglutinação social (e, por conseguinte, de coesão da comunidade humana), de particular importância face à grave crise da piedade e da vivência religiosa (de evidentes repercussões sociais e políticas) que assinala a transição entre a Idade Média e a Moderna. E nisso radicará (também por força dos institutos escolares de que foi proprietária) a importância que a piedade e a parenética franciscanas (de teor terrorista e ressonâncias escatológicas, e fortemente centrada na devoção a Cristo e à Sua Paixão) virá a conhecer no período barroco: justamente aquele em que Portalegre se afirma na sua dimensão nova de cidade.

Colunas de retábulo, século XVIII, finais
Cortesia de publicaçõesdafundaçãorobinson

A peculiar modelação plástica de urbe, alcandorada na sua vertente como um sacro monte ou um deserto (onde à cidade de Deus caberia ordenar e remir a cidade dos homens) e de cuja morfologia o complexo cenobita participaria em lugar de relevo, muito particularmente favorece, aliás, uma dimensão semiótica à implantação franciscana na cidade (que é também uma dimensão de poder), que o decurso da História se encarregará de preservar. Antes que uma nova imagem, mais urbana e secular, venha, pouco a pouco, no declinar do século XVIII, estabelecer no desenho um foco de conflito: mas que a Fábrica Robinson (com as suas chaminés, mas também com a sua acção social, não isenta de proselitismo) procurará preservar, em seu beneficio e em alteridade mais ou menos explícita à cidade antiga, enroscada em torno à, e às suas ancestrais cultura, sociabilidade e economia e a um paradigma de unicidade (também religiosa) de natureza pré-capitalista. Por seu turno, a complexa evolução física da Igreja de São Francisco de Portalegre, cuja leitura os actuais trabalhos arqueológicos e de reabilitação devolvem na sua rica integridade, espelha fielmente esta história longa e rica, indispensável à boa compreensão da urbe, na sua afirmação e desenvolvimento.
Fá-lo, com efeito, desde logo na sua oscilante ambiguidade entre os ditames (plásticos) de pobreza originais e a necessidade de propagar' o seu discurso de exaltação divina num contexto cultural mutante, do ponto de vista da sociedade em que se inscreve e no qual, especialmente entre os séculos XVII e XVIII, a cultura do Barroco impõe o teatro e a teatralidade das formas e estruturas como veículo central de comunicação.

Colecção Rui Sequeira (JC)
Cortesia de publicaçõesdafundaçãorobinson

E é  justamente aqui que a musealização da Colecção Rui Sequeira proporciona a ocasião feliz e rara de preencher (cénica e cientificamente) o vazio gerado pela dramática dispersão do património integrado que outrora preencheu esse recinto. Exactamente pela preocupação a um tempo escatológica e redentora que presidiu à tenaz reunião desse impressionante espólio;
  • pelo protagonismo rigorosamente central que o tema da Paixão de Cristo detém sobre a totalidade do acervo;
  • pela possibilidade de, por seu intermédio, ilustrar a ligação dos Franciscanos à vivência peculiar das Ordens Terceiras;
  • de complementar a presença depauperada das estruturas retabulares e (em não menor sentido) de ilustrar a implantação socialmente transversal de uma espiritualidade que, na comunidade humana como no plano puramente estético, se estende dos paradigmas eruditos, às interpretações regionais e mesmo populares e, no plano cronológico, se alonga do declinar da Idade Média aos inícios da centúria finda.
Num quadro onde a personagem Rui Sequeira e o seu invulgar desígnio missionário não poderão ser escamoteados, por essa via (e pela da própria criação contemporânea do programa de musealização) proporcionando um elo transversal a todo o Espaço Robinson e à cultura da comunidade operária que o gerou e habitou». In António Filipe Pimentel A Igreja de S. Francisco de Portalegre. Notas em torno de um programa de musealização.

Continua, numa próxima oportunidade.

Cortesia de Publicações da Fundação Robinson/JDACT