Mostrar mensagens com a etiqueta Caetano Costa Alegre. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Caetano Costa Alegre. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Poesia. Caetano Costa Alegre. São Tomé e Príncipe. «Um dia a espuma dos mares, ao ver em si meu amor, foi dizer baixinho à praia: - A Vénus mudou de cor! […] Se os escravos são comprados, ó branca de além do mar, homem livre, eu sou escravo, comprado por teu olhar»

jdact

Alto como o Silêncio
A ilha te fala
de rosas bravias
com pétalas
de abandono e medo.

No fundo da sombra
bebendo por conchas
de vermelha espuma
que mundos de gentes
por entre cortinas
espessas de dor.

Oh, a tarde clara
deste fim de Inverno!
Só com horas azuis
no fundo do casulo,
e agora a ilha,
a linha bravia das rosas
e a grande baba negra
e mortal das cobras.



Eu e os passeantes
Passa um inglesa,
e logo acode,
toda supresa:
what black my God!

Se é espanhola,
a que me viu,
diz como rola:
que alto, Dios mio!

E, se é francesa:
ó quel beau negre!
Rindo para mim.

Se é portuguesa,
ó Costa Alegre!
Tens um atchim!

Poemas de Caetano Costa Alegre, in ‘Versos’, 1916

JDACT

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Escritores. São Tomé e Príncipe. Caetano Costa Alegre. «A ilha te fala de rosas bravias com pétalas de abandono e medo. No fundo da sombra bebendo por conchas de vermelha espuma que mundos de gentes por entre cortinas espessas de dor»

Cortesia de wikipedia

«(…) A cana do açúcar, introduzida em 1501 a partir da ilha da Madeira, foi o primeiro produto agrícola de rendimento. Devido à fertilidade do solo e do clima favorável, esta produção rapidamente prosperou registando-se, poucos anos depois, a presença de 60 engenhos de açúcar em toda a ilha. O fabrico de açúcar, o comércio de escravos, a produção da pimenta e a exportação de madeiras eram, no século XVI, a principal fonte de rendimentos de São Tomé. Este regime de capitanias iria permanecer em vigor até 1522, altura em que se aplica novo tipo de administração, agora dependente directamente da Coroa. A ilha de Santo Antão, que posteriormente passou a ser denominada de Príncipe, foi concedida a António Carneiro que manteve essa doação até 1573, altura em que passa a ser administrada como propriedade da Coroa e é anexada a São Tomé. É nessa altura que a capital da província passa a ser Santo António, ilha do Príncipe, que apesar de ter sido afectada pela decadência vivida em São Tomé, oferecia uma atmosfera mais calma para o governo.
Para começo de caracterização do tipo de sociedade que se iria formar, deve-se dizer que o povoamento das ilhas foi feito com africanos vindos da costa africana, filhos judeus arrancados aos pais, artífices e degredados e a cada um destes foi mandado dar uma escrava para a ter e dela se servir, havendo o principal a povoar-se a dita ilha. Como se vê, estava posta em marcha uma situação favorável à miscigenação racial e cultural que caracteriza até hoje a população dos são-tomenses. Aos primeiros habitantes do arquipélago foram concedidos vários privilégios como forma de incentivos, devido ao isolamento do território. Esses privilégios tinham que ver com a possibilidade de resgatar escravos na costa africana, facilidades de comércio com o continente, isenção de pagamento de dízimos, a possibilidade dos mulatos exercerem quaisquer ofícios como os brancos. Com medo de perderem o seu lugar de exclusividade na administração, tendo em conta que o número de mulatos tendia aumentar, os colonos brancos tentam escravizar os mulatos que, já compenetrados do seu papel e lugar na comunidade, acabam por protestar junto do rei Manuel I. Numa carta régia de 29 de Janeiro de 1515, tendo em conta os protestos dos mulatos, o rei decide que a descendência das escravas dadas aos colonos, bem como as mães eram livres e não podiam ser demandadas, elas, seus filhos e filhas, como cativos de El-rei, nem de pessoa alguma.

«Um dia a espuma dos mares,
ao ver em si meu amor,
foi dizer baixinho à praia:
 - A Vénus mudou de cor!»
Poema de Caetano Costa Alegre

Numa outra carta régia datada de 1517, o rei estendia aos escravos dos primeiros povoadores os benefícios que tinha concedido às escravas e aos seus descendentes, bem como aos escravos (e os filhos que tivessem tido) dados pela Fazenda Real aos primeiros povoadores. É deste modo que veremos nascer a classe da elite burguesa dos naturais do arquipélago, os ditos filhos da terra, e com ela o advento de querelas entre as diferentes facções que compunham a sociedade. A propósito dessas pendências Raimundo Cunha Matos diz: A intriga naquelas idades já vomitava a infernal peçonha que infeccionou os novos colonos e seus sucessores, tanto assim que repetiam queixas sobre queixas aos pés do real trono, acusando-se reciprocamente dos mais atrozes crimes. Eles não só se constituíam soberbos e intratáveis […] conservavam o seu harém.
As lutas de interesse envolviam o clero, os governadores, as autoridades e os grandes proprietários. Todos queriam governar, mas nenhum queria se submeter à condição de governado. Os filhos da terra viviam e comportavam-se como se fossem europeus, ou seja, assimilaram os hábitos dos europeus, desde os modos de se vestirem, a culinária, a habitação, etc., mas de maneira ajustada à realidade local, sublinhemos esse aspecto de afirmação diferenciadora (usavam vestuários ligeiros de algodão, porquanto o clima é tropical; as casas apesar de seguir o modelo português era feita de madeira). E uma tal prática estendia-se quer aos membros da elite crioula, quer aos grupos populares. No plano da linguagem, podemos salientar o surgimento dos crioulos, uma forma de veicular a comunicação entre os diferentes grupos que compunham a esfera mestiça, sucedendo que viria a pertencer ao forro tornar-se o crioulo veicular». In Instituto Camões, Repositório da Universidade de Lisboa, 2009.

Cortesia de ICamões/JDACT

Escritores. São Tomé e Príncipe. Caetano Costa Alegre. «… que se faz a transferência da povoação para a baía de Ana Chaves, uma das mais amplas no nordeste da ilha, uma região que permitia uma melhor penetração no território, bem como o desenvolvimento da cultura de cana e o escoamento da produção açucareira»

Cortesia de wikipedia

«(…) Veremos ainda as consequências dos ideais do romantismo na sociedade portuguesa do século XIX. Seguidamente passaremos à tentativa de uma definição para o romantismo, com o surgimento deste movimento na Europa e finalmente em Portugal e com as suas fases. Procuraremos caracterizá-las de modo a realçarmos essas características com alguns textos de autores românticos, sobretudo Almeida Garrett. A ideia da identidade nacional é reforçada, como referimos, a partir do romantismo, por isso neste trabalho iremos ter em conta essa questão, observando as diferentes acepções que os principais teorizadores têm sobre o assunto bem como a maneira como essas ideias se manifestam na literatura.
Um breve historial do percurso da literatura são-tomense antecederá ao estudo do perfil biográfico do autor que nos propomos trabalhar. Tendo em conta que o nosso objecto principal de estudo é o livro intitulado Versos de Caetano Costa Alegre, começaremos por fazer a sua breve apresentação, vendo como se compõe o livro, as suas formas de composição, as dominantes temáticas, com particular referência mas não excessiva à questão da cor da pele. Particular referência sobretudo por esse tema ter sido motivo de análises fora do contexto em que o tema foi desenvolvido, análises que em vez de reflectirem os sentidos poéticos dos textos reflectem as ideologias dos críticos. Finalmente tentaremos mostrar as marcas do romantismo presentes em Versos, realçando o que há de romântico na obra, o sentido conotativo dos textos, os recursos estilísticos mais marcantes na obra, no sentido da afirmação de uma individualidade a que o romantismo confere características nacionais de S. Tomé e Príncipe.
No que tange ao tipo de investigação académica necessária, este trabalho seguirá a metodologia com base em pesquisa de textos, e a bibliografia que utilizaremos como referencial teórico, compreenderá a crítica literária, o ideário romântico na Europa, e muito particularmente em Portugal. Também nos socorreremos de bibliografias que retratam a questão da identidade vista ao longo dos tempos, bem como as ligadas às literaturas africanas de expressão portuguesa, muito especificamente, a de São Tomé e Príncipe. Jornais e Boletins Oficiais servirão de referências bibliográficas para perquirir o autor em estudo.

Contextualização. Historial de S. Tomé e Príncipe
Conforme anotámos na Introdução, abriremos a nossa dissertação neste capítulo com as necessárias considerações contextuais da história para melhor entendermos o autor a que nos propomos estudar, inserindo-o na sociedade da sua época. Faremos uma breve historiografia de São Tomé, sua terra natal, desde a sua situação geográfica, até a formação de sociedade com características muito híbridas. Tendo em conta que o nosso autor partiu muito cedo para Portugal (cerca dos dez anos) e foi a partir de lá que fez os seu estudos e onde começou a escrever, faremos também uma breve contextualização sócio-cultural da época. São Tomé e Príncipe, duas das quatro ilhas (mais Fernando Pó e Ano Bom) que compõem um conjunto vulcânico na zona equatorial da Costa Ocidental Africana, distam uma da outra cerca de 82 milhas, com uma superfície terrestre de 875 km2 e 114km2 respectivamente, estando afastadas do continente africano em 160 milhas, ilha do Príncipe, 180 milhas ilha de São Tomé.
Apesar de não haver documentos fidedignos quanto à exactidão da descoberta do Arquipélago, supõe-se que o descobrimento tivesse decorrido entre os anos de 1470 (São Tomé) e 1472 (Príncipe) durante o reinado de Afonso V. Os seus descobridores foram seguramente João de Santarém e Pêro Escobar que estavam a serviço de Fernão Gomes, nos termos de um contrato que tinha com o rei de Portugal (fora-lhe concedido o monopólio do comércio na Costa da Guiné, com a obrigação de explorar toda a costa sul da Serra Leoa).
De acordo com o princípio de descentralização administrativa adoptada pela Coroa no início da expansão marítima, a ilha de São Tomé foi doada a João Paiva, em 1485, num sistema de capitania, dando assim o início ao seu povoamento, uma vez que esse território era supostamente desabitado aquando do seu achamento. Dificuldades inerentes às características naturais da ilha que na altura não permitiam a exploração económica imediata, e consequentemente, lucros directos. O donatário João Paiva renunciou à capitania, sucedendo o mesmo ao segundo donatário. Só em 1493, e com Álvaro Caminha, o grande impulsionador da colonização da ilha, é que se verificaria o arranque definitivo do povoamento efectivo do território, através de medidas muito concretas destinadas a multiplicar os habitantes e desta forma aumentar a produtividade em benefício da coroa. É-lhe concedida a jurisdição civil e criminal, ampliando os privilégios aos colonos aí estabelecidos ou que viessem a se estabelecer. É também nesta altura que se faz a transferência da povoação para a baía de Ana Chaves, uma das mais amplas no nordeste da ilha, uma região que permitia uma melhor penetração no território, bem como o desenvolvimento da cultura de cana e o escoamento da produção açucareira». In Instituto Camões, Repositório da Universidade de Lisboa, 2009.

Cortesia de ICamões/JDACT

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Escritores. São Tomé e Príncipe. Caetano da Costa Alegre. «… fazer uma breve contextualização histórica das “Ilhas Maravilhosas”, desde o descobrimento, o povoamento, o surgimento da burguesia local, a sua ascensão e a decadência dessa sociedade no século XIX, o papel que desempenhava, a introdução do ensino e o papel da missionação»


jdact e cortesia de wikipedia

«O objectivismo absorvente e a sujeição às regras do neoclassicismo serão postos de lado para dar lugar a um espírito individualista, caracterizado pela exaltação da própria personalidade do poeta romântico.

NOTA: A liberdade se manifestou em todos os sentidos: liberdade política, a vontade do rei deixou de ser soberana para o romântico; liberdade moral, a norma de moralidade não é construída pelos ditames da razão, muito menos pelas crenças religiosas, apesar de reconhecer a necessidade afectiva de Deus e da religião; liberdade nos sentimentos, o romântico deixava-se arrastar pelas emoções violentas.

Um das formas mais comuns do ponto de vista temático consiste em evadir-se no tempo e no espaço, refugiando no sonho e na fantasia, na orgia e na dissipação como forma de se evadir da sua angústia metafísica resultante do choque com a realidade concreta, uma vez que o romântico não está isento de espírito idealista. Por outro lado, a literatura romântica promove a exaltação do que é nacional, mas de raiz popular, não aristocrática, adquirindo um carácter cívico e patriótico, que tende a enveredar para o historicismo onde as figuras nacionais são tratadas com muito carinho. A concepção propriamente romântica, procura discernir as dissemelhanças entre os povos, destacando-as mesmo como formas de expressão de qualidades intrínsecas e determinantes da fisionomia de cada conjunto. Mas sem que de um modo geral e directo isso implique num enfoque negativo, deformador ou preconceituoso em relação a outros grupos, pois são justamente estas diferenças singulares que fazem da existência e da contribuição de cada organismo nacional uma componente única e complementar no processo humano.
E esse individualismo que vai assim surgindo, e que daremos a devida atenção no nosso trabalho, é muito importante porque leva, por um lado, a uma análise de tudo e, por outro lado, a uma caracterização cada vez mais pormenorizada, deixando de sublinhar o típico na arte para salientar o elemento característico, isto é, o que qualifica o ser dentro do contexto social e nacional. Esse individualismo constitui por certo uma grande mudança de enfoque no campo literário, aproximando de certo maneira o gosto do Romantismo da perspectiva realista, porque o romântico já se coloca numa óptica que divisa o indivíduo dentro de seu habitat sócio-histórico.
Superar as dissociações da cultura, transpor as divisões sociais, saltar por cima das particularizações geo-históricas serão, na perspectiva romântica, as vias de acesso ao estado natural do homem, à sua inocência idêntica. Procuraremos ver como a aspiração romântica, na sua busca da unidade, elementar, não se detém nas projecções utópicas sobre o plano do processo sócio-cultural e mesmo antropológico. No desenvolvimento que prossegue, ela tende a chegar às alturas da comunhão cósmica. Unir-se e fundir-se misticamente com o universo na sua ilimitação é o sentido pleno da grande síntese. Como o objectivo mais geral da nossa dissertação é a análise do romantismo como estética promotora da individualidade e da identidade nacional, tentaremos demonstrar como o romantismo se manifesta na literatura são-tomense. Evidenciaremos também as marcas que apontam que a literatura do país tem uma história que já vem do séc. XIX.
Sendo que o autor em estudo, Costa Alegre, foi um poeta muito inspirado, de grande qualidade, e que representa muito bem o seu tempo romântico e que explora também, e muito bem, o romantismo na afirmação de si, da sua identidade negra sem complexos, bem como a crítica vigorosa das ideias racistas nascentes, evidenciaremos nos poemas a serem analisados, as características mais marcantes desse movimento literário presente na sua poesia. Para a efectivação da nossa dissertação, começaremos pelo mais geral, por fazer uma breve contextualização histórica das Ilhas Maravilhosas, desde o descobrimento, o povoamento, o surgimento da burguesia local, a sua ascensão e a decadência dessa sociedade no século XIX, o papel que desempenhava, a introdução do ensino e o papel da missionação neste processo, etc.

Visão
Vi-te passar, longe de mim, distante,
Como uma estátua de ébano ambulante;
Ias de luto, doce, tutinegra,
E o teu aspecto pesaroso e triste
Prendeu minha alma, sedutora negra;
Depois, cativa de invisível laço,
(o teu encanto, a que ninguém resiste)
Foi-te seguindo o pequenino passo
Até que o vulto gracioso e lindo
Desapareceu, longe de mim, distante,
Como uma estátua de ébano ambulante.
In Caetano da Costa Alegre

A estagnação económica, política, social e cultural a que São Tomé e Príncipe esteve sujeito até ao século XIX será também revista, tendo sempre em conta o enfoque devido à comunidade humana que representa a cultura das ilhas. Contextualizaremos ainda, no Portugal no século XIX, as mutações sociais, económicas, políticas e culturais, o liberalismo, que interessam para o melhor entendimento do contexto cultural em que Caetano da Costa Alegre viveu e escreveu a sua obra». In Instituto Camões.

Cortesia de I. Camões/JDACT

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Escritores. São Tomé e Príncipe. Caetano da Costa Alegre. «Apesar de um estilo diferente do europeu, os temas da sua obra convertem-no num precursor dos escritores e poetas africanos posteriores, que trataram do tema racial, a alienação, as recordações nostálgicas do passado, as suas reminiscências de São Tomé».


(1864-1890)
S. Tomé e Príncipe
Cortesia de wikipedia

Visão
Vi-te passar, longe de mim, distante,
como uma estátua de ébano ambulante;
ias de luto, doce, tutinegra,
e o teu aspecto pesaroso e triste
prendeu minha alma, sedutora negra;
depois, cativa de invisível laço,
(o teu encanto, a que ninguém resiste)
foi-te seguindo o pequenino passo
até que o vulto gracioso e lindo
desapareceu, longe de mim, distante,
como uma estátua de ébano ambulante.
In Caetano da Costa Alegre

«A questão da identidade nacional e, consequentemente, a tomada de consciência de pertença a um lugar, ou uma nação, salta para a ribalta com maior enfoque a partir do movimento romântico, desde os finais do século XVIII. Contudo, a identidade configura um tema complexo devido ao carácter polissémico no sentido de encerrar uma grande diversidade de conotações. Porém, na nossa dissertação, propomos falar da identidade nacional focando a política de afirmação e de construção da identidade tal como foi tratada pelo romantismo, visto o autor de que nos ocupamos, Caetano da Costa Alegre ter vivido e escrito a sua obra em finais do século XIX.
Durante muito tempo as sociedades utilizaram a história para tentar abrigar povos de diferentes origens e, consequentemente, de diferentes culturas numa unidade que era dado o nome de nação. Firmados nesse princípio, visavam a construção da identidade de sentido agregador com o objectivo fixo da “expressão de um carácter nacional”. Assim, considerava-se negativa a diversidade cultural na composição de determinada nação, valorizando-se na história aquilo que convergia para a evolução tomada como prática reguladora da visão da identidade.
Contudo, essa visão começa a mudar a partir do momento em que nas sociedades contemporâneas. Nelas, vão surgindo diferentes vozes que reivindicam o estatuto da diferenciação, apoiadas numa revisitação do passado histórico onde encontram formas de representação de determinada identidade diferenciada, se não propriamente nacional, de certa maneira cultural própria, e assim insistirem mais ideia de pluralidade do que de unidade na composição de uma sociedade. Enquanto uns se valiam do princípio da história linear para afirmar a identidade individual outros apontavam o princípio não sequencial da história, decorrente dos grupos minoritários para a formação de uma identidade cultural, ou seja, identidade colectiva. A identidade individual era formada através das transformações históricas, já a identidade cultural era reivindicada a partir da história fragmentada por favorecer as conexões entre tempos de passado e de presente. Esta representa um papel fundamental na elaboração da consciência nacional, pois tende a formar os pontos de convergência do sentimento de identidade comprimido durante muito tempo pelo opressor favorável à assimilação. É sob este ponto de vista problemático que se pode colocar com mais amplitude a questão de uma comunidade que visa a construir a sua identidade nacional.
A narrativa da nação contada nas histórias e nas literaturas nacionais fornece estórias, imagens, cenários, panoramas, símbolos e rituais nacionais que servem de suporte que darão sentido à visão de nação que se quer para uma determinada colectividade. Assim, como forma de encontrar uma identidade de características próprias, povos de diferentes culturas procuraram mecanismos através dos quais pudessem encontrar alternativas que possibilitassem o aparecimento dos aspectos culturais específicos de uma dada colectividade. Esse aspecto torna-se ainda mais pertinente quando se refere a identidade de um determinado grupo que nunca teve a sua história contada até ao momento em que começa a ser problematizada. Segundo Hall e referenciando Koberna Mecer, “a identidade somente se torna uma questão quando está em crise, quando algo que se supõe fixo, coerente e estável é deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza”.


O conceito da identidade global começa a ser questionado quando o grupo minoritário se recusa à condição de cultura periférica, marginal e reivindica um estatuto autónomo interior do campo instituído e onde se vê incluída. Essa nova forma de pensar transforma-se em desafio para as literaturas emergentes responsáveis pela elaboração da consciência nacional contemporânea e, portanto, por uma nova forma de rever a questão da história de modo a que esta contemple a história dos grupos periféricos. Assim, no intuito de afirmar uma identidade nacional, o passado histórico serviu como uma forma de afirmar ou constituir um imaginário nacional pautado numa visão simbólica de identidade.
Enquanto movimento histórico, o Romantismo é resultado de duas revoluções, a Revolução Francesa e a Revolução Industrial, e coincide com a ascensão política e económica da burguesia europeia. O romantismo foi gerado a partir de uma escola que se pautava pela evocação do popular, do medievo, do exótico, pela exaltação da liberdade:
  • liberdade política, a vontade do rei deixou de ser soberana para o romântico;
  • liberdade moral, a norma de moralidade não é construída pelos ditames da razão, muito menos pelas crenças religiosas, apesar de reconhecer a necessidade afectiva de Deus e da religião;
  • liberdade nos sentimentos, o romântico deixava-se arrastar pelas emoções violentas.
E, sobretudo, pelo culto do ‘eu’ individual. O objectivismo absorvente e a sujeição às regras do neoclassicismo serão postos de lado para dar lugar a um espírito individualista, caracterizado pela exaltação da própria personalidade do poeta romântico». In Instituto Camões.

Cortesia de I. Camões/JDACT