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terça-feira, 19 de março de 2013

Jantar Imaginado com Sobremeza, Café e Palitos. José Rodrigues Costa. «A Classe dos Commerciantes, que no meu tempo accolhia as minhas producções, está hoje, pelos motivos que todos sabemos, sem tempo para ler; porque a maior parte anda affadigada em remir dividas»

jdact

NOTA: De acordo com o original

Sirva de Epigrafe a seguinte Decima:
Ha huns Cometas barbatos,
que são despensas volantes,
e em brevíssimos instantes
limpão terrinas, e pratos;
perus, galinhas, e patos
tudo se mette no fundo;
Mas este Jantar jocundo,
inda que fingido seja,
não seguro, que se veja
livre das bocas do Mundo.

«Senhores: que mudanças de tempos! Que escacez d’aquella cousa, porque os homens de forcado, em Praça publica, expõem a vida ás armas de hum touro; ou mais claro, porque baila o cão, e canta o Cego! Tudo tem levado voltas, que se não pensavão na desordem do mundo! A mão da Providencia nos accuda.
Na minha mocidade, para as impressões das minhas Obras, recolhia-me todos os dias com quinze, e vinte Assignaturas, as quaes se davão com, muita satisfação. Veio a época das calamidades, os Assignantes de então fizerão-se velhos, e hoje huns estão curtos de vista, outros tem névoas nos olhos, que não podem ler nem de dia, nem de noite, outros empobrecerão, outros entrevecerão, e muitos morrerão. Aos desta ultima ordem não posso riscar da memoria as muitas obrigações, que lhes devi sem a mancha de ingrato: e confesso que ainda entre os que vivem, conservo alguns amigos de muito boas qualidades, mas são poucos.
A Classe dos Commerciantes, que no meu tempo accolhia as minhas producções, está hoje, pelos motivos que todos sabemos, sem tempo para ler; porque a maior parte anda affadigada em remir dividas, e em encobrir quebras, empregando-se meramente em especulações.
Aos Merceeiros, de que hoje ha abundancia, mar, para onde correm todas as agoas, quero dizer, cemitério de tudo que cada hum ganha, não lhes fallem em outra cousa, que não seja queijos, manteigas, azeites, presuntos, e legumes: estes não tem nevoas nos olhos; mas não são dados a recreios de Operas, de Touros, nem de Livros novos; porque só estimão os velhos comprados a pezo: e quando alguns querem arejar a cazaca nova, para a traça lha não roer, vão dar hum passeio ás hortas, que he função, que não custa dinheiro, apenas dez réis de tremoços á porta da adega.
Ora o que vai ficando para a Súcia da Corte são huns meninos enfeitados, que na guerra escondem-se, e na paz namorão, blazonando de façanhas nunca vistas, e nunca feitas; que depois passão a estadistas, com pouca, ou nenhuma lição do mundo, e de sciencias: huns propendendo só para jogo, capazes de expor quanto tem de seu em huma banquinha de seis cruzados novos; outros dados ás estafadas formosuras; e muitos mettidos em ter cavallos de toda a qualidade, isto he Hespanhoes, Portuguezes, e alguns Francezes , que são os que lhes sahem mais caros; e ninguém os tira destas picarias. Não direi, que deixa de haver nisto algumas excepções, mas são poucas: quizesse o Ceo que a maior parte seguisse a menor, de rapazes bem educados, e instruidos, que eu ainda conheço, e louvo.
Como no Livro do Mundo em cada dia, que vai passando, vai o homem lendo huma folha, vou sempre achando materia para Obra nova; razão porque arranjei este folheto, que supposto faça crescer a agoa na boca, por se pôr huma Meza em que se appresentão os guizados, e nada se pode comer delles, com tudo he o meio de não causarem os passos, que damos para remediar a nossa escacez, se mostrão neste Soneto.

De Londres, e Pariz nos vem pinturas,
que servem de modellos ás Modistas,
e as tafulas, no luxo pondo as vistas,
querem logo imitar essas figuras.

Inda as que pela idade são mais duras,
assim mesmo nas modas são previstas,
pois querendo de Amor fazer conquistas,
compõem as apparentes formosuras.

Qualquer Nação nos manda, e nos encaicha
cousas por alto preço, mas cascalho,
porque só neste Reino as minas acha;

nos apenas fazemos, com trabalho,
papeis de Castiçaes, Bonés, e graixa,
lamparinas, Chinelas de retalho.

Ora estes passos que damos, devendo ser passos de Corça para tocarmos a meta da nossa felicidade, tristemente se tornão em passos de Caranguejo, com que vamos recuando, até topar com o ultimo extremo da desgraça; porque os homens sem princípios, filhos da ociosidade, só tem os conhecimentos do Jogo de Chinquilho nas Hortas, e dos Vinhos nas Adegas, e os Artistas engenhosos capazes de cousas grandes nas suas Officinas, esmorecem vendo que se dá mais valor a hum botao de fora, que a huma joia delicada feita cá». In José Daniel Rodrigues Costa, Jantar Imaginado com Sobremeza, Café e Palitos, Dado em meza redonda, na casa de pasto do Desejo, sendo cozinheiro o Pensamento, e Freguezes Gente de Diversos Paladares, A 160 cada Pessoa, RB 196988, presented to the Library of the University of Toronto, Impressão de João Nunes Esteves, com licença da Meza do Desembargo do Paço, Lisboa: 1826.

Cortesia de M. D. do Paço/JDACT

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Braga. Escadório do Bom Jesus do Monte: Haverá um percurso alquimista na escadaria? Parte VII. «A boca é o símbolo da força criadora, o órgão da palavra ou Verbo. Por isso, a seu lado aparece o macaco ou cinocéfalo que também representa o deus Thot no Egipto. Os macacos, para muitas culturas estes primatas representam os instintos básicos da natureza humana»

Cortesia de vivoviajando

Com a devida vénia ao Gabriel e ao sítio Peregrinar/Maria.

«O escadório dos cinco sentidos, é uma alegoria ao corpo humano mas está longe de constituir uma elegia. Ao contrário ele representa a mundovisão católica sobre o seu carácter pecaminoso e efémero, acrescido de uma desmistificante narrativa sobre o carácter erróneo do conhecimento sensorial; se é pelos sentidos que «se deriva o princípio do nosso conhecimento», como escrevia um dos primeiros moralistas do Bom Jesus, a atitude do crente não pode ser passiva nem acrítica no acto de conhecer. É necessário ir além das ilusões da imagem, como dizia Santo Agostinho ou o Padre António Vieira, é necessário ir além de todos os dados imediatos da percepção, dizem sem cessar todas as fontes do Escadório dos Cinco Sentidos. Tudo o que é sensorial é do domínio do reino animal:
  • «e serão sempre animais a exemplificar nas várias fontes as capacidades de cada sentido como que a quererem dizer que não é essa a condição humana».

Cortesia de caminhosromanos/wikipedia

4ª fonte dos sentidos: Fonte do Paladar
Símbolos: macacos-boca

Na fonte do paladar a figura deita água pela boca e tem na mão esquerda uma maçã e de cada lado um macaco.

Cortesia de skyscrapercity
A boca é o símbolo da força criadora, o órgão da palavra ou Verbo. Por isso, a seu lado aparece o macaco ou cinocéfalo que também representa o deus Thot no Egipto, o escriba divino que toma nota da palavra de Ptah, o deus criador.
Os macacos, para muitas culturas estes primatas representam os instintos básicos da natureza humana. Na Europa Cristã, os macacos foram desde sempre alvo de desagrado, devido à sua sexualidade desinibida.

Cortesia de postaisdantigamente 

Jónatas - Ganimedes/São José - PALADAR - Esdras
A estátua cental representa José do Egipto com um cálice na mão direita e um prato com frutas na esquerda e a inscrição Joseph. De benedictione domini in terra ejus, de pomis coeli, et rore. Deuter. 33, 13. - «A tua terra seja cheia das bênçãos do senhor, dos frutos do céu e do orvalho».

Na mitologia grega, Ganímedes era um príncipe de Tróia, por quem Zeus se apaixonou. Nas imediações de Tróia, o jovem cuidava dos rebanhos do pai, quando foi avistado por Zeus. Atordoado com a beleza do mortal, Zeus transformou-se em uma águia e raptou-o, possuindo-o em pleno vôo. Ganimedes foi levado ao Olimpo e, apesar do ódio de Hera, substituiu a deusa Hebe e passou a servir o néctar aos deuses, bebida que oferece a imortalidade, derramando, depois, os restos sobre a terra, servindo aos homens. Em homenagem ao belíssimo jovem, Zeus colocou-o na constelação de Aquarius.

Cortesia de excursvirtbraga 
À esquerda Jónatas com uma lança, desculpando-se de ter provado o mel do cortiço que tem ao lado, dizendo Jonathas. Gustans gustavi in sommitate vergae; et ecce morior... I Reg. C 14. «Jonatas. Provei um pouco de mel na ponta duma vara; e eis porque morro...»
Na estátua da direita Esdras segurando um cálice e pão, com o letreiro:
  • Esdras. Gusta panem et nom derelinquas nos sigut pastor in medio luporum. Esdr. 4 C. 5 - «Esdras. Prova o pão, e não nos abandones, como o pastor no meio dos lobos».
Boca (paladar) – Água – elemento Feminino
Macaco – Ar – elemento Masculino

Note-se que nas primeiras representações egipcías, temos quatro tipos designados para a Mãe na sua forma estrelada, tratando-se de representações dos quatro elementos, sendo estes qautro tipos os seguintes:
  • Hipopótamo para a água,
  • Macaco para o ar,
  • Leão para o fogo, 
  • Crocodilo para a terra». 
In Peregrinar/Maria.

Cortesia de Gabriel/Peregrinar/Maria/JDACT