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segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos. José Manuel Anes. «Registe-se a tradição de que, em meados do século XIX, haveria uma corrente dentro da M. portuguesa que desejava que esta fosse a continuadora da Ordem de Cristo e à qual não seria estranha a figura do grão-mestre Costa Cabral»  

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Maçonaria, Rosacrucianismo e Templarismo
«(…) Para Pessoa, embora sejam vias distintas, existe uma perfeita articulação de complementaridade entre o Rosacrucianismo, o Templarismo e a Maçonaria: a Ordem Templária  da Escócia havia criado a M. (Maçonaria) como Ordem Mística. Os Rosicrúcios recrearam-na como ordem Mágica. À Ordem de Cristo competiu o fazer que houvesse nela uma Ordem Alquímica. Podemos dizer, na mesma linguagem maçónica, que a Maçonaria foi entrada pela Ordem do Templo, passada pelos rosicrúcios, erguida pela Ordem de Cristo. Desde que cumpriu a sua missão o emissário português, ficaram na Ordem Maçónica os elementos espirituais e transmutação. Quem quiser e souber buscá-los, os encontrará. A M. (doravante, Maçonaria) continuou, na sua aparência secreta, sempre a mesma; mas um novo espírito havia penetrado nela desde que Ramsay falara; um espírito ainda mais alto se despertara nela desde que ela falou o emissário do Ocidente. Está claro que esta afirmação é mais do que uma constatação histórica (pois a Ordem de Cristo existiu como sucessora da Ordem do Templo, é um verdadeiro programa iniciático no qual Pessoa parece estar empenhado e determinado a contribuir para o seu êxito. Neste sentido vale a pena referir o resto deste fragmento do espólio do Poeta: doravante referir-me-ei no termo Ordem do Templo à Ordem Templária da Escócia, para que não confunda com a ordem maçónica que tem este último nome; no termo Ordem de Cristo à Ordem Templária de Portugal, que é a parte interior da outra, hoje extinta. Fernando Pessoa refere-se aqui à tradição do templarismo esotérico, segundo a qual a Ordem do Templo teria um núcleo central, secreto, detentor de uma doutrina espiritual oculta, de natureza gnóstica. Parece ter a ver com isso a frase do Poeta; ... veio a formar-se, com certos fins místicos e secretos, dentro do seio visível da Igreja de Roma, uma Ordem que foi designada por Ordem Militar do Templo de Salomão. Os seus servos, iniciados ou não, são os que designamos pela abreviação de Templários. A esta Ordem Mística foram confiados os segredos e a tradição da Igreja Gnóstica (...) possuidora das chaves dos íntimos mistérios; foi a ela a que mais tarde se haveria de chamar, na linguagem dos Rosicrúcios, a Igreja Mística.
É interessante constatar duas notas que Pessoa dá sobre a Ordem de Cristo e ambas referentes ao século XIX: uma, do começo do século, que podemos encontrar em Miguel António Dias (1853), Anais e Código da Franco-maçonaria em Portugal, sobre um tal Nunes, português, ao que parece pouco recomendável, que foi a França vender o sonho de uma Ordem de Cristo ressurgida numa perspectiva iniciática (Nunes quis fundar uma O.C. dentro da M.. Isso estava de antemão condenado...; a outra, bastante enigmática e que levanta algumas dúvidas sobre a sua autenticidade, as provas da O.C. sob elas ficou esmagado Antero de Quental, que nunca passou de escudeiro. (A sua associação com elementos maçónicos e semelhantes, em parte contribuiu para sua derrota astral). Registe-se a tradição de que, em meados do século XIX, haveria uma corrente dentro da M. portuguesa que desejava que esta fosse a continuadora da Ordem de Cristo e à qual não seria estranha a figura do grão-mestre Costa Cabral, conde de Tomar, que comprou parte do Convento de Cristo para sua residência (e não sabemos se para outros fins...); testemunhos indirectos dessa corrente vêm pela mão dos seus críticos, como por exemplo, Borges Grainha (in História da Franco-Maçonaria em Portugal).

Rosacrucianismo
Vejamos, entretanto, a definição que Pessoa dá de Rosacruciano: podemos dizer Rosicruciano um indivíduo pertencente à chamada Fraternidade da Rósea Cruz (não da Rosa-Cuz) (...) alguém que pertença à Ordem Rosicruciana, ou, até, a qualquer das Ordens dela derivadas, o que tal pretendam, a G:, D:, A:, A:, e outras (...). A Ordem Rosicruciana, a Ordem-mãe, apareceu (ao que parece) no século XVII), não se sabe bem onde nem como, desenvolveu-se quantitativa e ritualmente, no século XVIII, em que se tornou maçónica, isto é, pôs como condição de admissão o ser-se Mestre Maçon, sob qualquer obediência regular, e subsiste hoje, com certas rectificações, e de novo (outra vez) sem a condição maçónica. Na sua primeira fase criou ou transformou a M., a Ordem Externa como estes Rosicrucianos lhe chamam». In José Manuel Anes, Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos, Ésquilo 2008, ISBN 978-989-8092-27-4.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

sábado, 22 de novembro de 2014

Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos. José Manuel Anes. «… é fora de dúvida que Cagliostro era um charlatão; mas não é menos fora de dúvida que era também, e paralelamente, um alto iniciado; é fora de dúvida que madame Blavatsky era um espírito confuso e fraldoso»

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Alquimia e Magia e Hermetismo
«(…) Penso, de facto, euo a dimensão mágica em Pessoa assenta, mais estruturadamente, em reflexões baseadas no esquema iniciático da Golden Dawn, em nossa opinião, na versão ocrowleyana do A. A., Argenteum Astrum e atinge a sua máxima dimensão nesse Livro que não o é, O Caminho da S. (Serpente), (Yvette Centeno, Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética). Durante a sua vinda a Portugal, em Setembro de 1930, Crowley e a sua companheira chegaram a Portugal a 2 desse mês, para além de dois almoços a 7 e a 8, com a Besta 666 e a sua Mulher Escarlate, Pessoa teria tido, segundo as suas declarações à Polícia, encontros mais frequentes com Crowley a partir de l7 de Setembro, data em que Hanni Jaeger terá fugido para a Alemanha. Sobretudo, participou, juntamente com o seu companheiro iniciático Ferreira Gomes, que aliás tem palavras muito elogiosas para Crowley na notícia que sai em 5 de Outubro do mesmo ano [é um erudito e um gentlemen, poeta, místico, caçador de feras, prático de rituais mágicos, químico e jogador de xadrez; alpinista..., coisas que não são bem características de um degenerado. (...) viveu como yogi numa aldeia da Índia, como castelão na Escócia, como boémio em Londres, Paris e Nova York..., fundou em (...) Itália, Cefalu, Sicília, uma fraternidade mística], embora também tenha palavras de reserva, ao que tudo indica para com Crowley [é fora de dúvida que Cagliostro era um charlatão; mas não é menos fora de dúvida que era também, e paralelamente, um alto iniciado; é fora de dúvida que madame Blavatsky era um espírito confuso e fraudoso; mas também é fora de dúvida que recebera uma mensagem e uma missão de superiores incógnitos; nos nossos dias há um exemplo estrondoso da mesma mistura], na simulação do suicídio de Crowley em relação ao qual é interessante referir, para além dos detalhes da história já bem conhecida, o que Crowley escreveu no seu diário: Sept 21. I decide to do a suicide stunt to annoy Hanni. Arrange details with Pessoa (21 de Setembro. Decidi fazer um suicídio acrobático para aborrecer a Hanni. Arranjar detalhes com Pessoa). E o seu biógrafo John Symonds comenta, a propósito: Fernando Pessoa did his part of the job well (Fernando Pessoa fez bem a sua parte do trabalho). Tratou-se, na verdade de uma cumplicidade solidária que se expressa no triângulo Crowley-Pessoa-Gomes.
É importante referir que Pessoa tinha na sua biblioteca três livros de Crowley, não só o The Confessions of Aleister Crowley (As Confissões de Aleister Crowley), como quase todos os pessoanos indicam e que já por si só revelaria um interesse pela vida e pela obra do mago Crowley, mas também outros dois, que ninguém pôs em evidência, os quais vêm, no entanto, mencionados na mesma lista de livros pertencentes à biblioteca pessoal de Fernando Pessoa e que são: Magick in theory and practice, being part III of Book 4 (Magia em Teoria e em Prática, sendo a parte III do Livro 4), de Master Therion, um pseudónimo iniciático de A. Crowley, numa edição de Paris (Lecram) que só pode ter sido ou a de 1929 ou a de 1930, referido com a cota 1-151 e incluído na rubrica Filosofia; 777, Vel Prolegomena symbolica ad systemam sceptico-mysticae viae explicandae, fundamentum hieroglyphicum sanctissimorum scientiae summae, London: The Walter Scoff Publishing Co., 1910, referido com a cota 2-1 e incluído na rubrica Religião, Teologia.
Trata-se de dois livros importantes da doutrina e da prática telemita de Crowley, revelando um interesse ainda mais profundo, da parte de Pessoa, quanto mais não fosse para se informar mais detalhadamente sobre o tema em questão, pois o primeiro aborda os aspectos práticos da Magia do novo aeon, incluindo a sexual, vermelha, no seu capítulo XX, On the Eucharist, on the Art of Alchemy (Sobre o Eucaristia, sobre o Arte da Alquimia), e o segundo é uma exposição da doutrina cabalística de Crowley, adaptada a partir da que ele aprendeu na Golden Dawn, e onde estão referidas, sob a forma de um dicionário mágico e filosófico as diversas correspondências simbólicas (entre as quais as sefiróticas) e iniciáticas dos graus desta organização rosacruciana, que Crowley transpôs para a sua Ordem, criada em 1907, a A:.A: (Argenteum Astrum, Estrela de Prata, em inglês, Silver Star, S.S).
Até que ponto Pessoa aderiu a estas doutrinas e a estas práticas do mago Therion é a pergunta que se impõe fazer. Que havia interesse, não há dúvida, primeiro porque adquiriu três livros de Crowley (um dos quais, pelo menos, antes de o conhecer, o Confessions), em segundo lugar porque resolveu corrigir o seu horóscopo dando-lhe conta do facto (através da Mandrake Press, editora de Confessions) e depois porque começou a corresponder-se com ele, they had been corresponding for a year (eles corresponderam-se durante um ano, escreve J. Symonds), a partir do momento em que Crowley lhe respondeu a agradecer-lhe». In José Manuel Anes, Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos, Ésquilo 2008, ISBN 978-989-8092-27-4.


segunda-feira, 3 de março de 2014

Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos. José Manuel Anes. «Qual será a identidade desse amigo que ele parece ter ido visitar várias vezes a Sintra (cf. A. Quadros, Obras de Fernando Pessoa e Vítor Belém, O Mistério da Boca do Inferno)? Terá ele a ver com a Quinta da Regaleira e com o seu proprietário….»

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Alquimia e Magia e Hermetismo
«(…) Ao mesmo tempo reflecte criticamente (e quem sabe com que dor) sobre o caminho de Mathers que não conseguiu controlar os seus demónios ... a luxúria, a bebida... No entanto, numa página solta, sem data, citada por António Quadros, revela uma reflexão complementar, um esclarecimento a posteriori ou a priori, não sabemos, a esta compreensão de uma Magia integradora do plano material: Tudo é um. O satânico é tão-somente a materialização do divino. A magia é uma só; a magia negra não é mais que a magia branca feita materialmente. O culto fálico, quando entendido como símbolo, é divino; quando tomado literalmente é orgíaco, e portanto satânico. Se conhecermos os processos da magia negra e os interpretarmos como símbolo, chegaremos ao conhecimento dos processos da magia branca. Deus é um espírito, diz a Bíblia: e o divino é  espiritual. O Diabo e a matéria (corpo) e a Trindade Satânica: o Mundo, a Carne e o Diabo. O Diabo (Saturno) é a Limitação. (Note-se que na biblioteca de Pessoa existia um livro de Franz Hattman, intitulado Magic, white and black. Então, para Pessoa, a Magia material, satânica, é apenas a materialização da Magia divina. Ela e satânica, apenas porque material.
Escreveu Pessoa, num dos fragmentos para o Ensaio sobre a Iniciação, que O Misticismo busca transcender o intelecto (por intuição). A Magia a transcender o intelecto pelo poder; o Gnose, a transcender o intelecto por um intelecto superior. Quem se distinguiu, na época de Pessoa, pelo poder mágico que possuía e desenvolvia, foi Aleister Crowley, o Mago Therion, a Besta 666, como se denominava a si próprio, que, vindo da Golden Dawn (para onde entrou em 1898), fundou a Astrum Argentum (ou Stella Matutina) em 1903 e foi o máximo responsável pela O.T.O., Ordo Templi Orientis, organização pseudo-templária, criada por Carl Kellner em 1901 que, na realidade praticava uma magia sexual, particularmente desenvolvida por Theodor Reuss e depois por A. Crowley. Pessoa conheceu Crowley, através da sua obra, tendo traduzido o seu poema O Hino a Pan e citando o lema crowleyiano Faz o que quizeres, é a única Lei o que o levou a dissertar, a propósito: Descobre aquilo que és; descobre o que aquilo que és deseja; faz o que desejas enquanto aquilo que és. . Além disso, veio a conhecê-lo pessoalmente pois Crowley visitou Lisboa, em 1930, acompanhado da sua Mulher Escarlate (a sua parceira tântrica, na época, Hanni Jaegger). Quem descreve todo este enredo à volta da visita do Mago a Lisboa é Vítor Belém na sua obra O Mistério da Boca do Inferno - o encontro entre o poeta Fernando Pessoa e o Mago Aleister Crowley (publicada pela Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, em 1995) onde faz uma síntese das informações disponíveis até ao momento. Muito importante é também o trabalho de Luísa Alves Um excêntrico encontro anglo-português: Aleister Crowley e Fernando Pessoa.
De facto, terá sido uma correcção do horóscopo de Crowley, feita por Pessoa e a ele comunicada por carta, que parece ter motivado a curiosidade do Mago de conhecer o poeta-astrólogo (talvez também, uma mensagem - a Mensagem? - que Crowley refere numa das suas cartas a Pessoa in Vítor Belém). Crowley esteve em Lisboa, presumivelmente 23 dias, de 2 a 25 de Setembro de 1930, durante os quais se encontra com Pessoa (parece que com alguma incomodidade deste), eventualmente com Augusto Ferreira Gomes, jornalista, amigo e companheiro do poeta no mundo do ocultismo, e com um amigo que Crowley tinha em Sintra. Qual será a identidade desse amigo que ele parece ter ido visitar várias vezes a Sintra (cf. A. Quadros, Obras de Fernando Pessoa e Vítor Belém, O Mistério da Boca do Inferno)? Terá ele a ver com a Quinta da Regaleira e com o seu proprietário (de 1920 a 1945), Pedro Carvalho Monteiro, filho de António Augusto Carvalho Monteiro?
De qualquer forma, o acontecimento mais mediatizado (em Portugal, em Inglaterra e em França) dessa visita, foi o desaparecimento do Mago, ocorrido simultaneamente com uma simulação do suicídio de Crowley na Boca do Inferno, em Cascais e no qual parecem ter desempenhado um papel de alguma cumplicidade, Fernando Pessoa e Augusto Ferreira Gomes, o qual, por acaso, encontra um bilhete de Crowley dirigido à mulher escarlate, no local do suposto suicídio: Não posso viver sem ti. A outra Boca do Inferno apanhar-me-á, não será tão quente como a tua (in Vitor Belém, O Mistério da Boca do Inferno e que, também parece ter preparado a notícia sobre este caso, no Notícias Ilustrado, de 5 de Outubro de 1930». In José Manuel Anes, Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos, Ésquilo 2008, ISBN 978-989-8092-27-4.


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Maria Madalena nos Textos Apócrifos e nas seitas Gnósticas. Wilma Steagall Tommaso. «… a equiparação do espírito com o bem e da matéria ou a carne com o mal, seguem presentes no pensamento cristão hoje em dia, e seus indícios se encontram já na primeira ortodoxia cristã e nos ideais posteriores do monasticismo ocidental»

Cortesia de wikipedia

Gnosticismo
«(…) O gnosticismo foi um movimento religioso que, nos primeiros séculos do cristianismo, desdobrou-se numa multidão de seitas que partilhavam uma concepção de gnose em comum, combatida e rejeitada pela Igreja. Essas seitas acreditavam que a salvação vinha através do profundo conhecimento de si e de Deus, que a chave para a destruição era a ignorância e, para se chegar à perfeição, o homem deveria buscar o conhecimento (gnose). Foram várias e ecléticas as correntes gnósticas e muitas compartilhavam a ideia de que o mundo, a carne e a matéria que o compunham, estava irremediavelmente corrompido e controlado por forças malignas, e que só o espírito era puro. Segundo algumas seitas gnósticas, Deus não é o criador nem o governador do mundo, por isso há um enorme abismo entre Ele e o homem. Deus será sempre estranho e incognoscível ao homem, a não ser que o homem se converta no destinatário de uma revelação sobrenatural. Ao parecer dos gnósticos, Deus, o ser supremo do amor, não poderia ter criado este mundo caótico e malvado. Por essa razão atribuem a criação do mundo a uma deidade menor e imperfeita, o Demiurgo. O homem, imperfeito por definição, era também obra do Demiurgo (a ideia do Demiurgo já havia aparecido em O Timeu, de Platão, como o criador de um belo e harmonioso cosmos; segundo um salmo de Valentino, a queda de Sofia provocou a criação do Demiurgo que, por sua vez, foi o artífice do mundo e da matéria). A ignorância e o pecado do homem eram os responsáveis pela corrupção do mundo. O homem, feito de corpo, alma e espírito, estava condenado à danação. À excepção de alguns eleitos, que possuíam uma chama divina ou pneuma, que também era estranha ao mundo material, a humanidade não poderia se salvar. A fé gnóstica e o cristianismo ortodoxo, no princípio do século III, estavam tão relacionados que as seitas gnósticas cristãs floresciam por todo o Império Romano (o gnóstico desejava transcender todos os males da humanidade neste mundo e só conseguiria mediante o verdadeiro conhecimento intelectual, e, portanto, acessível só a uma selecta minoria, cujos membros se denominavam espirituais).
Essa gnose era revelada aos iniciados pelos escritos secretos e pela iluminação interior. Esses iniciados que supunham ter um conhecimento maior de Deus, de sua natureza espiritual e da existência humana, separam-se dos outros cristãos, que aceitavam que o conhecimento de Deus chegava até eles por meio dos bispos e clérigos da Igreja. Pode-se dizer que o gnosticismo foi um movimento anti eclesial que resistia aos cristãos que se organizavam como Igreja. O gnóstico acreditava na presença divina em si mesmo e não em uma instituição humana, não havia necessidade de uma mediação institucional para se entrar em contacto com Deus, também por isso os gnósticos se tornaram, para a Igreja, hereges da fé. O surgimento do gnosticismo é ainda uma questão muito debatida, havendo uma tendência moderna em fazer coincidir nas suas raízes a filosofia grega, sobretudo a platónica, mesclada a crenças judaicas, orientais e cristãs (até o século XIX, só se conhecia o gnosticismo e seus adeptos pelos escritos de seus adversários ortodoxos, sobretudo Irineu, Tertuliano (160-225), Orígenes (185-254), Hipólito de Roma (que morreu por volta do ano 200) e Epífanes (315-403) os quais consideravam as seitas gnósticas perversões heréticas e, portanto perigosas e, se esmeravam em descrevê-las com precisão, embora com subjectividade, a fim de refutar suas crenças).
A partir do século IV, o gnosticismo foi relegado ao esquecimento, provavelmente devido ao intenso combate que sofreu da Igreja; porém, alguns de seus conceitos sobre o dualismo como a equivalência do espírito com o bem e da matéria, ou seja, a carne com o mal ainda permanecem, como podemos observar em Haskins: … alguns elementos de seus preceitos duais, sobretudo a equiparação do espírito com o bem e da matéria ou a carne com o mal, seguem presentes no pensamento cristão hoje em dia, e seus indícios se encontram já na primeira ortodoxia cristã e nos ideais posteriores do monasticismo ocidental que influenciaram sobretudo no conceito medieval da virgindade e culminaram com a apoteose da Virgem Maria e na criação mítica de Maria Madalena.

Maria Madalena nos textos apócrifos
Nos apócrifos gnósticos, na sua maior parte, escritos entre os séculos I e III, Maria Madalena tem um papel preponderante como encarnação terrestre da Sophia Celeste. Ela era considerada a intérprete e reveladora da doutrina gnóstica, a mulher que conhecia o todo. Essa definição se encontra no texto apócrifo Diálogo do Salvador, no qual é Maria Madalena quem revela a grandeza do Revelador. O Pistis Sophia, escrito no século II ou III d.C., baseado nos ensinamentos do Evangelho de Valentino, descreve a queda, o arrependimento, as iniciações e a reintegração da Sophia (Sabedoria), o princípio feminino que emanou da divindade. É o maior e mais elaborado dos textos gnósticos, o que mais referência faz a Maria Madalena. (é um tratado de doutrina gnóstica, estruturado como uma revelação, em forma dialógica, de Jesus ressuscitado a um grupo que abrange os onze e as quatro mulheres, Maria mãe de Jesus, Maria Madalena, Marta e Salomé, a maioria das perguntas a Jesus são colocadas por Madalena [...]. Pela profundeza espiritual das perguntas e das respostas, é louvada por Jesus, de uma forma muito mais solene do que qualquer outro interlocutor [...]. A ela Jesus se dirige directamente como à pessoa que pode compreender, ao passo que aos outros discípulos pede um esforço de compreensão)». In Wilma Steagall Tommaso, Maria Madalena nos Textos Apócrifos e nas seitas Gnósticas, Revista Último Andar nº 14, Junho, 2006.

Cortesia de Revista/JDACT

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Os Mistérios Gnósticos da Pristis Sophia. J. Van Rickenborgh. «E sucedeu, quando o sol despontou no oriente, através do Primeiro Mistério, que existe desde o princípio, e por cuja causa se originou o Universo do qual eu mesmo acabo de chegar…»

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Considerações sobre o Livro I da Pistis Sophia
Livro I
«(…) Quando essa força luminosa desceu sobre Jesus, sucedeu que, de forma progressiva, ela o envolveu por completo. Então, ele ergueu-se e foi elevado às alturas, irradiando luz imensurável e fulgurante. Os discípulos seguiram-no com o olhar, e ninguém falou até ele alcançar o céu, mas permaneceram em profundo silêncio. Isso aconteceu no décimo quinto dia da lua, no dia da lua cheia, no mês de Tybi. Três horas depois de Jesus ter sido elevado ao céu, todas as forças do céu entraram em grande comoção e se agitaram umas contra as outras, elas e todos os seus éons e todas as suas regiões e ordens. Toda a terra, com todos os seus habitantes, foi tomada por grande estremecimento. E todas as pessoas sobre a terra e também os discípulos entraram em estado de grande inquietação, e todos pensaram que talvez o mundo estivesse desabando. Todas as forças do céu continuaram abaladas, elas e o mundo inteiro. Moviam-se umas contra as outras desde a terceira hora do décimo quinto dia do mês de Tybi até a nona hora do dia seguinte. E todos os anjos, e seus arcanjos, e todas as potestades das alturas exaltavam o interior dos interiores, de tal modo que todo o mundo ouvia suas vozes, ininterruptamente, até a nona hora do dia seguinte. Os discípulos estavam juntos, aterrorizados e em grande agitação, e temiam muito por causa do grande terremoto que acontecera, e choravam, e diziam uns aos outros: O que irá acontecer? Destruirá o Salvador todas as regiões?
Enquanto eles assim falavam e choravam juntos, os céus abriram-se na nona hora do dia seguinte, e eles viram Jesus descer, extremamente radiante, e era extraordinária a luz em que ele se achava. Porquanto resplandecia ainda mais do que na hora em que fora elevado, de tal modo que os habitantes da terra não conseguiam abarcar a luz que nele estava. Ela emitia raios de luz em profusão, e seu brilho era imensurável. Essa luz não era uniforme, mas heterogénea em tipo e natureza, sendo que uns raios eram infinitamente mais luminosos do que outros. Em sua totalidade, a luz consistia em três tipos, cada um infinitamente mais resplandecente que o anterior. O segundo, o do meio, era mais excelente que o primeiro, o mais inferior. O terceiro, o mais elevado dos três, era mais perfeito do que os outros dois. O primeiro raio, que se encontrava sob os outros dois, assemelhava-se à luz que descera sobre Jesus quando fora elevado aos céus. Contudo, apenas por sua luminosidade esse raio era igual àquele. Os três tipos de luz estavam constituídos de diferentes maneiras, cada uma mais magnífica do que a outra.
Ao verem isso, os discípulos ficaram muito aterrorizados e confusos. Jesus, o misericordioso e manso, vendo seus discípulos em tão grande agitação, disse-lhes: Tende confiança. Sou eu. Não temais. Tendo ouvido essas palavras, eles disseram: Ó Senhor, se és tu, recolhe teu esplendor luminoso para dentro de ti, para que possamos suportá-lo. Senão nossos olhos serão ofuscados; estamos aflitos, e todo o mundo também está abalado por causa da grande luz que está em ti. Em seguida, Jesus recolheu o fulgor de sua luz de volta para si. Quando isso ocorreu, os discípulos recobraram ânimo, dirigiram-se a Jesus, caíram por terra, adorando-o com grande alegria, e perguntaram-lhe: Senhor, aonde foste, ou qual foi a missão que cumpriste? E, sobretudo, porque ocorreu toda essa agitação e todo esse terremoto? Então disse-lhes Jesus, o Misericordioso: Alegrai-vos e rejubilai desta hora em diante, porque fui para a região de onde vim. A partir de agora falarei convosco com toda a franqueza, desde o princípio da verdade até a sua consumação, e falarei convosco frente a frente, sem metáforas. Doravante nada mais vos ocultarei do mistério do Alto e da essência do reino da verdade. Porque, pelo Inefável e pelo Primeiro Mistério de todos os mistérios, foi-me dado a autoridade de falar convosco sobre a verdade, desde o princípio até sua consumação e do exterior para o interior, e do interior para o exterior. Ouvi, portanto, para que eu vos conte todas as coisas. Quando, no Monte das Oliveiras, sentado um pouco distante de vós, meditava sobre a missão da incumbência para a qual eu fora enviado e que fora realizada, e que o último mistério dos vinte e quatro mistérios, o vigésimo quarto do interior para o exterior, ainda não me enviara minha veste. Esses vinte e quatro mistérios encontram-se no segundo espaço do Primeiro Mistério na ordem daquele espaço. Quando então reconheci que estava realizada a missão da incumbência para a qual eu fora enviado, e que esse mistério ainda não me enviara minha veste, que eu deixara em seu interior até que o tempo estivesse cumprido, comecei então a meditar sobre isso, quando sentei-me um tanto afastado de vós no Monte das Oliveiras.
E sucedeu, quando o sol despontou no oriente, através do Primeiro Mistério, que existe desde o princípio, e por cuja causa se originou o Universo do qual eu mesmo acabo de chegar, não na época que antecedeu minha crucificação, porém agora, por mandamento desse mistério foi-me enviada minha veste-de-luz, que me fora dada desde o princípio e eu deixara no último mistério, do interior para o exterior. Esses vinte e quatro mistérios são os que se encontram na ordem do segundo espaço do Primeiro Mistério. Deixei então esse manto de luz no último mistério até que chegasse a hora certa de vesti-lo e de começar a falar à humanidade para revelar-lhe tudo da verdade, desde seu princípio até a sua consumação; para falar-lhe do interior dos interiores até o exterior dos exteriores e do exterior dos exteriores até o interior dos interiores. Alegrai-vos, pois, rejubilai e regozijai-vos, pois vos foi concedido que eu falasse primeiro convosco da verdade, desde seu princípio até sua consumação. Porque eu, já desde o princípio vos escolhi pelo mandamento do Primeiro Mistério». In J. Van Rickenborgh, De gnostieke mysteriën van de Pistis Sophia, 1960, Rozekruis Pers, Holanda, Die gnostischen Mysterien der Pistis Sophia, 1992, Os Mistérios Gnósticos da Pistis Sophia, Lectorium Rosicrucianum, Escola Internacional da Rosacruz Áurea, Brasil, Pentagrama, Lisboa, 2012, ISBN 978-85-62923-12-6.

Cortesia de Pentagrama/JDACT

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos. José Manuel Anes. «… o Misticismo busca transcender o intelecto (por intuição). A Magia a transcender o intelecto pelo poder; a Gnose a transcender o intelecto por um intelecto superior…»

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Alquimia e Magia e Hermetismo
«(…) Essa interpretação da Alquimia é já diferente da anteriormente exposta e pode ver-se, por exemplo, neste trecho, que apresenta uma maior conotação sexual, tântrica (quer da mão direita, imaginariamente, quer da mão esquerda, fisicamente: a Matéria Prima é a Vida (a Vida Corporal). O Homem e a Mulher necessários para a produzir têm de ser obtidos pelo adepto dentro de si mesmos, ou satanicamente, unindo a homo com a heterosexualidade, ou divinamente, com a castidade (...).

Magia, cabala e vias tântricas ocidentais
São diversos os livros sobre estes assuntos, que Pessoa possuía na sua biblioteca dos quais citaremos, a título de exemplo, os seguintes: (The) Kabbalah unveiled, de Rosenroth, traduzido por Mathers (um dos cisionistas da Golden Dawn, contra o poeta e Prémio Nobel, Yeats, tendo sido acompanhado na sua rebelião por Crowley), Magic white and black, Hartman (teósofo e rosacruciano alemão, fundador em 1888, da Rosa-Cruz Esotérica) e Le Kama Soutra, de Vatsyayana (o popular tratado de divulgação de técnicas tântricas, que pode levar, no entanto, muitos ocidentais a ficarem com uma imagem limitada ou mesmo deformada do Tantrismo, já que este não se limita a uma ginástica sexual, é muito mais do que isso). No nosso artigo de 1998, referimos muito rapidamente a reflexão pessoana sobre a Magia, sobretudo através dos textos publicados por Yvette Centeno, para o Ensaio sobre a iniciação, dos quais destacámos o seguinte: o Misticismo busca transcender o intelecto (por intuição). A Magia a transcender o intelecto pelo poder; a Gnose a transcender o intelecto por um intelecto superior mas, continua Pessoa, para transcender uma coisa devidamente, é preciso primeiro passar por essa coisa. No mesmo Essay on the Initiation, podemos ler: há três tipos distintos de iniciação, simbólica ou exterior intelectual (exterior à interior) e vital (interior...). Nas iniciações vitais, que reforçam a emoção e, portanto, conduzem à Alquimia como realização, o candidato vive aquilo que sente e sabe.
Temos aqui que Fernando Pessoa considera uma Magia vital, que passa pela sensação, e além disso, reconhece que para se transcender uma coisa devidamente, é preciso primeiro passar por essa coisa, estes são princípios básicos do Tantrismo (oriental ou ocidental, gnóstico ou hermético). No entanto, no mesmo Ensaio, mas noutro fragmento, o Poeta escreve: a primeira tentação a ser vencida, para que sejam evitados os Erros do Caminho, é o Mundo. A segunda tentação a ser vencida, para que sejam evitados os Erros da Pousada, é a Carne. A terceira tentação a ser vencida, para que sejam evitados os Erros da Cripta, é o Diabo. As tentações são comuns a todos os caminhos, mas o místico está mais sujeito à tentação do Mundo, o mágico à tentação da Carne, o gnóstico à tentação do Diabo. O dizer-se que o mágico está mais sujeito à tentação da carne, implica seguramente que ele utilize pelo menos um tantrismo da mão direita. E, no mesmo fragmento, revelando um bom conhecimento da história de uma das personalidades fundadoras da Golden Dawn, refere Pessoa: dificilmente haverá um mágico que não sucumba a coisas que revelam a fraqueza da vontade. O fim terrível de Mac Gregor Mathers embrutecido pelo álcool é um caso pungente. Ele poderia talvez controlar os diabos de Abremalin; não foi capaz de controlar os seus (fossem eles a luxúria, a bebida ou a desonestidade).
Portanto, Fernando Pessoa reconhece a Carne como uma tentação a ser vencida pelo Mago (a carne está perto do mago...), mas, segundo ele próprio afirma no mesmo Essay, não a evitando, mas passando por ela, vencendo-a, de modo a transcendê-la, pois, como ele diz, quem sabe, por exemplo, o significado místico e transcendente da cópula? (...) isto é mais sério que quanto de sério há na vida aparente.

In José Manuel Anes, Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos, Ésquilo 2008, ISBN 978-989-8092-27-4.

sábado, 22 de junho de 2013

Os Mistérios Gnósticos da Pistis Sophia. J. Van Rickenborgh. «Tampouco lhes havia contado sobre a região dos três Améns nem sobre as regiões onde alcança seu poder, nem lhes havia mostrado em que locais estão plantadas as cinco árvores, nem algo relacionado aos outros sete Améns…»


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Considerações sobre o Livro I da Pistis Sophia
Prefácio
«(…) Com esse embasamento pode-se reflectir um pouco sobre a sabedoria e a força divinas das quais os homens preparados devem participar. Sabedoria e força são os primeiros requisitos para seguir de fato o caminho da libertação da alma e conseguir levá-lo a um bom fim. O facto de ter recorrido à Doutrina Universal, que ficou preservada durante séculos, comprova que, em vosso anseio, nunca fostes abandonados. Os mistérios gnósticos da Pistis Sophia, ressoa outra vez o chamado divino para o mundo e a humanidade, sobretudo para que conheçam o grande mistério do reino de Deus. E quem compreende esse chamado se torna capaz de encetar o caminho de retorno ao campo de vida original. Para alcançar esse objectivo, cada ser humano necessita a Sophia, a sublime sabedoria divina, como guia no caminho que está à sua frente.

Atravessando todas as esferas dos éons,
caminha a Pistis Sophia,
depois de ter purificado no Gólgota
o santuário do corpo.

Nenhum poder do mal pode impedi-la
de abrir a vontade para o Espírito.
Entoando os cânticos de vitória,
ela ingressa agora na eterna festa do amor.

Livro I
Quando Jesus ressuscitou dos mortos, passou onze anos dialogando com seus discípulos e instruiu-os apenas até as regiões do Primeiro Mandamento e do Primeiro Mistério atrás do véu, ou seja, a respeito do conteúdo do Primeiro Mandamento. Este é o vigésimo quarto mistério do interior para o exterior, dos que estão no segundo espaço do Primeiro Mistério que está adiante de todos os mistérios: o Pai na imagem da pomba. E Jesus disse a seus discípulos: Eu vim do Primeiro Mistério, que é o último, quer dizer, o vigésimo quarto mistério. Os discípulos não sabiam nem entendiam que dentro desse mistério ainda havia algo mais; porque pensavam que esse mistério fosse o cabeça do Universo e de tudo o que existe, a culminância de todas as culminâncias, porque, sobre esse mistério, Jesus lhes havia dito que ele abrange o Primeiro Mistério e mais as cinco ideias primordiais e a grande Luz e os cinco auxiliares e toda a Câmara do Tesouro de Luz. Além disso, Jesus não havia ensinado a seus discípulos a respeito da extensão total de todas as regiões do grande Invisível e dos três poderes tríplices, nem sobre os vinte e quatro invisíveis e todas as suas regiões, todos os seus éons e ordens, e como eles se expandiram, a saber, as emanações do grande Invisível, nem sobre os seus incriados, autogerados e gerados, e suas estrelas cintilantes, e seus sem-par, e arcontes, e potestades, e regentes, e arcanjos, e seus decanos, e seus servidores, e todas as habitações de suas esferas e todas as suas ordens.
Jesus não havia instruído seus discípulos sobre todos o desdobramento das emanações da Câmara do Tesouro de Luz, nem sobre suas ordens e como foram criadas; também nada lhes dissera sobre seus salvadores e como foram formados de acordo com a ordem de cada um. Também não lhes contara quais guardiães estão diante de cada portal do Tesouro de Luz. Também nada lhes contara a respeito do lugar do Salvador-Gêmeo, que é a criança da criança. Tampouco lhes havia contado sobre a região dos três Améns nem sobre as regiões onde alcança seu poder, nem lhes havia mostrado em que locais estão plantadas as cinco árvores, nem algo relacionado aos outros sete Améns, a saber, as sete vozes, onde fica seu domínio e de que maneira elas se estendem. Jesus não havia dito a seus discípulos de que tipo são os cinco auxiliares nem onde se encontram. Tampouco lhes dissera de que maneira a grande Luz se difundira ou a que regiões chegara. Nem mesmo lhes havia falado a respeito das cinco ideias e do Primeiro Mandamento e a que domínio chegaram.
Todavia falou com eles de modo geral ao instruí-los sobre a existência dessas entidades; mas não falou sobre sua extensão, e a ordem de suas regiões, e como foram formadas. Foi por essa razão que eles também não sabiam que ainda havia outras regiões no interior desse mistério. Ele não dissera a seus discípulos: Eu saí dessa ou daquela região até que entrei naquele mistério e, de novo, dele saí. Todavia limitou-se a instruí-los, dizendo: Eu vim desse mistério. Por isso, a respeito daquele mistério, eles pensaram que era a culminância de toda a culminância, o centro do Universo e o Pleroma total. Porque Jesus dissera a seus discípulos: Esse mistério envolve tudo o que lhes tenho falado desde o nosso encontro até o dia de hoje. Por isso os discípulos pensavam que dentro desse mistério nada mais existia.
Sentados juntos no Monte das Oliveiras, os discípulos conversavam com grande alegria e entusiasmo sobre as seguintes palavras: Abençoados somos nós dentre todas as pessoas da terra, porque o Salvador nos revelou isto e obtivemos a plenitude e toda a perfeição. Enquanto assim falavam entre si, Jesus estava sentado um tanto distante deles. No décimo quinto dia da lua no mês de Tybi, no dia da lua cheia, quando o sol seguia sua trajectória, surgiu por trás dele uma potente força luminosa que brilhava de maneira tão extraordinária que era ilimitada a luz que estava ligada a essa força. Porque ela provinha da Luz das Luzes e do último mistério, a saber: o vigésimo quarto, do interior para o exterior, dos mistérios que estão nas ordens do segundo espaço do Primeiro Mistério.
Essa força luminosa desceu sobre Jesus, envolvendo-o por completo, enquanto ele estava sentado um pouco distante de seus discípulos; e resplandecia intensamente na imensurável luz que estava sobre ele. A luz na qual Jesus se encontrava era tão forte que os discípulos não podiam vê-lo, porque seus olhos estavam ofuscados pela imensa luz que o envolvia. Eles viam apenas uma luz que emitia muitos raios. Os raios luminosos não eram iguais, porém a luz era de natureza e qualidade diversas, de baixo para cima, um raio infinitamente mais excelente que o outro, num grande e imensurável fulgor que se estendia da terra até o céu. Ao verem essa luz, os discípulos foram tomados por grande temor e comoção». In J. Van Rickenborgh, De gnostieke mysteriën van de Pistis Sophia, 1960, Rozekruis Pers, Holanda, Die gnostischen Mysterien der Pistis Sophia, 1992, Os Mistérios Gnósticos da Pistis Sophia, Lectorium Rosicrucianum, Escola Internacional da Rosacruz Áurea, Brasil, Pentagrama, Lisboa, 2012, ISBN 978-85-62923-12-6.

Cortesia de Pentagrama/JDACT

Os Mistérios Gnósticos da Pistis Sophia. J. Van Rickenborgh. «O Décimo Terceiro Éon, ou o campo de força universal através do qual a quinta-essência, o quinto elemento básico da substância primordial, o éter ígneo ou éter eléctrico, é inflamado…»

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Considerações sobre o Livro I da Pistis Sophia
Introdução
«O manuscrito gnóstico Pistis Sophia, atribuído ao famoso gnóstico Valentino, nascido em Alexandria e que viveu no segundo século d.C., foi descoberto na segunda metade do século XVIII pelo médico londrino A. Askew. Após sua morte, o manuscrito foi adquirido em 1785 pelo British Museumem Londres, onde está conservado desde então, com a designação de Codex Askewianus. O Livro I do evangelho Pistis Sophia traz os comentários pormenorizados que Jan van Rijckenborgh apresentou na década de sessenta do século XX. Ela aparece numa época em que inúmeras pessoas questionam a origem, a essência e o objectivo da Gnosis. O livro dá, à luz da Gnosis, uma resposta directa ao problema da verdadeira finalidade do homem e mostra a direcção que deve ser seguida para se alcançar essa finalidade, o estado de alma vivente.
No evangelho Pistis Sophia se fala sobre duas correntes que representam duas ondas eletromagnéticas. Uma delas é identificada como corrente do conhecimento, a Pistis, e a outra como corrente da sabedoria, a Sophia. Uma se relaciona inteiramente com o conhecimento humano comum de cada época de transição, de modo que a humanidade inteira pode detectar essa emanação e deve a ela reagir. A outra corrente se mantém absolutamente afastada deste mundo, embora irradie para dentro dele afim de que cada um que busca Deus possa enfim escapar da natureza e encontrar a Sophia, a sabedoria, e até mesmo tornar-se na Sophia.
Chegamos agora a uma época na qual muitas pessoas receptivas à Gnosis anseiam pela libertação com profundo anelo e com maior ou menor grau de consciência. Elas tentam reconhecer a origem de sua comoção e a meta de seu anseio, e verificam se podem alcançar essa meta. Essas pessoas conseguem compreender, à luz da Gnosis, o verdadeiro significado das palavras, muitas vezes obscuras, da Pistis Sophia por meio das explicações dadas por J. van Rijckenborgh. Assim vemos as duas referidas emanações, a Pistis e a Sophia, que procedem da natureza espiritual. A Pistis desperta e promove a comoção da massa no mais amplo sentido da palavra e, assim, actua de modo extremamente forte sobre a inteligência humana. A Sophia, a segunda emanação, ao contrário, volta-se para os eleitos, dos quais fala Paulo na sua Epístola aos Efésios, os habitantes da fronteira em sua época, com o objectivo de salvá-los da natureza da morte e elevá-los ao reino do Pleroma divino. A Sophia deseja despertar nos eleitos o novo estado de alma, a nova consciência e o novo pensar da alma.

Prefácio
Infelizmente, este livro não pôde ser concluído na sua totalidade, porque o seu autor, Jan van Rijckenborgh (1896–1968), faleceu enquanto trabalhava na obra. O autor descreve no livro como é possível para um homem ultrapassar os véus do Décimo Terceiro Éon como a Pistis Sophia o fez. Ele nos dá uma explicação completa sobre a nova força-luz que se revela como um chamado, um novo objectivo de vida, uma nova missão. Contudo, essa missão precisa ser cumprida para que triunfe a verdadeira vida, e não a morte. Entrementes, terão perguntado: Afinal sobre o que versam de facto os mistérios do Décimo Terceiro Éon? Eis a resposta: são os mistérios da Corrente da Fraternidade Universal de Cristo ou, como diz Jacob Boehme: ÉCristo, que atingiu o coração da natureza decaída.
O Décimo Terceiro Éon, ou o campo de força universal através do qual a quinta-essência, o quinto elemento básico da substância primordial, o éter ígneo ou éter eléctrico, é inflamado com os outros quatro estados etéricos, subsiste eternamente. E desse lugar, desse campo de força, nenhuma energia pode ser retirada. O homem-alma-espírito vive e existe mediante o Décimo Terceiro Éon. Jesus Cristo dá a todos os que o aceitam a força e o poder para viver no Décimo Terceiro Éon. Como o homem pode viver em conformidade com o Décimo Terceiro Éon? O candidato ao smistérios gnósticos enfrenta treze momentos de transformação anímica, durante os quais ele precisa lutar até ao fim para alcançar o verdadeiro renascimento da alma.
Essas transformações da alma, por assim dizer, substancializam-se nos treze cânticos de arrependimento da Pistis Sophia:
  • 1. No primeiro cântico, a Pistis Sophia descobre a dialéctica e o estado de condenação da humanidade. Ela entoa o cântico da humanidade;
  • 2. No segundo cântico, a Pistis Sophia descobre sua própria condição natural. Ela entoa o cântico da consciência;
  • 3. Nessa base, a Pistis Sophia entoa o cântico da humildade diante da única luz verdadeira;
  • 4. Segue-se, então, o cântico da demolição, o eu é levado à sepultura;
  • 5. O cântico da rendição é a fase seguinte, a Pistis Sophia faz a entrega total de si mesma;
  • 6. Nessa base é entoado o cântico da confiança. Ela implora pela luz com fé absoluta;
  • 7. No sétimo cântico de arrependimento, a Pistis Sophia entoa o cântico da decisão. É a ascensão ou a queda;
  • 8. Em seguida começa a perseguição. Os éons da natureza atacam a Pistis Sophia de maneira vigorosa, e ela entoa o cântico da perseguição;
  • 9. Depois de entoar o cântico da ruptura, a Pistis Sophia se livra de modo definitivo de seus perseguidores;
  • 10. A seguir, a Pistis Sophia entoa o cântico do atendimento da oração. E, pela primeira vez, ela vê a Luz das Luzes;
  • 11. A força da fé é submetida, então, a uma prova final. A Pistis Sophia entoa o cântico da prova de fé;
  • 12. Em décimo segundo lugar, a Pistis Sophia vivencia a grande prova que podemos comparar à tentação no deserto. Ela entoa o cântico da grande prova:
  • 13. Por fim, a Pistis Sophia canta o décimo terceiro cântico de arrependimento, o cântico da vitória, a alma eleva-se, reconhece o Espírito e vai ao seu encontro, ao seu Pimandro».
In J. Van Rickenborgh, De gnostieke mysteriën van de Pistis Sophia, 1960, Rozekruis Pers, Holanda, Die gnostischen Mysterien der Pistis Sophia, 1992, Os Mistérios Gnósticos da Pistis Sophia, Lectorium Rosicrucianum, Escola Internacional da Rosacruz Áurea, Brasil, Pentagrama, Lisboa, 2012, ISBN 978-85-62923-12-6.

Cortesia de Pentagrama/JDACT

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos. José Manuel Anes. «… assim o alchimico, ao operar, materialmente quanto aos processos, mas transcendentemente quanto às operações, sobre a matéria, visa transformar o que a matéria symboliza, e a dominar o que a matéria symboliza para fins que não são materiais»

Bodas alquímicas, Donum Dei, séc. XVII
Cortesia de wikipedia

«Ora, este último parágrafo, que refere o contacto com os símbolos magicamente carregados e, com os mitos, quer sejam verdadeiros, ou verdade, vai estabelecer a ponte para a interpretação, por parte de pessoa, da alquimia laboratorial, que ele conhecia, pelo menos, através do Tratado português do século XVIII, Ennoea, ou a Aplicação do Entendimento sobre a Pedra Filosofal, de Anselmo Caetano Munhoz e Castelo Branco, livro que pertencia à sua biblioteca. Yvette Centeno, que patrocinou e apresentou a reedição do Ennoea na Gulbenkian, em 1987, ano em que sai, em Mafra, uma outra reedição, com prefácio de Manuel Gandra, é responsável pela publicação (entre muitas outras valiosas peças) de um interessantíssimo fragmento do espólio pessoano, justificativo da alquimia laboratorial:

os elementos que compõem a matéria têm um outro sentido; existem não só como matéria, mas também como símbolo. Há, por exemplo um ferro-matéria; há porém, e ao mesmo tempo, e o mesmo ferro, um ferro-símbolo. Cada elemento simboliza determinada linha de força supermaterial e pode, portanto, ser realizada sobre ele uma operação ou acção, que o atinja e o altere, não só no que elemento, mas também no que símbolo (...) assim o alchimico, ao operar, materialmente quanto aos processos, mas transcendentemente quanto às operações, sobre a matéria, visa transformar o que a matéria symboliza, e a dominar o que a matéria symboliza para fins que não são materiais.

René Alleau, no seu livro Aspects de L'Alchimie Traditionelle (1953), afirmará mais tarde,  em notável acordo com a tese pessoana, que a alquimia, ao constatar que tudo o que é observável é simbólico, afirma que tudo o que é simbólico é observável.
Alguns textos de Pessoa parecem estar de acordo com a afirmação dos rosa-crucianos de que a Alquimia espiritual e a alquimia material são respectivamente, o Ergon e o Parergon. Por exemplo, aquele excerto que tem a ver com as proximidades divina e satânica das duas alquimias:
  • a alquimiu material é satânica, o espiritual é divina.
Neste contexto, cite-se Álvaro de Campos que, na Ode Marítima, irá evocar o

Deus dum culto ao contrário,
um Deus monstruoso e satânico,
um Deus dum panteísmo de sangue.
Álvaro de Campos - Livro de versos.

Mas ao mesmo tempo Pessoa escreve que:
  • Tudo é um. O satânico é tamsómente a materialização do divino.
Esta perspectiva global e integradora dos diversos planos da realidade, bem característica da alquimia, está bem clara no poema que Dalila Pereira da Costa cita no seu livro pioneiro:

Sursum Corda. Erguei as almas!
Toda a matéria é espírito,
porque Matéria e Espírito são apenas nomes confusos,
dados à grande sombra que ensopa o Exterior em sonho
e funde em Noite e Mistério o Universo excessivo!



Como o está no texto anteriormente citado e que atribui como verdadeira criação da Pedra Filosofal, o fazer dentro de si mesmo a união dos dois princípios, o material e o espiritual, o masculino e o feminino, o racional e o emocional, etc. Esta unidade da Realidade e também, portanto, das técnicas adequadas para se progredir nela, é referida em textos do Poeta/Mago e Alquimista, que estabelecem uma ponte entre este parágrafo (Alquimia) e o seguinte (Magia)». In José Manuel Anes, Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos, Ésquilo 2008, ISBN 978-989-8092-27-4.

sábado, 9 de junho de 2012

Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos. José Manuel Anes. «Os evangelhos são somente dramatizações ou, em outras palavras, cristianizações, da tragédia de Lida. São rituais dramáticos, e os três primeiros evangelhos, os chamados sinópticos, são primeiras redacções, só no Quarto Evangelho está acabada a dramatização»



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Gnosticismo
«Como muito bem observa Dalila da Costa, ‘Tudo levará a crer que seria o desaparecimento actual da parte esotérica no catolicismo, uma das causas preponderantes que afastaria Fernando Pessoa da sua religião confessional’, motivando a ‘procura desta parte do seu conhecimento secreto e reservado’, noutras formas de espiritualidade características do ‘esoterismo cristão’, ou do gnosticismo cristão, ou hermetismo cristão da ‘Ordem do Templo’ e da ‘Fraternidade dos Rosa-Cruz’. É claro que a “gnose cristã”, melhor o “gnosticismo cristão” (para não o confundir com as doutrinas de um Clemente de Alexandria, de um Orígenes ou de Ireneu de Lyon, mas próximas da norma triunfante), tem, do Cristo, uma perspectiva muito diferenciada, relativamente ao Cristianismo das grandes Igrejas e denominações (Catolicismo, Ortodoxia, diversas correntes protestantes, etc.). É verdade que Fernando Pessoa recebeu da teosofia (via “A Doutrina Secreta” de Blavatsky) a noção de que a personagem de Cristo foi construída em cima de um guerrilheiro judaico em revolta contra o opressor que foi preso e condenado e crucificado um século antes da nossa era, na localidade de Lida, entre Jerusalém e Jafa. Como Pessoa escreve na obra “Subsolo”:
  • ‘Os evangelhos são somente dramatizações ou, em outras palavras, cristianizações, da tragédia de Lida. São rituais dramáticos, e os três primeiros evangelhos, os chamados sinópticos, são primeiras redacções, só no Quarto Evangelho está acabada a dramatização, e postos os selos mágicos. Por isso, para o Católico verdadeiro, são dipensáveis os outros evangelhos’. E mais adiante: ‘Dada a tragédia de Lida, os Demiurgos ergueram o Mártir em Verbo’.
Fernando Pessoa dá exemplo desta transposição do homem-mártir para o Deus-mártir no seguinte trecho do “Átrio” que embora longo, decidimos transcrever devido à sua importância, o qual ele intitula “Ordens do Átrio”, do “Claustro e do Templo: seus mistérios, iniciações e rituais”. Suponhamos que os Mestres ou Sacerdotes de uma Ordem do Templo, de posse, como tais, de uma verdade divina, e suponhamos que essa verdade é a do Verbo incarnado e sacrificado para a redenção do Mundo. Suponhamos, ainda, que esses sacerdotes, de posse dessa verdade real e não simbólica, vivem num mundo pagão, crente nos deuses múltiplos da religião grega ou romana. Suponhamos, mais, que esses mestres da doutrina secreta querem comunicar aos que o mereçam, por provarem que merecem, a doutrina secreta de que são senhores. Formarão para isso Mistérios, ou Iniciações. E, na formação do ritual desses Mistérios, procederão da seguinte maneira. Buscarão, primeiro, entre os deuses pagãos qual é aquele cuja história possa conformar-se, como a sombra ao corpo que a projecta, à vida e à morte do Verbo. Encontrarão, por exemplo, Baco, em cuja história divina há analogias evidentes com a do Verbo incarnado, ainda que em nível diferente, que é o que é preciso. Redigirão uma fórmula em que, eliminando os acidentes que perturbem a semelhança, consigam dar, na história de Baco, por símbolo e analogia, a história do Verbo. E esta fórmula, uma vez encontrada, chamar-se-á a Fórmula do Transepto. Nela está obtido o segredo supremo da Ordem ou Mistério a criar, mas o verdadeiro segredo está guardado por eles, altos iniciadores, pois o que vão transmitir como verdade suprema nesse mundo pagão e ainda uma sombra da verdade.
Feito isto, prosseguem. E buscam então uma figura, real ou mítica, para quem possam transpor os incidentes, não já da vida e da morte do Verbo, mas da vida e da morte de Baco. Qualquer figura servirá, desde que nela não haja baixeza, e o que com ela se passa possa atrair de uma maneira indirecta; e será preferível uma figura, ou inteiramente mítica, ou de quem tão pouco conste na história, que tudo que se queira se lhe possa sem risco ser atribuí do. Para essa figura transpõem os pormenores da vida e da morte de Baco, em maneira translata, isto é, a figura não pode ser de um Deus, nem de qualquer modo revelar que oculta a de Baco. Haverá mais íntimo afastamento entre esta figura e a de Baco, que entre a de Baco e a do Verbo. Obtida esta figura, faz-se a equivalência da sua vida e morte, com a vida e a morte de Baco; “e é em torno desta figura, duplamente simbólica, que se escreve o ritual”. Assim, todo o ritual é o símbolo de um símbolo, a sombra de uma sombra. E é a esse ritual, que por iniciação se comunica aos candidatos, que se chama a Fórmula do Limiar”.
Para bom entendedor...
Em síntese, acrescenta Pessoa: ‘O Cristo (...) não existe senão simbolicamente; é substancialmente simbólico. Cristo (..) é um mito na sua própria realidade; é real na proporção em que é mítico. É só símbolo, mas só símbolo de si-próprio...’. Isto conduz a uma concepção cósmica de Cristo, mais ampla, que integra e completa não só os deuses e os mistérios das antigas religiões, mas também a concepção “humanizada” de Cristo».  
In José Manuel Anes, Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos, Ésquilo 2008, ISBN 978-989-8092-27-4.