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sábado, 30 de março de 2024

O Corsário dos Sete Mares. Deana Barroqueiro. «… o menino alçava-se em bicos dos pés a olhar maravilhado para o vaivém dos elefantes de trabalho que transportavam nas trombas os pesados troncos de madeira, cortados pelos lenhadores da casta dos revolons…»

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«Finalmente em Cochim, onde haviam desembarcado no primeiro dia de Novembro, a fortaleza de madeira, com a sua pequena povoação de casas de troncos e cobertura de folhas de palma, causara-lhe desilusão e temor. Enquanto António não era provido no seu cargo, ainda ocupado pelo oficial em funções, fora-lhe atribuída para moradia uma dessas cabanas, junto ao baluarte, onde ela vivera em contínuo sobressalto do fogo, dominando os medos para não enfadar o seu homem e acorrendo sempre ao toque do sino para combater as chamas.

Graças a Zobeida e Giauhare, não sentira solidão, apesar de ser a primeira portuguesa a pisar terra da Índia, uma proeza de que muito se orgulhava. Poucos dias após a sua chegada, apenas instalada na sua nova casa e com a ajuda das meninas e de uma parteira malabar, dera à luz o filho naquele mundo onde tudo lhe era estranho. Quase morrera de susto, quando a aparadeira gentia a lavara e ao filho, por três vezes, em água quente e fria e não enfaixara a criança, como era de uso em Portugal. Os homens fazem as leis, as mulheres os costumes!, pensara, decidida a aceitar os modos da terra que não fossem contra a sua religião e natureza e este do banho, sobretudo quando estava com as regras, o que era proibido pelos físicos portugueses como coisa prejudicial e muito perigosa, era afinal um preceito prazeiroso que adoçava os sentidos.

Não se queixara, nem se arrependera da sua vinda, porque, se era esse o preço a pagar para estar com o homem que amava, dava por bem empregue o sacrifício. No ano seguinte, Iria assistiria maravilhada à reconstrução da fortaleza em pedra e cal, ordenada por dom Francisco de Almeida, que lograra o grande feito de convencer el-rei a dar-lhe permissão para a fazer assim forte e cobrir de telha os seus edifícios e as casas da nova povoação. Como alcaide-mor de Cochim, António tivera direito a casa dentro da fortaleza, para onde Iria se mudara com o filho e as meninas.

Decorridos já oito anos sobre esses sucessos, Iria ainda gostava de passear ao longo das ameias e varandas das suas altas muralhas, levando Diogo pela mão e contando-lhe histórias. Era uma bela construção de forma quadrada, tendo nas duas esquinas do lado da praia cubelos de dois sobrados, cobertos com pasta de chumbo e guarnecidos de ameias; nas outras duas esquinas erguiam-se as torres quadradas também de dois sobrados, o de cima para as casas do capitão e do alcaide-mor com a sua gente, o de baixo para armazéns de mercadorias grossas.

Caminhando pelas varandas que ligavam as torres, mãe e filho podiam ver, no lado de dentro, o pátio com o grande poço no meio e a casa da tranqueira que fora reforçada, onde viviam o feitor e os restantes oficiais. A porta abria para o lado do mar e, no interior, tinham construído um vasto alpendre com bancos muito bem lavrados onde o vizo-rei vinha tomar o fresco com os seus fidalgos. Já não necessitava de levantar Diogo nos braços para ele ver a ribeira em que se varavam as naus, com os estaleiros para a sua reparação e também construção de navios tão bons como os de Portugal. Agora, o menino alçava-se em bicos dos pés a olhar maravilhado para o vaivém dos elefantes de trabalho que transportavam nas trombas os pesados troncos de madeira, cortados pelos lenhadores da casta dos revolons, para os locais indicados pelos cornacas seminus escarranchados nos seus cachaços». In Deana Barroqueiro, O Corsário dos Sete Mares, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-972-462-117-3.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

Deana Barroqueiro, JDACT, Literatura, Fernão Mendes Pinto, Crónica,

sexta-feira, 29 de março de 2024

O Corsário dos Sete Mares. Deana Barroqueiro. «… os homens que andavam nas fainas traziam todos os seus fatos vestidos, em camadas sobrepostas de saios e gibões, bragas e calças, botas, borzeguins e sapatos, barretes, boinas e sombreiros, e até cabeleiras de vestir! Iria fizera outro tanto, mas quase perdera os dedos das mãos e dos pés»

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Quando falares, cuida que tuas palavras sejam melhores que o silêncio (hindu)

Carta de Afonso de Albuquerque a el-rei Manuel I

«Senhor: Vossa Alteza me culpa, me culpa, me culpa em algumas cousas de cá da Índia, e creio que será por má informação que vos de mim darão algumas pessoas, com inveja e dor de meus feitos e meus serviços. Os que vos estas cousas escrevem, não andam em minha companhia, nem me vêem o rosto, nem são companheiros em meus trabalhos, perigos e fadigas, nem vestem as armas, (…) mas querem ganhar autoridade em vos escreverem mil enganos e falsidades; prognosticam e profetizam, falam com feiticeiras que lhes digam o que está por vir, e ajuntam toda essa massa, de que fazem esse pastel que lá mandam a vossalteza cada ano (…) e não vos deixam tomar verdadeiro assento nas cousas de vosso serviço, nem determinar o caminho que quereis que leve o negócio da Índia. Digo-vos, senhor, isto, porque se bem olhardes vossos regimentos e determinações, cada ano vem um contrairo ao outro, e cada ano fazeis uma mudança e haveis novo conselho, e a Índia não é o castelo da Mina, para cada ano bulirdes com ela, porque há nela muito grandes reis e senhores (…) que s’esforçam a vos defender que não segureis vosso estado nela, nem vos façais forte na terra, nem lhe ganheis os lugares principais; e estão confiados que haveis de leixar a Índia (…) E vossalteza ajuda-os a seu propósito, porque uma hora pondes um emplastro para este feito vir a furo, outra hora lhe pondes defensivos que não crie matéria; e tanto pode vossalteza ir por este caminho, que dareis com todo feito no chão. (…)

De Cananor ao primeiro dia de Dezembro de 1513.

Passavam já três relógios do quarto da prima quando Bento Castanho recomeça a saga de Iria Pereira e Fernão Mendes semicerra os olhos e deixa-se ir, no sabor das palavras do narrador, ao encontro do passado e daquela valente mulher, para lhe imaginar a vida e a luta em Cochim, longe da família que a trouxera ao mundo e da terra onde deixara as suas raízes.

Iria Pereira tomara a longa navegação do reino para a Índia, sete anos antes, como castigo e expiação dos seus pecados, sofrendo sem um queixume um terrível martírio durante mais de sete negregados meses escondida na S. Jerónimo, a nau de Francisco de Almeida, o vizo-rei da Índia. Muitos homens fortes haviam sucumbido às agruras da infernal viagem e só por milagre da misericordiosa Santa Iria, sua protectora, é que ela não morrera nem tivera um desmancho, encafuada num buraco malcheiroso, para não denunciar a sua presença, contando apenas com a ajuda do primo, presa de terríveis vagados que ora a deixavam prostrada, como desacordada, ora a faziam botar a comida e o estômago pela boca, mareada de morte.

O último mês de viagem, Outubro de mil quinhentos e cinco, coincidira com o fim da sua prenhez e, apesar do incómodo peso e do calor, fora menos penoso do que os anteriores. Por terem partido de Lisboa em Novembro, sofrera o primeiro Inverno quase até Cabo Verde, logo seguido de um Verão de grandes calmas, ao passarem a linha equinocial; contudo, fora muito pior o segundo Inverno, cerca do cabo da Boa Esperança, quando nevou no dia de S. João e seguintes, com tanta força que os grumetes passavam horas a lançar a neve dos navios às pazadas. O vizo-rei e os demais fidalgos não saíam dos seus aposentos, assando-se aos braseiros, por ser menor o perigo do fogo, e os homens que andavam nas fainas traziam todos os seus fatos vestidos, em camadas sobrepostas de saios e gibões, bragas e calças, botas, borzeguins e sapatos, barretes, boinas e sombreiros, e até cabeleiras de vestir! Iria fizera outro tanto, mas quase perdera os dedos das mãos e dos pés.

Depois adviera medonha tempestade quando, para fugir do frio, se tinham acercado de terra: ondas altíssimas pareciam querer engolir as naus e, no seu esconderijo, sobrepondo-se ao bramido do mar e ao estrondear da trovoada, chegavam-lhe os gritos e rogos que os matalotes lançavam aos céus, encomendando a salvação da sua alma a Jesus Cristo ou a Nossa Senhora, e ela orara também em silêncio, à espera da morte. As suas vozes haviam chegado aos céus, porque o temporal amansara antes de os navios se desfazerem e serem engolidos pelos mares». In Deana Barroqueiro, O Corsário dos Sete Mares, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-972-462-117-3.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

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quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Deana Barroqueiro no 31. O Corsário dos Sete Mares. «E Iria? Que parte teve nessa história?, pergunta a mulher do mercador, enfadada com os desvios que os homens davam constantemente à saborosa prática sobre as cativas…»

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Cochim

«(…) E como haveis de o matar?, perguntara el-rei, rindo. Senhor, de um só golpe todo o matarei. Assi!, respondera dom Lourenço e, levantando a alabarda, desferira um golpe no chão com tamanha força que a lâmina toda se meteu pelo sobrado dentro, arrancando muitos aplausos e brados de espanto aos assistentes. Não há dúvida que com tal golpe já todo o fogo será morto, felicitara-o Huriabem, encantado.

Senhor, eu bem vejo que não posso escapar das chamas, dissera dom Francisco, em tom de profunda tristeza, aproveitando a boa disposição d’el-rei e dos cortesãos para apresentar um novo pedido. Mais tarde ou mais cedo, o fogo queimará as casas onde guardo as fazendas d’el-rei de Portugal, vosso irmão, e os aparelhos dos navios da armada, que será a maior perda. Eu fui criado na guerra e nunca tive receio dela, mas agora tenho medo do fogo que qualquer mouro de Calecut me poderá pôr na porta, o que não me deixa repousar nem de noite nem de dia. Rogo a Vossa Alteza, por grande mercê, que, em lugar das casas de canas e ola que nos arderam, mas deixe fazer de pedra e telha, à nossa maneira, onde tudo esteja seguro. Porque, se o não puder fazer, ainda que eu e todos os portugueses estejamos prontos para morrer por vosso serviço, teremos de ir invernar em Angediva. Huriabem acabara por ceder aos rogos do príncipe e dos caimais, para que não fizesse inimigos daqueles poderosos estrangeiros que o haviam socorrido na guerra, e dera o seu consentimento ao vizo-rei para a construção da fortaleza em pedra, com a condição de não cobrir imediatamente os edifícios com telha, a fim de não escandalizar os seus súbditos. Dom Francisco lançara logo mãos à obra, pondo a gente comum e os fidalgos a trabalhar lado a lado, sem lhes dar descanso, a acartar e assentar pedra, a escoar com baldes a água das fundações, que eram muito próximas do mar, ou a fazer qualquer outra tarefa necessária. O rajá e o príncipe vinham visitar as obras e pasmavam de ver os fidalgos cobertos de lama a partir pedra ou vergados sob o peso de cestos e baldes. Nobres cavaleiros a trabalharem como escravos!, exclamara Huriabem. Quem me dera ser rei de tal gente que assi se sacrifica pelo seu soberano, mesmo quando se acham no outro lado do mundo, longe das suas vistas!

Só lhes faz bem, Alteza, rira-se o vizo-rei, porque ficam com os braços mais compridos, o que lhes dará vantagem na guerra, quando empunharem a espada ou a lança. Vestido, como sempre, de um saio de lã e boleta aberta do mesmo tecido, carapuça branca na cabeça e uma caninha na mão, dom Francisco distinguia-se pela simplicidade do trajo e nobreza da figura, a percorrer a obra cada dia, provendo a todos e tudo vigiando. Dava pressa aos homens, ansioso por terminar os panos das muralhas e as fortificações, não fosse o rajá mudar de aviso e suspender as obras, escondendo as bombardas que mandava trazer desmontadas das naus, durante a noite, para não criar alarme nos gentios e mouros que poderiam denunciá-lo a Huriabem. A conclusão dos trabalhos, em tão breve tempo que aos próprios construtores admirara, fora festejada com procissão, muitos comeres, música e danças de moças gentias.

E Iria? Que parte teve nessa história?, pergunta a mulher do mercador, enfadada com os desvios que os homens davam constantemente à saborosa prática sobre as cativas, para murmurarem das invejas dos capitães e das lutas pelo poder. Contai-nos, por vossa vida, o resto da sua lenda. De início, como vos disse antes, a vida parecia correr-lhes bem, mas quando começaram as guerras entre Afonso Albuquerque e o bando de Cochim, Iria Pereira apartou-se de António Real ou ele dela…

O som de um apito interrompe-o e o grumete, que acaba de virar a ampulheta, diz com voz entoada: Uma hora passou,/ outra começou/ melhor há-de ser/ se Deus quiser. E logo brada: É meia-noite. A pé, grumetes, qu’é o quarto da modorra, a pé! Por momentos a Cisne anima-se com o movimento dos matalotes que trocam de turno e alguns dos assistentes erguem-se com pena de deixar a história por acabar. Bento Castanho conforta-os: Vejo que se fez tarde, meus amigos. Ide dormir, que amanhã aqui estarei para contar a história de Iria, se houver quem ainda me queira ouvir. Com muitos risos, bênçãos de bem haja!, Deus vos bendiga! e desejos de uma santa noite, todos se recolhem às câmaras, catres ou recantos onde têm lugar para estender a esteira ou a rede de dormir. Céu salteado, vento fresco e variado!, entoa ao longe uma voz, que muitos já não ouvem». In Deana Barroqueiro, O Corsário dos Sete Mares, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-972-462-117-3.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

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sábado, 20 de agosto de 2022

O Corsário dos Sete Mares. Deana Barroqueiro. «Mandou a alguns dos seus homens de confiança que escondidamente fossem lançar fogo às casas de madeira dos portugueses e da feitoria (que mantinha vigiadas para não deixar o fogo alastrar e consumir as mercadorias armazenadas)…»

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Cochim

«(…) Se quereis saber como tudo se passou, anui, agradado do elogio, eu vo-lo contarei com toda a verdade, porque a tudo fui presente. Com um murmúrio de aprovação, cada um se acomoda o melhor que pode no espaço exíguo e desconfortável da coberta para ouvir o soldado da Índia que, como aquela dona dizia, é um bom contador de histórias. Bento Castanho cerra os olhos por momentos, como para arrumar as ideias, e começa: Para conseguir a fortaleza de pedra, o vizo-rei jogou com a gratidão e o receio do soberano a quem, no ano de mil quinhentos e três, os portugueses tinham ajudado a vencer o exército do Samorim de Calecut, livrando-o da sua vassalagem e fazendo dele um rei muito mais poderoso. Em paga desse auxílio, Huriabem permitira aos primos Albuquerque a construção de um forte de madeira na boca do rio, o lugar escolhido pelo feitor Diogo Fernandes Correia, por ter uma bela baía onde se poderia fazer um amplo porto para carregar as naus. Ao longe, os três grandes rochedos, dispostos em fileira e seguindo a linha da costa, pareciam sentinelas vigilantes…

Pela sua privilegiada situação, a sul de Calecut, Cochim era a escolha óbvia para capital da Índia portuguesa, necessitando para tal de uma fortificação de pedra e cal, defendida por muralhas, uma forte artilharia, sustentada por uma boa povoação de gente lusa com cristãos da terra que, em pouco tempo, se convertesse numa cidade populosa e próspera. Francisco de Almeida viera determinado a fazê-la, recorrendo a todos os meios pacíficos, como odiaas, peitas e promessas de futuros benefícios, para vencer a relutância d’el-rei Huriabem, o qual, muito embora predisposto a satisfazer todos os pedidos dos seus aliados cristãos, achava que uma construção muralhada, armada com grossa artilharia seria uma clara manifestação de medo face aos seus potenciais inimigos e, portanto, uma grande perda da sua honra. Para mais, querendo o vizo-rei construir edifícios cobertos de telha, um privilégio de que em todo o Malabar apenas gozavam as casas dos reis ou os templos dos seus pagodes e que, por uma antiga lei de Calecut, era também interdito aos pouco poderosos reis de Cochim, que se arriscavam a perder o reino em caso de desobediência.

Não querendo de nenhum modo agravar quem lhe concedera o monopólio da pimenta, carregando-lhe em cada ano todas as naus do reino com a preciosa especiaria, Francisco de Almeida fingira acatar a determinação do soberano e fizera construir uma grande povoação de muitas ruas com casas de madeira sobradadas, cobertas de palha ao modo malabar, onde também havia boticas e tendas da gente da terra que vendiam toda a sorte de coisas de comer, boas e baratas. Ao mesmo tempo, peitava em segredo os caimais, os seus duques e condes, bem como os regedores do reino, fazendo-lhes grandes honrarias e cumulando-os de presentes; como o seu filho Lourenço conquistara a amizade do príncipe herdeiro, que lhe chamava irmão, contava ter nele um formidável aliado. O rajá, todavia, não se decidia a satisfazer-lhe o pedido e o vizo-rei recorreu a remédios mais extremos. Mandou a alguns dos seus homens de confiança que escondidamente fossem lançar fogo às casas de madeira dos portugueses e da feitoria (que mantinha vigiadas para não deixar o fogo alastrar e consumir as mercadorias armazenadas), recompensando os donos pelos seus prejuízos à custa do rei Huriabem que lhes pagava os soldos. Por fim, fizera incendiar a sua própria casa e a igreja, que deixara arder até ao fim, para ter maior razão de queixa contra os mouros de Calecut que, a mando do Samorim, queriam escorraçar de Cochim os portugueses que defendiam el-rei contra os seus inimigos.

Nessa tarde, apresentara-se com o seu filho na corte do rajá, para agradecer a preocupação e o pesar que Sua Alteza manifestara pelo desastre. Apesar de muito moço, Lourenço ganhara o cognome de Aquiles Português, por ser um formidável guerreiro e se mostrar indestrutível em combate, com a sua armadura branca e a portentosa alabarda. Quando ia aos paços reais, nunca deixava de levar a arma, por saber quanto a sua vista maravilhava o próprio rei, que sempre lhe pedia para fazer algumas demonstrações com ela. Não haverá mais trabalho nem medo do fogo, anunciara o príncipe, indicando Lourenço que se mantinha respeitosamente atrás de seu pai, porque este valente cavaleiro me confirmou que vem para o matar com a sua poderosa alabarda. Era a arma mais espantosa que gentios e mouros alguma vez haviam visto no Oriente: uma haste grossa, chapeada com uma barra de ferro, dourada e retorcida em redor dela, com uma lâmina de quase meio côvado de comprimento, tendo no revés um bulhão ou punhal de três pontas e um punção roliço; na outra extremidade da haste, brilhava o aço de um ferrão quadrado, também de meio côvado. Era tão pesada que nenhum outro homem na armada a conseguia menear». In Deana Barroqueiro, O Corsário dos Sete Mares, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-972-462-117-3.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

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sábado, 4 de novembro de 2017

O Corsário dos Sete Mares. Deana Barroqueiro. «Pela sua privilegiada situação, a sul de Calecut, Cochim era a escolha óbvia para capital da Índia portuguesa, necessitando para tal de uma fortificação de pedra e cal»

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Cochim
«(…) Se quereis saber como tudo se passou, anui, agradado do elogio, eu vo-lo contarei com toda a verdade, porque a tudo fui presente. Com um murmúrio de aprovação, cada um se acomoda o melhor que pode no espaço exíguo e desconfortável da coberta para ouvir o soldado da Índia que, como aquela dona dizia, é um bom contador de histórias. Bento Castanho cerra os olhos por momentos, como para arrumar as ideias, e começa: para conseguir a fortaleza de pedra, o vizo-rei jogou com a gratidão e o receio do soberano a quem, no ano de mil quinhentos e três, os portugueses tinham ajudado a vencer o exército do Samorim de Calecut, livrando-o da sua vassalagem e fazendo dele um rei muito mais poderoso. Em paga desse auxílio, Huriabem permitira aos primos Albuquerque a construção de um forte de madeira na boca do rio, o lugar escolhido pelo feitor Diogo Fernandes Correia, por ter uma bela baía onde se poderia fazer um amplo porto para carregar as naus. Ao longe, os três grandes rochedos, dispostos em fileira e seguindo a linha da costa, pareciam sentinelas vigilantes...
Pela sua privilegiada situação, a sul de Calecut, Cochim era a escolha óbvia para capital da Índia portuguesa, necessitando para tal de uma fortificação de pedra e cal, defendida por muralhas, uma forte artilharia, sustentada por uma boa povoação de gente lusa com cristãos da terra que, em pouco tempo, se convertesse numa cidade populosa e próspera. Francisco Almeida viera determinado a fazê-la, recorrendo a todos os meios pacíficos, como odiaas, peitas e promessas de futuros benefícios, para vencer a relutância d’ei-rei Huriabern, o qual, muito embora predisposto a satisfazer todos os pedidos dos seus aliados cristãos, achava que uma construção muralhada, armada com grossa artilharia seria uma clara manifestação de medo face aos seus potenciais inimigos e, portanto, uma grande perda da sua honra. Para mais, querendo o vizo-rei construir edifícios cobertos de telha, um privilégio de que em todo o Malabar apenas gozavam as casas dos reis ou os templos dos seus pagodes e que, por uma antiga lei de Calecut, era também interdito aos pouco poderosos reis de Cochim, que se arriscavam a perder o reino em caso de desobediência.
Não querendo de nenhum modo agravar quem lhe concedera o monopólio da pimenta, carregando-lhe em cada ano todas as naus do reino com a preciosa especiaria, Francisco fingira acatar a determinação do soberano e fizera construir uma grande povoação de muitas ruas com casas de madeira sobradadas, cobertas de palha ao modo malabar, onde também havia boticas e tendas da gente da terra que vendiam toda a sorte de coisas de comer, boas e baratas. Ao mesmo tempo, peitava em segredo os caimais, os seus duques e condes, bem como os regedores do reino, fazendo-lhes grandes honrarias e cumulando-os de presentes; como o seu filho Lourenço conquistara a amizade do príncipe herdeiro, que lhe chamava irmão, contava ter nele um formidável aliado. O rajá, todavia, não se decidia a satisfazer-lhe o pedido e o vizo-rei recorreu a remédios mais extremos. Mandou a alguns dos seus homens de confiança que escondidamente fossem lançar fogo às casas de madeira dos portugueses e da feitoria (que mantinha vigiadas para não deixar o fogo alastrar e consumir as mercadorias armazenadas), recompensando os donos pelos seus prejuízos à custa do rei Huriabem que lhes pagava os soldos. Por fim, fizera incendiar a sua própria casa e a igreja, que deixara arder até ao fim, para ter maior razão de queixa contra os mouros de Calecut que, a mando do Samorim, queriam escorraçar de Cochim os portugueses que defendiam el-rei contra os seus inimigos». In Deana Barroqueiro, O Corsário dos Sete Mares, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-972-462-117-3.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

O Corsário dos Sete Mares. Deana Barroqueiro. «Albuquerque sabia bem o que se devia fazer para governar e conservar a Índia, contrapõe Castanho. Não desistiu de Goa, porque em todo o Malabar não havia outro porto…»

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Cochim
«(…) O Terríbil conhecia bem a Índia e sabia como e manter, concorda o capitão. Mais do que pela força das armas, as terras conquistadas só quedariam em nosso poder se tivéssemos gente nossa a viver nelas e a criar raízes. Para tal havia mister de mulheres e, à míngua de portuguesas, decidiu lançar mão das cativas mouras e das gentias. António Real ganhou-lhe um ódio mortal e buscou por todos os meios fazê-lo cair em desgraça, intrigando junto dos fidalgos e capitães da Índia do partido do vizo-rei Francisco Almeida, que era também inimigo do governador. Feia aleivosia!, indigna-se o mercador. A inveja e a inimizade que os portugueses têm uns aos outros dão quase sempre causa a que se danem os negócios importantes, sobretudo quando topam com alguém que trabalha para o bem de todos e da nação. Lembro-me dessa guerra entre o governador e o vizo-rei, porque Afonso Albuquerque lhe requeria o governo da Índia e Francisco Almeida recusava-se a entregar-lho, apesar de ter terminado o seu mandato e das ordens de Manuel I para lho largar. Castanho, que servira como soldado da armada no tempo em que Albuquerque ainda era capitão-mor, recorda com alguma amargura: Francisco ficara muito ufano pela sua grande vitória sobre os rumes e trabalhara muito para que os capitães e fidalgos seus amigos escrevessem a el-rei Manuel I uma carta assinada por todos pedindo para ele continuar como vizo-rei da Índia. Contudo, pior do que a oposição dos fidalgos que não queriam perder os seus privilégios, foi a conspiração do bando de Cochim, com o António Real à cabeça, que lhe levantou falsos testemunhos de roubos e conluios com os reis mouros e gentios, mal Albuquerque entrou no cargo de governador. El-rei Manuel I, que Deus tenha em sua glória, era mui crédulo e deu razão aos mexeriqueiros, causando tamanha paixão ao Terríbil que lhe apressou a morte.
As conversas são como as cerejas, cogita Fernão, puxa-se uma e vem logo uma dúzia atrás: Diu e Cochim, Iria e Real, Francisco Almeida e Afonso Albuquerque! Do Terríbil, sabia algumas histórias ouvidas na casa do senhor Jorge, que atribuía as razões da animosidade de Manuel I para com Albuquerque, por este ter sido estribeiro-mor, amigo e admirador de João II. O Venturoso, assim que subira ao trono começara a desfazer tudo o que o cunhado fizera e a afastar todos os homens da sua confiança. Albuquerque só pensava no serviço d’el-rei e do reino, não deixando essa gente roubar como queria. Ele nunca guardou nada para si, toda a gente sabe isso na Índia!,-volve o aveirense que sentia muita sanha dos oficiais e fidalgos que se dedicavam ao corso e ao comércio privado, em vez de se empenharem na defesa da Fazenda d'el-rei. …'té os presentes e jóias que os sultões lhe ofereciam ele enviava a Manuel I ou à rainha dona Maria. Podia ter ficado podre de rico, como quase todos os que para cá vêm com ofícios e cargos da Coroa, mas morreu sem nada, pedindo a el-rei para lhe proteger o filho!
Os de agora fazem o mesmo, comenta um tratante (mercador), natural de Ormuz que falava bem português. Castanho concorda: esses capitães e feitores roubavam tanto que Albuquerque, quando tomou posse da governação da Índia, nem dinheiro tinha para a mantença e soldos dos homens que andavam nas batalhas, chegando a oferecer as suas barbas, a uns ricos mercadores gentios, como penhor de um empréstimo, a fim de lhes pagar. O mercador de Aveiro acrescenta, como quem conhece bem aqueles sucessos: vendo que o governador tomava Goa para fazer dela a capital da Índia, António Real e o seu bando moveram céu e terra para que el-rei ordenasse o seu abandono, pois só assim Cochim poderia manter a sua importância e eles os seus privilégios e proveitos. Albuquerque sabia bem o que se devia fazer para governar e conservar a Índia, contrapõe Castanho. Não desistiu de Goa, porque em todo o Malabar não havia outro porto que se lhe pudesse comparar para manter vigia sobre os mouros guzarates. Muito me prazeria conhecer essa história de Cochim e da inimizade de Albuquerque com o vizo-rei assim como com António Real e o seu bando, roga Fernão. E a de Iria Pereira e do seu filho também, suplica a mulher, já que vossa mercê abriu o apetite à minha curiosidade, pelo modo como sabe contar uma história, que até parece que estamos lá a ver e a ouvir». In Deana Barroqueiro, O Corsário dos Sete Mares, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-972-462-117-3.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

O Corsário dos Sete Mares. Deana Barroqueiro. «Sim, eu passei esses difíceis anos de Cochim perto deles. Viveram felizes nos primeiros tempos, depois desentenderam-se por causa de umas moças cativas»

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Cochim
«(…) Pelos ossos de meu pai!, exclama Fernão, incrédulo, recordando-se das dimensões e imponência da construção, muito embora tivesse chegado a Diu aturdido da extenuante viagem da carreira da Índia e, ocupado em buscar um rumo para a sua nova vida nos escassos dias que ali passara, pouco ficara a conhecer da sua história. Fizestes aquela fortaleza em apenas meio ano? Juro-vos pelos Evangelhos que é verdade, pois laborei nela duramente! A fortaleza, pelo lugar onde se achava, era cousa de tanta sustância para o serviço d’el-rei João III, que deu causa à inimizade entre Nuno Cunha e o Martim Afonso Sousa. O governador queria ter a honra de fazer aquela fortaleza, porém o capitão adiantou-se-lhe e tratou do negócio com Bahadur. Fernão solta uma gargalhada e, vendo a estranheza que o seu riso causa, justifica-se: pouco antes de eu vir para cá, chegou a Lisboa a notícia da construção da fortaleza. Foi o piloto Diogo Botelho Pereira que a levou, navegando desde Cochim numa pequena fusta, que foi cousa espantosa de se ver. Esse Diogo Botelho fez a volta da Índia, de Cochim para o reino, numa fusta?, pergunta o mercador aveirense, com assombro. Não o posso crer!
Uma proeza bem singular, de verdade, confirma Fernão. Durante muito tempo não se falou de outra cousa no reino. A fusta era o que mais fazia pasmar as gentes que acorriam de todos os lugares para a ver, pois parecia impossível que alguém pudesse fazer nela tão espantosa viagem. Diogo Botelho partiu de cá sem licença do governador, que quase ensandeceu de raiva! É a vez de Castanho rir com gosto: era mais um que lhe passava a perna e fazia perraria! Nuno Cunha temia que Martim Afonso Sousa se lhe adiantasse a mandar a notícia a el-rei João para receber as alvíssaras, por isso se dava muita pressa a consertar uma boa nau para enviar a nova ao reino por Simão Ferreira, o seu secretário de confiança. Não desconfiou do piloto e mestre esférico (geógrafo) que tirava as medidas à fortaleza e lhe fazia os debuxos dela, os quais o atrevido também levou a el-rei João, junto com o traslado das capitulações do tratado de paz entre Bahadur, rei de Cambaia, e o governador Nuno Cunha.
Não foi esse Diogo Botelho Pereira que el-rei degredou para cá, como castigo da sua prosápia em lhe pedir, sendo quase menino, a capitania de Chaul em troca dos seus serviços como fazedor das cartas de marear, em que era mestre apesar de tão moço? Esse mesmo, sem tirar nem pôr, retorque o soldado da Índia ao mestre que aproveita o tempo morto da navegação para se juntar aos passageiros. Ele já aí está de novo, pois veio do reino, no ano de trinta e quatro, com o capitão-mor Martim Afonso Sousa que se gaba de o trazer manso como um cordeiro! Diogo é filho natural de António Real, antigo alcaide de Cochim, e foi o primeiro português a nascer na Índia. É levado do diabo! Inda antes de vir ao mundo já a sua história dava que falar.. Nasceu cá? Então é pardo? Não, é branco. Iria Pereira, a sua mãe, foi também a primeira portuguesa a vir para a Índia, logo no ano de mil quinhentos e cinco, dando muito que falar por ter embarcado às escondidas, vestida de homem, na nau do vizo-rei Francisco Almeida.
Foi uma viagem dos diabos!, lembra o capitão. Ninguém desmascarou a moça na nau?, espanta-se Luzia Aveiro, a esposa do mercador, também ela portuguesa. Se foi descoberta, ninguém a denunciou. Que lhe aconteceu?, insiste a matrona. Havei-la conhecido bem? Sim, eu passei esses difíceis anos de Cochim perto deles. Viveram felizes nos primeiros tempos, depois desentenderam-se por causa de umas moças cativas que Afonso Albuquerque lhes requereu e António Real não lhe quis entregar. O governador cobiçou-lhe as moças?, pasma a mulher. Não, queria apenas dar-lhes alforria e dotes, como fazia a muitas outras gentias, livres ou cativas, a quem mandava criar como cristãs, cuidadas por donas honestas, para as casar com portugueses, gente limpa que ficasse a morar na Índia, nas terras que para isso ele lhes dava». In Deana Barroqueiro, O Corsário dos Sete Mares, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-972-462-117-3.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

quinta-feira, 25 de maio de 2017

O Corsário dos Sete Mares. Deana Barroqueiro. «O sultão Bahadur, do reino de Cambaia, na península do Guzarate, deu permissão ao capitão Martim Afonso Sousa e ao governador Nuno Cunha para construírem uma fortaleza»

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Cochim
«(…) Como pouco mais possuía além da roupa que tinha no corpo, precisava de ganhar depressa algum dinheiro para recomeçar a sua vida. Ninguém lhe emprestaria a maquia necessária à compra de mercadorias para fazer tratos e, por isso, dificilmente seria bem sucedido no Malabar, apesar dos numerosos reinos que se estendiam desde o monte Delhi ao cabo Comorim e cujos nomes já em Portugal o faziam sonhar: Cananor, Calecut, Tanor, Cranganor, Cochim, Repelim, Chembé (também chamado Reino da Pimenta), Porcá, Coulão ou Travancor. Em Goa talvez fosse mais fácil embarcar em um qualquer junco ou nau que andasse às presas em lugares longínquos como Malaca, Ceilão, Samatra ou Molucas, onde poderiam trocar ou vender o produto dos saques com muito proveito porque, sendo tomados no corso, esses bens ficavam fora da alçada da Coroa e não pagavam o quinto a el-rei de Portugal.
Por ora, nada mais podia fazer senão ouvir as conversas dos navegantes e colher informações sobre as derrotas comerciais, os lugares, as mercadorias e os mais desvairados sucessos ocorridos entre os portugueses e as gentes daquelas terras. Em todos os navios que percorriam os mares do Oriente, havia sempre veteranos de muitas campanhas, dispostos a contarem façanhas heróicas, a descreverem sítios maravilhosos por eles visitados ou a darem informações das cidades e fortalezas sob alçada d'el-rei de Portugal, indicando aquelas onde melhor se poderia fazer fortuna com menor risco e avisando contra as que eram verdadeiros cemitérios de portugueses, como Moçambique. A Cisne não fugia à regra, havendo sempre narradores de serviço, quer de noite, quer de dia, durante os longos períodos de ócio, sobretudo quando a nau pairava em calmaria. Ele próprio já fizera pasmar os seus companheiros de viagem com o relato do seu cativeiro pelo formidável Soleimão Dragut, seguido da revolta dos mouros em Mocaa sobre a venda dos cativos cristãos e, por fim, dos seus infortúnios como escravo de um renegado.
Enquanto viver, hei-de arrenegar do maldito grego, que quase me matou com trabalhos, pancadas e fome, concluíra, ufano da atenção da assistência, que durante o seu relato lhe fizera muitas perguntas sobre o mouro Dragut e os seus corsários. Nos três meses em que estive em poder daquele demónio, senti-me tão desesperado que, por oito vezes, me quis matar com peçonha, mas Nosso Senhor deu-me forças para resistir até o judeu Abraão Muça me resgatar e levar para Ormuz. Nessa noite, é Bento Castanho, homem já de cãs, discreto e bem criado, que tem a seu cargo o desenfadamento de um bom número de ouvintes, entre os quais se acha um mercador de Aveiro, a viver há mais de dez anos com a sua mulher em Cochim. Fernão junta-se ao grupo, na esperança de ouvir falar dessa colónia de casados e das oportunidades de fazer fortuna. O homem, porém, conta a história da fortificação de Diu, o porto de escala antes de Goa onde lançariam ferro.
O sultão Bahadur, do reino de Cambaia, na península do Guzarate, deu permissão ao capitão Martim Afonso Sousa e ao governador Nuno Cunha para construírem uma fortaleza em qualquer lugar de Diu à sua escolha, em troca da ajuda que recebera, e haveria de receber sempre que dela houvesse mister, contra os seus inimigos, os mogores (povo de raça mongólica, aparentados com os tártaros, que se estabeleceu no Indostão, reino de Deli, da palavra persa mughal) do reino de Deli. No dia vinte e um de Dezembro de mil quinhentos e trinta e cinco, vai fazer três anos, o governador lançou a primeira pedra para a sua construção, enterrando muitas moedas de ouro debaixo dela, para dar sorte. Trabalhámos que nem uns desalmados, todos os que vínhamos na armada (escravos, matalotes, soldados, oficiais e fidalgos), mas acabámos a obra em seis meses». In Deana Barroqueiro, O Corsário dos Sete Mares, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-972-462-117-3.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

quarta-feira, 24 de maio de 2017

O Corsário dos Sete Mares. Deana Barroqueiro. «… se não houvera sofrimento, não houvera já mundo; e se não houvesse cavalos, não haveria guerra»

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Cochim
«Na boca deste rio [de Cochim] tem el-rei nosso senhor uma fortaleza mui formosa, derredor da qual está uma grande povoação de portugueses e cristãos naturais da terra, que se fizeram cristãos depois de assentada nossa fortaleza (…). [Na] povoação de Cochim há el-rei, nosso senhor corregimento de suas naus e outras se fazem de novo, assi galés e caravelas, em tanta perfeição como que se fizessem na ribeira de Lisboa. Aqui se carrega grande soma de pimenta e outras muitas especiarias e drogarias que de Malaca vêm e daqui se levam cada ano a Portugal. El-rei de Cochim tem muito pequena terra e não era rei antes que os portugueses descobrissem a Índia, porque todos os reis que novamente reinavam em Calecut tinham por costume e lei que, entrando em Cochim, tirado el-rei fora de seu estado, meterem-se em posse; e, se lhe prazia, tornavam-lho a dar ou não. El-rei de Cochim lhes dava cada ano certos elefantes, mas não podia fazer moeda, nem cobrir seus paços de telha sob pena de perder a terra. Agora que el-rei nosso senhor descobriu a Índia o fez rei isento e poderoso. (Livro em que dá relação das cousas que viu e ouviu no Oriente Duarte Barbosa, 1516)

Quem se senta ao fundo do poço para contemplar o céu, há-de achá-lo pequeno (hindu)
Carta de el-rei de Calecut a el-rei de Cochim:
Samorim, a ti Trimumpara, rei de Cochim, te faço saber que a mim é dito que tu recolhes e favoreces os cristãos em tua terra (...); e porque o [que] lhes fazes farás por não saber o nojo e destruição que deles tenho recebido, matando minha gente, queimando minhas naus, com outras coisas que calo, em que recebo grande pesar; pelo qual te rogo que olhes quanto amigos sempre fomos e como todos somos de uma terra e natureza; pela razão que para isso temos, não queiras perder a mim por homens que têm vida de ladrões roubadores, que andam para subjugar reis e terras em quem se perderá todo bem que neles se fizer. E estimá-lo-ei muito para to pagar em boas obras, quando as de mim houveres mister.

Carta de el-rei de Cochim a el-rei de Calecut:
Trimumpara, a ti Samorim, rei de Calecut, (…) ao que dizes que recebes nojo em eu recolher em minhas terras os cristãos e lhes dar carga para as suas naus e mantimentos por seus dinheiros, tu o não deves ter por mal, porque obrigado sou a isso. Dizes que são ladrões; não os conheço por tais, antes, neste pouco tempo que com eles tratei, os achei muito bons e verdadeiros, e de tal gente não deves haver por mal enobrecer minha terra e porto, pois sabes que todas disso vivemos. Eu folgo muito com a tua amizade, camo tu sabes e é razão. Rogo-te que te não agraves de mim, porque será sem nenhuma razão, que em tua terra os tiveste e dela os deitaste, matando-os. Eles, desacorridos, se vieram a mim, e comigo assentaram paz, ficando alguns deles sob a minha guarda e amparo e seria assaz de mau exemplo se, sem causa, os lançasse fora.

Com o corpo mais composto de carnes e de ânimo novamente esperançoso, porque tristezas não pagam dívidas, e quem não se quer aventurar não deve passar o mar, Fernão Mendes Pinto achava que as provações por si sofridas, enquanto cativo de mouros, tinham sido expiação mais que suficiente para todos os pecados que até então cometera, pelo que Deus lhe haveria de dar ocasião de enriquecer na Índia. Queria tentar a sua sorte em Goa, por isso embarcara na nau Cisne de Jorge Fernandes Taborda, que lá ia vender cavalos persas e arábios de Ormuz, um rico negócio, segundo dizia o capitão, apesar do dito dos mouros que naquelas partes se fizera anexim: se não houvera sofrimento, não houvera já mundo; e se não houvesse cavalos, não haveria guerra.
Se os ventos bonançosos e a boa navegação se mantivessem, não tardariam a chegar à vista da fortaleza de Diu, um desvio na sua derrota, rota, navegação, para deixar alguns soldados de reforço à fortaleza, por haver notícia de que se aprontava uma armada dos rumes (turcos de Constantinopla) contra os portugueses. Fora de Diu que partira, há quase um ano, para a sua primeira e desafortunada aventura no mar Roxo, que tivera tão bons começos, mas, como tudo na sua vida, acabara muito mal, lançando-o na mais negra escravatura. Apesar da beleza e riqueza de Ormuz, a Pedra do Anel da Pérsia, que o deixaram deslumbrado, jurou jamais volver aos mares da Arábia, para não correr o risco de cair de novo nas garras de mouros ou turcos». In Deana Barroqueiro, O Corsário dos Sete Mares, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-972-462-117-3.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Cristóvão Aires: «Dedicou-se ao jornalismo, entrando em 1876 para a redacção do Jornal do Comércio, o qual dirigiu durante muitos anos, esteve também à frente do Notícias de Lisboa e de A Tarde e foi ainda redactor de outros jornais e revistas»

(1853-1930)
Goa
Cortesia de claudiaveirohistoria

Com a devida vénia ao Jardim das Letras da SHI de Portugal.

«Poeta parnasiano, poetou sobre a sua Índia natal. Voltou para Portugal aos 18 anos na companhia do poeta Tomás Ribeiro, amigo que o ajudou na sua carreira literária.
Em Lisboa tirou os cursos de Infantaria e Cavalaria da Escola do Exército e estudou ainda literatura, filosofia e história.


«Trecho da planta da cidade d'Évora indicando a muralha romana»
Estampa XII da História do Exército Português
Cristovão Aires
Cortesia da bibliotecanacionaldigital

Dedicou-se ao jornalismo, entrando em 1876 para a redacção do Jornal do Comércio e da Colónias, o qual dirigiu durante muitos anos, esteve também à frente do Notícias de Lisboa e de A Tarde e foi ainda redactor de outros jornais e revistas.
Foi membro da Academia das Ciências de Lisboa e da Academia Real de História de Madrid. Político e militar, foi professor na Escola de Guerra. Em 1923 passou à reserva com o posto de General.

Cortesia de guerradarestauracaowordpress
Além de poesia, escreveu contos:
  • Lantejoulas, 1890,
  • Longínquas,
  • Fantasias Orientais, 1891)
Foi sobretudo historiador, dedicando-se principalmente ao estudo da figura de Fernão Mendes Pinto com o livro «Fernão Mendes Pinto e o Japão, Pontos Controversos», 1906.
Publicou:
  • «História Orgânica Política do Exército Português» (17 vol. 1896-1932),
  • «História da Cavalaria Portuguesa» em 4 volumes
  • «Para a Históriada Academia das Ciências de Lisboa», 
  • «Dicionário da Guerra Peninsular» em 4 volumes.
Obra Literária:
  • 1879, Indianas e Portuguesas,
  • 1882, Novos Horizontes,
  • Anoitecer,
  • Íntimas,
  • Cinzas ao vento.

Cortesia de kleffersonfarias

Nem isso mesmo me responde o Mar!
Meu seio inquieto é um sepulcro enorme;
e muita vida aqui tranquila dorme
um sono que ninguém pode acordar.»

E o Mar, aquele monstro rude e informe,
pronto a tudo ruir, tudo tragar,
vem em estrofes dulcíssimas compor-me
a sua história longa de contar.

Sobre as ondas, há lutas, há destroços,
naufrágios, tempestades e escarcéus!...
O fundo é cripta imensa, cheia de ossos!

E por sobre esta luta tão renhida,
flâmulas, galhardetes e troféus!...
Rude Mar, és o símbolo da Vida!

Muita da sua poesia encontra-se dispersa por jornais nomeadamente na revista Brasil-Portugal». In Jornal das Letras.
 
Cortesia da Sociedade Histórica da Independência de Portugal/JDACT

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Fernão Mendes Pinto: «Peregrinação». Extraordinária personagem da literatura e dos descobrimentos. O Marco Pólo lusitano. Um extraordinário livro de viagens e aventuras

(1510 a 1514-1583)
Montemor-o-Velho
Cortesia de wikipédia

Fernão Mendes Pinto foi um aventureiro e explorador português.

Extraordinária personagem da literatura e dos descobrimentos, Fernão Mendes Pinto é o grande aventureiro português. O Marco Pólo lusitano. Da simplicidade de Montemor-o-Velho, viajou entre a exuberante Índia, a misteriosa China e o exótico Japão. Experiências que o levaram a escrever a «Peregrinação», extraordinário livro de viagens e aventuras, e a tornar-se uma referência da época de glória de Portugal. Pirata, soldado, mendigo, cativo... Mostrou como os homens, em qualquer parte do mundo, são iguais. «Mesmo que só um milésimo do que é contado seja verdade, já é fantástico», admira o escritor Rui Zink.
Fernão Mendes Pinto era um escritor talentoso, mas talvez seja lembrado sobretudo pela sua dedicação ao relato das aventuras dos descobrimentos. A sua «Peregrinação» contribui para esta reivindicação à história. O escritor foi protagonista de uma pequena grande história.

Cortesia de wikipédia
Oriundo de uma família de Montemor-o-Velho, cedo tomou contacto com a luxuosa vida na corte. Era ainda muito pequeno quando um tio o levou para Lisboa e o colocou ao serviço na casa do duque D. Jorge, filho natural do rei D. João II. Ali trabalhou durante cinco anos, dois dos quais como moço de câmara do próprio duque, o que lhe possibilitou preservar o elevado estatuto social da sua família, contrariando a precária situação económica que atravessava.

É aos 27 anos que parte para a Índia, ao encontro de dois dos seus irmãos, iniciando assim uma aventura ímpar na história de Portugal. «No meio da sua simplicidade, Fernão Mendes Pinto confronta-se com uma abundância do mundo que não imaginaria nos primeiros anos da sua vida em Montemor-o-Velho», refere o historiador Rui Tavares.

Cortesia de conversasdepintor
A sua viagem é contada na obra que escreve, anos mais tarde, já regressado a Portugal. A «Peregrinação» é um fantástico livro de viagens que relata, ao pormenor, todas as façanhas, aventuras e desventuras de Fernão Mendes Pinto. O seu conteúdo é exótico e raro. Descreve detalhadamente a geografia de destinos longínquos e desconhecidos para a época, como Índia, China, Birmânia, Sião e Japão. Mostra os costumes, credos e tradições destas culturas orientais. O autor é tão descritivo e aventuroso que fez nascer um rol de ironias à volta da obra. Ninguém acreditava ser possível assistir a tantas festas, guerras e funerais, tudo tão diferente e estranho ao mundo ocidental. Foi tão pouco levado a sério que muitos deixaram de chamá-lo pelo nome. Tratavam-no por «Fernão, Mentes? Minto!». Ainda hoje é assim conhecido. «É um injustiçado», diz Rui Zink. «Foi muito maltratado. Portugal foi praticamente o único país da Europa onde o seu livro maravilhoso não foi ‘bestseller’. É como se fosse o maior mentiroso da história!».

O problema de «Peregrinação», para a época, foi apenas este: o autor contava coisas totalmente desconhecidas. Ninguém aceitava que o Oriente fosse assim. Agora já é um nome respeitado mas, ainda assim «tem mais importância para os Chineses e Japoneses do que para os Portugueses», diz o jornalista Carlos Magno. Injustiça nacional a um homem «que foi escravo e senhor, mercador, guerreiro, comerciante… Foi tudo!».
A sua vida foi um carrossel. Quando partiu de Lisboa para a Índia, embarcou numa expedição ao mar Vermelho e participou num combate naval com os otomanos. Foi feito prisioneiro, vendido a um grego e, por este, a um judeu que o levou para Ormuz. Só aí foi resgatado pelos seus companheiros. A partir daí, acompanhou Pedro de Faria até Malaca, local onde iniciou as suas maiores aventuras. Foram 21 anos de imprevistos, sustos e ameaças - e muitas descobertas únicas. Viajou pelas costas da Birmânia, Sião, arquipélago de Sunda, Molucas, China e Japão. Descobriu um novo mundo.
Numa das suas travessias pelo país do sol nascente conheceu São Francisco Xavier e, inspirado pela sua força e personalidade, decide entrar para a Companhia de Jesus e promover uma missão jesuítica nesse local. O Japão foi, sem dúvida, um dos países mais marcados pela presença de Fernão Mendes Pinto, não só pela sua vertente religiosa. É o escritor quem introduz as armas de fogo nesse território, acontecimento que é comemorado todos os anos no Japão, com a realização, no último fim-de-semana do mês de Julho, em Nishinoomote, na ilha de Tanegashima, do «Teppo Matsuri», o Festival da Espingarda.

Cortesia de portugallinha
A entrada na Companhia de Jesus alterou-lhe a personalidade. Libertou todos os seus escravos, entregou a sua fortuna aos pobres e à própria ordem religiosa, em Goa. Contudo, a sua missão como “irmão leigo” dura apenas até 1557, ano em que decide pôr ponto final nessa aventura. A decisão advém da viagem que faz, novamente ao Japão, em 1554, como noviço da Companhia de Jesus e embaixador do vice-rei D. Afonso de Noronha, junto do rei de Bungo. O desencanto foi total, quer com o comportamento do seu companheiro quer com a própria Companhia. Um desgosto que o faz regressar a Portugal. «Um homem que faz do seu medo a sua coragem», analisa a actriz Maria do Céu Guerra. «Personifica a aventura do português do século XVI, que não tem poder e embarca para se safar, que aprendeu tudo o que tinha para aprender. Como os nossos emigrantes».
Já de volta ao seu país e com a ajuda do ex-governador da Índia, Francisco Barreto, Fernão Mendes Pinto compila documentos que comprovam os sacrifícios que realizou pela pátria, tendo direito a uma pensão, que… nunca chegou a receber. O escritor não queria apenas uma colher de compaixão. Queria mais do que isso. Depois deste episódio, voltou-se, abatido, e mergulhou na escuridão. Desiludido, arrumou a vontade e partiu para Vale de Rosal, em Almada, onde escreveu, entre 1570 e 1578, a sua inigualável «Peregrinação». A obra só foi publicada 20 anos após a sua morte. Receia-se que o original tenha sofrido alterações, a que não terão sido alheios os Jesuítas. Uma obra notável e admirada até hoje. «Gostava de ser capaz de escrever um livro que marcasse o tempo, que sobrevivesse à Inquisição, ao desprezo da actualidade, à censura. E que, 500 anos depois, continuasse vivo», diz Rui Zink.
A razão de censura, descrédito e crítica, nasce da sua forma de analisar as «outras» culturas, condenáveis aos olhos dos quinhentistas. Faz a imaginação voar. «Considerava que os homens eram iguais, independentemente da sua religião, credo ou situação», comenta Maria do Céu Guerra. Além disto, Fernão Mendes Pinto revelava «o outro lado» da expansão marítima nacional e criticou muitas acções levadas a efeito pelos Portugueses. Era o seu sentido de justiça a fervilhar. «Diz mal de Portugal, por amor a Portugal», justifica Rui Zink.

Cortesia de caporcoisas
Mensageiro da verdade ou criador de ilusões, Fernão é um guerreiro, um sobrevivente. Como diz Carlos Magno, «é o nosso Marco Pólo. Se fosse americano, certamente Spielberg já teria feito um filme sobre ele». In RTP, Rui Zink, Maria do Céu Guerra, Carlos Magno, Rui Tavares.

Cortesia da RTP/JDACT 

terça-feira, 23 de março de 2010

Fernão Mendes Pinto: De volta à «Cidade de Deus»


De volta à «Cidade de Deus» é uma exposição, constituída por 24 painéis e concebida por Ana Paula Laborinho, professora na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A investigadora foi responsável pelo guião e pelos textos introdutórios aos vários cartazes e pela selecção das passagens inseridas da Peregrinação, a grande obra escrita pelo aventureiro e explorador português do século XVI, que relata a sua experiência no Oriente.
O tratado, que ainda hoje é o documento base vigente do relacionamento bilateral, «formalizou o reencontro entre Portugal e o Japão depois de um século de profundas, ricas e expressivas relações diplomáticas, comerciais e culturais (de 1543 a 1639) e um hiato que se lhe seguiu de mais de dois séculos até 1860», segundo o sítio da Embaixada de Portugal no Japão.
Está previsto que, depois da inauguração, em data ainda a definir, a exposição circule pelo Japão, uma vez que foi concebida de raiz para ser uma mostra destinada a itinerar pela rede de leitorados, centros de língua e centros culturais do IC no mundo.
 Será igualmente exibida no Oriente durante a 3ª viagem à volta do mundo do navio-escola Sagres, da Marinha Portuguesa.
O discurso expositivo assenta em cinco núcleos, o maior dos quais é o terceiro, centrado na própria Peregrinação. Um dos painéis da exposição é expressamente dedicado ao Japão, com o subtítulo A Cidade de Deus, porque para Fernão Mendes Pinto «o Japão é a Cidade de Deus».

A versão em japonês da exposição Fernão Mendes Pinto. Deslumbramentos do Olhar vai ser mostrada no Japão este ano, no âmbito das comemorações dos 150 anos da assinatura do Tratado de Paz, Amizade e Comércio, que em 1860 formalizou o estabelecimento de relações diplomáticas entre Portugal e aquele país do extremo oriente asiático.
IC/JDACT