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domingo, 26 de janeiro de 2014

O Mosteiro de Santo Tirso. De 978 a 1588. A silhueta de uma entidade projectada no chão de uma história milenária. «Assim, o destinatário dos livros não foi comendador Passos que, de bom grado, renunciaria àquilo de que ânsia nunca tivera. Antes a Biblioteca Municipal do Porto. Pois, no que toca aos prédios…»

Cortesia de wikipedia

Prefácio
«(…) Todo o mundo é minha pátria. Todo o homem é meu irmão. Mas só em ti, ó minha terra, melhor saboreei o genuíno afago do pátrio amor. Como nos conterrâneos meus melhor senti os dotes da progenitura do que em qualquer outra fraternidade a que doido me abraçasse!… Há coisas que sinto, mas que não entendo. E tanto sinto de ti quão assim pouco o sei expressar. No corpo com que me despeço, me fica a alma em teu regaço. Sê tu, pois, o berço da minha eterna felicidade.

Uma reflexão sobre as fontes. O destino dos bens de Santo Tirso, após a extinção
Encerrados os mosteiros, em 1834, foram os seus bens incorporados na Fazenda Nacional. Logo se seguiria a fixação dos destinos a que iriam ser sujeitos os valores de que as casas religiosas se compunham. O mosteiro de Santo Tirso, quanto às propriedades imobiliárias, foi dividido em duas partes: os prédios rústicos e os urbanos. Diviserunt sibi vestimenta meaOs primeiros foram vendidos, em 1839, ao cunhado do ministro Passos Manuel, o comendador José Pinto Soares, que Camilo tanto iria ridicularizar. Parece-me que sem exagero… Os edifícios, esses iriam ser repartidos em três fracções: a galeria reservada às repartições públicas do novel concelho de Santo Tirso; a igreja, o primeiro claustro e o dormitório próximo das escadas que conduziam ao Coro-alto, para a freguesia. O resto, os três claustros e galerias envolventes, afora pequenas secções que foram dadas à paróquia, destinar-se-ia a venda, que o mesmo comendador arremataria em 1842.
Quanto aos bens móveis, pratas, peças de mobiliário, dinheiros livros…, incorporados na Fazenda Nacional, é possível que muitas destas coisas viessem a ser postas a salvo e escondidas pelos frades, junto de pessoas de confiança. Prevendo o facto, a lei instituíra a figura jurídica do delator, espécie de cão, de faro bem apurado, que levantasse a lebre onde quer se descobrisse. Ora o cão dos bens de Santo Tirso veio de Moncorvo. Longe lhe cheirariam as joias dos nossos monges. E o Manuel José, assim se chamava o felino, levantou a lebre na Casa de Singeverga. Uns 50 ou 60 anos antes desta grande unidade de lavoura ter sido doada aos beneditinos. Não sei se as joias do extinto mosteiro de Santo Tirso estavam ou não escondidas. O facto é que a denúncia, só por si, parece supor relações de amizade entre esta casa de lavoura e os religiosos, o que era efectivamente verdade. Até porque um ex-beneditino, vítima da exclaustração, ficara exercendo a sua acção pastoral na freguesia de Roriz. E, com certeza, que o tal beneditino e, possivelmente, outros mais, estabeleceria laços de amizade com famílias de Roriz e doutras paróquias também. Dizia o caça-tesouros Manuel José ao Governo Civil do Porto:
  • Manoel José Alves de Moura, morador na freguesia de Móz Julgado de Moncorvo vem denunciar à Fazenda Nacional os seguintes bens que a mesma pertencem, com o protesto de haver em seo beneficio o que a Lei marca que são os seguintes; as joias e moveis ricos e alguns dinheiros do extincto Convento de Santo Thirso guardados pelo então Abbade do dito Convento Frei José do Espírito Santo (O homem andava mal informado da história, que só para o dinheiro tinha faro. O último abade de Santo Tirso fora Joaquim de Santa Rosa) achão-se guardados na Casa de Singeverga na freguesia de Roris do dito Julgado de Santo thirso…
Pois, no dito despacho poderia ler-se: recebido às onze horas do dia d’hoje: registese e proceda-se as deligencias ordenadas no Decreto de 10/I/1837. Porto 14 de Setembro de 1847. Conde de Penamacor. Quanto aos livros da biblioteca, e era rico o seu recheio!, estes foram para a Biblioteca Pública do Porto. E cedo… Temos a nota da despesa do transporte ao seu destino: 30 de Setembro 1835 Mosteiro de Santo Thirso. Por conducção da livraria para a Biblioteca Pública conforme a Conta, 5.300. Assim, o destinatário dos livros não foi comendador Passos que, de bom grado, renunciaria àquilo de que ânsia nunca tivera. Antes a Biblioteca Municipal do Porto. Pois, no que toca aos prédios, sabemos do jogo sujo dos políticos que tudo fizeram para canalizar, ao mais baixo preço, as quintas e a parte vendável do edifício conventual para as mãos do comendador Passos, o cunhado do ministro Passos Manuel. No referente a joias e dinheiro, sabemos da boca hiante do erário público que, à custa da igreja e, especialmente, dos pobres frades, gosta de saciar a fome do bandulho do seu despesismo insatisfeito. Do arquivo monástico ainda não veio ao meu conhecimento o paradeiro a que arribara. A não ser que, confundido o seu recheio com o da biblioteca, fossem também os códices e pergaminhos parar à dita Biblioteca Municipal do Porto, onde, de facto, ainda hoje, se encontram livros manuscritos e documentos do nosso mosteiro.

Os manuscritos
Em 10 de Agosto de 1789, suponho eu, numa carta dirigida ao abade Correia Serra, dirá João Pedro Ribeiro:
  • (...) todos os Cartorios de Lisboa não valem hum desta Provincia, porque precizando-se mais que tudo de Documentos anteriores á Monarchia, não he aqui que se hão de achar mas sim por estes sitios. O Cartorio do Cabido de Coimbra, Porto e Braga dos Mosteiros de S. Thirso, Pombeiro, Refoyos Arnoya; os Cistercienses em que Frei Joaquim trabalhou sabe Deus como; tudo offerece hum Campo vasto e que pede se lhe não tirem Obreiros. Estes, (e eu seria o mesmo), perdem-se em Lisboa, onde as diversoins alheiam de trabalhos fastidiosos».
In Francisco Carvalho Correia, O Mosteiro de Santo Tirso, de 978 a 1588, A silhueta de uma entidade projectada no chão de uma história milenária, Tese de doutoramento, Facultade de Xeografía e História, Universidade de Santiago de Compostela, Estudo, Santiago de Compostela, ISBN 978-849-887-038-1.

Cortesia da USdeCompostela/JDACT

O Mosteiro de Santo Tirso. De 978 a 1588. A silhueta de uma entidade projectada no chão de uma história milenária. «De qualquer forma, gotejam destas páginas suores de muitas canseiras, sonhos perdidos de noites brancas, sem luares, sem estrelas e sem idílios azuis de anjos. Apenas me aflora ao rosto o suor que do meu pai me coube de herdar…»

Cortesia de wikipedia

Prefácio
«(…) Sempre que um homem sonha, o mundo pula e avança, assim escrevera António Gedeão, na Pedra Filosofal Antes, o reafirmara o autor da Mensagem: Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Quando o homem tem o sonho por realidade, o homem cria a realidade do sonho!… Se a obra não nasce, não é porque Deus o não queira, mas só porque o homem não sonha. O homem sem ideal já o definiu o autor da Mensagem: Besta sadia, cadáver adiado que procria. Devia haver pena de morte para os sonhos que deixamos morrer…Abortá-los ou deixá-los silenciosos no eterno vazio das coisas que não são será crime que não merece a condolência do perdão misericordioso. Na sociedade consumista de hoje, impõe-se a tarefa evangélica da saída do semeador a semear a sua semente. Tantos terrenos votados ao vil abandono do menosprezo… É certo, o sonho é rio com água que flui. Mas uma que outra vez, com cachoeiras de raiva que tanto espumam!… Bem! Desde o sonho à realidade, a distância vai longe. E cansado e débil e de forças quase exausto, como náufrago em luta temerosa contra a maré, chega tantas vezes o sonho ao seu destino: - Nai, onde van os soños que se soñan ? - Os soños non vam, fillo. Os soños veñen da neboa como naufragos buscando Terra (Eva Veiga).
Há muitas décadas que este sonho, a monografia do mosteiro de Santo Tirso, me seduziu. Aos começos, como feto, no ventre materno, ainda informe, que, porém, já algo vaticina, sem que, todavia, tudo nos desvende. Que bom seria que a história surgisse, logo aos começos, acabada e perfeita. Que caísse do céu azul cristalizada como o maná do Deserto! Mas a história não se faz. Vai-se fazendo!… Também, e por outro lado, não gostava que fosse o maná. Se caísse já feita, apenas se nos exigiria o esforço momentâneo de a apanhar. Mas retirar-se-nos-ia o prazer de assistirmos ao seu crescimento. E mais: o prazer de saborearmos, com deleito redobrado, aquilo que é como a Eva do Éden paradisíaco: osso dos meus ossos, carne da minha carne. Com que prazer e carinho não afaga e amacia sobre o seio o seu bebé, uma e muitas vezes, a mãe que o transporta no paraíso terreal do seu ventre! E, depois que nasce, como acresce de beijos e carícias, em transportes de ternura, o seu filhinho, assistindo mimada ao seu crescimento. De qualquer forma, incontornável o princípio das limitações congénitas do ser humano. Mas não posso replicar como o mau administrador da parábola: Senhor, sabia que eras exigente, que recolhias onde não semeavas
Com certeza que, neste dia de contas, posso confessar que todos semearam. Que a semente foi boa. E, se bom fruto não houve, é porque o terreno poderia ter sido melhor. Sei das dificuldades, sei dos limites. Até porque nunca existiu, em história, a última palavra… Poderia citar tantos exemplos de últimas palavras que, no mecanismo inexorável da evolução dialéctica, se fizeram palavras apenas balbuciadas de uma timidez quase infantil. A confusão evangélica dos últimos com os primeiros… O homem, e seu produto, nasce, cresce, envelhece e morre. Se nada se cria e nada se perde, pelo menos tudo se transforma. Só uma coisa me seduzirá: a de fazer o melhor que sei. Quanto ao resto, nada me ilude. Os elogios não me estimulam mais que a minha vontade de fazer; as críticas outra coisa não são que meras varas sem o aguilhão que fira. Não mordem, que deixo caminho aberto e escancarado a que os outros façam melhor.
De qualquer forma, gotejam destas páginas suores de muitas canseiras, sonhos perdidos de noites brancas, sem luares, sem estrelas e sem idílios azuis de anjos com Deus. Apenas me aflora ao rosto o suor que do meu pai me coube de herdar, ele que, nos braços esforçados de um Laocoonte, ao solo arrancava os trepos retorcidos, donde, porém, iria recolher o pão amassado no suor do rosto, com que, em forma de milagre permanente, saciava a fome de seus filhos. Das gralhas que, apesar do meu esforço duro, impugnei, derrota antecipada foi a minha luta. A este propósito, de nada valerá a prece litânica, por mais que repetida, do Libera nos, Domine!…Por isso, e no que toca às remanescências dos piolhos que catei, as confio agora ao leitor que pacientemente as haja de expurgar. Tomo das páginas do fidalgo Francisco Manuel de Melo a recomendação oportuna: da infelicidade da composição, erros da escritura, e outras imperfeições da estampa, não há que dizervos: vós os vedes, vós os castigai». In Francisco Carvalho Correia, O Mosteiro de Santo Tirso, de 978 a 1588, A silhueta de uma entidade projectada no chão de uma história milenária, Tese de doutoramento, Facultade de Xeografía e História, Universidade de Santiago de Compostela, Estudo, Santiago de Compostela, ISBN 978-849-887-038-1.

Cortesia da USdeCompostela/JDACT

O Mosteiro de Santo Tirso. De 978 a 1588. A silhueta de uma entidade projectada no chão de uma história milenária. «Ao fim e ao cabo, a teia ficou terminada. Trabalho conclusivo de uns trinta anos de tão aturada quam paciente investigação. E à Universidade de S. Tiago as lágrimas saudosas que me hão-de irrigar os passos breves…»

Cortesia de wikipedia

Prefácio
«Se saudades me enlevam na velhice?!…, perguntas-me. Afora o aconchego rural dos meus pais, só os tempos distantes de Roma. Ó Roma eterna dos mártires e dos santos, paraíso perdido dos meus sonhos de criança!… Vago e etéreo ainda me revejo, tantas vezes, ora, pasta sob o braço, no átrio da Universidade; ora peregrino, na Praça de S. Pedro; ora contemplativo e extático no interior da Capela Sixtina; ora, no Coliseu, atento ao gesto último das Vestais, sobre o destino dos gladiadores vergados ao peso da derrota; ora devoto e encorajado nas sinuosas galerias das catacumbas dos teus mártires, ó Roma eterna…
Roma me gerou! E um cordão umbilical, que se me não cortaria, me prende, a cada instante, ao útero da loba capitolina, como papagaio de papel que a criança de dedos frágeis vai dominando. Um hiato que não dá para entender. Salto no escuro. De vê-la, nem por um canudo! Falta-lhe o mínimo de competência onde lhe sobeja o frenesi da ambição. Pobre Ícaro que do mais alto da subida no fundo do Oceano se houve de imergir!… Quanto a mim, sentir-me-ia a fazer a travessia do deserto. Nem o abraço de um junípero que do sol me defendesse. Na aspereza da viagem, prostrou-me o peso do cansaço, onde só uma coisa pedi aos céus. A súplica que lhe teria feito Elias: a morte. Só a morte, nada mais. E repetia-se, vezes sem conta. Sim, aparecerá, de quando em vez, o Anjo de Deus, com uma bilha de água e um pão de sob a cinza. Mas de dureza, pareceram-me anos e anos de viagem. Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados. Quantas vezes eu quis reunir os teus filhos como a galinha os pintainhos… E tu não quiseste. Fique deserta a tua casa… Quando acordo do pesadelo, vejo-me na Lusa Atenas. A Universidade, velhinha de séculos; o saber dos catedráticos, salpicado de um certo rigor que apreciei; a alegria esfusiante dos seus alunos, tão contagiante como o dedo materno apontado ao beiço da criança, que a desperta num leve sorriso; a camaradagem dos meus colegas, sempre disponíveis na ajuda a um pobre estudante trabalhador; a Sé Velha, onde, acarinhado pelo monsenhor João Evangelista, pernoitei; o fado da despedida que, desde há muito, e pela primeira vez, depois da morte dos meus pais, me fez chorar de saudade; o Quebra-costas e quantas correrias e saltos de agilidade, como cabrito montês em fuga desarvorada pela serra; Santa Cruz e sua comunidade que o Mata-Frades, apesar de perto, nunca soube compreender; a Rainha Santa e o regaço das suas rosas, o milagre permanente de um odor que me refresca a alma e o coração. Coimbra, tens sempre encanto. Mas nunca tão surpreendente como na hora mesma da despedida…
Por fim, S. Tiago de Compostela. Homenagem ao meu pároco: o acolhimento, no seu trono da Catedral, com lábios de sorriso complacente, que eu vi, com os meus
olhos que a terra há-de comer. O círculo da amizade de colegas e professores na Universidade redimiram-me do cansaço. Restauraram-se-me as forças, sentira-me novo, na recuperação maior de uma juventude que julgara para sempre perdida. Faz bem respirar estas auras primaveris! Casa grande é aquela onde cabem muitos amigos… O S. Tiago de Compostela! Ó ruas estreitas de peregrinos apinhados! Ó sagrado turíbulo que, mais que os corpos, perfumas as almas e os corações! A todos os meus professores e amigos, tantos, que fazem grande a sua casa, um adeus de saudade num peregrino que não perde a esperança de regresso. Pois, à cidade do Apóstolo, até depois da morte, possível se faz a retoma de uma visitação! Na hora da partida, pois, um muito obrigado: aos meus professores e aos meus colegas. Dos primeiros, que todos mereceram a minha estima e consideração, é compreensível se destaque quem, pela primeira vez, me acolheu, Lopez Alsina, e quem me orientou, Maria Luz Ríos Rodríguez. Aquele, me ciceroniou, nos primeiros passos e me confortou com a sua amizade; a segunda, nos últimos, quando dedicadamente e por dois anos a fio me ajudou na elaboração da tese e que, com muita exigência, me postularia quanto dar eu pude. Fique sob registo o testemunho da minha dedicação que bem lhe cabe. Se não fosse o seu ânimo, com certeza que só botaria figura de uma Penélope unifacial: dia e noite a fazer e a desfazer uma teia que nunca acabasse… Ao fim e ao cabo, a teia ficou terminada. Trabalho conclusivo de uns trinta anos de tão aturada quam paciente investigação. E à Universidade de S. Tiago as lágrimas saudosas que me hão-de irrigar os passos breves da vida que me restará». In Francisco Carvalho Correia, O Mosteiro de Santo Tirso, de 978 a 1588, A silhueta de uma entidade projectada no chão de uma história milenária, Tese de doutoramento, Facultade de Xeografía e História, Universidade de Santiago de Compostela, Estudo, Santiago de Compostela, ISBN 978-849-887-038-1.

Cortesia da USdeCompostela/JDACT

domingo, 20 de janeiro de 2013

Mosteiro dos Lóios. Igreja de São Salvador de Vilar de Frades. Barcelos. Areias de Vilar. «Arquitectura religiosa românica, de que conserva o primitivo portal. Pelo exterior subsistem outras reminiscências do templo medievo, nomeadamente uma torre rectangular de sabor defensivo e um pano de muro do antigo alçado frontal da igreja românica»


cortesia de wikipedia

«A Igreja de São Salvador de Vilar de Frades, também referida como Igreja de Vilar de Frades e Igreja do Mosteiro dos Lóios, localiza-se no sopé do monte Airó, junto à margem esquerda do rio Cávado, na freguesia de Areias de Vilar, concelho de Barcelos
Faz parte do complexo do convento da Congregação dos Cónegos Seculares de S. João Evangelista que aí estabeleceu a sua primeira casa-mãe, tendo sido, antes, um mosteiro beneditino. A sua arquitectura é notável, especialmente pelo abobadamento da igreja, principalmente na capela-mor e transepto, bem como pelo portal manuelino da fachada principal, ao lado do qual se encontra, na torre sul, um portal e uma janela de características românicas, construídos, contudo, já no século XIX com vestígios do mosteiro original. Encontra-se classificada como Monumento Nacional desde 1910.
A mais antiga referência ao mosteiro beneditino de Vilar de Frades data de 1509. Contudo, segundo frei Leão de São Tomás, teria existido uma carta do monge beneditino frei Drumário, escrita em 7 de Outubro de 571 que datava a fundação do mosteiro em 566, pela mão de São Martinho de Dume. Segundo Jorge de São Paulo, acreditando na existência dessa carta, o mosteiro seguiu a regra de São Bento desde essa data até 714, ano em que foi destruído devido às invasões muçulmanas, nada restando dessa fase da vida do convento. Teria sido reconstruído, segundo o mesmo autor, em 1070, mantendo-se sob a alçada da Ordem Beneditina até 1425. A reconstrução foi obra, sobretudo, de nobres locais, como Godinho Viegas, que pelo seu empenho na Reconquista Cristã, receberam os favores dos primeiros monarcas portugueses, como Sancho I, que deu a carta de couto ao mosteiro em 1172. Em 1104, Dona Gotinha, parente de Godinho Viegas, terá dado um novo estímulo ao convento, doando uma propriedade rústica da freguesia de Santiago de Encourados.
Em 1302, D. Beringeira Aires, herdeira e padroeira de outros conventos além deste, doou, a 12 de Agosto, o padroado e jurisdição que tinha sobre o mosteiro a Geraldo, bispo do Porto. Em 1400, passou a ser uma abadia secular, sob o padroado do arcebispo de Braga, Martinho Afonso Pires. Em 1425, finalmente, Fernando Guerra, arcebispo de Braga, passa o mosteiro para as mãos de Mestre João Vicente, futuro bispo de Lamego e Viseu. Este encontrou-o em bastante mau estado, mas reformou-o de forma exemplar, com o apoio que recebeu da Santa Sé e da diocese de Braga que anexaram 13 igrejas ao convento até 1510, depois de ter faltado apoio semelhante à nova congregação religiosa em outros locais. A congregação ainda teve o apoio de Vasco, em Évora, mas a oferta do mosteiro veio a mostrar-se decisiva. O Mestre terá encontrado o antigo mosteiro reduzido a umas pobres casas ou chóças, & huma pequena Igreja, tudo em tal estado que mais tinha de ruina, que de edifício. O Claustro servia, nessa altura, de corte de gado, as oficinas estavam arrasadas, a igreja servia de celeiro e adega. Os frades passaram a viver nas celas térreas e na igreja velha.


O apoio da Sé de Braga não foi constante. Ainda que a congregação se tenha instalado em Vilar com a concordância do cabido da Sé de Braga, que permitiu a anexação da Igreja do Mosteiro de São Bento da Várzea desde que os futuros reitores se submetessem à autoridade do arcebispo de Braga, ficando a confirmação da eleição dos mesmos, em Capítulo Geral, dependente da confirmação da Sé.
Os cónegos, contudo, desde cedo que manifestaram desejos de autonomia em relação a Braga, procurando apoio junto da corte régia, Afonso V de Portugal, junto do conde de Barcelos, do duque de Bragança e mesmo da Santa Sé. Esta última confirmaria o seu apoio à nova Ordem, durante o pontificado dos papas Martinho V e Eugénio IV, este último promoveu o mestre João Vicente a bispo de Lamego, além de ordenar que o convento ficasse sem dependência do arcebispo. Monsenhor José Augusto Ferreira chega mesmo a dizer que os Cónegos Azuis de Vilar fizeram-se vermelhos e enveredaram pelo caminho da ingratidão. A acção de Fernando da Guerra é, aliás, paradoxal neste conflito de interesses, já que continuou a anexar igrejas ao convento, ao mesmo tempo que tentava forçar os frades a reconhecerem a sua autoridade, o que conseguiu a 29 de Abril de 1461, ao confirmar o reitor João de Nazareth. Nos séculos seguintes, os reitores tentarão, de novo, o máximo de autonomia em relação ao arcebispado. Há que ter em conta que, tal como defende José Marques, a Ordem dos Lóios, ou cónegos seculares evangelistas, que se apresentava como uma comunidade de tipo novo, deve, sem dúvida, a sua existência e fundação ao apoio de Fernando Guerra, ao ceder as instalações do convento de S. Salvador de Vilar de Frades, até porque a congregação tinha tido problemas em instalar-se tanto em Lisboa como no Porto, recebendo apenas apoio em Braga.
Ao convento foram anexadas, ao longo da sua ocupação pelos Lóios, várias igrejas, a maioria das quais pela mão de Fernando Guerra, dando um poderio crescente à Ordem nesta região. Além da já citada igreja do Mosteiro de São Bento da Várzea, anexou ainda a Igreja de Santa Maria Madalena, de São João de Areias de Vilar, Santa Leocádia de Pedra Furada, Santa Maria de Moure, S. Jorge de Airó, São Martinho de Airó, São Vicente de Areias, São Pedro de Adães e Santiago de Encourados. O arcebispo Luís Pires fará ainda a anexação de Santa Maria de Góis, depois da renúncia do abade desta Igreja ao ingressar na Ordem dos Lóios.


A Igreja de São Martinho de Manhente, e convento, terá sido confiada pelo papa Nicolau V, através de uma bula de 1448, confirmada por uma bula posterior de 1450, tendo sido feita a tomada de posse em 1480, após confirmação também de Luís Pires. Com esta anexação, o reitor de Vilar de Frades passou a deter as prerrogativas do couto de Manhente, ou seja, capitão-mor, coudel-mor, repartidor das armas, alcaide-mor e ouvidor do cível, tendo a competência de nomear o juiz do couto. A Igreja de São Melião de Mariz foi anexada após um conjunto de peripécias: após a morte do abade desta igreja, os cónegos pediram a Jorge da Costa, que estava em Roma, para que anexasse também esta igreja ao seu convento. O cardeal, contudo, designou João dos Santos como abade desta igreja. Os cónegos, contudo, convenceram o novo abade a ingressar na congregação e a pedir a anexação da igreja ao seu convento. O papa Júlio II confirmará a anexação». In Wikipédia.

continua
Cortesia de Wikipédia/JDACT

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Museu do Traje. Viana do Castelo. «Este é o primeiro catálogo do espólio do Museu, que dá a conhecer a enorme riqueza e beleza das suas colecções, principalmente das peças de Traje, mas também de outros objectos que tanto contribuíram para divulgar a imagem do Traje à vianesa como verdadeiro símbolo da região e, por que não dizê-lo, de Portugal inteiro»



jdact

«Viana do Castelo é um concelho rico de tradições, mas também de amor e de dedicação ao que de mais genuíno tem. Por todo o concelho são muitos os que, de forma arreigada e anónima, se entregaram à preservação e divulgação das nossas tradições e do Traje à vianesa, com especial destaque de Amadeu Costa, Francisco Sampaio e das Comissões de Festas de Nossa Senhora d’Agonia.
O Museu do Traje traz ao público uma exposição que recorda o que de mais tradicional Viana do Castelo tem, reconhecendo a importância das nossas raízes culturais, do imaginário do fantástico do Alto Minho.
Muito devemos também, neste trabalho de preservação e divulgação pelo país e pelo mundo do Traje à vianesa da recolha, da autenticidade, do brilho e da alegria dos nossos grupos etnográficos e folclóricos.
Assim como o Museu, o Traje tem uma identidade própria sob formas diferentes de se apresentar e, nesta mostra, voltam a conhecer-se as formas de ser e estar dos vianenses através do estudo e divulgação da etnografia vianense. Muitos foram os que contribuíram, ao longo dos anos, com o seu estudo, pesquisa, recolha e trabalho para que esta exposição e catálogo fossem possíveis, com especial relevo para os contributos de António Medeiros, Benjamim Pereira e João Alpuim Botelho, com o livro ‘Traje à Vianesa, Uma Imagem da Nação’.
Este é o primeiro catálogo do espólio do Museu, que dá a conhecer a enorme riqueza e beleza das suas colecções, principalmente das peças de Traje, mas também de outros objectos que tanto contribuíram para divulgar a imagem do Traje à vianesa como verdadeiro símbolo da região e, por que não dizê-lo, de Portugal inteiro. O Traje usado pelas raparigas das aldeias ao redor de Viana do Castelo até meados do século XX, conhecido como traje à vianesa ou à lavradeira, tem um ousado colorido e uma enorme profusão de elementos decorativos que lhe conferem um aspecto exuberante. Estas características tornam-no único no panorama da indumentária popular em Portugal, sendo facilmente reconhecido e identificado com a região de origem. Esta foi a principal razão de o Traje se transformar num símbolo da identidade local.

Maria José Cerqueira trajada para uma actuação.
Menina com traje de lavradeira, 1927. Arquivo anavale.
Grupo folclorico de Carreço, 1938, ManuelFontes
jdact

A sua originalidade e riqueza plástica fizeram com que fosse, desde finais do século XIX, objecto de olhares atentos e de admiração de viajantes e estudiosos e também motivo de orgulho dos vianenses. O primeiro impacto do traje é de espanto pela sua beleza, mas não podemos esquecer que está integrado num contexto sócio cultural em que faz sentido: uma economia próxima da auto suficiência, que recorria a trabalhos recíprocos, colectivos e gratuitos, com uma forte carga lúdica e de sociabilidade integrada. Este contexto é uma chave fundamental para compreendermos este traje e o relacionarmos com o seu ambiente: muitas vezes a mesma rapariga que cultivou o linho (e criou as ovelhas que deram a lã), foi quem o fiou e teceu e depois executou as peças de roupa que tingiu e decorou com bordados e outras aplicações. E não seria raro que fosse essa mesma rapariga a usar o traje, adaptando-o aos ritmos e momentos da vida rural de trabalho quotidiano, dos momentos de descanso, nomeadamente o dominical, e de festa, onde a rapariga se mostra orgulhosamente no seu esplendor.
Foi neste contexto que o traje evoluiu e desenvolveu as características que o individualizam e é por esta razão que é entendido como um espelho de um modo de vida tradicional e da identidade alto minhota. Desde que o traje começou a desaparecer do uso quotidiano, ao longo do século XX, eruditos e autoridades locais e nacionais criaram e apoiaram diversas práticas performativas para o manter: grupos folclóricos, recriações de ambientes tradicionais, concursos, exposições, festivais, etc.

Lavradeira de Afife em dia de festa, 1909, JoaodeAzevedo
jdact

Foi neste âmbito que se desenvolveu em Viana do Castelo o desejo de um Museu dedicado ao traje que encontramos desde os anos 1920 e que só em 1997 se realizou. O traje é o mais relevante e reconhecido elemento da cultura alto minhota, por isso a designação de Museu do Traje homenageia-o como símbolo de identidade, mas não esquece todo o seu enquadramento sócio cultural na vida rural tradicional, bem como a sua projecção nos nossos dias e as pistas que permitem pensar o seu futuro.
Este primeiro catálogo do Museu do Traje de Viana do Castelo mostra uma parte significativa do acervo e procura contribuir para uma definição do que é este traje, qual o seu percurso desde o tempo em que era usado quotidianamente até aos nossos dias e dos novos significados que ganhou». In Museu do Traje de Viana do Castelo, Câmara Municipal de Viana do Castelo, 2010, ISBN 978-972-588-221-4.

A amizade da Isabel e António
Cortesia da CM de Viana do Castelo/JDACT

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Poesia. Versos Fora de Moda. Acácio Matias. «A originalidade, excepto nos espíritos de raríssima capacidade, de modo nenhum é, como alguns supõem, assunto de instinto ou de intuição. Em geral, para encontrá-la, é preciso procurá-la laboriosamente…»

Cortesia de wikipedia

Metafórico
Por encosta relvosa de esmeralda
desliza um regato d’águas de prata;
para o céu de safira ergue grinalda
de flores, a natura doce e grata.

Pastora loira, cabeça de sol,
guarda níveos cordeiros, bons anjitos;
solta trinos d’argento um rouxinol,
p’lo ar, em grãos d’oiro zunem mosquitos.

Já no mar em sangue se apaga o sol.
Enche o ar perfume de mil flores
e a noite estende seu ‘scuro lençol.

Neste paraíso doce, terreno,
meu ser se evola em cânticos d’amores.
Cintilam estrelas no céu sereno…

Soneto de Acácio Matias, in ‘Versos Fora de Moda’, Ponte de Lima, 1944.
JDACT

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O Livro de Cale. Carlos Cordeiro: Parte 6. «Com efeito, não tardou a penetrar num cenário de completa desolação. A casa jazia em ruínas, sem vivalma em redor, e os escombros calcinados faziam adivinhar o horror do acontecimento. Apenas a capela havia sido poupada. Foi aí que Bernardo reconheceu a campa de seu pai»

Cortesia de peuropaamerica

Reatar de paixões, prenúncios de Soberania
«Rompia a noite na morada dos Maia. Bernardo convertera-se em arauto das suas histórias dos últimos anos, mas sobretudo dos acontecimentos da presente jornada, junto dos dois irmãos. Pela madrugada, ainda não parecia ter desfecho a narração da epopeia do Mendes, desde a sua entrada em Vallado até ao presente regresso a Portucale. A descrição do épico deixara os Maia particularmente excitados com o turbilhão de novas e, simultaneamente, exaustos, quando os primeiros raios de sol já penetravam no vasto salão da casa. Foi nessa altura que todos soçobraram. Só pela tarde, o colóquio entre Bernardo e os Maia seria reatado.
Tendo novamente o amplo salão como palco, Soeiro pôs Bernardo ao corrente dos funestos acontecimentos de Ferreira, que teriam como epílogo a morte de Hugo e dos seus sobrinhos. Elucidou-o, também, sobre as desventuras da estalagem de Mofatra e sobre o desaparecimento de Beatriz. Por fim, mencionaria um nome que deixou Bernardo tolo de ansiedade: Mafalda.
Segundo constava, a filha do abade estava prometida a um fidalgo portucalense de Rate, originário, todavia, de uma família galega. Soeiro afirmaria, comentando o facto, que o interesse de Mendes Pais nessa relação, privilegiava a intenção de recuperar o fundamento que, definitivamente, lhe outorgasse a posse das terras de Ferreira e, depois, dos territórios de Portucale. Era esse, segundo o Maia, o objectivo particular do abade, suspeito de ter sido o mentor do ataque à mansão dos Mendes e da morte dos familiares de Bernardo. Este, no final da exposição, revelava uma inquietação notória, adivinhando estar, uma vez mais, sob a ameaça dos pérfidos propósitos do vil abade.
Cortesia de wikipedia

Apesar de perturbado, Bernardo aproveitou aquela situação para esclarecer, junto dos Maia, a razão particular do seu regresso a Portucale. Assim que pormenorizou o facto de Afonso VI pretender nomear um governador para Portucale, a satisfação dos dois irmãos sobreveio, ávidos de decisão sobre o problema de administração no território. O regresso de Bemardo, tal como um Messias cuja manifestação é continuamente adiada, voltava a encher de júbilo os anseios dos Maia e de muitos barões e infanções portucalenses que porfiavam há muito alcançar a autonomia para o território entre Douro e Minho.
Por tal, no dia seguinte, seria a caminho das diversas casas senhoriais que partiriam emissários, no intuito de convocarem os representantes dos notáveis para uma reunião magna, a ter lugar daí a uma semana, tendo Soeiro e Gonçalo por anfitriões e Bernardo como representante do monarca de Leão e Castela. Entretanto, o hiato daria tempo ao monge para recuperar da terrível jornada e ainda para se deslocar a Ferreira.
Contudo, nesse dia, Bernardo ainda seria surpreendido pela apresentação das recatadas mulheres dos seus companheiros de infância, Gotronde, mulher de Soeiro, e Leonor, esposa de Gonçalo, cuja existência o monge estava longe de imaginar. Muito havia mudado.
Mas era Ferreira que inspirava o destino próximo do monge. Foi para aí que se dirigiu, quando a manhã ainda não deixara o sol agigantar-se no céu. Talvez por isso, uma displicência do seu auspicioso guia geográfico, Bernardo parecia algo desorientado, cumprindo o trajecto para casa do tio, amargurado e quase indiferente, que nem a renovada e fogosa pressa de ‘Lucus’, já recuperado dos ferimentos, aliviou.

Cortesia de wikipedia

Com efeito, não tardou a penetrar num cenário de completa desolação. A casa jazia em ruínas, sem vivalma em redor, e os escombros calcinados faziam adivinhar o horror do acontecimento. Apenas a capela havia sido poupada. Foi aí que Bernardo reconheceu a campa de seu pai, Nuno, agora acompanhada pelas dos seus irmãos. Estas últimas, bem como a do tio, ali perto, tinham sido obra dos Maia. Perante o cenário que o afligia, Bernardo orou, compadecido, e penitenciou-se por não ter estado presente naquela funesta ocasião.
Contudo, prenhe de recordações contraditórias da sua vida de luxúria, das intervenções de Hugo e do momento que o levou ao exílio em Vallado, entrecortadas por uma infinidade de sentimentos confusos, o pensamento de Bernardo explodiu de dúvidas, mortificando-se, até que, exausto, o monge decidiu abandonar o lugar, afastando-se a galope.
Escassas léguas bastaram para diluir o turbilhão de apreensões que o mortificavam, mas que, lentamente, iam sendo substituídas por uma só inquietação: rever Mafalda! De tal forma que, a meio do percurso de regresso à Maia, Bernardo deteve a montada. Algo indefinido, porém estranhamente perceptível, persuadia-o a alterar o trajecto, levando-o a recuar no tempo, até aos seus passeios eremitas pelos penedos do Alvão ou pelas fragas do Marão. No entanto, a solicitação parecia encaminhá-lo para sul, para o Douro. Seria novamente a natureza a exigir o regresso dele aos seus tempos de moço ou outro desígnio insondável?
Para se sossegar, escolheu a hipótese mais simples. Aliás, a reminiscência da sua juventude era muito forte, ao ponto de lhe tolher alternativas que não passassem por trepar a uma qualquer falésia, de onde o Douro pudesse ser facilmente cortejado.
Preparado para reviver a época em que era companheiro da natureza, Bernardo galgou os últimos granitos que o separavam da paisagem do rio Douro não sem antes notar que, ao longe, se avistava outro cavaleiro, que, rapidamente, desapareceu, porventura com um destino diferente.
Mas a torrente de água, em baixo, lenta, porém portentosa, a acariciar as margens ainda pintadas de verde, revelava-se mais insinuante, ao perder-se entre as curvas do rio. Foi para lá que Bernardo apurou o olhar, buscando pormenores, percorrendo com a vista cada degrau da encosta. Até que os seus olhos vislumbraram um grupo de indivíduos, camuflados entre a parca vegetação de um outeiro próximo. Ocultavam-se, parecendo montar uma emboscada a uma comitiva pouco numerosa que subia a elevação. Para o monge, que pretendia partilhar a serenidade das suas memórias durienses, o intuito gorava-se, perante a expectativa de um confronto. Indolente com a paisagem, Bernardo quis ignorar a iminência do ataque e das respectivas consequências, mas, do céu, a planar com uma tranquilidade pícara, a silhueta de uma águia, evoluindo em voos concêntricos sobre um penhasco sobranceiro ao rio, arrebatou-o da dormência para a suposição: estaria a ave de rapina, outra vez, a alertá-lo e a instigá-lo a agir? Nada como devassar o destino, intervindo, concluiu sem reservas». In Carlos Cordeiro, O Livro de Cale, Publicações Europa-América 2010, edição nº 103583/9344, A Fábrica das Letras, ISBN 978-972-1-06140-8.

Cortesia de Publicações Europa-América/JDACT

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O Livro de Cale. Carlos Cordeiro: Parte 4. «Bernardo contornou a casa, tentando ver se se tratava de um local seguro. Pretendia deixar “Lucus” na cavalariça. Deteve-se junto de uma abertura, ladeada por dois pilares de madeira. Entrou num telheiro, apeou-se e amarrou o cavalo a uma trave. Alguns movimentos e relinchos abafados fizeram-no olhar para as outras montadas, apenas percebidas como silhuetas de corcéis árabes»

Cortesia de peuropaamerica

Recontro em Mofatra
«O céu descobrira-se momentaneamente, deixando o luar incidir numa velha ponte romana, aparentemente reconstruída havia pouco. A claridade do lugarejo tornara-se mais forte, à medida que “Lucus” se aproximava. Entre as raras tochas acesas, destacava-se uma no que parecia uma habitação antiga, mas sólida. Foi para lá que Bernardo voltou a montada, afagando-lhe o dorso, na tentativa de o acalmar e de aliviar a sua dor. Porém, os afagos não lhe revelaram a ferida que rompia o bojo do cavalo.
O monge também estava ferido. Sentia agora a dor. Talvez as ramagens ou as rédeas o tivessem fustigado. Todavia, os cortes eram demasiado finos e perfeitos, como que infligidos por gumes afiados. Contudo, a chuva, que, entretanto, voltara a cair e que lhe escorria pelo corpo, aliviava-lhe o sofrimento.
Cautelosamente, Bernardo aproximou-se da aldeia. Com excepção de uma ou outra tocha, onde bruxuleavam ténues chamas, pouco mais estava iluminado do que uns passos em redor. Sossego, a não ser uma vozearia de chusma, abafada e indefinível, que envolvia o ambiente. Devagar, mas com firmeza, as patas de “Lucus” iam esmagando, com um bater surdo e ritmado, os dejectos que se arrastavam na rua principal.

Atento, Bernardo procurava a origem da assuada. Prosseguiu, acalmando o cavalo que continuava a dar mostras de cansaço e dor. O barulho tornava-se mais audível, à medida que “Lucus” se aproximava da mansão. Bernardo já sonhava descansar, abrigado. Pouco chovia.

Cortesia de wikipedia

«Estalagem», lia-se numa tabuleta que balouçava, fustigada pelo vento. A velha tabuleta, que parecia não se aguentar ali por muito mais tempo, abanava com um ruído lúgubre. Sendo pobre, a casa era uma das maiores e melhores do lugar. O granito que, apesar de antigo, parecia firme, sustentava um telhado de madeira alto e largo, que cobria os dois andares, sendo o último, mais recuado.

Bernardo contornou a casa, tentando ver se se tratava de um local seguro. Pretendia deixar “Lucus” na cavalariça. Deteve-se junto de uma abertura, ladeada por dois pilares de madeira. Entrou num telheiro, apeou-se e amarrou o cavalo a uma trave. Alguns movimentos e relinchos abafados fizeram-no olhar para as outras montadas, apenas percebidas como silhuetas de corcéis árabes. Com movimentos demorados e rigorosos, Bernardo tirou as luvas, sacudiu a capa, pegou no bornal e olhou novamente na direcção dos relinchos. Os animais estavam agitados e fatigados.
Surgindo do nada, ao lado de Bernardo, uma voz grave e rouca vociferou:
- Quem está aí? Mostrai-vos ou a vossa vida termina agora!
O monge voltou-se e respondeu, para sossegar o homem:
- Nada receeis! É gente de Deus!
De súbito, uma ponta de lança gelou-lhe o pescoço, apertando-lhe a jugular.
- De que duvidais? - atirou Bernardo, seca mas prudentemente, olhando o homem pelo canto do olho, identificando-lhe o físico e possível ameaça.
Fernando, homem atarracado e corpulento, mostrou-se. Lento e pesadão, mas com um olhar vivo na face bochechuda, insistiu:
- Esta noite não é de boa jornada e quem dela surge ou é salteador ou assaltado!
-Tendes razão, homem de Deus! Quem é quem, agora? - perguntou ironicamente Bernardo, a avaliar a postura do oponente.

Cortesia de wikipedia

O estalajadeiro ficou confuso. Mudou de lugar, tentando garantir uma melhor posição de ataque. Bernardo perdeu a esperança de convencer o homem e deitou as mãos à lança. Atónito, Fernando viu-se sem poder atacar, ao verificar que a lança se havia ancorado no poderoso braço de Bernardo. Este olhava-o nos olhos, ao mesmo tempo que lhe encostava a espada ao pescoço. Fernando debateu-se, por instantes. Depois, arregalou os olhos e franziu a testa, estupefacto, ao identificar o cunho da espada do oponente.
Com a voz tolhida, esforçou-se:
- Senh... Senhor! Desculpai-me... pelo santo nome de Deus - desculpou-se, ainda gago de temor. - Não vos reconheci o prestígio na figura. Castigai-me ou desculpai-me, senhor de...

-Nem mais uma palavra! Calai-vos, pois não quero o meu nome pronunciado nem a minha presença assinalada - disse-lhe Bernardo, agastado, libertando lentamente o homem, surpreendido, também, por ter sido reconhecido tão rapidamente.
Fernando afastou-se, deferente. Encostou a lança à parede e olhou cabisbaixo para Bernardo, que exigiu, peremptório:
- O vosso nome! Que sabeis de mim?
- Fernando… nobre senhor - hesitou o estalajadeiro. – Fernando Dias, tal como meu pai... honrado por ter combatido ao lado do conde Nuno. A minha consideração a quem conserva o seu cunho...
- Estou elucidado, Fernando! A minha saudação a quem descende de tão digno companheiro de meu pai - respondeu Bernardo para, depois, reclamar um aposento ao estalajadeiro.
(…)
Fernando não conseguiu terminar a frase. Com um estrondo grave e forte, um corpo embateu no chão e rebolou contra a parede. Meio atordoado pela queda e ainda lívido, um homem apessoado, bem constituído e ricamente vestido ficou atónito, ao olhar para as duas figuras que o encaravam. Tentou articular algumas palavras, mas soltou apenas vagos lamentos». In Carlos Cordeiro, O Livro de Cale, Publicações Europa-América 2010, edição nº 103583/9344, A Fábrica das Letras, ISBN 978-972-1-06140-8.

Cortesia de Publicações Europa-América/JDACT

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Poesia. Silva Araújo: Raízes. «São para ti, meu anjo guardador, os versos que me dita a inspiração. São para ti, ó roseirinha em flor, de que eu, por amor, sou um botão»

Cortesia de silvaaraujo

Mensageira
Avezinha mansa,
tu por onde andaste?
Conta-me o que viste,
mostra o que encontraste.

Tu que corres mundo
célere, veloz,
e que depois voltas
para ao pé de nós,

mostra-me o que viste,
conta o que escutaste
pelas longas terras
lá por onde andaste.

Bate tuas asas,
apressa teus passos.
Vai à minha mãe
e cobre-a de abraços.

Diz-lhe que lhos manda
o seu filho, eu,
que longe de casa
nunca a esqueceu.

Depois volta cá
fazer-me carinhos,
pois ela por certo
vai mandar beijinhos.


Meu anjo
São para ti, meu anjo guardador,
os versos que me dita a inspiração.
São para ti, ó roseirinha em flor,
de que eu, por amor, sou um botão.

Eles encerram o profundo amor
que a ti dedica o meu coração.
'Scritos num misto de alegria e dor,
mostram afecto e dedicação.

Quando te escrevo, mãe, neste momento
quisera, mais veloz até que o vento,
transpor de um salto todo este espaço.

Mas só, meu bem, com a imaginação
posso apertar-te junto ao coração
e dar-te um terno, carinhoso abraço.
Poemas de Silva Araújo, in «Raízes»
(1955-56)

JDACT

terça-feira, 5 de julho de 2011

O Livro de Cale. Carlos Cordeiro: Parte 3. «A borrasca, conforme surgiu, assim se extinguiu. Mas, o cenário traduzia o estado caótico do solo e da flora. De onde estava, Bernardo apenas conseguia vislumbrar uma débil luminosidade, ao longe, no vale. Montou Lucus e afastou-se do pesadelo»

Cortesia de guardadorderebenhos

Floresta de Sobressalto
Parte 3
«Porém, alheou-se rapidamente da ideia, ao escutar por perto o silvo de um apetrecho, que rompia o ar, na sua direcção. Esquivou-se ao acaso. Lucus relinchou de esforço e de dor. A nova investida, Bernardo respondeu de imediato.Tentou apoderar-se da arma uma e ourtra vez. Em vão. À sua direita, era, então, mais notória, a presença de outros cavaleiros. Escapou-se de um ramo, desviou-se de arbustos, evitou um calhau. Protegeu-se da chuva, puxando a capa para o rosto. Não sossegou. Segurando-se a Lucus com todas as suas forças, espevitou-o até à exaustão, sentindo o esforço do animal. Subitamente, sentiu o crucifixo balançar no seu peito, animando-lhe a memória. Pegou nele de imediato e puxou-o para si, fazendo-o soltar-se do fio. Olhou de soslaio, ergueu o braço e arremessou-o com ganas na direcção dos perseguidores...
Pareceu eterno aquele momento suspenso e, no instante seguinte, após uma explosão, uma aura de energia com impressionante ardência envolveu e asfixiou tudo em seu redor. As coisas perderam forma, imiscuindo-se num espaço indistinto. Sem saber onde estava, Bemardo, mesmo cego de esforço, revoluteou a montada, ao encontro dos oponentes. O alarde da refrega tornou-se confuso.

Cortesia de arautos

De forma lenta, mas precisa, o monge levou a mão à espada. O tempo abrandara, o espaço parecia exíguo, tudo se envolvia num sono sem sonho que tardava em passar. Apenas o olhar de Bernardo, louco de temor e pleno de fúria, se cravara em todas as direcções, procurando pontos de referência.Tudo à volta era confuso e baço. Um vazio sagrado abafara as presenças demoníacas que, imperceptíveis, soltaram queixumes de agonia, parecendo afastar-se precipitadamente. Longe, os espectros desapareciam num declive. Pouco depois, a chuva regressaria, impiedosa e torrencial.
Bernardo recuperou lentamente a serenidade, tentando perceber o quê ou quem o haúa provocado com tanto fulgor e de forma tão singuIar e, talvez, fantástica. Ao guardar a espada, perguntou-se de onde viriam as faúhas que o haviam perseguido durante o frenético galope e se não teria visto qualquer objecto metálico por perto... Indagou-se, mas não teve resposta. Voltou a cobrir o corpo com a capa, protegendo-o da tempestade, ao mesmo tempo que levava a mão ao peito, tentando inquirir a alma, qual guia místico. Mas não obteve qualquer resposta nem indício inteligível. Ainda duvidava da realidade.Tentou reconhecer um ínfimo pormenor, que denunciasse os infernais agressores, mas não recordava mais do que silhuetas fluidas e mórbidas. Porém, que semelhança assustadora com a sua própria imagem. Inquietava-se. «Porquê figuras tão obscuras e sinistras? Porgue não vira o cintilar de uma lâmina?», perguntava- se.
Tocou no seu corpo. Não tinha feridas, mas faltava-lhe algo no peito. O medalhão, a dádiva de Henrique, tinha desaparecido. Contudo, o crucifixo, ofertado por Orlando, havia cumprido a sua missão. O seu efeito, porém, apenas seria verificado, quando Bernardo, ao tentar orientar-se, fez Lucus recuar e deparou com três cadáveres, meio ocultos por arbustos perto de uma vala.

Cortesia de europaamerica

Com um misto de espanto e horror, descortinou os corpos despedaçados, mercê da deflagração provocada pelo objecto que lhes havia arremessado. Percebeu então que o risco que correra tinha sido real. Apesar de se assemelharem a sombras ou espectros, os agressores eram, na verdade, homens de carne e osso. Se, antes, a fúria dos elementos lhe havia sugerido estar sob um prenúncio espiritual, agora, perante aquele testemunho, sabia que o ódio profano dos homens também lhe enredava o destino.
Pelas vestes, os cadáveres seriam cristãos. Entre o dever de enterrar os corpos e o ressentimento que dele se apossava, o monge optou por confiar os corpos à sua morada eterna e encomendar as almas a Deus. Porém, os elementos revelaram-se adversos e mostraram toda a sua repulsa através de um dilúvio que se abateu, novamente, sobre o lugar. Com uma fúria insana , a força da torrente de água impeliu os corpos outeiro abaixo, exigindo a Bernardo toda a sua força e destreza para não ser também arrastado.
A borrasca, conforme surgiu, assim se extinguiu. Mas, o cenário traduzia o estado caótico do solo e da flora. De onde estava, Bernardo apenas conseguia vislumbrar uma débil luminosidade, ao longe, no vale.
Montou Lucus e afastou-se do pesadelo». In Carlos Cordeiro, O Livro de Cale, Publicações Europa-América 2010, edição nº 103583/9344.

Cortesia de Publicações Europa-América/JDACT

quinta-feira, 16 de junho de 2011

O Livro de Cale. Carlos Cordeiro: Parte 2. «A proximidade de outras criaturas revelava-se autêntica. Sentiu um aperto no coração. Um temor desmedido apoderou-se de si, ante as aparentes investidas dos vultos. Porém, apenas de sombras se tratava. O suor misturou-se com os veios de água da chuva que lhe escorriam pelo corpo. Não havia descanso no difícil ensejo de escapar»

Cortesia de guardadorderebenhos

Floresta de Sobressalto
Parte 2
«No bosque, «Lucus» abrandou o galope. O tempo húmido passara a aguacento. Escurecia. Embrenhando-se entre os primeiros carvalhos, Bernardo pressentiu a mudança de uma forma algo estranha. Além da escuridão, fortes rajadas de vento, que estranhamente soprava na vertical, começaram a fustigar o monge e a confundir a orientação de «Lucus», empurrando cavalo e cavaleiro para o solo. A ventania ateimava no restolho, deixando no ar novelos de pequenas folhas secas.
Por instantes, Bernardo estremeceu. Entre a teia de folhas, pareceu-lhe ver, diante de si, a imagem de Mendes Pais, qual Eolo enfurecido e com propósitos ferinos. Porém, logo após, o vento cessou, por obra das copas das árvores que, ardilosas, se fechavam devagar protegendo o espaço sob si. Tudo pareceu parar, num ambiente manso e claro. Mas a bonança acanhou-se, perante uma bátega torrencial, que picou, cruel, por entre as folhas das árvores. Teimava em cair, forte e espessa. O solo inundou-se, enlameando a pista sob os cascos de «Lucus». E a figura do hediondo abade persistia aos olhos de Bernardo, assumindo raias de diabólica provocação.
Porém, de um momento para o outro, a torrente de água amainou por intervenção das folhas das árvores. Alongadas, qual tecto protector natural, passaram a cobrir o espaço em redor de Bernardo e da montada. O ambiente aquietou-se, cedendo apenas ao calcar ruidoso das patas de «Lucus». Com a mudança, já não era a efígie do sátrapa galego que aparecia ao monge, mas uma imagem cândida, porém prisioneira, de Mafalda, a emanar harmonia e serenidade no meio circundante.

Cortesia de europaamerica

Contudo, o repto sobrenatural pesava sobre os magoados ombros do monge, agora sob a forma de um granizo dolorosamente medonho. Dir-se-ia que a abóbada celeste se havia desmoronado, estilhaçando-se no bosque com o fito voraz de massacrar os homens e a natureza. Mas, uma vez mais, o sortilégio, divino, diria Bernardo, fez os ramos das árvores distenderem-se à passagem do cavaleiro, proporcionando-lhe, de novo, uma aura protectora e benfazeja.
Furioso e interminável, o combate entre os elementos, personificado por aquelas duas criaturas de relação tão próxima e carácter tão diverso, Mafalda e Mendes Pais, parecia uma imagem do eterno combate entre o Bem e o Mal, mediado, ainda assim, com êxito, pela intervenção divina. Se o domínio do Inferno constrangia os elementos atmosféricos, encontrava, porém, na flora, um adversário à altura, capaz de deter os assaltos insanos do mundo das trevas.
«Tréguas», suplicara aos poderes sagrados quando a desordem atingira o auge. «Outra prova? Estarei sob nova exigência que me engana? Porquê?» Bernardo não encontrava explicação plausível. Perdido na demanda, optou por se refugiar no aconchego dos seus credos, em busca de soberana protecção espiritual.
Pouco depois, o ambiente sublime aquietou-se. Apenas algumas gotículas de água salpicavam o ar, à passagem do cavaleiro. O céu desanuviara e era agora claro entre o rendilhado da vegetação. Porém, a bonança era passageira.

Cortesia de arautos

Mais à frente, Bernardo apressou a montada entre líquenes e arbustos frágeis, ao frágil abrigo do dédalo arbóreo. Começou a chover. Daí a pouco, chovia intensamente, de tal forma que ocultava a claridade celeste. O bosque era tão cerrado que parecia engolir a vida. Ali perto, raros movimentos indefiníveis roçavam os troncos. «Lucus» passou a trepar, num trilho pedregoso, através de penedos graníticos. Os breves raios de luz, que se esgueiravam entre as árvores, confundiam-se com vultos sinistros, que pareciam agitar-se, como silhuetas gigantes entre uma cortina de chuva persistente. Um relâmpago, logo seguido do ribombar do trovão, acusou sombras dúbias e sinistras. Longínquas, naquele momento, todavia, cada vez mais próximas.
Bernardo quis atribuir-lhes identidades, mas mais não fez do que sobressaltar-se com a proximidade do cenário fantasmagórico, que crescia, ameaçador. Incitou a montada a imiscuir-se no arvoredo mais denso e escuro mas não logrou afastar de si a sensação de estar a ser perseguido. Voltou a apressar «Lucus». Uma vez e outra, enquanto o tropel do animal e a pressão do ar se tornavam violentos. Confundidas nas teias da vegetação, pareciam surgir formas humanas, contudo, de aparência animalesca.

Chovia copiosamente. À medida que a velocidade do cavalo aumentava, Bernardo chamava a si toda a destreza para dominar a montada. O torpor confundia-lhe o discernimento e tolhia-lhe os movimentos. Continuou, buscando repetidamente em redor. Figuras larvares pareciam querer subjugá-lo. Aparentemente talhe de cavaleiros, de silhueta sinistra, montados em não sanhudas feras. Alarmado, Bernardo grudou-se à montada. Soltou uma mão da rédea e procurou a espada, porém, sem sucesso. Na fuga, o estrépito das patas do cavalo sobre o restolho tornara-se feroz, o ruído do tropel ensurdecedor, o cenário medonho, impedindo movimentos precisos. Muito próximo, Bernardo vislumbrou chispas de ferro a fenderem o ar direitas a si. A proximidade de outras criaturas revelava-se autêntica. Sentiu um aperto no coração. Um temor desmedido apoderou-se de si, ante as aparentes investidas dos vultos. Porém, apenas de sombras se tratava. O suor misturou-se com os veios de água da chuva que lhe escorriam pelo corpo. Não havia descanso no difícil ensejo de escapar. Mas, um pensamento surgiu, singular, a lembrar-lhe o crucifixo de madeira!» In Carlos Cordeiro, O Livro de Cale, Publicações Europa-América 2010, edição nº 103583/9344.

Cortesia de Publicações Europa-América/JDACT