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sexta-feira, 15 de abril de 2022

A Rosa dos Ventos. Materiais para uma Opereta sem Música. Gonzalo T. Ballester. «A vendedeira de hortaliças da Rua do Leme Partido, que tem uma pocilga, apesar dos protestos de toda a gente, viu aumentada a sua população porqueira em oito rosados leitões»

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«(…) Para além das cartas há, também, alguns documentos dos chamados confidenciais. Rasguei muitos, na sua maioria delacções repugnantes, cartas anónimas contra este ou a favor daquele, quando não contra mim próprio. Pergunto-me como desafogariam certas pessoas a sua alma miserável antes de se popularizar a escrita. Quem terá sido o inventor genial da carta anónima? Fácil como é! Põem-se os insultos uns atrás dos outros e já está. Dá-se saída à inveja e ao ressentimento e já está: ficam rios de lixo. Não sei se falei já da senhora Stolle, mas voltarei a falar dela. Tem um salão frequentado por artistas e por outras pessoas inteligentes. Porque será que eu suspeito que foi desta casa que saiu a maior parte das denúncias contra os liberais, as acusações de deslealdade e de perversidade contra pessoas que considero minhas amigas ou, pelo menos, minhas defensoras? A senhora Stolle denuncia os seus próprios companheiros de tertúlia e imagino-a convencida de que presta um serviço à pátria, quando só favorece a Águia do Leste. Pelo contrário Paulus, o sargento... Tem a seu cargo informar-me do que se passa pela cidade. Dá voltas pelas ruas e fala com este e com aquele. Depois escreve-me.

Do sargento Paulus a S. A. o grão-duque Ferdinando Luis, respeitosamente

Senhor, no meu último relatório falava-vos de que a senhora Sauce iria dar à luz um dia destes: pois já foi mãe de uma formosa menina, à qual pôs o nome de Tarakanova o qual, na minha opinião, vai acabar por ser comprido demais. A menina Rosa, da loja das rendas, zangou-se com o namorado e isto causou grande agitação no bairro do Sul, porque a gente do bairro do Sul é muito solidária com todos os do bairro do Sul, e como o noivo da menina Rosa era do bairro do Leste, não o viam com bons olhos e o abandono de que fez objecto a menina Rosa é considerado como uma ofensa a todo o pessoal. É muito possível que haja brigas entre os rapazes do bairro do Sul e os do bairro do Leste que, segundo parece, também se solidarizaram com o noivo da menina Rosa.

A vendedeira de hortaliças da Rua do Leme Partido, que tem uma pocilga, apesar dos protestos de toda a gente, viu aumentada a sua população porqueira em oito rosados leitões, dos quais já vendeu quatro; e é o que diz a menina Verbena, que lhe faz concorrência: ou vende couves ou porcos, mas as duas coisas, não. Com certeza que o filho da senhora Verbena, contra a vontade dos pais que queriam associá-lo ao negócio, se embarcou numa fragata das que vão para Inglaterra, mas com a intenção de passar à América quando estiver mais desembaraçado a trepar aos mastros. Senhor grão-duque, à senhora Zanahoria, que tem uma loja de produtos importados na Rua do Leme Intacto, apareceu-lhe um caroço maligno debaixo de um sovaco e correu o boato de que ainda lhe vão aparecer outros seis: que pelo número lhes chamam andorinhos, não sei porquê: a senhora Zanahoria está muito abatida e o marido dela dedica-se a correr os barcos estrangeiros em busca de um unguento que lhe cure a mulher, a quem, como está tão dorida, não pode tocar de noite. Por essa coisa de tocar ou não tocar também houve conflito, com bronca das grandes, na Rua do Caderna Esburacada: porque se descobriu que o senhor Saulo, o enfermeiro do Hospital, tinha tido relações com uma das enfermeiras e, por esta razão, a mulher dele não o admite no leito conjugal, e diz-lhe que se vá divertir com a outra: o bairro está dividido, os homens a favor do senhor Saulo e as mulheres a favor da senhora Stella, que assim se chama a interessada. O ponto alto do escândalo costuma ser por volta das oito da noite: é um espectáculo divertido e recomendável, no qual se vê como as pessoas se contentam com palavras, sem passar aos actos. Senhor grão-duque, à menina Esmeralda, que vende linhas e aviamentos de costura, tudo isso que elas chamam de capelista, na Rua do Peixe Voador, conforme se entra, o banco quis-lhe fechar a loja, porque não pôde pagar uma letra de vinte moedas que lhe vinha do estrangeiro: pois as pessoas fizeram imediatamente uma colecta, eu contribuí com dez peniques que faltavam e, quando chegaram os executores, pagou-se-lhes a letra e ficaram com uns narizes de palmo, porque o que faz os executores felizes é, precisamente, executar. Ele há gente mesmo má!» In Gonzalo T. Ballester, La Rosa dos Ventos, A Rosa dos Ventos, Materiais para uma Opereta sem Música, Difel, Londa-a-Velha, 1995, ISBN 972-290-326-8.

Cortesia de Difel/JDACT

Escritor, Galiza, Gonzalo Ballester, JDACT, Literatura,

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Alberto S. Santos. O Segredo de Compostela. «Quando analisava a frio os acontecimentos durante a viagem, e aproveitando uma conversa descontraída com os servos, Lucídio achou que fora a melhor decisão»

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«(…)

Aseconia (Santiago de Compostela) Bracara Augusta (Braga)

Toma o pequeno Prisciliano! É o teu filho! Priscila estendia as mãos para o esposo, sobre as quais repousava uma criança de olhos abertos e rosto sereno. Lucídio segurou-a, desajeitado, mas o mais delicadamente que pode. Afastou ligeiramente os panos coloridos e ficou a contemplar o bebé, como se o tempo tivesse parado. Então, Lucídio?!, acordou-o Priscila, com uma ponta de inquietação. O marido ergueu-o no ar e arvorou um sorriso embevecido. Reconheço-te, Prisciliano, como meu filho, autorizo-te a viver e não permitirei a tua exposição, expressou, afetado, o sublatus, o ritual sagrado de reconhecimento paternal, também proferido pelo seu pai, avô e assim sucessivamente, até à madrugada dos tempos. Orgulhoso, devolveu à mãe o petiz, que o colocou num berço ciosamente fabricado pelos carpinteiros da villa, decorado com motivos florais. Priscila sentou-se na ilharga da cama e Lucídio imitou-a, mesmo ao lado, abraçando a esposa. Um aperto carregado de carinho e afecto. Valéria informou-me que o pequeno está de boa saúde, referiu, pausadamente e em tom baixo. E logo me disse que, ao nono dia, o purificaram no altar da casa e lhe chamaram Prisciliano…

Tínhamos combinado! Se fosse rapaz, ficaria ligado ao meu nome, se fosse rapariga, ao teu. Quem sabe, ainda teremos uma Lucídia!, respondeu, rindo e encostando a cabeça ao ombro do marido. Lucídio acabava de voltar da jornada bracarense, a meio de um dia soalheiro, a tempo de um frugal prandium de pão, queijo e azeitonas. Priscila, preocupada, ainda aguardara pelo esposo até à primeira vigília da noite anterior, pois achava que já devia ter chegado, mas em vão. Dormira intranquila. Porque te atrasaste tanto? Tive umas reuniões imprevistas…, de última hora, respondeu, com o olhar distante. Não quis apoquentar a esposa com os acontecimentos da capital. Percebeu que o que interessava mesmo ao gordo Ithacio era encontrar um bom motivo para convencer o rico proprietário do norte a deixar umas moedas a mais por baixo da mesa. Não tenho recibo para lhe dar… O patrão saiu para as termas!, dissera-lhe o criado de Ithacio, sabedor dos artifícios do seu senhor, quando lhe apresentara a conta do imposto alegadamente em débito e que, tão certo como o destino, não iria parar aos exauridos cofres do imperador Constâncio.

Quando analisava a frio os acontecimentos durante a viagem, e aproveitando uma conversa descontraída com os servos, Lucídio achou que fora a melhor decisão. Muito embora não fosse devoto de Ísis, concluíra, como assegurou com Valéria logo à chegada, que tudo não passara do ancestral rito propiciatório de bonança tão costumeiro na Galécia. No caso, em favor do próprio filho! E que funcionou na plenitude, como lhe asseverou a experiente mulher, quando confidenciou: Ísis continua protectora e maternalmente ligada aos seus mais fervorosos adeptos! Os sacrifícios poderiam ser enquadrados, se uma mente maldosa e astuciosa os acusasse, na categoria de maleficium. Por isso, quando confrontado com a falsa nota fiscal, Lucídio preferiu não correr riscos e pagou o que o soberbo Ithacio lhe receitou. O caso ficaria por ali! O que sobrou daquele episódio e que continuava como um pingo de vinagre a azedar o coração de Lucídio foi não saber ao certo quem fora o apressado delator da visita de Priscila ao santuário de Ísis. O pai de Prisciliano arrumou interiormente a questão, conjecturando uma plausível vinda de um espião de Ithacio aos seus domínios em busca de informação que pudesse usar contra si, na extorsão. Mas estava enganado. Em Bracara Augusta, o cobrador de impostos celebrava com taças de vinho o pecúlio que habilmente surripiara a Lucídio.

Este caiu como um tordo!, dizia, ébrio e deitado sobre a mesa do triclinium, para o escravo de confiança, que o ajudava nos serviços sujos. Sim, não tinha escapatória… O crime de maleficium é o caminho certo para a desgraça. O homem ia morrendo de susto. Quanto não vale manter a rede de informadores! Uma informação, pequena ou incipiente que seja, pode valer uma fortuna! Aprendi em Roma, a grande escola do império. Vá, enche-me a taça e bebe também um trago! Fizeste um excelente serviço. Senhor, estou às suas ordens. Cumpro o que me manda! Na ampla sala de refeições da domus bracarense, embelezada de pinturas e mosaicos finos com desenhos de motivos florais, entrara o filho mais velho de Ithacio, que tinha o nome do pai. Ithacito, vem cá! O redondo rapaz, ainda de tenra idade, mas que era uma fiel imitação paterna na gula como na astúcia, aproximou-se. Sim, meu pai! Em que posso ajudar? Virando-se para o escravo, ordenou o senhor da casa: o meu filho vai contigo à basílica! Leva este donativo ao bispo, pois o que foi tirado a um rico idólatra não é pecado aos olhos de Deus. O bispo precisa de ajuda para as obras do templo e para engrandecer a comunidade cristã. E eu preciso de ficar bem visto». In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, A Escrita, Alberto S. Santos, Galiza,

terça-feira, 3 de agosto de 2021

O Segredo de Compostela. Alberto S. Santos. «A lava ainda lhe queimava os pés. Nunca dera oportunidade alguma para poder ser atacado por quem quer que fosse. Ele e a sua família eram gente séria e honesta e orgulhava-se disso»

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«(…) E, assim sentenciado, saiu da sala, alegando ter de mudar de roupa para ir a banhos, logo a seguir. Enquanto esperava que o escravo de Ithacio levasse a ordem de chamada a Flaviano e a Arménio, Lucídio espreitava a janela do seu mundo interior e o que via não lhe agradava minimamente. O chão continuava perigosamente a estremecer. A lava ainda lhe queimava os pés. Nunca dera oportunidade alguma para poder ser atacado por quem quer que fosse. Ele e a sua família eram gente séria e honesta e orgulhava-se disso. Eram apreciados pela generalidade da clientela de Villa Aseconia, fossem colonos, escravos e toda a espécie de criadagem, apenas Arménio parecia a excepção, que o patrão, não obstante, desconhecia, e por todos os prestigiados proprietários da Galécia, pelos membros do senado bracarense, pelo governador… Só os cristãos poderiam ter razões para desapreciarem Lucídio, pois menosprezavam todos os que se mantinham fiéis às tradições dos antepassados, fossem romanos de cepa, fossem os descendentes das tribos galaicas e lusitanas que habitavam o ocidente peninsular antes de chegar a civilização nascida nas margens do Tiberis. Aqui estão os teus homens!, informou Ithacio, que irrompeu sala adentro, embargando-lhe as cogitações. À tua disposição! Lucídio notou ironia e até uma pontada de desdém, sobretudo na forma como entoava as palavras e mirava o proprietário da villa do conventus lucensis. Logo saiu para os deixar a sós.

Meus caros, Ithacio insinua uma terrível acusação contra a minha família… Parou para escolher as palavras e tomou os rostos de Flaviano e de Arménio com firmeza, explicando o teor da denúncia. Os dois entreolharam-se. Mas logo o chão de mosaico se tornou o destino de todas as atenções. Era visível a perturbação que os apoquentava. O que se passa?! O que quer dizer o vosso silêncio…?! Senhor…, não sei do que falais…, começou Flaviano, intermitente. Do que vos expliquei! O assunto é sério! Tendes conhecimento de algum acto de magia negra, ou de algo semelhante, praticado por Priscila? O silêncio tapou de novo as bocas dos clientes de Lucídio. Os três homens ficaram, durante algum tempo, suspensos entre si, sem que nenhum quebrasse o mutismo. Formavam um triângulo, em cuja ponta do vértice mais agudo se encontrava o senhor, a ferver de desconfiança quanto à interpretação que podia dar a tão ruidoso vazio. Os dois criados posicionados nos vértices da base mais curta do trilátero experimentavam os dramas que a consciência de cada um era capaz de elaborar, como uma aranha que tece a teia, retirando do interior os fios em que haverá de renascer. Contudo, só um deles deu a conhecer os demónios que os atormentavam: senhor, começou, titubeante, a minha consciência cristã, porque nunca lhe escondi a minha crença, não me permite mentir ou omitir perante uma tão clara pergunta, que é do meu directo conhecimento… Arménio!, resmungou Flaviano. Então, o que aconteceu…!?, interrompeu Lucídio, com gotas de suor a escorrerem-lhe das têmporas, apesar da frescura do dia. O que me queres dizer?! Depende da perspectiva, mas talvez seja verdade, senhor, o que esse homem vos informou… Lucídio caiu na cadeira, como se houvesse sido fulminado por uma flecha, pelas costas». In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.

 Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, A Escrita, Alberto S. Santos, Galiza,

O Segredo de Compostela. Alberto S. Santos. «O cobrador de impostos sorria, com gosto, gozando antecipadamente o susto da visita. Vai com cuidado, amigo! A tua dilectíssima esposa é a responsável por isso!»

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«(…) Eram deidades universalistas que haviam sofrido e vencido a morte, que recordavam a fecundidade agrária, renovando todos os anos a vegetação, e sugeriam o renascimento, indo assim ao encontro de muitas das inquietações dos espíritos sedentos de uma nova verdade. Enquanto reflectia nestas questões, Lucídio constatava que o diálogo a que involuntariamente assistia terminara crispado, saindo o desconhecido disparado, de rosto apimentado e a respingar fúrias por todos os poros. Depois da sua alvíssima toga de linho ter deixado um torvelinho à saída, surgiu o roliço dono da casa, não menos arreliado do que aquele que acabava de sair.

Já cá estás e ninguém me avisou?!, questionou de supetão, com a saliva a borbulhar nos cantos dos lábios. Lamento não ter sido anunciado, Ithacio, respondeu Lucídio, com a melhor cortesia que conseguiu encontrar. Vamos, entra!, ordenou, com arquejante respiração. Já estou atrasado para as minhas termas, resolveu, apontando para uma cadeira, debaixo de um quadro de peixes pintado na parede. Então, qual é a urgência, Ithacio?! Pensei que tínhamos esclarecido tudo na última reunião… Sim, sim… Mas, como sabes, os impostos não me são destinados, pertencem ao império. Apenas cumpro as funções que o Estado romano me confia, respondeu, ainda rubicundo, sentando-se pesadamente no cadeirão. Não discordo, os impostos fazem falta à manutenção do Estado e bem sei que o esforço de guerra com os bárbaros cresce de dia para dia. Lucídio tossicou, aclarando a voz e respirando fundo para se aquietar. Mas apenas os impostos legais e devidos, Ithacio! Já nos bastam os que temos, e não são assim tão poucos! Sete sólidos de ouro por cada caput é uma magnânima contribuição para o império! Deixa-te de lamúrias e vamos directos ao que interessa! Mandei homens a Aseconia verificar os limites das tuas terras e parece que se confirmam. Então, qual é o problema?!, perguntou o convidado, olhando nos olhos de Ithacio. O anfitrião sorriu, mordaz. Relataram-me que não declaraste a totalidade da produção anual… Lucídio engoliu em seco. Considerava aquela afirmação um ultraje, uma autêntica infâmia. Como poderia aquele homem duvidar da sua palavra?! Procurou manter a calma dos aristocratas de boa cepa, escondendo o mais que pôde o remoinho que lhe virava as tripas do avesso. Não pode ser, Ithacio! As contas foram feitas na presença dos teus caesariani Não é o que me dizem…, contestou o anafado homem, com lentidão, como que procurando estudar o espírito e as reacções do dono da Villa Aseconia. Atestam que viram cereais que não estavam no lote e no local onde foram anteriormente medidos… Foi nesse preciso local que os teus fiscais os viram, colocados após a primeira contagem! Não podiam continuar sujeitos ao tempo… E já vês como está este Inverno! Não vou pagar nem mais um argenteolus, ou mesmo um mísero denarius de bronze que seja!, contestou Lucídio, furioso. O outro, com um estranho ar de caso, puxou o assento para junto de Lucídio, olhou para todos os lados e falou-lhe ao ouvido, num tom estudadamente baixo: ouve cá, isto é o que tinha inicialmente para te dizer. Mas acaba um passarinho de me soprar ao ouvido que os membros da tua querida família andam pelos montes a praticar magia… Magia?! Lucídio esbugalhou os olhos e o coração estremeceu. Sim, mas não uma magia qualquer! Ithacio recostou-se no seu lugar, fitando-o nos olhos. Magia negra!, afirmou, aumentando a voz e alongando as palavras. Sabes bem que esse é o crime que o nosso estimado imperador mais detesta! Mentira! Como és capaz de tão monstruosa insinuação?! Os teus delatores mais uma vez se enganaram!

O cobrador de impostos sorria, com gosto, gozando antecipadamente o susto da visita. Vai com cuidado, amigo! A tua dilectíssima esposa é a responsável por isso! A terra tremeu sob os pés de Lucídio. Como era possível, e com que fim, aquele homem acusar Priscila de tão grave delito?! E logo ela, coitada, tão atarefada com os preparos para o parto! Desviou os olhos para um recanto da sala ricamente pintada, onde se encontravam duas ânforas e peças de louça de cerâmica da mesma oficina africana que as de sua casa. O peito arfava, congestionado como os olhos. Recordou a imagem de Priscila e não duvidou uma fração de tempo que a amava e que não era a paixão que lhe toldava a razão. Aquele homem não podia dizer a verdade! Mirou-o de novo. A gula reluzia nas bochechas de Ithacio, agora lustradas pelo rubor da soberba. Impotente, amaldiçoou-o e à sua malvadez. Até que, no meio do vórtice do vulcão onde se via, pressentiu uma energia interior que o ajudava a fugir da lava que o afogueava. Lembrou-se dos dois homens da sua clientela que se encontravam na domus para o levarem para Aseconia. Talvez o pudessem ajudar a esclarecer a maldita acusação. Posso chamar aqui os meus criados que acabaram de chegar a Bracara? O redondo homem remexeu-se no cadeirão, repuxou-o para o lugar inicial, semicerrou os olhos e anuiu com a cabeça, para logo sublinhar: podes, claro que sim! Espero que sejam úteis às tuas decisões…» In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, A Escrita, Alberto S. Santos, Galiza,

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Alberto S. Santos. O Segredo de Compostela. «Prisciliano, na inocência da infância e do mundo perfeito da villa, procurou compreender os ensinamentos do pedagogo, enquanto o ouvia discorrer sobre a forma como estava organizado o império»

 

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«(…) Esta foi a primeira lição que Prisciliano aprendeu quando o pai trouxe para a Villa Aseconia um pedagogo para providenciar a sua instrução. Até então, o próprio Lucídio se encarregara de o formar com o que julgava mais adequado, embora o petiz apreciasse bem mais as fantásticas histórias que Valéria lhe contava sobre a Galécia. Como vês, se gostas da tua cabeça em cima dos ombros e pretendes viver muito tempo, não queiras ser imperador, brincava o jovem mestre de Prisciliano, para ganhar a sua confiança. O rapaz ria-se e deitava-se a adivinhar que imperador seria o próximo a perder a cabeça. E outra coisa: quando um imperador morre às mãos de outro, o mal não chega só para quem perde a vida! Como assim, magister? É penalizada a família, os amigos e, se o poder for tomado por usurpação, os mais próximos colaboradores do antigo imperador. Eaté mesmo aqueles a quem as suas decisões, por alguma forma, beneficiaram podem perder a cabeça ou, pelo menos, o prestígio.

Prisciliano, na inocência da infância e do mundo perfeito da villa, procurou compreender os ensinamentos do pedagogo, enquanto o ouvia discorrer sobre a forma como estava organizado o império, apontando para um desenho feito num papiro. O Império Romano divide-se em quatro prefeituras, governadas pelos prefeitos do pretório: o Oriente, o Ilírico, a Itália e as Gálias, que é a nossa. Roma e Constantinopla são um caso à parte, cada uma com os seus exclusivos prefeitos. Estas prefeituras dividem-se, por sua vez, em dioceses. A das Gálias é composta pela Britânia, pela Gália e pela Hispânia, governadas por um vigário do prefeito. Por sua vez, cada diocese é dividida em províncias, cada uma com o seu governador. Diz lá então quais são as províncias da Hispânia, Prisciliano? Mas a cabeça do petiz viajava por outras paragens. O pai já lhe havia explicado a geografia e a divisão do império. Por isso, o seu pensamento pousara na procissão mágica em que participara, pela primeira vez, no dia anterior. O progenitor comandou, à frente, de mão dada com Prisciliano. Atrás de ambos, uma grossa coluna de colonos e escravos. Todos percorriam, a pé e completamente descalços, os limites dos campos de cultivo, com archotes na mão, proferindo os ritos propiciatórios da fecundidade da terra. O petiz apertava a mão do pai, impressionado com a experiência. Seguia encantado com a exuberância da procissão, pois sabia, isso era certo desde incontáveis gerações, que aqueles ritos afastariam o granizo, as geadas e as tempestades. Daquela forma, o pequeno Danígico experimentava a emoção de se ver intimamente ligado à sua linhagem. Imaginava-se um pequeno aprendiz de feiticeiro, dos que sabiam dominar os elementos nocivos à vida e à fertilidade das terras da família.

Prisciliano!, gritou o pedagogo, com ar sério e reprovador. Onde está a tua cabeça?! Em cima dos ombros, magister! Onde haveria de estar?! Não sou nenhum imperador… O professor desmanchou-se num riso incontrolável. O pequeno surpreendeu-se com a repentina mudança de humores e perguntou: de que te ris, Pacato? Ó Prisco, eu perguntava-te se sabias quais são as províncias da Hispânia… Prisciliano percebeu então que a cabeça, mesmo em cima dos ombros, também podia viajar através da imaginação, por montes e vales, espaços próximos e longínquos, mundos mágicos e reais, sem que o corpo, ou quem lhe estiver à frente, disso se apercebesse. E, a qualquer momento, poderiam voltar a reunir-se, como o faziam agora, respondendo com um aberto sorriso: Tarraconense, Cartaginense, Bética, Lusitânia e a nossa querida província: a Galécia! Muito bem! E em quantos conventos se divide a Galécia? Essa é muito fácil: o asturicence, o lucense, onde residimos, e o bracarense, onde se encontra Bracara Augusta, a capital do convento e de toda a Galécia.

Naquela noite, o jovem discípulo dormiu mal. As lições do pedagogo e as recentes vivências nos pagi da villa transportaram-no para novas aventuras oníricas, sonhando com intermináveis viagens por cidades, vici, castela e villae do império, e com um imperador que usurpou o poder, mandou cortar cabeças e perdeu a sua depois de causar tanta desgraça ao mundo presente e futuro». In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, A Escrita, Alberto S. Santos, Galiza,

sábado, 18 de julho de 2020

A Rosa dos Ventos. Materiais para uma Opereta sem Música. Gonzalo Torrente. «Eu creio que, em alguns anos, entre Fritz e eu, foram estudadas todas as contendas imagináveis e previsíveis, tanto gerais como locais…»

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«(…) A família dele foi das mais leais à minha e, sobretudo, ao trono, entre outras razões porque, em caso de extinção do nosso sangue, a dele tinha direitos de sucessão reconhecidos num monte de documentos que existiam em duplicado, no arquivo da coroa e no da família Cronstadt. A razão pela qual se chamava assim prende-se com o facto de, nos tempos calamitosos do usurpador Eginardo, eles terem ido para a Rússia e nós para a França; eles serviram a Pedro e nós a Luís; eles ganharam honras e nós quase perdemos a nossa. Se a minha família recuperou, por fim, o trono e a honra, isso deveu-se à ajuda de Cronstadt e não à de nenhum Luís nem à de nenhum Pedro. O que não deixou de ser curioso, isso sim, foi que um tio bisavô de Fritz e um tio bisavô meu se digladiaram pelo amor de Catarina da Rússia e não sei qual deles matou o outro com um tiro. Mas isto aconteceu quando as coisas haviam voltado à normalidade e nós ao trono: assunto de segundões aventureiros e, neste caso, mulherengos. Ambas as famílias se envaidecem de que um dos seus membros tenha ocupado um lugar activo no imenso e superpovoado leito de Catarina; mesmo tratando-se dessa dama, activo será uma mera hipérbole de narrador. Sempre, entre mim e Fritz se tratou desse tema com cortesia e total desprendimento: o que dormiu com Catarina foi o teu tio. Não, Ferdinando, deveras. Estou em condições de assegurar que quem matou foi o teu.
Era muito frequente, naquela época que, quando em alguma corte estrangeira, em alguma estância balnear da moda ou no Casino de Monte Carlo alguém falava mal de mim, depois de me insultar do pior, se acrescentasse: esse idiota do Ferdinando, que não tem mais do que quarenta e nove soldados, apesar de ter, também, uns trezentos oficiais inúteis, dedica-se a brincar às guerras como se fosse o conquistador da Europa, o que era, só em parte, uma calúnia: num dos salões mais amplos do meu palácio, tínhamos reproduzido, em tamanho gigante e em relevo, o mapa da Europa e dos países adjacentes, tendo em conta a velha teoria da tenaz que, então, ainda o era: com todos os pormenores que podiam interessar ao estratega ou servir de referência ao táctico. Tínhamos à vista grandes cartazes com os números dos efectivos militares de todos os países, tanto de mar como de terra, e uma informação fidedigna que nos permitia corrigir números e rectificar posições; tínhamos à mão milhares de soldadinhos de chumbo de todas as armas e de todos os uniformes, que ocupavam posições, as defendiam ou as abandonavam; que formavam frentes de combate e rectaguardas, alas e centros nas grandes batalhas; que marchavam derrotados ou vitoriosos ao longo dos extensos caminhos. Às dez da manhã, todos os dias, Fritz e eu punhamo-nos a jogar: bombardeava a artilharia, carregava a cavalaria, avançava a infantaria, ou vice-versa, segundo de quem se tratasse e, também, segundo a operação que tivesse sido concebida. Eu creio que, em alguns anos, entre Fritz e eu, foram estudadas todas as contendas imagináveis e previsíveis, tanto gerais como locais, com os pormenores das operações e as causas da vitória e da derrota friamente estudadas. Como podiam surpreender-me as etapas prévias da guerra da Águia do Leste com a França, se Fritz me tinha ganho (com grande dor do meu coração, porque prefiro a França)?
Depois, todas as semanas, Fritz redigia um relatório, que eu guardava no meu arquivo mas que, copiado secretamente, chegava às mãos do meu primo, o Águia, pela mala diplomática; tinha-me obrigado àquela despesa e àquele jogo ao inteirar-se de que Fritz, conde ou barão de Cronstadt (agora não me recordo bem), era o melhor estratega do mundo.
O pobre Fritz, cada vez que o meu primo ganhava uma dessas guerras menores que precederam as outras duas verdadeiramente importantes a que deve o seu poder, perguntava-se, angustiado: quem será o oficial do Estado-maior que sabe tanto como eu e que sabe, além disso, o mesmo? Não deixa de ser possível, Fritz, que não seja um oficial do Estado-maior, mas apenas um jornalista. Doravante há que contar com os jornais: costumam saber tanto como os Estados-maiores e, para mais, de outra maneira. Só há um modo de saber a estratégia, e esse homem sabe-a. E não será esse génio quem ele tem destinado para marido da minha filha? Alguém me disse agora que está no estado-maior.
Não me fales dele, Ferdinando! Se esse velhaco soubesse o que eu sei, eu dedicava-me à literatura. Não deixa de ser curioso e um pouco triste que, quando o Águia me destronou, as suas cem aguiazitas entraram no meu país, ornamentadas de belas plumas, viesse à frente delas, como creio ter dito e se ainda não o disse, digo-o agora), Raniero, meu presumível genro. Ninguém se opôs às plumas, talvez porque estivessem reforçadas com espingardas e canhões; mas Fritz opôs-se ao meu genro, sem outra arma que não fosse a sua coragem, sem mais do que um sabre. Pobre estratega! Foi na escadaria do palácio, Fritz ia para cima, e o meu genro vinha para baixo. Tinha que ser vencido Fritz, segundo as suas próprias convicções». In Gonzalo Torrent, La Rosa de los vientos, A Rosa dos Ventos, Materiais para uma Opereta sem Música, Difel, Linda-a-Velha, 1995, ISBN 972-29-0326-8.

Cortesia de Difel/JDACT

terça-feira, 17 de março de 2020

O Segredo de Compostela. Alberto S. Santos. «O silêncio tapou de novo as bocas dos clientes de Lucídio. Os três homens ficaram, durante algum tempo, suspensos entre si, sem que nenhum quebrasse o mutismo»

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«(…) O redondo homem remexeu-se no cadeirão, repuxou-o para o lugar inicial, semicerrou os olhos e anuiu com a cabeça, para logo sublinhar: podes, claro que sim! Espero que sejam úteis às tuas decisões… E, assim sentenciado, saiu da sala, alegando ter de mudar de roupa para ir a banhos, logo a seguir. Enquanto esperava que o escravo de Ithacio levasse a ordem de chamada a Flaviano e a Arménio, Lucídio espreitava a janela do seu mundo interior e o que via não lhe agradava minimamente. O chão continuava perigosamente a estremecer. A lava ainda lhe queimava os pés. Nunca dera oportunidade alguma para poder ser atacado por quem quer que fosse. Ele e a sua família eram gente séria e honesta e orgulhava-se disso. Eram apreciados pela generalidade da clientela de Villa Aseconia, fossem colonos, escravos e toda a espécie de criadagem, apenas Arménio parecia a excepção, que o patrão, não obstante, desconhecia, e por todos os prestigiados proprietários da Galécia, pelos membros do senado bracarense, pelo governador… Só os cristãos poderiam ter razões para desapreciarem Lucídio, pois menosprezavam todos os que se mantinham fiéis às tradições dos antepassados, fossem romanos de cepa, fossem os descendentes das tribos galaicas e lusitanas que habitavam o ocidente peninsular antes de chegar a civilização nascida nas margens do Tiberis.

Aqui estão os teus homens!, informou Ithacio, que irrompeu sala adentro, embargando-lhe as cogitações. À tua disposição! Lucídio notou ironia e até uma pontada de desdém, sobretudo na forma como entoava as palavras e mirava o proprietário da villa do conventus lucensis. Logo saiu para os deixar a sós. Meus caros, Ithacio insinua uma terrível acusação contra a minha família… Parou para escolher as palavras e tomou os rostos de Flaviano e de Arménio com firmeza, explicando o teor da denúncia. Os dois entreolharam-se. Mas logo o chão de mosaico se tornou o destino de todas as atenções. Era visível a perturbação que os apoquentava. O que se passa?! O que quer dizer o vosso silêncio…?! Senhor…, não sei do que falais…, começou Flaviano, intermitente. Do que vos expliquei! O assunto é sério! Tendes conhecimento de algum acto de magia negra, ou de algo semelhante, praticado por Priscila?
O silêncio tapou de novo as bocas dos clientes de Lucídio. Os três homens ficaram, durante algum tempo, suspensos entre si, sem que nenhum quebrasse o mutismo. Formavam um triângulo, em cuja ponta do vértice mais agudo se encontrava o senhor, a ferver de desconfiança quanto à interpretação que podia dar a tão ruidoso vazio. Os dois criados posicionados nos vértices da base mais curta do trilátero experimentavam os dramas que a consciência de cada um era capaz de elaborar, como uma aranha que tece a teia, retirando do interior os fios em que haverá de renascer. Contudo, só um deles deu a conhecer os demónios que os atormentavam: senhor, começou, titubeante, a minha consciência cristã, porque nunca lhe escondi a minha crença, não me permite mentir ou omitir perante uma tão clara pergunta, que é do meu directo conhecimento…
Arménio!, resmungou Flaviano. Então, o que aconteceu…!?, interrompeu Lucídio, com gotas de suor a escorrerem-lhe das têmporas, apesar da frescura do dia. O que me queres dizer?! Depende da perspectiva, mas talvez seja verdade, senhor, o que esse homem vos informou… Lucídio caiu na cadeira, como se houvesse sido fulminado por uma flecha, pelas costas

Aseconia (Santiago de Compostela)
Bracara Augusta (Braga)
Toma o pequeno Prisciliano! É o teu filho!
Priscila estendia as mãos para o esposo, sobre as quais repousava uma criança de olhos abertos e rosto sereno. Lucídio segurou-a, desajeitado, mas o mais delicadamente que pode. Afastou ligeiramente os panos coloridos e ficou a contemplar o bebé, como se o tempo tivesse parado. Então, Lucídio?!, acordou-o Priscila, com uma ponta de inquietação». In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.
                                                   
Cortesia de PEditora/JDACT

sábado, 21 de dezembro de 2019

O Segredo de Compostela. Alberto S. Santos. «Vamos, entra!, ordenou, com arquejante respiração. Já estou atrasado para as minhas termas, resolveu, apontando para uma cadeira, debaixo de um quadro de peixes pintado na parede»

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«(…) Eram deidades universalistas que haviam sofrido e vencido a morte, que recordavam a fecundidade agrária, renovando todos os anos a vegetação, e sugeriam o renascimento, indo assim ao encontro de muitas das inquietações dos espíritos sedentos de uma nova verdade. Enquanto reflectia nestas questões, Lucídio constatava que o diálogo a que involuntariamente assistia terminara crispado, saindo o desconhecido disparado, de rosto apimentado e a respingar fúrias por todos os poros. Depois da sua alvíssima toga de linho ter deixado um torvelinho à saída, surgiu o roliço dono da casa, não menos arreliado do que aquele que acabava de sair. Já cá estás e ninguém me avisou?!, questionou de supetão, com a saliva a borbulhar nos cantos dos lábios. Lamento não ter sido anunciado, Ithacio, respondeu Lucídio, com a melhor cortesia que conseguiu encontrar.
Vamos, entra!, ordenou, com arquejante respiração. Já estou atrasado para as minhas termas, resolveu, apontando para uma cadeira, debaixo de um quadro de peixes pintado na parede. Então, qual é a urgência, Ithacio?! Pensei que tínhamos esclarecido tudo na última reunião… Sim, sim… Mas, como sabes, os impostos não me são destinados, pertencem ao império. Apenas cumpro as funções que o Estado romano me confia, respondeu, ainda rubicundo, sentando-se pesadamente no cadeirão. Não discordo, os impostos fazem falta à manutenção do Estado e bem sei que o esforço de guerra com os bárbaros cresce de dia para dia. Lucídio tossicou, aclarando a voz e respirando fundo para se aquietar. Mas apenas os impostos legais e devidos, Ithacio! Já nos bastam os que temos, e não são assim tão poucos! Sete sólidos de ouro por cada caput é uma magnânima contribuição para o império! Deixa-te de lamúrias e vamos directos ao que interessa! Mandei homens a Aseconia verificar os limites das tuas terras e parece que se confirmam. Então, qual é o problema?!, perguntou o convidado, olhando nos olhos de Ithacio. O anfitrião sorriu, mordaz. Relataram-me que não declaraste a totalidade da produção anual… Lucídio engoliu em seco. Considerava aquela afirmação um ultraje, uma autêntica infâmia. Como poderia aquele homem duvidar da sua palavra?! Procurou manter a calma dos aristocratas de boa cepa, escondendo o mais que pôde o remoinho que lhe virava as tripas do avesso.
Não pode ser, Ithacio! As contas foram feitas na presença dos teus caesariani Não é o que me dizem…, contestou o anafado homem, com lentidão, como que procurando estudar o espírito e as reacções do dono da Villa Aseconia. Atestam que viram cereais que não estavam no lote e no local onde foram anteriormente medidos… Foi nesse preciso local que os teus fiscais os viram, colocados após a primeira contagem! Não podiam continuar sujeitos ao tempo… E já vês como está este Inverno! Não vou pagar nem mais um argenteolus, ou mesmo um mísero denarius de bronze que seja!, contestou Lucídio, furioso.
O outro, com um estranho ar de caso, puxou o assento para junto de Lucídio, olhou para todos os lados e falou-lhe ao ouvido, num tom estudadamente baixo: ouve cá, isto é o que tinha inicialmente para te dizer. Mas acaba um passarinho de me soprar ao ouvido que os membros da tua querida família andam pelos montes a praticar magia… Magia?! Lucídio esbugalhou os olhos e o coração estremeceu. Sim, mas não uma magia qualquer! Ithacio recostou-se no seu lugar, fitando-o nos olhos. Magia negra!, afirmou, aumentando a voz e alongando as palavras. Sabes bem que esse é o crime que o nosso estimado imperador mais detesta! Mentira! Como és capaz de tão monstruosa insinuação?! Os teus delatores mais uma vez se enganaram!
O cobrador de impostos sorria, com gosto, gozando antecipadamente o susto da visita. Vai com cuidado, amigo! A tua diletíssima esposa é a responsável por isso! A terra tremeu sob os pés de Lucídio. Como era possível, e com que fim, aquele homem acusar Priscila de tão grave delito?! E logo ela, coitada, tão atarefada com os preparos para o parto! Desviou os olhos para um recanto da sala ricamente pintada, onde se encontravam duas ânforas e peças de louça de cerâmica da mesma oficina africana que as de sua casa. O peito arfava, congestionado como os olhos. Recordou a imagem de Priscila e não duvidou uma fracção de tempo que a amava e que não era a paixão que lhe toldava a razão. Aquele homem não podia dizer a verdade! Mirou-o de novo. A gula reluzia nas bochechas de Ithacio, agora lustradas pelo rubor da soberba. Impotente, amaldiçoou-o e à sua malvadez. Até que, no meio do vórtice do vulcão onde se via, pressentiu uma energia interior que o ajudava a fugir da lava que o afogueava. Lembrou-se dos dois homens da sua clientela que se encontravam na domus para o levarem para Aseconia. Talvez o pudessem ajudar a esclarecer a maldita acusação. Posso chamar aqui os meus criados que acabaram de chegar a Bracara?» In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.
                                                   
Cortesia de PEditora/JDACT

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

A Rosa dos Ventos. Materiais para uma Opereta sem Música. Gonzalo Torrente. «… pressagiam alterações e prodígios, são como os rumores da terra que precedem o terramoto, segundo dizem, eu nunca os vi nem os ouvi»

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«(…) O que vos quero dizer, porque o descobri, é que o mundo dos vossos mortos está alterado, estão inquietos e celebram assembleias e todo o tipo de reuniões, mas ignoro ainda por que motivos e com que fim. Há dois meses que venho escutando as tumbas dos vossos antepassados, tanto os sepulcros novos das catedrais como os velhos e vazios do destruído Mosteiro de Santo Mauro e posso assegurar-vos que, na sua inquietação de mortos sérios, se remexem que, através do silêncio e da distância, se falam, há vozes que se ouvem como colóquios remotos e não se pode entender o que dizem, de tão distantes, de tão fundo. As vozes dos mortos pressagiam alterações e prodígios, são como os rumores da terra que precedem o terramoto, segundo dizem, eu nunca os vi nem os ouvi.
Sereníssima Alteza, sonhei que a Torre de Menagem caía e recobrava em seguida o seu aprumo e sonhei que um barco se afundava e emergia meia milha mais adiante, sem que parecesse ter-se afogado ninguém da tripulação, sem que os guardas da Torre tenham sofrido qualquer dano. São avisos, senhor, estes sonhos, não sei se do Inferno, isso não está esclarecido. Sereníssima Alteza, isto não é tudo, é só o princípio. O mundo da Verdade dormia. Agora, de repente, desperta e estes são alguns sintomas. Porque será, senhor? Os avisos que meu avô revelou ao vosso precederam a chegada de Napoleão. Que anunciam agora as vozes, as sacudidelas, os alvoroços dos mortos? Espero que, daqui a algum tempo, ambos cheguemos a sabê-lo. Vesti a horrorosa sobrecasaca cor de tabaco para assistir no domingo aos ofícios: de bom grado lhe teria acrescentado um cartaz nas costas no qual, com letras bem visíveis, teria escrito:

Para mim não é segredo, meu amigo.
O que vai acontecer é que o meu primo me vai derrubar do trono, nem mais, nem menos.

Não seria decoroso, ainda que conveniente. Quanto à sobrecasaca, vesti-a, contudo, porque, assim, o misterioso informador ia-me mantendo a par de todos os prodígios que via por sua conta e deixava-me tempo livre para as minhas vulgaridades. Admirável servidor, espelho de súbditos leais e de videntes! Foi pena a sua insistência no anonimato. Foi assim que fiquei a saber, quando ainda era grão-duque, das cavalgadas nocturnas dos meus mortos. Agora que estou destronado, vejo os que regressam do mar. E falarei deles.

Será conveniente que apresente, também, ao comandante dos meus exércitos, o meu amigo Fritz, barão de Cronstadt por concessão do czar Pedro I a um antepassado seu. Não sei qual dos meus avós autorizou a família dele a usar o título no meu país. Em sociedade, chamavam-lhe Cronstadt; no quartel, comandante; no meu palácio, simplesmente, Fritz». In Gonzalo Torrent, La Rosa de los vientos, A Rosa dos Ventos, Materiais para uma Opereta sem Música, Difel, Linda-a-Velha, 1995, ISBN 972-29-0326-8.

Cortesia de Difel/JDACT

sábado, 17 de agosto de 2019

O Segredo de Compostela. Alberto S. Santos. «Vá, Arménio… Cuidado com a língua! Não viste que até os elementos lhe obedecem… Do que estás a falar é de outra coisa, meu caro…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Enquanto Flaviano e Arménio esperavam à entrada do templo, maldizendo as condições climatéricas e garantindo a segurança das mulheres que trouxeram até Iria Flavia, Priscila dobrou o umbral da porta, com muito custo, devido ao cansaço da viagem e à indisfarçável debilidade. Mas isso não a impedia de prosseguir de cabeça erguida e pose seráfica, a par do sacerdote, que a protegia da chuva, e já inteirado da razão da imprevista visita. Valéria seguia atrás, transportando o que precisava para o culto. O resto seria ali comprado, pois que também era necessário contribuir para o sustento do sacerdote e do próprio santuário, que os tempos iam difíceis. Chegada ao altar, depois de um prolongado momento de reflexão, Priscila ergueu os braços aos céus e, de pé, murmurou a ladainha que lhe saiu do coração:

Ó Senhora, tu que vês e atendes a quem te invoca com toda a boa-fé,
A fé dos nossos antepassados e dos vindouros,
Dos que no teu colo encontraram a cura para todos os males,
Consolo para todas as tristezas,
E que assim será para todo o sempre!
Acode-me e protege-me nesta hora!

Ó deusa da simplicidade, ó protectora dos mortos,
Ó deusa das crianças de quem todos os começos surgiram,
Ó Senhora dos eventos mágicos e da natureza!
Tu que deste origem ao Céu e à Terra,
Que conheces o órfão e a viúva,
Que providencias justiça aos pobres
E que dás abrigo aos frágeis!
Rainha dos Céus,
Acode-me e protege-me nesta hora!

Mãe dos deuses,
Que resplandeces em mil caras,
Em quem habitam todos os nomes,
Esposa que choras a morte do teu próprio esposo,
Senhora das culturas verdejantes,
Senhora da Casa que dá a Vida,
Doadora da Luz do Céu,
Em ti confio a vida e a saúde daquele que gerei!

Em pungente silêncio, acendeu uma lâmpada de azeite e colocou-a delicadamente sobre o altar, derramando uma pitada de incenso junto a uma vela que se consumia em chamas de eternidade. Deitou uma moeda no poço que se abria sobre o lado esquerdo e voltou ao silêncio das orações. O sacerdote, retirado para um compartimento do santuário, atrás do altar, aproximou-se de Priscila e murmurou-lhe ao ouvido: está tudo pronto! As duas mulheres seguiram o homem de túnica verde, muito coçada pelo uso, para a dependência de onde saíra. Nos quatro recantos, ardiam velas e queimavam-se as essências orientais apropriadas ao culto. Ali se consumaria a oblação final, a que ninguém mais poderia assistir.
Valéria tirou do saco um robusto galo negro nascido e engordado na villa, com o bico bem amarrado por fios de fiteira. O sacerdote cortou-os, com delicadeza. O bicho cacarejou, aliviado. Mas foi por tempo curto, pois, num único golpe, uma lâmina sacrificial atravessou-lhe o pescoço, dando apenas tempo a alguns rápidos espasmos do corpo sem cabeça que o comandasse. O sangue encheu de vermelho o bacio preparado para a imolação. Talvez o súbito desaparecimento das mulheres tivesse inquietado os homens que as protegiam, pois Valéria entreviu os olhos dos acompanhantes a surgirem e logo desaparecerem na porta da entrada do compartimento. E quando os dois homens regressaram à luz do dia certamente ter-se-ão espantado com o milagre que acabara de suceder: a chuva parara, depois de dias a fio de tormenta. O vento que soprava do tenebroso mar, fronteira da terra que ali acabava, desvaneceu-se como que por encanto divino. Parece que a velha deusa continua poderosa! Cala-te, Flaviano! São superstições, idolatria, que tanto mal fazem a Deus…
Vá, Arménio… Cuidado com a língua! Não viste que até os elementos lhe obedecem… Do que estás a falar é de outra coisa, meu caro… De outra coisa?! Arménio virou a face para o sul, para onde as nuvens negras corriam para tão cedo não voltarem. Apenas faziam verter dentro de si bátegas de raiva. Foi magia… A poderosa magia negra fez o que acabaste de assistir! Flaviano olhou para todos os lados e encostou o indicador em riste ao nariz, antes de pronunciar as últimas palavras, pois os três vultos saíam, aliviados e sorridentes, do templo de pedra. Cala-te com essa conversa! Senão, serei eu a tomar as medidas…» In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.

Cortesia de PEditora/JDACT

terça-feira, 4 de junho de 2019

A Ilha dos Jacintos Cortados. Cartas de amor com interpolações mágicas. Gonzalo Ballester. «Se o senhor não se importa, preferia contemplar um acontecimento bastante mais modesto»

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«(…) Não há memória de que tal multidão se haja alguma vez reunido, nem de que os mesmos actos se tenham repetido mais vezes do que aquelas que eu, no pouco que olhava, podia ver, pois tudo era nascer, comer, reproduzir-se e morrer, e nenhum outro acontecimento se destacava, uma batalha ou uma festa. certamente que as havia, umas e outras, mas o conjunto incalculável da humanidade comia-as, e tudo parecia igual, monótono e informe. Interessa-lhe algum acontecimento especial, algo verdadeiramente extraordinário? Porque ali pode ver como estão a abrir o ventre à mãe de César, e, um pouco mais abaixo, como o mesmo César, algo mais velho, claro, cai sob os punhais conjurados e cobre a cabeça com o manto. E claro que, se lhe interessa ouvir Marco António, verá que as suas palavras verdadeiras foram um pouco menos bonitas que as que Shakespeare lhe atribui, e não tão bem declamadas como as que Marlon Brando diz; nesse caso, respondi-lhe, prefiro continuar a ler Shakespeare. Gostaria de assistir à estreia de Júlio César no Globe? Ali vemos Londres perfeitamente...
Se o senhor não se importa, preferia contemplar um acontecimento bastante mais modesto. Aconteceu numa aldeia galega, ribeira de uma rua, há um pouco mais de meio século: exactamente no dia treze de Junho de 1910. Nessa altura nasceu um menino, e eu gostaria de assistir... Não quero dizer ao parto, naturalmente: segundo os meus preconceitos, não seria bem visto que eu estivesse presente como espectador do meu próprio nascimento, pelo facto de ser a minha mãe quem grita. Pareceu-me que Cagliostro me olhava com benevolência sorridente; de qualquer forma tive perante mim a casa onde nasci, a sala dessa casa, a alcova da minha avó, onde acabavam de deitar a minha mãe. Era um dia muito bonito, o meu pai contemplava-o, ou fingia que o fazia, pois estava nervoso, conforme mostravam os pés inquietos e os cigarros que ia fumando. As mulheres entravam e saíam, na sala e na alcova, e ouviam-se como que gemidos distantes ou reprimidos. Perguntou-me Cagliostro se eu desejava esperar que aquilo terminasse, dado que duraria seguramente algumas horas; eu respondi que não, que o desenlace me bastava, e então mostrou-me como saíam c6m um recém-nascido do quarto bem envolto nas suas fraldas, já lavado, e o mostravam ao meu pai. O meu pai não sabia o que fazer. Dá-lhe um beijo, homem!, disse-lhe a que me trazia nos braços, provavelmente uma das minhas tias. E o meu pai beijou-me, então.
Esta visão escassamente duradoura, nada grandiosa, embora indubitável; a percepção insólita de acontecimentos e de pessoas que se estendiam como num deserto imenso (esse deserto é, seguramente, a Mente em que se realizam); a convicção de ser maciça e de vulto aquela gente e de que todos respiravam, fizeram com que eu levasse a sério e recebesse como verdade o que o Grande Copta me mostrava, e tive então a ideia de lhe pedir que me ilustrasse acerca de Napoleão, de quem provavelmente tinha sido contemporâneo, ou cuja época tinha atravessado, como quem desde os tempos de O Colar da Rainha chegou até aqui; ao que desatou a rir, e me disse que, se eu tivesse interesse, um interesse razoável e discreto, me ajudaria a averiguar por mim próprio, embora noutra ocasião. Não sei porquê, Ariadne, interpretei aquele riso como a corroboração, como um testemunho excepcional de que Claire anda na verdade, porque se não significa que Napoleão nunca existiu, é preciso tomá-lo como a asserção convencida de que nenhum de nós existe: foi, sem dúvida, o riso que nega a realidade de tudo, e este é ainda o momento em que, se o recordo, algo treme e se arrepia no meu interior». In Gonzalo Torrente Ballester, L Isla de los Jacintos Cortados, Ediciones Destino, 1980, A Ilha dos Jacintos Cortados, Cartas de amor com interpolações mágicas, Relógio d’Água, 1994, ISBN-972-708-232-7.
                                                                                                                                
Cortesia de Relógio d’Água/JDACT

segunda-feira, 3 de junho de 2019

A Rosa dos Ventos. Materiais para uma Opereta sem Música. Gonzalo Torrente. «O tampo do piano é tão brilhante, senhor, que dá gosto mirarmo-nos nele! Sabe que estava lá a minha irmã Cósima? Não me ligou nenhuma, de modo que pude observá-la…»

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«(…) Quando Myriam estava quase a cumprir dezasseis anos, escrevi a sua tia, à condessa Prisciliana, convidando-a a passar uma temporada connosco e, na noite da sua chegada, depois de as princesas se terem retirado, combinei com ela a melhor maneira de comunicar a Myriam quem era o seu pai; não um pobre grão-duque sempre ameaçado pelas baionetas do Águia mas, sim, um homem famoso em toda a Europa que, apesar de ter que se acolher à benevolência dos grandes, sabia que o seu nome era ainda maior, cimentado numa obra imarcescível e não numa biografia discutível. Não pude evitar que a rapariga goste de mim, porque esse foi o desejo de sua mãe mas, como também a eduquei no sentido do dever e na fortaleza de ânimo, julgo que, se não puseres demasiado dramatismo na revelação, a menina receberá o seu presente de aniversário com serenidade e sem derramar uma lágrima, ainda que talvez não com alegria. Podes também dizer-lhe que, se desejar conhecer o pai, eu estou disposto a pagar-lhe uma viagem até Weimar, que é onde Liszt vive agora, e a ti também, se quiseres acompanhá-la. Da têmpera que demonstrou Myriam haveria muito a dizer se fosse coisa que se divulgasse mas convém não esquecer que, de certo modo, apesar de seu pai ser famoso e da sua mãe ser uma princesa reinante, a história da sua origem deveria ser, para todos, um segredo de alcova. No próprio dia do seu aniversário, quando todos se haviam retirado, incluindo a tia Prisciliana, que abusava do café e da palavra e não havia quem a mandasse para a cama, apareceu Myriam, sentou-se ao meu lado, esteve silenciosa uns minutos e disse-me, depois: senhor, quero comunicar-lhe que hoje é o dia mais infeliz da minha vida. E eu respondi-lhe: o facto de saberes o que sabes não muda nada entre nós.
Eu creio que muda, senhor, ainda que, de momento, talvez mude pouco. O meu propósito é renunciar a esta situação falsa de princesa feliz e independentizar-me paulatinamente. Como sei que Vossa Alteza me ama, não deixarei de o consultar acerca das minhas determinações. Mas peço-lhe que compreenda que a minha obrigação é separar-me. Queres conhecer teu Pai? É, provavelmente, a minha obrigação; não creio que seja o meu gosto. É a primeira coisa sobre a qual quero consultar-vos. Vai a Weimar. No regresso da viagem só me comentou: o meu pai, senhor, é um homem admirável, apesar de muito preocupado com a salvação da sua alma porque, ao beijar-me a fronte, me disse que eu era o seu pecado, quando sei que tem pelo menos outros três. A tia Priscilíana desatou a rir e chamou-me hipócrita. Mas o meu pai não se riu e vi-me numa situação tão violenta que, para se notar menos a minha presença, me pus a meter o nariz por aquelas bandas. Meu pai vive numa casinha com um grande salão, com um grande piano e muitas fotografias. São todas de duquesas, de princesas, de imperatrizes e algumas de reis.
O tampo do piano é tão brilhante, senhor, que dá gosto mirarmo-nos nele! Sabe que estava lá a minha irmã Cósima? Não me ligou nenhuma, de modo que pude observá-la: é feia e dura, não gostei dela. Também parece preocupar-se muito com a salvação da alma do meu pai, mas pergunto-me como irá fazê-lo rodeado de tantas mulheres belas e tantas recordações más. A propósito, senhor, o retrato de minha mãe não está naquele harém. Creio que foi na época do regresso de Myriam, ou muito pouco tempo depois, que recebi o primeiro relatório do Incansável Observador do Mistério. Poderia ter averiguado, mas não o fiz, quem era aquele sujeito que durante um certo tempo me enviou, com regularidade, as notícias de tudo o que de extraordinário e maravilhoso acontecia nas terras do grão-ducado mas, principalmente, na sua capital. A sua releitura faz-me, com frequência, feliz e reconheço que, graças a esses papéis, vivi boa parte da minha vida com uma porta aberta para esse mundo no qual pouca gente crê: provavelmente com razão, mas uma das coisas que tenho aprendido é que não são precisas razões para crer. Esse primeiro relatório dizia, textualmente: Sereníssimo Senhor: ouvi contar a meu avô que, durante muitos anos, informou regularmente o avô de Vossa Alteza de tudo o respeitante a alguns factos que passam despercebidos ao comum dos vossos súbditos mas que nem por isso deixam de ter importância para os que governam um país. Poderemos chamar-lhes, se o vocábulo lhe agradar, premonições. Se meu avô interrompeu os seus serviços à Coroa e ao Estado, isso deveu-se a que o sucessor de vosso avô, vosso sereníssimo pai, jamais tenha prestado atenção a esses papéis, nem nunca tenha acreditado neles, mas convém recordar que, em tempo de vosso pai, as coisas deste mundo andavam melhor e os habitantes do outro estavam sossegados. Eu, que recebi de meu avô e de meu pai a capacidade de ver, acho-me na obrigação de reatar aquele antigo costume com a esperança, quase com a certeza, de que essas revelações serão bem recebidas. Mas não esqueço, ao mesmo tempo, que o meu dever de súbdito é não incomodar o soberano. Por semelhante razão, se os termos deste primeiro escrito merecerem a atenção e o interesse de Vossa Alteza, peço-vos que, nos ofícios do domingo, leveis a sobrecasaca cor de tabaco que tão escassamente vos favorece. Vê-la e vislumbrar a pluma será quase o mesmo». In Gonzalo Torrent, La Rosa de los vientos, A Rosa dos Ventos, Materiais para uma Opereta sem Música, Difel, Linda-a-Velha, 1995, ISBN 972-29-0326-8.

Cortesia de Difel/JDACT

sexta-feira, 24 de maio de 2019

A Ilha dos Jacintos Cortados. Cartas de amor com interpolações mágicas. Gonzalo Ballester. «O espaço é circular e giratório. Tal como não se abarca o fim, escapa-nos o princípio…»

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«(…) E como eu mostrasse, não sei se manifestada em gesto mais ou menos estupefacto (ou talvez estúpido), uma certa incompreensão ou pelo menos algum cepticismo, Cagliostro continuou:

V. deverá ter ouvido uma infinidade de vezes o tema do Livro da História. Sem querer, querendo talvez até indicar precisamente o contrário, a frase, esvaziada do seu conteúdo convencional, pode depois ser recheada de verdade. Repare que num livro coexistem o princípio, o fim e os meios, e só quando se submete a uma leitura a que chamamos regular, é que o seu conteúdo se mostra como um antes e um depois. Mas, quem é que duvida que se pode ler de outra maneira, o fim primeiro, a solução antes de se pôr o problema? E que se pode avançar e retroceder e parar, e andar de novo, e todas as combinações e experiências temporais que se desejarem? A coexistência de todos os acontecimentos humanos permite a quem está no segredo, a quem sabe contemplar a história no seu conjunto, um modo de leitura semelhante: desde o começo misterioso até ao presente, que é o que fazem os historiadores; desde o presente ao futuro, que é o que fazem os profetas, que foi o que eu fiz quando mostrei a uma rainha o tipo da sua morte, ou o que fez João em Patmos quando nos mostrou o modo do nosso fim, embora com tal excesso de metáforas, analogias e precauções, que se torna difícil averiguar qualquer coisa que não seja a de que a nossa morte, a de todos, nos chegará pelo fogo, se bem que ninguém, nem sequer eu próprio, saiba quando, porque nessa parte do futuro a História se vê um pouco oculta pela bruma. É o mesmo que acontece, ou parecido, quando se tenta averiguar a data da morte pessoal: fica sempre para poente, e é tão móvel, e quanto mais uma pessoa se torce para a ver mais ela se lhe escapa.

Então, interrompi-o, existe uma direita e uma esquerda nesse panorama? Será, talvez, como um quadro? Exactamente. A anulação do tempo beneficia o espaço. A história é uma espécie de paisagem com figuras, se bem que praticamente interminável. Aquilo a que continuamos a chamar o passado fica à esquerda; em frente, o presente, e o futuro à direita. O espaço é circular e giratório. Tal como não se abarca o fim, escapa-nos o princípio, embora eu, por algumas suspeitas, me incline a acreditar na nebulosa. O meu símio íntimo quase me batia na consciência com as gargalhadas do seu regozijo. Repetia Este gajo!, sem descanso, e chegou a distrair a minha atenção, e, o que é mais grave, convenceu-me ao ponto de receber a revelação de Cagliostro com ironia interior, com aparente respeito. E é preciso adormecer para ver isso?, perguntei-lhe. Hipnotismo e coisas dessas. Talvez aquele olhar que Cagliostro me devolveu me chegasse carregado de desdém. A Maria Antonieta não precisei de a adormecer. V. valeu-se de uma bola de cristal. Qualquer superfície reflectora serve: um vidro da janela, a superfície do mar quando está calmo. A vez em que aqui o nosso amigo (e indicou Ashverus com um gesto) precisou de umas certas comprovações, valemo-nos de um espelho. O espelho tem a vantagem, devido à moldura, de ser possível espreitar por ele e até atirar-se dele para a corrente, ou planar sem limitações. Possível, em que medida? Desatou a rir. V. acaba de me perguntar se lhe é possível a si. Pois claro que sim, homem! A visão do conjunto da história é acessível a todo aquele que for capaz de suportar realidades tão pouco toleráveis e, sobretudo, tão pouco inteligíveis como o infinito e o absurdo. Pensei que ia explicar-me porque é que tinha usado aquelas duas palavras, em aparência tão comprometedoras (embora, trazidas frivolamente, não queiram dizer nada), e fiquei suspenso, à espera; o que ele fez foi sair da sala e voltar ao fim de alguns momentos com um espelho, não muito grande, que colocou à minha frente, em cima de uma cadeira: parecia velado, o espelho, se bem que com um véu interior que lhe retirasse profundidade e impedisse qualquer reflexo; eu, ao olhar para mim, não me via; e, de repente, acendeu-se, como que por detrás do vidro, isto é, com uma luz distante e leitosa que se derramou por uma superfície inabarcável, pululante como um formigueiro ou uma vermineira gigantescos». In Gonzalo Torrente Ballester, L Isla de los Jacintos Cortados, Ediciones Destino, 1980, A Ilha dos Jacintos Cortados, Cartas de amor com interpolações mágicas, Relógio d’Água, 1994, ISBN-972-708-232-7.
                                                                                                                                
Cortesia de Relógio d’Água/JDACT

quinta-feira, 23 de maio de 2019

A Ilha dos Jacintos Cortados. Cartas de amor com interpolações mágicas. Gonzalo Ballester. «Hoje já não sou o Grande Oriente, mas sim o Grande Copta, e enquanto tal me obedecem…»

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«(…) Evoquei sobretudo aquele começo de um deles em que Cagliostro, ignorado como tal pelo leitor, viajante anónimo e nocturno, ascende pela ladeira de uma montanha numa noite de chuva e vento, ascende apesar das vozes que o aconselham a retroceder, que o ameaçam se continuar, até que por fim, nas ruínas de um castelo provavelmente gótico e depois de um rito iniciático interrompido e frustrado, o viajante e catecúmeno é nada menos que Cagliostro, o Grande Oriente da Maçonaria. Ah!, disse ele. Aquilo era um bom tempo, era um bom tempo, embora mais perigoso do que este. Mas eu nunca fui maçon, ou pelo menos não o fui da espécie racionalista, mas sim da mística, e por isso é que me passei para os rosa-cruz até conseguir fundar a minha própria seita, ou, se preferirem, a minha própria organização. Hoje já não sou o Grande Oriente, mas sim o Grande Copta, e enquanto tal me obedecem mais de cem mil cidadãos deste país; tenho pactos firmados com os Templários e relações financeiras com o Vaticano. A Casa Branca ignora a grandeza do meu poder. O presidente pode, é claro, declarar a guerra e enviar para outros céus marines e mísseis, coisa que a mim me está vedada; mas se eu maquinar uma revolução, levo o país à ruína em menos de uma semana. Claro que não me interessa fazê-lo e que, na realidade, sou uma potência conservadora; mas talvez um dia dê uma prova menos aparatosa do meu poder, se bem que prefira dar um sinal da minha ciência, experiência de séculos transmitida em segredo e com perigo, na qual se resumem os saberes que não convêm ao Poder, que se opõem à Ordem e que contradizem a Verdade. A minha ciência é a única, a verdadeira revolução.
Dizia isto como que a brincar, enquanto o meu símio interior me sussurrava:

Vejam-me só este gajo! Que bem que ele sabe o papel, e que papel escolheu! Gostava mesmo de saber quem ele é e donde é que vem. Pela cara parece bizantino.

De facto, apesar dos seus ares de homem moderno, no seu rosto alongado e oliváceo, que às vezes me faz lembrar o teu, ainda havia muito de santo helénico, de cara traçada segundo as normas e os princípios de uma arte que inscreve o corpo humano num sistema de círculos e quadrados em que só respeita o Áureo Número. Daquela vez em que me levaram de visita ao mosteiro russo instalado nas montanhas que ficam para oeste da Northway, e em que me deixaram bisbilhotar na oficina do monge que pintava ícones, numa tábua encostada a um canto e meio suja via-se o esboço de um rosto como o de Cagliostro. Certa noite, já não me lembro qual, disse-nos ter nascido em Mantinea. O que me revelou, não importa agora quando, foi exactamente isto, que é o que nos diz respeito e me aconselha trazê-lo aqui:

Nem o passado existe nem o futuro. Tudo é presente, como bem advertiram os teólogos quando afirmaram que toda a vida do homem e do Cosmos, isso a que chamamos história e da qual uma boa parte está ainda por acontecer, é pura actualidade na mente divina. Enganaram-se apenas quanto a Deus, que não existe (Ashverus sorriu e abanou a cabeça: tinha os seus motivos para o fazer); mas a história, mesmo sem Mente a que remeter-se, é pura actualidade, tudo está a acontecer agora mesmo, e se nós o percebemos como passado, como presente e como futuro, isso deve-se tanto a organizações mentais como também a estruturas verbais. Não foi essa suposta fluência a que chamamos tempo o que determinou os verbos, mas sim ao contrário: o tempo como experiência e como realidade é sustido pelas palavras enquanto expressão de um modo de a mente estar organizada». In Gonzalo Torrente Ballester, L Isla de los Jacintos Cortados, Ediciones Destino, 1980, A Ilha dos Jacintos Cortados, Cartas de amor com interpolações mágicas, Relógio d’Água, 1994, ISBN-972-708-232-7.
                                                                                                                                
Cortesia de Relógio d’Água/JDACT