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domingo, 10 de setembro de 2017

Madre Paula. Patrícia Muller. «E se lhe marei o gato, haveria de fazer bem pior mais adiante. Mas sabia que tinha tempo. Tempo para me vingar, para cegar de raiva, chorar e arrepender-me. Tinha tempo»

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«(…) Até que, ao fim de alguns dias, a sorte sorriu. Madalena Máxima deixou entreaberta e porte da sua cela e o gatinho saiu. Apanhá-lo foi uma sorte, mas depois de tanto azar, a sorte não tinha outra hipótese comigo. O bichano escondeu-se atrás de uma coluna do corredor que levava à cozinha do convento. Pshhhhh, pshhhhh... A minha voz foi tão dengosa que até teria convencido um eunuco. O processo revelou-se mais complexo do que tinha imaginado. A faca roubada da cozinheira estava ferrugenta e o pêlo do gato impedia o golpe certeiro. Espetei uma, duas, três vezes. Ele gemeu, mas não esperneou. Senti pena daquela criatura a choramingar. Pensei em desistir. Depois lembrei-me dos meus pés, um diante do outro, vacilantes, nus, desprotegidos. A minha vergonha em troce da morte de um gatinho bonito que se enroscava em mim como se estivesse à procura do colo da mãe, já sangrento, já ferido e humilhado. Espetei mais cinco vezes. Ele morreu. Eu não chorei. As lágrimas tinham secado com o frio que teimava em não me abandonar. Ahhhhhhhhh... Madalena Máxima gritou quando descobriu. Pôs as freiras em alvoroço. Exigiu um inquérito à abadessa, ameaçou chamar o Santo Ofício (maldito) e instaurar um processo de bruxaria. Invocou o nome do Inquisidor Geral, Nuno Cunha Ataíde, para aterrorizar as restantes e conseguir respostas. Não as obteve. Se o Inquisidor soube, nunca agiu. E quem não age é porque não quer saber.
Madalena Máxima era poderosa. Mas não era todo-poderosa. Nunca suspeitou que eu pudesse estar envolvida no crime, pela simples razão de que nunca me considerou com importância suficiente. Não devias ter matado o bicho, Paula. O bicho não era culpado da dona que tinha. O bicho não era petulante e maldoso. Era só um bicho. A Luz levantou-me a voz. Estava zangada. Reconheci a centelha de energia nos seus olhos e sorri. Estava a ver que tinhas apagado por dentro. Tempo depois, confessou-me, com um sorriso matreiro, que tinha sido inquirida pela abadessa sobre o sucedido. Perguntou-me se eu sabia de alguém que pudesse ter cometido tal monstruosidade. Ela confia em mim. Mas não porque sou um túmulo inviolável. Confia em mim porque me acha insossa e inofensiva. Eu respondi que Madalena Máxima tinha um desejo absurdo de ser notada e que podia ter sido a própria a cometer o crime para depois se fingir de chorosa e provocar a pena nas outras... A abadessa considerou a minha opinião.
A nossa intimidade já se restaurara como se não houvesse sido perturbada. Fazíamos tudo juntas. A Luz contava-me os segredos das outras monjas, os romances de Odivelas, as ligações entre freiras e homens, os perigos da noite entre as paredes da casa do Senhor. Foi ela quem me relatou o romance pecaminoso de Madalena Máxima. Naqueles dias, o convento de Mafra estava a ser erigido, a promessa paga de el-rei para ter um filho, milagre que demorou três anos a acontecer. o Palácio da Ribeira conhecia o mesmo destino, à custa do trabalho esforçado de milhares de operários, a quem não eram pagos salários. Os soldados também não recebiam o que lhes era devido. A capela de S. João Baptista custou milhões de cruzados e o ouro do Brasil minguava. Dizia-se que el-rei não fazia caso disso. Mantinha a mesma vida faustosa de sempre. Mandou o cardeal Cunha a Roma para impressionar o papa com o dinheiro português e disse que, se por acaso este não se impressionasse, então que o ouro fosse atirado ao rio Tibre para mostrar a nossa opulência. Assim era João. Fabricava moedas de ouro para pagar às pu… que o serviam, aos cardeais e bispos que o bajulavam e mediavam a sua complicada relação com Deus. Antes de João, não se cunhava ouro.
Foi o homem que fez saber ao mundo que não éramos inferiores. Que me disse a mim que era superior. Pobrezinha, tens uma visita. Aliás, bem me surpreende que tal pessoa te queira ver, mas há gostos que não se discutem. Detestável Madalena. E se lhe marei o gato, haveria de fazer bem pior mais adiante. Mas sabia que tinha tempo. Tempo para me vingar, para cegar de raiva, chorar e arrepender-me. Tinha tempo». In Patrícia Muller, Madre Paula, Edições ASA II, 2014, ISBN 978-989-232-783-9.

Cortesia de ASA/JDACT

Madre Paula. Patrícia Muller. «Fiz ouvidos de mercador aos cochichos das outras monjas que muito se riram do meu embaraço nu. Comi, orei, reduzida a um silêncio paciente»

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«(…) Eu era nova. Ainda não tinha completado dezoito anos. Tinha vivido com os meus pais e as minhas irmãs numa casa de um beco pobre. Sabia que as mulheres e os homens fornicavam, riam alto e se beijavam entre canecas de vinho. Sabia que os homens podiam ser violentos com as mulheres porque tinham mais força e que as mulheres podiam dar cabo dos homens porque tinham meios menos óbvios. Mas não sabia que as mulheres podiam ser tão pérfidas umas com as outras, ao ponto de se humilharem mutuamente e pelos motivos mais disparatados. As mulheres não se amam entre si. E isso torna-as mais vulneráveis diante dos homens.
Nua como vim ao mundo, atravessei o convento. O único calor que sentia era o provocado pelas lágrimas que deslizavam no rosto. Os pés andavam, um atrás do outro, a tactear um chão que podia desaparecer a qualquer momento. Não vi ninguém, não sabia onde estavam as outras monjas, nem a minha irmã, não tinha pai ou qualquer outra raiz, não tinha nada. Estava sozinha. O claustro era quadrangular, com uma fonte ao meio, ladeada de arbustos. Era verde e respirava ar puro. As arcadas, a contornar, erguiam-se cheias de segredos de pedra. Não sei como consegui chegar mas debaixo de uma abóbada dei com as roupas na borda da fonte. Corri para alcança-as. Piquei o calcanhar num qualquer espinho e, por instinto, levei a mão ao pé. Não devo ter demorado muito tempo, tal era a ânsia, mas quando me soergui, não estava à espera do que ia encontrar. Senhorita!
Fechei os olhos, na esperança de ter ouvido aquela voz apenas na minha cabeça. Senhorita! Dois homens caminhavam na minha direcção. Um deles, mais velho, que se anunciou como o abade de Alcobaça, e um mais novo, bonito, tão belo, tão belo, de quadro costados, por nascimento e educação, o conde de Vimioso. Aqui está a minha capa, senhorita. Permita-me que... Senti o conforto do tecido caloroso nos ombros, os dedos do conde levantaram-me e sorriram. Nenhuma crítica, nenhum julgamento. Eu estou absolutamente indignado com este comportamento, vou falar com a abadessa, não é possível uma monja... Noviça. Noviça, monja... Não pode andar... Abade, estou certo de que a noviça não teve qualquer intenção de ferir susceptibilidades. Certamente houve um equívoco e... Roubaram-me a roupa. Quem? Uma boa vingança não se faz de queixinhas. Não sei. O conde percebeu o que queria dizer a minha resposta. E o vosso nome é? Paula. Noviça Paula, levarei em conte as palavras do sensato conde e farei por esquecer o incidente. Mas esta é a casa de Deus, não uma qualquer estalagem de má fama. Mentia. O convento de Odivelas podia ser a casa de Deus, mas era, por vezes (não tantas quanto alguns puristas gostavam de maldizer, mas mais do que alguns pecadores tinham coragem de confessar), um prostíbulo onde o demónio se divertia sem vergonha.
A Luz apareceu pouco depois. Eu já estava vestida e recolhida na minha jaula. Onde fica o aposento de Madalena Máxima? O sangue sempre se fez reconhecer ao sangue. E se havia medo, havia também um entendimento para além de palavras. Bastou um apontar de dedo. Esperei pela oportunidade nessa noite. Não a tive. Nas noites seguintes, com a paciência de uma santa, continuei a aguardar. Fiz ouvidos de mercador aos cochichos das outras monjas que muito se riram do meu embaraço nu. Comi, orei, reduzida a um silêncio paciente». In Patrícia Muller, Madre Paula, Edições ASA II, 2014, ISBN 978-989-232-783-9.

Cortesia de ASA/JDACT

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Madre Paula. Patrícia Muller. «Vou mostrar-te onde te podes refrescar e trocar de roupa. O hábito que vais usar é antigo. Não temos dinheiro para um novo»

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«(…) Não sabia que recebíamos mendigas no convento, abadessa. Mariana Castilho fingiu não ter ouvido a indelicadeza de Madalena Máxima Miranda, uma monja que muito tinha pago ao entrar para Odivelas. Com um gato persa ao colo, acariciava o pêlo do bicho como se fosse o peito de um amante. Interroguei-me se tinha fugido de um casamento combinado com outro fidalgo de igual importância; se a maternidade a enojava; se a humilhação de uma traição masculina, prática comum, a aterrorizava; se a ideia das obrigações matrimoniais a repugnava. Saberia ela dançar? Gostaria do cheiro de homem? Também não entendo, abadessa. Já não basta uma irmã pobre?
Carolina Augusta era da mesma laia: birrenta, insegura e muito invejosa. Eu era demasiado escura, alta e forte, demasiado do povo, sem dinheiro ou nome, Todas me olhavam como uma aberração. A Paula vai conhecer a sua cela. A sua irmã pode levá-la. Ficarão próximas uma da outra. A Luz mantinha-se de cabeça baixa. Tão humilhada e pequena, a minha irmã mais velha. Não era assim quando morávamos juntas. Percebi exactamente o que se passava naquele convento. Fechei os punhos, preparando-me para a guerra. A minha irmã pousou suavemente a mão no meu ombro. Vamos, querida. Fiz menção de ignorar o pedido. Eu levo-te. Que se transformou numa súplica. A Luz rejeitava o confronto. Obedeci, contrariada. Fi-lo por lealdade ao sangue, no convento há anos, domesticada como o gato. Aqui as regras não são diferentes das regras lá de fora, Paula. Fidalgas são mais gente do que nós. Pensava que éramos todas monjas, iguais aos olhos de Deus. Aos olhos de Deus somos todos iguais. Aqui dentro, continuamos todas diferentes.
Quando cheguei à minha cela vi o que me esperava diante da janela sem esperança: uma cama dentro de grades, como numa capoeira, um altar carunchoso, um armário sem uma perna. Mas o que me deixou em alvoroço não foi a cela em si, foi ter passado por outras de porta aberta e ter visto o luxo que ali imperava. Veludos e madeiras, ouro e prata, espelhos e vidros. Jurei a mim mesma que um dia, custasse o que custasse, haveria de ter uma cela infinitamente mais luxuosa do que qualquer uma daquelas. E não era porque estivesse habituada ao luxo e ao conforto. Era apenas porque a ideia de inferioridade nunca me assentou.
Vou mostrar-te onde te podes refrescar e trocar de roupa. O hábito que vais usar é antigo. Não temos dinheiro para um novo. Este que estou a usar foi-me dado por... O tempo em que a Luz se deliciava com negras e homens atrás de negras, numa sensualidade rebelde, tinha passado. Tinha sido esmagado pelo convento. Éramos felizes antes. Voltei do banho, embrulhada num manto envelhecido. Entrei na cela e, de cima da cama, tinham desaparecido as roupas. Procurei por todo o lado, o manto teimava em escorregar até que, com um puxão, alguém mo retirou pelas costas. Apenas tive tempo de me virar e vislumbrar a cauda do gato ao colo de quem corria. As roupas estão no claustro da Moura, noviça. Risos vindos do corredor. Comecei a tiritar. Preparei-me para gritar. A sua irmã não a ouve. Mandámo-la para o jardim, bem longe. A voz não acompanhava uma cara, mas eu sabia a quem pertencia». In Patrícia Muller, Madre Paula, Edições ASA II, 2014, ISBN 978-989-232-783-9.

Cortesia de ASA/JDACT

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Madre Paula. Patrícia Muller. «De dentro para fora, pude avistar o claustro grande, onde algumas noviças passeavam: relva e pequenas sebes aparadas na perfeição, geometricamente erguidas, a ladear uma fonte»

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«(…) O pai sorria, esperançoso. A falta de ouro fez com que tivesse de mandar os seus tesouros mais preciosos para longe da oficina onde fabricava, ele mesmo, tesouros. Mas a minha entrada no mosteiro foi banal, mais uma menina que ia poder viver sem passar necessidades, ser educada para a fé. Tantas outras foram iguais a mim. Não há ninguém igual a mim. O cheiro a comida inebriou-me mas não me cegou. Gosto, pai. Não poderia atribuir culpas a quem não se interroga quanto aos hábitos com que foi criado. A cozinha tem uma passagem para a igreja e uma escada para as celas de cima, interrompida por diferentes portas: a que acede a um quarto com as pinturas de S. Bernardo no tecto, a que leva apenas a um espaço de arrumações e outra que desemboca na sala grande. A sala grande tem um chão em madeira clara que se estende brilhante diante dos nossos olhos, num rectângulo faustoso, Reflecte a luz das janelas de vidros da Boémia e a talha dourada do tecto. O amarelo predomina, mesmo nos gonzos e nas ferragens em ouro das portas de madeira rica trazida do Brasil. Imaginem um espaço onde o ar que se respira reluz. Os azulejos azuis parecem envergonhados por conviverem com tal intensidade de cor e magnificência.
De dentro para fora, pude avistar o claustro grande, onde algumas noviças passeavam: relva e pequenas sebes aparadas na perfeição, geometricamente erguidas, a ladear uma fonte. O claustro da Moura era igual, labiríntico, com árvores em redor, e a estátua da abadessa dona Maria Luísa Moura, envergando roupas mouriscas e um turbante na cabeça. Admirei essa abadessa do passado, que tinha ousado erigir uma estátua em sua honra, apresentando-se em trajes tão pouco católicos. Saberia o meu pai o que estava a fazer? Era difícil conceber que, profundo conhecedor do clericalismo popular, das histórias pecaminosas de freiras e padres, freiras e nobres, freiras e reis, não soubesse para onde enviava as filhas. Talvez tenha considerado que os seus ensinamentos tenham sido tão explícitos que nós não prevaricaríamos. Ou talvez tivesse desejado, na sua alma universal, que obtivéssemos dividendos do contacto social com damas de outra cultura e autoridade. Em Odivelas existiram verdadeiras amazonas, guerreiras da guerra social e do poder, que chegavam ao êxtase divino da clausura, o excesso de reza, a leitura cristã, todo o ambiente espiritual permitia que as reacções fossem excessivas em todos os campos da existência, e ao patamar máximo das tentativas de domínio e influência. Confessores, outras freiras, fidalgos, familiares, subalternos e outros tentos eram peões em lutas de poder fortíssimas, intrigas complexas e desmandos de senhoras nobres com cetim debaixo do hábito que queriam ser consideradas apesar de estarem fora do mundo. Ou porque a ideia de fora do mundo é em tudo contrária à natureza social do homem. E ainda mais da mulher. Não fomos feitas para sermos sozinhas. Somos mães. A igreja é construída em profundidade com fortes colunas a suportar um coro de monjas fúteis que em nada dignificam a condição monástica. Quando entrei, estavam a cantar e calaram-se com a minha presença. Lembro-me da sensação de desconforto que a minha mente registou, ao ser escrutinada pelas monjas que ensaiavam. E lembro-me de olhar Jesus Cristo de frente, ele na cruz, eu na cruz, e pensar que ambos tínhamos pais fracos que mostravam mal o amor que sentiam por um filho». In Patrícia Muller, Madre Paula, Edições ASA II, 2014, ISBN 978-989-232-783-9.

Cortesia de ASA/JDACT

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Madre Paula. Patrícia Muller. «Caminhei pela portaria como uma condenada à morte, passei pelo átrio da Rainha Santa Isabel e penetrei na cozinha»

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«(…) A história sempre me pareceu peculiar. Um urso ataca um cavaleiro veloz e deixa-se cair sobre ele, como um arco total. Mas lendas são lendas e a entrada da quinta, numa estreita viela que desemboca no largo, pertence ao tipo de irrealidade da qual são feitas as grandes histórias. Passa despercebida a muitos viajantes, talvez tenha sido assim feita propositadamente. O portão é em ferro. Hoje, um portão ajoelhado aos pés do tempo. No dia em que eu entrei, um urso em ferro a abater-se sobre mim, escuro e tenebroso, tão grande como a minha casa ou o Palácio Real, que arfava pesadamente sobre o meu pescoço, arrepiando-me com uma intensidade quase prazerosa. Era altaneiro, metálico, ruim. Era uma pedra que não estava no meu caminho mas em que eu tropeçava. Eu não era o monarca Dinis, era o urso morto, no trilho de uma existência abatida. Senti-lhe o cheiro quando lhe toquei, um emaranhado de metal, quando crispei a mão pela parte de fora para não desmaiar. Agitei a grade na ínfima esperança de a sentir frágil e facilmente destrutível. Se assim fosse, poderia fugir quando quisesse, regressar ao mundo que conhecia, à vida que era a minha. Senti-me uma prisioneira do lado de fora das grades, eu própria fora da minha carne a vaguear num pequeno campo verde fugidio. Vi-me de lado, de trás, senti pena da rapariga que ali estava.
Pai, se tivéssemos ouro, eu poderia largar o portão? Não entendeu a pergunta. Continuei a abanar a grade cada vez com mais força e violência; quando as mãos não eram suficientes usei as pernas e pontapeei-o até me doerem os pés e, no meio da revolta, fiquei pendurada no portão como um pequeno animal enredado na liana das terras do rei que eu nunca iria conhecer. Não quero morrer! O pai deixou-me ali ficar até as mãos serem incapazes de qualquer aperto. Olhei e vi que estavam negras. Passou-me pela ideia que o negrume pudesse alastrar-se a todo o corpo como uma doença, tomar conta de mim, gelar-me o coração e o corpo e incorporar-me no portão. De certa forma, foi isso que aconteceu. Colei-me ao metal da entrada de Odivelas. E ali permaneci o resto da minha vida.
O mosteiro não me amedrontou. Era de uma alvura angulosa, simples. Algumas pedras estavam marcadas com o símbolo dos pedreiros que as haviam assentado, para poderem reclamar o pagamento certo. Depois do urso e da iminência da morte, certamente que o rei deu ordens para não regatear preços de construção. O alpendre que dá entrada ao mosteiro tem a forma de um meio quadrado, duas alas cujas paredes são forradas a azulejos azuis e brancos, com imagens de S. Bernardo, santo padroeiro. Notei o Escudo da minha ordem, a de Cister, com as quinas à direita e os símbolos à esquerda, numa das cornijas da alpendrada. Era belo. Perto da portaria, a roda onde comerciantes deixavam os produtos que nos alimentavam. O engenho girava e, no interior, era a irmã-porteira quem retirava os bens. Foi ela quem nos abriu a porta. A ironia do destino: foi ela quem passou noites insones por causa das visitas do rei à minha cela. Mais ninguém tinha autorização para abrir o mosteiro, ela era a guardiã e a chave para o mundo exterior.
Caminhei pela portaria como uma condenada à morte, passei pelo átrio da Rainha Santa Isabel e penetrei na cozinha, onde as irmãs conversas, monjas pobres como eu, se afadigavam no preparo das refeições. A cozinha era alegre, com azulejos na chaminé representando o rapto de Proserpina. O cheiro era indescritivelmente consolador, uma mistura de açúcar e canela, fruta fresca, carne a assar num espeto, pão a cozer num forno, marmelada a ser remexida numa enorme panela e uma maravilha à qual eu não estava habituada: uma pia em pedra de onde brotava água cristalina num barulho crepitante. Nas paredes, imagens de passarinhos, sereias, peixes, mulheres, uma profusão alegre que me fez sentir acompanhada. Naquela cozinha, eu nunca me sentiria sozinha. Gostas da cozinha, Paula?» In Patrícia Muller, Madre Paula, Edições ASA II, 2014, ISBN 978-989-232-783-9.

Cortesia de ASA/JDACT

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Madre Paula. Patrícia Muller. «Dentro do meu novo espaço eu era outra pessoa que não Madre Soror Rameira. Era um animal. Andava despida o tempo todo, o cabelo caído e revolto, ia e vinha com comida, com bebida, com pedidos, reclamações, ciúmes»

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«(…) Francisco sempre foi o fantasma que assombrou o rei, o seu duplo, o desenho que o seguia pelas paredes dos corredores da corte. O pavor de ser substituído pelo irmão era tão forte que dominou o carácter de João. Deixou para trás mulheres atrás de mulheres para ter a certeza de que nunca seria o contrário. Eu, nesse número. Vejo-o deitado nu, no leito do quarto de cima, a cabeça apoiada na palma da mão, o cotovelo fincado no colchão, durante toda a noite, sem dormir, só a ver-me, como um abutre à espera da presa inanimada ou morta, sem que isso fizesse a mínima diferença. Se me deixas, mato-te, disse-me no aposento mais luxuoso de Odivelas, o mais sumptuoso da casa que o rei construiu para engaiolar o nosso amor. O que é meu teve o que de mais bonito Deus sonhou e o homem ergueu. A luz das velas bruxuleava, tudo ficava banhado a amarelo, duplamente dourado, duplamente quente, o sol do fim de dia, o suor da dobra interna dos joelhos.
Quero-te nua. Dizia-me isto já eu estava despida há muito. O meu leito, inspirado na última moda, tinha quatro apoios com santos em ouro maciço. Porque até os santos devem estar aos teus pés, Paula. Dentro do meu novo espaço eu era outra pessoa que não Madre Soror Rameira. Era um animal. Andava despida o tempo todo, o cabelo caído e revolto, ia e vinha com comida, com bebida, com pedidos, reclamações, ciúmes. Ele deitado na cama, sorria. Ouvi dizer que tens muitas outras no Paço, aias da rainha, fidalgas. É verdade? Só te amo a ti, Paula. Mas tomas outras, entreténs-te com muitas ao mesmo tempo. Não te dou tudo? Cala-te. E levantava-se, vinha atrás de mim e suportava os meus gritos e o meu gesticular, imobilizava-me e levava-me para a cama, o peso dele em cima de mim, a mão dele a tapar-me a boca.
Não grites que estamos num convento. Eu tentava falar. A casa de Deus não é para ser conspurcada. E a outra mão dele já estava bem longe da minha boca e eu já não queria gritar, só gemer. E João continuava a sussurrar. E agora? As duas mãos, delicadas e inquisidoras, com nenhum outro propósito a não ser regar-me como se eu fosse uma planta à procura de água. João foi buscá-la dentro de mim de todas as vezes que fizemos amor. E depois entrava sem pedir licença, já sem meiguice, Porque sabia que eu o desejava até ao fundo, se pudesse não o deixaria sair nunca mais, abraçava-o e apertava-o até o impedir de se mexer. O que é que estás afazer, cigana? Adorava que me chamasse cigana. Depois, quando descobri que Sua Majestade andava a fornicar uma verdadeira cigana, Margarida do Monte, proibi-o de deslocar o epíteto. Não queres que me mexa, cigana? E levantava-me no ar, sentava-me em cima dele e exigia que o olhasse nos olhos enquanto os nossos corpos se moviam ao mesmo ritmo e compasso. Mais fundo, meu amor? Se era dia em que eu precisava que me mostrassem quem é que mandava, João ainda me virava de costas na cama e, sem pudor, puxava-me o cabelo até eu desfalecer de dor e prazer e gratidão. Os lençóis de puro algodão manchados de lixo de desejo.

A janela pareceu-me demasiado estreita para deixar passar um só raio de sol ou de esperança. Comparável a esta cela, só a da minha Luz. Quando eu entrei, ela já havia professado. Era a monja mais solitária que este mundo já viu. As outras troçavam porque era pobre, debaixo do hábito não espreitavam sedas nem laços, os sapatos estavam rotos e sem salvação. A entrada para a quinta de Vale de Flores precede o largo D. Dinis, rei que mandou construir o mosteiro depois de ter visto a sua vida poupada num feroz combate com um urso. O pai sabia muito sobre as desventuras e os esquivanços da monarquia e não se cansava de nos contar essas histórias. O monarca Dinis e a rainha Santa Isabel passavam temporadas nas termas de Monte Real e o rei aproveitava para caçar nas redondezas. Um dia, saiu cedo e sozinho, a cavalgar pelo mato, à procura de alvo sério. A meio do caminho, sem saber como nem porquê, foi surpreendido por um enorme urso que, com a sua pata imensa, o derrubou do cavalo e se lhe lançou em cima. Debaixo do animal, o rei não podia mexer-se. Num instante, lembrou-se de São Luís, príncipe que passou sete anos em cativeiro e depois desistiu de honras e títulos para tomar o hábito religioso, chegando a Bispo de Tolosa, e pediu ajuda a este santo. São Luís ouviu o pedido de socorro do rei e apareceu-lhe, lembrando-o do punhal que tinha na cintura. O rei puxou-o e devolveu a surpresa ao animal. Foi a correr ter com a Rainha Santa Isabel e relatou-lhe o milagre. Mandou escudeiros irem buscar o urso morto e passeá-lo pelas ruas de Monte Real. A história rendeu-lhe toda a região... O rei mandou construir um mosteiro na quinta de Vale de Flores e doou-o às monjas bernardas». In Patrícia Muller, Madre Paula, Edições ASA II, 2014, ISBN 978-989-232-783-9.

Cortesia de ASA/JDACT

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Madre Paula. Patrícia Muller. «Maria Francisca deu uma filha a Pedro e morreu jovem. O rei casou novamente com dona Sofia, com quem prolongou a linhagem com mais sete filhos, um deles João V, o meu bem-amado e aventurado rei»

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«(…) Já o medo do meu pai esvaneceu-se quando descobriu que a filha do meio era amante do mais poderoso dos homens e isso poderia trazer dividendos. Não que o pai fosse fraco, apenas se dobrou àquilo que muitos outros teriam sucumbido: dinheiro, uma vida melhor ao abrigo de benesses e honrarias. Este foi o preço que o meu pai pagou pela minha falta de honra e piedade, pela vergonha de ser meu pai. Não foi assim tão alto. Ele contava-nos: depois Afonso VI casou. Dona Maria Francisca não se afeiçoou especialmente ao marido, mas ninguém a culpava. Dali não era o amor que se esperava, nem filhos, e o que acabou por brotar foi apenas ódio e intriga. A rainha uniu-se ao cunhado, Pedro: bonito, forte, determinado. Os dois tornaram-se amantes e congeminaram a saída de Afonso. Foi declarada a anulação do casamento. Dona Maria Francisca espalhou que o rei não era capaz de cumprir com a função de homem e marido, chamou testemunhas. Mais de cinquenta pessoas vieram a público dizer que Afonso não era viril. Nesta altura, o pai quase chorava pelo rei deposto e desonrado. A virilidade de um homem é metade do seu carácter. O papa autorizou o casamento entre Pedro e a cunhada. Ainda antes do enlace, os dois dormiram no quarto ao lado de Afonso. Sentiram-se culpados, tão culpados, que pediram ao confessor de Afonso, o padre Manuel Fernandes, que ludibriasse o monarca sugerindo-lhe passar uma temporada em Almeirim, para se afastar da confusão da corte. O rei era doente, estava enciumado, insano. Aceitou entrar num barco, crente que tomava um rumo. Foi desterrado para a ilha Terceira, como um tigre enjaulado, atacava quem transpusesse o seu perímetro. Voltou para Sintra e ali se deixou morrer. Maria Francisca deu uma filha a Pedro e morreu jovem. O rei casou novamente com dona Sofia, com quem prolongou a linhagem com mais sete filhos, um deles João V, o meu bem-amado e aventurado rei.
Eu escutava e pensava: quem tinha razão, o rei incapacitado e cruel ou o irmão que conspirou para lhe tomar tudo? Afonso VI não tinha firmeza física ou mental para governar, com toda a violência e agressividade que impunha, as atrocidades a que submetia os mais fracos e desprotegidos. Merecia ter sido afastado. Mas não foi apenas deposto: foi atraiçoado pelo irmão e pela mulher, transformado em alvo da chacota popular, obrigado a desistir do reino, encarcerado num castelo e depois num palácio. Morreu trancado na solidão. Quando ouvi a história pela primeira vez torci por Pedro, um homem que puxou para si as rédeas da nação. Usou das armas que tinha, derrubou um adversário desvalido e perverso, fez-se um formidável monarca. A versão do meu amor fez-me vacilar. Se Francisco derrubasse João e casasse com Maria Ana, seria uma indignidade e uma injustiça. Interroguei-me se o pai saberia a verdade sobre Afonso VI ou Pedro II. Se o meu amor saberia. Interroguei-me se a verdade pode ser mais do que uma ficção. A minha história com João teve toda a aparência de um enorme erro. Mas apenas eu sei que foi um erro tão desejável quanto inevitável.
Francisco gostava de espingardas. Caçava animais. No Paço, ao avistar navios, tinha por hábito atirar sobre os marinheiros pendurados nos mastros. Caíam no convés, morrendo às vezes. O infante ria-se sempre, mas não como os loucos riem. O riso dele era de um juízo maldoso, baixo, parecia um assobio agudo, cheio de propósito. Diz-se que nunca casou porque amou sinceramente soror Mariana Souza, uma freira como eu, de quem teve dois filhos, e que nunca mais teve no coração outro sentimento. De certa forma, admirei-o. E invejei-a a ela. Os nossos caminhos cruzaram-se, mas não pelas razões mais felizes, O infante também tinha inclinação por jovens donzelas de origens humildes. Mandava membros do séquito raptá-las e largá-las nos seus aposentos na Bemposta. Servia-se a seu bel-prazer pelo tempo que queria e depois devolvia-as à procedência. Não chegava a olhá-las nos olhos. Obrigava-as a permanecerem de quatro, como bichos, enquanto investia com toda a sua arrogância masculina.
Ao descobrir que uma das suas concubinas estava grávida de um primeiro amante, atirou-a pelas escadas do palácio. Noutra ocasião, por engano, uma das raparigas que mandou capturar era filha de um mercador abastado. Ao descobrir a verdade, quis que o pai dela pagasse uma pequena fortuna para que ela desposasse um seu criado. Diante da recusa do comerciante, mandou que o espancassem com tal violência que foi preciso chamar um padre para lhe oferecer o último alívio da extrema-unção. A filha e a mulher refugiaram-se em Odivelas mas não o tempo suficiente para que eu soubesse do sucedido. Também, naquele tempo, eu via-me demasiado cercada pelos encantos de el-rei para pensar nas atrocidades cometidas pelo infante.
A mim, quis tirar-me a vida». In Patrícia Muller, Madre Paula, Edições ASA II, 2014, ISBN 978-989-232-783-9.

Cortesia de ASA/JDACT

Madre Paula. Patrícia Muller. «Mais tarde, descobri que Afonso VI se havia perdido de amores por duas freiras de Odivelas, Feliciana de Milão que foi trocada por Ana de Moura»

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«(…) Vi pontos vermelhos à frente, depois ceguei. Comecei a tremer e, quase sem querer, as minhas mãos procuraram coisas que pudessem destruir. A Leocádia recuou, já sabia o que ia acontecer. A mesa onde estavam as peças quase prontas voou. A cadeira foi atrás. Tudo pelos ares, desde os aventais do pai às canecas onde bebia vinho. Ninguém se mexeu. Nem mesmo quando as paredes ficaram cobertas de vinho e água ou quando o martelo caiu da mão do pai, cansado de suster o mundo entre os dedos.
João tinha o temperamento explosivo como o meu. Por isso, entendíamo-nos. Numa noite, uma noite de tempestade, chegou agitado. Martinho Barros, o frade a quem el-rei se confessava, havia alertado para os perigos que assolavam a nação e a Coroa. No Brasil, temerosos de novos ataques dos Franceses como no tempo do comandante Duguay-Trouin, pirata que tomou a Cidade Maravilhosa nas barbas do nosso exército, os generais reforçaram a defesa. As naus nos portos da Ribeira e do Rio de Janeiro aumentaram o número de santos, virgens e mártires à proa. Mas João permanecia inquieto. Queria ser imortalizado pelos seus feitos. Queria reunificar o império sob a sua alçada, do Brasil à Índia, passando pelas Áfricas. Chegou pela calada, como todos os outros visitantes do nosso mosteiro. Era um fenómeno curioso, o das noites em Odivelas: fidalgos e cónegos e poetas ansiosos por desfraldar as freiras, alguns até já sabendo de antemão que tinham permissão para entrar numa cela sem dar nas vistas, outros apenas para ganhar essa permissão, todos clandestinos, todos furtivos.
Paula, eles querem acabar comigo. Tinha muitos inimigos, cada um era um afrodisíaco para as nossas noites. Adorava esses inimigos, que enfureciam o rei e me davam prazer sem o saberem, porque o rei enfurecido era um amante furioso e indelicado. Um deles, o principal, era o seu próprio irmão, Francisco. O seu irmão? Não sou louco, Paula. Penso todos os dias no que o meu pai fez ao meu tio..., a história gosta de se repetir. Pedro II usurpou o trono ao irmão Afonso VI. Casou com a cunhada, Maria Francisca Isabel. A história de como Pedro execrou Afonso anima a mitologia popular que o pai fazia desfilar entre nós, à noite, enquanto ceávamos. Afonso não ia ser rei. Quem ia ser rei era Teodósio, mas morreu quando tinha dezanove anos, com uma doença que lhe atacou a respiração e lhe extinguiu o sopro. Afonso não fora educado para reinar. Eu também não tinha sido educada para monja e foi o que me aconteceu. Sempre me comovi com a história de Afonso VI, mas só em Odivelas percebi exactamente porquê: como exigir que alguém ceda a sua vida para se tornar noutra pessoa?
Quando era pequeno, uma maldição entrou-lhe no corpo. Um demónio, certamente, na forma de doença. E a cabeça também deve ter sofrido com isso, Afonso tinha problemas em segurar as ideias. Passava os dias com pessoas indignas, em divertimentos grosseiros. Ah, querem saber o que fazia o rei e os amigos? Apedrejavam pessoas e janelas. Faziam combates com os galgos, os cães mordiam-se até à morte. Enchiam o Paço de mulheres da pior fama, mulheres cheias de perdição e pecado que nunca foram felizes ou bondosas, mulheres das quais vocês se devem apiedar mas nunca se misturarem com elas..., contava o pai, que morria de medo que alguma de nós se perdesse na devassidão ou numa vida menos digna, caindo na influência de algum alcoviteiro. Mais tarde, descobri que Afonso VI se havia perdido de amores por duas freiras de Odivelas, Feliciana de Milão que foi trocada por Ana de Moura. João contou-me que, no dia em que Ana fez anos, Afonso trouxe touros para o pátio do convento e em honra da aniversariante os toureou bem ali, no meio das freiras e aos olhos bem abertos de Deus. Obviamente Deus não gostou da afronta e fê-lo cair do cavalo. João largou numa risada tão forte quando fiz este comentário que se engasgou no chocolate que lhe tinha servido. Mas o caso era sério. Se o tio e Ele partilhavam o gosto por monjas enclausuradas em quatro paredes, isso queria dizer que existia uma correnteza no sangue, uma inclinação perversa para este tipo de sentimento. Homens que amam freiras. Homens que se lançam ao cesto divino. O medo de não ser especial, de ser apenas mais uma, assolou-me muitas vezes, muitas noites. E em algumas, João acalmava-me. És minha. Minha. Escolho-te para seres minha». In Patrícia Muller, Madre Paula, Edições ASA II, 2014, ISBN 978-989-232-783-9.

Cortesia de ASA/JDACT

sábado, 16 de julho de 2016

Madre Paula. Patrícia Muller. «Lembro-me de te ver à porta da Capela Real, disse-me na noite em que pela primeira vez me entreguei a ele. Acreditei. Se fui a sua bruxa, então ele foi o meu satanás. Voltei para casa perturbada»

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«(…) O pai nunca descobriu as nossas incursões às casas de má fama na Mouraria. Éramos boas filhas. Ele passava os dias a trabalhar o ouro, nós não incomodávamos e tentávamos trazer-lhe alegria. Desde que a mãe tinha morrido que o pai havia perdido a capacidade de, por si, ver o lado bonito da vida. Deixou de conseguir trabalhar o ouro como dantes. Apesar das más-línguas das vizinhas, eu sabia que sempre tinha sido um ourives de excepção. Ainda guardo uma pulseira que me deu quando entrei para Odivelas. Uma tira larga com um jardim de delicadas flores trabalhadas, em filigrana, com a imagem de S. Bernardo, o santo padroeiro do rei. Mais tarde, o meu santo padroeiro também. É dele o pensamento que me acompanha há muitos anos: a última tentação do demónio, que assedia os perfeitos, aqueles que superam tudo: volúpias, favores, honras. S. Bernardo falou com Deus. Mas nunca percebeu o que é o amor na terra. A esse não se resiste.
A Luz foi para Odivelas pouco depois destas minhas memórias dos dias da dança. Foi um tempo mais triste, como se a trindade se houvesse perdido. O que seria do Pai, sem o Filho ou o Espírito Santo? Voltámos as duas a reunir-nos mais tarde no convento, onde permanecemos até hoje. Sem sombra de dúvida, permaneceremos até à hora da nossa morte. Odivelas é a minha casa. A minha cela é o meu quarto. As monjas, minhas irmãs. E também o nosso cadafalso.
No dia em que vi el-reí pela primeira vez tinha dezasseis anos, a vida monástica estava ainda distante. O que me interessava era percorrer as ruas da formidável metrópole. Bela e suja, cheirava a cães vadios e a especiarias. Dejectos entupiam o pavimento, marinheiros, maritornes e escravas, cavaleiros e camareiros e mercadores suados entupiam o ar. Alfazema e alho no hálito, sobranceira sobre o Tejo, seu eterno espelho amante, era o cenário do meu prazer máximo: um chocolate doce, tocado por canela e baunilha comprado a um mercador na rua. A multidão dirigia-se à Capela Real e ouvi-lhe os cochichos. El-rei conseguiu um favor do papa. El-rei é mais poderoso que todos os outros. El-rei é soberano no mundo inteiro.
A capela tinha sido elevada a igreja patriarcal, uma grande honra, por ordem directa de Sua Santidade, Clemente XII, que tinha o reinado de Portugal em grande estima. Mais tarde, muito mais tarde, entre outra canela e outra baunilha, João confirmou que o papa tinha o reinado de Portugal em grande estima, de facto, e em maior estima ainda o ouro que vinha de terras de Vera Cruz e que enchia os cofres do Vaticano a troco de alguns favores. Era crente, o rei, não sendo tolo. A missa celebrava a façanha, A chegar à porta, o coche que o mesmo papa enviara, usado no baptismo do príncipe primogénito e herdeiro, Pedro. Era dourado mas não impediu a morre do infante pouco tempo depois. O ouro não compra a vida, diz a Luz. Recordo a figura amadeirada de um menino na parte de trás, com um coração em chamas na mão. Representava o filho do rei. Era príncipe. O meu filho é também filho do rei, mas nunca foi príncipe. Assim como eu nunca fui rainha. O ouro não compra a vida, repeti vezes sem conta.
O rei saiu do coche, altivo. Vestia ume casaca azul-clara, bordada a prata, debaixo de uma capa negra. O colete era grã e os calções de seda faziam parelha com as meias. As fivelas dos sapatos de ouro maciço, os tacões altos. A cabeleira impecavelmente empoada, os caracóis perfeitos, era o homem mais bonito que eu alguma vez vira. Furei por entre a multidão e consegui chegar perto de Sua Majestade, mesmo à frente de todos, olhando-o, curiosa e excitada por rer a oportunidade de estar perto do homem mais poderoso do mundo. João acenava à multidão, sorridente e polido. Estava habituado a este espetáculo, era a vida que Deus tinha designado para ele. Considerei-o bonito, hipnotizante, que soberania! Tudo me inebriava: o coche, os guardas, as roupas, a pompa, a histeria da população. O poder acima de tudo. Dei mais um passo em frente, movida por nem sei que força ou que audácia, um dos guardas reais notou e avançou, ameaçador, pronto a fazer-me recuar. Foi então que João, certamente atraído pela movimentação, olhou na minha direcção. Gelei. Não consegui mexer nem mais um músculo. Os olhos escuros olharam-me como se me virassem do avesso e ele sorriu, fixo em mim. Fez sinal ao guarda e este afastou-se, eu permaneci no mesmo sítio, especada, diante de Sua Majestade. Não houve palavras, só mistério e atracção. O momento esfumou-se com o olhar do rei a afastar-se, largando-me, passando para outras paisagens. Ali fiquei, no meio da multidão a quem João acenava.
Lembro-me de te ver à porta da Capela Real, disse-me na noite em que pela primeira vez me entreguei a ele. Acreditei. Se fui a sua bruxa, então ele foi o meu satanás. Voltei para casa perturbada. O pai estranhou e perguntou se não estaria doente. A Leocádia fez-me chá e obrigou-me a comer pão. Suspeitaram da minha fraqueza e mandaram-me dormir. Nessa noite, já sonhava com o rei. Vi-nos juntos, numa cama que eu não conhecia, num quarto que eu não conhecia, abraçados como dois bichos, os meus braços à volta do pescoço dele, apertada, a apertar, a querermos fundir-nos um no outro. Não sou vidente mas acredito no destino. Podias ter contrariado o destino. Não acredito que Deus quisesse que tu passasses por aquilo que passaste, disse a Luz.. A Luz nunca gostou do que nos aconteceu. Mas aceitou as regalias que o meu corpo e a minha alma obtiveram. Era fácil julgar, e até a minha própria irmã cedeu à prontidão. Era diabólico de todas as formas, aquele amor, especialmente nas opiniões dos outros.
Seis meses depois, o pai mandou que eu e a Leocádia nos reuníssemos com ele na oficina. Tinha os olhos marejados, o martelo como extensão da mão direita, sempre a mais forte, o avental com pingos escuros. Lágrimas ou apenas restos do trabalho? Não consegui parar de pensar nesse assunto, inventei uma doença, uma desgraça com a Luz, com outros membros da família, uma tempestade, a lembrança da mãe a bater mais forte, a... Estás a ouvir, Paula? Estava a ouvir. O pai vai fechar a oficina. Não tenho clientes, não vendo as minhas jóias. Fico com a casa e a Leocádia ajuda-me, até ver o que conseguimos. Tu vais para o convento receber educação e acompanhar a tua irmã. Uma doença, uma desgraça com a Luz, com outros membros da família, uma tempestade e a lembrança da mãe a bater mais forte era o pior que podia acontecer. A ida para Odivelas era o fim do mundo. Não tinha nascido com vocação para freira, a minha relação com Deus não era diferente da minha relação com os homens: não existia». In Patrícia Muller, Madre Paula, Edições ASA II, 2014, ISBN 978-989-232-783-9.

Cortesia de ASA/JDACT

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Madre Paula. Patrícia Muller. «El-rei preferia minuetes. Leocádia não gostava da dança dos negros. Dizia que eram movimentos grosseiros, típicos de gente selvagem. Eu e a Luz ríamos sempre que ouvíamos a pequenita falar como gente grande»

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«(…) Não me abandones. Não sei que vida posso ter sem ti, disse-me. Amava a música. Era uma paixão e uma arma de conquista. No convento, sabia-se que uma freira tinha caído nas graças d'Ele quando se ouvia a orquestra e tocar perto da sua cela. Depois de termos terminado, foram muitas as vezes que ouvi tal música, e o que antes me parecia uma harmonia celestial era apenas um rugido triste de um amor que iria terminar. Não o meu, que esse já não existia para Ele. Mas o amor que el-rei vivia naquele momento e que iria terminar, porque todos terminavam. Sentia pena das raparigas que iriam sofrer. Eu sofri, mas fui a primeira a quem Ele trouxe música.
Dizem que el-rei proibiu a ópera porque pensou que Deus lhe paralisara metade do corpo por ouvir música profana. Mais mentiras. El-rei conheceu a ópera por causa de Maria Ana e proibiu-a por minha causa. Ouvi-la sem mim tornou-se-lhe intolerável.
Nós, as irmãs, éramos inseparáveis. O pai trabalhava muitas horas e deixava-nos entregues às nossas brincadeiras, A Luz, mais aventureira, calcorreava as ruas de Lisboa, da nossa casa à Mouraria, só para ver dançar lundum, a dança que veio com os negros de África. O rei não gostava de ritmos primitivos. O rei só gabava o que se dançava nas cortes europeias, principalmente na de Luís XIV. Nesta altura, eu pouco sabia de cultura e nem tinha começado a minha educação. Acompanhava a Luz a uma casa escondida num beco, onde escravas rebolavam traseiros e ombros, para cima e para baixo, a comandar a provocação aos homens. Morria de vergonha, perguntava-me se seria capaz de dançar daquela maneira ousada e sensual. Usavam saias compridas e corpetes justos, rodopiavam devagar com as mãos a agarrarem o tecido que caía até aos pés. Sacudiam as ancas. Quando a música acelerava, entravam os homens num uivo, colhiam-nas por trás, envolvidos na confusão, a mão esquerda dela num ângulo recto a tocar na orelha dele, primeiro, depois dobrada até ao cimo da cabeça. Ele sem mexer as mãos, para a frente e para trás, a música a intrometer-se no sangue cada vez mais depressa. A Luz dizia que os negros tinham a dança no sangue. Duas criadas que me serviram no tempo do rei eram negros. Quando estava muito triste ou enfurecida, obrigava-as a dançar lundum sem música, não sei se para recordar a felicidade que não sentia, se para castigá-las pelos pecados praticados, se por inveja de as ver dançar para longe dali, noutro mundo, tão erótico e intenso. Se tivesse conhecido o segredo dos corpos que falam sem palavras, Ele não teria partido. Agora compreendo o tonto enredo dos meus pensamentos. Não me arrependo da maldade que fiz às raparigas. Fiz maldades a muitas pessoas. Também fui alvo de muitas maldades. Perdoados seremos todos.
El-rei preferia minuetes. Leocádia não gostava da dança dos negros. Dizia que eram movimentos grosseiros, típicos de gente selvagem. Eu e a Luz ríamos sempre que ouvíamos a pequenita falar como gente grande. Mas o que sabes tu dos negros?, dizia a Luz. Sei. Tu é que não queres que o pai saiba que estamos aqui a ver este espectáculo degradante. Era a altura em que eu levantava a mão e dava uma bofetada na Leocádia. Sempre fui a mais alta das três, a mais forte. Antes do convento, tinha vestidos meus. Os da Luz só serviam à Leocádia. Tenho costas largas, coxas grossas, pernas fortes. A minha pele é morena, o meu cabelo é o meu grande orgulho. Não me considero bonita. Os meus olhos são enormes e estranhos. El-rei dizia que continham um reino dentro. João V via em mim uma beleza que eu nunca consegui encontrar. Como não és bonita? Os homens perdem-se por mulheres feias, porventura? A Luz via também.
O tempo ensinou-me que os homens gostam das mulheres que os amam. Não sou bonita mas há alguma coisa em mim que diz que sei amar. Sempre houve e eu desconhecia. Foi o que atraiu o rei, que eu nada soubesse de sentimentos. João deu-me a provar distâncias que nem sonhava. Aguardente água que arde. Queimava a garganta e incendiava a alma. Do que eu mais gostava era de me entontecer com el-rei, rir com el-rei, cantar com el-rei, enciumar-me, gritar, discutir com tal força que só os beijos me podiam calar. Do que eu mais gostava era de fazer as pazes com el-rei, na cama que el-rei mandou fazer para mim». In Patrícia Muller, Madre Paula, Edições ASA II, 2014, ISBN 978-989-232-783-9.

Cortesia de ASA/JDACT

quinta-feira, 31 de março de 2016

Amantes no 31. Madre Paula. Patrícia Muller. «Fazia a lide da casa e deixava a cozinha para elas. Ainda hoje, sou capaz de arrumar uma sala num ápice. Não o faço mais porque não preciso. No tempo do rei, tinha nove criadas. Hoje resta-me uma»

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«(…) O pai sempre se preocupou com o nosso sustento. Eu e as minhas irmãs devemos-lhe muito. Das memórias mais antigas que tenho, além da cara do pai no dia da morte do avôzinho, com os olhos esgazeados, o rosto transpirado a pedir-nos que nos mantivéssemos sãs, porque a vida dele dependia disso, lembro-me da mãe deitada na cama, comigo em cima a pesar-lhe de novo na barriga, a rir e a agarrar-me nas mãos. Temos de pentear esse cabelo. O cabelo cresceu-me negro e forte, até à cintura. Agora que a idade já avança, noto algumas cãs. Entristece-me. Quando os dias eram difíceis, ele aninhava-se no meu cabelo e ali enrolava tantas horas em silêncio. Às vezes, até adormecia nele. Era o seu lugar preferido. A mãe insistia em pôr-me uma pasta de azeite a cada quinze dias. Não perdi o hábito. Misturo duas colheres do precioso líquido com um ovo inteiro, depois faço-o escorrer nos fios escuros. É uma forma de voltar para perto dela. Tenho poucas memórias do tempo que passámos juntas. Morreu a seguir ao avô. A Luz, a Leocádia e eu ficámos com as obrigações do lar. Como irmã do meio, tinha metade das tarefas da Luz e o dobro das tarefas da Leocádia. Fazia a lide da casa e deixava a cozinha para elas. Ainda hoje, sou capaz de arrumar uma sala num ápice. Não o faço mais porque não preciso. No tempo do rei, tinha nove criadas. Hoje resta-me uma.
O que nós fomos e o que nós somos.., A Luz queixa-se muito. Ficou amarga. E tudo por minha causa, não a posso culpar. Devolvo-lhe a paciência com que ela me atura. Quem olha de fora só vê o que se vê de fora: duas irmãs velhotas e ranzinzas. As vistas para lá das janelas de casa são distorcidas. Eu e a Luz vivemos juntas desde sempre. Ela é a família que me calhou e a família que eu escolhi. O meu paí era Adrião d’Almeida, ourives como o avô. Herdou a loja-oficina, trabalhava à vista dos fregueses que lá iam buscar as filigranas, os cordões, os corações em ouro. Nunca conseguiu prestígio. As vizinhas invejosas falavam à boca pequena que não era um artesão talentoso. A Luz contou-me que quando a mãe morreu, ele bebeu demasiada sidra e pôs-se a trabalhar todo o ouro que tinha na loja. Fez a peça mais assombrosa que podia. A Luz assegurava que tinha sido um castelo de bonecas dourado, com torres, portas, janelas e ameias.
Um palácio de princesas do nosso tamanho, Paula. Uma ponte levadiça, também em ouro, que sobe e desce a um pátio com a largura dos teus braços. A volta do pátio, num andar de cima, os quartos com toucadores e camas. As camas têm banquetas, tudo em ouro. Cadeiras, também. Tudo pequenino no detalhe glorioso que lhe dá o ouro, acho eu. Ou achava, na altura em que ela ainda sorria. Sorria muito, a minha irmã. Fantasiava com príncipes e aventuras e viagens e vestidos bonitos. Mesmo com a morte da mãe, não deixou de sorrir. Isso só aconteceu quando me viu arrastar-me de desgosto, numa morte que não é do corpo mas do espírito. No convento, acontece muito. A paixão por um homem dá direito a dois caixões: um na terra e outro no céu. Vivíamos em Lisboa, no beco do Sedeiro, rua sempre suja dos despejos das janelas. A casa ficava no andar por cima da loja, tinha paredes grossas de pedra. À noite, junto ao fogo, cantávamos músicas alegres das festas e dos arraiais. Só muitos anos depois é que eu conheceria a ópera italiana (que ele tanto amava). Quem lhe deu a conhecer tal esplendorosa forma de arte foi dona Maria Ana de Áustria, a legítima mulher do meu amor, João Francisco António José Bento Bernardo Bragança, o Magnânimo, quinto da sua linhagem. Com ela julguei disputar o trono. A ele dei a vida. Relembro uma noite, dias após uma formidável briga entre nós, em que João trouxe músicos aos meus aposentos, homens carregados de instrumentos, violas, violinos, violoncelos, baixos e contrabaixos, cordas a desfiar em nome do perdão». In Patrícia Muller, Madre Paula, Edições ASA II, 2014, ISBN 978-989-232-783-9.

Cortesia de ASA/JDACT

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Madre Paula. Patrícia Muller. «Três décadas de monja, recolhida no mosteiro de Odivelas desde que me lembro. A memória já não é certa mas basta fechar os olhos, como no jogo com a minha irmã…»

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Mulher de Deus. Amante do rei
«Sei o que me chamam pelas costas: rameira.
Como se os pecados deles fossem diferentes do meu. O meu pecado? Traí Deus com um homem. Um rei. Tivemos um filho, prova viva da minha culpa. Não choro, não me arrependo. Que falem, experimentem viver atrás de grades, reclusos num palácio de ouro. Nascessem pobres, mal tendo o que comer, chegassem a amar a ponto de não poderem saber se estão vivos ou mortos. Saberiam o que é caminhar nos meus sapatos e poderiam ensaiar todos os julgamentos do mundo. Iam dar-se mal. Se o Senhor me perdoou, também eu me perdoei. Eu e a minha irmã Maria da Luz Micaela tínhamos um jogo quando éramos novas. Fechávamos os olhos para deixar a imaginação à solta. Eu vivia num pais estrangeiro. Eu desposava um conde. Eu costurava a manhã, pintava à tarde, cantava à noite. Eu passava os dias a passear no mato. Às vezes, também ia ver o mar. Fazíamos isto quando os dias custavam a passar, quando os olhares e as línguas afiadas dos outros nos chegavam aos ouvidos. Quando o coração se engasgava na garganta. Três décadas de monja, recolhida no mosteiro de Odivelas desde que me lembro. A memória já não é certa mas basta fechar os olhos, como no jogo com a minha irmã, e recordo-lhe a boca cheia e vermelha, os olhos escuros como o diabo, que me viam à transparência, a força com que me apertava o peito e dizia: amor.
Crescia dentro dos calções, instruía a minha mão a percorrê-lo do peito à virilha, a minha boca a segredá-lo da nuca ao queixo, mandão, arrogante, usava as partes do meu corpo como extensões do dele, e eu uma marioneta puxada por fios. Com os anos, a marioneta foi ganhando vida. Conquistou o público e substituiu el-rei, o mestre que a fazia abrir e fechar a boca para falar, abrir e fechar as pernas para dar prazer. Amor. E eu sabia que era verdade o que sentia e dizia, mas que a verdade vale no fim muito pouco. O amor não serve se não pode ser vivido por inteiro. E a minha história com João Francisco António José Bento Bernardo de Bragança, o Magnânimo, o Rei-Sol, o meu sol, é uma história incompleta. Interrompida pelo destino divino e pela história de um país. Quando morrer, o nome de João será o meu último sopro de respiração. O meu nome? Paula Tereza da Silva, madre Paula há tanto, rameira do rei há muito, filha de Deus desde sempre. Quarenta e nove anos, começo e escrever a minha história no dia em que o rei morre. Morreu há tanto tempo para ti, Paula, diz-me a minha irmã, enquanto me estende uma bebida quente, massaja o pescoço tenso e obriga a ficar deitada. Nada mais me resta a não ser a memória. Tive tudo o que uma mulher pode desejar: dinheiro, conforto, protecção, amor. Uma plebeia tratada como uma princesa. Tive os destinos de uma nação entre lençóis. Apaixonei-me pelo poder e amei o homem por trás dele.

O amor proibido entre João V e a freira do mosteiro de Odivelas
E, quanto ao teu nascimento, no dia em que nasceste não te foi cortado o umbigo, nem foste lavada com água para te limpar; nem tampouco foste esfregada com sal, nem envolta em faixas. Nasci pobre. O bisavô era alemão. Chegou da terra natal com uma medalha ao peito pelos serviços prestados na guarda estrangeira do imperador Carlos V Não sei porquê, ninguém me explicou, mas fixou-se e à sua zanga em Portugal. Quando morreu, já muito velho, eu tinha seis anos. No dia do enterro, a caminho da igreja, o pai declarou que eu herdara dele o feitio explosivo. Disse-o com ternura, tocou-me o orgulho. Foi a partir desse momento que decidi agarrar-me ao meu temperamento. Era a herança de um homem muito corajoso. E eu iria ser tão corajosa como ele. O bisavô João Paulo admirava muito o retrato do seu amado soberano na parede da sala de jantar e um livro onde estava escrito que Carlos V era dado a ataques de melancolia e que, já perto da morre, decidiu retirar-se para um mosteiro para a receber em pez. O meu avô imitou-o. Morreu sozinho em casa, deitado sobre a lareira ainda fumegante, barriga para cima, pernas dobradas, braços envolvendo as pernas, sem uma queimadura. Estava nu. Parecia um recém-nascido num berço de acendalhas. Um mistério. O pai obrigou-me a jurar: nem tu nem as tuas irmãs podem perder o juízo, Não temos dinheiro para vos caçar esses males. Comportem-se e não me amarrem a grandes gastos». In Patrícia Muller, Madre Paula, Edições ASA II, 2014, ISBN 978-989-232-783-9.

Cortesia de ASA/JDACT