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terça-feira, 6 de abril de 2021

A Ceia Secreta. Javier Sierra. «Não menos de quinze homens a vigiavam, espetando com espadas os sacos de cereal que as carroças queriam desembarcar perto das cozinhas»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Áugure

«(…) Um trecho antes de chegar à Porta Ticinese, o mais nobre dos acessos desse burgo, um amável mercador se ofereceu para me acompanhar até a torre de Filarete, a entrada principal da fortaleza do Mouro. Situado num dos extremos da urbe, o castelo dos Sforza parecia uma réplica em miniatura das enormes muralhas da cidade. O mercador riu ao ver minha cara de espanto. Disse que era curtidor em Cremona, um bom católico, e que me acompanharia com prazer até ao interior da fortaleza em troca da minha bênção para ele e sua família. Aceitei o acordo. O bom homem me deixou diante do castelo do duque exactamente à hora nona. Aquele lugar era ainda mais magnífico do que eu havia imaginado. Bandeirolas com a terrível insígnia dos Sforza, uma espécie de serpente gigante devorando um pobre infeliz, pendiam das ameias. Fitas azuis ondulavam ao vento, ao passo que meia dúzia de enormes chaminés, cravadas em algum lugar do interior da fortaleza, exalavam grandes lufadas de uma fumaça negra e densa. A entrada de Filarete constava de uma ameaçadora ponte levadiça e duas comportas rebitadas de bronze, dobradas sobre si mesmas. Não menos de quinze homens a vigiavam, espetando com espadas os sacos de cereal que as carroças queriam desembarcar perto das cozinhas.

Um daqueles homens uniformizados me indicou o caminho. Devia dirigir-me ao extremo oeste da torre, já dentro da fortaleza, e perguntar pela área de recepção de visitantes e o gabinete de luto que havia sido instalado para receber as delegações que viriam ao funeral de donna Beatrice. Meu cicerone de Cremona já me havia advertido de que toda a cidade pararia quando chegasse esse momento. E, de facto, a essa hora não havia muita actividade. Fiquei surpreso ao ver que o secretário do Mouro, um espigado cortesão de rosto inexpressivo, não demorou a me receber. O servidor se desculpou por não poder conduzir este servo de Deus até ao seu senhor. Ainda assim, examinou minha carta de apresentação com ar céptico, comprovou que o selo pontifício era verdadeiro e a devolveu acompanhada de um gesto de desolação. Lamento, padre Leyre, Marchesino Stanga, assim se chamava, desmanchou-se numa torrente de desculpas. Deve entender que o meu senhor não receba ninguém após a morte da sua esposa. Suponho que possa imaginar o difícil momento que atravessamos e a necessidade que tem o duque de ficar sozinho. Claro, assenti com fingida cortesia.

Não obstante, acrescentou, quando passar o luto, eu lhe transmitirei a notícia da sua presença na cidade. Eu teria gostado de poder olhar nos olhos do Mouro e deduzir, como em tantos interrogatórios que havia presenciado, se ocultavam ou não as sinistras sombras da heresia ou do crime. Mas aquele servidor com um adorno de cabeça grená guarnecido de peles e gibão de veludo, que falava com ares de mesquinha superioridade, estava decidido a me impedir: também não podemos abrigá-lo, como é nosso costume, disse com secura.

O castelo está fechado e não recebemos hóspedes. Eu vos rogo, padre, que reze pela alma de donna Beatrice e que regresse passados os funerais. Então, nós o receberemos como o senhor merece. Requiescat in pace, murmurei enquanto me persignava. Assim farei. Também rezarei por vocês. Tive uma sensação estranha. Sem possibilidade de me acomodar perto do duque e sua família, frustrado no meu propósito de deambular com mais ou menos liberdade pelo seu castelo, minhas primeiras investigações tomariam mais tempo. Tinha de conseguir um alojamento discreto que me garantisse algum ambiente de estudo. Com os documentos de Torriani queimando na minha bolsa, precisaria de calma, três pratos de comida quente ao dia e uma boa dose de sorte para conseguir decifrar o seu segredo. Não era sensato que um frade buscasse pousada entre os laicos, de modo que minhas opções logo se reduziram a duas: ou me instalava no veterano convento de Santo Eustórgio ou no novíssimo de Santa Maria delle Grazie, onde a possibilidade de cruzar com o Áugure excitava a minha imaginação. Depois, com o tecto resolvido, teria tempo de me dedicar ao enigma que o mestre Torriani havia me entregue em Betânia.

Reconheço que a Divina Providência fez um trabalho exemplar. Santo Eustórgio logo se revelou como a pior das opções. Situado muito perto da catedral, junto ao mercado, costumava estar cheio de curiosos que não tardariam a se perguntar que tipo de assunto mantinha ali um inquisidor romano. Embora a sua localização pudesse dar-me certa perspectiva sobre as actividades do Áugure, poupando-me do risco de encontrá-lo cara a cara sem saber de quem se tratava, também sabia que me oferecia mais inconvenientes que vantagens. Quanto à outra opção, a de Santa Maria delle Grazie, além de ser o suposto refúgio do meu objectivo, só apresentava outro pequeno, mas superável, defeito: ali iam ser celebradas as multitudinárias exéquias de donna Beatrice. Sua igreja, reformada havia pouco tempo por Bramante, estava prestes a se transformar no foco de todos os olhares». In Javier Sierra, A Ceia Secreta, 2013, Editora Planeta, 2014, ISBN 978-854-220-327-1.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

JDACT, Javier Sierra, Literatura, Florença, Conhecimentos, 

sábado, 12 de outubro de 2019

A Ceia Secreta. Javier Sierra. «Naturalmente, obedeci, que outra coisa podia fazer? Cheguei a Milão passada a noite dos Reis Magos»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Áugure
«(…) O mestre indicou o pergaminho que encabeçava aqueles papéis. Nele, em caracteres grandes escritos com tinta vermelha, lia-se o enigma que continha a assinatura de nosso informante. Eu o havia visto muitas vezes, fechava cada uma das cartas do Áugure; mas, até esse momento, não lhe havia dado atenção. A minha vista quis se ofuscar ao pairar sobre aquelas sete linhas e sentir que se haviam transformado no meu principal problema. Diziam:

Oculos ėjus ḋinumera,
ṡed noli voltum ȧdspicere.
In latere nominis
mei notam rinvenies.
Contemplari et contemplata
aliis ṫradere.
Veritas

Naturalmente, obedeci, que outra coisa podia fazer? Cheguei a Milão passada a noite dos Reis Magos. Era uma dessas manhãs de sábado nas quais o brilho da neve nos cega e o ar limpo esfria sem piedade as nossas entranhas. Eu havia cavalgado sem descanso para chegar a meu destino, dormindo três a quatro horas em pousadas nauseabundas, intumescido e húmido em razão de uma viagem de três dias no meio do Inverno mais cruel de que tinha lembrança. Mas nada disso importava. Milão, a capital da Lombardia, a sede de intrigas palacianas e disputas territoriais com a França e os condados vizinhos, sobre a qual eu tanto havia estudado, já descansava aos pés da minha montaria. O lugar era impressionante. A cidade dos Sforza, a maior ao sul dos Alpes, ocupava o dobro da extensão de Roma; oito grandes portas franqueavam uma muralha impenetrável que contornava uma urbe de planta redonda que, vista do céu, devia parecer o escudo de um guerreiro gigantesco. Contudo, não foram as suas defesas que me impressionaram: aquele era um burgo novo, limpo, que transmitia uma intensa sensação de ordem. Os cidadãos não urinavam em cada esquina, como em Roma, nem as prostitutas assaltavam os transeuntes, oferecendo-se. Ali, cada canto, cada casa, cada edifício público parecia pensado para uma função suprema. Até a sua orgulhosa catedral, de aspecto frágil e esquelético, oposta em tudo aos maciços edifícios do Sul italiano, derramava as suas benéficas influências sobre o vale. Vista das colinas, Milão parecia o último canto do mundo onde pudessem se arraigar a desordem e o pecado». In Javier Sierra, A Ceia Secreta, 2013, Editora Planeta, 2014, ISBN 978-854-220-327-1.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

A Ceia Secreta. Javier Sierra. «Torriani abriu a porta do estúdio e desceu a escada até ao portão de entrada, sem responder. Saiu ao pátio das cavalariças e procurou a sua mula…»


Cortesia de wikipedia e jdact

O Áugure
«(…) Confuso, eu me persignei diante do funesto panorama que o prior geral traçava. Girolamo Savonarola era, como Roma inteira sabia, o grande problema de Torriani naquela época. Todo o mundo falava dele. Persistente leitor do Apocalipse, esse dominicano de verbo brilhante e grande capacidade de sedução havia acabado de instaurar uma república teocrática em Florença, para preencher o vazio deixado pela fuga da família Medici. De seu novo púlpito, arremetia contra os excessos de Alexandre VI. Savonarola era um louco, ou ainda pior um temerário. Fazia ouvidos moucos às reprimendas que recebia dos seus superiores e ignorava deliberadamente a legislação canónica. Os Dictatus Papae, que desde o século XI eximiam o pontífice e a sua cúria da possibilidade de errar, não o preocupavam, e, desafiando inclusive a sua 19ª sentença (Ninguém pode julgar o papa), gritava no altar que era preciso detê-lo em nome de Deus. O nosso prior geral se desesperava. Não só havia sido incapaz de deter a sede de grandeza daquele exaltado, como também a atitude de Savonarola comprometia toda a ordem perante Sua Santidade. O rebelde, orgulhoso como Sansão perante os Filisteus, havia rejeitado o capelo cardinalício que lhe ofereceram para calar as suas críticas, e havia inclusive recusado abandonar a sua tribuna no convento florentino de San Marco, alegando que tinha uma missão divina mais importante a cumprir. Essa e não outra era a razão pela qual o padre Torriani não queria que a lealdade dos pregadores de São Domingos fosse questionada em Milão. Se o Áugure era um dominicano e tinha razão ao advertir acerca dos planos pagãos do Mouro na nossa nova casa na cidade, nossa ordem seria de novo questionada.
Tomei uma decisão, irmão, sentenciou o prior geral, muito sério, depois de meditar um instante. Temos de afastar qualquer sombra de dúvida sobre as obras de Santa Maria delle Grazie, recorrendo à força do Santo Ofício (maldito), se for preciso. Pater! Não está pensando em julgar o duque de Milão, não é?, perguntei alarmado. Somente se for necessário. Você sabe que nada apraz mais os príncipes seculares que descobrir as debilidades de nossa Igreja e usá-las contra nós. Por isso, somos obrigados a nos antecipar aos seus movimentos. Outro escândalo como o de Savonarola e a nossa casa ficaria muito mal perante os Estados Pontifícios, compreende? E como pretende, se é que posso perguntar, chegar até ao Áugure, comprovar as suas afirmações e reunir a informação necessária para julgá-lo sem levantar suas suspeitas? Pensei muito nisso, meu querido padre Agustín, conjecturou enigmático. Você sabe melhor que eu que, se enviasse um dos nossos inquisidores, intempestivamente, o tribunal de Milão faria muitas perguntas e quebraria a discrição que o caso requer. E, se existir um complô de tanto alcance, todas as provas seriam ocultadas com celeridade pelos cúmplices do Mouro. E então?
Torriani abriu a porta do estúdio e desceu a escada até ao portão de entrada, sem responder. Saiu ao pátio das cavalariças e procurou a sua mula, dando por encerrada aquela reunião de urgência. A tempestade continuava recrudescendo com força lá fora. Diga-me, o que pretende fazer?, repeti. O Mouro previu que daqui a dez dias serão celebrados os funerais oficiais pela duquesa, respondeu por fim. Chegarão a Milão representações de todos os lugares, e então será fácil infiltrar-se em Santa Maria para fazer as averiguações pertinentes e localizar o Áugure. Não obstante, acrescentou, não podemos enviar um religioso qualquer. Deve ser alguém criterioso, que entenda de leis, de heresias e de códigos secretos. A sua missão será encontrar o Áugure, confirmar uma por uma as suas acusações e deter a heresia. E esse deve ser um homem desta casa. De Betânia.
O mestre olhou receoso para o caminho que estava prestes a empreender. Com sorte, levaria uma hora para percorrê-lo, e, se a mula não o derrubasse sobre alguma placa de gelo, chegaria a casa no calor do meio-dia. O homem que necessitamos, disse como se fosse anunciar algo importante, é você, padre Leyre. Nenhum outro resolveria com maior eficácia este assunto. Eu? Aquilo me deixou perplexo. Ele havia pronunciado o meu nome com mórbido deleite, enquanto procurava algo nos alforjes de sua montaria. Mas o senhor sabe que tenho trabalho aqui, obrigações… Nenhuma como esta! E extraindo um grosso maço de papéis amarrados com seu selo pessoal, entregou-o a mim, com sua última ordem: você partirá com presteza para Milão. Hoje mesmo, se possível. E, com isto, olhou o maço de documentos que eu já segurava nas mãos, identificarás o nosso informante, averiguará quanta verdade há por trás desse novo perigo e tratará de remediá-lo». In Javier Sierra, A Ceia Secreta, 2013, Editora Planeta, 2014, ISBN 978-854-220-327-1.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

O Claustro da Badia de Florença. António M Reis. «Descendente de uma família da pequena burguesia lisboeta, pois se aventa que o pai, Johan Martinz, fosse notário, Gomez, ao terminar a primeira década de quatrocentos, dirigiu-se a Pádua, para frequentar o curso de Direito»

jdact e wikipedia

«Numa época decisiva do primeiro Renascimento, no mosteiro da Badia, situado no coração de Florença e então dirigido pelo Abade D. Frei Gomes, natural de Lisboa, um artista português, Giovanni di Gonsalvo ou João Gonçalves, executa um conjunto de pinturas a fresco sobre a vida de S. Bento, considerado um dos momentos mais altos da pintura florentina daqueles anos (1436-1439)». In Resumo


«Há 25 anos, constituíram para mim uma revelação os frescos de Giovanni di Gonsalvo, João Gonçalves, pouco tempo antes recolocados no seu lugar de origem, depois de trabalhosas operações de restauro. O tema parece-me adequado a esta homenagem a um professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que abraçou a Ordem que mais de perto segue o estilo de vida propagado por S. Bento, e permite-me, ao mesmo tempo, reviver alguns momentos intensos da minha vida, no coração da Toscana, em contacto com as obras de arte de uma época singular, que as lições de mestres competentes e magnânimos como Carlo Ludovico Ragghianti, Luciano Berti e Umberto Baldini me ajudaram a compreender. Remontam a essa época as notas que serviram de base à elaboração deste trabalho.
Descendente de uma família da pequena burguesia lisboeta, pois se aventa que o pai, Johan Martinz, fosse notário, Gomez, ao terminar a primeira década de quatrocentos, dirigiu-se a Pádua, para frequentar o curso de Direito, a pensar naturalmente numa carreira brilhante, dentro da vida secular ou eclesiástica. Ainda não tinha concluído o curso quando, em fins de 1412 ou princípio de 1413, bateu à porta do mosteiro de Santa Justina, que então conhecia um período de renovação que atraiu muitas vocações e se expandiu a outros mosteiros, entre eles o da Badia, localizado no coração de Florença. Gomez deve ter feito a profissão religiosa, ao terminar o ano de 1414. Dali a quatro anos, com o título de Prior Claustral, aparecia à frente de dezasseis monges enviados com a missão de renovar a Badia florentina, quase sem religiosos e enredada em graves problemas económicos, motivados em grande parte pelos desvarios cometidos, por ocasião do concílio de Constança, pelo último Abade, que deles se viria a penitenciar exemplarmente. Após a morte deste, foi Gomez eleito Abade, em 1418, iniciando então um período de importantes reformas. Em 1423, depois de ter exercido as funções de Presidente da respectiva Congregação, frei Gomez deslocou-se a Portugal, de onde regressaria no começo de 1426. Durante a sua ausência registaram-se algumas perturbações na vida interna da Badia, às quais em seguida pôs cobro. Em 1435 voltou a Portugal, onde permaneceu até 1437, desta vez como núncio do papa junto do rei Duarte I.
O mosteiro da Badia, com a principal entrada pela Via della Condotta, situava-se (e situa-se) a poucas dezenas de metros do Palazzo Vecchio, sede do governo florentino, e tinha nas vizinhanças, do outro lado da Piazza San Firenze, o Bargello, onde residia o Podestà ou o magistrado que desempenhava as mais altas funções na República florentina e depois o Bargello ou capitão da polícia, como era designado no século XVI. Estava espartilhado pelas construções urbanas, apertado no meio de outros edifícios e sem possibilidade de se expandir para os lados.
O Abade Gomez pôs em marcha uma série de obras destinadas a aumentar o espaço destinado aos monges e aos seus hóspedes. Não podendo promover a expansão horizontal do mosteiro, viu-se obrigado a fazê-lo crescer em altura, o que exigiu a transformação de várias estruturas. A primeira obra empreendida terá sido a do oratório destinado a servir o público, com fácil acesso a partir do exterior. A partir de 1429, realizaram-se as obras do claustro inferior e do refeitório. Seguiram-se as do claustro superior e do dormitório, entre 1434 e 1437, encontrando-se as da hospedaria nova, iniciadas em 1440, ainda na fase de arranque quando Gomez, nomeado Geral dos Camaldulenses, teve de deixar a Badia. A partir de 1431, o Abade Gomez comprou diversas boteghe instaladas à volta do mosteiro, não só para alargar o espaço disponível mas também para libertar os monges de vizinhos indesejáveis, e designadamente das vozearias e cantares dos operários, assim como dos odores incómodos resultantes da laboração das manufacturas pertencentes à Corporação da Arte della Lana e dos olhares indiscretos. O claustro superior deve ter sido construído no decorrer de 1435 e 1436. Na primavera deste último ano estava em condições de receber a decoração que o abade Gomez lhe destinara». In António M. Reis, O Claustro da Badia de Florença, Museu Municipal de Viana do Castelo, Wikipedia.

Cortesia do MMVdoCastelo/JDACT

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Quattrocento. Susana Fortes. «Levantei a cabeça e olhei para o fundo da sala como se precisasse certificar-me de que estava a salvo, protegida dentro daquele templo do saber. Havia quatro ou cinco pessoas…»

 Cortesia de wikipedia e jdact

A Conspiração contra os Médicis
«(,…) Precisamente nesse interesse pela observação exaustiva do mundo se enraizava a grande lição de seus manuscritos, com a qual ele contagiou alguns pintores de sua geração e outros mais jovens, como o próprio Leonardo da Vinci, que era apenas um aprendiz de 14 anos quando os dois se conheceram na bottega de Andrea Verrocchio e não demoraria a se transformar num de seus mais fervorosos admiradores: … captar o movimento de um espirro, a espessura de uma gota de sangue, indagar nos rostos das pessoas até ser capaz de adivinhar a sua fadiga, a sua ambição ou a sua luxúria…, descrever as estrias do palato de um cão. Essa devia ser a verdadeira natureza do artista, pensei, um homem capaz, se necessário, de colocar a sua mão pesquisadora entre as garras de uma fera. Além dessas reflexões, os cadernos também incluíam receitas culinárias, contas domésticas, listas de compras, endereços e até fragmentos de poemas que lhe serviam para dar rédea solta aos demónios que o torturavam por dentro. Mas, outras vezes, as suas anotações adquiriam toda a força da actualidade com a contundência de uma martelada, como aconteceu no dia 26 de Abril de 1478, poucas horas antes que o pintor entrasse para sempre no reino das trevas. Era o último domingo de Abril, e a aura religiosa da Páscoa de Ressurreição ainda flutuava no ambiente. Eu imaginava a reverberação que o sol deixaria no ar parado da praça e, ao imergir naqueles dossier, sentia a mesma vertigem que experimentaria se estivesse debruçada num mirante da muralha: o azul absoluto do céu, a cúpula da Santa Maria del Fiore resplandecendo sob o sol com imponente majestade, as vozes que começavam a se congregar por volta do meio-dia na Via Martelli para ir ao ofício religioso. Nada fazia supor que apenas alguns minutos depois, no momento culminante da missa, quando o padre ia elevar o cálice no altar-mor de Santa Maria del Fiore, fossem acontecer ali factos que transformariam aquele sacramento numa monstruosa carnificina que deixaria as naves do templo repletas de sangue e vísceras palpitantes. Embora as margens dos cadernos fossem muito estreitas, em algumas folhas podiam-se ler frases soltas escritas apertadamente com tinta mais escura. Eu examinava as páginas uma e outra vez, tentando captar até o menor detalhe que desse alguma luz à minha investigação: um ligeiro tremor na caligrafia, a tendência descendente de uma linha, uma frase truncada, qualquer alteração, por mínima que fosse. As descrições de Lupetto pareciam tanto mais vivas quanto mais se atinham à morte real. Na penumbra cavernosa da catedral, as coisas deviam ser percebidas de forma fragmentária, desfocadas, como reflectidas nas lascas de um espelho quebrado, e era assim que eu as via enquanto ia lendo com a mente atenta aqueles pergaminhos envelhecidos: a luz branca dos círios, o rosto de um homem em uma nave lateral com os olhos alucinados, como se tivessem sido projectados das órbitas por um espanto antes que a morte os vitrificasse, respirações agónicas, sapateios espavoridos… No fragor do tumulto, um frade com o rosto coberto por um lenço amarelo que lhe escondia o nariz e as bochechas como uma máscara saiu de trás de um confessionário com o hábito de sarja negro arregaçado até os cotovelos, e os braços ensopados de sangue como os de um açougueiro. Nessa altura toda a catedral já estava um inferno. Ouviram-se gritos e uma atropelada confusão de correrias em disparada começou a sacudir os alicerces do templo. O caos foi tamanho que algumas testemunhas temeram que a cúpula de Brunelleschi desabasse sobre as suas cabeças. Todos fugiam: políticos, cónegos catedralícios recolhendo as vestes até à cintura, embaixadores, fiéis, homens, mulheres e crianças dominadas pelo pânico. Alguém disse então que o sangue dos florentinos não era vermelho, mas preto, e que um homem justo deveria antes arrancar os olhos do que ver certas coisas. Quanto mais adentrava na leitura, mais crescia em mim um sentimento opaco que excedia o interesse puramente académico pela minha tese, uma mistura estranha de morbidez e apreensão que assolava a minha curiosidade. Segundo Lupetto, a notícia do atentado contra a família de Lourenço Médici envenenou o ar com o enxofre de uma tempestade que em pouco tempo faria voarem os toldos e estandartes, abarrotaria os becos com gritos de sabá e cairia sobre a cidade como uma condenação. Esses factos, baptizados com o nome de conjuração dos Pazzi por causa do papel que esta família desempenhou na conspiração, não eram desconhecidos para mim nem para nenhum historiador especializado no Renascimento, mas devo reconhecer que a profusão de detalhes escabrosos conseguiu revirar-me o estômago. Parece que alguns dos conjurados tinham chegado ao extremo de rasgar a carne dos mortos com os próprios dentes, um facto que eu não sabia se devia atribuir à vingança ou a algum tipo de ritual macabro. Por um momento, pensei que provavelmente respondesse a uma motivação religiosa. Isso não significava que tais actos implicassem necessariamente algum tipo de canibalismo, real ou simbólico, como o representado na eucaristia pela comunhão do corpo e do sangue de Cristo, mas talvez ajudasse a explicar. Se não, como entender que alguém enfiasse a mão dentro de um cadáver esquartejado e escavasse no seu interior, como relatava um dos testemunhos recolhidos por Masoni: … arrancou-lhe o coração, partiu-o (…), levou-o a boca, deu-lhe uma dentada e eu, ao ver isto, fugi… As ideias se amontoavam na minha mente quando tentei imaginar o possível significado disso tudo, mas o que li a seguir deixou-me ainda mais estupefacta, provocando-me uma náusea que me obrigou a tapar instintivamente a boca com a mão. Levantei a cabeça e olhei para o fundo da sala como se precisasse certificar-me de que estava a salvo, protegida dentro daquele templo do saber. Havia quatro ou cinco pessoas trabalhando nas suas mesas, e durante um segundo pensei na bestialidade íntima que cada um daqueles educados pesquisadores podia ocultar debaixo da sua roupa. Que tipo de animalidade eu também escondia, para que semelhante carnificina me electrizasse?» In Susana Fortes, Quattrocento, tradução de Maria Alzira Lemos, Pontas Literary, 2007, Planeta, Edições ASA, 2009, ISBN 978-989-230-488-5.

Cortesia de PLiterary/Planeta/Asa/JDACT 

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Quattrocento. Susana Fortes. «Eu imaginava Lupetto percorrendo os saguões empedrados, tão silencioso quanto o cão que sempre o acompanhava, jogando sobre o ombro esquerdo uma aba da capa com gesto esquivo, passando junto às portas fechadas…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Conspiração contra os Médicis
«(,…) Se tomar distância é sempre um bálsamo para qualquer doença do espírito, viajar no tempo o é ainda mais. Assim, decidi-me entrincheirar dentro da minha fortaleza renascentista, onde não estava disposta a deixar entrar mensagens de telefones móveis, nem cartas procedentes de outro mundo, nem ausências de nenhum tipo. Ali me sentia segura com uma simples xícara de café e o relento do inverno florentino que me enchia a cabeça de sonhos. Embora tivesse aterrado em Florença praticamente por acaso, logo tive a sensação de estar indo a um encontro marcado com muita antecedência, sem que eu soubesse. Cheguei à cidade num dia de Inverno com o capuz do casaco baixado até as sobrancelhas e 300 euros no bolso, sob um aguaceiro de fim do mundo. O limpa-para-brisas do táxi que me levou do aeroporto até ao meu apartamento na Via della Scalla não dava conta de limpar a cortina de água que velava os vidros e mal me deixava entrever o bairro que se estendia atrás de Santa Maria Novella, repleto de fachadas descascadas com pátios alagados e oratórios de virgens nas paredes. Toda a cidade parecia inundada e à mercê da torrente. Mas nesse primeiro momento não me ocorreu pensar que tinha chegado a um lugar cheio de passagens secretas que ligavam perigosamente o passado ao presente. Isso foi algo que descobri depois, quando a força da torrente já me tinha afastado demais da margem para voltar atrás.
Estava tão vampirizada por aquele mundo que às vezes a simples passagem de uma carruagem de turistas me fazia sentir o cheiro inconfundível da bosta de cavalo pisoteada nas ruas medievais onde se agrupavam os grémios. Bem perto, na Via Ghibellina, ficavam as bottegas ou estúdios dos artistas, com tecto abobadado e portões em forma de arco. Dali me chegavam o barulho das marteladas seculares, o pó, o cheiro do trabalho braçal misturado aos aromas penetrantes de vernizes e solventes, até que o reflexo azul muito intenso da labareda de um maçarico me tirava dos devaneios e me devolvia à realidade. Do outro lado da janela do Archivio, os plátanos da Viale della Giovane Italia se iluminavam de vez em quando com a luz dos semáforos. Todos os meus recursos emocionais estavam implicados na pesquisa que eu tinha nas mãos. Achava que, enquanto a versão dos factos estivesse incompleta, a interpretação dependia exclusivamente de mim e, portanto, eu me comprometia por inteiro. Assim, me entreguei à história com aquele tipo de entusiasmo que só se pode dedicar a uma paixão, sabendo que sairia dela com a sensação de ter estado imersa em vidas alheias, em tramas que remontavam a cinco séculos atrás. Talvez tanta profissão de arte como a que se concentrava em Florença se visse compensada por certa inclinação pelos baixos instintos, mas eu jamais teria podido imaginar que, dentro daquela utopia festiva que fez explodir o ambiente do Renascimento, ia me deparar com personagens que poderiam muito bem estar na sala dos horrores do museu de cera Madame Tussauds.
A descoberta de uma fonte com a qual eu não tinha contado no início teve papel importante na mudança de rumo que o meu trabalho foi sofrendo. Falo dos manuscritos nos quais Pierpaolo Masoni anotava tudo o que via e fazia esboços de seus desenhos. Tratava-se de uma colecção de nove cadernos que durante anos havia permanecido ignorada no porão do Archivio e à qual, depois de muitos esforços, eu tinha conseguido acesso graças às intercessões do meu orientador de tese junto à Secretaria Nacional do Património Artístico. Não eram grandes arquivos, mas espécies de cadernos de bolso de formato retangular (quadernini), alguns um pouco maiores do que um baralho, encadernados em pelica e fechados por uma alça e um botão cilíndrico de madeira, um sistema exactamente igual ao do meu casaco irlandês que agora pendia de um cabide, na entrada da sala. Todas as manhãs o pintor amarrava o caderno ao cinto e saía pelo mundo preparado para registar atentamente tudo o que acontecia ao seu redor, como qualquer desses repórteres que podemos ver hoje em dia com uma câmara no ombro e as botas cobertas de barro entre os escombros de uma cidade bombardeada, tomando notas em um bloco de papel suado que depois guardam no bolso de trás da calça.
Eu imaginava Lupetto percorrendo os saguões empedrados, tão silencioso quanto o cão que sempre o acompanhava, jogando sobre o ombro esquerdo uma aba da capa com gesto esquivo, passando junto às portas fechadas, parando às vezes sob um portal para desenhar as gárgulas que espiavam nos beirais com uma careta de voracidade e terror, ou olhando a cidade do alto das muralhas, absorto, com a atenção de um entomologista que estivesse estudando um formigueiro». In Susana Fortes, Quattrocento, tradução de Maria Alzira Lemos, Pontas Literary, 2007, Planeta, Edições ASA, 2009, ISBN 978-989-230-488-5.

Cortesia de PLiterary/Planeta/Asa/JDACT

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Quattrocento. Susana Fortes. «… recém-casados beijando-se na ponte Vecchio, motocicletas que iam saltando ruidosamente entre os pátios dos restaurantes, e centenas de jovens de pele escura que, ao entardecer, vendiam braceletes e relógios a 6 euros na Piazza della Reppublica…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Em 26 de Abril de 1478, quinto domingo depois da Páscoa, a história do Renascimento italiano, e provavelmente também a de toda a Europa, esteve a ponto de dar uma virada. O altar-mor da catedral de Florença acolhia naquela manhã a brilhante e turbulenta nobreza local, encabeçada pelo indiscutível homem forte da República, Lourenço de Médici, chamado o Magnífico. No momento culminante da missa, quando o padre elevava o cálice com o vinho consagrado, os conjurados tiraram as adagas que ocultavam sob suas capas e se atiraram sobre a família do mecenas. Esses factos, conhecidos como A conjuração dos Pazzi, marcaram durante gerações a memória dos florentinos por sua natureza violentamente escabrosa. A sua lembrança passou ao imaginário popular com o signo inconfundível das grandes convulsões colectivas, em meio a um imenso clamor de Dies Irae… Vários artistas ilustres do Renascimento, como Botticelli, Verrocchio e Leonardo da Vinci, registaram esses fatos em seus quadros carregados de recônditas referências simbólicas. Mas nenhum deles conseguiu se aproximar tanto da verdadeira índole do acontecido naquele domingo sangrento quanto o pintor Pierpaolo Masoni».

A Conspiração contra os Médicis
«Contar com um retrato falado do assassino é algo prioritário em qualquer investigação policial, mas se o crime foi cometido há cinco séculos, a coisa se complica. Uma pintura do Renascimento não pode ser considerada exactamente uma prova pericial. Mesmo assim, pode nos dizer muito sobre a vida e as circunstâncias que cercaram o artista. Não me refiro apenas às mensagens do quadro enquanto obra de arte, mas a uma outra dimensão da superfície pictórica, com as suas sucessivas camadas de pigmentos que contam a história de uma determinada obra do mesmo modo como os círculos no tronco da árvore nos falam de sua idade biológica. Às vezes a psicologia do pintor fica registada em cada pincelada, ao alisar ou esfumar, e por vezes até em forma de impressão digital. Segundo alguns cientistas, as pinturas poderiam encerrar o código do DNA do artista, presente microscopicamente em vestígios de saliva ou de sangue. Mas até o momento, e tendo em conta a precariedade de meios com que costuma trabalhar uma historiadora da arte, será melhor não contar com essa possibilidade. Cheguei a Florença com uma bolsa da Fundação Rucellai para escrever a minha tese de doutoramento sobre o pintor Pierpaolo Masoni, conhecido como o Lupetto, um dos artistas mais enigmáticos e promissores do Quattrocento, e que, por causa de um acidente, ficou cego em 1478, quando tinha apenas 33 anos. Felizmente, teve tempo de concluir algumas encomendas importantes para a família Médici, como a polémica Madonna de Nievole, e além disso deixou registo das suas reflexões numa série de manuscritos muito valiosos para qualquer amante da arte. No entanto, desde o primeiro momento em que comecei a imergir nesses textos, depositados numa prateleira do primeiro andar do Archivio di Stato de Florença, minhas obsessões foram-se tornando mais próprias de um detective do que de uma estudiosa do Renascimento.
No início da minha estada na cidade, senti uma profunda decepção. Florença me pareceu uma cidade abandonada à própria sorte, com as latas de lixo transbordando e uma balbúrdia de buzinas e sirenes que quebravam o reflexo de seu passado renascentista. Mas, pouco a pouco, fui-me acostumando àquela respiração de búfalo cansado. Aprendi a caminhar pelas ruas sem esbarrar nas hordas de turistas que invadiam a toda hora as estreitas calçadas do centro histórico. Dependendo do momento do dia, reinava um alarido humano de diferentes níveis: executivos que saíam de casa cedo com uma maleta de trabalho deixando no ar uma nuvem irrespirável de loção pós-barba, crianças a caminho da escola com seus gorros e cachecóis da Benetton, funcionários estatais, frades, japoneses que se retratavam sentados nos próprios joelhos do Holoferney de Donatello, recém-casados beijando-se na ponte Vecchio, motocicletas que iam saltando ruidosamente entre os pátios dos restaurantes, e centenas de jovens de pele escura que, ao entardecer, vendiam braceletes e relógios a 6 euros na Piazza della Reppublica, batendo os pés no calçamento de pedra para espantar o frio. Gente de passagem. Entre aquelas manadas de transeuntes que toda manhã tomavam as ruas de assalto, eu era mais uma. Uma transeunte bastante desorientada, isso sim, com uma bolsa da Fundação Rucellai em meu poder, um contrato de aluguer para seis meses que a reitoria da Universidade de Santiago de Compostela havia conseguido para mim, uma mala cheia de livros e alguns assuntos pessoais que precisava esquecer. A camuflagem é a primeira táctica de sobrevivência que alguém deve aprender para se adaptar a qualquer mundo cujo código desconhece. Mas, quando a sensação de estranheza ficava muito insuportável, eu tinha um recurso infalível para transformar a realidade de acordo com o meu desejo. Enquanto esperava no ponto do 22 para me dirigir ao Archivio ou enquanto tomava um cappuccino no Café Rivoire, na Piazza della Signoria, me punha a olhar pela janela e, sem me esforçar muito, em questão de segundos, o passado irrompia e o fervedouro da Florença do século XV se abria diante de mim. Pela minha cabeça iam desfilando cortesãos e capelães, notários, barbeiros, entalhadores e mercadores, como se eu me encontrasse na filmagem de uma produção de época». In Susana Fortes, Quattrocento, tradução de Maria Alzira Lemos, Pontas Literary, 2007, Planeta, Edições ASA, 2009, ISBN 978-989-230-488-5.

Cortesia de PLiterary/Planeta/Asa/JDACT

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A Cúpula de Florença. Desvendado o seu segredo. O arquitecto italiano Massimo Ricci descobre a técnica que utilizou Filippo Brunelleschi: «Os ladrilhos internos estão colocados em diagonal, como a espinha de um peixe. Sem utilizar material metálico, mas somente um sistema de cordas que permitia calcular a posição e ângulo exactos ao colocar cada ladrilho»


Cúpula da catedral de Santa María del Fiore de Florença,
obra de Brunelleschi, século XV
Cortesia de elpais e artetorreherberos

«Ha tardado casi cuarenta años el arquitecto italiano Massimo Ricci en descubrir lo que para sus colegas fue un misterio durante seis siglos: la técnica que utilizó Filippo Brunelleschi para construir la cúpula de Santa María del Fiore, la Catedral de Florencia. El genio renacentista no solo se esmeró en elevar un monumento robusto y espectacular, símbolo de la renovada confianza humanista tras los temores medievales, sino también en esconder el truco gracias al cual se sostiene la estructura. "Hacer trampas, despistar, confundir las ideas fue un rastro típico de la personalidad de Brunelleschi", comentó anoche Ricci al presentar su hallazgo a los ciudadanos reunidos en el Palazzo Vecchio -el ayuntamiento- y a quienes seguían la conferencia en la página web de la National Geographic Society.


"Brunelleschi encontraba divertido el hecho de que nadie pudiera dar con su secreto". Un secreto bien guardado bajo la piel de la cúpula de ladrillos rojos y costillas de mármol. Desde que empezaron las obras, en 1425, el misterio fue custodiado con un truco: los obreros dispusieron los ladrillos vistos de una forma distinta a los de la bóveda interna, la que de verdad aguanta el peso de la construcción, para despistar todos los que, solo mirando desde fuera la cúpula, pensaban tener frente a sus ojos la técnica adoptada. Los ladrillos internos "están colocados en diagonal, como la espina de un pescado", explicó Ricci, "sin utilizar material metálico alguno, como sostuvieron algunos estudiosos en el pasado, sino solo gracias a un sistema de cuerdas que permitía calcular la posición y el ángulo exactos en los que poner cada ladrillo". Para confundir aún más las ideas a eventuales imitadores, Brunelleschi ordenó "marcar el costado de los ladrillos que quedaban en superficie con un surco, para dejar creer que fuesen dispuestos en longitud en lugar que de lado. Un sistema único y nunca más repetido en la historia".

Cortesia de verdadyverdades




Ricci y su equipo lograron desvelar el misterio gracias a inventos tecnológicos muy refinados y a una grieta que se abrió en la bóveda. A través de esta fisura pudieron colar una sonda que se abrió camino entre un ladrillo y otro, mientras grababa lo que veía. Ricci dirigía la minúscula cámara y -como si se tratara de un médico que practica una endoscopia a su pacient - fue trazando un diagnóstico de las entrañas del monumento. Vio lo que nunca nadie pudo admirar antes. En la sala del Ayuntamiento de Florencia también se enseñaron anoche las maquetas de las tres grúas utilizadas para edificar la cúpula y la del barco inventado por Brunelleschi para llevar el material desde el mar hasta la ciudad, sobre el río Arno. "Esta embarcación es otro ejemplo de su genio", cerró Ricci. "Es el primer ejemplo en la historia de un barco que funciona con una hélice, igual que hacen los aviones hoy. Y es el primer caso de derechos de autor: Brunelleschi la construyó por si solo y poniendo el dinero de su propio bolsillo. En cambio, obtuvo por el Palazzo Vecchio el permiso de alquilarla y exigió que se quemara cualquier intento de imitación". Menudo personaje, el Brunelleschi». In Lucia Magi, Bolonha, el País.

Cortesia de El País/JDACT

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Nicolau Maquiavel: Os conceitos desenvolvidos por Maquiavel rompem com a tradição medieval teológica e também com a prática, comum durante o Renascimento, de propôr Estados imaginários perfeitos. Reconhecido como fundador do pensamento e da ciência política moderna

(1469-1527)
Florença, Itália)
Cortesia de wikipédia
Nicolau Maquiavel, em italiano Niccolò Machiavelli, foi um historiador, poeta, diplomata e músico italiano do Renascimento. É reconhecido como fundador do pensamento e da ciência política moderna, pelo facto de ter escrito sobre o Estado e o governo como realmente são e não como deveriam ser. Os recentes estudos do autor e da sua obra admitem que o seu pensamento foi mal interpretado historicamente. Desde as primeiras críticas, feitas postumamente por um cardeal inglês, as opiniões, muitas vezes contraditórias, acumularam-se, de forma que o adjectivo maquiavélico, criado a partir do seu nome, significa esperteza, astúcia.

Nicolau Maquiavel viveu a juventude sob o esplendor político de Florença durante o governo de Lourenço de Médici e entrou para a política aos 29 anos de idade no cargo de Secretário da Segunda Chancelaria. Nesse cargo, Maquiavel observou o comportamento de grandes nomes da época e a partir dessa experiência retirou alguns postulados para sua obra. Depois de servir em Florença durante 14 anos foi afastado e escreveu as suas principais obras. Conseguiu também algumas missões de pequena importância, mas jamais voltou ao seu antigo posto como era seu desejo.

Cortesia de wikipédia
Como renascentista, Maquiavel utilizou-se de autores e conceitos da Antiguidade Clássica de um modo novo. Um dos principais autores foi Tito Lívio, além de outros lidos através de traduções latinas, e entre os conceitos apropriados por ele, encontram-se o de virtù e o de fortuna. Os conceitos de virtù e fortuna são empregados várias vezes por Maquiavel em suas obras. Para ele, a virtù seria a capacidade de adaptação aos acontecimentos políticos que levaria à permanência no poder. A virtù seria como uma barragem que deteria os desígnios do destino. A idéia de fortuna em Maquiavel vem da deusa romana da sorte e representa as coisas inevitáveis que acontecem aos seres humanos. Não se pode saber a quem ela vai fazer bem ou mal e ela pode tanto levar alguém ao poder como tirá-lo de lá, embora não se manifeste apenas na política. Como a sua vontade é desconhecida, não se pode afirmar que ela nunca lhe favorecerá.

Florença
Cortesia de defesabr
Durante o Renascimento, as cinco principais potências na península Itálica eram:
  • o Ducado de Milão;
  • a República de Veneza;
  • a República de Florença;
  • o Reino de Nápoles;
  • os Estados Pontifícios.
A maior parte dos Estados da Península era ilegítima, tomados por mercenários chamados «condotiere».

Foram incapazes de se aliar durante muito tempo estando entregues à intriga diplomática, às disputas e  pelas riquezas. Eram atractivos para as demais potências europeias, principalmente Espanha e França. A política italiana era muito complexa e os interesses políticos estavam sempre divididos. Batalhando entre si, ficavam à mercê das ambições estrangeiras, mas a influência de alguém como Lourenço de Médici havia impedido uma invasão. Com a morte deste em 1492, e a inaptidão política de seu filho, a Itália foi invadida por Carlos VIII, causando a expulsão dos Médici de Florença.

Savonarola
Cortesia de commons
Anunciando a chegada de Carlos VIII como a de um salvador e com grande apoio popular, o pregador Girolamo Savonarola tornou-se a figura mais importante da cidade dando ao governo um viés teocrático-democrático. Com crescente autoridade e influência, Savonarola passou a criticar os padres de Roma como corruptos e o Papa Alexandre VI por  imoral. O Papa excomungou o frade, mas a excomunhão foi declarada inválida por ele. No entanto, Savonarola acabou preso e executado pelo governo provisório em 23 de maio de 1498. Com a demissão de seus simpatizantes, 5 dias depois da morte do frade, Maquiavel, com 29 anos, foi nomeado para o cargo de secretário da Segunda Chancelaria de Florença.
 
Cortesia de jusfacto
O «Príncipe» é provavelmente o livro mais conhecido de Maquiavel e foi completamente escrito em 1513, apesar de publicado postumamente, em 1532. Teve origem com a união de Juliano de Médici e do Papa Leão X, com a qual Maquiavel viu a possibilidade de um príncipe finalmente unificar a Itália e defendê-la contra os estrangeiros.
Está dividido em 26 capítulos. No início ele apresenta os tipos de principado existentes e expõe as características de cada um deles. A partir daí, defende a necessidade do príncipe se basear nas suas forças em exércitos próprios e não em mercenários.Conclui a obra fazendo uma exortação a que um novo príncipe conquiste e liberte a Itália. Numa carta a Francesco Vettori, datada de 10 de Dezembro de 1513, Maquiavel comenta sobre o escrito:
  • E como Dante diz que não se faz ciência sem registar o que se aprende, eu tenho anotado tudo nas conversas que me parece essencial, e compus um pequeno livro chamado De principatibus, onde investigo profundamente o quanto posso cogitar desse assunto, debatendo o que é um principado, que tipo de principados existem, como são conquistados, mantidos, e como se perdem.
Os conceitos desenvolvidos por Maquiavel rompem com a tradição medieval teológica e também com a prática, comum durante o Renascimento, de propôr Estados imaginários perfeitos, os quais os príncipes deveriam ter sempre em mente. A partir da observação da política de seu tempo e da comparação desta com a da Antiguidade vai formular o seu pensamento por acreditar na imutabilidade da natureza humana.
Túmulo
Cortesia de wikipédia
 
Morreu obscuramente, talvez por efeito de veneno, e foi enterrado no túmulo da família na Basílica de Santa Cruz em Florença.
 
Cortesia de wikipédia/JDACT

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Donatello: O grande escultor quatrocentista. Cultiva a escultura com diversos materiais (bronze, madeira, mármore) e o relevo. As suas características mais evidentes são o movimento, o naturalismo e a graça. A obra-prima da sua juventude são os três profetas da Catedral de Florença, em que aproveita a força expressiva do feio

(1386-1466)
Florença
Cortesia de wikipédia
Donato di Niccoló di Betto Bardi, chamado Donatello foi um escultor italiano. Trabalhou em Florença, Prato, Siena e Pádua, recorrendo a várias técnicas (tuttotondo, baixo-relevo, stiacciato), e materiais (mármore, bronze, madeira). Separou-se definitivamente do gótico retomando e superando a arte grega e romana, seja formalmente, seja estilisticamente. Muito notada foi a sua capacidade de sugerir humanidade e introspecção nas suas obras.
Irrequieto e com uma família modesta, seu pai tinha uma vida tumultuada, tendo participado na revolta dos Ciompi em 1378. Segundo Vasari, Donatello foi educado primeiro na casa de Roberto Martelli, e de 1402 a 1404 esteve em Roma com Brunelleschi estudando os clássicos. Em 1408, trabalhou na obra do Duomo de Florença, para o qual executou uma estátua de David em mármore, com uma coroa de amaranto e membros alongados, num estilo gótico tardio, mas apoiada numa perna só ao qual corresponde uma torção do busto, e as mãos realistas, mostrando um estudo apurado da anatomia humana. Em 1416, a estátua foi transportada para o Palazzo Vecchio, estando hoje em dia conservada no Bargello.


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Nos últimos anos (1453 - 1466), Donatello regressou a Florença onde executou a «Madalena» em madeira, hoje no museu do Duomo, obra que nega a beleza física, privilegiando a expressão, o corpo esquelético, a dor que transparece do rosto, representando os sentimentos mais profundos da alma humana.
Após concluir um «São João Baptista» para o Duomo, teve a sua última encomenda: dois púlpitos de bronze para a igreja de São Lourenço, projectada por ele mas executada com a participação de outros. O «Púlpito da Ressureição», com episódios da vida de Cristo unidos por relevos e o «Púlpito da Paixão». Morreu em Florença.

Principais obras:
  • "São Marcos" - Florença;
  • "Tabernáculo de São Jorge" - Museu Nacional do Bargello, Florença;
  • "Profetas" (Zuccone) - Duomo, Florença;
  • "O Banquete de Herodes" - Pia batismal da catedral de Siena;
  • "David" - Museu Nacional do Bargello, Florença;
  • "Gattamelata" (estátua equestre ) - Pádua;
  • "Maria Madalena" - Duomo, Florença;
  • "Judite e Holofernes" - Palazzo Vecchio, Florença.
Cortesia de wikipédia/