Mostrar mensagens com a etiqueta Memória Viva. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Memória Viva. Mostrar todas as mensagens

sábado, 1 de maio de 2021

As Benevolentes. II Guerra Mundial. Jonathan Littell. «… esbarrei num major e não captei muita coisa. Então ele parou para se despedir. Ah, sim! Outra coisa. Para os judeus, cinco fuzis é muito, vocês não têm homens suficientes»

jdact

Toccata

«(…) A estrada de terra batida tinha sido desimpedida mas viam-se os vestígios das explosões, as grandes manchas de óleo, destroços amontoados. Depois vinham as primeiras casas de Sokal. No centro da cidade, alguns incêndios ainda crepitavam mansamente; cadáveres empoeirados, a maioria em trajes civis, obstruíam uma parte da rua, misturados aos escombros e ao entulho; em frente, na sombra de um parque, cruzes brancas cobertas por curiosos telhados alinhavam-se com precisão sob as árvores. Dois soldados alemães inscreviam nomes nas cruzes. Ficamos ali esperando enquanto Blobel, acompanhado por Strehlke, nosso oficial de intendência, ia até ao QG. Um cheiro agridoce, vagamente enjoativo, misturava-se à pungência da fumaça. Blobel não demorou a voltar: tudo certo. Strehlke vai cuidar dos alojamentos. Sigam-me. O AOK instalara-nos numa escola. Sinto muito, desculpou-se um intendente baixinho num feldgrau amarfanhado. Ainda estamos nos organizando. Mas mandaremos rações para vocês. Nosso segundo-comandante, Von Radetzky, um báltico elegante, gesticulou com uma mão enluvada e sorriu: nem precisa. Não vamos ficar. Não havia camas, mas tínhamos trazido cobertas; os homens sentavam-se em pequenas carteiras estudantis. Devíamos ser aproximadamente setenta. À noite, serviram-nos sopa de repolho e de batata-doce, quase fria, cebolas cruas e pedaços de um pão preto, grudento, que secava assim que o cortávamos. Eu estava com fome, tomei avidamente a sopa e devorei as cebolas cruas mesmo. Von Radetzky organizou uma patrulha. A noite correu tranquilamente.

Na manhã seguinte, o Standartenführer Blobel, nosso comandante, reuniu seus Leiter para irem todos ao QG. O Leiter III, meu superior directo, queria dactilografar um relatório e me mandou em seu lugar. O estado-maior do 6º Exército, o AOK 6, ao qual pertencíamos, ocupara um grande casarão austro-húngaro, com a fachada alegremente rebocada em laranja, realçada por colunas e decorações em estuque e crivada de pequenos estilhaços. Um Oberst, visivelmente íntimo de Blobel, nos recebeu: o Generalfeldmarschall está trabalhando do lado de fora. Sigam-me. Levou-nos para um vasto parque em declive que se estendia do prédio até um meandro do Bug. Perto de uma árvore isolada, um homem em trajes de banho dava grandes passadas, cercado por uma nuvem sibilante de oficiais em uniformes encharcados de suor. Voltou-se para nós: Ah, Blobel! Bom-dia, meine Herren. Nós o cumprimentamos: era o eneralfeldmarschall Von Reichenau, comandante-em-chefe do Exército. Seu peito estufado e hirsuto irradiava vigor; imerso na gordura em que, a despeito de sua compleição atlética, a delicadeza prussiana de seus traços terminava se afogando, seu monóculo brilhava ao sol, incongruente, quase ridículo. Ao mesmo tempo que formulava instruções precisas e meticulosas, continuava suas idas e vindas intermitentes; tínhamos que segui-lo, era um pouco desconcertante; esbarrei num major e não captei muita coisa. Então ele parou para se despedir. Ah, sim! Outra coisa. Para os judeus, cinco fuzis é muito, vocês não têm homens suficientes. Dois fuzis por condenado bastarão. No caso dos bolcheviques, veremos quantos há. Se forem mulheres, podem utilizar um pelotão completo. Blobel fez a saudação: Zu Befehl, Herr Generalfeldmarschall. Von Reichenau juntou seus calcanhares descalços e ergueu o braço: heil Hitler! Heil Hitler!, respondemos todos em coro antes de debandarmos.

O Sturmbannführer dr. Kehrig, meu superior, recebeu meu relatório com um ar amuado. É tudo? Não escutei muita coisa, Herr Sturmbannführer. Fez uma careta ao mesmo tempo que brincava distraidamente com seus papéis. Não compreendo. De quem devemos receber nossas ordens, afinal? De Reichenau ou de Jeckeln? E o Brigadeführer Rasch, onde está? Não sei, Herr Sturmbannführer. O senhor não sabe muita coisa, Obersturmführer. Vamos, debandar.

Blobel convocou todos os seus oficiais no dia seguinte. Mais cedo, uns vinte homens haviam partido com Callsen. Enviei-o a Lutsk com um Vorkommando. O conjunto do Kommando seguirá num ou dois dias. É lá que estabeleceremos nosso estado-maior por enquanto. O AOK também será transferido para Lutsk. Nossas divisões avançam velozmente, temos que começar a trabalhar. Estou esperando o Obergruppenführer Jeckeln, que nos dará instruções. Jeckeln, um veterano do Partido de quarenta e seis anos de idade, era o Höhere SS - und Polizeiführer para o sul da Rússia; por esse motivo, todas as formações SS da zona, inclusive a nossa, dependiam dele de uma maneira ou de outra. Mas a pergunta sobre a cadeia de comando continuava a martelar Kehrig: e então, estamos sob o controle do Obergruppenführer?» In Jonathan Littell, As Benevolentes, 2006, Publicações Dom Quixote, Alfragide, 2014, ISBN 978-972-203-304-6.

Cortesia PdomQuixote/JDACT

Conhecimentos, II Guerra Mundial, JDACT, Jonathan Littell, Memória Viva, Mulher, 

segunda-feira, 8 de março de 2021

As Benevolentes. II Guerra Mundial. Jonathan Littell. «… derrubados, varridos, misturados numa interminável faixa calcinada de pilhas irregulares ao longo dos acostamentos. Mais além, bosques resplandeciam sob a luz esplêndida do Outono»

jdact

Toccata

«(…) O dr. Korherr, que compilava estatísticas para o Reichsführer-SS Heinrich Himmler, chegou a pouco menos de dois milhões em 31 de Dezembro de 1942, mas reconhecia, quando pude discutir com ele em 1943, que seus números de partida eram pouco confiáveis. Enfim, o respeitabilíssimo professor Hilberg, especialista na questão e que dificilmente teria pontos de vista sectários, pró-alemães pelo menos, chega, ao fim de uma demonstração cerrada de dezanove páginas, à cifra de 5.100.000, o que corresponde grosso modo à opinião do finado Obersturmbannführer Eichmann. Aceitemos então os números do professor Hilberg.

Agora, a matemática. O conflito com a URSS durou das três horas da manhã de 22 de Junho de 1941 até, oficialmente, as 23h01 de 8 de Maio de 1945, o que perfaz rês anos, dez meses, dezasseis dias, vinte horas e um minuto, ou seja, arredondando, 46,5 meses, 202,42 semanas, 1.417 dias, 34.004 horas, ou 2.040.241 minutos (contando o minuto suplementar). Para o programa dito da Solução Final, ficaremos com as mesmas datas; antes, nada fora decidido nem sistematizado, as perdas judaicas são fortuitas. Associemos agora um conjunto de cifras ao outro: para os alemães, isso dá 64.516 mortos por mês, ou seja, 14.821 mortos por semana, ou 2.117 mortos por dia, ou 88 mortos por hora, ou 1,47 morto por minuto, isto em média para cada minuto de cada hora de cada dia de cada semana de cada mês de cada ano, tudo durando três anos, dez meses, dezasseis dias, vinte horas e um minuto. Para os judeus, incluindo soviéticos, temos cerca de 109.677 mortos por mês, ou seja, 25.195 mortos por semana, ou 3.599 mortos por dia, ou 150 mortos por hora, ou 2,5 mortos por minuto para um período idêntico. No lado soviético, finalmente, isso nos dá uns 430.108 mortos por mês, 98.804 mortos por semana, 14.114 mortos por dia, 588 mortos por hora, ou 9,8 mortos por minuto, período idêntico. Ou seja, para o total global no meu campo de actividade, médias de 572.043 mortos por mês, 131.410 mortos por semana, 18.772 mortos por dia, 782 mortos por hora e 13,04 mortos por minuto, todos os minutos de todas as horas de todos os dias de todas as semanas de todos os meses de cada ano do período dado, ou seja, para memorizar, três anos, dez meses, dezasseis dias, vinte horas e um minuto. Que os que zombaram desse minuto suplementar de facto um pouco pedante considerem que isso dá assim mesmo 13,04 mortos a mais, em média, e, se forem capazes, imaginem treze pessoas de seu círculo mortas num minuto. Podemos também efectuar um cálculo definindo o intervalo de tempo entre cada morte: isso nos dá em média um morto alemão a cada 40,8 segundos, um morto judeu a cada 24 segundos e um morto bolchevique (incluindo os judeus soviéticos) a cada 6,12 segundos, ou seja, isso para o conjunto do mencionado período. Agora vocês estão em condições de efectuar, a partir desses números, exercícios concretos de imaginação. Peguem por exemplo um relógio e contem um morto, dois mortos, três mortos etc. a cada 4,6 segundos (ou a cada 6,12 segundos, a cada 24 segundos ou a cada 40,8 segundos, se tiverem uma preferência definida), tentando imaginar, como se estivessem à sua frente, alinhados, estes um, dois, três mortos. Vocês verão, é um bom exercício de meditação.

Ou peguem outra catástrofe, mais recente, que os tenha afectado intensamente, e façam a comparação. Por exemplo, se forem franceses, considerem a pequena aventura argelina, que tanto traumatizou seus concidadãos. Vocês perderam ali 25.000 homens em sete anos, incluindo os acidentes: o equivalente a pouco menos de um dia e treze horas de mortos na frente do Leste; ou cerca de sete dias de mortos judeus. Não estou contabilizando, evidentemente, os mortos argelinos: como vocês não tocam no assunto, digamos, nunca em seus livros e programas, eles não devem significar muito para vocês. Entretanto vocês mataram dez para cada um de seus próprios mortos, esforço respeitável mesmo comparado ao nosso. Paro por aqui, poderíamos continuar por muito tempo; convido-os a prosseguirem sozinhos, até que o chão se abra sob seus pés. Quanto a mim, não preciso de nada disso: há muito tempo o pensamento da morte está mais próximo de mim que a veia do meu pescoço, como diz essa belíssima frase do Corão. Se um dia vocês conseguissem me fazer chorar, minhas lágrimas desfigurariam seu rosto. A conclusão de tudo isso, se me permitem outra citação, a última, prometo, é, como dizia muito bem Sófocles: o que se deve preferir a tudo é não ter nascido. Schopenhauer, por sinal, escrevia claramente a mesma coisa: Seria melhor que não existisse nada. Como há mais sofrimento que prazer sobre a terra, toda satisfação é apenas transitória, criando novos desejos e novas aflições, e a agonia do animal devorado é maior que o prazer do devorador. Sim, eu sei, isso dá duas citações, mas a ideia é a mesma: na verdade, vivemos no pior mundo possível. Tudo bem, a guerra terminou. E depois aprendemos a lição, não vai acontecer mais. Mas vocês estão mesmo seguros de terem aprendido a lição? Têm certeza de que não acontecerá de novo? Têm mesmo certeza de que a guerra terminou? De certa maneira, a guerra nunca terminou, ou então só terminará quando a última criança nascida no último dia de combate for enterrada sã e salva, e mesmo assim ela continuará, em seus filhos e depois nos deles, até que finalmente a herança se dilua um pouco, as recordações sejam desfiadas, e a dor, amenizada, ainda que nesse momento todos já tenham há muito esquecido e tudo esteja relegado ao lote das histórias de antigamente, boas sequer para assustar as crianças, e ainda menos os filhos dos mortos e daqueles que houverem desejado sê-lo, mortos, esclareço.

[…]

Tínhamos lançado uma ponte flutuante na fronteira. Bem ao lado, esparramadas nas águas cinzentas do Bug, ainda vinham à tona vigas retorcidas da ponte metálica dinamitada pelos soviéticos. Nossos batedores haviam montado a nova numa noite, diziam, e Feldgendarmes impassíveis, cujas placas em meia-lua irradiavam fagulhas de sol, organizavam a circulação com desenvoltura, como se ainda estivessem em casa; disseram-nos para esperar. Contemplei o grande rio preguiçoso, os pequenos bosques tranquilos do outro lado, a multidão na ponte. Depois foi a nossa vez de passar, e logo em seguida começava uma espécie de avenida de carcaças de material russo, caminhões queimados e amassados, tanques rasgados como latas de conserva, trens de artilharia enrugados como fetos, derrubados, varridos, misturados numa interminável faixa calcinada de pilhas irregulares ao longo dos acostamentos. Mais além, bosques resplandeciam sob a luz esplêndida do Outono». In Jonathan Littell, As Benevolentes, 2006, Publicações Dom Quixote, Alfragide, 2014, ISBN 978-972-203-304-6.

Cortesia PdomQuixote/JDACT

Conhecimentos, II Guerra Mundial, JDACT, Jonathan Littell, Memória Viva, Mulher, 

sábado, 5 de dezembro de 2020

As Benevolentes. II Guerra Mundial. Jonathan Littell. «Para o conjunto das perdas soviéticas, opto pelo número tradicional, citado por Khrutchev em 1956, de vinte milhões, ao mesmo tempo observando que Reitlinger»

jdact

Toccata

«(…) Nesse ritmo, espero um dia alcançar o estado de graça de Jerónimo Nadal e não influir em nada, apenas não influir em nada. Eis que me torno livresco; é um dos meus defeitos. Para azar da santidade, ainda não me livrei das necessidades. Ainda satisfaço minha mulher de tempos em tempos, conscienciosamente, com pouco prazer mas tampouco sem repulsa excessiva, a fim de garantir a paz doméstica. E, muito raramente, em viagens de negócios, dou-me o trabalho de reatar com meus antigos hábitos; mas, na prática, é apenas por uma questão de higiene. Tudo isso perdeu muito do interesse para mim. O corpo de um belo adolescente e uma escultura de Michelangelo são iguais: já não me sinto mais sem fôlego. É como depois de uma longa doença, quando os alimentos ficam sem gosto; qual a importância, então, de comer carne ou frango? É preciso alimentar-se, ponto final. A bem da verdade, não existe mais muita coisa que me interesse. A literatura, pode ser, ainda assim não estou convencido de que não seja por hábito. Talvez seja por isso que redijo essas recordações: para chacoalhar meu sangue, ver se ainda consigo sentir alguma coisa, se ainda sei sofrer um pouco. Exercício curioso. No entanto, eu deveria conhecer o sofrimento. Todos os europeus da minha geração passaram por ele, mas posso dizer sem falsa modéstia que vi mais que a maioria. E depois as pessoas esquecem rápido, constato isso todos os dias. Mesmo aqueles que lá estavam em geral só fazem uso, para falar disso, de pensamentos ou frases clichês. Basta ver a prosa lamentável dos autores alemães que abordam os combates no Leste: um sentimentalismo putrefato, uma língua morta, horrenda. A prosa de Herr Paul Carrell, por exemplo, autor de sucesso nos últimos anos. Acontece que conheci esse Herr Carrell, na Hungria, na época em que ainda se chamava Paul Carl Schmidt e escrevia, sob a égide de seu ministro Von Ribbentrop, o que pensava de verdade numa prosa vigorosa e cheia de estilo: A questão judaica não é uma questão de humanidade, não é uma questão de religião; é unicamente uma questão de higiene política. Agora, o honorável Herr Carrell-Schmidt conseguiu a façanha considerável de publicar quatro volumes insípidos sobre a guerra na União Soviética sem mencionar uma única vez a palavra judeu. Sei disso, li: é árduo, mas sou teimoso. Nossos autores franceses, os Mabire, os Landemer e outros do gênero, não valem mais que isso. Quanto aos comunistas, é a mesma coisa, só que do ponto de vista oposto. Onde se meteram aqueles que cantavam Filhos, amolem suas facas no meio-fio das calçadas? Ou estão calados, ou mortos. Tagarela-se, careteia-se, chafurda-se numa turba insossa modelada pelas palavras glória, honra e heroísmo, é cansativo, ninguém fala disso. Talvez eu esteja sendo injusto, mas ouso esperar que me compreendam.

A televisão nos entope com números, números impressionantes, uma fila de zeros; mas quem de vós pára às vezes para pensar realmente nesses números? Quem de vós tentou ao menos uma vez na vida contar quantas pessoas conhece ou conheceu até hoje e comparar esse número ridículo aos números que vê na televisão, os famosos seis milhões ou vinte milhões? Vamos à matemática. A matemática é útil, oferece perspectivas, refresca o espírito. É um exercício às vezes muito instrutivo. Tenham então um pouco de paciência e concedam-me a sua atenção. Vou considerar que os dois teatros em que desempenhei um papel, ainda que ínfimo, foram: a guerra contra a União Soviética e o programa de extermínio oficialmente designado em nossos documentos como Solução Final da Questão Judaica, Endlösung der Judenfrage, para citar tão belo eufemismo. No que se refere às frentes de batalha no Ocidente, de toda forma, as perdas foram relativamente menores. Meus números de partida serão um pouco arbitrários: não tenho escolha, não há consenso. Para o conjunto das perdas soviéticas, opto pelo número tradicional, citado por Khrutchev em 1956, de vinte milhões, ao mesmo tempo observando que Reitlinger, reputado autor inglês, encontra apenas doze, e Erickson, autor escocês tão reputado quanto, se não mais, por sua vez atinge um total mínimo de vinte e seis milhões; os números oficiais soviéticos, assim, cortam muito nitidamente a maçã em duas, com a diferença de um milhão. Para as perdas alemãs, apenas na URSS, entenda-se, podemos nos basear na cifra mais oficial e germanicamente precisa de 6.172.373 soldados perdidos no Leste entre 22 de Junho de 1941 e 31 de Março de 1945, cifra contabilizada num relatório interno do OKH (o Alto-Comando do Exército) encontrado depois da guerra, mas englobando os mortos (mais de um milhão), os feridos (quase quatro milhões) e os desaparecidos (ou seja, mortos, prisioneiros e prisioneiros mortos, cerca de 1.288.000). Digamos então, para abreviar, dois milhões de mortos, os feridos não nos interessam aqui, incluindo os cerca de cinquenta e poucos mil mortos suplementares entre 1º de Abril e 8 de Maio de 1945, principalmente em Berlim, a que devemos acrescentar ainda o milhão de civis mortos estimado durante a invasão do Leste alemão e deslocamentos subsequntes de populações, ou seja, no total, digamos, três milhões. Quanto aos judeus, podemos escolher: a cifra consagrada, ainda que poucas pessoas saibam sua origem, é de seis milhões (foi Höttl quem disse a Nuremberg que Eichmann lhe dissera; mas Wisliceny, por sua vez, afirmou que Eichmann mencionara a cifra de cinco milhões aos seus colegas; e o próprio Eichmann, quando os judeus finalmente puderam lhe fazer a pergunta pessoalmente, respondeu entre cinco e seis milhões, mais possivelmente cinco)». In Jonathan Littell, As Benevolentes, 2006, Publicações Dom Quixote, Alfragide, 2014, ISBN 978-972-203-304-6.

Cortesia PdomQuixote/JDACT

Conhecimentos, II Guerra Mundial, JDACT, Jonathan Littell, Memória Viva, Mulher, 

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

As Benevolentes. II Guerra Mundial. Jonathan Littell. «Mas ele percebia muito bem que tínhamos interesses em comum: eu, em arranjar um posto, e ele, em manter o seu»

jdact

Toccata

«(…) É verdade, eu falava um francês impecável; é que tive mãe francesa; passei dez anos da minha infância na França, fiz o primário, o curso preparatório e até dois anos de estudos superiores, na ELSP, e como cresci no Sul podia inclusive impingir uma pitada de sotaque meridional, de toda a forma ninguém prestava atenção, era realmente uma bagunça, recebiam-me em Orsay com uma sopa, alguns insultos também, convém dizer que não tentei me fazer passar por um deportado, mas por um trabalhador da STO, e disso eles não gostavam muito, os gaullistas, então me maltrataram um pouco, os outros pobres coitados também, depois nos soltaram, nada de Lutetia para nós, mas a liberdade. Não fiquei em Paris, conhecia muita gente lá, e do tipo irrelevante, fui para o interior, vivi de pequenos expedientes aqui e ali. Depois as coisas se acalmaram. Logo pararam de fuzilar as pessoas, mais um pouco e sequer se davam o trabalho de levá-las para a prisão.

Então fiz umas buscas e acabei encontrando um conhecido meu. Ele tinha-se saído bem, passara de uma administração à outra sem choques; homem precavido, tivera grande cuidado em não alardear os favores que nos prestava. No início, não queria-me receber, mas quando finalmente compreendeu quem eu era viu que não tinha realmente escolha. Não posso dizer que foi uma conversa agradável: reinava uma nítida sensação de desconforto, de constrangimento. Mas ele percebia muito bem que tínhamos interesses em comum: eu, em arranjar um posto, e ele, em manter o seu. Ele tinha um primo no Norte, um ex-despachante que estava tentando montar uma pequena empresa com três Leavers recuperados junto a uma viúva falida. Esse homem me contratou, eu tinha que viajar, ir de porta em porta vendendo os seus rendados. Eu tinha horror àquele trabalho; finalmente consegui convencê-lo de que poderia ser mais útil no plano da organização. É verdade que eu tinha uma boa experiência nesse domínio, ainda que não pudesse aproveitá-la, como no caso do meu doutorado. A empresa cresceu, sobretudo a partir dos anos 50, quando reatei laços na República Federal e consegui abrir o grande mercado alemão para nós. Poderia ter voltado para a Alemanha na época: vários dos meus ex-colegas viviam lá na maior tranquilidade, alguns haviam cumprido uma pena curta, outros sequer foram perturbados. Com o meu currículo, eu poderia ter recuperado o meu nome, meu doutorado, reivindicado uma pensão de ex-combatente e de invalidez parcial, ninguém teria notado. Teria encontrado trabalho rapidamente. Mas, eu pensava, que interesse havia naquilo? O direito, no fundo, motivava-me tão pouco quanto o comércio, e depois eu acabara tomando gosto pela renda, essa deslumbrante e harmoniosa criação do homem. Quando compramos teares suficientes, meu patrão decidiu abrir uma segunda fábrica e me entregou a sua direcção. É esse posto que ocupo desde então, à espera da reforma. Nesse período casei-me, com certa repugnância, é verdade, mas aqui, no Norte, isso era mais que necessário, uma forma de consolidar minhas conquistas. Escolhi-a de boa família, relativamente bonita, uma mulher como convém, e dei-lhe imediatamente um filho, um pouco para ocupá-la. Infelizmente ela teve gémeos, deve ser coisa da família, da minha, quero dizer, para mim um pirralho teria sido mais que suficiente. Meu patrão me adiantou um dinheiro, comprei uma casa confortável, não muito longe do mar. Foi assim que fui parar no meio da burguesia. Em todo o caso, era melhor daquele jeito. Depois de tudo que aconteceu, eu precisava sobretudo de calma e regularidade. Meus sonhos de juventude, o curso da minha vida lhes quebrara a espinha e minhas angústias haviam-se dissipado lentamente, de uma ponta da Europa alemã à outra. Saí da guerra um homem vazio, apenas com amargura e uma vergonha infinita, como areia rangendo nos dentes. Assim, uma vida de acordo com todas as convenções sociais me calhava: um casulo confortável, ainda que o contemple frequentemente com ironia, às vezes com ódio». In Jonathan Littell, As Benevolentes, 2006, Publicações Dom Quixote, 2014, Alfragide, ISBN 978-972-20-3304-6.

Cortesia PdomQuixote/JDACT

Conhecimentos, II Guerra Mundial, JDACT, Jonathan Littell, Memória Viva, Mulher,

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

As Benevolentes. II Guerra Mundial. Jonathan Littell. «Fiz estudos de direito e de economia política, sou doutor em direito, na Alemanha as letras Dr. jur. fazem legalmente parte do meu nome»

jdact

Toccata

«(…) Os primeiros teares de tule ingleses, segredo ciosamente guardado, entraram como contrabando na França no dia seguinte às guerras napoleónicas, graças a operários que fugiam das taxas alfandegárias; foi um lionês, Jacquard, que os modificou para produzir renda, introduzindo uma série de cartões perfurados que determinam o padrão. Cilindros, por baixo, alimentam o trabalho com linha; no coração do tear, cinco mil bobinas, a alma, são comprimidas num carro; depois um catch-bar (preservamos em nossa língua alguns termos ingleses) vem segurar e chacoalhar esse carro, com um grande estalido hipnótico, para a frente e para trás. As linhas, guiadas lateralmente por combs em cobre sobre chumbo, segundo uma coreografia complexa codificada por quinhentos ou seiscentos cartões Jacquard, tecem os pontos; um pescoço de cisne faz o pente subir; finalmente aparece a renda, aracnídea, vacilante sob sua camada de grafite, vindo se enrolar lentamente num tambor fixado no topo do Leavers. O trabalho na fábrica segue uma rigorosa segregação sexual: os homens criam os motivos, perfuram os cartões, montam as séries, vigiam os teares e administram os subsidiários; suas mulheres e filhas, por sua vez e ainda hoje, continuam a enrolar, desgrafitar, reparar, desfiar e dobrar. As tradições são fortes. Os rendeiros, aqui, formam algo como uma aristocracia proletária. O aprendizado é longo, o trabalho, delicado; no século passado, os rendeiros de Calais chegavam à fábrica de caleche e de cartola, e tratavam o patrão por você. Os tempos mudaram. A guerra, apesar de alguns teares usados pela Alemanha, arruinou a indústria. Foi preciso recomeçar tudo do zero; actualmente restam apenas cerca de trezentos teares no Norte, onde funcionavam quatro mil antes da guerra. Contudo, durante a retomada económica, os rendeiros compraram automóveis bem antes dos burgueses. Mas os meus operários não me tratam por você. Não creio que gostem de mim. Isso não é grave, não lhes peço que gostem de mim. Além disso, tampouco gosto deles. Trabalhamos juntos, é tudo. Quando um funcionário é consciencioso e aplicado, quando a renda que sai do seu tear exige poucas repetições, dou-lhe uma recompensa no fim do ano; já aquele que chega atrasado ao trabalho, ou bêbado, castigo-o. Nessas bases, nos entendemos bem.

Vocês talvez estejam perguntando como fui parar no ramo do rendado. Eu estava longe de ser predestinado ao comércio. Fiz estudos de direito e de economia política, sou doutor em direito, na Alemanha as letras Dr. jur. fazem legalmente parte do meu nome. Mas é bem verdade que as circunstâncias me impediram de validar o meu diploma depois de 1945. Se realmente quiserem saber da história toda, eu também estava longe do direito: moço, queria acima de tudo estudar literatura e filosofia. Mas não deixaram; mais um triste episódio do meu romance familiar, talvez eu volte a isso. Devo contudo admitir que, no que se refere ao ramo das rendas, o direito é mais útil que a literatura. Eis mais ou menos como as coisas se passaram. Quando finalmente tudo acabou, consegui vir para a França e me fazer passar por francês; não era muito difícil, considerando o caos da época; voltei com os deportados, não faziam muitas perguntas» In Jonathan Littell, As Benevolentes, 2006, Publicações Dom Quixote, 2014, Alfragide, ISBN 978-972-20-3304-6.

Cortesia PdomQuixote/JDACT

Conhecimentos, II Guerra Mundial, JDACT, Jonathan Littell, Memória Viva, Mulher, 

sábado, 28 de maio de 2016

As Benevolentes. II Guerra Mundial. Jonathan Littell. «Ora se suspendermos o trabalho, as actividades banais, a agitação de todos os dias, para nos entregarmos seriamente a um pensamento, as coisas passam a ser completamente outras»

jdact

Toccata
«(…) A verdade é que nos estamos nas tintas para a última crise ministerial, mas de que mais havemos de falar? Eliminem-se os pensamentos do mesmo género, e toda a gente terá de reconhecer como eu que não resta muita coisa. Há, bem entendido, momentos diferentes. Inesperado entre dois anúncios de detergente, um tango de antes da guerra, digamos que a Violetta, e eis que ressurgem o murmurar nocturno do rio, as lanternas do bar, o leve cheiro a suor na pele de uma mulher alegre; à entrada de um parque, o rosto sorridente de uma criança traz-nos de regresso o do nosso filho, justamente pouco antes da altura em que começou a andar; na rua, um raio de sol trespassa as nuvens e ilumina as grandes folhas, o tronco alvacento de um plátano: e pensamos bruscamente na nossa infância, no pátio de recreio da escola onde brincávamos à guerra uivando de terror e de felicidade. Acabamos de ter um pensamento humano. Mas é muito raro.
Ora se suspendermos o trabalho, as actividades banais, a agitação de todos os dias, para nos entregarmos seriamente a um pensamento, as coisas passam a ser completamente outras. Depressa as coisas começam a vir à tona, em vagas densas e negras. À noite, os sonhos desarticulam-se, desdobram-se, proliferam, e ao despertar deixam uma fina camada acre e húmida na cabeça, que leva muito tempo a dissolver-se. Nada de mal-entendidos: não é de culpabilidade, de remorsos que aqui se trata. Isso existe também, sem dúvida, não quero negá-lo, mas penso que as coisas são muito mais complexas. Até mesmo um homem que não fez a guerra, que não teve de matar, sofrerá aquilo de que estou a falar. Regressam as pequenas maldades, a cobardia, a falsidade, os gestos mesquinhos que afligem todo e qualquer homem. Não é de admirar por isso que os homens tenham inventado o trabalho, o álcool, as conversas fiadas estéreis. Não é de admirar que a televisão tenha tanto sucesso. Em suma, em breve pus fim ao meu período de licença inoportuno, mais valia assim. Tinha tempo suficiente com efeito, à hora de almoço ou ao fim da tarde depois de as secretárias saírem, para me pôr a garatujar.
Uma breve pausa para ir vomitar, e recomeço. É mais outra das minhas numerosas pequenas aflições: de vez em quando, as minhas refeições voltam a vir-me à boca, por vezes logo a seguir a tomá-las, por vezes mais tarde, sem razão, assim sem mais. É um velho problema, uma coisa que data da guerra, que começou no Outono de 1941 para ser mais preciso, na Ucrânia, em Kiev penso eu, ou talvez em Jitomir. Também disso hei-de falar sem dúvida. Seja como for, desde então habituei-me: escovo os dentes, engulo um pequeno copo de álcool, e continuo o que estava a fazer. Voltemos às minhas recordações. Comprei vários cadernos escolares, de grande formato mas de quadriculado pequeno, que guardo na minha secretária dentro de uma gaveta fechada à chave. Antes, rabiscava notas em fichas de papel brístol, também com uma quadrícula miúda; agora, decidi retomar tudo isso de uma assentada. Para quê, não sei lá muito bem. Decerto que não para edificar a minha descendência. Se neste mesmo instante eu sucumbisse subitamente, de uma crise cardíaca, digamos, ou de uma embolia cerebral, e as minhas secretárias pegassem na chave e abrissem esta gaveta, teriam um choque, as pobres, e o mesmo se diga da minha mulher: as fichas em papel brístol serão largamente suficientes. Vai ser dentro em breve necessário queimar tudo isto para evitar o escândalo. Quanto a mim, tanto me faz, estarei morto. E bem vistas as coisas, ainda que me dirija aos que me lêem, não é para eles que escrevo.
O meu gabinete é um sítio agradável para se escrever, grande, sóbrio, tranquilo. Paredes brancas, quase sem decoração, um móvel de vitrina para as amostras; e ao fundo uma grande parede envidraçada que dá sobre a casa das máquinas. Mesmo com vidros duplos, o estalido incessante dos teares Leavers enche a sala. Quando quero pensar, deixo a minha mesa de trabalho e vou pôr-me diante do vidro, contemplo os teares alinhados aos meus pés, os movimentos seguros e precisos dos tecelões, deixo-me embalar. Por vezes, desço para deambular entre as máquinas. A sala é escura, os vidros sujos estão pintados de azul, porque a renda é frágil, tem medo da luz, e essa claridade azulada repousa-me o espírito. Gosto de me perder um tanto no bater monótono e sincopado que domina o espaço, esse compasso metálico a dois tempos, obsidiante. Os teares continuam a impressionar-me. São de ferro fundido, pintaram-nos de verde, e cada um deles pesa dez toneladas. Alguns são muito velhos, deixaram de ser produzidos há muito tempo; as peças para reparação, mando-as fazer de encomenda; é certo que passámos, a seguir à guerra, do vapor à electricidade, mas quanto às próprias máquinas não lhes tocámos. Não me aproximo delas para evitar sujar-me: as suas muitas peças móveis têm de ser constantemente lubrificadas, mas o óleo, evidentemente, arruinaria as rendas, por isso recorre-se à grafite, uma mina de chumbo triturada com que o tecelão salpica os órgãos em movimento com o auxílio de uma meia, manejada como um turíbulo. A renda fica negra de grafite, e esta cobre as paredes, e do mesmo modo o chão, as máquinas e os homens que as vigiam. Ainda que não lhes toque muitas vezes, conheço bem estes grandes aparelhos mecânicos». In Jonathan Littell, As Benevolentes, 2006, Publicações Dom Quixote, 2014, Alfragide, ISBN 978-972-20-3304-6.

Cortesia PdomQuixote/JDACT

terça-feira, 8 de julho de 2014

As Benevolentes. II Guerra Mundial. Jonathan Littell. «… o aturdimento dos sobreviventes, um silêncio estranho como uma placa sobre os tímpanos, o começo do medo prolongado, calmo? Sim, continuo calmo, aconteça o que acontecer, nada dou a ver…»

jdact

Toccata
«(…) Declarei-lhe que não, mas que leria o livro com interesse. De facto, tendo-me cruzado por um instante com ela, talvez mais tarde o conte aos leitores, se tiver coragem ou paciência para tanto. Mas ali, não tinha qualquer sentido falar disso. O livro, de resto, era bastante mau, confuso, lamuriento, banhado de uma curiosa hipocrisia religiosa. Talvez estas notas sejam também confusas e más, mas farei o melhor que puder para ser claro; posso garantir-vos que pelo menos se hão-de manter livres de toda a contrição. Não me arrependo de nada: fiz o meu trabalho, e foi tudo; quanto às minhas histórias de família, que talvez conte também, só a mim dizem respeito; e quanto ao resto, na parte final, forcei sem dúvida os limites, mas então já não era completamente eu próprio, vacilava e além disso à minha volta era o mundo inteiro que oscilava, não fui o único a perder a cabeça, todos terão de o reconhecer. E depois, não escrevo para alimentar a minha viúva e os meus filhos, pelo meu lado, sou perfeitamente capaz de prover às suas necessidades. Não, se acabei por decidir escrever foi com efeito para passar o tempo, e também, é possível, para esclarecer um ou dois pontos obscuros, talvez para os que me lêem e para mim próprio. Penso além disso que me fará bem fazê-lo. E verdade que o meu estado de humor é bastante baço. Por causa da prisão de ventre, sem dúvida. Problema aflitivo e doloroso, de resto novo para mim; outrora, era de facto o contrário. Durante muito tempo, tive de ir à casa de banho três, quatro vezes por dia; agora, uma vez por semana seria uma felicidade.
Estou reduzido a clisteres, processo o mais desagradável possível, mas eficaz. Peço desculpa de falar de pormenores tão escabrosos: tenho bem o direito de me queixar um pouco. E depois os leitores que não o suportem fariam melhor em ficar por aqui. Não sou Hans Frank, não gosto, no que me toca, de rodeios. Quero ser preciso, na medida dos meus meios. Apesar dos meus vezos, e foram numerosos, continuei a ser dos que pensam que as únicas coisas indispensáveis à vida humana são o ar, o comer, o beber e a excreção, e a busca da verdade. O resto é facultativo. Há algum tempo, a minha mulher trouxe para casa um gato preto, pensando sem dúvida causar-me prazer. Bem entendido, não me perguntara a minha opinião. Devia suspeitar que eu teria recusado terminantemente, o facto consumado era mais seguro. E uma vez dado o passo, nada a fazer, os netos começariam a chorar, etc. Contudo este gato era bastante desagradável. Quando tentava fazer-lhe festas, para dar mostras de boa vontade, fugia para se sentar no rebordo da janela e fixava em mim os seus olhos amarelos; se procurava pegar-lhe ao colo, arranhava-me. À noite, pelo contrário, vinha deitar-se enrolado numa bola em cima do meu peito, uma massa sufocante, e no meu sono eu sonhava que me asfixiavam por baixo de um monte de pedras. Com as minhas recordações, passou-se um pouco a mesma coisa. A primeira vez que me decidi a registá-las por escrito, pedi uma licença. Foi provavelmente um erro. As coisas estavam todavia bem encaminhadas: comprara e lera uma quantidade considerável de livros sobre o assunto, a fim de refrescar a memória, delineara quadros de organização, estabelecera cronologias detalhadas, e assim por diante. Mas com aquele período de licença tinha de repente tempo e pusera-me a pensar. Além disso era Outono, uma chuva cinzenta e suja despia as árvores, afundei-me lentamente na angústia. Apercebi-me de que pensar não é coisa boa.
Poderia ter desconfiado antes, os meus colegas consideram-me um homem calmo, pausado, reflectido, calmo, com certeza; mas muitas vezes durante o dia a minha cabeça começa a rugir, surdamente como um forno crematório. Falo, discuto, tomo decisões, como toda a gente; mas ao balcão do bar, diante da minha aguardente, imagino que um homem entra com uma caçadeira e abre fogo; no cinema ou no teatro, represento-me uma granada despoletada que rola por baixo das cadeiras em fila; na praça pública, num dia de festa, vejo a deflagração de um veículo cheio de explosivos, a animação da tarde transformada em carnificina, o sangue correndo por entre as pedras da calçada, os pedaços de carne colados às paredes ou projectados através das janelas para aterrarem na sopa dominical, ouço os gritos, os gemidos das pessoas com os membros arrancados como as patas de um insecto por um rapazinho curioso, o aturdimento dos sobreviventes, um silêncio estranho como uma placa sobre os tímpanos, o começo do medo prolongado, calmo? Sim, continuo calmo, aconteça o que acontecer, nada dou a ver, permaneço tranquilo, impassível, como as fachadas mudas das cidades sinistradas, como os velhinhos nos bancos dos parques com as suas bengalas e as suas medalhas, como os rostos à flor das águas dos afogados que nunca chegam a encontrar-se. De quebrar esta calma aterradora, eu seria de facto incapaz, ainda que o quisesse. Não sou dos que fazem um escândalo por causa de um sim ou de um não, sei conter-me.
Todavia, também a mim estas coisas pesam. O pior não são forçosamente as imagens que acabo de descrever; fantasias como essas habitam-me há muito, desde a minha infância sem dúvida, e em todo o caso desde muito antes de também eu ter dado comigo em pleno talho. A guerra, neste sentido, não foi mais do que uma confirmação, e habituei-me a esses pequenos guiões, tomo-os como um comentário pertinente sobre a vaidade das coisas. Não, o que se revelou penoso, pesado, foi não me ocupar senão de pensar nisso. Considere-se o seguinte: em que pensa o cidadão, ao longo de um dia? Em muito pouca coisa, de facto. Estabelecermos uma classificação reflectida dos seus pensamentos correntes seria coisa fácil: pensamentos práticos ou mecânicos, planos que organizam os gestos e o tempo (exemplo: pôr a água do café a ferver antes de lavar os dentes, mas as fatias de pão a torrar depois, porque ficam prontas mais depressa); preocupações ligadas ao trabalho; questões financeiras; problemas domésticos; fantasias sexuais. Pouparei os detalhes. Ao jantar, contemplamos o rosto que envelhece da nossa mulher, incomparavelmente menos excitante do que a amante, mas muito melhor do que ela em todos os aspectos, que se há-de fazer, é a vida, e começamos a falar da última crise ministerial». In Jonathan Littell, As Benevolentes, 2006, Publicações Dom Quixote, 2014, Alfragide, ISBN 978-972-20-3304-6.

Cortesia PDQuixote/JDACT

quinta-feira, 12 de junho de 2014

As Benevolentes. II Guerra Mundial. Jonathan Littell. «Uma pequena granada redonda que despoletaria com delicadeza antes de soltar a cavilha, sorrindo ao pequeno som metálico da mola, o último que ouviria, exceptuadas as pulsações do meu coração nos meus ouvidos»

jdact
 
Toccata
«Irmãos humanos, deixem-me contar-vos como foi que se passou. Não somos seus irmãos, replicarão os que me lêem, e não queremos saber. E é bem verdade que se trata de uma história sombria, mas também edificante, um verdadeiro conto moral, garanto-vos eu. Corre o risco de ser um tanto comprida, afinal de contas passaram-se muitas coisas, mas caso os leitores não esteiam demasiado apressados, com um pouco de sorte o tempo há-de chegar. E depois isto diz-vos respeito: acabarão por ver bem que vos diz respeito. Não pensem que procuro convencer-vos seja do que for; bem vistas as coisas, as opiniões do leitor são da sua conta. Se me decidi a escrever depois de todos estes anos, é para esclarecer as coisas para mim mesmo e não para os que me lêem. Durante muito tempo, cada um de nós rasteja nesta terra como uma lagarta, na expectativa da borboleta esplêndida e diáfana que traz em si. E depois o tempo passa, a ninfose não chega, ficamos larva, constatação aflitiva, que havemos de fazer com ela? O suicídio, bem entendido, continua a ser uma opção. Mas, para dizer a verdade, o suicídio tenta-me pouco. Pensei longamente nele, é evidente; e se tivesse de me valer desse recurso, eis como procederia: poria uma granada bem apertada contra o meu coração e partiria numa viva explosão de júbilo. Uma pequena granada redonda que despoletaria com delicadeza antes de soltar a cavilha, sorrindo ao pequeno som metálico da mola, o último que ouviria, exceptuadas as pulsações do meu coração nos meus ouvidos. E depois a felicidade enfim, ou em todo o caso a paz, e as paredes do meu escritório enfeitadas com os meus retalhos. Para as mulheres-a-dias ficará o trabalho de limpeza, é para isso que são pagas, tanto pior para elas. Mas, como disse, o suicídio não me tenta. Não sei porquê, de resto, um velho fundo de moral filosófica talvez, que faz com que eu me diga que afinal de contas não é para nos divertirmos que cá estamos. Para fazer o quê, então? Não faço ideia, para durar, sem dúvida, para matar o tempo antes que ele nos mate. E nesse caso, como ocupação, nas horas vagas, escrever não vale menos do que qualquer outra coisa. Não que eu tenha horas vagas em demasia, sou um homem ocupado; tenho aquilo a que se chama uma família, um trabalho, e por conseguinte responsabilidades, tudo isso nos toma tempo, não nos deixando muito para descrevermos as nossas recordações. Tanto mais que recordações, tenho-as, e até mesmo numa quantidade considerável.
Sou uma verdadeira fábrica de recordações. Poderia ter passado a vida a manufacturar recordações minhas, ainda que me paguem antes, agora, a manufactura de rendas. De facto, poderia igualmente não escrever. Bem vistas as coisas, não é uma obrigação. Desde o fim da guerra, mantive-me um homem discreto; graças a Deus, nunca tive necessidade, como alguns dos meus ex-colegas, de escrever as minhas Memórias com intuitos de justificação, porque nada tenho a justificar, nem com propósitos lucrativos, porque ganho bastante bem a minha vida com o que faço. Uma vez, estava na Alemanha, numa viagem de negócios, discutia com o director de uma grande casa de peças de roupa íntima, ao qual pretendia vender rendas. Fora-lhe recomendado por antigos amigos; assim, sem fazermos perguntas, sabíamos os dois a que nos atermos, um em relação ao outro. A seguir à nossa entrevista, que se desenrolara aliás de maneira bastante positiva, levantou-se para tirar um volume da sua biblioteca e ofereceu-mo. Eram as memórias póstumas de Hans Frank, o Governador-Geral da Polónia; o livro intitulava-se Frente ao Cadafalso. Recebi uma carta da viúva dele, explicou-me o meu interlocutor. Editou à sua custa o manuscrito, que ele redigiu depois do seu processo, e está a vender o livro para cobrir as necessidades dos filhos. Imagine o ponto a que as coisas chegaram. A viúva do Governador-Geral. Encomendei-lhe vinte exemplares, para os oferecer. Propus também a todos os meus chefes de departamento que comprassem um. Ela escreveu-me uma carta de agradecimentos comovente. Você conheceu-aIn Jonathan Littell, As Benevolentes, 2006, Publicações Dom Quixote, 2014, Alfragide, ISBN 978-972-20-3304-6.

Cortesia PDQuixote/JDACT

quarta-feira, 11 de junho de 2014

O Mundo em que Vivi. Memórias. Ilse Losa. «A dela era toda de linho caseiro e, portanto, são só bonita como também resistente, o que levava a avó a profetizar que eu, depois de crescida e já dona de casa, ainda me deleitaria com os lençóis de entremeios feitos à mão»

jdact

«O meu avô, homem alto e magro, de cara larga, ossuda e um tanto avermelhada, olhos claros e quase sempre tristes, tinha o costume de levantar as sobrancelhas espessas quando dizia alguma coisa importante. Isso impressionava-me; achava bonito, talvez extravagante e por isso mais me desgostava ver-lhe as pingas de sopa presas no grande bigode pendente pare cada lado da boca. Não ligava com ele, sempre apurado e cheio de brio, que penteava o seu cabelo grisalho, muito farto, com o máximo cuidado. Limpa a boca, avô, dizia eu. Ora, ora, respondia ele. A avó contrastava com a figura esguia e imponente do avô. Era baixa, multo baixa mesmo, tinha uma cara miúda, cheia de rugas, e puxava o cabelo branco para cima da cabeça onde o juntava num, puxozinho redondo apertado. Se tivesse vivido na Península e sido pobre, não teria necessitado da rodilha para transportar carretos na cabeça. Usava sempre vestidos escuros que cobria, em casa, com um avental da cor da cinza.
Eu, a julgar pelas velhas fotografias, não passava duma menina frágil, de cabelo loiro. Nas feições lisas, infantis, retocadas pelo fotógrafo da aldeia, não descubro mais nada que valha a pena destacar. Vivíamos os três numa pequena casa com a varanda deitada sobre a rua e coberta com vides. Ali minha avó passava as tardes de Verão a fazer meia ou a costurar. Ao certo não me recordo se ela costurava, mas suponho que o fazia, pois não me lembro de nenhuma costureira que lhe tivesse feito esse serviço. Seja como for: que fazia meia nunca o poderei esquecer. Vejo-a sentada na cadeira de espaldar, as agulhas a baterem rapidamente, enquanto observava o que se ia passando na rua. Tão treinada estava em fazer meia que nem precisava de olhar. Aliás, as meias eram infalivelmente pretas, fossem para ela própria, para o avô ou para mim. Por isso eu, apesar de tão pequena ainda, tinha de andar sempre de meias pretas. Isso causava-lhe desgosto porque nenhuma das crianças com quem convivia usava meias pretas e eu queria ser igual a elas. Cheguei a falar à avó nesse meu desgosto, mas ela repreendeu-me: - Não digas tolices, Rose. Se as outras crianças não usam meias pretas é porque as mães-delas não sabem ser práticas e económicas. Eis duas palavras que, cedo, aprendi a detestar: prático e económico.
Da varanda entrava-se, por uma porta alta e escura, para o corredor estreito e comprido, género funil. Das duas grandes plantas, em vasos pintados de roxo, a cada lado dessa porta, ficou-me gravado, na memória o seu cheiro triste, quase fúnebre. Talvez elas tivessem esse cheiro por nunca darem flores ou por as suas folhas fininhas serem tão profundamente escuras. Mas é difícil adivinhar quais os sentimentos e as reacções íntimas das plantas. O armário enorme, encostado à parede, também se me gravou na memória. Dum castanho tão brilhante como um espelho, e tão imponente, pelo seu tamanho, chegava a ser misterioso. Só a avó lá podia mexer. Abria-o com uma das chaves que trazia, num molho; no bolso do avental. Por vezes, chamava-me para me mostrar aquilo que considerava a coisa mais preciosa duma dona de casa: a roupa branca. A dela era toda de linho caseiro e, portanto, são só bonita como também resistente, o que levava a avó a profetizar que eu, depois de crescida e já dona de casa, ainda me deleitaria com os lençóis de entremeios feitos à mão, das toalhas, toalhinhas, guardanapos, toalhas de rosto e de cozinha. Eu fazia um esforço para conseguir apreciar toda aquela brancura, mas o único encanto que lhe conseguia encontrar era o cheiro. É que minha avó costumava encher saquinhos com alfazema e metê-los por entre as peças de roupa, que cheiravam a campos e relvados floridos». In Ilse Losa, O Mundo em que Vivi, Portugália Editora, Lisboa, Memórias, 1964.

Cortesia Portugália/JDACT

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Memória Viva. Dávamos Grandes Passeios ao Domingo. Feliciano Falcão. «Na ardência humana que franja essa temática. Porque a sua caminhada é comum a todo o ser que sente, que pensa, que age. Que sofre. Que ama. Que sonha. Desde o pasmo do nascer. No espasmo de viver. Para depois morrer»

jdact

Dávamos Grandes Passeios ao Domingo
«Em vezes que não foram poucas, eu escrevi sobre José Régio. No jornal A Rabeca e noutros lados. E falei, também. E até na televisão, depois do 25 de Abril. Lembro-me da primeira. Em 1941. Quando vivia em Alegrete, como médico. (Ali, num meio primitivo e devastador. Sem glória, sem proveito. sem a protecção estatal para as tarefas de saúde integral). Ao discorrer acerca dos Poemas de Deus e do Diabo, num artigo cheio de calor e de adjectivações entusiásticas. Em palavras que, sem o esperar, deram polémica na nossa pacata cidade. Com este escrito nos encontrámos. E, assim, eu tive, aqui, em Portalegre, a sorte rara de conhecer um Homem e um Génio.
Um Homem e um Génio, que é a síntese que fui fazendo, no correr do tempo, deste meu Amigo. Numa convivência de quase trinta anos. Na leitura da sua obra imensa e multímoda. A descobrir nessa convivência uma natureza humana riquíssima. A descobrir nessa leitura uma escrita avassaladora e ímpar. O Homem. O Homem que eu descobri. Na solidão e na solidariedade.
Na solidão impressionante da sua casa no largo da Boavista. Da sua casa velha, grande, tosca e bela, cheia de silêncios e espantos..., onde, com excepção dos Poemas... e da Biografia, imaginou toda a sua obra imorredoura. Na solidariedade entre os amigos. Igualitário no contacto. Sem egotismo. Sem narcisismo. A abrir-se, com o fascínio da sua fala lenta e pausada, na abordagem dos escritores que amava. Camilo, Antero, Nobre, Cesário, Florbela, Irene Lisboa, Sá-Carneiro, Sérgio... Flaubert, Tolstoi, Dostoievski... A abrir-se, senhor de uma fina sensibilidade e de uma inteligência superior, em diálogos intérminos, transfiguradores e formadores. A conduzir-nos, com o seu rigor e a sua exigência (o seu socratismo...) ao raciocínio claro e à maturidade dos juízos. À nossa definição, à nossa personalização. A respeitar-nos as opções e a liberdade.
Na solidariedade, na solidariedade escondida. A responder a cartas de semelhantes em aflição. Desconhecidos. A prestar-lhes ajuda moral e material. Em que depauperava mais a sua magra bolsa, sempre desequilibrada com os gastos do coleccionador infatigável de arte sacra e popular que era. (Esta é uma das faces ocultas de José Régio. A praticar o cristianismo no real. Em que a maior parte dos cristãos o pratica mal). Na solidariedade, ainda. Na solidariedade com o nosso povo. Contra a inumanidade de Salazar e a hediondez da ditadura. Na defesa de uma polis racionalizada, a pregar a Democracia. Como elemento acérrimo do MUD e partidário, na primeira linha, de Norton de Matos e de Humberto Delgado, nas campanhas presidenciais de 49 e 57. O Génio de José Régio.
Na nudez e na totalidade do vital. Sem instintivismos, ou humorismos, ou esteticismos. E que nessa nudez e nessa totalidade é do mais tenso e do mais patético da nossa literatura de todos os tempos. Na suma admirável dos seus poemas, dos seus romances, das suas novelas, dos seus contos, dos seus dramas. (Na intelecção lucidíssima dos seus ensaios e das suas críticas). Suma em que dividido entre o humano e o seu divino, perpassa a luta sem tréguas do seu ego consigo próprio. A sua fome de vida. A sua sede absoluta. O seu desejo de Deus. Na interrogação. No grito. Na confissão.
Em que perpassa a fraternidade com os humilhados e os ofendidos. Espoliados na sobrevivência e na dignidade, pelos prepotentes, pelos privilegiados e pelos ostentadores do dinheiro e do luxo. Em que a imagem da Mulher nos é dada com compreensão e amor. Nas suas consumições, nas suas frustrações, nas suas alienações. Que eu seja agnóstico e materialista do ponto de vista filosófico, cingido, portanto, à terrenidade, não obsta que admire o espírito criador de José Régio até à ilimitação. No fulcral da sua temática de fogo, na senda da religiosidade e da mística.


Na ardência humana que franja essa temática. Porque a sua caminhada é comum a todo o ser que sente, que pensa, que age. Que sofre. Que ama. Que sonha. Desde o pasmo do nascer. No espasmo de viver. Para depois morrer. Daí, destas palavras que aqui deixo, eu ousar dizer que José Régio, com o seu polimorfismo, o seu poliedrismo, a sua circularidade, é a figura literária mais singular do nosso século. No meio de tantas individualidades que também me deslumbram». In A Cidade, n.º especial dedicado aos 15 Anos da Morte de José Régio, 1984.

In Feliciano Falcão, Memória Viva, Coordenação de António Ventura, Edições Colibri, C. M. de Portalegre, 2003, ISBN 972-772-440-X.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Feliciano Falcão. Memória Viva. Fernando Martinho. II. «A Quinta da Vista Alegre na Serra tornou-se-me, ao longo dos anos, um lugar de paz e refúgio. Não só à procura de um interlocutor atento aos múltiplos sinais dos tempos, do mundo da cultura e dos outros mundos»


jdact

In Memoriam de JLT

Memória de Feliciano Falcão
«De Régio, de assiduidade irregular, me lembro de ter um dia ficado indisposto com a audição de uma peça (de Stockhausen?), que terá atingido zonas mais fundas da sua sensibilidade. Forte era magnífico a ler poesia, habitualmente de autores coligidos na antologia da Portugália organizada por Jorge de Sena, e que era, para alguns dos mais novos, indispensável livro de cabeceira. O pivot do grupo era sem dúvida Feliciano Falcão, homem de grande exigência cultural no domínio da literatura e das artes, pintura e música, actualizadíssimo, e muito atento às grandes questões que estavam no centro do debate cultural, a nível internacional. Mais tarde, sobretudo quando ele já residia na casa da Serra, tive ocasião de avaliar a extensão e a fundura dos seus interesses culturais, as suas firmes preferências musicais, Bartok, Anton von Webern, Luigi Nono, Luciano Berio, o seu insaciável amor pela literatura, a sua frequentação não apenas dos autores nacionais e dos franceses, como era de regra nas classes cultivadas da altura, mas também de escritores de outras áreas culturais como os espanhóis, de quem sempre, pelas vicissitudes históricas dos nossos dois povos, se sentiu muito próximo, ou os italianos, e ainda os Alemães de quem se reaproximou, num caso e noutro, em parte devido às deslocações frequentes que passou a fazer aos países onde viviam duas das suas filhas. Ainda hoje, quando me lembro do que era a largueza da cultura e do saber deste homem, e do generoso desejo de partilha que animava toda a sua intervenção, necessariamente também a que se situava no campo político, me interrogo como foi possível uma figura assim numa cidade que pouco teria a ver, espero, com o que me parece ser a cidade de hoje, mais aberta certamente aos ventos de mudança e inovação.
Por isso, nunca direi o suficiente acerca da alegria que me traz verificar o reconhecimento pela grandeza de um homem de cultura que deve ser apontado aos seus concidadãos como modelo de valores, como referência, numa época sempre à beira de perder o sentido da memória.
A Quinta da Vista Alegre na Serra tornou-se-me, ao longo dos anos, um lugar de paz e refúgio. Não só à procura de um interlocutor atento aos múltiplos sinais dos tempos, do mundo da cultura e dos outros mundos. Mas também, e sobretudo, em busca da generosa sageza de vida de um homem que combinava a inquietação, a que não faltava uma dimensão angustiada, pelos problemas dos homens com a serenidade de quem chegara ao entendimento de que a vida só ganhava sentido na total disponibilidade para com o Outro. Havia sempre imensa gente naquela casa, mas nunca senti dificuldades em encontrar espaços de concentração, de partilha, nas conversas com Feliciano Falcão e outros visitantes (quem sabe se à procura também do que ali, me levava), à volta de um livro, de um quadro, de um trecho musical, de um acontecimento político do momento. E havia ainda tempo, quando a visita era mais demorada, para fazer leituras próprias, ou mesmo escrever. Folheando há tempos os números que se publicaram da revista Sema, dei, num deles, com dois poemas que escrevi naquele ambiente de amizade e recolhimento. São textos onde paira a sombra da perda, que poucos meses antes se dera, de minha Mãe. E era de ‘dor’, de ‘aporia’, de ‘razão sombria’ que neles falava. Num deles, era a consciência aguda do heraclitiano fluir irreversível do tempo que dominava, e a Morte que me visitara atingira também irremediavelmente o espelho da infância onde nunca desistimos de nos procurar.
Mas àquele canto da sala grande, dando sobre a cidade lá ao fundo, azuladamente branca, com os verdes densos da vegetação descendo da Serra, em volta, muitas vezes havia de regressar. E ainda regresso. Pela memória, consoladora, aproximo-me dos quadros de Miguel Barrias, Abel Manta, Ventura Porfírio, abro uma janela e deixo que os cheiros fortes da Serra me devolvam as vidas que tive e as que não tive, oiço pedaços avulsos de conversas, Zélia falando da Natasha de Guerra e Paz, e, à mesa, sentado, no seu corpo grande e desajeitado, Feliciano Falcão sublinha artigos de jornal, absorto na fundura de uma vida a cuja partilha o seu olhar límpido e confiante permanentemente nos convidou».  
In Feliciano Falcão, Memória Viva, Coordenação de António Ventura, Edições Colibri, C. M. de Portalegre, 2003, ISBN 972-772-440-X.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Feliciano Falcão. Memória Viva. Fernando Martinho. I. «Não resisto à tentação de, aqui, transcrever o “Soneto do Desmantelo Azul”, que se tornou, para mim um poema de culto, que, ao longo dos anos, fomos recitando a todos os amigos amantes de poesia que nos visitavam»



jdact

Memória de Feliciano Falcão
«Tenho, entre os meus livros de autores brasileiros, um que especialmente prezo. E, no entanto, o seu autor não se encontra propriamente entre os de minha mais assídua frequentação, como os poetas Manuel Bandeira, Carlos Drummond Andrade ou João Cabral Neto. É que o livro em questão, Os Velhos Marinheiros, de Jorge Amado, me foi oferecido por um amigo muito querido, e tem inscrita numa das suas primeiras páginas uma dedicatória que me traz de volta todo um período de descoberta e exaltação da minha vida e a marca que nela, então, deixou, a figura que hoje estamos aqui a homenagear. Eis as palavras que Feliciano Falcão inscreveu à entrada do livro de Jorge Amado de que tão generosamente me fazia oferta:
  • ‘A Fernando Martinho, à sua juventude [...], para que se maravilhe como eu, quase com a sua idade, me maravilhei com Jubiabá e os Capitães da Areia... A dedicatória está datada de ‘Portalegre,30/10/1961’.
Tinha 23 anos, e uma das duas histórias da Bahia que constituíam o volume a tal ponto me deixou maravilhado que, trinta e poucos anos depois, quando me convidaram para colaborar num número de homenagem de uma revista italiana a Jorge Amado, foi sobre ‘A Morte e a Morte de Quincas Berro Dágua’ que, deliciadamente,escrevi (Quaderni lbero-Americani [Omaggio a Jorge Amado], n.º 74, Dezembro de 1993).
Não é, porém, desse escrito sobre a incrível história de Quincas e do lugar que nela ocupam o grotesco e o carnavalesco que quero, agora, falar. Retenho, sim, a homenagem que, então, decidi prestar a Feliciano Falcão, fazendo anteceder o meu texto da seguinte epígrafe:
  • À memória do meu saudoso amigo Feliciano Falcão, grande admirador de Jorge Amado, que em 1961 me ofereceu Os Velhos Marinheiros.
Pouco era, com certeza, mas assim deixava, de alguma forma, associada a esse escrito a memória de alguém que muito me marcara e a quem devia uma daquelas amizades, puras e limpas, que dão sentido à vida. (Releio, agora, a dedicatória do próprio Jorge Amado impressa no limiar do seu livro e constato com espanto que entre os seus dedicatários está um poeta brasileiro, Carlos Pena Filho, pouco antes falecido e de cuja poesia muito recentemente tomara conhecimento através de uma antologia organizada por Alberto Costa Silva, sob os auspícios do Escritório de Propaganda e Expansão Comercial do Brasil em Lisboa, A Nova Poesia Brasileira. Não resisto à tentação de, aqui, transcrever o “Soneto do Desmantelo Azul”, de Carlos Pena Filho, que se tornou, para mim e para a Joana, um poema de culto, que, ao longo dos anos, fomos recitando a todos os amigos amantes de poesia que nos visitavam:

Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas.

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramámos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembrámos
que no excesso que havia em nosso espaço
 pudesse haver de azul também cansaço.

E perdido de azul nos contemplámos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.

Também a Feliciano Falcão o demos a ouvir de uma vez que, com a Zélia, em Évora nos visitou. No sul ou no azul onde agora está certamente o lerá com vertiginoso agrado.
Em Outubro de 1961 andava eu absorvido com a redacção da tese de licenciatura. William Hazlitt ocupava-me, então, inteiramente as manhãs. Ao fim da tarde tinha um grupo de explicandos de Alemão. E à noite, no Facha, havia a roda de amigos. Régio, Feliciano Falcão eram presenças frequentes na tertúlia, que as autoridades olhavam com suspeição. Não me lembro exactamente quando, se ainda nos últimos meses desse ano, se já no decurso de 1962, começámos a reunir-nos, alguns do grupo do Facha, no escritório de António Teixeira e Ernesto de Oliveira. O pretexto para essas reuniões foram umas inocentes lições de Inglês, que estavam a meu cargo. Para além dos dois anfitriões, de um simpático juiz que apareceu duas ou três vezes, a turma, com diferentes graus de diligência, incluía o Ventura Reis, muito britânico no sentido de humor, no gosto pelo laço e nos casacos de linho no Verão, Feliciano Falcão, aplicadíssimo na preparação das lições, Manuel Dias Fonseca, musicólogo e professor de Física e Química no Liceu, Florindo Madeira, José Bizarro, e, uma vez por outra, Régio e António José Forte, com o cómodo estatuto de ouvintes. O Inglês não era efectivamente mais do que um saudável pretexto, e, ao fim de meia hora, pouco mais, podíamos fechar tranquilamente o manual, creio que da Longmans. Vinha, depois, o que nos interessava: as conversas sobre isto e aquilo, as audições de peças musicais, as leituras de textos. Dias Fonseca levava  consigo um daqueles pesadíssimos gravadores que então se usavam e era tudo menos complacente no que nos dava a ouvir: música de vanguarda, muito em sintonia com o que era o seu gosto exigentíssimo de connaisseur». 
In Feliciano Falcão, Memória Viva, Coordenação de António Ventura, Edições Colibri, C. M. de Portalegre, 2003, ISBN 972-772-440-X.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Feliciano Falcão. Memória Viva. José Régio e Portalegre. «O eco da sua poesia, da sua estética, de influxos renovantes, das suas capacidades críticas notáveis, da sua personalidade inconfundível, parece não ter chegado ainda a este recanto alentejano»


jdact

De Feliciano Falcão
«Para os que vivem os problemas do espírito, José Régio, no nosso meio, é uma rajada de luz e de conforto intelectual. Para os que não vivem (fruidores de conceitos estreitos, improdutivos e inertes), o poeta, na sua radiosa projecção, confunde o amorfismo das suas consciências primárias e vazias. Neste número, e isto é preciso dizer-se sem eufemismos, está a maior parte da intelectualidade portalegrense.
De surpreendentes vistas em redor, com cenários exteriores que deslumbram, Portalegre - berço de Duro e de Cristóvão Falcão - por dentro é de uma apatia desanimante. É frouxo o entusiasmo para as impressões estéticas, para as manifestações do espírito, em demanda de uma sã arrumação da vida, num plano de larga e luminosa beleza. Mentalidade fruste, eivada de paixões medíocres, parcelar no juízo e fragmentária de conhecimento, invertebrada e anárquica em fúteis e provincianas críticas, a maioria da nossa elite, sem uma apreensão viva do todo numa integração dinâmica, oposição anacrónica com o surto de anelos que o mundo põe na nossa frente, em complicada e extenuante equação, voga ao sabor de ideias feitas, alheia ao marulhar da Vida plena, num desinteresse pela cultura, desorientador e pasmoso.
Vive-se de estímulos epidérmicos e banais. A percepção é de sensório. A visualidade é superficial e baça. Não há a noção de perspectiva e de síntese globalizada. É triste desenhar o quadro, mas a realidade é assim e tudo o mais seria figurar um rodeio de artifício que encobrisse o abulismo e a insuficiência.
Fala-se do analfabetismo das massas, mas o das elites não é menor e requer combate, também. Onde o amoroso interesse pela arte e pela vida das ideias? Onde o anseio de uma cultura que enobreça? (Que faça Homens?).
Assiste-se a uma estagnação miseranda, a um embevecimento de ‘asinus ad lyram’. É bem verdade, Régio na nossa terra vive como na história conhecida: olham para ‘ele’ como boi para palácio... Não é isto um sintoma de vida materializada e grosseira? Quantos aqui se apontam que conheçam o poeta dos ‘Poemas de Deus e do Diabo’, da ‘Biografia’, das ‘Encruzilhadas de Deus’ e o coloquem conscientemente no panorama das nossas letras?
José Régio, poeta, crítico, romancista e escritor de teatro, reside há mais de dez anos em Portalegre, para onde o trouxeram seus labores profissionais, sem que à sua volta, em tempo algum, sentisse um lampejo de curiosidade pela sua obra originalíssima e vibrante (não deixemos de dizer: dos mais extraordinários das nossas letras contemporâneas). O eco da sua poesia, da sua estética, de influxos renovantes, das suas capacidades críticas notáveis, da sua personalidade inconfundível, parece não ter chegado ainda a este recanto alentejano. Não se dá por coisa alguma. E, no entanto, estamos na presença de um singular temperamento de intelectual que dignifica nobremente o espírito, onde o poeta se individualiza como dos maiores da nossa língua e da nossa literatura poética de todos os tempos.


A poesia de Régio é uma dissecação abismal do seu ‘Eu’, opresso e torturante. As suas faculdades intelectivas e uma imaginação cautelosa, temperada de emoção rubra, se debruçam persistentemente sobre o seu ser anímico com um ‘élan’ criador de grandeza imperecível. Nas suas dúvidas íntimas, na sua solidão, autobiópsia exaustiva, se devassam os recessos psíquicos do Homem e se procuram interpretar os seus destinos, numa ânsia quase mística de libertação e beleza integrais. Subjectivista, vivendo de si, para si e dentro de si, numa dramatização perene), seu Ego hipertrófico, de aparente renúncia perante os problemas da existência, plasma as angústias e os anseios de todos os homens numa inquietação gritante. Todos os que, cogitando sobre a Vida, alentam supremas altitudes, ali se espelham numa realidade fúlgida.
E assim se esquematiza um dualismo chocante: numa ambiência morna e monótona, um poeta vive para que se não olha. Alegrete, Novembro de 1941. A Rabeca, nº 1203, 6-12-1941, p. 1».  
In Feliciano Falcão, Memória Viva, Coordenação de António Ventura, Edições Colibri, C. M. de Portalegre, 2003, ISBN 972-772-440-X.

P.S.: O que acaba de ler-se foi escrito antes das leituras de ‘Fado’, recentemente aparecido. Do multiforme poder criador de Régio nova faceta aqui se espraia, de motivos humaníssimos.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT