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domingo, 19 de junho de 2011

Daniel Innerarity: O Futuro e os seus Inimigos. «Os seres humanos (e também, portanto, os eleitores) tendem a esquecer o futuro nos seus cálculos. O que lhes importa é o «aqui e agora». A importância dilui-se à medida que nos vamos afastando do presente imediato»

Cortesia de marciomorenawordpress

A Tirania do Presente
«Para começar, todas as sociedades democráticas têm dificuldades estruturais para ter em conta o futuro, porque a aceleração do tempo social dificulta a sua percepção e antevisão. Qualquer incremento da velocidade é acompanhado por uma proporcional diminuição do alcance da visão. A aceleração produz a sedução de chegar mais perto do futuro, mas na realidade elimina-o como dimensão estrategicamente configurável. O tempo longo da estratégia torna-se impossível na medida em que a aceleração tende a anular o tempo de espera, os períodos destinados e pensar e reflectir. O pensamento e a acção transformadores baseiam-se na confiante convicção de o futuro ser configurável pelo homem. Ora, com o estabelecimento da instantaneidade e da simultaneidade globais, este tipo de futuro é marginalizado por um presente veloz entendido como foco exclusivo de gratificação e interesse. É este um dos motivos dessa dissociação entre o futuro que deveríamos considerar e aquele que realmente entra nas nossas considerações:
  • ao passo que a repercussão das nossas acções chega a futuros muito remotos, a nossa perspectiva e a nossa ocupação continuam reduzidas ao âmbito operativo do presente.

Cortesia de universico

Outro dos motivos dessa redução do horizonte de atenção resulta do facto de que os períodos eleitorais estruturam a medida temporal da democracia representativa. As regras que conferem poder aos governos fazem-no por um período determinado, de maneira que há de quatro em quatro anos, de um modo geral, uma contenda eleitoral que decide quem perde e quem vence. Este ritmo elementar determina a tendência das estratégias políticas a concentrarem-se no objectivo de não perder o poder ou de conquistá-lo. Isso limita o espaço de movimentação da política, visto que a obriga a tratar os problemas segundo o prazo temporal das legislaturas. Os problemas são geridos de modo a que haja um reforço, ou, pelo menos, a que não haja diminuição, das possibilidades de continuar no poder durante a legislatura seguinte. Todos os problemas que não se adaptarem a tais condições serão tratados de uma maneira dilatória ou enfrentados quando já não houver outro remédio.

Cortesia de fabiopestanaramos

Esta atitude restringe o alcance do interesse geral ao interesse eleitoral e simplifica a soberania política reduzindo-a à soberania dos eleitores. O interesse geral não é somente a vontade concreta dos eleitores, é também uma realidade intertemporal, a única coisa que pode justificar projectos de longo prazo, decisões que não tendam tanto a resolver como a configurar, investimentos ou acordos estruturais, grandes projectos como a educação, as infra-estruturas, o sistema de pensões, a política energética, a reforma das administrações, etc. Para atender a estes e outros assuntos semelhantes, é necessária outra configuração da vontade política, e noutro registo temporal, que complemente o ritmo eleitoral.
Podemos encontrar na própria natureza da demoscopia e do comportamento eleitoral outros motivos que explicam a tirania do presente. Os seres humanos (e também, portanto, os eleitores) tendem a esquecer o futuro nos seus cálculos. O que lhes importa é o «aqui e agora». A importância dilui-se à medida que nos vamos afastando do presente imediato. Atendendo à nossa dupla incerteza a seu respeito, a exclusão do futuro não é completamente irracional: não conhecemos o futuro nem sabemos se viveremos nele.
Os eleitores esquecem o futuro de duas maneiras:
  • em primeiro lugar, porque é futuro e não presente;
  • em segundo lugar, porque (e na medida em que) esse futuro é o futuro de outros.
Este duplo esquecimento impõe-se de uma maneira inexorável. Na confrontação democrática, compete-se unicamente pela aprovação dos que votam «aqui e agora» e não dos que, embora possam ser os principais atingidos, só o farão no futuro». In Daniel Innerarity, O Futuro e os seus Inimigos, Teorema, 2011, ISBN 978-972-695-960-1.

Cortesia de Teorema/JDACT

terça-feira, 14 de junho de 2011

Daniel Innerarity: O Futuro e os seus Inimigos. «As actuais dificuldades da sociedade para se pensar a si própria em termos de finalidade e promessa colectiva mostrem precisamente que o futuro não tem merecido a devida atenção, principalmente o futuro menos imediato e menos próximo, ou seja, o futuro em sentido próprio»

Cortesia de armacaodepera

O futuro das sociedades democráticas.
Uma teoria da justiça intergeracional
«Se nós, os seres humanos, quisermos realizar operações que vão além do momento presente, teremos de travar relações com o nosso futuro. O mesmo vale para as sociedades, que devem manter um nexo inteligente com o seu futuro se quiserem que disposições colectivas como a previsão e a antecipação ou emoções públicas como a esperança e o temor, os desejos e as expectativas, sejam articulados de uma maneira racional. As actuais dificuldades da sociedade para se pensar a si própria em termos de finalidade e promessa colectiva mostrem precisamente que o futuro não tem merecido a devida atenção, principalmente o futuro menos imediato e menos próximo, ou seja, o futuro em sentido próprio. Mas se a política tem alguma justificação que a distingue da mera gestão é por tentar governar esse futuro menos visível, mas não menos real, no qual se joga o que é mais importante. A questão decisiva consiste em saber se as nossas democracias são capazes de antever possibilidades futuras num contexto de grande incerteza, se estão em condições de realizar projectos e dar tensão ao tempo social, de articular intergeracionalmente a sociedade actuando nesses «sombras do futuro» com critérios de legitimidade e responsabilidade.

jdact

Esta dificuldade de se relacionar com o seu futuro é uma das causas que explicam o triunfo da insignifìcância nas actuais democracias mediáticas, a nossa insistente distracção no curto prazo. E talvez uma reintegração do futuro na nossa actividade política seja um elemento de transformação e renovação da vida democrática.

A Tirania do Presente
Uma das consequências da tão frequentemente proclamada crise da ideia de progresso consiste em o futuro se tornar problemático e o presente se absolutizar. Encontremo-nos num regime de historicidade em que o presente é dono e senhor absoluto. É a tirania do presente, isto é, da actual legislatura, do curto prazo, do consumo, da nossa geração, da proximidade … É a economia que privilegia a lógica financeira, o lucro em vez do investimento, a redução dos custos em vez da coesão da empresa. Pratica-se um imperialismo que já não é espacial mas temporal:
  • o do tempo presente que tudo coloniza.
Há uma colonização do futuro que consiste em viver à custa dele, um imperialismo do presente que absorve e parasita o tempo futuro. Bertman (1998) chamou «o poder do agora» a esse presente não comprometido com qualquer outra dimensão do tempo e que substitui o longo pelo curto prazo, a duração pela imediatez, a permenência pela transitoriedade, a memória pela sensação, a visão pelo impulso.

jdact

A intensificação do momento presente e a perda de relevância do futuro são dois fenómenos correlativos. Exigimos ao presente aquilo que não podemos esperar do porvir. A «sociedade de satisfação imediata» (Schulze 1992) impõe uma temporalidade de curta perspectiva. Este «presentismo» torna-se visível em todas as esferas da cultura e também na política, transformada numa corrida atrás da imediatez das sondagens, numa espécie de lógica «just in time» copiada do consumo, da publicidade e da comunicação social.
Há uma suspeita razoável de a política democrática estar sistemática e problematicamente virada para o presente. Quais os motivos desta focalização autista no presente? Poderíamos sintetizar considerando motivos de tipo estrutural, resultantes da aceleração do tempo social, da periodização das eleições, do regime da demoscopia e do comportamento dos eleitores, das tendências demográficas e da pressão organizada dos interesses». In Daniel Innerarity, O Futuro e os seus Inimigos, Teorema, 2011, ISBN 978-972-695-960-1.

Cortesia de Teorema/JDACT

domingo, 15 de maio de 2011

Daniel Innerarity: O Futuro e os seus Inimigos. «Inimigos do futuro são os que o concebem sem levar a sério a sua complexidade, os que o manejam irreflectidamente, quer porque o entendem como mera continuidade quer porque o hipotecam irresponsavelmente»

jdact

«É frequente associar-se o futuro à aceleração. Segundo essa concepção, não teria futuro aquilo que chega tarde ao torvelinho da concorrência. E desse modo se simplificou enormemente a complexidade psicológica e social do tempo humano. Em primeiro lugar, porque esse concepção nos põe perante uma alternativa entre aceleração e desaceleração que reduz consideravelmente as verdadeiras opções.
A aceleração não é um «rattrapage» do futuro:
  • é um dos seus principais inimigos. Além da alternativa «aceleração/desaceleração», há também a alternativa «movimento verdadeiro/movimento falso», em virtude da qual nos apercebemos de que o aumento da velocidade revela, por vezes, perplexidade, ao passo que a reflexividade é a condição de possibilidade de mudanças mais profundas.
É preciso e todo o momento distinguir o futuro da sua aparência. Só desse modo poderíamos explicar, por exemplo, o paradoxo de que conquistas técnicas altamente destrutivas sejam apresentadas como portadoras de futuro, enquanto as estratégias ecológicas que asseguram esse futuro podem parecer conservadoras. Por isso há uma sensação, amplamente difundida, de a aceleração dos tempos sociais ser ilusória em comparação com aquilo que mais importa e não passa de uma falsa mobilidade, uma fuga para a frente que dissimula a incapacidade de encetar as reformas necessárias e configurar o futuro colectivo. Por isso uma das mais importantes tarefas de crítíca consiste em combater o falso movimento.

jdact

Entre os piores inimigos do futuro contam-se também aqueles que se empenham em neutralizar a todo o custo o seu carácter aberto e imprevisível. As melhores estratégias cognitivas e práticas dos últimos anos foram formuladas precisamente com base em modelos respeitadores da intransparência e da indisponibilidade do futuro. Conceitos como resiliência, risco, emergência ou governação foram pensados como respostas ao malogro da planiÍicação determinista, mas sem renunciar à gestão inteligente e responsável do futuro. Seria preciso repensar o futuro como um cenário de liberdade, uma hipótese ou uma promessa, e não como uma realidade determinante, algo cuja melhor prova se encontra no facto de o passado estar repleto de futuros que não chegaram a concretizar-se. Basta examinar a futurologia de todas as épocas históricas pare comprovar que a maioria dos prognósticos e promessas falharam. A realidade ser tão decepcionante é que a torna humanamente configurável. Nesta perspectiva, os inimigos do futuro não seriam hoje aqueles que procuram impedir-nos de avançar para um futuro que o progressismo dogmático divisa com certeza; inimigos do futuro são os que o concebem sem levar a sério a sua complexidade, os que o manejam irreflectidamente (quer porque o entendem como mera continuidade quer porque o hipotecam irresponsavelmente), os que o planiÍicam sem respeitar a sua intransparência e também os que se abandonam comodamente a um suposto movimento natural das coisas.

Cortesia de armacaodepera
Se assim é, então teríamos de reformular o antagonismo político que, desde a modernidade, tem sido fixado em redor de um esquema esquerda-direita definido com base num suposto movimento da história. Progressistas e conservadores, há-os em todo o arco ideológico. Há reaccionários de direita e de esquerda, que frequentemente cristalizam em coligações como defesa contra o desconhecido. E igualmente surgem, por vezes, acordos entre progressistas de direita e de esquerda para encarar o futuro sem a obsessão de eliminar a sua dimensão menos manejável. Na actualidade, o ideologicamenre decisivo não é definir-se em termos de movimento ou de quietude, mas sim com base na contraposição de movimento para o futuro e movimento para parte nenhuma». In Daniel Innerarity, O Futuro e os seus Inimigos, Teorema, 2011, ISBN 978-972-695-960-1.

Cortesia de Teorema/JDACT

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Daniel Innerarity: O Futuro e os seus Inimigos. «Se as utopias modernas pensaram o futuro em termos fundamentalmente de renovação da sociedade, a actual retórica do futuro parece tê-lo restringido ao âmbito das inovações técnicas e da expansão dos mercados»

jdact 

«É neste contexto que se inserem a falta de ambição colectiva das nossas sociedades, a extenuação do desejo, o nosso medo difuso, o retrair-se para os interesses individuais, a carência de perspectivas. Poderíamos dizer que o processo triunfou sobre o projecto, o post sobre o pro, e que o tom dos comportamentos de antecipação é de mais de prevenção e precaução do que de prospectiva e projecto. 
O movimento contemporâneo, a incessante adaptação à mudança que nos é exigida, é vivido segundo uma lógica da sobrevivência, não da esperança. À força de se explicar que as «grandes narrativas» morreram, o lugar delas foi ocupado pela defesa dos «direitos adquiridos», o vazio deixado pela imaginação do futuro foi preenchido pela preocupação do instante; e onde não se prepara o futuro a política limita-se a gerir o presente

Cortesia de armacaodepera
Quem são, então, os inimigos do futuro que têm de ser desmascarados?
Para começar, convém que se saiba que é preciso descobri-los, em primeiro lugar, entre os que poderiam parecer os seus mais ardentes partidários:
  • onde quer que se proceda à sua banalização,
  • entre aqueles que promovem uma aceleração improdutiva,
  • insensível aos custos da modernização.
Os assaltos ao futuro partem das mais diversas trincheiras, e os contragolpes provêm de instâncias insuspeitadas. Onde há verdadeiramente futuro, deveríamos estar perante o desconhecido e o surpreendente, mas não parece ser esse o caso de certa retórica da inovação que utiliza a linguagem da necessidade. Este uso inflacionário da palavra resulta de ela ter sido monopolizada pela sua acepção técnica e mercantil. Tem-se a impressão de que a antevisão do futuro só se realiza actualmente mediante promessas tecnológicas e previsões de crescimento económico.
Se as utopias modernas pensaram o futuro em termos fundamentalmente de renovação da sociedade, a actual retórica do futuro parece tê-lo restringido ao âmbito das inovações técnicas e da expansão dos mercados». In Daniel Innerarity, O Futuro e os seus Inimigos, Teorema 2011, ISBN 978-972-695-960-1. 

Cortesia  de Teorema/JDACT

terça-feira, 19 de abril de 2011

Daniel Innerarity: O Futuro e os seus Inimigos. «Vamos vivendo à custa do futuro, numa completa irresponsabilidade em relação a ele. A lógica do just in time e do curto prazo manifesta-se em fenómenos muito variados, por exemplo, no sensacionalismo que antepõe o espectacular e o catastrófico apoio ao desenvolvimento...»

jdact

«...procura contribuir para uma nova teoria do tempo social num dos seus aspectos mais relevantes, como se relaciona a sociedade com o seu futuro, como é ele previsto, decidido e configurado, extraindo dessa perspectiva uma série de lições que possam ajudar-nos a renovar o nosso modo de entender e executar a política. A crítica do uso que as sociedades fazem do tempo futuro é uma chave para a elaboração de uma teoria crítica da sociedade. Hoje qualquer teoria da sociedade tem de ser uma teoria do tempo e especialmente do uso que nós fazemos do futuro. De facto, a crise da política está intimamente ligada à crise do futuro, à sua crescente ilegibilidade. Se não errarmos ao criar processos que nos libertem da tirania do curto prazo e nos abram um horizonte mais ambicioso, o da longue durée, a transformação de que as sociedades democráticas necessitam será o resultado imediato dessa abertura para fazer do futuro o seu mais interessante espaço de acção.Era essa a tarefa que Max Weber atribuía à política:
  • gerir o futuro e responsabilizar-se por ele.
Para isso, são necessários modos de pensar que se abram ao longo prazo e que o façam racionalmente, para lá de simples projecções ou de cenários inverosímeis.

jdact 
Em última análise, o nosso actual desafìo não é senão o de estruturar novamente o tempo na era da globalização. A principal tarefa da política democrática consiste em estabelecer a mediação entre a herança do passado, as prioridades do presente e os desafios do futuro.
Não é por acaso que a crise da democracia ocorre num período em que se tornou mais discutível a sua capacidade para efectuar essa mediação. O tempo passa diante dos nossos olhos sem referências estruturantes, e nós ocupamo-lo com um cínico oportunismo ou com uma instalação depressiva, compensando a nossa ineficácía com a agitação superfìcial e substituindo a esperança pela inútil evocação do completamente outro.
As sociedades actuais têm de realizar um trabalho sobre o tempo em virtude do qual, se quiserem essegurar a sua sobrevivência e o seu bem-estar, são obrigadas a incluir cada vez mais futuro nos seus cálculos. Mas há poucos delineamentos desse futuro. O futuro tem maus advogados no presente e padece de fraqueza crónica. O problema das nossas democracias reside em o antagonismo político estar absorvido pelo presente.

Cortesia delacomunidadelpais
Vamos vivendo à custa do futuro, numa completa irresponsabilidade em relação a ele. A lógica do just in time e do curto prazo manifesta-se em fenómenos muito variados:
  • na hegemonia da lógica dos mercados financeiros, que se impõe acima de outras dimensões da economia;
  • na pressão exercida pelo tempo dos meios de comunicação, perante a qual o sistema político mostra uma preocupante vulnerabilidade;
  • no sensacionalismo que antepõe o espectacular e o catastrófico, por exemplo, ao apoio ao desenvolvimento;
  • na concepção instantaneísta da democrada, que se manifesta na influência exercida nas decisões políticas pelos prazos eleitorais...
A lógica do urgente desestrutura a nossa relação com o tempo, sempre subordinado ao momento presente». In Daniel Innerarity 2009, O Futuro e os seus Inimigos, Teorema, ISBN 978-972-695-960-1.

Cortesia de Teorema/JDACT