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sexta-feira, 13 de novembro de 2015

A Abadia Profanada. Montserrat R. Góngora. «Demoravam mais de duas horas a chegar a villa Mariona, que desde a morte dos avós corria o risco de ser devorada pela hera, pelos vendavais de Outono e pelo silêncio»

jdact

Oriol Turmeda. Barcelona
«(…) Um ano depois do sucedido, Quimet e Núria Turmeda casaram-se na mesma igreja branca que dava para um passeio movimentado e para o mar que servira de fundo aos seus inúmeros retratos. Na altura, Quimet tinha conseguido viver com um desafogo discreto e declinara, por puro amor-próprio, qualquer oferta para ocupar um lugar privilegiado na fábrica do sogro. Porém, Núria aceitou do pai precisamente aquilo que o seu marido acabava de recusar. Duvidas que possa ser uma boa contabilista? Mas, Núria! Onde é que já se viu uma mulher desta família a trabalhar? Vês o teu futuro tão negro que tenhas de te rebaixar a esta humilhação? Um dia vais ser a dona! Deixa-te de histórias, pai!, ripostou ela. Foste tu a dizê-lo, sou mulher, mas não inútil. Sem esperar pela aprovação do seu assombrado pai, Núria Turmeda sentou-se diante de uma pesada máquina de escrever Remington Standard e dispõe-se a dactilografar como uma dactilógrafa experiente, mas, no ardor do seu arrebatamento, empurrou o carreto de tal forma que o atirou ao chão com o estrondo de um cataclismo. Começas bem!, protestou o pai. A tia Núria e o tio Quimet tinham trazido uma lufada de progresso a uma família demasiado tradicionalista. Pelo menos era o que Oriol sentia desde que tinha uso da razão e esquadrinhou o núcleo da linhagem através de melancólicas fotografias. Por essa mesma razão, o jovem dava-se muito melhor com os tios do que com o próprio pai, Jaume Turmeda, que herdara visivelmente aquela expressão intransigente do patriarca. Se o avô Francesc se aventurara a mudanças impensáveis foi mais pela astúcia da tia Núria do que por pura convicção; a filha exercia sobre ele mais ascendente do que a mulher e, no fundo, ele adorava-a, como mais tarde Jaume adorou a sua filha Teresa. Estava à vista que só na noite de núpcias dela é que perdeu o hábito de beijar Núria na testa antes de ir dormir e também o de lhe ler um conto, que com o tempo se converteu num ou outro romance dos autores da moda. Apenas alguns anos depois teve de superar a angústia de a ver com o cabelo cortado à garçon e a mostrar as barrigas das pernas como uma dançarina de cabaré, sem qualquer pudor.
Mas que é isto, Núria? Trazes o vestido todo esfiapado, advertiu-a numa censura comedida, esperando em vão que o genro se juntasse ao seu protesto. São franjas, pai. Pelo menos diz-me que estou bonita, exigiu ela ao pai, depositando-lhe um beijo terno na face. Francesc Turmeda não teve outro remédio senão acostumar-se às novas modas; inclusive atreveu-se a dançar o charleston com a filha, e até com a mulher, Mariona, mas preveniu-a de que o futuro dos chapéus femininos estaria em perigo se continuasse a alardear aquela fita com uma pluma, que rodeava a cabeça à altura da testa e que a ele sempre lhe parecera um atavio de índios fugidos de uma reserva.

Dentro da lata que outrora preservara da humidade as especiarias e infusões, surgiram as fotografias da família, misturadas e sem ordem cronológica. Oriol procurava seis ou sete em concreto: aquelas que retratavam o estádio olímpico de Montjuic no dia da sua inauguração, há pouco mais de sete anos. Antes foram aparecendo outras da mesma data, onde se viam as torres venezianas que deram acesso à Exposição Internacional em 1929 em Barcelona, com a Avenida de Maria Cristina e o Palácio Nacional ao fundo; ou modestos recantos do Pueblo Español, que reproduziam a arquitectura popular; ou panorâmicas do porto tiradas do cemitério da cidade, onde naquele ano já repousavam os restos mortais dos seus avós. Francesc Turmeda e Mariona Prats tinham morrido com poucos dias de diferença, em 1927. Primeiro morreu ela, de pneumonia, e a seguir ele, de pura nostalgia. Isso explicava o facto de nenhum deles aparecer diante do carro do seu pai, ao qual a família rendeu homenagem como se de um imperador se tratasse, desfilando à sua frente para serem retratados pela objectiva do tio Quimet. Jaume Turmeda adquirira o Hispano-Suiza a um fabricante de combinações que ficara arruinado. Oriol não sabia qual tinha sido a sua cor original porque, quando entrou nas suas vidas, o pai tinha-o mandado pintar de preto e vermelho. Só tinha capacidade para quatro ocupantes, de modo que prescindiu de um motorista; viu-se obrigado a aprender as normas básicas de circulação e lançou-se à aventura de transitar pelas sinuosas costas de Garraf de cada vez que se metiam a caminho do seu destino de férias. Oriol Turmeda ainda se lembrava do número exacto de túneis que havia no percurso até Sitges: nada mais nada menos do que treze. Demoravam mais de duas horas a chegar a villa Mariona, que desde a morte dos avós corria o risco de ser devorada pela hera, pelos vendavais de Outono e pelo silêncio. Era ali que se encontravam aquelas fotografias do lugar que mostravam os tempos do seu maior esplendor, emoldurando canteiros floridos, fontes e represas ou a avenida de pedestais com esculturas gregas que dava acesso à entrada principal». In Montserrat Rico Góngora, A Abadia Profanada, 2007, tradução de Cristina Vaz, Planeta Manuscrito, Lisboa, 2009-2010, ISBN 978-989-657-084-2.

Cortesia de PlanetaM/JDACT

A Abadia Profanada. Montserrat R. Góngora. «A naturalidade demolidora de Núria deixou Francesc Turmeda estupefacto, que, sem saber muito bem como perdera o seu papel de pai, se sentou com os jovens e começou a dar ouvidos à proposta da filha»

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Oriol Turmeda. Barcelona
«Oriol Turmeda subiu a um banquinho para alcançar a lata onde se guardavam as fotografias familiares. Durante anos, aquela caixa que continha a memória gráfica da família tinha permanecido arrumada numa prateleira acessível às crianças da casa, porque ver os retratos do avô Francesc, com o seu bigode retorcido, da avó Mariona, a posar com porte aristocrático no átrio do liceu, precisamente alguns minutos antes de o anarquista Santiago Salvador atirar uma bomba na plateia, ou da tia Nuria a fazer castelos de areia nas praias de Sitges, constituía o melhor passatempo para elas. Oriol Turmeda calculou que fora o seu pai, Jaume Turmeda, a esconder os instantâneos antes de adoecer, com o objectivo de o dissuadir de imitar os passos do tio Quimet. Este, contra todas as previsões, fizera fortuna instalando um estúdio fotográfico numa rua movimentada da cidade, mas o pai lembrava-se dele envolto numa aura boémia, a vender os prodígios da câmara escura nas ruas de Sitges com o descaramento de um charlatão de feira. Tinha chegado a Blanca Subur, como chamavam à povoação, no despontar da década de vinte, na mesma barafunda dos veraneantes e de uma juventude que importava ares europeus, não só na maneira de vestir, mas também no ócio, no gosto pela arte e um sem-fim de vanguardismos, como eles mesmos assinalavam.
Na altura, a próspera indústria de chapelaria do patriarca Francesc Turmeda estava em pleno apogeu, circunstância que o tornou extremamente receoso na hora de condescender com a filha, uma rapariga na casa dos vinte anos, que cometera o despropósito de se apaixonar pelo retratista que aguardara, com paciência de asceta, que uma borboleta pousasse no seu chapéu para a imortalizar. Núria Turmeda não se intimidou ante o inconveniente de se ter apaixonado por um zé-ninguém; confiava demasiado no seu poder de persuasão mas, sobretudo, numa proverbial lisonja capaz de vencer qualquer melindre do pai. Além disso, Quimet estava longe de parecer um vulgar caçador de dotes, porque era um boémio incapaz de imitar a pompa do seu mundo. Núria não se lembrou de algo melhor do que convidar Quimet para ir a sua casa durante a vigília da Nossa Senhora do Carmo, depois de os pescadores concluírem a sua vistosa romaria.
Abordou o pai no preciso instante em que os primeiros convidados se apresentavam no terraço que dava para o mar, onde se tinham disposto mesas para quarenta comensais e um estrado para três músicos. Pai, apresento-te Quimet!, exclamou, ao mesmo tempo que lhe mostrava uma fotografia. Foi ele quem teve a ideia de acrescentar borboletas aos teus chapéus. Francesc Turmeda, bastante atarefado com os últimos preparativos da festa, que coincidia com o seu sexagésimo aniversário, não deu grande importância às palavras da filha nem se deu conta de que aquele jovenzinho famélico, com óculos redondos e um chapéu rasca da concorrência, não era filho nem parente próximo dos seus convidados, e que pululava por entre as flores graças ao livre-arbítrio de Núria. Só passada uma semana é que Francesc se deu conta de que a filha tinha iniciado um romance e fê-lo quando surpreendeu a sua mulher Mariona e a criada a conversarem na cozinha, interrogando-se sobre o porquê da súbita falta de apetite da jovem, que se retirava para o seu quarto na hora da sesta sem ter comido as sobremesas.
Com uma intuição que parecia feminina, Francesc Turmeda encontrou a cama de Núria vazia; no quarto não estavam as suas cabaças de flutuação, nem o fato de banho às riscas a arejar no terraço, porém, apesar se tudo, soube que os levara numa artimanha para, ao regressar, os convencer de que vinha de um mergulho na água, ainda que o arrojo de não respeitar a sagrada hora da digestão lhe custasse um castigo de todo o tamanho. Francesc Turmeda abotoou a camisa, calçou-se, espantou o torpor estival das tardes de Julho e começou uma batida de sabujo pelo passeio marítimo e pela praia. Ao fim de meia hora encontrou-os ao abrigo da sombra órfã de umas rochas, de mãos dadas, com os olhares perdidos na bruma do horizonte. Núria, longe de se amedrontar, levantou-se energicamente e exclamou: Pai, estava a pensar que tens de encarar muito a sério a ideia de confeccionar um novo catálogo para os teus clientes! Os Recamier de Paris e os Colonna de Roma já to pediram mais de uma vez. Estava mesmo afalar disso com Quimet.
Aquela naturalidade demolidora com que Núria saía de qualquer transe deixou Francesc Turmeda estupefacto, que, sem saber muito bem como perdera o seu papel de pai, se sentou com os jovens e começou a dar ouvidos à proposta da filha. Esses catálogos que usas são antiquados. Parecem um caderno escolar mal pintado, insistia ela. Francesc Turmeda sabia que a filha tinha razão, porque ao longo de trinta anos tinha promovido a empresa familiar por meio de simples escorços mal desenhados, sem ter em conta os avanços da técnica e quanto o prodígio da fotografia poderia fazer pelas suas novidades. Apenas três dias depois, Núria e seu irmão Jaume, pai de Oriol, enfiaram na cabeça, um a um, os setenta modelos de chapéus que o pai fabricava e posaram ante a objectiva experiente de Quimet das mais diversas formas imagináveis: sentados em barcas imaculadas, a fazer equilibrismos num velocípede de museu, a sair de reluzentes tendas de praia ou enterrados na areia até ao pescoço, sem outro símbolo a não ser um chapéu da firma familiar». In Montserrat Rico Góngora, A Abadia Profanada, 2007, tradução de Cristina Vaz, Planeta Manuscrito, Lisboa, 2009-2010, ISBN 978-989-657-084-2.

Cortesia de PlanetaM/JDACT