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domingo, 2 de agosto de 2015

Os Lagóias e os Estrangeiros. Garcia Castro e Raul Ladeira. «Não há critério seguro para distinguir o homem dos animais. O homem não sabe mais que os outros animais; sabe menos. Eles sabem o que precisam saber. Nós não»

raul ladeira 
jdact

Os lagóias
Orbis pictus
«Ao lusco-fusco das manhãs de Outono,
estações do ano são humores do vida!,
homens do peixe do senhor Rabinha,
seus fatos negros de borracha húmida,
entre o estertor das camionetas Diesel
arrastam os caixotes reluzentes
o assobiar de fresco ao nevoeiro.
                            
As motoretas passam a grasnar
roufenhas, oleosas, proletárias,
de capacetes e faróis acesos,
um gosto popular de cosmonautas.

De quantos lados chegam! As mulheres,
de alcofas pela mão e as grandes nádegas,
já debruçadas, para aviar a praça,

gulosas do café com massa frita,
do qual o cheiro alastra, uma doçura,
o largo, os automóveis, e o meu quarto.

Ao lado, no Quartel, os corneteiros
já diluíram os clarins dolosos
sobre o cinzento do verniz dos plátanos.

Da serra para o mercado há os que passam
com suas botas de ferrar o chão,
ao bafo do vapor azul discreto
de algum oficial à porta-d’armas.

As bestas e as carroças de hortaliça,
impacientes, fumegando, chiam,
rangem os aros de metal dos rodas,
batem os cascos, rifles, na calçada.

Rapazes pobres do trabalho em obras,
andámos todos já na mesma escola,
nem é de mais que algum seja bombeiro,
falam-me sempre para fumar comigo.

Sete horas da manhã. Meia p’rás oito.

O apito do fábrica da Rolha
espichou agora, em sobressalto, vivo,
seu arrepio de esganar o ar…

Que pena o d’Assumpção, que se matou!

Talvez imaginasse apetecer-lhe,
aqui de Portalegre, alucinado,
um copo de nevoeiro».
In Portalegre, Setembro 1970

In Carlos Garcia Castro e Raul Ladeira, Os Lagóias e os Estrangeiros, edição da CM de Portalegre, 1992, Depósito legal nº 53094.

Cortesia de CMP/JDACT

domingo, 26 de julho de 2015

Os Lagóias e os Estrangeiros. Garcia Castro e Raul Ladeira. «Os sinos dobram na cidade branca. Os sinos de mais dobrar! Dobrar dos sinos na cidade branca, alguém do campo que lá foi morar. São sinos de São Lourenço!»

raul ladeira 
jdact

Os lagóias
«Da cidade nasce o povo,
baptizado, funeral,
amigos, vinho que provo
por tristeza ou arraial.

Cidade que tens o povo
das ruas da minha morte,
meu coração é tão novo
que morre sem que se importe.

Cidade, forma do povo
que tem por sorte a canseira,
no ganhar sou eu que o louvo
no perder, cidade inteira».
In Portalegre, Março 1974


Os sinos de São Lourenço
«Os sinos dobram na cidade branca.
Os sinos de mais dobrar!
Dobrar dos sinos na cidade branca,
alguém do campo que lá foi morar.
São sinos de São Lourenço!
Os sinos de mais morrer.
Os sinos dobram na cidade branca,
gente de fora que lá foi viver.
Dobram os sinos na cidade branca.
Os sinos que dão mais dó!
Dobrar dos sinos na cidade branca,
era um velhote que vivia só.
São sinos de São Lourenço!
Os sinos da maior dor.
Os sinos dobram na cidade branca,
na Casa de Saúde, um lavrador.

Dobram os sinos na cidade branca.
Os sinos do maior dano!
Não dobram sinos na cidade branca,
nem leva padre à frente, era um cigano.
São sinos de São Lourenço!
Os sinos de mais de um tom.
Não dobram sinos na cidade branca,
foi ontem, suicidou-se era tão bom!
Ai sinos de São Lourenço!
Não dobram por mais engano.
Lá vai deposto da cidade branca
um homem que morreu republicano.
Mais tristes sinos da cidade branca.
Os sinos do derradeiro.
Caixão de linho virgem, é um anjinho
filha tão nova, um rapaz bombeiro».
In Portalegre, Setembro 1970

In Carlos Garcia Castro e Raul Ladeira, Os Lagóias e os Estrangeiros, edição da CM de Portalegre, 1992, Depósito legal nº 53094.

Cortesia de CMP/JDACT

domingo, 10 de março de 2013

Poesia. Gloria Victis. Não-Poemas. Carlos Garcia Castro. «Por ser concreto sem palavras lúdicas, meu gosto é mais de gestos que dizeres, aqui sentado ao canto na cozinha e sem barulho, para não estares sozinha»

jdact e raulladeira

Monogamia
- Olha! Não sei sequer pregar um prego.
Por diligência só de acompanhar-te,
que mais não sei cerzir outras tarefas
para te ajudar às lidas da cozinha,
aí me sento ao canto, sem barulho,
para não ficar nenhum de nós sozinho.
Por mais de amar-te no que posso e faço
com versos amestrados mas antigos,
que hei-de fazer nas lidas da cozinha?
Vou muita vez ao lixo na Praceta,
com ironia, para fazer de conta
ser tão vulgar como qualquer vizinho.
A minha ajuda é quase serviçal,
porque eu não sei sequer pregar um prego.

Versos que escreva saem sempre mínimos.
Em casa os faço, aqui os vou escondendo,
tão clandestinos fora como dentro,
vergonha de não serem conhecidos.
Por ser concreto sem palavras lúdicas,
meu gosto é mais de gestos que dizeres,
aqui sentado ao canto na cozinha
e sem barulho, para não estares sozinha.
Mal apareço em folhas dos Jornais,
e é disto que não passo ao ser doméstico.

Ter um escritório é ficar lá dentro,
ninguém do seu escritório faz cozinha,
poeta ao mesmo tempo destes versos
que na Praceta vai também ao lixo.

 - Eu que não sei sequer pregar um prego.

Ainda assim, lá vou compondo os versos
de alguma solução que é sofrimento.
Não é silêncio não fazer barulho.
Para não ficar nenhum de nós sozinho,
aqui me sento a ver-te na cozinha,
até que vá ao lixo na Praceta.

Escrever é vício, amar é condição.
Não é com versos que se prega um prego...
... nem é com versos que o amor se faz.

Fico sentado ao canto na cozinha.

Quando amanhã vierem cá jantar
os nossos netos mais os nossos genros
e a nossa nora, rapariga atenta,
os filhos sabem que eu não prego um prego.
 - Louvado seja o canto da cozinha.

Vou lá, para dentro, aqui não faço nada.

Todos cá vêm, vai haver jantar

Que hei-de dizer senão ficar sentado?
 - Sentindo quanto fazes na cozinha
e à espera de ir ao lixo na Praceta,
à espera da alegria do jantar.

Sabes que mais? Eu vou mas é deitar-me.
Mulher de amor, não vais ficar sozinha.

Não estar sozinho é dar-se em liberdade.
Do resto, o que é que fica? - A solidão?
Quem sabe a solidão? - A liberdade?

Poeta antigo sem pregar um prego,
tenho os limites dos meus versos métricos.
Dramas - se os há, não são da poesia.
Eu tenho os meus em ti já esclarecidos.

Uma cozinha pode ser um mito,
 - até, para quem souber pregar um prego.

Pode escrever-se sem se ter escritório,
contabilistas é que o não dispensam,
qualquer poeta vive sem escritório
 - mais fácil de entender que uma cozinha,
mais acessível do que ir ao lixo.
Mas eu não me dispenso aqui sentado,
suspenso, sem barulho, em companhia,
para não ficar nenhum de nós sozinho.

Nem o silêncio é não fazer barulho.

Há solidão também na companhia
de nem sequer saber pregar um prego,
embora seja ilustre fazer versos.

Por diligência, estes são convictos.

Aqui os deixo sem fazer de conta,
por fantasia em vida dos poetas...

(...) de alguma vez sentados na cozinha,
de alguma vez ao lixo na Praceta.

Carlos Garcia de Castro, in ‘Gloria Victis‘,
Portalegre, Abril de 2000

In Carlos Garcia de Castro, Gloria Victis. Não-Poemas, Edições Sempre-em-Pé, colecção Universos/Poesia, 2007, ISBN 978-972-8870-14-0.

Cortesia de Sempre-em-Pé/JDACT

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Poesia. Gloria Victis. Não-Poemas. Carlos Garcia Castro. «Gritos, se os houve, discussões ou sovas, encontros, desencontros, os sermões, as teimosias, birras, os caprichos que de menino fazem bem ao corpo e às almas trazem singulares segredos»

jdact e cortesia de raulladeira

Sucessores & Ca.
Morreu um homem, só deixou sarilhos.
Vou amanhã fazer umas escrituras.

Chegam e dizem, sem qualquer cinismo:
 - Que muitos anos viva para o lembrar.

Mas nada disto impede uma saudade,
nada retém o choro verdadeiro.

Tudo se lembra e ao mesmo tempo esquece,
assim serão nos astros os Buracos Negros.

Gritos, se os houve, discussões ou sovas,
encontros, desencontros, os sermões,
as teimosias, birras, os caprichos
que de menino fazem bem ao corpo
e às almas trazem singulares segredos,
tudo se esquece e ao mesmo tempo solta-se
para a dimensão genética do tempo,
lá onde tudo é certo e é viável
 - mas oculto.

Assim serão nos astros os Buracos Negros.
Morreu um homem, só deixou sarilhos.

Mas nesta concisão definitiva
de agora ter de haver novas escrituras,
em verso se dirá, no considerando,
daí surgir mais outra criação.

Assim serão nos astros os Buracos Negros.

Poema de Carlos Garcia Castro, in ‘Gloris Victis’, 19 de Maio de 1999

In Carlos Garcia de Castro, Gloria Victis. Não-Poemas, Edições Sempre-em-Pé, colecção Universos/Poesia, 2007, ISBN 978-972-8870-14-0.

Cortesia de Sempre-em-Pé/JDACT

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Poesia. Gloria Victis. Não-Poemas. Carlos Garcia Castro. «Por mais que digam o amor em versos, por mais que o cante, róseo, a poesia, por mais que o chorem, ébrios, os poetas, por mais que tu pareças madrepérola, por mais que os dois sejamos um no outro uma avalancha abalançar de engenho, hábil momento, prontidão expedita»

jdact e cortesia de raulladeira

Cabeça de cã
A minha idade é já de senador.
Classicamente quer dizer sou velho.
Pouco me falta para o descuido inapto,
assim se diz da hora de morrer.
Tanto me faz pensar como sentir.
Prezo o direito de não ter pudor
da minha liberdade sem pachorra,
sem explicações e outras atenções
para as grandes frases ditas em poemas.
A vida é natural sem literatura,
nem dela mais precisa um ser comum,
que é o que a morte faz de todos nós.
Por isso prezo o meu descuido inapto,
quer tenha feito ou não qualquer poema.
O mesmo se dirá dum canastreiro,
quer tenha feito ou não muitas canastras.
Tanto me faz. Não tenho é mais pachorra
praa as grandes frases ditas em poemas.
A minha idade é já de senador,
classicamente quer dizer sou velho,
esclarecido então para o tal descuido
de ser poeta ou ser um canastreiro.
2005


Celebração
Pareces mas não és de madrepérola.
Pouco me interessam já tais fantasias
que fazem do amor escrita em papel
às ordens dos poetas, não de ti.
Versos de amor são sempre longitude,
traçadas geografias, medições
que eu próprio também fiz, como num mapa,
a toponímia azul, mas de aparência.
Dizer de amor em versos não é prático,
por mais inteligentes que eles sejam.
Não é de versos que o amor se faz:
nunca o amor se fez a escrever versos
(embora os necessite para os seus mitos),
não se reparte só duma só parte.

Por mais que digam o amor em versos,
por mais que o cante, róseo, a poesia,
por mais que o chorem, ébrios, os poetas,
por mais que tu pareças madrepérola,
por mais que os dois sejamos um no outro
uma avalancha abalançar de engenho,
hábil momento, prontidão expedita
(noutras camas se deita quem não ama)
 - nunca preciso desse amor em verso,
escrita em papel sem mais que o pensamento.
O amor em ti comigo é mais exacto,
sem fantasias, porque tem lugar.

 - Lugar das competências mais vulgares,
lugar todos os dias alegrias
onde lá estamos, tu - mulher e espírito
dum homem que dispensa a poesia.

Pena que tenho, lucidez de hormonas,
de aqui ficarem dados estes versos
 - agora que não servem já para nós.
1999

In Carlos Garcia de Castro, Gloria Victis. Não-Poemas, Edições Sempre-em-Pé, colecção Universos/Poesia, 2007, ISBN 978-972-8870-14-0.

Cortesia de Sempre-em-Pé/JDACT

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Poesia. Portalegre. O Tarro. Garcia de Castro. «Já se lá vai para namorar sentado, escandalizar - de amor, ou posição que, embora vaga para fazer convites, é necessário para sonhar política: há sempre um caso para contar no ‘Tarro’!»

jdact

Tarro - Café-restaurante
O ‘Tarro’ fica na cidade nova
e quase sempre resplandece ao sol.

 - Para ir ao ‘Tarro’ é preciso um estilo.

À noite, na esplanada ao pé do lago,
lá onde voga um par de cisnes negros
no mesmo tom credencial dos bens
que ali se dão a consumir sorrisos,
crianças sociais de bicicleta
prosseguem o à-vontade de mostrar
como se é, se está ou se parece.

Comercial, seu nome de Café,
de Restaurante, de Snack-Bar - O ‘Tarro’
não é concisamente um edifício,
vale um desejo e faz como um perfume
quando se expande e torna indiscrição.

Ia dizê-lo a víscera da Cidade...

desta cidade de ambições solúveis,
bela amante que se dá e foge!
Ali palpita na leveza a forma
do mal por bem dizer grandezas mínimas.

Já se lá vai para namorar sentado,
escandalizar - de amor, ou posição
que, embora vaga para fazer convites,
é necessário para sonhar política:

há sempre um caso para contar no ‘Tarro’!

Lá estão à porta adolescentes vários,
contemplativos, a fumar porquês,
nos automóveis dos rapazes ricos,
motor e chapa, as vibrações da alma.

Somos do ‘Tarro’! andamos a estudar!
Nas escolas, no Colégio, no Liceu,
e os nossos pais, os transigentes, pagam,
dão-nos vontades de até ir para a Tropa.
São bons estes degraus para nos sentarmos
a conversar e a discutir justiça,
são bons para nos ouvirmos em silêncio,
pasmados de remorso e de preguiça.

A certa hora habitual conjunta,
quase só vêm os senhores doutores,
tanto os que o são de conhecida fé,
como os da fama pessoal, ambígua.

Então se evolam os odores do ‘Tarro’!

Lembram as missas de solene incenso
as cigarrilhas do vapor lustroso
que os gestos dignifica e os sapatos...

 - Ninguém lhe escapa ao gozo, se lá entra.

Daí que este retrato, esta paisagem,
banal decerto na Província magna,
não nos aperta, é como num museu.
Aqui, porém, cá dentro, em Portalegre,
onde inocência, pequenez, vaidade,
incrível, genial contradição
da sua urbanidade e vocativo,
são a virtude vegetal dos pombos,
- isso já custa, quase faz um perigo,
diria o acidente de um juízo:

 - olhar o passarinho, e ver-lhe as penas
como se elas e a cor do seu verniz
logo soubessem às carninhas mansas.

Poema de Garcia de Castro
, inOs Lagóias e os Estrangeiros’, 1992

JDACT

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Loja, Contra-Loja e Armazém. Tribuna Livre. Garcia de Castro. «Viram-me o sangue, também sou diabético. Estou quase surdo e tenho um aparelho, à cóclea ruminou a sinusite. Tomo o Dilfar com Monoket à noite, meu coração foi sempre uma surpresa. De igual parece andar aqui a próstata, muito me acorda até de madrugada»

jdact

«As lojas como tal, legítimas, as ancestrais, não foram preparadas nem previstas para a prática do self-service, que as aviltou, no corpo e na sua psicologia. O self-service ilude a liberdade de uma escolha que a Publicidade não deixa. As lojas publicitavam com a indicação dos artigos em prospectos, panfletos, e em jornais locais, quando muito regionais. Eram toscos os aliciantes visuais. As de maior dimensão e profusão, como algumas de Lisboa, anunciavam modernamente na Rádio, com paródia ou sem paródia, em débitos de patrocínio, ainda usados, com recursos de intuição e de ingenuidade, mas não podiam provocar a incisão técnica e científica, especializada, que suporta industrialmente a publicidade de massas, cujos custos, afinal, são planos de investimento e agressão de marcas em concorrência. Daí que frequentemente se faziam com os fregueses, ao escolherem, amizades persistentes: com fregueses e fornecedores. Não obstante uma maioria tornada desinteressada que o self-service desviou das lojas, subsiste nas cidades de Província e nos pequenos meios um núcleo de clientela que, mesmo utilizando o self-service nos centros próprios, nunca se evadiu por completo da loja primordial dos seus hábitos de comprar, do local reminiscente, quantas vezes da infância ou da juventude.

Alegres somos nestes passatempos
O nosso colesterol foi bem comido.
Que estes sinais não sejam melanomas.
( - Não tenha medo, homem, são pigmentos).

Viram-me o sangue, também sou diabético.
Estou quase surdo e tenho um aparelho,
à cóclea ruminou a sinusite.
Tomo o Dilfar com Monoket à noite,
meu coração foi sempre uma surpresa.
De igual parece andar aqui a próstata,
muito me acorda até de madrugada.
É inguinal à esquerda a hérnia velha,
tossir e defecar faz-se com arte.
Desenroscado trago o pé direito,
agora é que vou ser distinto e fino,
falicamente, de bengala ao lado.
Isso é o menos, o pasmar dos ossos
são as artroses e o tremer das mãos,
imito bem o Telmo do Garrett.
Já desço e subo as escadas devagar,
vão sempre à minha frente, rua fora,
trouxa de andar a passear às montras.
Com a bronquite quase já me babo,
e ao copiar os sustos que aqui deixo
(Já Bocage não sou, dizia o outro),
engrelo os olhos, catarata avante.
Só incisivos há para mastigar,
fìca a beiçola feita de borracha,
ao que as crianças julgam ser por graça
 - para a diversão da sua crueldade.

Alegres somos nestes passatempos.
Cem miligramas de aspirina Cártia.
Diferente, o dia-a-dia é prevenção.
Zestril dos atrevidos para a tensão
de alerta nas artérias, rebeldia
de quando ainda os picos do amor...
Quase diria na traição do corpo
que a mente que o suscita é por cinismo.

Não adianta o espírito ser jovem,
por mais que o digam lá no INATEL,
onde, grotescas, vestem de amarelo
velhas que surgem de peúgas brancas,
cabeça e panamá num tremedalho.
Não contradigo, mas já é cansaço
ter sempre à minha frente a preto e branco
a pança e as farpelas das viúvas,
lambeiras por excursões, as nalgas anchas,
suas tristezas de alegria à solta.
E não se calam de falar num gajo
que eu nunca conheci, exemplo de homem,
que morto as alivia a toda a hora
e me chateia por as ter de ouvir
 - embora lhes pressinta a solidão.
Não contradigo. Mas assim não quero.

Vocês já viram como somos lentos?
E andar de carro e conduzir o carro?
 - vai-se assustado logo a cento e vinte.
E o estacionar! Andar de marcha-atrás!
Estraleja o peito num tambor miúdo,
vem a sulfúria à volta dos ouvidos.
Cerviz que serve, sirva reboliça.

Dançar a valsa é bom e faz sentido
 - melhor seria não arfar com ela.
Dançar a valsa exercita o brio,
dá lustro ao brio, mas empasta as pernas,
briosos são os pés - de plasticina.
Às vezes vamos viajar às terras
que enciclopédias dizem maravilha,
mas cá de fora, antigos monumentos,
outras minúcias de artefactos lestos,
não se percebem, porque estão lá longe
dos olhos com pintinhas que há na luz
 - tudo aparece salpicado e baço.
Estropiados, arrastamos malas.

E gostam dos hotéis mais de três estrelas,
gozam do luxo que não há em casa,
não têm de aturar ninguém em casa,
que as faz mais solitárias estando nela
que estando nos hotéis de onde não saem.
Gastar dinheiro é bom para descansar.
Por isso insistem nestas passeatas,
sua vergonha de dizer: - Só cansa!
Mas cansa muito mais ser sogra em casa.

In Garcia de Castro, Loja, Contra-Loja e Armazém, Tribuna Livre, Edições Colibri, 2011, ISBN 978-989-689-162-6.

Cortesia de E. Colibri/JDACT

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Loja, Contra-loja e Armazém. Tribuna Livre. Garcia de Castro. «Todos parecemos mais próximos, ainda que o não estejamos, isso vem dos corações, salvo seja uma aflição em casa, liberdade isoladora, “self-service”, hipermercados. Sejamos, pois, globais»

jdact

«Será talvez por isso, vulgaridade? Habituação ou semântica? Que os supermercados passaram a dizer-se Lojas, alguns chamam-se Foruns. Decerto que é por isso que até dentro da prudência arrastada da Igreja, onde o papa saberá que nem tudo o que vai recomendando é seguido pelos fiéis mais inconformados, uma qualidade de teólogos se propaga, cada vez mais evangelicamente, com interpelações de um humanismo renovado, conciliador, de purificação doutrinaria, à existência da nossa realidade quotidiana em confronto disciplinar da Fé com a Natureza, o que, daqui não sei por quantos anos, provocará no seio do catolicismo, uma qualquer outra revoada salutar de Protestantes.
Basta que se vá, aos poucos, concertando com as aulas dos seminários ou centros de formação religiosa. Já cá não estarei para me alegrar com isso. Só que as elites específicas das Finanças e das Economias são marginais, resultaram marginais para connosco, homens comuns, o que pode ser perigoso, quando a situação de tal distância se nos tornar habitual e a vivermos como cultura. Stalin foi ditador. A Guerra Fria acabou. Como serão, económicas, as ditaduras sem país expiatório? A não ser que a chamada economia de mercado, o liberal-capitalismo por aí rebente algum a vez, provoque uma tal ruptura, que fiquemos ainda mais à rasca, sem se poder voltar para trás, sem saber como remediar, para continuar a ir para a frente. Seria um grande sarilho, ricos e pobres comidos, desvairados os políticos, a careca à mostra dos accionistas maiores, dos lobbies banqueiros, dos, os Estados e alguns dos seus impérios. Mas não há-de ser assim. Mesmo com o sofrimento, a ubiquidade da História há-de de novo saber reequilibrar-se. Já se fala banalmente em clonagem. Há maior informação. Mas que é ter conhecimento?
Todos parecemos mais próximos, ainda que o não estejamos, isso vem dos corações, salvo seja uma aflição em casa, liberdade isoladora, self-service, hipermercados. Sejamos, pois, globais. Mas não digam que o Modelo tem lojas por toda a parte. "Quando um valor entra em discussão, um facto social novo está para se dar." Se invertermos a sentença, dá no mesmo, se o facto estiver consumado. As grandes mudanças ocorrem dos interesses súbitos, quer de perto quer no mundo, quando emergem necessidades novas, ou do acaso, como em algumas descobertas, ou da variada invenção, do que faz uso o fito perspicaz da economia e riqueza, quer dizer, dominação. Os povos, então, adaptam-se ao destino que os transforma, para melhor ou para pior. Deste percurso das épocas se derivam as políticas e as metafísicas. Há sempre guerras, ou antes ou de permeio. As Artes, de fora parte, substância paralela, salpicam-se destes processos, deles ressaltam ou se abastecem ou lá mergulham, se absorvem, se alindam ou contrafazem, mas persistem circunscrição, igualmente mutável, reclamatória, indefinida, traçado no entanto consistente da mesma História. Das Artes se enobrecem casas grandes do comércio e traficância, impérios da sagração, como o dos papas, e ainda agora dela se adornam Companhias, Bancos, Gabinetes, fachadas, metropolitanos. As Artes são a fortuna pública dos museus. E diz-se comercialmente "investir em arte". As Artes são concordância». In Garcia de Castro, Loja, Contra-loja e Armazém, Tribuna Livre, Edições Colibri, 2011, ISBN 978-989-689-162-6.

Cortesia de E. Colibri/JDACT

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Loja, Contra-loja e Armazém. Tribuna Livre. Garcia de Castro. «A História traz proveito à custa de prejuízos. Fica sempre por detrás uma doutrina. Entrecruzam-se sem clara distinção objectiva os conceitos da Cultura com preconceitos, esquecimentos renováveis, habituações colectivas, e do que fica a marcar Civilização produzem-se mentalidades»

jdact

«Com os mesmos argumentos, alegaram em abono da pretensão, além de José Régio, que aqui toma relevância pela figura que já era, o professor adjunto da Direcção Escolar do Distrito e o chefe dos contínuos do Liceu, também ele Carrapiço (faleceu há poucos meses, jdact), o mesmo a que o Régio tinha aludido. Foi o Florindo Madeira, advogado, meu amigo e condiscípulo no liceu que, ao saber deste trabalho, teve a camaradagem de me enviar o processo da senhora Carrapiço. Encontrara-o no espólio do cartório do pai.
Os grandes Grupos, Empresas, as Sociedades, nacionais, transnacionais, Companhias de comércio e de serviços anunciam com felicidade alastrarem-se mais ou menos espectacularmente por tantas lojas assim e assim, mais isto e mais aquilo, propaganda por diversos locais do país. Loja Galp, Loja PT, Loja Postal, Loja Modalfa, Lojas do BPA - potencial de acções, de Bolsas e corretagem. Lojas, até, do Povo, do Cidadão, do condomínio, com gestores profissionais de carreira e acolhimento político, sectários, um luxo verificatório que se levanta a confrontar-se em negócios com o Estado. Por detrás os lobbies.
Foi a História que os criou, quer dizer, o imprevisto dos tempos, à escala da vertente endinheirada que ela sempre trouxe em si, com mais ou com menos arrojo dos homens, ao longo do trabalho e de urdiduras, mas ao longo, também, da invenção, das descobertas da Ciência, das aplicações da Ciência, com vário risco, competição e riqueza. o actual desígnio dito globalização, dentro de cujo ímpeto e aceleração se comprime a geografia dos continentes, se organiza a tolerância das culturas entre si, se aplica a electrónica e o falar da informática, tudo por força económica dos mercados da riqueza e das pobrezas que a segunda Guerra Mundial deixou de engenho e perspicácia aos blocos dela ganhadores e a ‘guerra fria’ temperou, justifica-me o tom irrecuperável da loja que me educou, provinciano. A História traz proveito à custa de prejuízos. Fica sempre por detrás uma doutrina. Entrecruzam-se sem clara distinção objectiva os conceitos da Cultura com preconceitos, esquecimentos renováveis, habituações colectivas, e do que fica a marcar Civilização produzem-se mentalidades. São as condutas da utilidade: dos factos, dos tempos, do movimento. A História as vai tragando, a História as faz e desfaz, não se pode ir contra ela, pelo menos eu não vou. Fui mau aluno de Historia, ainda sou, tenho dela mais sentimento, que é saber do circunscrito, só se vê o que está próximo, do que a verdade distinta, já não digo a do passado, mas da que virá no futuro. A História, por substância, é dinâmica, inovadora, imprevisível, fugar, perturbadora das almas conservadoras.
Quem há que, por exemplo, depois dos ajustes sociais e laborais sob que se expandiu e acabou por se acomodar, possa negar o progresso sucessório da Revolução Industrial? Ou da Renascença. Ou dos Descobrimentos portugueses. O sentido mais concreto da aplicação das ideias vem de Aristóteles, que as concluiu serem activas, operativas e úteis, como útil foi para elas a experiência do real. Quem se lembra do Defoe?, o que escreveu Robinson Crusoe, fantasia para a compleição do retorno. Não me admira que no século XXI proliferem piercings e tatuagens. Isaac Newton, passados que já são três séculos, permitiu-nos termos espaço confiante para os satélites, cosmonaves, telemóveis. Passámos à electrónica com que todos os dias fruímos os aparelhos dela, já se brinca em qualquer lado a emitir mensagens, com telemóveis, um animismo mecânico de excesso infantilizante, supérfluo com rendimento, pelo que são instaladas as lojas TMN. Nem os sábios viram um electrão! Quanto mais nós, gente vulgar incapaz de meditar no mistério da energia, a sublime matéria. De cada vez que os efeitos úteis se desfrutam com rotina, as coisas se desenvolvem e ao mesmo tempo se perdem na indiferença, já não tanto para com elas, muito mais para com a essência que as sustém ou justifica. Será talvez por isso que a Poesia quase não é procurada nas livrarias. Será talvez por isso que há menos padres e há mais seitas e mais astrólogos. Será talvez por isso (vulgaridade?) (habituação ou semântica?) que os supermercados passaram a dizer-se Lojas, alguns chamam-se Foruns». In Garcia de Castro, Loja, Contra-loja e Armazém, Tribuna Livre, Edições Colibri, 2011, ISBN 978-989-689-162-6.

Cortesia de E. Colibri/JDACT

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Loja, Contra-loja e Armazém. Tribuna Livre. Garcia de Castro. «É preciso fazer reparo. A experiência desta loja que aqui vou dizer de artesanal não condiz com o conceito do artesão convencional de oficina montada, a casa onde ele produz manufactura»


jdact e raulladeira

«Loja: termo que adquiriu extensão a todo o espaço funcional de satisfação indiferenciada de comércio ou de serviços. Perdeu o típico de ser casa de venda a retalho ou de oficina. Perdeu o çarácter da proximidade coloquial, vicinal, que implicava acolhimento. Nas lojas tradicionais se dava uma forma peculiar de relação humana. A diferença radical entre as antigas lojas e as também, não obstante, assim de novo designadas, encontro-a interiormente em mim, quando alguns amigos se admiram de eu não usar computador nem telemóvel, não ter cartões de crédito nem de Multibanco. A falta da minha loja tornou-me homem antigo, rebelde e compulsivamente analfabeto, que lamenta o consumismo com que aqueles aparelhos se aparentam. E não fico sozinho nesta irmandade. Milhentas pessoas há assim analfabetas, até nomes de fama.

É preciso fazer reparo. A experiência desta loja que aqui vou dizer de artesanal não condiz com o conceito do artesão convencional de oficina montada, a casa onde ele produz manufactura. Numa loja de comércio na cidade não há matéria prima a transformar com as mãos, aplicação mínima de máquinas e máxima de ferramentas. Numa loja de comércio concebida artesanal, a ideia prevalece pela prática administrativa da gerência e pela relação sócio-laboral dos seus intervenientes. A designação que lhe atribuo não contradiz o típico tradicional do nome correntemente ainda em uso, mas não quer corresponder-lhe por completo. Discordo do resíduo dessa nomeação, tradicional, sobrevivente de esforços instituídos para a impor e para a defesa do vendedor a retalho. É-me sinceramente indiferente que se diga tradicional. Mas dizer artesanal, implica relembrar um reforço de mentalidade e de vida já perdidas no comércio de transacção provinciana, de onde foi destituído o carácter patriarcal do mestre co-habitante com os seus oficiais e aprendizes. Em tudo foi oficina, menos no que numa oficina se transforma com as mãos, da madeira numa arca, do ferro na aiveca das charruas. Não é deste artesanato da matéria que aqui se diz. Não tem sentido físico específico, é mais artesanal das almas para o cidadão, afinal a metafisica do trabalho corporal na sociedade.
No fundo prático do meu dia-a-dia social, não me incomoda que se tenha passado a chamar lojas aos sítios onde não as encontro em vivência, por mais que os reconheça pontos de venda, ou de vendas, extensos ou reduzidos. Mas só por isso, abreviação. Tudo o mais em que os querem implicar é meramente uma associação artificiosa e falsificadora de expedientes, afinal, publicitários, da matriz legítima e profunda do comércio que com autenticidade no seu tempo próprio produziu lojas com ritmos e em circunstâncias naturais de identificação e carácter.
Sabe-se que um nome pode ser também estranheza e contradição. Provavelmente, o que acontece comigo, quando ouço chamar loja ao espaço de negócio sem afeições de um supermercado, com tudo o que de dispersivo e agitado encontro, se lá vou. Mas há nomes provocatórios, cujos sentidos variam de oportunidade ou de geografia. Com os apelidos, então, que são nomes para a sociedade, pode dar-se a rejeição. Justifica-se a transcrição a seguir: vem a propósito, porque faz de alegoria. E uma declaração de José Régio, registada em 1953 no cartório de Florindo Madeira, em manuscrito:
  • ´Testemunho que em várias regiões do país, especialmente no Norte, o nome Carrapiço é mal soante, prestando-se a chacota. [...] como houvesse no liceu um empregado com esse nome, quase me acanhava eu próprio de o nomear diante de senhoras ou até dos alunos. Também, citando no Porto alguns nomes usados no Alentejo, e que me parecem estranhos, citei esse entre amigos; e ele provocou riso e a mesma estranheza nos que me ouviam. Pelo que sou de opinião que, sendo possível, sempre será preferível evitar um nome que em dadas circunstâncias, e pelo menos em certos pontos do país, se pode tornar irrisório para quem o usa’.
Faz parte de um processo de supressão do nome de uma senhora que, desconfortada com o seu apelido de Carrapiço, a requereu ao Registo Civil, em vias que estava de se deslocar para o Norte, onde sabia haver dele malícia e constrangimento». In Garcia de Castro, Loja, Contra-loja e Armazém, Tribuna Livre, Edições Colibri, 2011, ISBN 978-989-689-162-6.

Cortesia de E. Colibri/JDACT