sexta-feira, 15 de abril de 2022

A Rosa dos Ventos. Materiais para uma Opereta sem Música. Gonzalo T. Ballester. «A vendedeira de hortaliças da Rua do Leme Partido, que tem uma pocilga, apesar dos protestos de toda a gente, viu aumentada a sua população porqueira em oito rosados leitões»

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«(…) Para além das cartas há, também, alguns documentos dos chamados confidenciais. Rasguei muitos, na sua maioria delacções repugnantes, cartas anónimas contra este ou a favor daquele, quando não contra mim próprio. Pergunto-me como desafogariam certas pessoas a sua alma miserável antes de se popularizar a escrita. Quem terá sido o inventor genial da carta anónima? Fácil como é! Põem-se os insultos uns atrás dos outros e já está. Dá-se saída à inveja e ao ressentimento e já está: ficam rios de lixo. Não sei se falei já da senhora Stolle, mas voltarei a falar dela. Tem um salão frequentado por artistas e por outras pessoas inteligentes. Porque será que eu suspeito que foi desta casa que saiu a maior parte das denúncias contra os liberais, as acusações de deslealdade e de perversidade contra pessoas que considero minhas amigas ou, pelo menos, minhas defensoras? A senhora Stolle denuncia os seus próprios companheiros de tertúlia e imagino-a convencida de que presta um serviço à pátria, quando só favorece a Águia do Leste. Pelo contrário Paulus, o sargento... Tem a seu cargo informar-me do que se passa pela cidade. Dá voltas pelas ruas e fala com este e com aquele. Depois escreve-me.

Do sargento Paulus a S. A. o grão-duque Ferdinando Luis, respeitosamente

Senhor, no meu último relatório falava-vos de que a senhora Sauce iria dar à luz um dia destes: pois já foi mãe de uma formosa menina, à qual pôs o nome de Tarakanova o qual, na minha opinião, vai acabar por ser comprido demais. A menina Rosa, da loja das rendas, zangou-se com o namorado e isto causou grande agitação no bairro do Sul, porque a gente do bairro do Sul é muito solidária com todos os do bairro do Sul, e como o noivo da menina Rosa era do bairro do Leste, não o viam com bons olhos e o abandono de que fez objecto a menina Rosa é considerado como uma ofensa a todo o pessoal. É muito possível que haja brigas entre os rapazes do bairro do Sul e os do bairro do Leste que, segundo parece, também se solidarizaram com o noivo da menina Rosa.

A vendedeira de hortaliças da Rua do Leme Partido, que tem uma pocilga, apesar dos protestos de toda a gente, viu aumentada a sua população porqueira em oito rosados leitões, dos quais já vendeu quatro; e é o que diz a menina Verbena, que lhe faz concorrência: ou vende couves ou porcos, mas as duas coisas, não. Com certeza que o filho da senhora Verbena, contra a vontade dos pais que queriam associá-lo ao negócio, se embarcou numa fragata das que vão para Inglaterra, mas com a intenção de passar à América quando estiver mais desembaraçado a trepar aos mastros. Senhor grão-duque, à senhora Zanahoria, que tem uma loja de produtos importados na Rua do Leme Intacto, apareceu-lhe um caroço maligno debaixo de um sovaco e correu o boato de que ainda lhe vão aparecer outros seis: que pelo número lhes chamam andorinhos, não sei porquê: a senhora Zanahoria está muito abatida e o marido dela dedica-se a correr os barcos estrangeiros em busca de um unguento que lhe cure a mulher, a quem, como está tão dorida, não pode tocar de noite. Por essa coisa de tocar ou não tocar também houve conflito, com bronca das grandes, na Rua do Caderna Esburacada: porque se descobriu que o senhor Saulo, o enfermeiro do Hospital, tinha tido relações com uma das enfermeiras e, por esta razão, a mulher dele não o admite no leito conjugal, e diz-lhe que se vá divertir com a outra: o bairro está dividido, os homens a favor do senhor Saulo e as mulheres a favor da senhora Stella, que assim se chama a interessada. O ponto alto do escândalo costuma ser por volta das oito da noite: é um espectáculo divertido e recomendável, no qual se vê como as pessoas se contentam com palavras, sem passar aos actos. Senhor grão-duque, à menina Esmeralda, que vende linhas e aviamentos de costura, tudo isso que elas chamam de capelista, na Rua do Peixe Voador, conforme se entra, o banco quis-lhe fechar a loja, porque não pôde pagar uma letra de vinte moedas que lhe vinha do estrangeiro: pois as pessoas fizeram imediatamente uma colecta, eu contribuí com dez peniques que faltavam e, quando chegaram os executores, pagou-se-lhes a letra e ficaram com uns narizes de palmo, porque o que faz os executores felizes é, precisamente, executar. Ele há gente mesmo má!» In Gonzalo T. Ballester, La Rosa dos Ventos, A Rosa dos Ventos, Materiais para uma Opereta sem Música, Difel, Londa-a-Velha, 1995, ISBN 972-290-326-8.

Cortesia de Difel/JDACT

Escritor, Galiza, Gonzalo Ballester, JDACT, Literatura,