Mostrar mensagens com a etiqueta António José da Silva. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António José da Silva. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 25 de abril de 2017

As Obras do Diabinho da Mão Furada. António José Silva. «… destes, por ser singular o mentir pelo seu prazer, podemos nós aprender a mentir e a enganar»

jdact e wikipedia

«(…) O castigo que se lhes dá é dobrarem-se-lhes os tormentos que padecem. E eu não sei que antipatia tem a fortuna com a poesia, que tão pouco favorece os poetas apesar de ser tão aplaudida por eles, e que simpatia tem a poesia com a miséria e a pobreza, que não houve professor seu, por mais talentoso que fosse, que não acabasse na maior miséria. E por isso, com muita razão, está naquele canto o pai de Ovídio a açoitá-lo, por este fazer versos, mas enquanto leva com o chicote, promete, em verso, emendar-se, porque é tal a doença da poesia, que, por mais que procurem os génios que a professam deixá-la, não se podem livrar dela.

Não tinha o Diabinho acabado de dizer as razões referidas, quando o Soldado viu muitos homens montados em mulas, vestes longas, com anéis de bispos e luvas fechadas nas mãos, vindo a fugir de uma grande multidão de gente que os seguia, dizendo-lhes: esperai, infames verdugos da morte, que vós pagareis aqui o que nos destes a beber com tantas sangrias e beberagens! E o pior foi que, quando estávamos a morrer, vocês diziam-nos que estávamos sãos, e por isso descuidávamos do arrependimento da nossa salvação. E, por nos chegar a morte de repente, não podemos tratar dele. São vocês, malditos, os responsáveis por termo vindo para aqui com este epigrama: e assim com razão pagais, com pena e rigor tão forte, serem na vida e na morte gadanhas universais.

Seguiam também este grupo, mais dois tumultos de gente, uns atirando-lhe com redomas, almofarizes e espátulas, e outros com violas e jogos de tábuas. Os primeiros diziam-lhes: falsos Galenos, vós haveis de pagar por terem sido o instrumento da nossa perdição com a porcaria das vossas receitas! Já os segundos diziam que eles tinham a culpa das inumeráveis execuções resultantes das suas sangrias. Não ignorou o soldado Peralta que os cavaleiros nas mulas eram médicos e os das redomas e guitarrinhas barbeiros e boticários, e por isso não perguntou nada ao Diabinho, mantendo-se a ver no que dava aquela revolta. Quando apanharam todos aos doutores, deitaram-nos das mulas abaixo e arrastaram-nos por uns metros; depois deram aos boticários asquerosas beberagens e aos barbeiros fizeram muitas sangrias com lancetas de fogo ardentíssimo.

Ocupado estava o Soldado a ver estas coisas, quando apareceu outra grande multidão de gente, uns com sovelas e outros com tesouras nas mãos, dando uns nos outros soveladas e tesouradas, fazendo uma barafunda de todos os diabos; e a causa da disputa era sobre quem tinham sido na vida mais mentirosos. E, como os das sovelas eram sapateiros e os das tesouras alfaiates, não se atreveram os demónios que os acompanhavam a resolver a questão, limitando-se a dizer-lhes este quarteto: destes, por ser singular o mentir pelo seu prazer, podemos nós aprender a mentir e a enganar.

E logo atrás desses demónios viu o Soldado que estavam outros maiores e traz desses ainda outros tantos, que traziam pessoas de rasto e lançavam-nas num lago de água suja, fedorenta e turva, para que bebessem nele a mesma porcaria que tinham posto nos vinhos que venderam por serem taberneiros. Os taberneiros gritavam para que não os lançassem dizendo que o vinho não merecia tão grande castigo pois ia assim baptizar-se e fazer-se cristão; e os demónios em paga de uma tão boa vontade, como eram missionários baptizantes de Baco, respondiam-lhes: bebei nessa eternidade, velhacos de infame ser, dessa água mais quantidade que a que fizestes beber aos homens contra a vontade!» In António José Silva (1705-1739), As Obras do Diabinho da Mão Furada, 1861, A Primeira Novela Sobrenatural Portuguesa, Luso Livros, Nova forma de Ler, ISBN 978-989-817-496-3.

Cortesia de LLivros/JDACT

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

As Obras do Diabinho da Mão Furada. António José Silva. «… que eram poetas que se condenaram por darem epítetos às belezas humanas, chamando-lhes divinas, angélicas, idolatradas e soberanas, e outras semelhantes loucuras; e que por mais que se quiseram desculpar…»

jdact e wikipedia

«(…) E os que tinham as varas clamavam: socorro! Socorro! Da parte de el rei, deem vossas senhorias denúncia destes desacatos aos ministros reais, senhores escrivães, para que se seja dado o merecido castigo! E isto diziam, continuamente, mas quanto eles mais gritavam, mais os demónios lhes davam, dizendo-lhes: … varas, que por ambições de interesse e de cobiça mediram mal a justiça, merecem varejões. Quien tal hace, que tal pague (Cá se fazem, cá se pagam), diziam os demónios, que aqui não conhecemos nem rei nem roque. Perguntou o Soldado ao Diabinho que gente era aquela e ele respondeu-lhe que eram os alcaides (juízes) e meirinhos, (oficiais da justiça; polícias) e os que estavam por detrás os seus escrivães, guardas e porteiros, que se tinham condenado por fazerem mal os seus ofícios, e que, por terem sido instrumento da sua condenação as varas e os poderes delas, davam-lhe agora por tormento as pancadas daquelas grandes varas. Noutra câmara viu o Soldado algumas pessoas com expressões graves, sentadas em tribunais asquerosos, a quem muitos espíritos malignos estavam a fazer fogueiras de papel queimado e a abrasarem-nos com o fumo e o fogo lento, enquanto lhes diziam: … o interesse e o respeito a tal pena a causa deram, pois na vida vos fizeram fazer de torto direito. E, perguntando o Soldado ao seu fiel companheiro quem eram os defumados este disse-lhe que aqueles eram alguns ministros, que se tinham condenado por terem dado sentenças injustas, por paixões ou corrupção; e que aqueles papéis com que os ofendiam significavam os feitos delas, porque em todos os estados havia maus e bons. Noutra parte viu o Soldado alguns sujeitos sentados e ao redor deles muitos demónios atroando-lhe os ouvidos com disformes buzinas e dizendo-lhes de vez em quando este quarteto: … ouvidos que ouvir na vida não quiseram pretendentes, no inferno as tristes buzinas ouvirão eternamente.
E perguntando o nosso Soldado quem eram, respondeu o seu companheiro que eram os ministros que por fecharem as portas e os ouvidos aos pretendentes (arguidos) se condenaram. Admirado estava o Soldado por ver tal espectáculo e não conseguia convencer-se que fosse verdadeiro, julgando ser outra visão fantástica como a da fingida ponte, pois não se podia conceber que de homens cristãos e honrados coubesse tais desacertos. Ainda noutra câmara apareceram-lhe outras figuras a folhear grandes livros que alguns demónios lhe tiravam das mãos de vez em quando, e davam-lhes com eles às pancadas, dizendo-lhes estes dois, tão sábios e exemplares, epigramas: … folheais sem descansar os textos com desprazeres, pois os vossos maus pareceres vos fazem aqui penar, padeceis a infernal ira, pois fazeis com maldade ou da mentira verdade ou da verdade mentira. Perguntou o Soldado ao companheiro endiabrado quem eram aqueles. Ele respondeu-lhe que eram advogados que se condenaram por irem procurar textos para trapaças que queriam sustentar os seus constituintes pelo interesse que dele recebiam, mesmo entendendo que era prejuízo para a justiça das partes, e que em pena disso dava-se-lhes o tormento de estarem sempre a folhear aqueles livros com que os espancavam de vez em quando. A estes seguia-se outro conclave de pessoas muito esfarrapadas, rotas e mal vestidas, uns muito pensativos e sonhadores, outros mordendo as unhas e outros dando palmadas nas testas, fazendo gestos no ar como se fossem doidos, e atrás deles alguns demónios dando-lhe a seguinte vaia nestes dois quartetos: … pródigos, que despendendo tanto ouro e tanta prata, tantos rubis e diamantes, tantas pérolas e esmeraldas, encarecendo belezas que se hão-de tornar em nada, e que terão no fim da vida apenas uma mortalha!
Perguntando o Soldado ao seu companheiro da mão furada que gente era aquela, este respondeu-lhe que eram poetas que se condenaram por darem epítetos às belezas humanas, chamando-lhes divinas, angélicas, idolatradas e soberanas, e outras semelhantes loucuras; e que por mais que se quiseram desculpar, dizendo que era ornato e exaltação da poesia as hipérboles daquelas lisonjas, não lhes foi aceite a desculpa. Aqueles que ali vês mais pensativos estão loucos, buscando conceitos no entendimento para um texto poético no qual diz que Plutão condenou o rapto de Prosérpina, feito por ele próprio, (Plutão, Hades, para os Gregos, era, de acordo com a mitologia romana, o deus do mundo inferior e senhor da terra dos mortos; segundo a mitologia, apaixonou-se por Prosérpina, Perséfone para os Gregos, e quando a viu, um dia, sozinha a colher flores num prado, irrompeu do fundo da terra, raptou-a e levo-a para o seu reino onde casou com ela e fê-la rainha do submundo; diz ainda a mitologia que o rapto de Prosérpina causou grande aflição ao mundo dos homens pois Prosérpina era filha de Ceres, Deméter, para os Gregos, a deusa da natureza e da fertilidade, e esta ficou de tal maneira inconsolável com a perda da filha que o mundo, antes eternamente ameno e florido, ficou estéril e mergulhado em frio e gelo; perante tal calamidade Júpiter, Zeus, para os Gregos, ordenou que Plutão deixasse que Prosérpina fosse para junto da mãe durante seis meses ao ano enquanto os outros seis permaneceria no submundo; deste acordo nasceram as diferentes estações do ano) e os que vês a bater na testa e a morder as unhas estão a pensar em consoantes para os versos que já começaram». In António José Silva (1705-1739), As Obras do Diabinho da Mão Furada, 1861, A Primeira Novela Sobrenatural Portuguesa, Luso Livros, Nova forma de Ler, ISBN 978-989-817-496-3.

Cortesia de LLivros/JDACT

sábado, 30 de maio de 2015

As Obras do Diabinho da Mão Furada. António José Silva. «O Diabinho, depois de dar à bruxa o referido castigo e de lhe ordenar que durante quinze dias não fizesse signos salomónicos (de Salomão, um dos reis de Israel. signos salomónicos era uma forma preconceituosa de dizer que os rituais judaicos da cabala eram bruxarias)…»

jdact e wikipedia

«(…) Eu vos agradeço, amigas minhas, respondeu o Diabinho, esse trato e adoração que me fazeis. Podeis relatar as maldades que tendes executado em virtude do favor que vos dou. Levantando-se então uma das bruxas com humilde submissão, disse ao Diabinho: eu, comissário de lúcifer, venho esta noite de chupar o sangue de um menino que não tinha mais que dois dias desde que foi baptizado, e deixei-o sem vida. Ao que respondeu o Diabinho dando um formidável e horrendo grito, dizendo: oh monstro indigno do meu favor e do título de bruxa, merecias, por tal obra que fizestes, que te sepultasse nas profundezas do inferno, em corpo e alma, para não veres mais a luz do sol! Não era mais lícito tirasses a vida a esse menino, antes que se baptizasse? Os inocentes que em protecção divina matas, feminino Herodes, vão gozar da eterna glória! Para isso seria melhor que esse inocente vivesse até à idade em que pecasse, para que tivéssemos parte nele. Muito eu tentei, oh indignado senhor, respondeu a bruxa, por executar a minha maldade antes de ele se baptizar, mas, semeando os seus pais mostarda pelas casas, levantando os ferrolhos das portas e pondo espadas nuas nas entradas delas, mo impediram, que não sei que antipatia tem connosco a virtude destas coisas, que nos encontram com grande violência os nossos intentos. E quanto ao que me dizes que mais justo seria que vivesse aquele inocente até a idade em que pecasse, para nele teres parte, contenta-te pensando que se vivesse, poderia vir a ser um grande santo e, para além de se poder tornar alguém capaz de grande glória, poderia acontecer que com o seu exemplo reduzisse muitas almas a Deus e tirava-te das mãos as presas delas. Mas tu também tens a culpa da minha hidropisia de sangue humano, pois me fizeste ser uma insaciável sanguexuga dele. Oh inferno abreviado, respondeu o Diabinho. O feminino Herodes! Oh diabo dos diabos! Pois se aumentas com sangue que chupas aos inocentes baptizados, não te irás daqui, oh indigna da minha presença e dos meus favores, sem o merecido castigo!  E sem dizer mais nada, tomou um pau dos que o nosso soldado tinha posto no lume e moendo a bruxa a pancadas, torceu-lhe uma perna até esta ficar manca.
Admirado estava o soldado e perdido dos seus sentidos por ver aquele espectáculo e por haver gente baptizada que, para gozar dos favores do demónio, para sua eterna condenação, sofresse tal ignomínia. E maldizia no seu coração a sorte que ali o trouxera, onde se julgava em tanto perigo, vendo, segundo o seu parecer, o inferno em vida. Mas fiava no seu ânimo e coração que, encomendando-se interiormente a Deus, e mediante o Seu divino favor, iria escapar de tudo. O Diabinho, depois de dar à bruxa o referido castigo e de lhe ordenar que durante quinze dias não fizesse signos salomónicos (de Salomão, um dos reis de Israel. signos salomónicos era uma forma preconceituosa de dizer que os rituais judaicos da cabala eram bruxarias) nem o invocasse, sob pena de lhe tirar logo a vida e de lhe antecipar o inferno, onde eternamente beberia chumbo derretido, pelo sangue baptizado que chupara, mandou às companheiras que referissem o que tinham feito; ao que elas logo obedeceram, relatando tais enormidades e torpezas que o soldado, por lhe parecerem indignas de serem escritas, não fez delas lembranças. Depois de ouvi-las disse-lhes o Diabinho: vitória, minhas amigas! Vós, sim, sois merecedoras dos meus favores. Eu vos agradeço e graduo por superlativas bruxas; e, porque tenho o hóspede que ali vedes e é já tarde, podeis restituir-vos às vossas habitações. E elas, que até então não tinham reparado no soldado por se dirigirem somente ao Diabinho e por o soldado estar muito quieto, a um canto da casa, sem dizer nenhuma palavra, assim que o viram, transfiguram-se em gatos negros e saltaram por uma janela com horrendos miados. Assombrado estava o soldado e sem gota de sangue no corpo, porque todo lhe tinha acudido ao coração com o temor do que tinha visto e ouvido, parecendo-lhe ilusão do demónio o que julgava por realidade. Quando, desaparecendo as bruxas, disse-lhe o Diabinho: que te parecem aquelas minhas súbditas? O soldado respondeu-lhe: estou admirado, atónito e fora de mim por ver que há gente tão bruta, tão cega e tão irracional que, conhecendo-te a ti e aos teus enganos, seja capaz de executar maldades contra seu próximo e viver quatro dias licenciosamente à custa do desprezo com que as tratas, mais o inferno, aonde sabem que hão de penar certamente. Oh, miséria grande! Oh, execrável maldade! Eu confesso-te que vivia enganado, porque, por mais que ouvia dizer que havia bruxas, não o podia crer e, que com o teu favor faziam grandes malefícios e para isso te comunicavam, não me podia persuadir a que assim fosse, imaginando que não passava de superstições embusteiras. Mas agora que vi com os meus olhos o contrário do que imaginava, se não foi ilusão do teu engano, fico desenganado, que coração sem arte não pensa em maldade.
Quantos desses enganos há no mundo!, replicou o Diabinho. Mal sabes o que corre nele e quantos passam na praça pública por aprimorados e virtuosos, que a mim estão entregues. Con su pan se lo coman, (que comam o seu próprio pão), respondeu o soldado, que eu não lhes tenho inveja e espero que o seu S. Martinho lhes venha a tempo do arrependimento pois quem tempo tem e tempo espera, tempo é que o demo lhe leva, e que quem mal vive, mal morre! Mais pareces pregador que soldado, replicou o Diabinho, contra o hábito da tua profissão, porque a maioria dos soldados, se não são diabos, são a pele do diabo na blasfémia e liberdade de consciência com que executam os seus vícios». In António José Silva (1705-1739), As Obras do Diabinho da Mão Furada, 1861, A Primeira Novela Sobrenatural Portuguesa, Luso Livros, Nova forma de Ler, ISBN 978-989-817-496-3.

Cortesia de LLivros/JDACT

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

As Obras do Diabinho da Mão Furada. António José Silva. «Determinava fazer-te má hospedagem, mas, vendo-te tão animoso e justificado, revoguei a minha intenção, que até os diabos, pelo que temos de atrevidos, respeitamos os sujeitos valerosos e não somos tão maus como nos pintam»

jdact e wikipedia

«(…) A boa educação e a cortesia parece que até ao diabo acalma. Tais palavras ainda não eram acabadas, quando a casa estava outra vez telhada e o Diabinho da Mão Furada deu-se a mostrar na presença do nosso soldado Peralta. Era uma figura de pequena estatura, mas de disformes feições: os narizes rombos e asquerosos, os olhos encovados em profundas grutas, a boca grande, com dentes de javali, e os pés de bode; e perante o sobressalto de Peralta, disse ele estas palavras: Não sou, oh animoso soldado, nenhum desses príncipes infernais que dissestes. Sou comissário geral, sim, para tentador e provocador de maldades. Depois que, por soberbas e ingratas acções, o nosso inefável criador nos despenhou das celestiais alturas, alguns foram sepultados nos abismos infernais enquanto outros de nós ficámos no ar e na superfície da terra, tendo para nosso castigo o poder para movermos as tempestades e os terremotos, mas só quando aquele que nos precipitou o permite para castigar o mundo. Desses sou eu um dos mais perversos e endiabrado de todos. Fui eu o que inventei o tabaco para que os homens perdessem o sentido e regalo do olfato e andassem sempre enojados dele, e bem se vê que foi invetivo esse tal vício, pois não sofrem do mal que tomam e quando espirram e lhes dizem: Dominus tecum, respondem para evitá-lo: Senhores, é tabaco! (O tabaco na altura não era apenas fumado; tabaco em pó, chamado de rapé era usado para cheirar e induzir o espirro; a moda começou porque se acreditava que o espirro era bom para a saúde e curava as enxaquecas; na verdade era o efeito da nicotina que provocava tal efeito; cheirar rapé tinha um grande revés, viciava e fazia com que os mais apanhados no vício andassem sempre a espirrar). Assim têm por delícia estar sempre a meter o pó pelos narizes e bebê-lo em fumo pela boca, à imitação do Inferno.
Inventei também os sapatos com o salto de um palmo de altura e a sua forquilha na ponta, em sinal do que merece quem os usa. Inventei os rebuços (capas que ocultam o rosto) de meio olho para licenciar às mulheres liberdades. E os monhos, as anáguas, os guarda-infantes e outras sarandagens e decotados provocadores de lascívias. Não falo em capoinas, saranbeques, chacoinas, sarabandas e seguidilhas desonestas, que isso são coisas novas para mim. Uns chamam-me Diabinho da Mão Furada e outros Fradinho, por termos alguns de nós as mãos tão rotas de liberdades, que em muitas casas onde andamos fazemos ferver o mel, crescer o azeite, aumentarem-se os bens, lograrem-se felicidades, e sobretudo, quando nos merecem com boa companhia que nos fazem, descobrimos tesouros escondidos aos donos das casas em que andamos. A estas casas me inclinei, para a minha habitação, pelos infelizes donos que tiveram e execráveis malefícios que nelas executaram. Daqui tenho ordem de Lúcifer para acudir a todos os mágicos e bruxas que connosco têm pacto, para lhe dar conhecimento de que por meio da minha indústria querem saber.
Determinava fazer-te má hospedagem, mas, vendo-te tão animoso e justificado, revoguei a minha intenção, que até os diabos, pelo que temos de atrevidos, respeitamos os sujeitos valerosos e não somos tão maus como nos pintam. E já me apraz em te ter por hóspede esta noite, para a passar a conversar contigo, por seres homem de inestimável valor, a quem a minha presença não atemoriza, como a alguns coitadinhos que só do meu nome se assombram e fogem. Por isso não partirás daqui sem ires regalado e eu te fazer grandes bens. Agradeço a Sua Diabrura, senhor Diabinho da Mão Furada, a hospedagem desta noite, respondeu o Soldado, por a não poder escusar, mas os favores que me promete não me são necessários, porque, como Sua Demonência costuma pôr o mel pelos beiços de semelhantes promessas, com que engana aos parvos, para depois exigir pagamento delas com mais dano dos que deu crédito, não quero eu prato de ouro em que hei-de escarrar sangue; e sangue espiritual, ademais, para risco da minha salvação. Ora digo, replicou o Diabinho, que és esperto, pois me conheces tão bem. É verdade que a profissão da minha natureza é a que supões: de enganar com promessas de bens, para deles tirar males de quem os recebe, sem considerar os juros com que lhos concedo, porque os ignorantes pensam que no receber não há engano e que todo o mato é orégãos. Mas tu de mim podes estar seguro que de ti não quero nada mais que fazer-te bem. Outro cão que roa esse osso, disse o Soldado, que a mim me não enganam palavras que a elas, e às penas, o vento leva.
Não sejas tão desconfiado da afeição que te tomei, respondeu o Diabinho, pois não te vejo como seres ingrato. Chegaste aqui pobre, e quero que vás rico. Considera, para não rejeitares o que te ofereço, como diz o castelhano hágase el milagro, i hágalo el diablo (faça-se o milagre e faça-o o diabo). Ao que respondeu o Soldado:  Se Vossa Diabrura quiser comigo usar essa gentileza, sem esperar de mim que quebre em nada a obrigação de fiel católico, no será mi dicha tanta, quanto será mi plazer (não será tanta a minha felicidade, como será o meu prazer). Ainda que, replicou o Diabinho, não se pescam trutas com calças enxutas, e que nunca o muito custou pouco, já te disse que não queria que te custasse nada os favores que te fizesse, porque me pago deles no gosto que tenho de falar contigo. A isto ia responder o Soldado, mas impediu-lhe a visão de quatro vultos femininos que, com notável estrondo, entraram de repente pela janela, com grandes alaridos, os cabelos soltos, arrepiados e negros, as caras disformes, as carnes queimadas, e nas grosseiras e torpes mãos umas candeinhas acesas. Os tais vultos, ajoelhando-se em frente do Diabinho da Mão Furada, disseram assim: A ti, oh poderoso comissário do Príncipe das Trevas, reverenciamos e rendemos graças como tuas fidedignas súbditas. Vimos relatar os malefícios que temos feito em virtude do pacto que contigo celebramos, para que o julgues por bom acerto e não nos faltes quando te invocarmos». In António José Silva (1705-1739), As Obras do Diabinho da Mão Furada, 1861, A Primeira Novela Sobrenatural Portuguesa, Luso Livros, Nova forma de Ler, ISBN 978-989-817-496-3.

Cortesia de LLivros/JDACT

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

As Obras do Diabinho da Mão Furada. António José Silva. «Teria sido vendida sob a forma de folhetins? Teria sido narrada em salões de convívio da nobreza ou da burguesia, como era costume? Ou em botequins (bares da época) a ouvintes dispostos a ouvir? Não é possível sabê-lo»

jdact e wikipedia

«Escrita durante os inícios do século XVIII (1700) esta novela tem a particularidade de ser considerada a primeira novela de terror portuguesa, apesar de conter também muitos elementos cómicos. Sendo de autoria anónima, a obra tem levantado uma ampla discussão em torno da identidade do seu autor a partir do momento em que o seu anuscrito (ou uma cópia do original) foi descoberto no século seguinte. Mesmo quando se levantou a presunção de ter sido uma obra da autoria de António José da Silva, mais conhecido pelo cognome o Judeu e que viria a morrer nas fogueiras da inquisição, esta não foi consensual. No entanto acabou por publicada em 1861, pela primeira vez, com o título e o subtítulo de Obras do Diabinho da Mão Furada, uma novela Diabólica de António José da Silva, o que ajudou à sua divulgação pois na época a sociedade fazia uma reflexão sobre as injustiças da inquisição [maldita (que se extinguiu, oficialmente só em 1821)] e António José da Silva era visto como um dos mais notórios mártires desse tempo. Fosse ou não o autor, o seu nome acabou por ficar associado à obra. Não é possível dizer em que termos a obra foi divulgada na época que foi escrita, se é que o chegou realmente a ser. Teria sido vendida sob a forma de folhetins? Teria sido narrada em salões de convívio da nobreza ou da burguesia, como era costume? Ou em botequins (bares da época) a ouvintes dispostos a ouvir? Não é possível sabê-lo. Mas a obra certamente foi escrita com o intuito de aterrorizar e de divertir quem a lesse ou ouvisse e faz um retrato perfeito e mordaz da mentalidade e dos costumes da época em que foi escrita. É uma aventura que descreve uma caminhada do Alentejo a Lisboa, cheia de peripécia e com elementos que claramente invocam a obra de Dante Alighieri, A Divina Comédia que tanto servem para aterrorizar, moralizar (pelo medo) e para divertir através do sarcasmo e da paródia.
Será pertinente falar também do demónio que a obra invoca: O Diabinho da Mão Furada. O nome original deste personagem, e pelo qual ainda é conhecido nalguns locais do Norte de Portugal, é Duende da Mão Furada, uma criatura folclórica galaico-portuguesa que remota ao tempo dos celtiberos. É um duende caseiro e que tanto concede favores e benefícios como engana e prega partidas. Tem na cabeça um barrete encarnado, faz desaparecer peças de roupa ou outros objectos da casa e faz azedar a comida que acabou de ser feita; mas também é capaz de trazer a paz e a felicidade ao lar se o mantiverem satisfeito. Para isso basta deixarem-lhe migas de pão ensopadas em leite num prato, durante a noite, em qualquer canto da casa. Se está de muito mau humor entra nos quartos, durante a noite, através do buraco da fechadura das portas, põe-se à vontade em cima das pessoas e causa-lhes grandes pesadelos. Tem as mãos furadas porque são mãos cheias de enganos e não se pode confiar nele, mas que também o faz derrubar muitos dos objectos domésticos que por vezes tenta roubar. Durante os séculos XVII e XVIII, séculos de forte domínio católico que abarcou praticamente tudo ligado ao paganismo, o duende das mãos furadas assumiu a forma de um diabrete e passou a chamar-se de Diabinho da Mão Furada ou Fradinho da Mão Furada; um ser malévolo e ligado aos medos dos infernos mas que manteve a personalidade brincalhona e sempre disposto a pregar partidas. Para além de uma actualização ortográfica, a presente edição foi alvo de uma adaptação linguística corrente, nomeadamente, em passagens em que se verificou que linguagem usada no século XVIII dificultava, em grande escala, a leitura da obra». In Equipa Luso Livros.

«Retirou-se um soldado da milícia de Flandes, no tempo de Felipe II, chamado André Peralta, afligido e mal tratado da guerra, tão pobre como soldado e tão desgraçado como pobre. Depois de entrar neste Reino de Portugal, onde tinha nascido, caminhava para Lisboa, pátria comum de estrangeiros, madrasta dos naturais e protectora dos venturosos. Quando começou a anoitecer estava ele a uma légua de distância da cidade de Évora, num sítio aonde estavam umas casas abertas e desocupadas de gente. E vendo o soldado caminhante que a noite ameaçava com a escuridão medonha e que as nuvens sem descansar choviam dilúvios de água, resolveu passar a noite, como pudesse, nalguma casa mais reparada daqueles edifícios, contentando-se para seu sustento as limitadas provisões do seu alforge. Primeiro cortou com a espada alguns ramos de umas árvores e arbustos que estavam ali por perto, para acender uma fogueira com que se pudesse enxugar da chuva e o livrasse do frio, e só depois recolheu-se a uma das casas que julgou mais acomodada. Lá dentro, tirou do alforge fuzil e pederneira (também conhecida por sílex, é uma pedra que ao embater com uma peça de metal, o fuzil, produz uma faísca), que são os mais importantes apetrechos de quem caminha, e acendeu um fogo. À luz da claridade, varreu com uns ramos parte da casa em que se acomodou e depois de se enxugar ceou parte do pobre sustento que trazia.
Já tinha o Soldado, depois de cear, dormido um breve sono, e estaria passada a terça parte da noite, quando o acordou um grande barulho e estrondo que vindo das divisões vizinhas; e, aplicando ao lume alguns ramos já secos, para que com mais claridade pudesse melhor testemunhar o que aquilo era, ouviu que uma voz desentoada e medonha que lhe disse: Sai, atrevido soldado, desta casa, se não queres morrer nela soterrado e desfazendo-se sobre ti. A esta voz, viu o Soldado, no seu parecer, que as paredes da casa em que estava estremeciam, prognosticando a sua ruína, e que os fragmentos das antigas portas e janelas se quebravam. Mas nem por isso perdeu a compostura e fazendo das tripas coração, para não o matar primeiro o medo que o perigo, como muitas vezes acontece aos desalentados, respondeu à desentoada voz: Se és espírito transmigrado desta vida, e necessitas de alguma coisa dela, rogo-te, da parte de Deus, me digas quem és e o que pretendes, que ânimo tenho para te ouvir, e prometo-te que farei tudo o que necessitares para o teu remédio, ainda que por ser um pobre soldado me seja necessário mendigar para isso. Mas se és espírito maligno, digo-te que nada me faz temer as tuas ameaças. Aqui tenho a cruz da minha espada e as palavras me ensinou a santa fé católica que me livrarão de ti e dos teus poderes, pois não tens jurisdição para executares nada sem que a Divina Providência o permita. E se o facto de eu estar aqui, te chateia, pouco tempo terás esta moléstia, pois da noite já é passada a maior parte, e assim que aparecer a primeira luz da resplandecente aurora, irei logo, mas o rigor da escuridão e tempestade que está a fazer não me dão lugar a obedecer-te neste momento. Com isto me parece que se em ti há alguma luz de razão, podes-te dar por satisfeito e desculpar-me por me atrever a ser teu hóspede, pois se no campo havia de morrer esta noite posto à chuva e ao frio, pareceu-me lícito amparar-me ao abrigo da solidão desta casa, a que me recolhi. Uma vez que estás tão reticente em saíres, por julgares haver aqui agasalho, disse-lhe a voz, que se faça aqui o estado que oferece o campo.
E dizendo isto, num breve instante, destelhou-se o telhado da casa e ficou a chover dentro dela como na rua. O Soldado, vendo-se naquele aperto, não teve outro remédio senão meter-se a um canto da chaminé e, tomado de audácia para com o dono da casa, que até ao diabo se obriga o uso de lisonjas, disse-lhe: Senhor Barrabás, ou qualquer príncipe infernal, ou quem Vossa Diabrura seja, não é política de sujeitos grandes usarem tais rigores com os humildes. Perdoe-me, Vossa Diabrura, por ter violado a paz desta casa com a minha intrusão. Considerando que o medo e o frio faz unir o homem com o seu inimigo, e, como o frio desta noite era tão grande, obrigou-me a não ligar a preceitos. Peço a Vossa Diabrura que volte a telhar a casa, para que eu me abrigue da chuva, que em rompendo a luz do dia sairei logo. Contente-se, por castigo do meu erro, com os sobressaltos e sustos que me tem dado, e se quer que conversemos um pouco, apareça, que ânimo tenho para isso, e, por mais feio que se me apresente, não usarei das palavras que sei para me livrar da sua Demonência, nem lhe direi Vade de Retro Satanás!, nem o notificarei com os exorcismos que tanto descompõem Vossa Diabrura». In António José Silva (1705-1739),As Obras do Diabinho da Mão Furada, 1861, A Primeira Novela Sobrenatural Portuguesa, Luso Livros, Nova forma de Ler, ISBN 978-989-817-496-3.

Cortesia de LLivros/JDACT

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

António José da Silva. O Judeu: «Há na Glória Padecer». Poeta, comediógrafo e advogado. Nasceu no Rio de Janeiro e veio a ser executado pela maldita Inquisição. É considerado o dramaturgo português mais importante entre Gil Vicente e Almeida Garrett.

(1705-1739)
Rio de Janeiro, Brasil
Cortesia de bndigital
Tão alegres que viemos,
E tão tristes que nos tornamos.
(Vida do Grande D.Quixote de La Mancha e do Gordo D.Quixote)

António José da Silva, O Judeu, constitui um caso singular na história do teatro português. Luis de Freitas Branco apelida-o de fundador da ópera nacional. Teófilo Braga considera-o um mártir da Inquisição. Há, por outro lado, uma evidente constatação: sem o Judeu, teriam decorrido trezentos anos da nossa história teatral (entre Gil Vicente e Garrett) sem dramaturgos com obra digna de relevo.
Cortesia de embaixada-portugal-brasil
O Judeu viveu numa época, primeira metade do séc. XVIII, que corresponde ao reinado de D.João V em período dos ideais barrocos, da luxúria e da ostentação. A Igreja constituía-se como um segundo poder dentro do estado e a Inquisição actuava impiedosamente sobre a heresia religiosa, perseguindo nomeadamente judeus e cristãos-novos.

«Originário de uma família de cristãos-novos, perseguida pela Inquisição, facto que lhe valeu a alcunha de "o Judeu", chegou do Rio de Janeiro a Portugal, com 8 anos, para o julgamento de sua mãe. Este incidente permitiu-lhe estudar em Lisboa e mais tarde em Coimbra, onde se formou em Direito (1728). Em 1726 foi preso pelo Santo Ofício juntamente com a mãe e libertado meses depois. Pouco tempo após a sua estreia no teatro, em 1733, o comediógrafo casou-se com uma prima judia de quem teve uma filha. Quatro anos depois, foi novamente encarcerado com a família, acusado de judaizante. A mulher e a filha foram libertadas e refugiaram-se na Holanda, mas A. J. da Silva foi garrotado e queimado em auto-de-fé, sob acusação de judeu convicto, negativo e relapso. As suas comédias foram escritas em prosa, embora com alguns recitativos poéticos, e destinavam-se à representação essencialmente por bonifrates. Situa-se a sua obra na transição da comédia espanhola para o melodrama italiano. Calderon, Tirso de Molina e Lope de Vega foram algumas das influências sofridas.
No Teatro do Bairro Alto foram representadas algumas das suas comédias, em que incluía números musicais: Esopaida ou Vida de Esopo (1734), Os Encantos de Medeia (1735), Labirinto de Creta (1736) e Guerras do Alecrim e Manjerona (1737)».

Bibliografia:
  • A Vida do Grande D.Quixote de la Mancha e do Gordo Sancho Pança (1733);
  • Esopaida (1734);
  • Encantos de Medeia (1735);
  • Anfitrião ou Júpiter e Alcmena (1736);
  • Labirinto de Creta (1736);
  • Variedades de Proteu (1737);
  • Guerras do Alecrim e Manjerona (1737);
  • Precipício de Faetonte (1738);
  • Teatro cómico português (?) (1744);
  • Ninfa Siringa (?) e Obras do Diabinho da Mão Furada (?). Nota: Relativamente às três últimas obras citadas não há certeza da sua autoria, nem indicação da data das duas últimas.
António José da Silva. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2010. [Consult. 2010-10-01].
Disponível na www: .

Cortesia de fclarunesp
Em 1726 é obrigado a interromper os seus estudos na Universidade de Coimbra, regressando a Lisboa onde o aguardava o seu primeiro processo inquisitorial. Em 13 de Outubro, António José da Silva é encarcerado nos Estais, sede da Inquisição (processo nº 3464), onde hoje existe o Teatro Nacional D. Maria II, sendo torturado. Do seu processo consta que «o réu, despojado dos vestidos que podiam servir de embaraço ao dito tormento, foi lançado no potro, e começado a atar, lhe foi notificado por mim, notário, em nome dos senhores inquisidores, que se naquele momento morresse, quebrasse algum membro, perdesse algum sentido, a culpa seria sua e não dos senhores inquisidores e mais ministros que foram na sua causa». Sai ao fim de 10 dias de tortura, os bens confiscados e condenado a pena de cárcere e hábito penitencial perpétuo e a ser instruído nos mistérios da fé.

Não há dados factuais que nos permitam reconstituir a sua vida do Judeu até 1733, «seis anos enigmáticos» quando abre o Teatro do Bairro Alto e nele se representa a sua primeira ópera, «A Vida do Grande D.Quixote de La Mancha e do Gordo Sancho Pança». Sabe-se apenas que morava no Socorro, paredes meias com o local mais movimentado, em termos teatrais, da Lisboa Joanina, o Pátio das Arcas. É por demais evidente que este terá sido um dos factos determinantes para que o homem de direito se tornasse num dos mais importantes dramaturgos portugueses.
O teatro de António José da Silva reflectia influências notórias da comédia espanhola do séc. XVII, de  Lope de Vega e Calderon. Do primeiro, adopta O Judeu o rigor formal da obra poética e de Calderon «bebe» o espírito revolucionário mais de acordo com os ideais do Barroco, nomeadamente no que se refere à influência do melodrama e posteriormente da ópera que, surgida em Itália, rapidamente alastrava pelos palcos europeus. O Judeu é, pois, um homem do Barroco.

De que forma se reflectem esses ideais no teatro? «Através de uma representação exuberante, do recurso ao maravilhoso, de diálogos engenhosos ao serviço de intrigas que propiciam malabarismos de ilusão que deleitam os espectadores e os surpreendem a cada passo. Surgem as cenografias ilusórias, as tramóias espectaculares com frequentes mutações de cena garantidas por sofisticados mecanismos. Animam-se as ondas do mar, as nuvens do céu, as trovoadas e os raios, constroem-se máquinas sonoras poderosas, fazem-se descer ao palco os deuses do Olimpo, na cena irrompem sereias e dragões, e tudo se funde ao serviço de uma arte espectacular, de um grande teatro da ilusão». In José Oliveira Barata, História do Teatro em Portugal (séc.XVIII).

«As cabeleiras de todos os fradalhões, desembargadores, e poetastros de todas as academias de Obscuros, Anónimos, Singulares, Generosos, Aplicados, estremeceram, eriçaram-se ao ver exposta ao ridículo das gargalhadas da plateia do Bairro Alto a sabedoria que acobertavam com tanto respeito. O catafalco carunchoso da Escolástica da idade média, levou aqui o seu primeiro solavanco...António José deixou a nu este ridículo do seu século, mas foi este acto de heroicidade um dos que mais contribuiu para a sua morte». In Teófilo Braga, História do Teatro Portuguez.

Cortesia de marionetasdelisboa
Pensa-se que António José da Silva era autor-ensaiador das peças que fazia representar com a sua companhia no Teatro do Bairro Alto. O Judeu escreveu e faz representar oito óperas em apenas sete anos. A companhia seria formada por cerca de 8 actores, número adequado ao desempenho de todas as personagens. 
Freitas Branco estima que «a orquestra do Teatro do Bairro Alto, na época em que o Judeu estreou as suas óperas, constava em geral de dois oboés, duas trompas, tímbales e instrumentos de arco». O êxito alcançado pelas óperas foi enorme. Um público entusiasmado enchia a sala do Teatro do Bairro Alto e aclamava as representações.
«…foi tão grande o aplauso e aceitação com que foram ouvidas as Óperas que no Theatro do Bairro Alto de Lisboa se representaram desde o ano de 1733 até o de 1738, que não satisfeitos muitos dos curiosos com as ouvirem quotidianamente repetir, passavam a copiá-las, conservando ao depois estas cópias com tal avareza, que se faziam invisíveis para aqueles que desejavam na leitura delas, uns apagar o desejo de as lerem, pelas não terem ouvido, outros renovar a recreação com que no mesmo theatro as viram representadas». In Simão Tadeu Ferreira, prefácio à 4ª reedição do Theatro Cómico Portuguez.
Cortesia de dojayanosapo
Não deixa de ser extraordinário que o Judeu tenha escrito as suas óperas para marionetas. Como se teria apaixonado por elas, como terá entendido que seriam os melhores protagonistas para o seu teatro, como terá adquirido os conhecimentos técnicos que lhe permitiriam realizar os espectáculos?
Na manhã outonal de 18 de Outubro de 1739, o majestoso cortejo do Auto de Fé sai ordenadamente do Palácio da Inquisição e serpenteia pelo Rossio, até entrar na Igreja do Convento de S. Domingos, do outro lado da praça. Atrás do flamejante estandarte do Santo Ofício vêm dezenas de guardas e inquisidores conferindo a necessária pompa ao cortejo dos 56 penitenciados. António José da Silva é o número 7 da lista dos hereges. Tem 34 anos. Vem desfigurado da tortura e com dificuldade encara a luz do dia, após dois anos e treze dias de cárcere escuro. Veste uma aviltante túnica branca com a sua cara toscamente pintada no meio de labaredas e diabinhos a mordê-lo. No rol dos penitenciados vêm também a sua mãe Lourença, o irmão André e a mulher Leonor. Já dentro da igreja, os réus ouvem penosamente a leitura das culpas e longos sermões que invocam a implacável ira divina para com os hereges.
Declaram o réu? António José da Silva por convicto, negativo, pertinaz e relapso… e como herege apóstata de nossa Santa Fé Católica o condenam e relaxam em carne…
Nova viagem descendo a encosta até ao queimadeiro, no Campo da Lã, junto ao Tejo, onde se encontra montada a improvisada cenografia da morte: tablados de madeira, para que o público tenha boa visibilidade, espessos mastros equipados de garrotes para que se proceda à morte sem efusão de sangue e monumentais pilhas de lenha.

«Post scriptum- Em época de fundamentalismos religiosos,a Oriente e a Ocidente, a história deste homem que, fiel à sua fé encarou com grande dignidade a morte, poderia servir de exemplo e memória para que barbáries semelhantes à Inquisição não voltassem a existir nesta Terra e para que a liberdade que a todos os homens assiste ,na sua fé e no seu pensamento, fosse o bem mais precioso». In João Paulo Seara Cardoso.

Que delito fiz eu para que sinta
o peso desta aspérrima cadeia
nos horrores de um cárcere penoso
em cuja triste, lôbrega morada
habita a confusão e o susto mora?

Cortesia de ruadajudiaria
 
Cortesia de wikipédia/Infopédia/Paulo Seara Cardoso/JDACT