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sexta-feira, 14 de março de 2014

A Rainha Inglesa de Portugal. Filipa de Lencastre. Manuela S. Silva. «… dirigindo-se-lhe como Philippe de Valois, que se chama a si próprio rei de França, renunciando ao contrato de vassalagem que os unia e declarando novamente a sua pretensão ao trono francês»

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Uma família real vassala dos de França
«(…) Durante o período em que estivera em França, Roger Mortimer, contra a vontade de Edward II, combinara o casamento do jovem Edward com uma das filhas do conde Wilhelm de Hainautl, Philippa, com quem aquele viria a casar em 1328. Foi assim aos 17 anos, já com casa constituída e pai de um herdeiro varão, primogénito e homónimo, que o titular da coroa de Inglaterra, depois de enfrentar, prender e mandar executar o conde da Marca e de afastar a mãe da corte, assumiu finalmente o poder. Para trás parecia ter deixado já uma outra aspiração, na qual, apesar de tudo, não fizera na altura um grande investimento. É que em 1328 a morte do tio Charles IV irmão da mãe, tinha deixado o poderoso reino de França sem descendência directa, ditando o fim da antiga dinastia reinante dos Capetos. Como candidatos masculinos mais próximos em termos familiares estavam precisamente Edward III de Inglaterra, cuja mãe, como dissemos, era irmã do rei defunto, e Philippe de Valois, conde de Anjou, Maine e Valois, primo destes. Já em situações anteriores, os juristas da corte francesa tinham ido buscar à vetusta Lei Sálica franca os princípios legais consuetudinários que afastavam as candidatas femininas da sucessão patrimonial e honorífica. Agora acentuavam, com base nos mesmos pressupostos, que se as mulheres não estavam autorizadas a herdar e a desempenhar cargos também não podiam ser transmissoras dos mesmos aos seus descendentes. Deste modo, Edward III de Inglaterra ficava impedido de assumir a função régia em França, pois só por via feminina, através da mãe, tinha direito a ela. A decisão legal francesa não foi porém aceite pelos Ingleses sem resistência. Edward ainda terá tentado viajar para Paris para se apresentar como pretendente ao trono mas, ao que parece, desistiu dos intentos sem ter chegado a um conflito aberto com o novo rei Philippe VI, apesar de ter apresentado um protesto formal ao saber que este fora apressadamente proclamado rei numa assembleia de nobres franceses.
Philippe VI decidiu contudo afrontar Edward III. Em 1330 insistiu em receber pessoalmente vassalagem lígia da parte do rei de Inglaterra, por causa do ducado da Aquitânia; Edward III aquiesceu e com esse gesto pareceu ter abandonado de vez os seus projectos franceses. Mas a verdade é que as provocações por parte do seu rival continuaram. Em termos militares, um dos problemas mais graves com que o rei inglês se defrontava respeitava aos direitos de suserania que, tradicionalmente, os monarcas de Inglaterra possuíam sobre a Escócia. Roger Mortimer tinha a eles renunciado, em nome de Edward III, pelo Tratado de Northampton de 1328. No entanto, o Parlamento não ratificara a decisão. Por esse mesmo tratado fora estabelecido o casamento de uma princesa plantageneta, Joan, irmã do rei David II, monarca escocês. Não se tendo, porém, com estas medidas evitado a continuação das hostilidades, em 1334 Edward III foi surpreendido com o desembarque dos monarcas escoceses em França, procurando o apoio de Philippe VI.
A tal desafio Edward III respondera com a organização de uma campanha militar na Escócia para a qual recebeu o apoio de um cunhado vindo da Alemanha e de outros nobres provenientes da zona dos Países Baixos. Apesar de se tratar de uma guerra feudal, o conflito parecia generalizar-se e organizar-se em duas frentes. Esperava-se, a todo o momento, uma invasão da Grã-Bretanha pelos Franceses apoiando os seus aliados escoceses. A intervenção do papa, porém, parece ter sido determinante para que não se tivesse dado nesse momento uma escalada bélica entre as duas grandes potências medievais. Mas Philippe VI de França continuava a buscar argumentos para um confronto com Edward III de Inglaterra. A 24 de Maio de 1337 declarou que o contrato de vassalagem que os unia pelo senhorio da Aquitânia não estava a ser cumprido. De facto, o ducado estava rodeado de feudatários do rei de França que tentavam intervir activamente nas actividades dos seus habitantes que, ligados na sua maior parte à produção e exportação de vinho e de outros produtos regionais, prezavam bastante a sua especial ligação a Inglaterra. Sucediam-se, assim, os conflitos fronteiriços e as rebeliões contra as autoridades francesas. Edward III não estava, porém, disposto a permitir que o seu último e próspero reduto francês lhe fosse expropriado desta vez. Utilizando como mensageiro Henry Burghersh, bispo de Lincoln, enviou a Philippe VI uma carta, que lhe chegou nos finais de Outubro de 1337, dirigindo-se-lhe como Philippe de Valois, que se chama a si próprio rei de França, renunciando ao contrato de vassalagem que os unia e declarando novamente a sua pretensão ao trono francês.
Não perdera tempo. Na altura em que escrevera a missiva ao seu adversário já, tinha estabelecido o quartel-general no continente, em Antuérpia, na Flandres, para onde se tinha mudado com quase toda a sua família, à excepsão do filho primogénito e herdeiro da coroa de Inglaterra, Edward, que contava 7 anos, como se impunha a quem vinha tomar posse de um território que considerava seu de direito. Encetara também já negociações com o imperador alemão, Ludwig, que o nomeara seu delegado para os feudos imperiais situados fora da Alemanha. Ou seja, Edward III ganhava assim autoridade para convocar em seu auxílio todos os senhores dos Países Baixos e também os condes da Borgonha e da Saboia, alguns deles favoráveis, porém, ao rei de França. Em 8 de Fevereiro de 1340, apesar de todas as dificuldades enfrentadas, o pretendente inglês sentia-se ainda suficientemente motivado para enviar ao adversário de Paris um novo selo com que identificava agora as suas missivas. Nele, as armas de França, a flor-de-lis, ocupavam pela primeira vez o canto superior direito, em lugar proeminente relativamente às de Inglaterra. Simultaneamente, enviava uma declaração aos Franceses: pedia-lhes que, seguindo o exemplo dos Flamengos, de cujas cidades recebera apoio, o aceitassem como rei». In Manuela Santos Silva, A Rainha Inglesa de Portugal, Filipa de Lencastre, Círculo de Leitores, 2012, ISBN 978-972-42-4707-6.

Cortesia de CLeitores/JDACT

segunda-feira, 3 de março de 2014

A Rainha Inglesa de Portugal. Filipa de Lencastre. Manuela S. Silva. «Edward III ascendera ao trono de Inglaterra em 1327, quando contava apenas 14 anos. Sucedia a seu pai, Edward II, que havia sido deposto depois de uma invasão a partir de França dirigida pela mulher»

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1361-1387. A filha mais velha dos duques de Lencastre
«É em Inglaterra que começa esta biografia de uma aristocrata inglesa que, fruto da conjuntura política internacional e das ambições pessoais dos seus parentes mais próximos, veio a tornar-se rainha de Portugal. Um acaso improvável!

Nasce Philippa, filha dos condes de Richmond
Foi possivelmente no castelo de Leicester, pertença do seu avô materno, que a primeira filha do jovem casal Blanche de Lancaster e John Plantageneta veio ao mundo, a 31 de Março de 1360. A mãe, ainda muito jovem, talvez não tivesse mesmo mais de 15 anos, passara os últimos meses de gravidez na companhia da sogra, a rainha Philippa de Hainaut, mas, para o momento do parto, parece ter optado antes por contar com o apoio dos pais, uma vez que o marido se encontrava ausente do reino. O castelo de Leicester era, de facto, uma das residências mais emblemáticas do património da família de Blanche, símbolo do poder dos condes de Leicester, um dos títulos ostentados pelo seu pai. Mas o facto de ter preferido dar à luz num local e ambiente familiares não significa que não possa ter tido a acompanhá-la, enquanto visita de seus pais, a própria rainha. Na verdade sabemos que, a 21 de Maio, foi a sogra quem pagou as despesas da cerimónia religiosa que marcou a recuperação de Blanche após o bem-sucedido parto.
A avó paterna deve também ter desempenhado o papel de madrinha no ritual de introdução da nova neta na comunidade cristã. Assim, a recém-nascida chamou-se Philippa tal qual a rainha, mãe do seu pai. Este, porém, só a terá conhecido quando Philippa já contava quase 2 meses. Estivera em França, integrado no exército do pai e do irmão mais velho, numa campanha vitoriosa que se concluíra de forma positiva para os ingleses, que haviam conseguido fazer assinar em Brétigny um tratado com cláusulas que lhes eram francamente favoráveis, permitindo a Edward III guardar algumas das terras conquistadas e alargar o seu ducado da Aquitânia. Constituía, ao fim de vinte e três anos de guerra com França, uma boa notícia, embora estivesse longe de corresponder às aspirações que tinham levado o avô de Philippa a enveredar por um tão longo conflito com o reino vizinho que tivera sempre ligações com Inglaterra. Nessa afinidade entre os dois reinos radicava, porém, o problema.

Uma família real vassala dos de França
Os reis de Inglaterra, dadas as suas raízes normandas, tinham sido sempre grandes proprietários em França e sentiam-se até mais franceses que ingleses. Os poderes que exerciam para lá do canal da Mancha, the English Channel tinham, todavia, sofrido uma grande quebra desde o início do século XIII, quando o património fora reduzido à posse da região da Gasconha, localizada no sudoeste continental. Henry III de Inglaterra restaurara o ducado da Aquitânia, que agora incluía pouco mais do que a Gasconha, através da assinatura, a 4 de Dezembro de 1259, do Tratado de Paris, mas perante o rei de França a sua situação era agora a de vassalo lígio, com obrigações bem determinadas para com o seu suserano. O monarca inglês tornara, porém, o ducado francês parte integrante do território da coroa inglesa ao transformá-lo em prerrogativa do filho mais velho, futuro herdeiro do trono. Tais atitudes e outras por parte dos reis ingleses foram aproveitadas esporadicamente pelos seus suseranos franceses para lhes confiscarem o senhorio da Aquitânia. Acontecera em 1294, em 1324 e voltou a suceder em 1337, reinando já Edward III. Das duas primeiras vezes o ducado fora restituído aos monarcas ingleses mediante a reafirmação da sua vassalagem. Porém, agora, a reacção do novo monarca inglês seria diferente e alimentada por um novo argumento que incrementaria a hostilidade entre os dois reinos.
Edward III ascendera ao trono de Inglaterra em 1327, quando contava apenas 14 anos. Sucedia a seu pai, Edward II, que havia sido deposto depois de uma invasão a partir de França dirigida pela mulher, que se sentia preterida e ferida na sua honra face a alguns privados do rei, e por Roger Mortimer, um dos seus mais destacados adversários. Este aristocrata inglês passara algum tempo no Hainaut, um pequeno condado do Sacro Império Romano-Germânico e, já no exílio, tornara-se amante da mulher de Edward II, Isabel de França. O filho desta, Edward, que também regressara a Inglaterra na armada destinada a depor o monarca, tinha estado no continente desde há, cerca de um ano, representando o pai, enquanto duque da Aquitânia, na cerimónia de homenagem ao rei de França, Charles IV. Entre 1327 e 1330, nos primeiros anos do seu reinado, portanto, foi apenas um fantoche nas mãos de sua mãe e de Roger Mortimer, autoproclamado conde da Marca, empenhados num governo revanchista, cujas decisões a nível político e militar estavam longe de obter o consenso entre os restantes dignitários do reino». In Manuela Santos Silva, A Rainha Inglesa de Portugal, Filipa de Lencastre, Círculo de Leitores, 2012, ISBN 978-972-42-4707-6.

Cortesia de CLeitores/JDACT

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Os Filhos de D. João I. Oliveira Martins. «Nunca houve na terra bondade maior do que a do infante Duarte. Escrupuloso, metódico, sem assomos de vaidade, nem violências de orgulho, (…) são inadequadas à conquista daquilo a que por uso se chama a fortuna, amante dos audazes e filha dilecta da sorte que é cega»

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A Corte e o Conselho
«Felizmente, ao lado do rei estavam os infantes que, pelo contrário, pesavam todas estas cousas, sem temor nem repugnância pela novidade. E sobre todos, o infante Henrique insistia nos inconvenientes da empresa de Granada. Por isso, no dia seguinte o pai debateu sozinho com ele o assunto, e ficou também convencido quanto aos dois últimos pontos discutidos em conselho. Pulando de alegria. O infante Henrique foi dizer em segredo aos irmãos o resultado. Estava decidido que iriam a Ceuta!
Cumpria agora proceder com toda a cautela e segredo nos preparativos da expedição. Era necessário inventar um pretexto para os armamentos, que logo se tornariam evidentes. Era necessário, antes, reconhecer Ceuta, ver o ancoradouro, não ir ás cegas, com precipitações que podiam ser funestas. Não havia pressa. Os preparativos, apimentados pelo encanto do segredo, saciavam a necessidade de acção dos rapazes que o pai olhava com amoroso encanto; e a rainha, mais grave agora, que o louro dos seus cabelos se tornara em branco, abraçava-os, beijando-os serenamente na fronte. Decidiu-se logo confiar o segredo ao prior do Hospital, homem agudo e discreto, enviando-o por mar à Sicília negociar fingidamente o casamento do infante Pedro com a rainha viúva (viúva de Martinho I, cuja morte, determinando a união da Sicília ao Aragão, 1409-1504, a deixava sem reino. que o pedira. Era o mais plausível dos pretextos para visitar Ceuta, quer na ida, quer na volta. O prior saiu com efeito de Lisboa na armada, foi à Sicília, tratou o casamento de que se não tratava, e tendo estado em Ceuta, na ida e na volta, trouxe as informações mais completas. Boa praia, ancoradouro excelente.
Mas desde que a empresa de Ceuta se decidira, o rei que, sentindo-se outro homem, parecendo-lhe voltados os tempos antigos, rejuvenescia, acordando com o estrépito das armas, vendo-se já de espada em punho no meio do assalto: o rei, que não queria, nem podia atender senão aos preparativos militares da campanha, entregou a expedição dos negócios da justiça e fazenda ao infante Duarte. Com os infantes Pedro Henrique, tanto haveria de trabalhar nos feitos que pertenciam para sua ida, que de outros sem grande necessidade se não entendia curar. Escrupulosamente, com a pontualidade inglesa da mãe, o infante Duarte, a quem faltava a energia e a audácia do pai, renascidas no irmão Henrique, tomou tanto a peito o encargo, com o seu virtuoso sentimento do dever, exagerado pela verdura dos anos, e tanto se esfalfou, que adoeceu. Levantava-se cedo, ouvia missa, ia à Relação ao despacho, até ao meio dia, hora de jantar. À mesa dava audiência, recolhendo-se depois para uma sesta brevíssima, suprimida quase sempre, porque às duas horas estavam com ele os vedores da fazenda e os do conselho, com quem trabalhava até às nove da noite. Quando o largavam, ceava, ficando com os oficiais da sua casa até às onze horas. Ao monte e à caça raras vezes ia: descurava os exercícios do corpo, entregue aos trabalhos sedentários. Ao próprio paço de el-rei seu pai faltava com insistência: só o visitava quando o andamento dos negócios o exigia. Pela primeira vez aparece na cena politica portuguesa o príncipe burocrata (começa neste período a reforma da legislação sobre os judeus, adiante estudada, sobre o texto das Ordenações), de que a Hespanha teve em Filipe II o mais bem acabado exemplar. De constituição débil, acrescentando necessariamente à fadiga própria do trabalho o cansaço de espirito proveniente da sua virtude escrupulosa, exagerando as dificuldades, estonteando a cabeça, e julgando dever matar-se tanto mais, quanto maiores eram os problemas, o pobre infante cedeu ao peso da tarefa, e caiu enfermo de uma anemia, ou de uma dispepsia, caracterizada pelos sintomas do que ainda popularmente se chama hipocondria e que ele próprio denomina humor merencório.
Os médicos aconselhavam-lhe que bebesse vinho pouco aguado, dormisse com mulher, e deixasse grandes cuidados. Era uma tristeza constitucional, um desgosto profundo, com um medo atroz da morte, que lhe durou três anos, começando a curar-se na dolorosa crise do falecimento da mãe, quando, tendo a corte ido de Sacavém para Odivelas, a rainha enfermou da peste. Dissiparam-se os medos, desapareceram os sintomas gástricos; e depois dizia sentir-se, graças a Deus, mais ledo do que era antes da doença. As ambições heróicas do infante Henrique deram de si o que sabemos. A doirada ilusão de esperança que acendia em fé os homens nas alvoradas dessa grande época a que se chamou Renascença, produziu os frutos cujo travo nos amarga hoje na língua; mas o que dura, o que fica, e durará, e ficará enquanto houver homens, é a bondade modesta, tão humilde como a grama, mas tão vivaz, tão resistente como cila também. Desfazem-se todas as quimeras, desmancham-se todas as ilusões, e ela fica, a bondade imorredoura!
Nunca houve na terra bondade maior do que a do infante Duarte. Escrupuloso, metódico, pontual no cumprimento dos seus deveres, sem assomos de vaidade, nem violências de orgulho, sem maior grandeza de ânimo, mas com um dom de resignação superior, o príncipe por sorte infeliz é um exemplo de quanto as qualidades passivas, nem sempre excelentes para dar serenidade à consciência dos reis, são inadequadas à conquista daquilo a que por uso se chama a fortuna, amante dos audazes e filha dilecta da sorte que é cega». In Joaquim Pedro Oliveira Martins, Os Filhos de D. João I, Casa Editora Antiga Livraria Chardron, Lugan & Genelioux, Successores, Porto. Lisboa, Imprensa Nacional, MDCCCXCI, Library University of Toronto, Oct 6 1967 de 3 1761 042963371.

Cortesia de Universidade de Toronto/JDACT

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Oliveira Martins: Os Filhos de D. João I. Parte IV. «Ao lado do rei, os infantes, cumprindo-lhe rapidamente as decisões, suprimindo de caso pensado os detalhes irritantes ou enfadonhos dos negócios, usavam com seu pai de todas as artes legítimas para lhe evitar o cansaço e para lhe ressalvar a susceptibilidade que aos velhos cresce com os anos»


Cortesia de paulocampos e feriasparatodos

A Corte e o Conselho
«Dos legítimos, os três mais velhos, criados juntos, educados juntos, quase da mesma idade, tinham crescido como vergonteas de uma só arvore, alentados pela mesma seiva, unidos num único amor, unânimes no respeito inexcedível pelos pais, ligados entre si por uma amizade estreme. Mas, não há na natureza dois seres inteiramente iguais, como ramos de uma mesma árvore, os filhos de Avis, à medida que cresciam, divergiam bracejando, cada qual segundo o seu feitio, para sua direcção diferente. Já D. Duarte mostrava aquela virtuosa abnegação e a passividade que o matou. Já D. Pedro acusava a inteireza de pensamento e as suas inclinações de filósofo, procurando, desejando sempre subordinar os seus actos a regras, e indagando as causas morais e materiais das coisas. Já D. Henrique, finalmente, menos escrupuloso do que o herdeiro da coroa, cuja virtude tinha o quer que fosse doentio, ou sequer fraco, e menos integro do que o seu antecessor, mostrava a força de um homem de acção, obedecendo cegamente a impulsos que não contraria, ainda quando a razão e a consciência lhe murmurem que pode errar. Dos três, o mais humano era incontestavelmente D. Pedro. D. Duarte tinha na sua virtude o quer que é enfermiço e feminino. D. Henrique, votando-se à castidade, por obediência aos planos que lhe enchiam o cérebro, sonhando cavalarias magníficas e empresas estupendas, de um género inteiramente novo, denunciava um temperamento de herói, com a secura, com a dureza, com a desumanidade que as ideias fixas, condição do heroísmo, impõem aos homens.

Fora ele quem insinuara a João Afonso de Azambuja a ideia de Ceuta? Talvez fosse. O facto é que no seu pensamento a aquisição d'essa praça ganha uma importância nova.
A continuação da reconquista para além mar não era apenas um desforço contra os mouros, nem a vingança da lendária traição do conde Juliano: era abrir a Portugal as portas doiradas do Oriente vago e misterioso, onde havia cristãos com efeito, os cristãos do Preste João, mas onde havia também as especiarias, os tecidos preciosos, o oiro fulvo, e tudo o mais que as caravanas traziam através do deserto, desde o mar Roxo, pelo Egipto, pela Tripolitana e por Argel, até Marrocos, de que Ceuta era a Nova York, e Fez a capital, como Washington, uma corte apenas.

Cortesia de paulocampos

Já talvez agora, no espírito quase fenício do infante, se desenhassem estes alinhamentos da cavalaria nova em que Portugal ia arrolar-se, confundindo num mesmo abraço a fé, recebida do passado, e o lucro, futura religião dos europeus assim que puderam avassalar e explorar o mundo inteiro.
A medida que os filhos foram crescendo, D. João I associou-os ao governo. Formavam o seu conselho de estado. Assembleia única era a desses quatro homens ligados pelos vínculos do sangue, unidos pela mesma fé e por um amor igual, presidindo ao governo de um povo que os abraçava a todos numa adoração comum! Com a reserva e o respeito de filhos, os homens novos, recebendo mais vivas as impressões de fora, modificavam os caprichos que a idade, os hábitos, porventura a doença, levantavam no espírito do pai. A família, na mais bela expressão do seu valor social, realizava assim a abstracção da imortalidade com o facto da sucessão das gerações transmitindo de uma a outra uma ideia, um pensamento, uma vontade. A alma dos pais, ao despedir-se da terra, renascia com asas novas no corpo dos filhos que entravam em cheio na arena da vida.
Ao lado do rei, os infantes, cumprindo-lhe rapidamente as decisões, suprimindo de caso pensado os detalhes irritantes ou enfadonhos dos negócios, usavam com seu pai de todas as artes legítimas para lhe evitar o cansaço e para lhe ressalvar a susceptibilidade que aos velhos cresce com os anos. E o inconsciente, acusando a debilitação da energia vital. Queriam que o governo fosse para ele um prazer. Deixavam-lhe plena liberdade de fixar os dias de desembargo e a ordem dos negócios; mas faziam-no com tanta discrição que o rei, sendo de facto governado pelos filhos, se acreditava ainda nos tempos em que mandava, na plena acepção da palavra.
«Tal maneira, diz D. Duarte, ao contar estas coisas, não se pôde bem ter com todos os senhores, nem se guardar em todas as amizades, que escrito é que amizade perfeita não pôde ser senão entre pessoas virtuosas, de um propósito querer e não querer nas coisas principais, que hajam entendimento e vontades concordáveis fundados em muita lealdade, de grandes, largos e bons corações».

Cortesia de almapaixonada

Aos largos e bons corações de seus filhos confiou pois D. João I a ideia da conquista de Ceuta, enumerando os obstáculos que se opunham à sua realização. Em primeiro lugar, faltava dinheiro: não o tinha o tesouro. Como havê-lo? Por meio de pedidos, ou impostos? Isso traria um escândalo enorme, e seria cruel para o povo que tanto sofrera com as guerras castelhanas; depois, seria desvendar um plano cujo êxito estava principalmente na pontualidade do segredo. Em segundo lugar, não havia esquadra capaz de levar o exército a Ceuta. Em terceiro lugar, faltavam homens. Faltava tudo. Parecia que o rei de propósito exagerava as dificuldades, para afastar os filhos da empresa.

Em quarto lugar, ainda que vença, «o filhamento (tomada) desta cidade, continuava D. João I, me pôde fazer maior dano que proveito». O reino de Granada parecia-lhe mais fácil de conquistar; e se o não conquistássemos, Castela o conquistaria. Que proveito tinha ele em que Granada caísse em poder dos castelhanos? Se tomo Ceuta, concluía, com certeza os castelhanos tomam Granada; o que era um mal evidente, porque destruía o equilíbrio internacional na Espanha, aumentando o poder dos nossos inimigos naturais. Em quinto lugar, finalmente, indo bolir com os mouros de Marrocos, expomos o nosso Algarve aos seus contínuos assaltos; e além disso fica-nos fechada a porta do Mediterrâneo, onde os navios portugueses vão de Lisboa vender o vinho, o azeite e as frutas. Fazia-se um grande comércio marítimo com os portos mediterrâneos.

Depois do rei expor as suas dúvidas, os infantes disseram que não eram necessários pedidos : obter-se-íam os recursos por escambos (empréstimos) com os mercadores do reino; em todo o caso bastava aplicar à guerra o que se havia de gastar com as festas projectadas para os armar cavaleiros. Com relação à falta de navios, que era real, mandavam-se vir fretados dos portos da Galiza, da Biscaya, de França e da Alemanha: considerasse-se o número de navios que vinham ao frete do sal, do azeite e dos vinhos.
Por outro lado bastava fretar os navios para com eles vir gente. E, além disso, não era exacto que faltasse gente: havia, e muita, no reino, e estava-se em paz com Castela.
Convenceu-se facilmente o pai acerca dos três primeiros pontos; mas nos dois últimos houve dúvidas. A ideia de uma empresa marítima devia assustar na velhice o rei que levara toda a vida em correrias e cavalgadas, costumado a batalhar e vencer em terra. Simpatizava mais, e compreende-se, com a empresa de Granada, que seria, porém, uma loucura, já por importar a guerra com Castela, já porque a própria Castela só depois de unida ao Aragão pôde, em 1492, destruir esse último baluarte do império muçulmano da Espanha. Não é na proximidade dos sessenta anos que facilmente se aceitam ideias novas: mais vezes se praticam loucuras sob a inspiração das antigas (23)». In Joaquim Pedro Oliveira Martins, Os Filhos de D. João I, Casa Editora Antiga Livraria Chardron, Lugan & Genelioux, Successores, Porto. Lisboa, Imprensa Nacional, MDCCCXCI, Library University of Toronto, Oct 6 1967 de 3 1761 042963371.

Cortesia de J. Oliveira Martins/Paulo Campos/U. de Toronto/JDACT

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Oliveira Martins: Os Filhos de D. João I. Parte III. «Os três mais velhos eram homens feitos (1412). D. Duarte tinha 21 anos, D. Pedro 20 anos, D. Henrique 18 anos. Os dois pequenos, D. João (doze anos) e D. Fernando (nove) não se contava com eles ainda: estavam a cargo da mãe, educadora já encanecida pelos seus 54 anos»

Cortesia de paulocampos

Com a devida vénia a Paulo Campos. Os Filhos de D. João I de Joaquim Pedro Oliveira Martins, 3 1761 042963371, Casa Editora, ANTIGA LIVRARIA CHARDRON, Lugan & Genelioux, Successores, Porto. Lisboa, Imprensa Nacional, MDCCCXCI, Library University of Toronto, Oct 6 1967.

Mas as divisas da corte vão estudar-se pelo que revelam, e não como simples joguetes quase infantis. Tudo
era sério. A rainha adoptara o mote, conciso e simples como ela própria, pour bien: o mote que o rei mandou pintar no tecto da sala de Sintra, e que lhe sugeríra a tangente salvadora, quando fora o caso do beijo furtado à dama. Pour bien, para o bem, era a suma da existência dela, consumida em afeiçoar os filhos às regras do dever e da religião. Désir, foi o mote de D. Pedro, enigmático, ou vago, como efectivamente se desdobrou com o tempo o seu carácter, oscilando entre as obrigações do dever, e as congeminações nebulosas de uma inteligência crítica. Depois de Ceuta, adoptou por divisa, ou empresa, um rochedo atravessado por uma espada brandida pela mão que sai das nuvens, com a legenda Acuit ut penetret. É complicado, como o seu espirito; mas o timbre do seu uso foram as balanças, por uma devoção especial a S. Miguel, em cujo altar o depuseram moribundo, em criança; e provavelmente pelo amor constante da justiça e da ponderação que sempre o distinguiu.
O infante D. João adoptou por mote J'ai bien raison, e na sua vida breve cumpriu-o; como o cumpriu o infante D. Henrique, tomando para si Talent de bien faire, que traduzido significava, não a ciência de proceder com acerto, mas sim a vontade de obrar com justiça. A primeira traducção foi, porém, historicamente, mais verdadeira.

Cortesia de paulocampos 
Para si, o rei quis Il me plait e com razão, porque raríssimos viveram mais a seu gosto. Tudo lhe saiu bem, a esse homem feliz. Conquistou o reino, e sentou-se no trono aclamado pelo povo inteiro. Acertou casando, e teve a mais bela geração de filhos. Nun'Alvares coroou-o, e João das Regras sancionou com leis o que o condestável traçara com a espada. Velho e viúvo, com os filhos à roda, comete a temeridade de ir a Ceuta, e, conquistando-a com a máxima facilidade, deixa em herança ao reino o caminho da glória patente.
E no decurso do seu longo reinado de quase meio século, transforma os costumes, as leis e até a cronologia, a este povo, que recebera agonisante, e que entrega à história reconstituído pela introdução de ideias morais novas, e das novas leis que no seu tempo se restauravam na Itália, fazendo outra vez reviver o império das noções abstractas do direito antigo sobre que ia assentar soberana a monarquia.
É de 1426 a carta régia em que D. João I remete à câmara de Lisboa dois livros com as leis do código Justiniano, a glossa e as conclusões de Bartholo «para por elas se fazerem livrar os feitos e dar as sentenças».

Cortesia de cercarte
Eram também as auroras do imperialismo que viria a desabrochar um século depois sob o influxo das ideias cristâs, com os mesmos caracteres, porém, que tivera na antiguidade, para levar também, outra vez e deploravelmente, os povos latinos à perversão de um absolutismo antipático. Nesta manhã de luz nada disso se descortina ainda. A fé é viva, o entusiasmo ardente. O vento fresco das impressões novas agita os pensamentos, e, passando por sobre o país, vai beijar os mares vizinhos, desenrolados perante a vista como uma tentação e um enigma.
O espírito generoso da cavalaria, importado de fora, toma entre nós feições e objectos indígenas. A empresa consiste num franco navegar para o bem, com as velas cheias pela viração da ciência e da fé, que ainda sopravam acordes.

Cortesia de numisgaia
Tanto isto é assim que, depois de celebradas as pazes de 1411 com Castela, o rei projectava levar a efeito um grande torneio internacional, festa magnífica em que armaria cavaleiros os três filhos mais velhos, D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique;
  • mas estes observavam que festas não eram empresas, e o grau de cavalaria queriam ganhá-lo, não queriam devê-lo apenas a uma ceremónia ritual segundo os cânones cortesãos.
Mas, que empresa? perguntava a si própria essa gente, como ricos, sem saber em que gastar a opulência de força e vida que os consumia. E um dos três conselheiros da coroa, João Afonso de Azambuja, que com o arcebispo de Braga e João das Regras constituíam o ministério de D. João I, segredou-lhe ao ouvido:
  • Ceuta! 
Reconquistar Ceuta, que fora a porta aberta à traição para os mouros entrarem na Espanha, seria a mais gloriosa empresa, continuando, nos Algarves d'além mar, a guerra de tantos séculos que dera por fim a Portugal os Algarves d'aquém. Contra o mouro de Granada não se podia ir, a menos de voltar a acender a guerra com Castela, que já o considerava presa sua. O segredo e a reserva, toda a reserva, eram, porém, indispensáveis para tão arriscada empresa. O rei meditava, e piedosamente ouviu os seus confessores e os seus letrados mais íntimos:
  • mestre frei João Xira,
  • o doutor frei Vasco Pereira, 
  • João das Regras.
Todos concordaram que sim; faltava ouvir os filhos.

Cortesia de clubehistoriaesvalp
Os três mais velhos eram homens feitos (1412). D. Duarte tinha 21 anos, D. Pedro 20 anos, D. Henrique 18 anos. Os dois pequenos, D. João (doze anos) e D. Fernando (nove) não se contava com eles ainda: estavam a cargo da mãe, educadora já encanecida pelos seus 54 anos.  O pai, que tinha um ano mais, começava a sentir os achaques da velhice, custando-lhe já o trabalho do conselho e do espacho. Atribuiam à mordedura de um cão danado, que o fizera sofrer durante 5 anos, os espasmos ou síncopes de que por vezes era assaltado. Talvez fosse um cardíaco, hipótese verosímil com a vida que teve, cheia de agitação e duramente emocionada por largos azares. O conde de Barcelos, que nesta era contaria 30 anos, estava fora da corte, nas suas terras, em Chaves, onde enviuvara de D. Beatriz, a filha do condestável, falecida de parto. A veneração pelo pai continha-o, no seu despeito pela preferência dada aos irmãos. Também ele era filho de D. João I... Fora afinal legitimado, aos 25 anos; mas não era filho de D. Filippa, a implacável senhora!». In Os Filhos de D. João I de Joaquim Pedro Oliveira Martins, 3 1761 042963371, Casa Editora, ANTIGA LIVRARIA CHARDRON, Lugan & Genelioux, Successores, Porto. Lisboa, Imprensa Nacional, MDCCCXCI, Library University of Toronto, Oct 6 1967.

Cortesia de J P Oliveira Martins/Paulo Campos/Universidade de Toronto/JDACT

sábado, 27 de novembro de 2010

Oliveira Martins: Os Filhos de D. João I. Parte II, ... Daqui resultou a cruel tragédia de Fernando Affonso, amante de uma dama da corte, e dos validos mais queridos de D. João I, que às escondidas lhe recommendou juizo. Mas fê-lo, provavelmente, como estas coisas se passam entre amigos: rindo

Cortesia de pnsintraimc-ip

Com a devida vénia a Paulo Campos.
Os Filhos de D. João I de Joaquim Pedro Oliveira Martins, 3 1761 042963371, Casa Editora, ANTIGA LIVRARIA CHARDRON, Lugan & Genelioux, Successores, Porto. Lisboa, Imprensa Nacional, MDCCCXCI, Library University of Toronto, Oct 6 1967

Cortesia de Paulo Campos

A CORTE E O CONSELHO (continuação)
«Foi o seu último filho. D. Filippa acabou por gerar um santo, ela em cujo ventre se formara a semente de tão grandes homens. Quinze annos (1387 a 1402) de um procrear incessante: abençoadas entranhas! E durante este período, no vigor da vida, entre os trinta e os quarenta e cinco, o rei não teve um bastardo. Que singular mudança houvera nos costumes da corte: dessa corte que vinte anos antes aclamára Leonor Telles?

Diz-nos D. Duarte que o rei e a rainha fizeram casar mais de um cento de mulheres, entrando na conta as que ele próprio casou também, seguindo tão bons exemplos. Não havia uma ligação ilícita, nem um adultério conhecido. A corte era uma escola. D. Filippa, pregando ao peito o seu véu de esposa casta, com os olhos levantados ao céu, não perdoava. Terrível, na sua mansidão, trazia o marido sobre espinhos. De uma vez, segundo reza a lenda, em Sintra, o rei esqueceu-se, e furtivamente pregava um beijo na nuca, ou na face, de uma das aias, quando surgiu logo, acusadora e grave, sem uma palavra, mas com um ar medonho, a rainha
casta e loura. D. João, enfiado, titubeando, disse-lhe uma tolice: «Foi por bem!» Ela, partiu solenemente. Eram ciúmes? Não; só tem ciúmes quem tem paixão. Era aquele sentimento exclusivamente saxónio, para o qual também só há palavra na língua inglesa: era o cant, essa mistura inconsciente de orgulho e convenção que, ficando abaixo da religião do dever, está muito por cima da hipocrisia, isto é, da simulação consciente dele.

Cortesia de almapaixonada

Não há sentimentos mais despóticos e absorventes do que estes sentimentos quasi artificiais, em que a ingenuidade aparece enleiada pela convenção. A rainha não perdoava; mas que diferença, entre a sua intolerância hirta, e a virtude humana e espontânea, a virtude quente e alegre do condestável! O rei passara das mãos dele para as da esposa, que fazia empalidecer esse valente quando o fitava com os seus olhos azuis impassíveis. Por fortuna, a rainha era tão virtuosa e boa, quanto sincera.
No propósito firme de lhe obedecer, D. João, porém, excedia os limites da humanidade. Com a lembrança da casa em que nascera presente sempre, a rainha exigira o casamento imediato de toda a corte. Nem requebros, nem amores, nada! o casamento cru e direito, como ordena a santa madre igreja. Combinavam os enlaces, qual devia convir para fulana, ou vice-versa, de forma que um dia um, outro dia outro, recebia a ordem terminante concebida nestes termos: «Manda-vos el-rei dizer que vos façaes prestes para desposar de manhã». —Quem? — «Não importa; lá o sabereis». E assim se casou toda a corte, sendo este um exemplo para convencer os românticos do que a disciplina pode sobre os homens; pois a geração desse tempo, que por tais processos deveria produzir o cúmulo da desordem, foi um perfeito modelo de força e virtude.
E ai daquelle que, por folia ou por paixão, não tomava a sério as regras prescritas. O cant é descaroável, e ao serviço da preocupação da rainha punha o rei o seu temperamento violento de homem de guerra. Daqui resultou a cruel tragédia de Fernando Affonso, amante de uma dama da corte, e dos validos mais queridos de D. João I, que às escondidas lhe recommendou juizo. Mas fê-lo, provavelmente, como estas coisas se passam entre amigos: rindo. Ele, pelo menos, não tomou o caso a sério, e, simulando uma viagem a Santa Maria de Guadalupe, devoção muito em moda no tempo, meteu-se na alcova da aia para rezar. O rei, que o soube, talvez ainda risse, mas demitiu-o. O rapaz aceitou a demissão, para o quarto da dona onde se foi aninhar, e onde el-rei o mandou prender. Começava a ser grave. No caminho da prisão, Fernando Affonso, á cautela, fugiu para Santo Eloy. Na corte ia um borborinho enorme com o caso, que a rainha devia considerar uma abominação. Foi ela que obrigou o marido a sair? Não se sabe; mas o facto é que D. João I largou do paço (de apar S. Martinho, junto ao Limoeiro) numa fúria. Deixara em meio a sesta, e saiu mal vestido, coberto com um mantéu, em ceroulas, correndo a pé para a igreja onde o desgraçado se asilara, subindo ao altar e abraçando-se à imagem da Virgem. Pois aí mesmo o mandou o rei prender, sem atenção ao direito sagrado de asilo, que era uma das válvulas de segurança inventadas pela crença ingénua para moderar as explosões da violência dos tempos. Para o prenderem, os homens do rei tiveram de despedaçar a Virgem, que veio do altar abaixo com ele. Adúltero, ficava sacrílego.
No dia seguinte, logo, sem processo, o rei mandou queimar vivo o desgraçado no Rossio.

Cortesia de forumpatria

Hoje, o cant não dá lugar a tragédias desta ordem. Os costumes são outros, outros os nervos; mas o cant é, como sempre foi, o despotismo mais desapiedado, o mais absorvente e o mais tirano. D. João I obedeceu-lhe tanto, que se transformou; acabando por dar o tom e ser o tipo que serviu de grave exemplo a seus filhos. Devoto, empregava os ócios na tradução das Horas Marianas; literato, escrevia o livro da Monteria: por isso os filhos todos, mais ou menos, mas principalmente D. Duarte e D. Pedro, se criaram com a devoção das letras e em particular das letras místicas. Lançada esta semente no torrão fecundo da alma nacional, entusiasticamente afirmativa, desabrochou, três ou quatro gerações depois, nessa poderosa vegetação do fervor católico, delirante na época de D. João III.
Agora, na alvorada dos dias de fogo e sangue, a luz aparecia difusamente suave; o mundo apresentava-se como uma doce e atraente harmonia; e as paixões transcendentes, ainda em botão, serviam apenas para corroborar, com a sua autoridade superior, os preceitos da vida prática. Encarada a essa luz, a existência propunha-se como um dever sagrado, e o reinar como um ofício duro. D. João I, conta seu filho, sentindo os cargos do rei, em uma roupa fez bordar um camelo, por ser besta de maior carga, com quatro sacos, em que eram postos sobre cada um estas letras:
  • no primeiro, temor de mal reger;
  • no segundo, justiça com amor e temperança;
  • no terceiro, contentar corações desvairados;
  • no quarto, acabar grandes feitos com pouca riqueza.
Estavam em moda as divisas e motos simbólicos. Nestas quatro expressões sintéticas se resumiam com efeito as ideias públicas do tempo. Via-se o génio do bastardo de D. Pedro I, herdando do pai o instinto da economia: obter grandes resultados com pequeno gasto; via-se o desejo de ser bom e amorável, tomando a realeza como um patriarcado, qual fora também o do rei justiceiro; via-se, porém, finalmente, um sentimento que é novo: o medo de mal reger, o escrúpulo, o receio de errar, que faz do ofício dos reis um peso capaz de carregar um camelo.

Cortesia de tugasco

Este aparecimento do escrúpulo, exprimindo a noção do dever, traduz a nova face transcendente que a vida adquiria. Viver é uma coisa séria; reinar, a mais séria das ocupações. O rei começa a sentir-se o órgão da nação e a chave da abóbada do estado, que surge como uma construção ideal, ou por outra, uma obra de arte. Foram-se os tempos ingénuos do instinto bárbaro, que fazia dos príncipes instrumentos cegos da valentia e da cobiça próprias, governando os povos como rebanhos. Foi-se também o fetichismo antigo, que prostrava os reis de rastos diante da cleresia, trementes com medo do inferno. A filosofia entra na corte: uma filosofia moralmente infantil, misturada com superstições astrológicas; mas filosofia em todo o caso, isto é, amor do saber e obediência aos ditames da reflexão. Foram-se os tempos antigos, e estão distantes ainda as idades vindouras, em que a amarga lição das coisas ensinará o cepticismo, e em que o duro ofício de reinar parecerá o ócio cómodo que Deus dá aos príncipes para seu regalo.
A moda das divisas e motos, introduzida, com outros inglesismos, pelo casamento de D. João I: moda feudal que nos chegou em francês por serem normandos que a tinham levado com o feudalismo para Inglaterra: essa moda importa pouco em si, mas significa muito, porque as divisas da família de Aviz exprimem todas a nova ordem de ideias que a corte respirava e de que vivia. Facto é, porém, que o formalismo ritual da cavalaria veio dar corpo, e portanto consciência e consistência, aos sentimentos de galhardia e lealdade portuguesas, expressos em numerosas lendas históricas, e encarnados no vulto épico do condestável, que
não era menos nobre, nem menos bravo, do que foram depois os homens educados pela leitura dos Amadis. O mestre de Aviz, todavia, primeiro rei estrangeiro que entrou na «santa confraria da Garrotea», abriu um lugar à fidalguia nacional nas legiões da cavalaria europeia». In Os Filhos de D. João I de Joaquim Pedro Oliveira Martins, 3 1761 042963371, Casa Editora, ANTIGA LIVRARIA CHARDRON, Lugan & Genelioux, Successores, Porto. Lisboa, Imprensa Nacional, MDCCCXCI, Library University of Toronto, Oct 6 1967.

Cortesia de feriasparatodos

Cortesia de J P Oliveira Martins/Paulo Campos/Universidade de Toronto/JDACT