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sábado, 6 de fevereiro de 2021

A Filha da Floresta. Sevenwaters 1. Juliet Marillier. «Ele pouco mais velho era do que eu e era apenas uma flor. Sorcha, não... Enquanto os meus pequenos dedos colhiam um daqueles caules de aparência suave. A dor na minha mão foi como se estivesse a arder…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Três crianças estão estendidas sobre as rochas à beira da água. Uma rapariguinha de cabelo escuro. Dois rapazes, ligeiramente mais velhos. Esta imagem permanece gravada para sempre na minha memória, como uma frágil criatura preservada em âmbar. Eu própria e os meus irmãos. Lembro-me de como a água ondulava à medida que eu corria os meus dedos ao longo da sua superfície brilhante. Não te inclines tanto, Sorcha, disse Padriac. Podes cair. Era um ano mais velho do que eu e servia-se dessa pequena diferença para exercer uma certa autoridade sobre mim. O que era compreensível, suponho. No fim de contas, éramos seis irmãos, cinco dos quais mais velhos do que ele. Ignorei-o, tentando alcançar as misteriosas profundidades. Ela pode cair, não pode, Finbar? Um longo silêncio. Como este se prolongasse, olhámos ambos para Finbar, que estava deitado de costas, estendido sobre a rocha tépida. Não estava a dormir; os seus olhos reflectiam o cinzento-pálido do céu outonal. O seu cabelo estava espalhado sobre a rocha num emaranhado negro selvagem. Havia um buraco na manga da sua jaqueta.

Os cisnes vêm aí, disse Finbar por fim. Sentou-se lentamente e apoiou o queixo nos joelhos dobrados. Vão chegar esta noite. Por trás dele, uma brisa fez mover os ramos de carvalhos e ulmeiros, freixos e amieiros e espalhou em todas as direcções as folhas douradas, cor de bronze e castanhas. O lago estava rodeado por montes cheios de árvores, abrigado como num grande cálice. Como é que sabes?, perguntou Padriac. Como é que podes ter a certeza? Pode ser amanhã ou no dia seguinte. Ou podem ir para outro lugar qualquer. Tens a mania de que sabes sempre tudo. Não me lembro de Finbar responder, mas mais tarde, nesse dia, quando a noite se aproximou, levou-me de novo até à margem do lago. Naquela meia luz, sobre a água, vimos os cisnes a regressarem a casa. Os últimos raios de sol apanharam um movimento branco no céu que escurecia. Em seguida já eles estavam suficientemente perto para podermos ver o seu voo em formação ordenada, descendo através do ar frio à medida que a luz desaparecia. O barulho das asas, a vibração do ar. O último deslizar sobre a água e o brilho prateado desta, abrindo-se para os receber. Ao amararem, o som parecia o meu nome, uma vez e outra: Sorcha, Sorcha. A minha mão apertou a de Finbar; ficámos ali imóveis até ser escuro e só depois o meu irmão me levou para casa.

Se se tem a sorte de crescer como eu, fica-se com muitas coisas boas para recordar. E algumas não tão boas. Uma Primavera, olhando para as minúsculas rãs verdes que apareciam com os primeiros calores, os meus irmãos e eu mergulhávamos na corrente, fazendo tanto barulho que assustávamos qualquer criatura. Três dos meus seis irmãos estavam comigo, Conor a assobiar uma velha canção; Cormack, o seu gémeo, arrastando-se de costas e ficando com o pescoço cheio de lodo. Ambos rolando na margem, lutando e rindo. E Finbar. Finbar estava mais acima, quieto, numa poça provocada pelas rochas. Não virava pedras à procura de rãs; silenciosamente, encantava-as. Eu tinha na mão um ramo de flores silvestres, violetas, rainhas-dos-prados e daquelas a que nós chamamos campainhas. Perto da margem estava uma nova, com flores em forma de estrela, de um delicado verde-pálido e folhas como penas cinzentas. Desci e estendi o braço para a apanhar.

Sorcha! Não lhe toques!, estalou Finbar. Assustada, olhei para cima. Finbar nunca me dava ordens. Se fosse Liam, que era o mais velho, ou Diarmid, que vinha a seguir, não me espantaria. Finbar apressou-se na minha direcção, abandonando as rãs. Mas porque é que eu lhe havia de prestar atenção? Ele pouco mais velho era do que eu e era apenas uma flor. Sorcha, não... Enquanto os meus pequenos dedos colhiam um daqueles caules de aparência suave. A dor na minha mão foi como se estivesse a arder uma agonia que me fez contrair o rosto e gritar enquanto tropeçava ao longo da vereda, as flores caídas no chão, calcadas sob os pés. Finbar travou-me bruscamente, as mãos nos meus ombros, parando-me a fuga desordenada.

Morugem, disse ele olhando para a minha mão, que inchava e enrubescia rapidamente. Por esta altura os meus gritos tinham atraído os dois gémeos, que se aproximaram a correr. Cormack segurou-me, visto que era forte, enquanto eu berrava e me debatia com dores. Conor rasgou um bocado da sua suja camisa. Finbar encontrara um par de aguçados galhos e começou a retirar delicadamente, um por um, os minúsculos espinhos que a planta morugem tinha embebido na minha suave carne. Lembro-me da pressão das mãos de Cormack nos meus braços enquanto eu lutava por ar entre soluços e ainda consigo ouvir Conor a falar, a falar, numa voz calma, enquanto os longos e hábeis dedos de Finbar continuavam com a tarefa. ... e o nome dela era Deirdre, Dama da Floresta, mas nunca ninguém a via, excepto à noite, se se fosse ao longo dos caminhos sob os vidoeiros, quando se podia vislumbrar a sua silhueta alta vestida com uma capa azul, o longo cabelo, selvagem e escuro, flutuando sobre os ombros e a pequena coroa de estrelas...

Quando tudo acabou, ligaram-me a mão com uma ligadura feita da camisa de Conor, com algumas pétalas de malmequer esmagadas e pela manhã já estava melhor. Nem uma palavra foi dita aos meus irmãos mais velhos quando voltaram para casa, de como eu fora tola». In Juliet Marillier, A Filha da Floresta, Sevenwaters 1, 2000, Editorial Planeta, 2017, ISBN 978-989-657-960-9.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

JDACT, Juliet Marillier, Literatura, Fantasia,

domingo, 1 de novembro de 2020

O Espelho Negro. Crónicas de Bridei. Juliet Marillier. «Começavam pelo conhecimento das plantas, das árvores e dos animais, e incluíam a prática disciplinada do silêncio e da concentração. Bridei era uns anos mais novo do que os rapazes que iam para o bosque…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Aqui é o teu quarto, disse Broichan, colocando uma vela em cima de uma prateleira. Bridei olhou para o quarto com a cama estreita, para a arca e para a pequena janela quadrada que dava para os vidoeiros sussurrantes e para uma mancha de céu escuro. Pareces cansado. Dorme. Amanhã começamos a tua educação. Em Pitnochie, as pessoas estavam sempre ocupadas. Bridei tornou-se especialista em evitar Mara, a governanta de rosto severo e Ferat, o cozinheiro sempre irritado, quando davam ordens às suas infelizes ajudantes, limpavam energicamente o pó ou viravam um carneiro no espêto. Também Wid e Erip estavam sempre a fazer alguma coisa. Além disso discutiam muito um com o outro, mas nunca se zangavam, simplesmente discordavam em muitas coisas. Bridei também andava sempre ocupado. As aulas de Broichan eram difíceis.

Começavam pelo conhecimento das plantas, das árvores e dos animais, e incluíam a prática disciplinada do silêncio e da concentração. Bridei era uns anos mais novo do que os rapazes que iam para o bosque aprender a ser druidas, disse Broichan, mas já tinha idade suficiente. Durante uns tempos, Bridei à noite não era capaz de adormecer e só lhe apetecia chorar. Porém, em breve começou a esquecer-se da mãe, do pai e dos irmãos mais velhos. As coisas pequenas ficaram: o cinto do pai, largo, de pele escura, com uma fivela de prata em forma de cavalo. Um perfume suave a violetas ou flores de jardim, que associava à mãe. Quando essas memórias começaram a desaparecer, recordava-se das palavras de despedida do pai: obedece ao teu pai adoptivo em todas as coisas. Obedece, aprende e não chores. As estações passaram e Bridei seguiu à risca as instruções do pai. De certo modo, sentia-se satisfeito por poder corresponder às suas expectativas. Erip e Wid, que também desempenhavam um papel na sua educação, explicaram-lhe o que era a adopção: como ajudava as famílias a constituir alianças e como fazia dos rapazes homens fortes e mais úteis quando regressavam para casa. O jovem perguntou a Broichan porque razão a sua família escolhera a ele e não a nenhum dos irmãos. Porque tu eras o mais inteligente, disse o druida. Quando é que volto para casa?

Broichan fitou-o com os olhos escuros e impassíveis. Só os deuses é que podem responder a essa pergunta, Bridei, disse o druida. Não te sentes bem aqui em Pitnochie? Sinto, meu senhor, respondeu o jovem, e dizia a verdade, porque gostava das aulas. Porém, às vezes perguntava a si próprio porque razão estava ali. Então não faças novamente essa pergunta. Erip, o careca, e Wid, o nariz de falcão, rapidamente se tornaram amigos de Bridei. Ambos sabiam muitas coisas. Durante o primeiro Inverno, Bridei aprendeu o jogo com as pequenas figuras esculpidas. Wid ensinou-o a fazer um corvo, um veado e uma lebre com a sombra dos dedos na parede, colocando uma vela por trás. Estavam todos a rir-se das imagens quando Broichan, impassível, projectou uma imagem na parede que não podia ter sido feita com as mãos em frente de uma vela, qual seria o homem que, com dez dedos apenas, conseguia imitar um dragão cuspindo fogo, de asas a bater, perseguindo uma hoste de guerreiros aterrorizados?» In Juliet Marillier, O Espelho Negro, Crónicas de Bridei, 2005, Editora 11 X 17, 2010, ISBN 978-972-252-138-3.

Cortesia de Editora 11X17/JDACT

JDACT, Juliet Marillier, Literatura,