Mostrar mensagens com a etiqueta Aventura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Aventura. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Diana Gabaldon. Nas Asas do Tempo. «Muito romântico, pensei, e com certa presença de espírito desliguei o interruptor, de modo que uma volta repentina da luz não estragasse o clima em algum momento inoportuno»

jdact

«(…) Depois de passar algum tempo na sala com a sra. Baird, numa conversa amena e nada desagradável, subi para o meu quarto, para aprontar-me antes de Frank chegar. Sabia que o limite dele era de duas taças de xerez e, portanto, esperava-o de volta logo. O vento começava a soprar forte e o próprio ar do quarto estava carregado de electricidade. Passei a escova nos cabelos, fazendo os cachos estalarem com a estática e saltarem, emaranhando-se furiosamente. Meus cabelos teriam que passar sem as cem escovadelas esta noite, decidi. Com as actuais condições do tempo, iria apenas escovar os dentes. Fios de cabelo grudavam-se no meu rosto, agarrando-se teimosamente enquanto eu tentava afastá-los para trás. Nenhuma água no jarro; Frank a usara, arrumando-se antes de sair para o seu encontro com o sr. Bainbridge, e não se dera ao trabalho de enchê-lo novamente na torneira do banheiro. Peguei o frasco de L’Heure Bleu e despejei uma boa porção na palma da mão. Esfregando rapidamente as mãos antes que o perfume se evaporasse, passei-as pelos cabelos. Despejei mais um pouco na escova e penteei os cachos para trás das orelhas. Bem. Assim estava melhor, pensei, girando a cabeça de um lado para o outro para examinar os resultados no espelho manchado. A humidade dissipara a electricidade dos meus cabelos, de modo que eles agora flutuavam em ondas brilhantes e pesadas à volta do meu rosto. O álcool evaporado deixara um perfume muito agradável no ar. Frank iria gostar, pensei. L'Heure Bleu era sua colónia favorita.

De repente o clarão de um relâmpago bem próximo, seguido imediatamente pelo estrondo de um trovão, fez com que todas as luzes se apagassem. Praguejando baixinho, comecei a tactear dentro das gavetas. Em algum lugar, eu vira velas e fósforos; a queda da energia eléctrica era uma ocorrência tão frequente nas Highlands que as velas constituíam um suprimento indispensável em todos os quartos de hotéis e hospedarias. Eu as vira até mesmo nos hotéis mais elegantes, onde eram perfumadas com madressilvas e apresentadas em castiçais de vidro fosco com pingentes brilhantes. As velas da sra. Baird eram bem mais utilitárias, velas brancas comuns, mas havia muitas delas, assim como três caixas de fósforos. Não estava inclinada a ser exigente quanto à elegância num momento como aquele. Coloquei uma vela no suporte de cerâmica azul sobre a penteadeira iluminada pelo relâmpago seguinte, depois acendi outras pelo quarto, até que todo o aposento fosse tomado por uma luminosidade suave e bruxuleante. Muito romântico, pensei, e com certa presença de espírito desliguei o interruptor, de modo que uma volta repentina da luz não estragasse o clima em algum momento inoportuno. As velas não haviam queimado mais do que um centímetro quando a porta abriu-se e Frank entrou como um furacão. Literalmente, porque a rajada de vento que o seguiu escadas acima apagou três velas.

A porta fechou-se atrás dele com uma pancada que apagou mais duas velas. Esforçando-se para enxergar na escuridão repentina, passou a mão pelos cabelos desalinhados. Levantei-me e reacendi as velas, admoestando-o brandamente sobre os modos bruscos de entrar num aposento. Foi somente ao terminar e me virar para perguntar-lhe se gostaria de um drinque que vi que ele parecia um pouco pálido e perturbado. O que foi?, perguntei. Viu um fantasma? Bem, sabe, ele disse devagar, não tenho certeza se não vi. Distraidamente, ele pegou minha escova e ergueu-a para arrumar seus cabelos. Quando a fragrância repentina de L'Heure Bleu atingiu suas narinas, franziu o nariz e colocou-a de volta sobre a penteadeira, voltando a atenção para o pente que carregava no bolso. Olhei pela janela, onde os olmos agitavam-se de um lado para o outro como manguais. Uma persiana aberta batia em algum lugar do outro lado da casa e ocorreu-me que talvez devêssemos fechar as nossas, embora o alvoroço lá fora fosse interessante de observar». In Diana Gabaldon, Nas Asas do Tempo, 1991, Casa das Letras, LeYa, 2010, 2016, ISBN 978-972-461-974-3.               

Cortesia das CdasLetras/JDACT

JDACT, Aventura, Diana Gabaldon, Literatura, Escócia,

Nas Asas do Tempo. Diana Gabaldon. «Bem, sabe, interpôs o tabelião, às vezes eu acho que possa ser uma corruptela de uma antiga palavra escocesa, na verdade, yeuk. Significa tentação, ânsia, desejo»

jdact

«(…) Revirei os olhos, pressentindo uma nova explosão de conhecimento, mas a sra. Baird sorriu cordialmente e encorajou-o, dizendo que era verdade, ela havia estado no norte e visto a pedra Dois Irmãos e isso era escandinavo, não era? Os escandinavos visitaram essa costa centenas de vezes entre 500 e 1300 d.C, aproximadamente, Frank disse, olhando sonhadoramente para o horizonte, vendo barcos normandos na nuvem varrida pelo vento. Vikings. E trouxeram muitos de seus mitos com eles. É um país bom para mitos. As coisas parecem criar raízes aqui.

Nisso eu podia acreditar. O crepúsculo se aproximava, assim como uma tempestade. Na estranha luz sob as nuvens, até as casas totalmente modernas ao longo da rua pareciam tão antigas e sinistras quanto a desgastada pedra do povo picto que ficava a uns trinta metros de distância, guardando a encruzilhada que marcava há mil anos. Parecia uma boa noite para ficar em casa com as persianas fechadas.

Ao invés de permanecer confortavelmente sentada na sala de visitas da sra. Baird, vendo imagens estereoscópicas de Perth Harbor, entretanto, Frank preferiu comparecer ao seu compromisso com o sr. Bainbridge, um tabelião com interesse em registros históricos locais, para tomar um xerez. Lembrando-me do encontro anterior que tivera com o sr. Bainbridge, resolvi permanecer em casa com Perth Harbor.

Procure voltar antes da tempestade - disse a Frank, dando-lhe um beijo de despedida. - E dê lembranças minhas ao sr. Bainbridge. Humm, sim. Sim, claro. Cuidadosamente evitando meus olhos, Frank encolheu os ombros dentro do seu sobretudo e partiu, pegando um guarda-chuva do suporte junto à porta. Fechei a porta quando ele saiu, mas deixei-a destrancada para que ele pudesse entrar ao voltar. Dirigi-me languidamente de volta à sala de visitas, reflectindo que Frank iria sem dúvida fingir que não tinha mulher. Uma farsa à qual o sr. Bainbridge iria se unir alegremente. Não que eu, particularmente, pudesse culpá-lo.

No começo, tudo correra muito bem em nossa visita à casa do sr. Bainbridge na tarde do dia anterior. Eu me mostrara recatada, bem-educada, inteligente, mas modesta, elegante e discretamente vestida - tudo que a mulher perfeita do professor universitário deveria ser. Até o chá ser servido. Agora, virei a minha mão direita, examinando, com tristeza, a grande bolha que se estendia pela base dos quatro dedos. Afinal, não era culpa minha que o sr. Bainbridge, um viúvo, se contentasse com um bule barato de metal, ao invés de um bule adequado de louça. Nem que o tabelião, procurando ser gentil, tivesse me pedido para servir o chá. Nem que a luva de panela que ele me deu apresentasse uma parte gasta que permitiu que o cabo em brasa do bule entrasse em contacto direto com minha mão quando o segurei.

Não, concluí. Deixar cair o bule foi uma reacção perfeitamente normal. Deixá-lo cair no colo do sr. Bainbridge foi apenas um infeliz acidente; tinha que deixá-lo cair em algum lugar. Foi minha exclamação Pu… que pariu!, em voz mais alta do que o berro de dor do sr. Bainbridge que fez Frank me olhar enfurecido por cima dos pãezinhos. Quando se recuperou do choque, o sr. Bainbridge mostrou-se muito gentil, examinando minha mão e ignorando as tentativas de Frank de se desculpar pelo meu linguajar, alegando que eu servira num hospital de campanha por quase dois anos. Receio que minha mulher acabou pegando algumas, hã, expressões mais pitorescas dos ianques e de outros - Frank sugeriu com um sorriso nervoso.

É verdade, eu disse, cerrando os dentes enquanto envolvia minha mão com um guardanapo embebido em água. Os homens tendem a ser muito pitorescos quando se está tirando estilhaços do corpo deles. Com muito tacto, o sr. Bainbridge tentou desviar a conversa para o campo neutro da história dizendo que sempre se interessara pelas variações do que fora considerado discurso profano através dos tempos. Havia Gorblimey, por exemplo, uma corruptela recente da imprecação God blind me. Sim, é claro, disse Frank, aceitando de bom grado o desvio da conversa. Sem açúcar, obrigado, Claire. E quanto a Gadzooks? A parte Gad é perfeitamente clara, naturalmente vem de God, mas zook...

Bem, sabe, interpôs o tabelião, às vezes eu acho que possa ser uma corruptela de uma antiga palavra escocesa, na verdade, yeuk. Significa tentação, ânsia, desejo. Faria sentido, não? Frank concordou, balançando a cabeça e deixando seu pouco erudito topete cair na frente da testa. Empurrou-o para trás automaticamente. Interessante, disse, toda a evolução do sacrilégio. Sim, e continua a acontecer, disse, pegando cuidadosamente um cubo de açúcar com a pinça. É mesmo?, disse o sr. Bainbridge. A senhora encontrou algumas variações importantes durante a sua, hã, experiência na guerra? Ah, sim, disse. A minha favorita, aprendi com um ianque. Um homem chamado Williamson, de Nova York, eu acho. Ele a dizia toda vez que eu trocava seu curativo. E qual era? Jesus H. Roosevelt Cristo, disse, deixando o cubo de açúcar cair cuidadosamente no café de Frank». In Diana Gabaldon, Nas Asas do Tempo, 1991, Casa das Letras, LeYa, 2010, 2016, ISBN 978-972-461-974-3.                                                       

Cortesia das CdasLetras/JDACT

JDACT, Aventura, Diana Gabaldon, Literatura, Escócia, 

terça-feira, 14 de abril de 2020

Como eu Atravessei África. Alexandre Serpa Pinto. «Foi pelo seu intermédio que travei relações epistolares com Luciano Cordeiro, a quem depois me devia ligar estreita amizade. Por esse tempo, redigi duas pequenas memórias…»

jdact

Como eu atravessei a África do Atlântico ao Mar Índico.
Viagem de Benguela à Contra-Costa, através de Regiões Desconhecidas
«(…) Ora essa!..., então desisto eu. Mesmo, eu não creio que a coisa vá a efeito. Nem eu creio muito; mas enfim, se for a efeito, porque não havemos de ir ambos? Não nos conhecemos, é verdade; mas em breve travaremos íntimas relações, e creio bem chegaremos a ser amigos. E porque não? Então, se a expedição for avante, iremos juntos, e escolheremos para nosso companheiro ao meu amigo Roberto Ivens. Está dito. Pensa seriamente que o Governo votará uma tão grande verba como a que é precisa para uma empresa destas? Não sei, duvido; e agora ultimamente fala-se menos na expedição. Conversámos largamente, e separámo-nos; tendo a íntima convicção de que a expedição nunca se realizaria. Ainda me encontrei com Capelo nos dias seguintes, e depois separámo-nos. Ele seguiu viagem no couraçado Vasco da Gama para Inglaterra; e eu fui tomar o comando da minha companhia em Caçadores 4, no Algarve. Com o descanso da vida de guarnição, voltei ao estudo, e tive a felicidade de encontrar um amigo no Algarve, Marrecas Ferreira, distinto oficial de Engenheiros, que, meu companheiro nas mesas do trabalho, tinha sempre um bom conselho a dar-me, nas questões matemáticas, que ele maneja com inteligência superior. Foi pelo seu intermédio que travei relações epistolares com Luciano Cordeiro, a quem depois me devia ligar estreita amizade. Por esse tempo, redigi duas pequenas memórias, que por intermedio de Luciano Cordeiro chegaram às mãos do Ministro da Marinha, em que tratava do modo de organizar uma expedição de exploração na África Austral.
Passaram-se meses, e não mais me falaram de expedição.
Recebi duas cartas do Capelo, em que me mostrava a sua completa descrença em que a coisa fosse a efeito. Eu mesmo nutria igual descrença. Na Comissão Permanente de Geografia discutiam-se vários projectos de expedições; mas tudo ficava em discussões. Um dia, vi nos jornais, que o Ministro, o João Andrade Corvo, apresentara no parlamento um projecto, pedindo um crédito de 30 contos para uma expedição em África; mas, pouco depois, caiu o Ministério, e foi o José Melo Gouveia encarregado da Pasta das Colónias; quando o projecto ainda não tinha sido votado no parlamento. Tornava-se a falar da projectada exploração; mas os jornais davam por escolhidos exploradores que eu não conhecia, e às vezes apenas falavam em Capelo. Eu então estava em Faro, e se me não descurava dos meus estudos astronómicos e Africanos, ouvindo os conselhos de João Boto, distinto professor da escola de Pilotos de Faro, não nutria já ideias de viajar. O meu tempo era passado entre as carícias da família e os meus livros de estudo, e sentia-me muito feliz, nos conchegos do lar doméstico, para pensar em trocar a minha vida plácida pelo bulício e azares das viagens.
Seguia com interesse nos jornais as notícias de Lisboa, e vi que o novo ministro, José Melo Gouveia, havia no parlamento apoiado a proposta de João Andrade Corvo, e que fora votada a soma de 30 contos para uma exploração. A morte de Bernardino António Gomes, vítima, talvez, do muito interesse que dedicou ao estudo das questões Africanas, numa idade em que as fadigas passadas lhe aconselhavam completo repouso de espírito, a morte desse eminente sábio, veio produzir um grande vácuo na Comissão Central de Geografia. Outros, é verdade, tomando grande interesse nas questões palpitantes, levantavam a voz no seio da comissão; mas discussões repetidas iam adiando a prática urgente. Eu, apesar de se ter votado a verba no parlamento, já não via possibilidade de se levar a efeito a expedição em 1877; e em vista do que sabia pela imprensa, não pensava que se lembrassem de mim, se aquela fosse a afeito; e devo dize-lo, dava-me isso um certo prazer». In Alexandre Serpa Pinto, Como eu Atravessei África, 1881, Publicações Europa-América, 1998, ISBN 978-972-104-400-5.

Cortesia de PEuropa-América/JDACT

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Como eu Atravessei África. Alexandre Serpa Pinto. «… que já tinha pensado num distinto Oficial da nossa Marinha de Guerra, Hermenigildo Capelo, para fazer parte da expedição. No dia seguinte parti para o Norte…»

jdact

Como eu atravessei a África do Atlântico ao Mar Índico.
Viagem de Benguela à Contra-Costa, através de Regiões Desconhecidas
«(…) Sua Excelência recebeu-me com secura, dizendo-me, que podia dispor de pouco tempo, e perguntando-me, o que eu queria? Travou-se entre nós o seguinte diálogo: ouvi dizer, que V. Exa. pensa em enviar à África uma expedição geográfica; e sobre isto venho falar. O Ministro mudou logo de tom para comigo, e mandou-me sentar com toda afabilidade. Já esteve em África?, perguntou-me ele. Já estive em África, conheço um pouco o modo de viajar ali, e tenho-me ocupado muito em estudar questões Africanas. Quer ir fazer uma longa viagem na África Austral? Declaro que hesitei um momento em responder. Estou pronto a ir, disse por fim. Bem; me disse ele, penso em enviar uma grande expedição à África, bem provida de recursos; e quando tratar de organizar o pessoal, não esquecerei o seu nome. É verdade; me disse, quando eu já ia a sair, que condições e que vantagens pede por esse serviço? Nenhumas, lhe respondi eu, e saí. Fui do Ministério dos Negócios Estrangeiros à Calçada da Glória, Nº 3, e procurei o dr. Bernardino António Gomes, vice-presidente da Comissão Central Permanente de Geografia. Tivemos larga conferência, e o distinto sábio, então todo entregue a questões geográficas, disse-me, que já tinha pensado num distinto Oficial da nossa Marinha de Guerra, Hermenigildo Capelo, para fazer parte da expedição.
No dia seguinte parti para o Norte. A viagem e os ares do campo fizeram arrefecer um pouco o febril entusiasmo que se apossara de mim em Lisboa, e pensando maduramente, resolvi não ir explorar em África. Minha mulher e a minha filha eram laços difíceis de romper, e cada vez que a ideia de me privar das carícias da meiga criança me passava pela mente, arrefecia completamente em mim o ardor das explorações. De um lado, a família, e do outro a África, eram dois poderosos atractivos que me tinham perplexo. Encontrei um meio de resolver a questão. Se eu fosse nomeado Governador de um distrito, podia ir estudar uma parte de África, sem me separar da família. Fui colocado no 4 de Caçadores, e na minha viagem para o Algarve, passei alguns dias em Lisboa. Não se falava mais em expedição exploratória, e apenas um entusiasta, Luciano Cordeiro, não tinha descrido de que ela se faria; e na sociedade de geografia, de que era Secretario, tinha levantado um alto brado a favor dela. O dr. Bernardino António Gomes, já de idade provecta, tinha cedido ao peso do seu incessante labutar, e sentia já os primeiros sintomas do mal que, pouco depois, arrancando-lhe a vida, devia arrancar a Portugal e ao mundo uma das maiores ilustrações portuguesas do século XIX. Eu não conhecia a esse tempo o homem ardente e ilustrado a quem hoje me prende verdadeira amizade, Luciano Cordeiro.
Todos aqueles a quem falava de exploração, me diziam ser coisa adiada. Ao passo que o estado em que encontrei as coisas em Lisboa me compungia, pois que via perder-se a luz que um momento brilhara, para dar um impulso harmónico às explorações Portuguesas em África; por outro lado, sentia um certo prazer em ver-me, por esse meio, libertado do meu compromisso; compromisso que me separaria dos entes que me são caros. Nutri então a ideia de ir governar, e de me estabelecer em África, nessa África em que eu queria trabalhar, sem por isso me separar dos meus. Fui falar ao Ministro. Dessa vez fui logo cordialmente recebido. Estranhei o caso, não se falando já de explorações. O que o traz por aqui? Venho pedir a V. Exa. o governo de Quilimane, que está vago. O Sr. Corvo riu-se. Tenho missão de maior monta a confiar-lhe; me disse; preciso de si para coisa diferente de governar um distrito em África; e por isso não lhe dou o governo de Quilimane. Então V. Exa. ainda pensa em fazer explorar a África? Eu com franqueza digo, que hoje não creio que a ideia se realize. Dou-lhe a minha palavra de honra, me disse o Ministro, que ou hei-de deixar de ser João Andrade Corvo, ou na próxima Primavera, uma expedição organizada como ainda se não organizou expedição alguma na Europa, há de partir de Lisboa para a África Austral. E conta comigo? Conto consigo, me disse, e em breve terá notícias minhas. Saí aterrado do Gabinete do Ministro. Cheguei ao Hotel Central, e escrevi o seguinte: não tenho a honra de o conhecer, mas preciso falar-lhe, e peço-lhe uma entrevista. Sobrescritei, a Hermenigildo Carlos Brito Capelo-Oficial de guarnição a bordo do couraçado Vasco de Gama. No dia imediato, recebi a seguinte resposta: estou hoje no Café Martinho, às 3 horas. Capelo. Ás três horas entrava no Café Martinho, e vi que as mesas estavam completamente desertas. Só a uma delas estava sentado um primeiro-tenente de marinha, que eu não conhecia mesmo de vista. Devia ser o meu homem. Bebia pausadamente um grog, e tinha a cabeça descoberta. Era de mediana estatura, tanto quanto eu pude avaliar estando ele sentado. Moreno, de olhar plácido; o cabelo-raro, e grisalho, o pequeno bigode já esbranquiçado, davam-lhe um ar de velhice, que era desmentido pela tez desenrugada, e apresentando o lustre da juventude. É o sr. Capelo? Sou; é o sr. Serpa Pinto? Já o esperava, e sei que, provavelmente, vem falar-me de África. É verdade. Então está decidido a fazer parte da expedição? Estou; e já nisso falei ao dr. Bernardino António Gomes. Foi ele que me falou no sr.; que compromisso tem? Nenhum. Não sei bem o que o Governo quer; falei duas vezes com o dr. Gomes; ainda não vi o Ministro, e apenas lhe posso dizer, que, se for à África, escolherei para companheiro um meu amigo, e camarada na armada, Roberto Ivens. Conhece-o? Não o conheço. Falei ao Ministro e ele disse-me, que contava comigo para a expedição. Nesse caso, uma vez que já tem compromissos com o Ministro, eu desisto de ir». In Alexandre Serpa Pinto, Como eu Atravessei África, 1881, Publicações Europa-América, 1998, ISBN 978-972-104-400-5.

Cortesia de PEuropa-América/JDACT

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Nas Asas do Tempo. Diana Gabaldon. «Não seria extraordinário se..., quero dizer, todos sabem que médicos e enfermeiras ficam sob um terrível stress durante as emergências e..., bem, eu..., é apenas que..., bem, eu compreenderia…»

jdact

«(…) Tivemos um, na verdade um sujeito muito rabugento, um gaiteiro dos Seaforth, que não suportava injecção, especialmente nas nádegas. Passava horas no mais terrível desconforto antes de deixar que alguém se aproximasse dele com uma seringa e, mesmo assim, tentava nos fazer dar-lhe a injecção no braço, embora fosse intramuscular. Ri diante da lembrança do cabo Chisholm. Ele me disse: se vou ficar deitado de barriga para baixo, com as minhas nádegas de fora, quero que a garota fique por baixo de mim, não atrás de mim com uma agulha! Frank sorriu, mas pareceu um pouco apreensivo, como sempre acontecia com as minhas histórias de guerra menos delicadas. Não se preocupe, assegurei-lhe, percebendo a sua expressão, não vou contar essa na hora do chá na sala dos professores. O sorriso arrefeceu e ele aproximou-se, parando atrás de mim, sentada à penteadeira. Beijou o topo de minha cabeça. Não se preocupe, disse. Os professores vão adorá-la, quaisquer que sejam as histórias que contar. Hum. Seus cabelos estão com um perfume delicioso. Gosta? Em resposta, as suas mãos deslizaram para a frente por cima dos meus ombros, segurando meus seios na camisola fina. Eu podia ver seu rosto acima do meu no espelho, o queixo descansando sobre minha cabeça. Gosto de tudo em você, disse com a voz rouca. Fica linda à luz de velas. Seus olhos são como xerez no cristal e a sua pele brilha como marfim. Uma feiticeira à luz de velas, é o que você é. Talvez eu devesse desligar as lâmpadas permanentemente. Fica difícil ler na cama, eu disse, o coração começando a acelerar. Posso pensar em coisas melhores para fazer na cama, murmurou. Pode mesmo?, disse, levantando-me e virando-me para passar os braços em volta de seu pescoço. Como o quê, por exemplo? Algum tempo depois, aconchegados por trás das persianas trancadas, ergui minha cabeça dos seus ombros e disse: porque me perguntou aquilo? Se eu tive contacto com escoceses, quero dizer, deve saber que tive, há todo tipo de homens nesses hospitais. Ele se mexeu e deslizou a mão pelas minhas costas. Hum. Ah, por nada, na verdade. É que, quando vi aquele sujeito lá fora, ocorreu-me que pudesse ser, hesitou, apertando-me mais um pouco nos seus braços, hã, sabe, que pudesse ser alguém de quem você cuidou, talvez..., talvez, tivesse ouvido falar que estava aqui e veio ver..., algo assim. Nesse caso, disse, de modo prático, porque ele não entraria e pediria para me ver? Bem, a voz de Frank pareceu muito descontraída, talvez ele não quisesse dar de caras comigo.
Ergui-me sobre um dos cotovelos, fitando-o. Havíamos deixado uma vela acesa e eu podia vê-lo bastante bem. Virara a cabeça e olhava distraidamente para a cromolitografia do príncipe Carlos Eduardo com a qual a sra. Baird achara apropriado decorar a nossa parede. Agarrei o seu queixo e virei o seu rosto para mim. Ele arregalou os olhos, simulando surpresa. Está querendo dizer, indaguei, que o homem que viu lá fora era alguma espécie de, de..., hesitei, em busca da palavra certa. Ligação?, sugeriu, solícito. Amorosa de minha parte?, concluí. Não, não, claro que não, afirmou de maneira pouco convincente. Retirou as minhas mãos do seu rosto e tentou beijar-me, mas agora foi a minha vez de virar o rosto. Contentou-se em puxar-me de volta para me deitar a seu lado na cama. É que..., começou. Bem, sabe, Claire, foram seis anos. E nos vimos apenas três vezes e apenas por um dia na última vez. Não seria extraordinário se..., quero dizer, todos sabem que médicos e enfermeiras ficam sob um terrível stress durante as emergências e..., bem, eu..., é apenas que..., bem, eu compreenderia, sabe, se alguma coisa, hã, de natureza espontânea... Interrompi aquela lengalenga desvencilhando-me do seu abraço e saltando para fora da cama. Acha que lhe fui infiel?, indaguei. Acha? Porque se acha, pode sair deste quarto agora mesmo. Ir embora desta casa! Como ousa insinuar tal coisa? Eu estava furiosa e Frank, sentando-se na cama, estendeu os braços tentando acalmar-me. Não toque em mim!, retruquei. Apenas me diga: acha, diante do facto de um estranho estar olhando para a minha janela, que eu tenha tido algum caso amoroso com um dos meus pacientes? Frank levantou-se da cama e envolveu-me nos seus braços. Permaneci petrificada como a mulher de Lot, mas ele insistiu, acariciando os meus cabelos e esfregando os meus ombros da maneira que sabia que eu gostava. Não, eu não acho nada disso, disse com firmeza. Puxou-me para mais junto dele e eu relaxei um pouco, embora não o suficiente para abraçá-lo». In Diana Gabaldon, Nas Asas do Tempo, 1991, Casa das Letras, LeYa, 2010, 2016, ISBN 978-972-461-974-3.

Cortesia das CdasLetras/JDACT

domingo, 26 de janeiro de 2020

Nas Asas do Tempo. Diana Gabaldon. «Parece um tanto grosseiro, mas não muito próprio de um fantasma, observei, esvaziando o meu copo. Como ele era? Um sujeito grandalhão…»

jdact

«(…) O quê? Do lado de fora desta casa?, perguntei com uma risada. Então, deve ter sido um fantasma; não posso imaginar ninguém parado por aí numa noite como essa. Frank inclinou o jarro de água sobre seu copo, depois olhou acusadoramente para mim quando não saiu nenhuma água. Não olhe para mim, eu disse. Você usou toda a água. Mas eu prefiro o uísque puro mesmo. Tomei um gole para demonstrar. Frank pareceu inclinado a dar um pulo no lavatório para pegar água, mas abandonou a ideia e continuou a sua história, tomando pequenos goles cautelosamente, como se o seu copo contivesse ácido sulfúrico ao invés do melhor uísque Glenfiddich de puro malte. Sim, ele estava na borda do jardim, deste lado, parado junto à cerca. Eu pensei, hesitou, olhando dentro do copo, achei que ele estava olhando para a sua janela. Minha janela? Que extraordinário! Não pude conter um ligeiro estremecimento e atravessei o quarto para fechar as persianas, embora fosse um pouco tarde para isso. Frank seguiu-me, ainda falando. Sim, eu mesmo pude vê-la lá de baixo. Você escovava os cabelos e resmungava porque estavam arrepiados. Nesse caso, o sujeito provavelmente estava se divertindo, disse, asperamente. Frank sacudiu a cabeça, embora sorrisse e alisasse meus cabelos. Não, ele não estava rindo. Na verdade, ele parecia terrivelmente infeliz com alguma coisa. Não que eu tenha podido ver bem seu rosto; foi alguma coisa na maneira como estava ali parado. Eu vim por detrás dele e, quando ele não se moveu, perguntei educadamente se poderia ajudá-lo em alguma coisa. Primeiro, ele agiu como se não me tivesse ouvido, e eu achei que talvez não tivesse mesmo, com o barulho do vento, então repeti o que dissera e estendi a mão para tocar o seu ombro, chamar a sua atenção, sabe. Mas antes que eu pudesse tocá-lo, ele girou repentinamente nos calcanhares, passou por mim e começou a descer a rua.
Parece um tanto grosseiro, mas não muito próprio de um fantasma, observei, esvaziando o meu copo. Como ele era? Um sujeito grandalhão, Frank disse, franzindo a testa ao recordar-se. E escocês, em trajes completos das Highlands, com a bolsa de pêlos usada pelos escoceses na frente do kilt e um lindo broche de um veado correndo prendendo o xale xadrez. Quis perguntar-lhe onde o tinha conseguido, mas afastou-se antes que eu tivesse a oportunidade. Dirigi-me à escrivaninha e servi outra dose de uísque. Bem, não é uma aparência muito estranha para essa região, certo? De vez em quando vejo um homem vestido assim na vila. Nããão... Frank parecia duvidar. Não, não eram as suas roupas que pareciam estranhas. Mas quando passou por mim, eu poderia jurar que ele estava suficientemente perto para esbarrar na manga do meu casaco, mas não o fez. Fiquei tão intrigado que me virei para observá-lo conforme se afastava. Ele desceu a Gereside Road, mas quase ao chegar à esquina, ele..., desapareceu. Foi quando comecei a sentir um calafrio na espinha.
Talvez a sua atenção tenha sido desviada por um instante e ele simplesmente tenha mergulhado nas sombras. Há muitas árvores no fim da rua. Posso jurar que não tirei os olhos dele nem por um segundo, Frank murmurou. Ergueu os olhos subitamente. Já sei! Lembro-me agora porque eu o achei tão estranho, embora não tivesse percebido isso na hora. O quê? Eu estava ficando um pouco cansada do fantasma e queria passar para questões mais interessantes, como a cama. Estava ventando forte, mas as pregas, sabe, do saiote e do xale quadriculados, elas simplesmente não se mexiam, excepto com o movimento dos seus passos. Fitámo-nos. Bem, disse finalmente, isso é um pouco arrepiante. Frank deu de ombros e sorriu de repente, descartando o assunto. Ao menos, terei alguma coisa para contar ao vigário da próxima vez que o encontrar. Talvez seja um famoso fantasma local e ele poderá contar-me a sua história sangrenta. Deu uma olhadela no seu relógio. Mas agora eu diria que é hora de ir para a cama. É, sim, murmurei.
Observei-o pelo espelho, enquanto tirava a camisa e procurava um cabide. De repente, parou enquanto desabotoava a camisa. Você teve muitos escoceses sob os seus cuidados, Claire?, perguntou bruscamente. No hospital de campanha ou em Pembroke? Claro, respondi, um pouco intrigada. Havia muitos Seaforth e Cameron na base militar em Amiens e, um pouco mais tarde, depois de Caen, tivemos muitos Gordon. Bons sujeitos, na maioria. Muito estóicos a respeito de tudo de um modo geral, mas terrivelmente covardes quando se tratava de injecções. Sorri, lembrando-me particularmente de um deles». In Diana Gabaldon, Nas Asas do Tempo, 1991, Casa das Letras, LeYa, 2010, 2016, ISBN 978-972-461-974-3.
                                                                                                  
Cortesia das CdasLetras/JDACT

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Nas Asas do Tempo. Diana Gabaldon. «Foi somente ao terminar e me virar para lhe perguntar se gostaria de um drinque que vi que ele parecia um pouco pálido e perturbado. O que foi?, perguntei»

jdact

«(…) É mesmo?, disse o sr. Bainbridge. A senhora encontrou algumas variações importantes durante a sua, hã, experiência na guerra? Ah, sim, disse. A minha favorita, eu aprendi com um ianque. Um homem chamado Williamson, de Nova York, eu acho. Ele dizia cada vez que eu trocava o seu curativo. E qual era? Jesus H. Roosevelt Cristo, disse, deixando o cubo de açúcar cair cuidadosamente no café de Frank. Depois de passar algum tempo na sala com a sra. Baird, numa conversa amena e nada desagradável, subi para o meu quarto, para aprontar-me antes de Frank chegar. Sabia que o limite dele era de duas taças de xerez e, portanto, esperava-o de volta logo. O vento começava a soprar forte e o próprio ar do quarto estava carregado de electricidade. Passei a escova nos cabelos, fazendo os cachos estalarem com a estática e saltarem, emaranhando-se furiosamente. Meus cabelos teriam que passar sem as cem escovadelas esta noite, decidi. Com as actuais condições do tempo, iria apenas escovar os dentes. Fios de cabelo grudavam-se no meu rosto, agarrando-se teimosamente enquanto eu tentava afastá-los para trás.
Nenhuma água no jarro; Frank a usara, arrumando-se antes de sair para o seu encontro com o sr. Bainbridge, e não se dera ao trabalho de enchê-lo novamente na torneira do banheiro. Peguei o frasco de L’Heure Bleu e despejei uma boa porção na palma da mão. Esfregando rapidamente as mãos antes que o perfume se evaporasse, passei-as pelos cabelos. Despejei mais um pouco na escova e penteei os cachos para trás das orelhas. Bem. Assim estava melhor, pensei, girando a cabeça de um lado para o outro para examinar os resultados no espelho manchado. A humidade dissipara a electricidade dos meus cabelos, de modo que eles agora flutuavam em ondas brilhantes e pesadas à volta do meu rosto. O álcool evaporado deixara um perfume muito agradável no ar. Frank iria gostar, pensei. L'Heure Bleu era sua colónia favorita. De repente o clarão de um relâmpago bem próximo, seguido imediatamente pelo estrondo de um trovão, fez com que todas as luzes se apagassem. Praguejando baixinho, comecei a tactear dentro das gavetas. Em algum lugar, eu vira velas e fósforos; a falta de energia eléctrica era uma ocorrência tão frequente nas Highlands que as velas constituíam um suprimento indispensável em todos os quartos de hotéis e hospedarias. Eu as vira até mesmo nos hotéis mais elegantes, onde eram perfumadas com madressilvas e apresentadas em castiçais de vidro fosco com pingentes brilhantes. As velas da sra. Baird eram bem mais utilitárias, velas brancas comuns, mas havia muitas delas, assim como três caixas de fósforos. Não estava inclinada a ser exigente quanto à elegância num momento como aquele.
Coloquei uma vela no suporte de cerâmica azul sobre a penteadeira iluminada pelo relâmpago seguinte, depois acendi outras pelo quarto, até que todo o aposento fosse tomado por uma luminosidade suave e bruxuleante. Muito romântico, pensei, e com certa presença de espírito desliguei o interruptor, de modo que uma volta repentina da luz não estragasse o clima num momento inoportuno. As velas não haviam queimado mais do que um centímetro quando a porta se abriu e Frank entrou como um furacão. Literalmente, porque a rajada de vento que o seguiu escadas acima apagou três velas. A porta fechou-se atrás dele com uma pancada que apagou mais duas velas. Esforçando-se para enxergar na escuridão repentina, passou a mão pelos cabelos desalinhados. Levantei-me e reacendi as velas, admoestando-o brandamente sobre os modos bruscos de entrar num aposento. Foi somente ao terminar e me virar para lhe perguntar se gostaria de um drinque que vi que ele parecia um pouco pálido e perturbado. O que foi?, perguntei. Viu fantasma? Bem, sabe, disse devagar, não tenho certeza se não vi. -Distraidamente, ele pegou na minha escova e ergueu-a para arrumar os seus cabelos.
Quando a fragrância repentina de L'Heure Bleu atingiu as suas narinas, franziu o nariz e colocou-a de volta sobre a penteadeira, voltando a atenção para o pente que carregava no bolso. Olhei pela janela, onde os olmos se agitavam de um lado para o outro como manguais. Uma persiana aberta batia em algum lugar do outro lado da casa e ocorreu-me que talvez devêssemos fechar as nossas, embora o alvoroço lá fora fosse interessante de observar. Acho que está um pouco tempestuoso para um fantasma, disse. Eles não gostam de noites calmas e enevoadas em cemitérios? Frank riu um pouco timidamente. Bem, provavelmente foram apenas as histórias de Bainbridge e um pouco de xerez a mais do que eu deveria ter tomado. Nada de mais. Agora eu estava curiosa. O que viu exactamente?, perguntei, sentando-me no banquinho da penteadeira. Indiquei a garrafa de uísque erguendo uma das sobrancelhas e Frank imediatamente foi servir dois drinques. Bem, na verdade, apenas um homem, ele começou, medindo uma dose para ele e duas para mim. Parado na rua lá fora». In Diana Gabaldon, Nas Asas do Tempo, 1991, Casa das Letras, LeYa, 2010, 2016, ISBN 978-972-461-974-3.
                                                                                                  
Cortesia das CdasLetras/JDACT

domingo, 9 de junho de 2019

Nas Asas do Tempo. Diana Gabaldon. «Não, concluí. Deixar cair o bule foi uma reacção perfeitamente normal. Deixá-lo cair no colo do sr. Bainbridge foi apenas um infeliz acidente»

jdact

«(…) Revirei os olhos, pressentindo uma nova explosão de conhecimento, mas a sra. Baird sorriu cordialmente e encorajou-o, dizendo que era verdade, ela havia estado no norte e visto a pedra Dois Irmãos e isso era escandinavo, não era? Os escandinavos visitaram essa costa centenas de vezes entre 500 e 1300 d.C, aproximadamente, Frank disse, olhando sonhadoramente para o horizonte, vendo barcos normandos na nuvem varrida pelo vento. Vikings. E trouxeram muitos dos seus mitos com eles. É um país bom para mitos. As coisas parecem criar raízes aqui. Nisso eu podia acreditar. O crepúsculo se aproximava, assim como uma tempestade. Na estranha luz sob as nuvens, até as casas totalmente modernas ao longo da rua pareciam tão antigas e sinistras quanto a desgastada pedra do povo picto que ficava a uns trinta metros de distância, guardando a encruzilhada que marcava há mil anos. Parecia uma boa noite para ficar em casa com as persianas fechadas.
Ao invés de permanecer confortavelmente sentada na sala de visitas da sra. Baird, vendo imagens estereoscópicas de Perth Harbor, entretanto, Frank preferiu comparecer ao seu compromisso com o sr. Bainbridge, um tabelião com interesse em registos históricos locais, para tomar um xerez. Lembrando-me do encontro anterior que tivera com o sr. Bainbridge, resolvi permanecer em casa com Perth Harbor. Procure voltar antes da tempestade, disse a Frank, dando-lhe um beijo de despedida. E dê lembranças minhas ao sr. Bainbridge. Humm, sim. Sim, claro. Cuidadosamente evitando os meus olhos, Frank encolheu os ombros dentro do seu sobretudo e partiu, pegando um guarda-chuva do suporte junto à porta. Fechei a porta quando ele saiu, mas deixei-a destrancada para que ele pudesse entrar ao voltar. Dirigi-me languidamente de volta à sala de visitas, reflectindo que Frank iria sem dúvida fingir que não tinha mulher. Uma farsa à qual o sr. Bainbridge iria se unir alegremente. Não que eu, particularmente, pudesse culpá-lo. No começo, tudo correra muito bem na nossa visita à casa do sr. Bainbridge na tarde do dia anterior. Eu mostrara-me recatada, bem-educada, inteligente, mas modesta, elegante e discretamente vestida, tudo que a mulher perfeita do professor universitário deveria ser. Até o chá ser servido.
Agora, virei a minha mão direita, examinando, com tristeza, a grande bolha que se estendia pela base dos quatro dedos. Afinal, não era culpa minha que o sr. Bainbridge, um viúvo, se contentasse com um bule barato de metal, ao invés de um bule adequado de louça. Nem que o tabelião, procurando ser gentil, tivesse me pedido para servir o chá. Nem que a luva de panela que ele me deu apresentasse uma parte gasta que permitiu que o cabo em brasa do bule entrasse em contacto directo com a minha mão quando o segurei. Não, concluí. Deixar cair o bule foi uma reacção perfeitamente normal. Deixá-lo cair no colo do sr. Bainbridge foi apenas um infeliz acidente; tinha que deixá-lo cair em algum lugar. Foi a minha exclamação Pu… que pariu!, em voz mais alta do que o berro de dor do sr. Bainbridge que fez Frank olhar-me enfurecido por cima dos pãezinhos.
Quando se recuperou do choque, o sr. Bainbridge mostrou-se muito gentil, examinando a minha mão e ignorando as tentativas de Frank de se desculpar pelo meu linguajar, alegando que eu servira num hospital de campanha quase dois anos. Receio que minha mulher acabou usando algumas, hã, expressões mais pitorescas dos ianques e de outros, Frank sugeriu com um sorriso nervoso. É verdade, disse, cerrando os dentes enquanto envolvia a minha mão com um guardanapo embebido em água. Os homens tendem a ser muito pitorescos quando se está tirando estilhaços do corpo deles. Com muito tacto, o sr. Bainbridge tentou desviar a conversa para o campo neutro da história dizendo que sempre se interessara pelas variações do que fora considerado discurso profano através dos tempos. Havia Gorblimey, por exemplo, uma corruptela recente da imprecação God blind me. Sim, é claro, disse Frank, aceitando de bom grado o desvio da conversa. Sem açúcar, obrigado, Claire. E quanto a Gadzooks? A parte Gad é perfeitamente clara, naturalmente vem de God, mas zook... Bem, sabe, interpôs o tabelião, às vezes eu acho que possa ser uma corruptela de uma antiga palavra escocesa, na verdade, yeuk. Significa tentação, ânsia, desejo. Faria sentido, não? Frank concordou, balançando a cabeça e deixando o seu pouco erudito topete cair na frente da testa. Empurrou-o para trás automaticamente. Interessante, disse, toda a evolução do sacrilégio. Sim, e continua a acontecer, e, disse, pegando cuidadosamente num cubo de açúcar com a pinça». In Diana Gabaldon, Nas Asas do Tempo, 1991, Casa das Letras, LeYa, 2010, 2016, ISBN 978-972-461-974-3.
                                                                                                  
Cortesia das CdasLetras/JDACT

domingo, 4 de novembro de 2018

Nas Asas do Tempo. Diana Gabaldon. «Veio numa motocicleta, aproximadamente da sua própria idade, para nos transportar ao campo. As prensas de plantas estavam cuidadosamente amarradas às laterais…»

jdact

«(…) Ergui-me sobre um dos cotovelos, fitando-o. Havíamos deixado uma vela acesa e eu podia vê-lo bastante bem. Virara a cabeça e olhava distraidamente para a cromolitografia do príncipe Carlos Eduardo com a qual a sra. Baird achara apropriado decorar a nossa parede. Agarrei o seu queixo e virei o seu rosto para mim. Ele arregalou os olhos, simulando surpresa. Está querendo dizer, indaguei, que o homem que viu lá fora era alguma espécie de, de..., hesitei, em busca da palavra certa. Ligação?, sugeriu, solícito. Amorosa de minha parte?, concluí. Não, não, claro que não, afirmou de maneira pouco convincente. Retirou as minhas mãos de seu rosto e tentou beijar-me, mas agora foi a minha vez de virar o rosto. Contentou-se em puxar-me de volta para deitar a seu lado na cama. É que..., começou. Bem, sabe, Claire, foram seis anos. E nos vimos apenas três vezes e apenas por um dia na última vez. Não seria extraordinário se..., quero dizer, todos sabem que médicos e enfermeiras ficam sob um terrível stress durante as emergências e..., bem, eu..., é apenas que..., bem, eu compreenderia, sabe, se alguma coisa, de natureza espontânea... Interrompi aquela lengalenga desvencilhando-me do seu abraço e saltando para fora da cama. Acha que fui infiel consigo?, indaguei. Acha? Porque se acha, pode sair deste quarto agora mesmo. Ir embora desta casa! Como ousa insinuar tal coisa? Eu estava furiosa e Frank, sentando-se na cama, estendeu os braços tentando me acalmar. Não toque em mim! Apenas me diga: acha, diante do facto de um estranho estar olhando para a minha janela, que eu tenha tido algum caso amoroso com um dos meus pacientes? Frank levantou-se da cama e envolveu-me nos seus braços. Permaneci petrificada como a mulher de Lot, mas ele insistiu, acariciando meus cabelos e esfregando os meus ombros da maneira que sabia que eu gostava. Não, eu não acho nada disso, disse-me com firmeza. Puxou-me para mais junto dele e eu relaxei um pouco, embora não o suficiente para abraçá-lo. Após um longo tempo, murmurou nos meus cabelos: Não, eu sei que nunca faria tal coisa. Só quis dizer que ainda que tivesse feito... Claire, não faria nenhuma diferença para mim. Eu amo-a. Nada do que você tenha feito jamais vai impedir-me de amá- la. Tomou o meu rosto nas mãos, apenas dez centímetros mais alto do que eu, ele podia olhar directamente dentro dos meus olhos sem dificuldade, e disse brandamente: perdoa-me? Senti seu hálito quente, ligeiramente perfumado com o travo do Glenfiddich, no meu rosto e os seus lábios, cheios e convidativos, ficaram perturbadoramente próximos.
Outro relâmpago do lado de fora anunciou o súbito arrombamento da tempestade e uma chuva estrondosa começou a açoitar o telhado. Devagar, passei os braços em torno da sua cintura.
O verdadeiro perdão não é forçado, disse, mas cai como o suave sereno do céu... Frank riu e olhou para cima; as diversas manchas no tecto eram um mau agouro para as perspectivas de podermos dormir secos a noite toda. Se esta é uma amostra do seu perdão, disse, detestaria ver a sua vingança. A tempestade ecoou como um ataque de morteiros, como se respondesse às suas palavras, e nós dois rimos, descontraídos outra vez. Somente mais tarde, ouvindo a sua respiração regular ao meu lado foi que comecei a pensar. Como eu disse, não havia nenhuma prova que implicasse em infidelidade da minha parte. Da minha parte. Mas seis anos, como ele dissera, era um longo tempo.

Monumento de Pedras
O sr. Crook veio-me buscar, como combinado, pontualmente às sete horas da manhã seguinte. Assim poderemos pegar o sereno nos botões-de-ouro, não é, menina?, disse, piscando os olhos como um velho galanteador. Veio numa motocicleta, aproximadamente da sua própria idade, para nos transportar ao campo. As prensas de plantas estavam cuidadosamente amarradas às laterais de sua enorme máquina, como pára-choques de um rebocador. Foi uma lenta excursão pelo campo tranquilo, ainda mais sossegado em contraste com o ronco estrondoso da moto do sr. Crook, repentinamente silenciada. Descobri que o velho senhor realmente possuía um grande conhecimento das plantas locais. Não só onde elas podiam ser encontradas, mas as suas propriedades medicinais e a maneira de prepará-las. Lamentei não ter levado um bloco de anotações para registar tudo, mas ouvi atentamente a voz entrecortada e procurei gravar as informações na memória, enquanto guardava as nossas espécimes nas pesadas prensas. Parámos para fazer um lanche no sopé de uma curiosa colina de topo plano. Verde como a maioria das suas vizinhas, com as mesmas saliências e escarpas rochosas, tinha algo diferente: um caminho bem usado que subia por um dos flancos e desaparecia bruscamente atrás de um afloramento de granito. O que há lá em cima?, perguntei, apontando com um sanduíche de presunto. Parece um local difícil para um piquenique». In Diana Gabaldon, Nas Asas do Tempo, Casa das Letras, Leya, 2010, 2016, ISBN 978-972-461-974-3.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

sábado, 3 de novembro de 2018

Nas Asas do Tempo. Diana Gabaldon. «Fica difícil ler na cama, disse, o coração começando a acelerar. Posso pensar em coisas melhores para fazer na cama, murmurou. Pode mesmo?»

jdact

«(…) Minha janela? Que extraordinário! Não pude conter um ligeiro estremecimento e atravessei o quarto para fechar as persianas, embora fosse um pouco tarde para isso. Frank seguiu-me, ainda falando. Sim, eu mesmo pude vê- la lá debaixo. Escovava os cabelos e resmungava porque estavam arrepiados. Nesse caso, o sujeito provavelmente estava-se divertindo, disse, asperamente. Frank sacudiu a cabeça, embora sorrisse e alisasse os meus cabelos. Não, ele não estava rindo. Na verdade, ele parecia terrivelmente infeliz com alguma coisa. Não que eu tenha podido ver bem o seu rosto; foi alguma coisa na maneira como estava ali parado. Eu vim por trás dele e, quando ele não se moveu, perguntei educadamente se poderia ajudá-lo em alguma coisa. Primeiro, ele agiu como se não me tivesse ouvido, e eu achei que talvez não tivesse mesmo, com o barulho do vento, então repeti o que dissera e estendi a mão para tocar seu ombro, chamar sua atenção, sabe. Mas antes que eu pudesse tocá-lo, ele girou repentinamente nos calcanhares, passou por mim e começou a descer a rua. Parece um tanto grosseiro, mas não muito próprio de um fantasma,observei, esvaziando meu copo. Como ele era? Um sujeito grandalhão, Frank disse, franzindo a testa ao se recordar. É escocês, em trajes completos das Highlands, com a bolsa de pêlos usada pelos escoceses na frente do kilt e um lindo broche de um veado correndo prendendo o xaile xadrez. Quis perguntar- lhe onde o tinha conseguido, mas afastou-se antes que eu tivesse a oportunidade.
Dirigi-me à escrivaninha e servi outra dose de uísque. Bem, não é uma aparência muito estranha para essa região, certo? De vez em quando vejo um homem vestido assim na vila. Nããão... Frank parecia duvidar. Não, não eram as suas roupas que pareciam estranhas. Mas quando passou por mim, eu poderia jurar que ele estava suficientemente perto para esbarrar na manga do meu casaco, mas não o fez. Fiquei tão intrigado que me virei para observá-lo conforme se afastava. Ele desceu a Gereside Road, mas quase ao chegar à esquina, ele..., desapareceu. Foi quando comecei a sentir um calafrio na espinha. Talvez a sua atenção tenha sido desviada por um instante e ele simplesmente tenha mergulhado nas sombras. Há muitas árvores no fim da rua. Posso jurar que não tirei os olhos dele nem por um segundo, murmurou Frank. Ergueu os olhos subitamente.
Já sei! Lembro-me agora porque o achei tão estranho, embora não tivesse percebido isso na hora. O quê? Eu estava ficando um pouco cansada do fantasma e queria passar para questões mais interessantes, como a cama. Estava vento forte, mas as pregas, sabe, do saiote e do xaile quadriculados, elas simplesmente não se mexiam, excepto com o movimento de seus passos. Fitámo-nos. Bem, disse finalmente, isso é um pouco arrepiante. Frank deu de ombros e sorriu de repente, descartando o assunto. Ao menos, terei alguma coisa para contar ao vigário da próxima vez que o encontrar. Talvez seja um famoso fantasma local e ele poderá contar a sua história sangrenta. Olhou para o seu relógio. Mas agora, eu diria que são horas de irmos para a cama. É, sim - murmurei.
Observei-o pelo espelho, enquanto tirava a camisa e procurava um cabide. De repente, parou enquanto desabotoava a camisa. Teve muitos escoceses sob os seus cuidados, Claire?, perguntou bruscamente. No hospital de campanha ou em Pembroke? Claro, respondi, um pouco intrigada. Havia muitos Seaforth e Cameron na base militar em Amiens e, um pouco mais tarde, depois de Caen, tivemos muitos Gordon. Bons sujeitos, na maioria. Muito estóicos a respeito de tudo de um modo geral, mas terrivelmente covardes quando se tratava de injecções. Sorri, lembrando-me particularmente de um deles. Tivemos um, na verdade um sujeito muito rabugento, um gaiteiro dos Seaforth, que não suportava injecção, especialmente nas nádegas. Passava horas no mais terrível desconforto antes de deixar que alguém se aproximasse dele com uma seringa e, mesmo assim, tentava fazer-nos dar- lhe a injecção no braço, embora fosse intramuscular. Ri diante da lembrança do cabo Chisholm. Ele disse-me: se vou ficar deitado de barriga para baixo, com minha bunda de fora, quero que a garota fique em baixo de mim, não atrás de mim com uma agulha!
Frank sorriu, mas pareceu um pouco apreensivo, como sempre acontecia com as minhas histórias de guerra menos delicadas. Não se preocupe, assegurei-lhe, percebendo a sua expressão, não vou contar essa na hora do chá na sala dos professores. O sorriso arrefeceu e ele aproximou-se, parando atrás de mim, sentada à penteadeira. Beijou o topo de minha cabeça. Não se preocupe, disse. Os professores vão adorá-la, quaisquer que sejam as histórias que contar. Hum. Os seus cabelos estão com um perfume delicioso. Gosta? Em resposta, suas mãos deslizaram para a frente por cima dos meus ombros, segurando meus seios na camisola fina. Eu podia ver seu rosto acima do meu no espelho, o queixo descansando sobre a minha cabeça. Gosto de tudo em si, disse com a voz rouca. Fica linda à luz de velas. Seus olhos são como xerez no cristal e a sua pele brilha como marfim. Uma feiticeira à luz de velas, é o que você é. Talvez eu devesse desligar as lâmpadas permanentemente.
Fica difícil ler na cama, disse, o coração começando a acelerar. Posso pensar em coisas melhores para fazer na cama, murmurou. Pode mesmo?, disse, levantando-me e virando-me para passar os braços em volta de seu pescoço. Como o quê, por exemplo?
Algum tempo depois, aconchegados por trás das persianas trancadas, ergui minha cabeça dos seus ombros e disse: porque me perguntou aquilo? Se eu tive contacto com escoceses, quero dizer, deve saber que tive, há todo o tipo de homens nesses hospitais. Ele mexeu-se e deslizou a mão pelas minhas costas. Hum! Ah, por nada, na verdade. É que, quando vi aquele sujeito lá fora, ocorreu-me que pudesse ser, hesitou, apertando-me mais um pouco nos seus braços. Hã! Sabe, que pudesse ser alguém de quem cuidou, talvez..., talvez tivesse ouvido falar que estava aqui e veio ver..., algo assim. Nesse caso, eu disse, de modo prático, por que ele não entraria e pediria para me ver? Bem, a voz de Frank pareceu muito descontraída, talvez ele não quisesse dar de cara comigo». In Diana Gabaldon, Nas Asas do Tempo, Casa das Letras, Leya, 2010, 2016, ISBN 978-972-461-974-3.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

Nas Asas do Tempo. Diana Gabaldon. «Acho que está um pouco tempestuoso para um fantasma, disse. Eles não gostam de noites calmas e enevoadas em cemitérios? Frank riu um pouco timidamente»



jdact


«(…) Depois de passar algum tempo na sala com a sra. Baird, numa conversa amena e nada desagradável, subi para o meu quarto, para aprontar-me antes de Frank chegar. Sabia que o limite dele era de duas taças de xerez e, portanto, esperava-o de volta logo. O vento começava a soprar forte e o próprio ar do quarto estava carregado de electricidade. Passei a escova nos cabelos, fazendo os cachos estalarem com a estática e saltarem, emaranhando-se furiosamente. Meus cabelos teriam que passar sem as cem escovadelas esta noite, decidi. Com as actuais condições do tempo, iria apenas escovar os dentes. Fios de cabelo grudavam-se no meu rosto, agarrando-se teimosamente enquanto eu tentava afastá-los para trás. Nenhuma água no jarro; Frank a usara, arrumando-se antes de sair para o seu encontro com o sr. Bainbridge, e não se dera ao trabalho de enchê-lo novamente na torneira do banheiro. Peguei no frasco de L’Heure Bleu e despejei uma boa porção na palma da mão. Esfregando rapidamente as mãos antes que o perfume se evaporasse, passei-as pelos cabelos. Despejei mais um pouco na escova e penteei os cachos para trás das orelhas. Bem. Assim estava melhor, pensei, girando a cabeça de um lado para o outro para examinar os resultados no espelho manchado. A humidade dissipara a electricidade dos meus cabelos, de modo que eles agora flutuavam em ondas brilhantes e pesadas à volta do meu rosto. O álcool evaporado deixara um perfume muito agradável no ar. Frank iria gostar, pensei. L'Heure Bleu era a sua colónia favorita.
De repente o clarão de um relâmpago bem próximo, seguido imediatamente pelo estrondo de um trovão, fez com que todas as luzes se apagassem. Praguejando baixinho, comecei a tactear dentro das gavetas. Em algum lugar, eu vira velas e fósforos; a queda da energia eléctrica era uma ocorrência tão frequente nas Highlands que as velas constituíam um suprimento indispensável em todos os quartos de hotéis e hospedarias. Eu as vira até mesmo nos hotéis mais elegantes, onde eram perfumadas com madressilvas e apresentadas em castiçais de vidro fosco com pingentes brilhantes. As velas da sra. Baird eram bem mais utilitárias, velas brancas comuns, mas havia muitas delas, assim como três caixas de fósforos. Não estava inclinada a ser exigente quanto à elegância num momento como aquele. Coloquei uma vela no suporte de cerâmica azul sobre a penteadeira iluminada pelo relâmpago seguinte, depois acendi outras pelo quarto, até que todo o aposento fosse tomado por uma luminosidade suave e bruxuleante. Muito romântico, pensei, e com certa presença de espírito desliguei o interruptor, de modo que uma volta repentina da luz não estragasse o clima em algum momento inoportuno.
As velas não haviam queimado mais do que um centímetro quando a porta se abriu e Frank entrou como um furacão. Literalmente, porque a rajada de vento que o seguiu escadas acima apagou três velas. A porta fechou-se atrás dele com uma pancada que apagou mais duas velas. Esforçando-se para enxergar na escuridão repentina, passou a mão pelos cabelos desalinhados. Levantei-me e reacendi as velas, admoestando-o brandamente sobre os modos bruscos de entrar num aposento. Foi somente ao terminar e me virar para lhe perguntar se gostaria de uma bebida que vi que ele parecia um pouco pálido e perturbado. O que foi? Viu um fantasma? Bem, sabe, ele disse devagar, não tenho certeza se não vi. -Distraidamente, ele pegou minha escova e ergueu-a para arrumar os seus cabelos. Quando a fragrância repentina de L'Heure Bleu atingiu as suas narinas, franziu o nariz e colocou-a de volta sobre a penteadeira, voltando a atenção para o pente que carregava no bolso. Olhei pela janela, onde os olmos se agitavam de um lado para o outro como manguais. Uma persiana aberta batia em algum lugar do outro lado da casa e ocorreu-me que talvez devêssemos fechar as nossas, embora o alvoroço lá fora fosse interessante de observar. Acho que está um pouco tempestuoso para um fantasma, disse. Eles não gostam de noites calmas e enevoadas em cemitérios? Frank riu um pouco timidamente.
Bem, provavelmente foram apenas as histórias de Bainbridge e um pouco de xerez a mais do que eu deveria ter tomado. Nada de mais. Agora eu estava curiosa. O que viu exactamente?, perguntei, sentando-me no banquinho da penteadeira. Indiquei a garrafa de uísque erguendo uma das sobrancelhas e Frank imediatamente foi servir duas bebidas. Bem, na verdade, apenas um homem… Parado na rua lá fora. O quê? Do lado de fora desta casa?, perguntei com uma risada. Então, deve ter sido um fantasma; não posso imaginar ninguém parado por aí em uma noite como essa. Frank inclinou o jarro de água sobre seu copo, depois olhou acusadoramente para mim quando não saiu nenhuma água. Não olhe para mim, disse. Usou toda a água. Mas eu prefiro o uísque puro mesmo. Tomei um gole para demonstrar. Frank pareceu inclinado a dar um pulo no lavatório para pegar água, mas abandonou a ideia e continuou a sua história, tomando pequenos goles cautelosamente, como se o seu copo contivesse ácido sulfúrico ao invés do melhor uísque Glenfiddich de puro malte. Sim, ele estava na borda do jardim, deste lado, parado junto à cerca. Eu pensei, hesitou, olhando dentro do copo, achei que ele estava a olhar para a sua janela». In Diana Gabaldon, Nas Asas do Tempo, Casa das Letras, Leya, 2010, 2016, ISBN 978-972-461-974-3.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

Nas Asas do Tempo. Diana Gabaldon. «Os homens tendem a ser muito pitorescos quando se está tirando estilhaços do corpo deles. Com muito tacto, o sr. Bainbridge tentou desviar a conversa para o campo neutro…»

jdact

«(…) Revirei os olhos, pressentindo uma nova explosão de conhecimento, mas a sra. Baird sorriu cordialmente e encorajou-o, dizendo que era verdade, ela havia estado no norte e visto a pedra Dois Irmãos e isso era escandinavo, não era? Os escandinavos visitaram essa costa centenas de vezes entre 500 e 1300 d.C., aproximadamente, Frank disse, olhando sonhadoramente para o horizonte, vendo barcos normandos na nuvem varrida pelo vento. Vikings. E trouxeram muitos de seus mitos com eles. É um país bom para mitos. As coisas parecem criar raízes aqui. Nisso eu podia acreditar. O crepúsculo se aproximava, assim como uma tempestade. Na estranha luz sob as nuvens, até as casas totalmente modernas ao longo da rua pareciam tão antigas e sinistras quanto a desgastada pedra do povo picto que ficava a uns trinta metros de distância, guardando a encruzilhada que marcava há mil anos. Parecia uma boa noite para ficar em casa com as persianas fechadas. Ao invés de permanecer confortavelmente sentada na sala de visitas da sra. Baird, vendo imagens estereoscópicas de Perth Harbor, entretanto, Frank preferiu comparecer ao seu compromisso com o sr. Bainbridge, um tabelião com interesse em registros históricos locais, para tomar um xerez. Lembrando-me do encontro anterior que tivera com o sr. Bainbridge, resolvi permanecer em casa com Perth Harbor. Procure voltar antes da tempestade, disse a Frank, dando- lhe um beijo de despedida. E dê lembranças minhas ao sr. Bainbridge. Humm, sim. Sim, claro. Cuidadosamente evitando os meus olhos, Frank encolheu os ombros dentro do seu sobretudo e partiu, pegando num guarda-chuva do suporte junto à porta.
Fechei a porta quando ele saiu, mas deixei-a destrancada para que ele pudesse entrar ao voltar. Dirigi-me languidamente de volta à sala de visitas, reflectindo que Frank iria sem dúvida fingir que não tinha mulher. Uma farsa à qual o sr. Bainbridge se iria unir alegremente. Não que eu, particularmente, pudesse culpá- lo. No começo, tudo correra muito bem na nossa visita à casa do sr. Bainbridge na tarde do dia anterior. Eu me mostrara recatada, bem-educada, inteligente, mas modesta, elegante e discretamente vestida, tudo que a mulher perfeita do professor universitário deveria ser. Até o chá ser servido. Agora, virei a minha mão direita, examinando, com tristeza, a grande bolha que se estendia pela base dos quatro dedos. Afinal, não era culpa minha que o sr. Bainbridge, um viúvo, se contentasse com um bule barato de metal, ao invés de um bule adequado de louça. Nem que o tabelião, procurando ser gentil, tivesse me pedido para servir o chá. Nem que a luva da panela que ele me deu apresentasse uma parte gasta que permitiu que o cabo em brasa do bule entrasse em contacto directo com a minha mão quando o segurei.
Não, concluí. Deixar cair o bule foi uma reacção perfeitamente normal. Deixá-lo cair no colo do sr. Bainbridge foi apenas um infeliz acidente; tinha que deixá-lo cair em algum lugar. Foi a minha exclamação Pu… que pariu!, em voz mais alta do que o berro de dor do sr. Bainbridge que fez Frank olhar-me enfurecido por cima dos pãezinhos. Quando se recuperou do choque, o sr. Bainbridge mostrou-se muito gentil, examinando a minha mão e ignorando as tentativas de Frank de se desculpar pelo meu linguajar, alegando que eu servira num hospital de campanha por quase dois anos. Receio que a minha mulher acabou usando algum calão, há, expressões mais pitorescas dos ianques e de outros, Frank sugeriu com um sorriso nervoso. É verdade, disse, cerrando os dentes enquanto envolvia a minha mão com um guardanapo embebido em água. Os homens tendem a ser muito pitorescos quando se está tirando estilhaços do corpo deles. Com muito tacto, o sr. Bainbridge tentou desviar a conversa para o campo neutro da história dizendo que sempre se interessara pelas variações do que fora considerado discurso profano através dos tempos. Havia Gorblimey, por exemplo, uma corrupção recente da imprecação God blind me. Sim, é claro, disse Frank, aceitando de bom grado o desvio da conversa. Sem açúcar, obrigado, Claire. E quanto a Gadzooks? A parte Gad é perfeitamente clara, naturalmente vem de God, mas zook...
Bem, sabe, interpôs o tabelião, às vezes eu acho que possa ser uma corrupção de uma antiga palavra escocesa, na verdade, yeuk. Significa tentação, ânsia, desejo. Faria sentido, não? Frank concordou, balançando a cabeça e deixando o seu pouco erudito topete cair na frente da testa. Empurrou-o para trás automaticamente. Interessante. Toda a evolução do sacrilégio. Sim, e continua a acontecer, disse, pegando cuidadosamente num cubo de açúcar com a pinça. É mesmo?, disse o sr. Bainbridge. A senhora encontrou algumas variações importantes durante a sua experiência na guerra? Ah, sim, disse. A minha favorita aprendi-a com um ianque. Um homem chamado Williamson, de Nova York, eu acho. Ele a dizia todas as vezes  que mudava o curativo. E qual era? Jesus H. Roosevelt Cristo, disse, deixando o cubo de açúcar cair cuidadosamente no café de Frank». In Diana Gabaldon, Nas Asas do Tempo, Casa das Letras, Leya, 2010, 2016, ISBN 978-972-461-974-3.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Estou Nua e Agora? Francisco Salgueiro. «Era uma luz que vinha do céu. Era uma luz divina que estava a chamar a minha atenção. Eu pensava que a minha alma gémea chegaria até mim através de um néon mas, afinal…»

jdact

São Francisco
«(…) Bem perto de nós, uma impressora a laser começou a imprimir um papel. E logo de seguida outro. Deram-nos os papéis, onde em cada um estava um nome e uma morada. O nome no meu era Jongee. Ele seria a minha alma gémea. Uma alma gémea chamada Jongee? A sério?! O meu nome não era muito melhor, Meloncita, pequeno melão. Não, eu não sou baixinha nem gorda. Fica mesmo ao pé do nosso campo, disse a Jen, sabendo que este tipo de coisas me entusiasmava mais a mim do que a ela. Acedi aos folders da minha memória para me tentar lembrar de alguns dos nossos vizinhos. Quem seria o Jongee? Folder 1: barriga grande, bigode com mais 5 cms do que devia, nádegas à mostra. Folder 2: homem com ar de já ter sido mulher e que agora parecia um transexual. Folder 3: o homem que…
Delete. Delete. Delete. Apaguei todos os folders dos nossos vizinhos, porque só me lembrava dos repelentes. Um arrepio de frio percorreu o meu corpo. O que até nem foi mau, porque deu para refrescar. E se a minha alma gémea fosse repelente? Como seriam os nossos filhos? Igualmente repelentes mas mais pequenos? Desanimadas, fomos para a morada tentar descobrir quem era o Jongee. Vimos a tenda dele e vamos entrar, disse a Jen. Não. Claro que vamos. Não podemos entrar assim na tenda de estranhos. Aqui não se importam. Este foi o meu diálogo com a Jen durante uns minutos. Olá, disse uma rapariga, com longas tranças louras, que ao ouvir tanto barulho tinha ido ver o que se passava. Olá, disse de imediato a Jen. A minha amiga vem buscar a sua alma gémea. Ele chama-se Jongee e mora aqui. Ela olhou para mim durante uns segundos. Da cabeça aos pés. Sim, estava a avaliar-me. Apesar de nunca me ter apercebido possuir capacidades de adivinhar o futuro, sabia o que ela ia dizer de seguida. Que pena. Ele não está agora. Eu sou a Sela. Eu sabia! (exceptuando o nome dela). Eu devia tornar-me uma vidente e ir para Venice Beach ler o futuro dos turistas. O meu Jongee, o pai dos meus filhos, tinha-a mandado verificar se a alma gémea era do seu género. Se não fosse, ela devia dizer que ele não estava. Mas venham comigo ao Temple of Transition. Hã. O quê? Por esta é que eu não estava à espera. Ela estava a ser simpática e estava a convidar-nos para irmos a uma enorme estrutura de madeira onde as pessoas se iam despedir de amigos ou familiares que tinham morrido, ou de relações que tinham acabado. Umas deixavam lá fotografias, outras escreviam os nomes. Ah ha. Eu sabia. Era uma mensagem que ela me queria transmitir: a minha relação com a minha alma gémea tinha morrido. Damn you, Sela. Estás a mexer com o destino e vais ser punida por isso, pensei. Sorri e disse: claro. Vamos.
Quando comecei a ver o Temple of Transition à distância, senti que tinha sido transportada para Tatooine, na Guerra das Estrelas. A qualquer momento, esperava ver o Luke Skywalker aparecer no seu hovercraft Land Speeder. Era uma estrutura gigantesca de onde vinham várias pessoas com lágrimas ainda a escorrerem dos olhos. O vento continuava a não se cansar de soprar. Lá dentro, o templo respirava. Centenas de pessoas choravam com intensidade, enquanto reflectiam, olhando para as fotografias aí depositadas. Eu tenho dois problemas: quando alguém espirra, eu espirro. Quando alguém chora, eu choro. E foi o que fiz. E como a Jen é igual a mim, fez o mesmo. Começámos a chorar. Depois de sairmos do Temple, a Sela levou-nos ao mutant vehicle dela e de uns amigos. Hmmm…, se calhar a minha alma gémea não estava mesmo na tenda. Se calhar a Sela não era a testadora oficial do meu Jongee. Comecei a gostar dela. O mutant vehicle da Sela merecia estar no MoMA em Nova Iorque. Era um gigantesco galeão espanhol que navegava muito devagar pelo deserto. Lá em cima, estavam dezenas de amigos dela. Uns vestidos de pirata, outros de personagens de videojogos…, e…, e…, os meus pensamentos entraram em modo standby. Peguei na mão da Jen e apertei-a com tanta força que provavelmente lhe parti quatro ou cinco dedos. Uns três metros à minha frente, um raio de luz iluminava um homem. Era uma luz que vinha do céu. Era uma luz divina que estava a chamar a minha atenção. Eu pensava que a minha alma gémea chegaria até mim através de um néon mas, afinal, era através de uma luz transcendental. Oh my god! Oh my god!, disse a Jen, porque estava a olhar à volta e só via homens bonitos. Oh my god! Oh my god, disse eu. São lindos, não são? Não é isso. É ele. A minha alma gémea. Encontrei-o. O Jongee?
Tirei o iPhone do bolso. Abri o álbum de fotografias. Vê. A Jen arregalou tanto os olhos que poderiam ter caído das órbitas e disse: Oh my god. É ele. Sim, é ele. À minha frente, estava o homem com quem tirara fotografias em Reno. Tinha encontrado a minha alma gémea». In Francisco Salgueiro, Estou Nua e Agora?, Editora Oficina do Livro, 2014, ISBN 978-989-741-159-5.
                                                      
Cortesia EOLivro/JDACT

Estou Nua e Agora? Francisco Salgueiro. «Olhei para ela enquanto pensava no mesmo Isto não é nada romântico. A Bela Adormecida estava a dormir e a sua alma gémea é que a encontrou»

jdact

São Francisco
«(…) Depois de vários minutos de conversa, olhou para mim com ar muito sério. Não estás integrada aqui. Queres ir-te embora de ti mesma. Eu sinto. Estás tensa. Ele ajoelhou-se e começou a fazer um desenho na areia. Duas circunferências. Uma pequena e outra bastante maior. Ambas separadas por alguma distância. Aqui é onde tu estás. Esta é a tua zona de segurança, disse, fazendo uma seta que apontava para o círculo mais pequeno. Mas a verdadeira magia acontece aqui, disse, apontando para a circunferência maior. Aproveita a vida. Não sei se o que ele disse foi o que me levou a não procurar uma boleia para regressar mas, como já sabem, acabei por ficar. Demorei muito a convencer a Jen. Talvez tenha ajudado estarmos rodeadas por homens em tronco nu. Dos giros. Tivemos o cuidado de encontrar a única zona do Burning Man com Internet e enviámos um mail ao pai da Jen a dizer que tinha acontecido um imprevisto e que só conseguiríamos começar a trabalhar na semana seguinte, após o labor day. Agora sim. Ia aproveitar o Burning Man.
Ao regressar à nossa carrinha, passei por um theme camp chamado Ashram. Assim que soube quem era o organizador, todo o meu corpo começou a sorrir. Não um sorriso de sitcom, mas um sorriso de adolescente histérica. O organizador de campo era o Chris Weitz, realizador do filme Twilight, New Moon. Não se riam. É o meu guilty pleasure. A minha cabeça transformou-se num noticiário com um ticker na parte de baixo que apenas dizia: Breaking News: será que o Robert Pattison está aqui? Será que o Robert Pattison está aqui? Vou já estragar a surpresa. Não estava. Mas como na altura não sabia isso, fui de imediato buscar a Jen. Não foi bem de imediato porque me perdi várias vezes no meio daquela cidade gigantesca. Mas, para efeitos dramáticos, fui de imediato buscá-la e ficámos lá dentro durante horas. Nunca tinha visto nada assim. No meio do deserto, uma tenda gigante com vallet para as bicicletas, mobília, quartos de hotel e até um musical da Broadway. A partir daqui, e apesar de ter bebido pouco, a minha estada no Burning Man transformou-se numa osmose de dias. Os meus neurónios nunca tinham recebido tanta informação, e a realidade estava com delay de vários minutos, em fila, à espera para ser processada.
Fomos a workshops de dança do ventre; à Critical Tits, onde as mulheres em topless marchavam em protesto, reivindicando o direito de puderem andar nuas; ao Center of Attention Chair, onde nos sentávamos numa cadeira gigante com uma seta que dizia centro das atenções. Para além de esculturas fabulosas espalhadas pela playa, havia roupa decorativa e decorações à borla para as bicicletas. Eu e a Jen passámos o tempo todo vestidas com umas asas, calções branco muito curtinhos e meias de renda. A nossa realidade era saltar de veículo mutante em veículo mutante, danças de fogo, dias temáticos como o Socially Appropriate Menstruation Day e outras coisas estranhas que ainda hoje não compreendo para que serviam. Querem um exemplo? Buffalo Bill Contest, onde se tinha de fazer a dança do filme O Silêncio dos Inocentes. Lembram-se? O homem todo nu a fingir que era uma mulher? Pela primeira vez na vida senti-me livre. Ninguém sabia onde eu estava. Ninguém me podia contactar. Estava a reflectir, a experienciar e a sentir as coisas por mim. Até que…, encontrei a minha alma gémea. Aliás, duas almas gémeas.

Estava num theme Camp de dança chamado Distrikit, quando vi uma tenda com uma placa que dizia Costco Soulmate Trading Outlet. Levitei e bati palmas muito contente. Alma gémea, quem não quer encontrar a sua alma gémea? Entrei, olhei à volta e esperei encontrar de imediato a minha alma gémea. Imaginei que iria ver um sinal de néon a apontar para a cabeça dele, dizendo É esta a tua alma gémea. Mas como não estava em Las Vegas, não havia néones. É aqui que vou encontrar a minha alma gémea?, perguntei a um dos organizadores da tenda. Óbvio, respondeu-me com ar indignado. Preenche este questionário e depois vai até aquela mesa para seres entrevistada. É assim que vou encontrar a minha alma gémea? A preencher um papel como se estivesse a preencher o IRS?,  perguntou a Jen, indignada. Sim, ela estava comigo. Ela andava sempre atrás de mim para onde quer que eu fosse. Os nossos amigos estavam permanentemente bêbedos e ela tinha tido uma ressaca tão grande em Reno, que não queria ouvir falar em bebida durante seis ou sete séculos.
Olhei para ela enquanto pensava no mesmo Isto não é nada romântico. A Bela Adormecida estava a dormir e a sua alma gémea é que a encontrou. Ela não teve de preencher papeis! Um tipo chamado Train fez-me a entrevista e depois inseriu os dados num computador. Se era para fazer isto, podia ter usado o Match.com. Odeio encontros por computador disse a Jen, na mesa ao lado da minha. Não, disse o Train. Aqui, vocês vão encontrar a vossa alma gémea. Passado um bocado, disse que eu me chamava Meloncita, que esse era o meu nome espiritual. E o da Jen, Ginjita. Olhámos uma para a outra e rimos. Muito. Daqueles risos que podem provocar soluços. Yup, demasiado hippie para o nosso gosto». In Francisco Salgueiro, Estou Nua e Agora?, Editora Oficina do Livro, 2014, ISBN 978-989-741-159-5.
                                                      
Cortesia EOLivro/JDACT