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segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

A 25ª Hora. Virgil Gheorghiu.«O padre lhe desejou boa sorte. Lamentava sua partida. Iohann Moritz era jovem, bom trabalhador. Apesar de pobre, era generoso e honesto»

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«(…) Iohann Moritz despejou água nas mãos do padre. Observava os dedos daquelas mãos, compridos e fusiformes, dedos de mulher de pele branca. Observava com prazer o velho fazer espuma na barba, no pescoço, na testa. De tanto admirá-lo, esquecia-se de despejar a água. O padre aguardava, estendendo as mãos cobertas de espuma. E Moritz sentia-se culpado e ruborizava. O padre Koruga era o pope da aldeia. Tinha apenas cinquenta anos, mas a sua barba e cabelo já eram brancos feito prata. Seu corpo comprido, esguio, descarnado, lembrava o dos santos que vemos nos ícones das igrejas ortodoxas. Um autêntico corpo de ancião. Porém, encontrando seu olhar, ouvindo-o falar, percebia-se que era um homem mais jovem. Assim que acabou de se lavar, o padre enxugou o rosto e o pescoço numa toalha grossa. Moritz continuava em pé, com a cumbuca na mão, à sua frente. Eu gostaria de conversar com o senhor, meu padre, disse ele. Espere eu me vestir, respondeu o padre. E, pegando de volta a cumbuca das mãos de Iohann Moritz, entrou em casa. À soleira da porta, virou-se. Também tenho um assunto para conversar consigo, disse, sorrindo. Vai gostar. Enquanto isso, coloque os cestos na carroça e atrele.

A manhã inteira, Iohann Moritz e o padre Koruga colheram maçãs e encheram cestos. Trabalhavam em silêncio. Quando o sol dardejou seus ombros, o padre parou e estendeu os braços, cansado. Descansemos um pouco! Descansemos, concordou Moritz. Dirigiram-se até os sacos cheios de maçãs e sentaram-se em cima deles. Mantinham-se calados. O padre procurou nos bolsos o maço de cigarros que sempre levava para os dois e o estendeu para Moritz. Queria conversar?, inquiriu o padre. Sim, queria. Moritz acendeu o cigarro. Jogou o fósforo na relva e observou-o apagar-se. Era difícil para ele comunicar sua partida ao padre. Preferiria esperar um pouco mais. Primeiro, quero lhe dar a minha notícia, disse o padre. Moritz ficou contente por não ter de falar primeiro.

O quartinho junto à cozinha está vago, informou o padre, e me perguntei se não gostaria de se mudar para lá. Minha mulher acabou de caiar e colocou cortinas nas janelas e roupa de cama limpa. Sua casa é muito apertada. Você e seus pais possuem apenas um quarto. Amanhã, quando vier trabalhar, traga suas coisas. Não virei amanhã. Então, depois de amanhã, disse o padre. A partir de hoje o quarto é seu. Não virei nunca mais, disse Moritz. Amanhã viajo para os Estados Unidos. Amanhã?, O padre esbugalhou os olhos. Amanhã bem cedo. A voz de Moritz era firme, embora velada pelo remorso. Recebi uma carta, o navio está em Constança, só tenho três dias. O padre sabia perfeitamente que Moritz queria ir para os Estados Unidos. Muitos jovens camponeses partiam para lá e, dois, três anos depois voltavam com dinheiro e compravam terras e as casas mais bonitas da aldeia. O padre estava contente por Moritz. Em poucos anos, ele também teria belas terras. Mas surpreendia-se com a premência da viagem. Moritz jamais tocara no assunto com ele, e eles haviam trabalhado o tempo todo lado a lado, diariamente. Só ontem recebi a carta, disse Moritz. Vai sozinho? Com Ghitza Ion. No navio, trabalharemos como operários. Trabalharemos nas caldeiras, assim não precisaremos pagar quinhentos lei por pessoa. Ghitza tem um amigo em Constança que trabalha no porto e providenciou tudo.

O padre lhe desejou boa sorte. Lamentava sua partida. Iohann Moritz era jovem, bom trabalhador. Apesar de pobre, era generoso e honesto. Não possuía um alqueire de terra. Os dois homens trabalhavam de sol a sol. O velho falava dos Estados Unidos. Moritz escutava. Em diversas ocasiões, suspirou. Agora estava quase arrependido de sua decisão. À noite, depois de receber seu salário, Moritz permaneceu de olhos baixos diante do padre. Conservou-se assim ainda por um momento. Não tinha forças para ir embora. O velho deu-lhe um conforto no ombro. Escreva-me assim que chegar, pediu. Amanhã de manhã, passe para pegar o farnel que prometi. Terá o que comer durante a viagem. Ainda lhe deu cinco cédulas de cem lei e prosseguiu: chegue bem cedo. Bata discretamente na janela. É preferível que minha mulher não ouça; mulheres costumam ser avarentas, você sabe. Deixarei tudo preparado hoje à noite. Quando pretende partir? Devo encontrar Ghitza Ion na saída da aldeia, ao amanhecer. Justo o tempo de passar lá em casa. Caso contrário, eu lhe diria para vir esta noite. Prefiro amanhã, disse Iohann Moritz. Imaginava que Suzanna o esperaria naquela noite. Em seguida, partiu». In Virgil Gheorghiu, A 25ª Hora, 1949, Bertrand Editora, ISBN 000 […] W16.

Cortesia  de BertrandE/JDACT

JDACT, Virgil Gheorghiu, Grécia, Guerra, 

Virgil Gheorghiu. A 25ª Hora. «Pensou então na mulher que acabava de deixar. Pensou em Suzanna. Arrependeu-se de não ter sorrido para ela. Suas histórias de estrelas...»

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«Não posso acreditar que esteja de partida!, disse Suzanna a Iohann Moritz, abraçando-o. Levou as mãos à cabeça do homem e acariciou-lhe os cabelos pretos. Ele deu um passo para trás. Porque não acredita?, respondeu ele, num tom de voz seco. Partirei depois de amanhã, ao amanhecer. Eu sei!, murmurou ela. Permaneciam de pé, junto à sebe. Fazia frio. Passara da meia-noite. Iohann tomou as mãos da mulher, deixou-as cair e disse: então, até logo! Fique um pouco mais!, suplicava ela. Porque deseja que eu fique? Sua voz era firme, decidida. Está tarde. Amanhã tenho que trabalhar. Ela não respondeu, mas o apertou ainda mais nos braços. Entreabrindo a camisa do homem, ela pousou a face no seu peito e ergueu os olhos. As estrelas são lindas!, disse. Ele, por sua vez, esperava algo importante. Acreditava que ela o retivera por isso. E ela vinha falar de estrelas.

Desvencilhou-se, quis ir embora. Mas se lembrou da sua partida iminente e de que ficaria ausente no mínimo três anos. Então, para agradá-la, também contemplou as estrelas. É verdade que todo homem tem a sua estrela no céu? É verdade que ela vira uma estrela cadente quando ele morre? E eu lá sei?, respondeu ele. Agora estava decidido a partir. Até logo! Será que também temos estrelas lá no alto?, perguntou ela. Como todo o mundo, respondeu Moritz. Lá no alto ou dentro de nós. Pegou a cabeça da mulher entre as mãos e afastou-a do seu peito. Em seguida, partiu. Ela o acompanhou até ao caminho, segurando-lhe a mão. Olhava para as estrelas, depois para ele. Espero-o amanhã à noite!, disse ela. Se não chover.

Suzanna gostaria de não deixá-lo ainda, de suplicar que ele viesse, mesmo se chovesse. Mas ele se afastava a passos largos. Desapareceu na curva do caminho, atrás do jardim. A mulher permaneceu por um momento no mesmo lugar. Alisou o vestido na altura do quadril, para retirar os carrapichos agarrados ao tecido. Antes de voltar ao quintal, observou o capim amassado sob a nogueira, onde se haviam deitado um perto do outro. Ainda sentia nas narinas o cheiro do corpo de Moritz, um cheiro de capim amassado, tabaco e caroço de cereja. Assobiando, Iohann Moritz atravessou o campo e tomou a direcção de casa. Usava compridas calças pretas de soldado e uma camisa branca com o colarinho aberto. Estava descalço. Às vezes parava de assobiar para bocejar. Pensou então na mulher que acabava de deixar. Pensou em Suzanna. Arrependeu-se de não ter sorrido para ela. Suas histórias de estrelas...

Mulheres são iguais a crianças. Fazem um monte de perguntas inúteis, ruminou. Pensou então na viagem que ia fazer dali a dois dias. Pensou na América. Depois não pensou em mais nada. Voltou a assobiar. Tinha sono. Queria já estar em casa, dormindo. Devia acordar bem cedo. Era o seu último dia de trabalho. E estava prestes a amanhecer. Dali a poucas horas, o dia teria nascido. Iohann Moritz apertou o passo.

Raiava o dia quando Iohann Moritz parou diante da fonte da aldeia e, abrindo amplamente a camisa, pegou a água com as mãos e esfregou-a no rosto e no pescoço. Foi então até ao meio da rua e secou as mãos, passando-as no cabelo. Ajeitou o colarinho da camisa sem fechá-lo e observou a aldeia. A cerração leitosa se dissipava. Era a aldeia de Fântâna, na Roménia. Iohann Moritz nascera ali, vinte e oito anos atrás. E agora, enquanto contemplava aquela aldeia, com as suas pequenas casas e os três campanários das suas três igrejas, a ortodoxa, a católica e a protestante, lembrou-se de que, na véspera, Suzanna lhe perguntara se ele não iria morrer de saudades dali. Na hora, ele rira, achando graça da pergunta, e respondera que era um homem. Apenas as mulheres podiam sentir saudades. Mas agora sentia como se um vago arrependimento o invadisse. Voltou a assobiar e desviou os olhos.

A casa do padre Alexandru Koruga ficava na beira da estrada, não longe da igreja ortodoxa. A porta estava fechada. Iohann debruçou-se e pegou a chave escondida sob o capacho para que pudesse entrar de manhã, quando chegasse para trabalhar. Abriu a pesada porta de carvalho, sem pressa, e adentrou o quintal. Os cães correram ao seu encontro, pulando à sua volta. Conheciam-no bem, pois já fazia seis anos que Iohann Moritz trabalhava para o padre Alexandru Koruga; todos os dias dos últimos seis anos: lá, sentia-se em casa. Mas aquele era seu último dia de trabalho. Passaria o dia colhendo maçãs. Depois receberia o que lhe era devido e comunicaria a sua partida. O padre ainda não sabia de nada. Iohann Moritz entrou no celeiro, pegou os cestos e os acomodou na carroça. O padre apareceu na sacada. Vestia apenas uma camisa de linho branco e calças compridas. Acabara de se levantar. Moritz, sorrindo, cumprimentou-o. Colocou o cesto no chão, esfregou as mãos, subiu até à sacada e tomou das mãos do ancião a cumbuca cheia d’água. Espere, vou despejar». In Virgil Gheorghiu, A 25ª Hora, 1949, Bertrand Editora, ISBN 000 […] W16.

Cortesia  de BertrandE/JDACT

JDACT, Virgil Gheorghiu, Grécia, Guerra, 

sexta-feira, 14 de março de 2014

O Homem que Viajou Sozinho. Leituras. Virgil Gheorghiu. «Quando Grigore avistou o comboio na estação deixou que os cavalos descessem mais depressa. Sabia que o único comboio que chegava de manhã não partia senão ao, meio-dia, e que tinham ainda tempo»

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«(…) Mas era o feitio de Traian, deixar-se ficar quieto na varanda, com os livros. Até à idade de vinte anos, até agora, fora essa a sua maior felicidade. O seu sonho secreto era vir a ser um padre de aldeia, como era o pai e como tinham sido todos os seus antepassados, naquela região da Moldávia do Norte, junto aos Cárpatos. Mas a vida tornara-se difícil. Naquela região toda a terra era estéril. Os homens eram pobres, o clima duro. Traian tivera de escolher outra carreira. Decidira então matricular-se na Faculdade, em Bucareste, para ser professor. Tinha de ganhar a vida enquanto estudasse. O pai era muito pobre para o ajudar; tinha que pagar os estudos aos quatro filhos mais novos com o pouco que tinha. No entanto, Traian partiu para a Universidade cheio de grandes esperanças. Ainda no liceu, publicara dois volumes de poesia: A Vida Quotidiana do Poeta e Esboços. Colaborara em todas as revistas literárias da capital. Graças a ser já conhecido como um dos escritores novos, esperava arranjar um lugar de redactor num jornal de Bucareste e ganhar" dinheiro suficiente para viver durante o curso e pagar as matrículas. Tinha já mesmo algumas promessas. Deixava Isvor cheio de confiança. De repente lembrou-se das lágrimas da mãe. Voltou-se para Grigore, que guiava os -cavalos, e quis-lhe perguntar: …porque é que a mãe chorava como se eu fosse para o fim do mundo? Mas Grigore, que estava ao serviço do padre há mais de vinte anos, mergulhara nos seus pensamentos. Fitava, absorto, a estrada que se estendia diante deles. Traian não quis perturbar-lhe a meditação. Não lhe perguntou nada. Fitou também a estrada, como Grigore. A carruagem avançava ao trote dos cavalos na estrada que atravessava a aldeia. A estrada e os pátios estravam desertos. Nem vivalma. Como a terra era pobre, os habitantes de Isvor iam ganhar o dia a centenas de quilómetros dali. Agora tinham ido vindimar para a Moldávia do Sul com as mulheres, os filhos e as carroças. Ninguém ficava em Isvor, a não ser os velhos e os doentes. O carro do padre avançava na estrada deserta. Diante deles, à direita, ficava a última casa de Isvor. Era a casa do professor. Igualzinha à do padre: paredes brancas, telhado de varedo, varanda de madeira, flores à janela e, diante da porta, um poço com uma roda.
Diante do poço estava a filha única do professor, com uma saia azul como as flores que se chamam não-me-deixes. Traian despedira-se na véspera; Maria, no entanto, queria tornar a vê-lo ainda antes da partida. Por isso veio ao encontro dele, para junto do poço, quando ouviu ao longe o ruído do carro. Maria andava no liceu de Kichinev, que Traian frequentara durante oito anos. Também ela, dali a um ano, sairia do liceu. Às vezes, ao domingo, encontravam-se em Kichinev. Traian dedicara-lhe alguns versos, e Maria sentira-se toda orgulhosa por ser a musa de um poeta. Hei-de te mandar a direcção do Lar para onde vou ficar em Buoareste, logo que lá chegue, disse Traian no momento em que o carro chegava à porta do professor. Os cavalos iam agora a passo. Traian disse: Saúda por mim Kichinev e toda a Bessarábia, Maria! Parto amanhã de manhã às sete horas, disse ela. A rapariga estava encostada ao poço. A saia, azul como as flores das miosótis, desfraldava-se ao vento. Adeus, até às férias do Natal!, disse Traian acenando. Os cavalos meteram de novo a trote. Traian olhou para trás. Alguns minutos depois, a estrada virava para a direita e grandes árvores esconderam a casa do professor, o poço de roda de madeira e a rapariga de saia azul. O Natal era dali a quatro meses. Traian esperava voltar coberto de glória e pensava no que iria acontecer quando voltasse. Enfrentava o futuro com confiança. Alguns instantes depois, a estrada começava a descer. A estação ficava a quatro quilómetros, no vale. Traian avistava agora a minúscula estação, com as paredes brancas e o telhado de telhas vermelhas. Era uma estação-términus, a que só chegava um comboio por dia. Esse comboio, composto de três pequenas carruagens e de uma locomotiva, estava agora diante do edifício de paredes brancas e de telhado vermelho. Quando Grigore avistou o comboio na estação deixou que os cavalos descessem mais depressa. Sabia que o único comboio que chegava de manhã não partia senão ao, meio-dia, e que tinham ainda tempo. Mas, instintivamente, deixou ir os cavalos mais depressa. Quando o menino voltar, no Natal, vai nevar, disse Grigore. Hei-de vir busca-lo de trenó». In C. Virgil Gheorghiu, O Homem que Viajou Sòzinho, tradução de Vitorino Nemésio, 4ª edição, Livraria Bertrand, Lisboa.

Cortesia da LBertrand/JDACT

A Chibata. Caminhos diversos. Virgil Gheorghiu. «Examina o aldeão que está em frente dele. O aldeão olha, com prazer evidente, a chibata com castão de prata, a boquilha de ouro, as luvas de fina pele de porco e o fato de tecido fino do oficial. Estende o pescoço o mais que pode para estar mais perto do perfumado fumo azul que sai da boquilha de ouro»

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Missão ao alvorecer
«(…) Apresentam-se ao tenente. Fazem a continência e esperam ordens, com apreensão. Cabo Motok, volte a cabeça e olhe para o Sul, ordena o tenente. Com a chibata, indica um ponto e acrescenta: Onde acaba o campo de milho, a pouco mais de um quilómetro daqui, há um ponto branco. Neste momento, o ponto branco está imóvel. Olhe bem. Quando distinguir o ponto indicado, diga-me... Vê-o? -Vejo, meu tenente-responde o cabo. Ele ergueu-se na ponta dos pés e pôs as mãos sobre os olhos. Olhando, com atenção, para o ponto indicado pela chibata, continua: é um pobre aldeão que colhe qualquer coisa no seu campo, meu tenente. Vejo-o muito bem. O aldeão parou e olha-nos. Ele pergunta a si próprio, evidentemente, porque é que o observamos. Vejo-o muito claramente, é um pobre aldeão. O feldwebel Otto Ritter, o soldado Hans Kurt e os nove soldados romenos vêm, também, muito claramente, o ponto branco indicado pelo oficial. Dir-se-ia um insecto branco, à beira do campo de milho verde. É, realmente, um aldeão, que fica imóvel, a olhar para os camiões. O aldeão segura qualquer coisa na mão. Qualquer coisa que apanhou do chão. Exactamente como explicou o cabo Motok. O aldeão deve ter apanhado qualquer coisa para comer, para ele ou para os animais. Neste momento, ele não tem nada para colher nos campos, cabo Motok, diz o tenente. Os trabalhos agrícolas terminaram e a colheita ainda não começou. Nenhum aldeão tem que fazer no seu campo. É por isso que todos os campos estão desertos. O homem que vêm na vossa frente é um paraquedista inimigo. Um sabotador. Um espião ou um desertor. Não esqueçam que nos encontramos a menos de cem quilómetros da linha da frente. O inimigo está perto de nós. A vigilância impõe-se. Somos militares. A vida da nação e o destino de vinte milhões de romenos estão nas nossas mãos de militares. Exclusivamente nas nossas mãos. A falta de vigilância de um militar é um crime nacional. O tenente Fanoti é comandante militar, chefe de todas as instituições militares e civis da região. Todos os territórios perto da frente estão confiados aos comandantes militares e eles têm poder absoluto. Cabo Motok, dirija-se àquele indivíduo, com os seus dois soldados. Marchará para atacar. Mantenha a linha recta. Não afrouxem ao caminhar para ele. Avancem os três com a arma carregada, prontos a fazer fogo. Por nada deste mundo afastem o dedo do gatilho. Se o indivíduo fugir, abram imediatamente fogo sobre ele. Matem-no. Tragam-mo aqui, morto ou vivo. Em conclusão: olho sobre ele e dedo no gatilho. Execução.
O cabo Motok e os dois soldados põem-se em marcha, arma na mão como para o assalto a uma fortaleza, em direcção ao aldeão imóvel, branco, sozinho à beira do campo. O homem, desconfiado, não se mexe. Logo que os camiões pararam, ele parou também. Depois, não mudou de posição, como que petrificado. O cabo Motok e os seus dois soldados avançam. Têm os três os ombros arqueados. O seu caminhar é pouco vigoroso. Com surpresa geral, o homem não procura nem fugir, nem esconder-se. Os três soldados aproximam-se dele. O homem suspeito, certamente um aldeão da região, não só não procura fugir, como está encantado por constatar que os dois camiões pararam por causa dele, unicamente por causa dele, no meio da estrada, e que os três soldados se incomodam para lhe falar. Não compreende porque é que os militares não lhe ordenaram para vir ter com eles. Porque é que se incomodam eles? O aldeão está lisonjeado. O cabo comunica-lhe a ordem do tenente. O aldeão põe-se em marcha. Os soldados seguem-no, enquadrando-o, receando que ele se escape. Os quatro avançam para os camiões. O aldeão sente-se cada vez mais à vontade. É da mesma estatura que os soldados que o escoltam. E vão com o mesmo passo. Um passo cadenciado, como os patos, o corpo inclinado para a frente. Os quatro homens avançam como se estivessem ligados à terra; e a cada passo arrancam um pouco desta terra, colada à sola dos seus sapatos. Dir-se-ia que o aldeão suspeito e os soldados da escolta eram irmãos. O aldeão leva ao ombro um saco de riscas largas, pretas e vermelhas, saco meio cheio. Enquadrado pelos três soldados, detém-se em frente do tenente Marcel Fanoti. O aldeão tem o sorriso nos lábios. Segura na mão um chapéu de palha, de abas largas. O homem saúda militarmente o tenente, pondo-se em sentido. Volta a cabeça respeitosamente e saúda os dois militares alemães, depois os quatro soldados romenos do segundo camião. Estes levantaram o toldo que os cobria, a fim de assistirem, com as caras assustadas, à cena. O aldeão está agora muito sorridente, o saco ao ombro, o chapéu de palha na mão, em sentido, pés descalços na poeira. Tem os cabelos curtos, cor de cinza, uma cara ossuda, queimada pelo sol. Rosto oval, semelhante à argila cozida no forno. A pele das mãos e do pescoço têm a mesma cor de tijolo velho. O homem usa uma camisa de cânhamo, branca, muito limpa, de mangas largas, aberta no peito. A cintura está apertada numa grande faixa de lã preta, com a largura de um palmo. As calças justas são, também, de cânhamo branco. Os pés descalços na poeira, os calcanhares juntos, como no exército... O tenente Marcel Fanoti fuma. Examina o aldeão que está em frente dele. O aldeão olha, com prazer evidente, a chibata com castão de prata, a boquilha de ouro, as luvas de fina pele de porco e o fato de tecido fino do oficial. As narinas do aldeão, queimadas pelo vento, palpitam de prazer: saboreia o tabaco louro fumado por Fanoti. Este tabaco, dir-se-ia que o próprio aldeão o fuma. Estende o pescoço o mais que pode para estar mais perto do perfumado fumo azul que sai da boquilha de ouro». In Virgil Gheorghiu, A Chibata, tradução de António Fernandes, Livraria Bertrand, Lisboa.

Cortesia de LBertrand/JDACT

sábado, 6 de abril de 2013

A Chibata. Caminhos diversos. Virgil Gheorghiu. «Nem uma aldeia, nem uma casa, nem um homem. Unicamente o céu, as montanhas, os campos de milho, o barulho dos motores e os dois rastos de poeira, que se erguem atrás dos camiões militares»

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Missão ao alvorecer
«Os dez fixam diante deles um olhar ausente. Têm calor. Estão muito apertados. Nenhum se mexe. Só as pálpebras lhes pestanejam nas órbitas. O cabo chama-se Motok. Está sentado na extremidade de um banco. O cabo distingue-se dos nove soldados por dois galões de algodão amarelo, cor de abóbora, cosidos nos ombros. Os galões de um cabo romeno são tão largos e tão amarelos que se vêm melhor do que os de um general. Em lugar de concederem autoridade àquele que os usa, têm, sobretudo, um aspecto de enfeites de palhaço. Estes soldados romenos fazem parte da companhia da polícia militar do tenente Fanoti.
Os dez estão colocados na rectaguarda, nesta companhia, porque já não podem estar na linha de fogo. Cada um destes dez soldados foi ferido várias vezes; ou sofrem de malária, de pelagra, ou de uma úlcera no estômago. Pode dizer-se, simplesmente, que são muito velhos para combater. Antes de partir de Pascani, o feldwebel Otto Ritter, diante do posto de comando, ordenou aos soldados romenos para se separarem em dois grupos: cinco subiriam para o primeiro camião, conduzido por ele, e os outros cinco para o segundo camião conduzido pelo soldado alemão Hans Kurt. O tenente anulou esta ordem, com indignação. Decidiu que os soldados romenos subiriam todos para o segundo camião. Explicou ao alemão: - Os soldados romenos cheiram mal. Não posso admitir que se sentem atrás de mim. Não posso suportar o seu cheiro. No primeiro camião só vão o feldwebel e o tenente. Os velhos soldados e o cabo vão amontoados no segundo.
O dia anuncia-se muito quente. O Sol ainda não nasceu. Só os primeiros raios da aurora deslizam para Leste, como salpicos de sangue fresco no manto azul do céu. A terra está, ainda, escaldante da véspera. Os militares alegram-se, ao pensar que os camiões sobem em direcção às montanhas, que se projectam para Oeste. No alto, fará mais fresco. O tenente aborrece-se. De um estojo de coiro tira um binóculo incrustado de madrepérola e tendo o escudo de prata dos príncipes Fanoti. É o binóculo com o qual o pai do jovem oficial seguia as corridas de Londres, de Paris e de todos os hipódromos mundanos da Europa. Binóculo, precioso.
Os Fanoti são grandes proprietários, grandes fidalgos provincianos. Só possuem objectos de valor. O tenente olha através do binóculo, com indiferença, a montanha e a planície. Cada haste de milho está direita, como um oficial de hussardos, fechado na sua túnica verde, com o penacho de ouro no seu pináculo. Cada haste de milho tem, mais abaixo, algumas folhas compridas e pontiagudas, como sabres verdes que cortam o vento, soprando. Nem uma aldeia, nem uma casa, nem um homem. Unicamente o céu, as montanhas, os campos de milho, o barulho dos motores e os dois rastos de poeira, que se erguem atrás dos camiões militares. - Alto! - Ordena, bruscamente, o tenente Marcel Fanoti. O feldwebel trava, assustado, e pergunta o que aconteceu. - Vai ser informado imediatamente, feldwebel - responde o tenente.
Desce para a estrada, esmagando com as botas envernizadas a terra escaldante. O segundo camião chega e pára também. - Cabo Motok, desça, imediatamente, com dois soldados! - grita o tenente. Com a mão esquerda segura o binóculo de corridas e com a direita a chibata com castão de prata, no qual estão inscritas as palavras Jockey Club. Do segundo camião saltam dois soldados, levantando, com o mesmo 'movimento, o toldo que os cobre. Dois soldados com o seu capacete de aço, que lhes cai sobre as orelhas, como uma caçarola muito grande e muito pesada; dois soldados mal-ajeitados no seu uniforme espesso e amarrotado». In Virgil Gheorghiu, A Chibata, tradução de António Fernandes, Livraria Bertrand, Lisboa.

Cortesia de L. Bertrand/JDACT

sexta-feira, 15 de março de 2013

A Chibata. Caminhos diversos. Virgil Gheorghiu. «Uma atmosfera de religiosidade e de humanidade patética em que assenta um lirismo sempre atento às realidades quotidianas, próximas da vida e da terra. Uma narrativa que se desenvolve em tom elevado e perturbador que, impondo a inocência, sublinha a audácia»

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Missão ao alvorecer
« - Amanhã, ao alvorecer, apresentar-te-ás com dois camiões no comando da polícia militar romena. Verificarás, a partir desta noite, os motores e mandarás enchê-los de gasolina. Levarás alimentos para ti e para o ajudante de motorista. Todo o dia de amanhã estarás às ordens do exército romeno. Como se chama o motorista do segundo camião? - Soldado Hans Kurt, meu capitão. O feldwebel Otto Ritter pôs-se em sentido. O capitão Konrad Vitalis, comandante do serviço de informações alemão, da cidade romena de Pascani, faz sinal ao oficial subalterno que pode sair. O capitão é alto, os seus cabelos são grisalhos. É um intelectual. No estado civil é professor universitário numa cidade do Sul da Alemanha. A mão do oficial, de dedos compridos, afilados e brancos, que folhearam um número incalculável de livros, indica a porta do gabinete. O sargento saúda e sai. Teria querido pedir pormenores, porque, para cada missão, os camiões são preparados de forma diferente. O capitão não o deixa falar.
O feldwebel passa à cantina, depois à garagem. Prepara os camiões, em conformidade com as ordens recebidas.
No dia seguinte, ao romper da manhã, os dois camiões alemães saem de Pascani e dirigem-se para Oeste, segundo as instruções do motorista da polícia romena. O feldwebel Otto Ritter e o soldado Hans Kurt ignoram tudo da missão que devem executar. Não ousam pedir explicações. O segredo é rigoroso em tempo de guerra. Saindo da cidade pelos campos, os camiões rodam, suavemente, na direcção das montanhas, que se perfilam para Oeste, como paredes azuis, subindo até ao céu. Os camiões rodam a cem metros um do outro, num caminho estreito, de terra batida. São os primeiros automóveis que rodam sobre esta estrada de campanha. Dois rastos de poeira, semelhantes a nuvens de chuva, erguem-se atrás dos camiões e esvoaçam por cima dos campos de milho verde, cujos penachos dourados se estendem dos dois lados da estrada.
 - A quantos estamos hoje, feldwebel? - pergunta o tenente Marcel Fanoti. Ele tomara lugar no primeiro camião, junto do motorista alemão. O tenente, um jovem aristocrata, de uns trinta anos, usa o uniforme de oficial de cavalaria romena. Alto e delgado, tem cabelos pretos, alisados pela brilhantina, a cara barbeada de há pouco e empoada, um bigode fino e preto, como duas vírgulas desenhadas a tinta-da-china, ou como sobrancelhas de rapariga. Dólman de caqui, com botões dourados, apertado com cinturão; calças cinzento-pérola, botas envernizadas, subindo até aos joelhos, esporas de prata; luvas de pele de porco, de cor clara, quase branca. Sobre os joelhos, o tenente tem uma chibata de coiro novo, com castão de prata, no qual estão inscritas as palavras: Jockey Club. Marcel Fanoti é oficial de reserva. Cheira a água-de-colónia fresca, a brilhantina, a pó-de-arroz, a tabaco loiro e a chocolate.
Ao lado do tenente, o feldwebel alemão que conduz o camião é jovem, pequeno, rechonchudo, louro como uma espiga de trigo maduro; a cara redonda, rosada e brilhante como uma lâmpada acesa. - Heute, são 23 de Agosto, Herr leutnant - responde o alemão. A cara ilumina-se-lhe ainda mais, de emoção, porque sabe que acaba de cometer um lapso. São as primeiras palavras que o oficial romeno e o sargento alemão trocam depois da sua partida de Pascani. Os dois não dormiram e não têm vontade de falar. Para partir em missão, levantaram-se antes do amanhecer. Além disso, a conversa entre eles é muito difícil, porque o tenente Fanoti não conhece senão uma dúzia de palavras alemãs e o alemão fala mal o romeno. O nome completo do feldwebel alemão é Otto Ritter Freiherr von Jahrmarkt. Ninguém lhe chama barão Ritter. No exército ele é o feldwebel Ritter.
O sargento alemão e o oficial romeno renunciam a continuar a conversa. Olham, em silêncio, os montes Cárpatos, que se estendem diante deles, a Oeste; o céu azul, como uma cúpula bizantina, por cima dos montes e dos campos verdes de milho, que se estendem sem fim, dos dois lados do caminho. Ao volante do segundo camião encontra-se o soldado alemão Hans Kurt. Usa o uniforme cor de pedra de enxofre, com curtas botas pretas. O soldado Hans Kurt tem, também, uma cabeça redonda e brilhante, como um facho aceso. Junto dele, o banco está vazio. Atrás dele, no segundo camião, estão amontoados dez militares romenos: nove soldados e um cabo. Alinhados nos bancos de madeira, cinco de um lado, cinco do outro, os dois grupos estão frente a frente, usam capacetes de aço, redondos e pesados como caçarolas, que lhes caem sobre as orelhas, e que estão fixados debaixo do queixo por largas correias de pele de boi.
Os dez homens usam uniforme de caqui espesso, rijo e enrugado como a casca de um velho carvalho, o cinturão e o talabarte de coiro, semelhantes aos arreios dos cavalos. À cintura de cada soldado pendem quatro cartucheiras carregadas. Duas granadas estão fixadas em cada anca. Os militares romenos seguram entre os joelhos a arma, baionetas de canhão, direita como uma tocha. Estes homens já não são novos. Todos ultrapassaram os cinquenta. Os rostos ossudos, enrugados, tisnados pelo sol e queimados pelos ventos. Como vasos de argila, que se descobrem na terra, depois de centenas de anos...» In Virgil Gheorghiu, A Chibata, tradução de António Fernandes, Livraria Bertrand, Lisboa.

Cortesia de L. Bertrand/JDACT

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Leituras. O Homem que Viajou Sòzinho. Virgil Gheorghiu. «Não vou, nem para o fim do mundo, nem para a guerra. - Vou pura e simplesmente para a Universidade. Mas para que servem essas lágrimas? Acredito que voltas. Mas tenho medo que voltes tarde de mais»

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«Sei que tudo te há-de correr bem - disse a mãe de Traian Matisi. - Estou certa que tudo te há-de correr bem. As lágrimas corriam-lhe pela cara. Com a mão direita segurava o rebordo da carruagem prestes a partir. Agarrava-a como se a-quisesse deter. Com a mão esquerda limpava as lágrimas quando lhe chegavam aos lábios. - Não tens razão nenhuma para chorar – disse Traian depois de ter arrumado a mala na carruagem. - Chorar para quê, se tens a certeza de que me vou sair bem? A carruagem, atrelada a dois cavalos, estava parada diante da escada da casa.
Traian, envergando o seu primeiro trajo civil, partira para a Universidade, em Bucareste. Todos os seus, à volta da carruagem, assistiam à partida: o pai, o padre de Isvor, direito, magro, apertado na sotaina. - Estava calado. Junto dele estavam as três irmãs e Nicolau, o irmão de Traian. Também calados. - Bem sabes que hei-de vir de tempos a tempos a casa - disse Traian. Pôs uma mão protectora no ombro da mãe, que o fitou cara a cara. Enquanto olhava para o filho, os olhos dilatavam-se-1he, interrogadores e assustados.
 - Pois claro que volto sempre nas férias a casa - disse Traian, vendo o medo invadir os olhos enevoados de lágrimas da mãe. - Voltas? Sério? - perguntou ela, incrédula, com uma voz hesitante. Depois de fazer a pergunta, a mãe de Traian desatou a soluçar. - Não queres acreditar que volto? - disse ele; e apertou-lhe com mais força o ombro. - É por isso que estás a chorar? Porque julgas que não volto? - Acredito que voltas - disse ela. As lágrimas - deslizaram-lhe de novo até aos lábios e limpou-as com a mão esquerda. Depois continuou:
  • Acredito que voltas. Mas tenho medo que voltes tarde de mais. É só isso. Que voltes tarde de mais. Quando eu já cá não estiver.
A mãe de Traian Matisi desprendeu a mão da carruagem; agora deixava-a partir. Dissera ao filho tudo o que tinha a dizer-lhe. Toda a sua angústia. Deu um passo atrás para deixar partir a carruagem. Traian voltou-se, interrogador, para o pai. O padre estava imóvel. As três irmãs de Traian também. Junto da escada deu com o olhar do Solitário.
Era um cavalo serrano, um pouco maior do que um poney, que, um belo dia, chegara ao pátio do padre de Isvor, onde espinoteava em liberdade, partilhando da vida das crianças, das galinhas, dos patos e dos outros animais domésticos. O Solitário olhava agora para Traian com os mesmos olhos indagadores, fixos e um pouco inquietos, com que o olhavam todas as pessoas reunidas à volta dele. - Mas para quê, esta despedida trágica? – disse Traian. - Como se eu fosse para o fim do mundo...
A voz tornou-se-lhe enérgica. Continuou:
  • Não vou, nem para o fim do mundo, nem para a guerra. - Vou pura e simplesmente para a Universidade. Mas para que servem essas lágrimas? Mamã, não chores mais!
Traian Matisi beijou a mão ao pai, que lhe deu um beijo na testa. Beijou a mão da mãe. A mãe deu-lhe um beijo na testa também. Beijou as irmãs, na face direita. Para beijá-las tinha de se curvar, que as três eram mais pequenas do que ele. Puseram-se, cada uma por sua vez, nos bicos dos pés e beijaram também Traian na face direita. Nicolau, o irmão de Traian, tinha dez anos. Recebeu com gravidade o beijo na face direita. - Agora, adeus! - disse bruscamente Traian. - Adeus! Até às férias do Natal. Antes de saltar para a carruagem encontrou de novo os olhos inquietos do cavalinho, do Solitário, que olhava fixamente para ele.
 - Também queres que te diga adeus? - perguntou Traian.
Traian beijou rapidamente o cavalinho na testa, entre os olhos. Depois saltou para a carruagem. Grigore, o criado que o levava à estação, enxotou com o chicote os patos, os gansos e as peruas que se tinham instalado debaixo do carro. Depois subiu para o pé de Traian e chicoteou os cavalos. - Volta, como prometeste! - disse a mãe de Traian. Fora mais para si mesma que falara, quando a carruagem largou. No mesmo instante ouviu-se a voz de Nicolau, que parodiava a recomendação materna ao irmão que partia: - Ó defunto, não voltes tarde de mais!
A alcunha de defunto, lançada naquele momento por Nicolau, provocou o riso das crianças. Traian também riu. O padre sorriu, a mãe de Traian sorriu por entre as lágrimas. E até Grigore. Todos riam quando a carruagem deixou o pátio do padre de Isvor. As irmãs e o irmão tinham posto a Traian a alcunha de defunto. Traian era o filho mais velho do padre. Durante as férias, passava os dias a ler na varanda da casa. As irmãs e Nicolau tinham posto ao irmão mais velho o nome de defunto para se vingarem de ele nunca brincar com eles. Tinham decidido que só um morto, um defunto podia ficar imóvel todo o dia, com a cabeça metida entre os livros». In C. Virgil Gheorghiu, O Homem que Viajou Sòzinho, tradução de Vitorino Nemésio, 4ª edição, Livraria Bertrand, Lisboa.

Cortesia da L. Bertrand/JDACT