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quinta-feira, 28 de maio de 2020

Esboço para um possível Ensaio sobre Fiama Hasse Pais Brandão. Márcio L. Dantas. «Em Obra Breve, os pequenos livros de meus poemas reúnem-se de uma forma contígua, tal como foram vividos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Há uma idade em que se ensina o que se sabe; mas vem em seguida outra, em que se ensina o que não se sabe: isso se chama pesquisar». In Roland Barthes

(…)
À guisa de apresentação
Este conjunto de ensaios foi uma selecção procedida a partir dos trabalhos referentes à primeira avaliação da disciplina Tópicos de Literatura Portuguesa II, curso monotemático, disciplina complementar, ministrado na graduação de Letras da UFRN, sobre a poeta Fiama Hasse Pais Brandão. A forma e o conteúdo são da responsabilidade dos meus alunos, por sinal, diligentes e afeitos ao gosto pela poesia portuguesa. Tenho em mim, sempre, as palavras de Roland Barthes: há uma idade em que se ensina o que se sabe; mas vem em seguida outra, em que se ensina o que não se sabe: isso se chama de pesquisar. Pois muito bem, ando pesquisando a obra da escritora portuguesa que participou junto com Maria Teresa Horta e Luiza Neto Jorge da revista-movimento Poesia 61.

Apontamentos para a Poesia Atómica - em Fiama
Fiama Hasse Pais Brandão, ou simplesmente Fiama (1938-2007), publicou uma vasta obra lírica, de considerável valor estético e múltipla, desde Barcas Novas até âmago I/ nova arte e, sobretudo, o admirável Obra Breve. A poeta, exímia modeladora do corpo do verso (não foi à toa que traduziu para o português o Cântico dos Cânticos, Cântico Maior na sua tradução/recriação), além da publicação do seu último livro Cenas Vivas, de carácter autobiográfico, no qual mostra-nos mais uma das suas facetas, tinha, tal como Pessoa, uma pluralidade estética e literária. Tais qualidades só podem adquirir brilho se o autor envolvido com a força da palavra possuir um vasto repertório no que diz respeito à criação artística e à consciência artística, aliando a tradição ao talento individual tal como pensara Eliot. Fiama os possuía.
Estes apontamentos para poesia atómica de Fiama, breves, aliás, breves como a Obra Breve em análise, basear-se-ão na premissa escrita pela própria poeta na abertura do livro (uma espécie de comentário) que logo colocarei num poema da mesma obra: Tema 4. Assim adverte aos leitores e críticos:

Em Obra Breve, os pequenos livros de meus poemas reúnem-se de uma forma contígua, tal como foram vividos. As cortinas delimitam, confundindo-os, livros e parte de livros; poemas inéditos preenchem alguns intervalos. Na verdade, cada livro tinha sido apenas um corte, a poesia vai sendo escrita, transformada, recortada, ao correr do tempo todo.

Fiama recria, constantemente, parte da sua obra poética ao correr do tempo, reunindo-a tal como foi vivida, como se ela fosse um organismo poético vivo e mutante. A vida e a experiência dão certos sentidos às palavras, revelando a sua face mais bela ou assustadora, oferecendo à poeta inspiração o suficiente para criar e recriar a sua obra inacabada. A crítica talvez se perturbe com tal movimento de escrita e reescrita (perene até o período de vida da autora), contudo, não cabe aos críticos a preocupação com a mudança ou recriação de um poema, ora, o papel da crítica é justamente o de interpretar, sugerir, supor e adiantar algo a partir da análise do poema. Se ele é outro poema (reescrito), deverá se fazer, como se faz com poemas à primeira vista díspares, outra crítica, comparando-os e relacionando-os, percebendo o processo de escrita do poeta e seus ganhos, estéticos ou literários.
Afinal, Nenhum sinal nos calcina as órbitas.
Doravante, para apresentar a proposta deste ensaio, irei expor uma perspectiva de poesia, fazendo uma breve definição, relações com as demais ciências, críticas e literaturas, além de reforçar algumas ideias essenciais do conteúdo poético, desenvolverei características intrínsecas da manifestação verbal poesia, finalizando com o poema de Fiama. Porque realizar tais movimentos? Existe, na poesia portuguesa, um sentimento de tristeza profundamente enraizado na sua tradição (como se pode conferir pelo estilo musical fado), que deram a poetas como Sá Miranda e Camões, temas infindos para a sua poesia. Fiama é diferente. Fernando Pessoa, mesmo sob a face do heterónimo Álvaro de Campos, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, não fugiu à regra. A poeta tende para as poesias de vanguarda dos anos 60, geração de grandes poetas da Europa (Eliot, Pound), deixando a tristeza com os que foram ao mar. Adiante, pois, as poesias de Obra Breve revelam um teor mais moderno do que se imagina; aos sentidos e sentidos da poesia». In Márcio Lima Dantas, Esboço para um possível Ensaio sobre Fiama Hasse Pais Brandão, Departamento de Letras da UFRN, Tópicos de Literatura Portuguesa II, Wikipédia, Poesia 61.

Cortesia de DLdaUFRN/JDACT

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

A fala perfeita. Fiama H. P. Brandão. Um diálogo íntimo com a realidade. Vivian Steinberg. «’Fiama: está entre a palavra e as coisas’, como escreveu Eduardo Lourenço no prefácio à sua Obra Breve. A partir dessa reflexão, podemos dizer que os textos se dobram sobre si mesmos, fazendo do exercício da escrita o objecto de reflexão»

Cortesia de wikipedia

Resumo
«Este trabalho tem como objecto de estudo a investigação da poética de Fiama Hasse Pais Brandão buscando entender o que é fala perfeita para a autora. Analisamos minuciosamente o poema Teoria da Realidade, tratando-a por tu, que é toda uma poética, e o relacionamos com a sua obra, demonstrando assim uma coerência em seu projecto poético. O poema analisado faz parte da série Poéticas, do livro Cenas Vivas de 2000. Nesse poema há um desdobramento do sujeito poético que persegue a sua voz desde seus balbúcios. Podemos dizer que o sujeito da enunciação nos conta como a sua voz poética apareceu, desenvolveu, adquiriu a fala perfeita e a ofereceu aos leitores. Desde a publicação de Morfismos, em 1961, que a autora preocupou-se em resgatar a língua da estreiteza de seu uso comum e em dar autonomia à linguagem, buscando o que chamou de poesia / substantivo, assim se filiando à tradição da modernidade e especificamente a Mallarmé. Os seus poemas são testemunhos de tudo o que foi escrito e lido por ela, desde as grandes epopeias e a Bíblia, à tradição anglo-germânica, aos grandes poetas americanos e à tradição portuguesa. Fizemos um percurso em sua obra perseguindo poemas que são poéticas, ou seja, que o tema é a própria poesia para descobrir como se dá a visão e o conhecimento que Fiama tem do real e do poético. Constatamos que fez uma opção pela realidade. A matéria poética de Fiama pertence à terra, há uma preocupação em desvendar o real. Podemos constatar essas questões, a partir da nossa leitura dos poemas de Obra Breve, Poesia Reunida. Selecionamos um percurso poético que desaguou em Teoria da Realidade tratando-a por tu, o que nos mostrou a intimidade que adquiriu com a realidade, além de nos revelar como sua voz poética desabrochou».

«Tu, realidade, és nome de ti e do que os poetas fundam, depois de terem a fala perfeita» In Fiama Hasse Pais Brandão

«A fala perfeita é uma expressão retirada do poema Teoria da Realidade: tratando-a por tu, que foi publicado em Cenas Vivas (2000). Faremos uma análise minuciosa dele para compreendermos como se dá a fala perfeita da voz da enunciação de Fiama Hasse Pais Brandão e qual é sua relação com a realidade. Temos a consciência que esse poema produz múltiplos diálogos com sua obra e com a de outros poetas. Mostra-nos a coerência do percurso poético desenvolvido pela Autora como um todo, desde a publicação de Morfismos, em 1961. Fiama, em sua trajetória poética, principia pela palavra condensada, pela palavra substantivo. Amplia o sentido convencional da palavra, na esteira de Mallarmé. Acentua essa passagem de autor em autor. Como ela pronunciou em 1961: A forma poética é a destruição do hábito linguístico. Na sua poética, percebemos, e ela mesma se pronuncia em relação às vivências de sua vida, que há a experiência da leitura-convívio, ou seja, além das vivências da sua vida, há a experiência da leitura profunda, a que ela denomina leitura-convívio.
Aquiesceu perante ela mesma que vivia como Eu lírico e o enreda em outros autores poetas, transformando os seus poemas numa via de mão dupla: dos poetas para ela e dela para os poetas. Lápide e versão indistintamente. O anterior ou é uma lápide (tudo está aí, fixo) ou, então, uma versão, uma interpretação, em mim, para sempre. Assim, confesso: eu escrevo como os poetas, e com os Poetas, escreve a autora em A minha poesia e referências literárias. O que não a impede de clamar: Flosa, mãe, mar, em que versos/ somente sois as palavras minhas? Percorre um caminho singular, relaciona a realidade empírica com a realidade do poema, não perde esse referencial: o poema é realidade também. Dito de outra forma: Esse modo hipotético de estar entre a realidade do mundo e a realidade do poema. Ou ainda: Fiama: está entre a palavra e as coisas, como escreveu Eduardo Lourenço no prefácio à sua Obra Breve. A partir dessa reflexão, podemos dizer que os textos se dobram sobre si mesmos, fazendo do exercício da escrita o objecto de reflexão, nas palavras de Jorge Fernandes Silveira […]

«Este tecido encadeia-me. Eu estou atenta
ao tecido da minha vida. (...)
O contexto que de novo amanhece
é o que me contém. Confirmo que o amanhecer
é já um conflito antigo e ordenado, e que eu posso ser
personagem existente».
In Fiama Brandão

Contexto histórico-literário da obra de Fiama Hasse Pais Brandão
Podemos falar em contexto do poeta enquanto autor e leitor de outros escritores situado num determinado momento literário e social, capaz de filtrar ou rejeitar as vivências espaço-temporal. Por isso, escreveremos uma breve apresentação da autora. Em quase toda a obra de Fiama Brandão (1938-2007), as estações, a luz, as mudanças nas árvores e flores, os pássaros relembram a quinta em que morou na infância e depois na maturidade, Vivenda Azul, com o tanque, os caramanchões, a vasta gaiola contendo dezenas de periquitos, o lago com os peixes, os azulejos do terraço, em meio ao pomar, ovelhas, flores, perto do mar, em Carcavelos, Cascais, distrito de Lisboa. A formação escolar e universitária despertou, em Fiama, um conhecimento das literaturas inglesas e norte-americanas e, mais tarde, da literatura germânica. Estudou no St. Julian's School, colégio inglês, de elite, em Carcavelos, o que lhe deu uma base para os estudos de língua e literatura inglesa. Frequentou o curso de Filologia Germânica na Universidade de Lisboa, até ao terceiro ano, onde se familiarizou com as letras de língua alemã. Traduziu Robert Lowell e Novalis; Brecht, enquanto ainda estava proibido durante o governo salazarista; Cântico dos Cânticos, Artaud, entre outros. O teatro esteve presente em sua formação como escritora, pois foi uma das fundadoras do Grupo de Teatro de Letras, junto com Luiza Neto Jorge, Gastão Cruz, José Silva Louro e outros. Em 1965, o grupo surgiu na sequência do Círculo de Teatro de Letras, uma tentativa encoberta de criar uma associação de estudantes na faculdade, durante o Estado Novo, quando estas eram proibidas. Escreveu, por exemplo, Os chapéus de chuva, censurada, depois publicada em 1961. Ganhou o Prémio Revelação da Sociedade Portuguesa de escritores, por essa peça de teatro. A experiência no teatro lhe deu um olhar cénico, que visivelmente se manifesta nos livros Área Branca e Cenas Vivas» In Vivian Steinberg, A fala perfeita. Fiama H. P. Brandão, Um diálogo íntimo com a realidade, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, Tese de doutoramento em Letras, Programa de pós-graduação em Literatura Portuguesa, 2011, S. Paulo.

Cortesia de FFLCHumanas/JDACT

Esboço para um possível Ensaio sobre Fiama Hasse Pais Brandão. Márcio L. Dantas. «… da plena realização humana sempre permanecerão como limitações, a começar pela linguagem, nunca dando conta do que sentimos, rememoramos ou imaginamos»

Cortesia de wikipedia

«Há uma idade em que se ensina o que se sabe; mas vem em seguida outra, em que se ensina o que não se sabe: isso se chama pesquisar». In Roland Barthes

«(…) Embora tenha se pautado sempre por construir uma espécie de poesia sem confessionalismos, a impessoalidade e o distanciamento não anularam a matéria-vida da qual os poemas estão impregnados, sobretudo das imagens extraídas da natureza e sua dinâmica, configurando uma belíssima síntese de um saber, da poesia como forma de acesso ao real, tendo sido arrancada da experiência mais intensamente contemplada e vivida, decalcando um conhecimento essencial capaz de universalizar-se na trágica consciência de que alguns elementos impossibilitadores da plena realização humana sempre permanecerão como limitações, a começar pela linguagem, nunca dando conta do que sentimos, rememoramos ou imaginamos. Com efeito, mesmo sendo detentora de uma produção poética de grande envergadura, que se estende num amplo arco que vai da poesia lírica, como já dissemos, passando pelo romance, indo até à tradução em diversas línguas e ao ensaio de natureza académica, a poeta não foi ainda suficientemente estudada, apesar da cena literária portuguesa tê-la reputado como uma das mais altas vozes da contemporaneidade, haja vista ter sido contemplada com quase todos os mais importantes prémios literários de Portugal. Foi sobremodo reconhecida nos últimos anos da sua existência, no qual demonstrou nos seus derradeiros livros publicados um preciso domínio da arte da manufactura poética.
A trajectória da sua poesia se inscreve de maneira muito interessante, fincando-se de maneira singular e bem distinta da poesia produzida no seu entorno, pois partindo de textos bastante herméticos, estruturados numa depuração formal e num rigor sobremaneira influenciado pelos movimentos de vanguarda, que intentavam uma renovação da linguagem poética por meio do retorno ao significante, da palavra em sua carnadura concreta, a preocupação de ressaltar a palavra isolada ou em sintagmas mais minimalistas, tais como propugnava a poesia Concreta ou Espacial, que se caracterizava por ser antidiscursiva, evidenciando o signo linguístico quase sempre de maneira sintética ou isolada. Após essa fase, Fiama Brandão encerra a sua obra com livros nos quais podemos encontrar uma poesia de factura simples e com levado nível de reflexão acerca do homem e sua presença no mundo. Assim sendo, embora tenha se expressado de maneira ostensivamente engajada nos temas que representavam as inquietações do seu tempo, sempre numa perspectiva filosófica e universalizante, a autora nunca buscou um registo panfletário e excessivamente explícito com relação aos referentes manuseados em sua obra. Com efeito, mesmo tratando de temas de natureza histórica ou mitos da nacionalidade portuguesa, a poeta os aborda sob novo prisma, quase sempre crítico, nunca se deixando seduzir pela mesmice ou pela gramática mítica, que anseia por ser ritualizada e perpetuada, fortalecendo os mecanismos dos processos ideológicos no Imaginário. O fenómeno poético pode ser entendido não apenas como detentor não apenas de uma específica organização da linguagem, voltada sobre si mesma, como é, mas também é capaz de reter nas suas malhas elementos subtilmente denunciadores de imagens arquetípicas integrantes do património cultural da humanidade. Ora, é justamente a partir desses múltiplos semantismos contidos nas imagens articuladas nos poemas que podemos afirmar a poesia como um lugar para onde convergem, como se houvesse uma espécie de força centrípeta na qual as imagens são atraídas com a intenção de compor um sistema homogéneo de elementos: o conjunto de invariantes antropológicas universais.
Tudo o que viemos até agora dizendo nos leva à seguinte conclusão: da mesma maneira como é possível pensar por palavras, também é possível pensar por imagens. A partir do momento em que se organiza um texto, não tendo apenas como suporte a linguagem verbal escrita, como fomos habituados, levando-nos a um esforço de abstracção tendo como ponto de partida um sistema secundário (o poema, o livro de poemas) estruturado já a partir de um sistema primário (a linguagem verbal), ao fazer uso do ikon e do logos simultaneamente, a metáfora permite que uma imagem ou uma constelação de imagens aflorem com mais nitidez na consciência. Mas, se dermos uma olhada na história da escrita, constataremos que as letras foram decalcadas inicialmente de imagens pintadas: pictogramas, hieróglifos, ou seja, o poema devolve às palavras a força original de ter sido arte plástica, de ter sido ícone, antes de se tornar um código sistematizado, e instituído convencionalmente, formado por signos abstraídos de forças ou elementos advindos da natureza contemplada e vivenciada pelos nossos antepassados.
Porém, o mais importante de tudo sobre o que acima discorremos é o facto de a imagem literária ser o lugar privilegiado da organização e da transmissão das imagens depositadas no imaginário colectivo, visto que ela, a imagem literária, é um veículo sem peias nem freios de ordem alguma, seguindo a sua própria gramática, que é a de articular sentidos sem se submeter ao que se encontra instituído como lógica aristotélica-cartesiana. Prova dessa altiva liberdade é a maneira como a poesia contemporânea trata a gramática normativa ou a língua vernacular. A poesia pouco está ligando para essas duas instituições, com seus limites impositores de uma determinada maneira de enunciação ou comportamento. Quem sabe, a poesia contemporânea não tenha esquecido a criativa e frutífera lição do linguista Roman Jakobson, conclamando ao enlace dos dois domínios, Poética e Linguística, a juntarem seus conhecimentos visando à análise e interpretação da poesia. Mesmo porque a Linguística, como campo do conhecimento que tem como objecto de estudo as línguas naturais, nunca teve pretensões de prescrever nada, mas apenas de descrever, instaurando-se como um espaço de liberdade para as diversas variantes de uma mesma língua, visto que as considera todas num mesmo patamar, quer seja uma língua de um país da Europa, quer seja a língua dos índios Yanomamis, habitantes dos lugares mais recônditos da floresta amazónica». In Márcio Lima Dantas, Esboço para um possível Ensaio sobre Fiama Hasse Pais Brandão, Departamento de Letras da UFRN, Tópicos de Literatura Portuguesa II, Wikipédia, Poesia 61.

Cortesia de DLdaUFRN/JDACT

Esboço para um possível Ensaio sobre Fiama Hasse Pais Brandão. Márcio L. Dantas. «… embora não sendo uma poesia de cunho confessional, não deixa de transparecer através de alguns sinais as marcas de um espírito atento à vida e sua dinâmica»

Cortesia de wikipedia

«Há uma idade em que se ensina o que se sabe; mas vem em seguida outra, em que se ensina o que não se sabe: isso se chama pesquisar». In Roland Barthes

«A poeta portuguesa Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007), uma das mais importantes vozes literárias surgidas a partir da década de 60 na literatura lusófona, tornou-se, com o tempo, referência e lugar de passagem obrigatório não somente para os críticos, mas também servindo de parâmetro para outros que lidam com a arte de escrever. Para o crítico americano Harold Bloom, seria uma poeta forte. A obra poética da escritora pode ser distinguida em duas fases, conformadoras de dois registos, ou seja, duas poéticas bastante distintas, organizadas aqui em dois grandes arranjos, o que não podemos deixar de reconhecer como bastante incompletos, visto terem partido de uma simplificação meramente didáctica, pois sabemos muito bem que os seus livros não detém a noção codificada de dicção, na medida em que cada livro se apresenta com um ethos específico. Ora, foi justo o facto de não haver preocupação com um âmbito que a definisse como poeta, que se fizesse reconhecer de imediato um texto como pertencente à sua assinatura, quer dizer, refractou a ideia sedimentada de que o poeta detém uma dicção que o faz diferente dos demais pares. Portanto, eis aqui o que inicialmente nos despertou a simpatia, para, em seguida, adentrarmos de maneira mais sistemática numa investigação com mais rigor e calcado em bases teóricas e metodológicas. Vejamos como tomamos a liberdade de organizar: A primeira fase, tendo como ponto de partida a publicação de Morfismos (1961), caracteriza-se pela busca de um poema com depuramento formal e rigor com relação à necessidade de colocar a palavra em evidência, muita vez até isolada, sem os conectivos requeridos pela pontuação gramatical, o que gera uma densidade e uma tensão semânticas que, por vezes, beira a metáforas e imagens surrealistas, dado o grau de arbitrariedade e ausência de motivação lógica entre os elementos postos para a aproximação com o objectivo de articular a imagem, quase sempre de natureza crítica ou metalinguística. Há um deliberado controle das emoções, buscando uma escritura impessoal, sem marcas autobiográficas. Assim, encontramo-nos diante de uma poesia com pouca transitividade, espécie de criptografia linguística no qual o signo poético não se deixa decodificar numa primeira investida. Eis que temos os livros, para retermos três exemplos, Matéria (1960-1965), O nome lírico (1967), Era (1974).
Depois, há uma segunda fase que, a bem da verdade, já se encontrava implícita em poemas completos ou em laivos nos versos de factura mais directiva, sem retorcimento sintático ou fragmentação, distanciando-se de um discurso ostensivamente criptográfico, observado em inúmeros poemas da primeira fase. Constatamos aqui uma poesia extremamente simples e transitiva, plena de marcas de oralidade, com metáforas claras e dotada de uma argúcia pouco comum, estruturadas num registo que beira a prosa. Os livros que melhor sintetizam tudo o que acima discorremos são Área Branca (1978), Epístolas e memorandos (1996), Cenas vivas (2000), As fábulas (2002). São arranjos de poemas nos quais a poeta por meio de artifícios vários, mormente os advindos de um discurso mais prosaico, almeja uma simplicidade expressiva, escorreita e elegante, refractando o muito do que podemos chamar de experimentalismos presentes nos seus primeiros livros, no qual havia deliberadamente uma preocupação com a forma do poema, com a estrutura, com a disposição das palavras, conseguida esta através de uma série de elipses, fracturas e fragmentações, estrofação livre, manifestando-se sobretudo por imprimir no poema não a tradicional organização sintáctica com os seus implícitos e marcas lógicas, mas numa atitude explícita de subverter as regras da gramática normativa. Há uma outra coisa muito curiosa nessa fase, embora não sendo uma poesia de cunho confessional, não deixa de transparecer através de alguns sinais as marcas de um espírito atento à vida e sua dinâmica. Eis, então, olhos perscrutando o derredor, com seus objectos estáticos ou com a dinamicidade que a tudo preside, lenta ou ligeira.
Em síntese, como não poderia deixar de ser, o olhar da poeta inscreve-se como espécie de lápis que imprime no papel em branco o âmbito, o contorno, as fronteiras, conformando os objectos em a sua singularidade, em sua individualidade, apresentando-o, encenando-o. Para quê? Para que uma singularidade, um evento que sucede em determinado espaço ou tempo tenha um carácter mais universal, falo no sentido de que ocorrem estruturas antropológicas que são inerentes ao humano, partilhados desde sempre por todas as culturas; o poeta, como sendo o que desce a níveis mais profundos da psicologia humana, faz emergir por meio de imagens, elementos constituintes do Imaginário; no caso aqui tratado, a poeta procede de modo a equacionar e problematizar fenómenos e objectos que a circundam, numa atitude filosófica, detendo-se com mais atenção, e muita propriedade, sobre questões ontológicos e estéticos. Por derradeiro, gostaríamos de enfatizar a bela simbiose entre mímeses e episteme, organizada numa poesia de feitio simples, conseguida por uma rara intuição do sensível. Acontece que mesmo tendo efectivado uma separação metodológica em duas fases distintas, longe esquecermos que em toda e qualquer obra poética é possível detectar uma série de constantes psicológicas manifestada por meio de símbolos que se destacam como os mais expressivos e reveladores, aparecendo sob diversas ópticas, mesclando-se com outros pares de mesmo valor de sentido e eficácia no imaginário e nas representações sociais, formando enxames ou constelações de imagens, que se entrelaçam muitas vezes de maneira notável, comprovando a homogeneidade das imagens coalhadas na obra de determinado poeta». In Márcio Lima Dantas, Esboço para um possível Ensaio sobre Fiama Hasse Pais Brandão, Departamento de Letras da UFRN, Tópicos de Literatura Portuguesa II, Wikipédia, Poesia 61.

Cortesia de DLdaUFRN/JDACT

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Poesia. As Fábulas. Três Rostos. Epístolas e Memorandos. Fiama Pais Brandão. «O desfolhar habitual das memórias é agora mais geral e também mais súbito. Mas falaria de árvores, de plátanos, com relativa evidência. (…) em nada diminui sequer no poema a emoção abrupta»

Cortesia de wikipedia

Às vezes as coisas dentro de nós
O que nos chama para dentro de nós mesmos
é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta.
Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar
e nos torna piedosos, como quem já tem fé.
Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida
pelo movimento, pela forma, pelo nome,
voltamos ao zero irradiante, ao ver
o que foi grande, o que foi pequeno, aliás
o que não tem tamanho, mas está agora
engrandecido dentro do novo olhar.

Poema de Fiama Pais Brandão, in ‘As Fábulas’

A um poema
A meio deste inverno começaram
a cair folhas demais. Um excessivo
tom amarelado nas imagens.
Quando falei em imagem
ia falar de solo. Evitei o
imediato, a palavra mais cromática.

O desfolhar habitual das memórias é
agora mais geral e também mais súbito.
Mas falaria de árvores, de plátanos,
com relativa evidência. Maior
ou menor distância, ou chamar-lhe-ei
rigor evocativo, em nada diminui
sequer no poema a emoção abrupta.

Tão perturbada com a intensa mancha
colorida. Umas passadas hesitantes.
entre formas vulgares e tão diferentes.
A descrição distante. Sobretudo esta
alheada distância em relação a um Poema.

Poema de Fiama Pais Brandão, in ‘Três Rostos’

Epístola para os meus medos
Sois, os sons roucos, a espera vã, uma perdida imagem.
O coração suspende o seu hálito e os lábios tremem
sinto-vos, vindes ao rés da terra, como ventos baixos,
poisais no peitoril. Sois muito antigos e jovens,
da infância em que por vós chorava encostada a um rosto.
Que saudade eu tenho, ó escuridão no poço,
ó rastejar de víboras nos caniços, ó vespa
que, como eu, degustaste o figo úbere.
Depois, mundo maior foi a presença e a ausência,
a alegria e as dores de outros que não eu.
E um dia, no alto da catedral de Gaudí,
chorei de horror da Queda, como os caídos anjos.

Poema de Fiama Pais Brandão, in ‘Epístolas e Memorandos’


JDACT

terça-feira, 26 de março de 2013

Poesia. Cenas Vivas. Fiama Pais Brandão. «Deste meu lado, dois olhos que vigiam os fenómenos naturais, incluindo a celeste mecânica e as sociedades humanas, sedentárias e transumantes»

Cortesia de wikipedia

A Porta Branca
Por detrás desta porta,
uma de todas as portas que para mim se abrem e se fecham,
estou eu ou o universo que eu penso.
Deste meu lado, dois olhos que vigiam
os fenómenos naturais, incluindo a celeste mecânica
e as sociedades humanas, sedentárias e transumantes.

Mas podem os olhos fazer a sua enumeração,
e pode o pensado universo infindamente ir-se,
que para mim o que hoje importa
é aquela olhada vaga porta.

Que ela seja só como a vejo, a porta branca,
com duas almofadas em recorte,
lançada devagar sobre o vão do jardim,
onde o gato, por uma fenda aberta
pela sua pata, tenta ver-me,
tão alheio a versos e a universos.

Poema de Fiama Pais Brandão, in ‘Cenas Vivas

JDACT

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Hoje, só Poesia. Fiama Hasse Pais Brandão «Nunca o mar foi tão ávido quanto a minha boca. Era eu quem o bebia. Quando o mar no horizonte desaparecia e a areia férvida não tinha fim sob as passadas»

Cortesia de januellaarium

Verso Vão
Onda de sol, verso de ouro,
perífrase vã. Extasiar-me,
antes, por esta fusão,
mistura de brilhos. Ou, ainda
mais íntima, a consciência
extensa como o céu, o corpo de tudo,
semelhança absoluta. Respirar
na quebra da onda. Na água,
uma braçada lenta
até ao limite de mim.


Viver na Beira-Mar
Nunca o mar foi tão ávido
quanto a minha boca. Era eu
quem o bebia. Quando o mar
no horizonte desaparecia e a areia férvida
não tinha fim sob as passadas,
e o caos se harmonizava enfim
com a ordem, eu
havia convulsamente
e tão serena bebido o mar.
Poemas de Fiama Hasse Pais Brandão, in «Três Rostos - Ecos»

JDACT