Mostrar mensagens com a etiqueta Marvão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Marvão. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Aníbal Belo (1945-2001). Carta de Marvão. «… aliviava-se, com prazer, a falar de teatro, de tipografias, dos presencistas, e muito especialmente de Francisco Bugalho, e de José Régio…»

jdact

NOTA:: Mário Rainho faleceu no dia 2 de Janeiro de 2025, com 97 anos

«Daquele aconchego agasalhante, dado a peregrino de longe que vinha pedir pousada, tomei boa nota para a vida, evocando, da memória, os versos de ouro de Pitágoras, quando impõem o dever de honrar os pais e de agradecer a hospitalidade do estalajadeiro. Agora, em triunvirato, o Garcia, eu e o Mário Rainho continuamos a nova rota traçada por via de destinos e de circunstâncias, enleados de redes de sentimentos e de olhares, que o andar dos passos mostraram ser comuns.

O Mário Rainho aproveitou para me levar às Casas Amarelas, que mais não eram do que a sede do poder judicial, onde também estava instalada a Conservatória Registral, que ele próprio personalizava. De notável espírito de observação, era ali, por dentro daquelas janelas de guilhotina, o seu terreiro profissional, onde a sua vocação se professava, à lente, a analisar os documentos e cartas públicas do notário de Marvão, que, todas as semanas, desapiedadamente, lhe deixava, aos montes, fruto da sua exaração semanal, com letra miudinha, o que o obrigava a levantar, obliquamente, os óculos, para enxergar as certezas daquelas verdades declaradas.

Haveria eu de lembrar por muitos anos a sua assinatura, com uma grande cauda sobreposta e alongada, quase elíptica, a abranger o seu nome todo, que, com o andar dos anos, de elisão em elisão, se ia sintetizando, desnudando-se dos arredondamentos originários. No intervalo dos seus tiques registrais, aliviava-se, com prazer, a falar de teatro, de tipografias, dos presencistas, e muito especialmente de Francisco Bugalho e do irmão e de José Régio e das suas Histórias de Mulheres, entretendo-se na discussão da lenda de misoginias, que acerca dele se cultivavam. Os dias futuros haviam de me mostrar a sua enorme e talentosa capacidade de interpretar papéis, de difícil tradução, na arte de representar.

Era ininterrupta a sua constância, no apelo aos elementos da sua equipa de teatro, que dirigia, exigindo-lhes presenças, que só a luta contra o cómodo da televisão vencia, deixando-as, livres, para o ensaio ou para a declamação. A militância por todos os valores da sua terra faziam dele um centro de atenções, que testemunhava a circum-navegação de todos os acontecimentos colectivos na Vila. O Mário Rainho não era qualquer pessoa subalterna a valores do espírito, sempre rente ao saber, sempre ao pé do sortilégio da beleza incandeante, que o motivara a ser quem é, formatado pelas circunstâncias da vida, marcada que foi, logo na infância, pelas letras que apreendera a colocar na tipografia, umas ao lado das outras, o que lhe propiciou o amanhecente gosto pela leitura. Era um caso típico de autodidaxia, no qual conseguiu forjar uma personalidade de vigores e robustecimentos, donde emergem virtudes e valências, que sobrepairam à vulgar mediania, onde, latentes, as mediocracias medram.

O Mário Rainho, agradecido ao acaso por aquele tão fortuito encontro, contente de mim, ao lado dele e do Garcia, ao seu lado, ia ilustrando a Vila dos seus varões ilustres, do passado e do presente, quando me sugeriu, por ali estarmos perto, dar uma saltada à Câmara da vila, onde o Presidente Carolino teria, com certeza, prazer em conhecer-me, e com quem eu gostaria de falar. Que sim, que era boa ideia, e lá fomos os três, ao mesmo tempo, ao mesmo lado, como que a gradar as ruas e os acontecimentos que se tinham rebolado sobre elas.

Seguimos pelas Carreiras de Cima e fomos lá à frente, onde parámos, para entrar, subindo, uma grande escadaria, que se atingia, depois de ultrapassado um precioso portão de ferro forjado, como que a dizer do subido e superior ar daquela casa municipal, domicílio das respostas às solicitações dos cidadãos da vila e do seu termo. O Presidente apareceu, o Mário Rainho disse quem eu era, e com saudações contagiantes nos cumprimentámos, com delicadezas mútuas, que o tempo haveria de decretar duradoiras». In Aníbal Belo, Carta de Marvão, Edições Universidade Fernando Pessoa, 2001, ISBN-972-8184-66-2.

Cortesia da U.F. Pessoa/JDACT

Castelo de Vide, Mário Rainho, Aníbal Belo, Marvão, JDACT, 

domingo, 8 de maio de 2016

O Falar de Marvão. Teresa Simão. «Por influência do que aí se faz e em parceria, a partir de 2006, Marvão passou também a festejar a sua fundação, no primeiro fim-de-semana de Outubro»


jdact

Caracterização
«A variação de uma 1íngua está intimamente associada ao percurso histórico-social dos seus falantes e das comunidades em que estes se inserem. Assim, considerámos pertinente a apresentação de alguns aspectos referentes à história, à demografia e à etnografia do concelho em estudo. No que diz respeito à origem do topónimo Marvão, muito se tem reflectido e teorizado, tendo surgido, até à data, diversas explicações, que a seguir se apresentam.
Segundo o padre Diogo Pereira Sotto Maior, em 1619,no Tratado da Cidade de Portalegre, Marvão terá sido fundado pelos moradores de Medóbriga e não por mouros. A este propósito, refere o autor duas lendas, encontrando-se numa delas uma explicação para a denominação Marvão: quando Medóbriga foi conquistada e destruída por Cássio Longino, a sua população viu-se forçada a fugir e a refugiar-se nos rochedos onde actualmente se situa a sede do concelho. Ao subirem tão íngreme encosta, os habitantes em fuga iam desfalecendo e caindo, dizendo uns para os outros: maluão, maluão; e daqui mudado o l em r se chamou Maruão....
Segundo um documento manuscrito do século XVIII, intitulado Anteguidades e Alguas Notabilidades da Villa de Castelo de Vide e seu Termo, conta-se que um capitão, chamado Capitam Bidé, ao cercar a cidade de Arménia, que na altura se chamava Medrobigua, os seus habitantes pediram-lhe três dias para tomar uma decisão e, à traição, de noite, dirigiram-se ao monte em que hoje se situa Marvão. Quando o capitão soube da fuga para tal sítio, simplesmente respondeu: ... deixaios ir, que mal vão; querem dizer os traditores, que daqui se corrompeo a palavra; donde agora se vem a chamar a Villa de Marvão, que esta naquelle mesmo sitio, e se dis ser da propria gente, que fugio edificada. Ainda que apresente esta versão, o autor deste manuscrito não concorda com ela. No seu ponto de vista, ... não sedevia desta palavra tomar o nome a villa de Marvão; e paresse que o devia tomar por currupção do nome da Cidade desamparada, que se chamava Mirobriga; ou Medobriga...
Possidónio Laranjo Coelho veio, em 1982, apresentar uma explicação muito semelhante às referidas anteriormente, marcada também por um valor pejorativo. Segundo este autor, no seio do povo surgiu a justificação de que o nome Marvão deriva de Mal Vão, expressão proferida pelos habitantes do município quando se referiam aos prisioneiros de guerra e militares que para lá iam desterrados, já que o monarca Fernando I declarou a vila couto de homisiados, para assim garantir mais facilmente a defesa da fronteira e o povoamento durante o longo período de guerra com Castela.
Augusto Pinho Leal e, mais tarde, também Possidónio Laranjo Coelhos (baseado nele) apresentam uma teoria diferente, defendendo que o topónimo tem a sua origem no nome de um cavaleiro do Islão, senhor de Coimbra, Ibn Maruan que, em 776, se refugiara no morro onde actualmente se situa a sede do concelho. Adel Sidarus defende também que o topónimo Marvão terá origem mourisca e explica-a fundamentadamente. No século X, o historiador cordovês Isa Ibn Ahmad ar-Rázi, ao relatar as façanhas de Ibn Maruán e a sua dinastia, já se reporta a este local como ...o Monte de Amaia, conhecido hoje por Amaia de Ibn Maruán.... Nesse mesmo texto, surgem também outras designações, tais como; fortaleza de Amaia, A sua [de Ibn Mauan] fortaleza de Amaia, Fortaleza de Amaia-o-Monte, deixando o documento perceber que, de todas, a denominação que acabou por prevalecer foi a de Amaia de Ibn Maruán, designação que evidencia o nome do seu fundador em detrimento da sua importância enquanto ponto estratégico-militar. Ainda de acordo com Adel Sidarus, o fundador de Marvão, Ibn Maruán, terá sido um nobre de Mérida que se destacou no último quartel do século IX ... como rebelde e caudilho muladi (autóctone islamizado). e, juntamente com a sua família, liderou a contestação contra os emires de Córdoba. Depois de se ter refugiado na fortaleza de Ammaia e de ter fugido para o norte de Portugal, regressou a Badajoz e, a partir daí, tentou reconquistar o seu poderio político-militar. Assim, foi considerado o fundador de Badajoz (em 875 d. C.) e também de Marvão (em 877 d. C.). Desde 1998 que em Badajoz se comemora a sua fundação, Almossassa, por Ibn Maruán. Por influência do que aí se faz e em parceria, a partir de 2006, Marvão passou também a festejar a sua fundação, no primeiro fim-de-semana de Outubro». In Teresa Simão, O Falar de Marvão, Edições Colibri, Lisboa, 2011, ISBN 978-989-689-107-7.

Cortesia de EColibri/JDACT

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Jorge de Melo em Portalegre. O bispo. A história e a Arte. Manuel Inácio Pestana. «Trinta e dois anos aqui viveu o bispo, tempo demasiado longo para uma vida estéril, pacata, imóvel, perfeitamente inconcebível no homem de fibra e de ânimo forte e decidido que nele se adivinha»

jdact e cortesia de postais de Portalegre

«(…) Desses contactos acreditamos que derivassem naturais benefícios para Portalegre, cidade que teve no rei João III o seu verdadeiro rei, a quem tanto ficou a dever, e no bispo Jorge um indubitável e dedicado amigo e servidor. Trinta e dois anos aqui viveu o bispo, tempo demasiado longo para uma vida estéril, pacata, imóvel, perfeitamente inconcebível no homem de fibra e de ânimo forte e decidido que nele se adivinha. Para além de ter cuidado da publicação das Constituições do bispo D. Pedro Gavião e da elaboração dos Estatutos de S. Bernardo de Portalegre, vinte anos lhe sobejaram para acompanhar as obras do convento e do seu precioso monumento funerário. Escasseia documentação que permita conjecturar o que teria sido, de facto, a vida deste homem em Portalegre. Mas bastará atentar na qualidade da obra que nos deixou no domínio das artes para compreendermos que se trata de um espírito culto e iluminado, sentindo e pressentindo a força e a filosofia da época, a Renascença em plena pujança, com o exemplo do rei mecenas a tentar naturalmente também as suas inclinações, ele, a quem a bolsa farta não preocupava. Com os mestres, artistas e peritos ocupados na obra total de S. Bernardo, desde os arquitectos aos decoradores, decerto se entreteria; e quantos não terá ajudado?
Se entendeu por bem fazer em Portalegre tão boa aplicação dos lucros de Alcobaça e se os seus estudos de Paris e de Roma não foram de facto em vão, ele, que já na abadia deixara sinal vivo do gosto e respeito que tinha pelas artes maiores e pelos artistas, deve-se-lhe, p. ex., o enriquecimento em manuelino e reforma do gótico remoto do Mosteiro, também dessa forma serviu a Igreja e serviu os seus próprios gostos. Não foi, porém, com o gótico ou o gótico-manuelino em Portalegre. Foi sim, o Renascimento, ainda que, conforme as palavras de Jorge Rodrigues e Paulo Pereira, nessa construção a teoria da luz revela o escopo do programa arquitectural manuelino ‘e’ as coberturas são nervadas (…) fazendo uso das da ogiva, assim como noutros pormenores que correspondem à primeira campanha das obras se manifeste a influência anterior do gótico final. Jorge, na paz tranquila do pétrio túmulo, contempla aquele sagrado encontro, intencionalmente encomendado, por razões pessoais de fé, de sentimento e de significado, neste caso por se tratar de tema muito do gosto humanístico dos séculos XV e XVI, pela imagem de esposa ideal em oposição à mulher feiticeira, tentadora e pecadora.
Santa Ana era o exemplo representado e ensinado da esposa que assegura a prosperidade material e que respeitava o marido na ausência, enquanto ocupado com os seus negócios, ideal que prosseguiu aceite até ao século XVII. Depois impor-se-á o dogma da Imaculada na figura sagrada da Virgem Maria, sua filha, concebida sem pecado. Este culto de Santa Ana, fortalecido desde os finais da Idade Média, tinha suas raízes nos Evangelhos Apócrifos (ou secretos, significado mais correcto o correntemente atribuído de errados ou não canónicos), dos quais o Protoevangelho de S. Tiago, o Menor, mais ou menos dos anos 150 da era cristã, é o mais antigo dos evangelhos ditos de ficção e o que mais terá influenciado a imaginação dos artistas renascentistas.
A Porta Dourada, ainda hoje existente, só será aberta no fim do Mundo; é um símbolo forte, por isso mesmo escolhida para o encontro dos pais de Maria, reconciliados no desgosto de não terem descendentes, e que ali se juntaram depois do anúncio que a cada um fizera um anjo.  Soube assim, Ana que iria tornar-se, apesar da sua idade avançada, a mãe da Mãe de Jesus Salvador, o que, na verdade, aconteceu nove meses depois, história, mais tarde e sucessivamente, acrescentada em outros e mui variados pormenores, tendo servido de inspiração aos artistas. Estas são razões suficientemente justificadas da utilização de um tema tão complexo e tão carregado de simbolismo, assim como, do mesmo modo, se justifica a presença esculpida de outras figuras do agiológico cristão (S. Simão, Santa Helena, S. Miguel, S. Jorge e os fundadores da Ordem de Cister S. Bento e S. Bernardo) e a exaltação de Nossa Senhora representada em glória na edícula superior do majestoso painel». In Ibn Maruán, Manuel Inácio Pestana, Revista Cultural do Concelho de Marvão, Coordenação de Jorge Oliveira, nº 4, 1994.

Cortesia da CM de Marvão/JDACT

sábado, 13 de setembro de 2014

Jorge de Melo em Portalegre. O bispo, a história e a Arte. Manuel Inácio Pestana. «… o bispo Jorge de Melo pensado nesta hipótese quando decidiu escolher para o exílio voluntário uma das povoações mais distantes da igreja da Guarda, situada para além do Tejo, invocação geográfica importante da bula papal?»

jdact e wikipedia

«(…) E logo vem uma proveitosa notícia, autêntica, subscrita desta forma pelo padre Diogo: E ainda hoje estão na cerca de S. Francisco desta cidade umas casas que agora servem dos azeméis dos religiosos e de palheiros, onde pousava este, frei Baltasar, bispo de anel que era pois como se sabe, um coadjutor expressamente destinado às consagrações e ordenações. São muito importantes, em nosso entender, as informações do padre Soto Mayor, importantes para a história de Portalegre, sem dúvida, mas ainda mais para o conhecimento da vida e práticas do bispo aqui instalado. Pormenores inéditos apresentam-se de tal modo sugestivos, como o caso da negociação da rainha e do respectivo diálogo e da referência a desgosto que dele tinha a rainha, assim como da presença deste frei Baltasar como coadjutor, e outros mais sinais que se revelam no texto do Tratado da Cidade, merecem e justificam uma cuidadosa e aprofundada investigação histórica. Construiu, como já se percebeu, à sua custa o Convento de S. Bernardo com muita soma de dinheiro de Alcobaça, preferindo o sítio da Fontedeira em Portalegre ao assento das proximidades de Marvão.
O bispo Jorge viveu, pelo menos nos últimos anos da sua vida, em casas anexas ao Convento, que em tempo do historiador padre Diogo serviam de tulha; nelas falecendo desta vida terrena no dia 5 de Agosto de 1548, óbito que não lográmos encontrar registado nos arquivos locais consultados. Este o perfil do homem e do bispo que veio instalar-se nesta cidade, tornando-a episcopal» e episcopável pela sua presença histórica. Episcopal porque, de facto, Portalegre, inesperadamente residência de um bispo, o da diocese a que pertencia, se tornou por tal razão sede dela, mesmo sem igreja catedral; assento prelatício desde 1516, desta forma; e, de igual modo, tornou-se episcopável, ou seja, capacitada e potencial sede de um bispado, antecipando de 33 anos a realidade consumada em 1549, precisamente um ano depois do falecimento do titular egitaniense. Demonstrou decerto esta feliz circunstância a notoriedade de Portalegre, comparada com outras localidades, mais ou menos importantes da área meridional da diocese, enobrecida desde 1533 (Janeiro 3) como sede de comarca, com sua correição e provedoria.
Por sua morte se partiu o bispado, lembra o padre Soto Mayor, e ficou do Tejo para cá ao de Portalegre (…). E como nesta conjuração, diz ainda noutro passo o mesmo cronista, falecesse nesta cidade, que ainda era vila, o bispo Jorge de Melo, bispo da Guarda. O bispo Julião, refere-se a Julião Alva então prior da diocese de Lamego, que pedira à rainha, de quem era confessor, o fizesse bispo, vendo esta ocasião, não lhe passou por alto. Tratou com a rainha (D. Catarina) e esta com el-rei (João III), que dividissem o bispado e fizessem de um, dois (…). A verdade é que assim se procedeu até à erecção da nova diocese (bula papal de Paulo III) e o bispo Julião Alva veio a tomar posse pela mão do notário apostólico Sebastião Andrade, que fora servidor do bispo Jorge de Melo, já no ano de 1550.
Acaso, quando a outra rainha (D. Maria de Castela) forçou Jorge ao escambo de Alcobaça pela Guarda, se se procedesse à divisão territorial desta extensíssima diocese não poderia ter sido o bispo Jorge o primeiro titular do novo bispado? Teria porventura o bispo Jorge pensado nesta hipótese quando decidiu escolher para o exílio voluntário uma das povoações mais distantes da igreja da Guarda, situada para além do Tejo, invocação geográfica importante da bula papal? Ao confrontarmos em termos cronológicos, os diversos factos históricos que se ligam a Portalegre e nesta cidade se interceptam, parece-nos ser de oportuna reflexão, interrogarmo-nos sobre as possíveis e prováveis relações pessoais de bom entendimento entre o bispo Jorge de Melo e o próprio rei João III. Terá o monarca intervindo de algum modo no projecto de reforma das dioceses do Sul, entretanto iniciada? Recordemos, p. ex., que nas décadas imediatamente anteriores se criaram, por desmembramento de Évora, as de Elvas e Beja. Recordemos também que João III estanciava com frequência em Évora; e entre 1533 e 1536 assim aconteceu sem interrupção, ali estabelecendo por 3 anos sucessivos a capital do reino, por via da peste que assolara Lisboa e pelo gosto e afecto que o atraiam à nobre capital alentejana, aí mesmo onde reunira cortes em 1535 (Janeiro 13) nas quais então, sublinhe-se, estivera presente o bispo Jorge de Melo. Apesar de, e para além dos dislates e irreverências do reverendíssimo bispo, coexistindo num tempo comum e num espaço próximo, poder-se-iam ter encontrado o bispo e o rei, discutindo questões de interesse mútuo, ambos admiradores da arte e da cultura, como se comprova pelas obras que ambos legaram à história». In Ibn Maruán, Manuel Inácio Pestana, Revista Cultural do Concelho de Marvão, Coordenação de Jorge Oliveira, nº 4, 1994.

Cortesia da CM de Marvão/JDACT

Jorge de Melo em Portalegre. O bispo, a história e a Arte. Manuel Inácio Pestana. «Mas, adianta o narrador, o mais certo de tudo é que a “rainha estava desgostosa do abade por certo respeito” e, juntamente pelo interesse de agasalhar ali o filho (porque tinha muitos), pediu a el-rei que o tirasse dali, com lhe dar de comer em outra parte»

jdact e wikipedia

«(…) Coagido a largar o rico priorado de Alcobaça amuou-se, lê-se em José Osório da Gama Castro, e entrou em verdadeira fúria, prometendo a si próprio desempenhar-se o pior possível do novo cargo, e prejudicar quanto coubesse em sua alçada a pobre diocese egitaniense que, apesar de servir de prémio de consolação ao voluptuoso prelado, ele ficara aborrecido por lhe lembrar o seu desaire» (…). A resistência à sua colocação na cidade da Guarda atitudes rebeldes daí consequentes provocam um processo disciplinar na Cúria Romana, acusando de abuso e contumácia, que conduz à excomunhão maior, suspensão a divinis com multas, proibição de entrar na igreja, etc, de tal modo se comportando que o papa Paulo III em 1545 ordenou ao Núncio de Lisboa se encarregasse da administração da diocese. É discutível se o novo bispo fez alguma coisa pela sua catedral no sentido de prosseguir e acabar as obras em curso desde o séc. XIV, para os quais teria sido constrangido a conceder subsídios, tese aliás, pouco provável porque havia verbas para o efeito. No entanto, refere Gama Castro que consta terem sido de uma iniciativa e de seu compromisso o lajeamento geral e a abóbada artesoada do coro de cima em cujos fechos se ostentam as armas heráldicas dos Melos, assim como numa das primitivas portas manuelinas. Ao tempo do seu governo diocesano, que durou 29 anos, corresponde, de facto, o andamento das obras, cujo acabamento se previa para o ano de 1540, mas só aconteceu 10 anos mais tarde, 1550. De qualquer modo, não seria rigorosamente necessário para o efeito, a presença do bispo da diocese. Bem ocupado andou ele todo esse tempo com as obras que empreendeu em Portalegre, essas sim custeadas pela sua farta bolsa. Fortunato Almeida, que bebeu a principal biografia do bispo Jorge de Melo em frei Manuel Santos, Alcobaça Ilustrada, e outros mais biógrafos de enciclopédias, nada mais, acrescentam de interesse a partir da fixação do bispo em Portalegre, ou melhor, desde a intervenção papal no polémico processo que o envolveu.
Vale-nos então o padre Diogo Pereira Soto Mayor, conhecido autor do Tratado da Cidade de Portalegre, redigido no ano de 1619, e só impresso em 1919, 1ª edição e 1984, 2ª edição, autor que viveu entre 1550/60 e 1632 (morreu em 6 de Agosto). Não tendo, embora, conhecido já o bispo Jorge, dele terá tido indubitavelmente certificadas notícias pela memória que deixou na nossa cidade o bispo exilado, auto-exilado, diz este indigno capelão em a Santa Sé de Portalegre, como ele próprio se intitula, que deu entrada o bispo Jorge na então vila de Portalegre no dia 23 de Abril de 1526, rotulando-o como um senhor dos principais fidalgos deste reino e conta a seguir, a conhecida história do encontro dele com o cardeal Jorge da Costa em Roma e da sua passagem daí para Alcobaça, onde se fez clérigo cisterciense e abade, e finalmente o negócio, igual a negociação, da Rainha que forçou a sua saída para a Guarda. Bem curiosa é, não só a notícia apresentada pelo padre Soto Mayor, como também a linguagem e a argumentação usada nessa negociação: Outros dizem que a Rainha desejava aquela abadia para seu filho, o cardeal Afonso, e que, estando um dia de Reis em Alcobaça, se foi falar com o abade e lhe permitiu Reis como se costuma em Portugal, que em Castela, para pedirem Reis, dizem Aguinaldo. Assi que o abade respondeu à Rainha que visse Sua Alteza o que queria e ela dixi: que aquela abadia pera seu filho D. Afonso, D. George, ou por fás ou por nefas, houve de lha dar…, que é, como quem diz que forçadamente, sem considerar das razões e da justiça ou considerar de tal concessão.
Mas, adianta o narrador, o mais certo de tudo é que a rainha estava desgostosa do abade por certo respeito e, juntamente pelo interesse de agasalhar ali o filho (porque tinha muitos), pediu a el-rei que o tirasse dali, com lhe dar de comer em outra parte, o que el-rei fez, com lhe dar em satisfação o bispado da Guarda, que ele aceitou muito contra sua vontade. Mas como à (vontade) dos reis não há resistência, foi-lhe necessário dissimular sua mágoa, que foi tanta que dizem que nunca entrou na Guarda, e para consagrar os santos óleos e fazer ordens, tinha um bispo de anel, frade de S. Francisco, que se chamava frei Baltasar, muito grande letrado e seu pregador». In Ibn Maruán, Manuel Inácio Pestana, Revista Cultural do Concelho de Marvão, Coordenação de Jorge Oliveira, nº 4, 1994.

Cortesia da CM de Marvão/JDACT

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Música no 31. Christoph Poppen. «A doença é um estorvo para o corpo, mas não para a vontade se ela não o desejar. O ser-se coxo é um estorvo para as pernas, mas não o é para a vontade. Assim pondera, que só movido de vontade, não é estorvo de espécie alguma»

A ‘divina’ burra de raullandeiro, com Marvão ao fundo
jdact

«Quando uma literatura chega a ter êxito, aquilo que nela havia de mais activo em momentos anteriores torna-se menos claro e é ultrapassado por aquilo que nela é mero produto dessa actividade. É por isso que é bom olhar de vez em quando para trás. Tudo o que em nós há de original conservar-se-á tanto melhor e será tanto mais apreciado, quanto mais formos capazes de não perder de vista os nossos antepassados». In Goethe, ‘Máximas e Reflexões’


JDACT

terça-feira, 17 de junho de 2014

José de Encarnação. Das Guerras Peninsulares e das Epígrafes Romanas. «… put up for the night at the foot of a Roman Monument with inscription CN. IVNIO CN. F. QVIR. GALLO II VIR. TVRRANIA GLEA GENERO OPTIMO a relic no doubt of the town of Medobriga, which stood here»

jdact

«(…) Ao contrário do que ocorreu com os seus estudos da epigrafia de Óstia, Wickert nunca conseguiu publicar tal Supplementum. Deixou a Academia e a Epigrafia e empenhou-se numa carreira universitária, na Universidade de Konigsberg, primeiro, e, depois, em 1939, na de Colónia, onde se dedicou aos estudos mommsenianos, de alma e coração. Mau grado, porém, todas essas mudanças e os transtornos causados pela II Guerra Mundial, logrou conservar aqueles materiais, que, por fim, depositou, em 1956, na Academia de Berlim, quando se voltou a vislumbrar a possibilidade de se realizar esse CIL II Suppl. 2, projecto que, infelizmente, também se malogrou.
Trinta anos mais tarde, avançados que estavam já os trabalhos de uma segunda edição do CIL II, a Academia de Berlim teve a gentileza de emprestar essa documentação, durante uns anos, à redacção central do CIL II, sediada então na Kommission für Alte Geschichte und Epigraphik des Deutschen Archaologischen Instituts de Munich, donde, sob minha direcção, Vedder retirou as informações nela contidas, integradas de seguida no Ficheiro Central do projecto. Os fascículos da nova edição já publicados dão fé, sem margem para dúvidas, da envergadura e da importância daquelas informações. Precioso exemplo disso é uma singela nota que, há mais de um século, a 11 de Maio de 1905, Francis Haverfield remeteu à Academia de Berlim, que diz textualmente:

Diary of Col. Dixon R. A. for 1809-10, now being edited by major Leslie, mentions that (while travelling in Portugal), Col. D(ixon) put up for the night at the foot of a Roman Monument with inscription CN. IVNIO CN. F. QVIR. GALLO II VIR. TVRRANIA GLEA GENERO OPTIMO a relic no doubt of the town of Medobriga, which stood here.

Alexander Dickson, então coronel, mais tarde general Sir Alexander Dickson, 1777-1840, era oficial do Exército Britânico, onde prestava serviço na Artilharia Real. Participou, desde 1809 até 1813, nas Guerras Peninsulares contra as tropas napoleónicas, em que brilhantemente se distinguiu, a ponto de Sir Wellesley, mais tarde Lord Wellington, o encarregar do comando de toda a artilharia das tropas britânico-hispano-lusas aliadas, com que ainda participou na batalha de Waterloo. Durante todas essas e outras campanhas, Dickson permanecia fiel ao seu costume de ir escrevendo um diário, que, aquando da sua morte, foi entregue pelo filho, o general Sir Collingwood Dickson, juntamente com a sua correspondência militar e outros relevantes papéis, ao Royal Regiment of Artillery em Woolwich (Londres). Por fim, no ano de 1905, toda essa documentação foi editada em cinco tomos, a cargo da Royal Artillery Institution, pelo comandante John Leslie.
Esta é, evidentemente, a edição a que Haverfield alude, na sua missiva, como sendo de próxima publicação. O relato do episódio em questão, feito por Dickson no seu diário, encontra-se no segundo tomo do manuscrito editado, relativo ao ano de 1810, e mostra, por um lado, que Haverfield não reproduzia correctamente nem as circunstâncias do achado, supostamente fortuito: put up for the night at the foot of a Roman Monument nem o texto da inscrição. Refere, todavia, sem margem para dúvidas, o local onde o achado se produziu: São Salvador de Aramenha, concelho de Marvão, distrito de Portalegre, que era para Dickson o sítio da antiga Meidobriga, reflectindo, assim, a communis opinio da erudição portuguesa da época, que localizava ali a cidade lusitana de Medobriga conquistada por Q. Cassius Longinus em 48 a. C. e os Medubrigenses qui et plumbari de Plínio, que como Meidubricenses aparecem na inscrição dos populi que dedicaram a Trajano o arco da ponte de Alcântara». In Juan Manuel Abascal, Universidad de Alicante, Rosario Cebrián, Parque Arqueológico de Segóbriga, José d’Encarnação, Universidade de Coimbra, Marvão e Ammaia ao tempo das Guerras Peninsulares, IBN MARUAN, 2009, Edições Colibri, Câmara Municipal de Marvão, ISBN 978-972-772-876-3.

Cortesia de E. Colibri/CM de Marvão/JDACT

Carta de Marvão. Aníbal Belo (1945-2001). «No intervalo dos seus tiques registrais, aliviava-se, com prazer, a falar de teatro, de tipografias, dos presencistas, e muito especialmente de Adolfo Bugalho, e do irmão (Francisco Bugalho), e de José Régio e das suas Histórias de Mulheres…»

jdact

«(…) Daquele aconchego agasalhante, dado a peregrino de longe que vinha pedir pousada, tomei boa nota para a vida, evocando, da memória, os versos de ouro de Pitágoras, quando impõem o dever de honrar os pais e de agradecer a hospitalidade do estalajadeiro. Agora, em triunvirato, o Garcia, eu e o Mário Rainho continuamos a nova rota traçada por via de destinos e de circunstâncias, enleados de redes de sentimentos e de olhares, que o andar dos passos mostraram ser comuns. O Mário Rainho aproveitou para me levar às Casas Amarelas, que mais não eram do que a sede do poder judicial, onde também estava instalada a Conservatória Registral, que ele próprio personalizava. De notável espírito de observação, era ali, por dentro daquelas janelas de guilhotina, o seu terreiro profissional, onde a sua vocação se professava, à lente, a analisar os documentos e cartas públicas do notário de Marvão, que, todas as semanas, desapiedadamente, lhe deixava, aos montes, fruto da sua exaração semanal, com letra miudinha, o que o obrigava a levantar, obliquamente, os óculos, para enxergar as certezas daquelas verdades declaradas.
Haveria eu de lembrar por muitos anos a sua assinatura, com uma grande cauda sobreposta e alongada, quase elíptica, a abranger o seu nome todo, que, com o andar dos anos, de elisão em elisão, se ia sintetizando, desnudando-se dos arredondamentos originários. No intervalo dos seus tiques registrais, aliviava-se, com prazer, a falar de teatro, de tipografias, dos presencistas, e muito especialmente de Adolfo Bugalho, e do irmão (Francisco Bugalho), e de José Régio e das suas Histórias de Mulheres, entretendo-se na discussão da lenda de misoginias, que acerca dele se cultivavam. Os dias futuros haviam de me mostrar a sua enorme e talentosa capacidade de interpretar papéis, de difícil tradução, na arte de representar.
Era ininterrupta a sua constância, no apelo aos elementos da sua equipa de teatro, que dirigia, exigindo-lhes presenças, que só a luta contra o cómodo da televisão vencia, deixando-as, livres, para o ensaio ou para a declamação. A militância por todos os valores da sua terra faziam dele um centro de atenções, que testemunhava a circum-navegação de todos os acontecimentos colectivos na Vila. O Mário Rainho não era qualquer pessoa subalterna a valores do espírito, sempre rente ao saber, sempre ao pé do sortilégio da beleza incandeante, que o motivara a ser quem é, formatado pelas circunstâncias da vida, marcada que foi, logo na infância, pelas letras que apreendera a colocar na tipografia, umas ao lado das outras, o que lhe propiciou o amanhecente gosto pela leitura. Era um caso típico de autodidaxia, no qual conseguiu forjar uma personalidade de vigores e robustecimentos, donde emergem virtudes e valências, que sobrepairam à vulgar mediania, onde, latentes, as mediocracias medram.
O Mário Rainho, agradecido ao acaso por aquele tão fortuito encontro, contente de mim, ao lado dele e do Garcia, ao seu lado, ia ilustrando a Vila dos seus varões ilustres, do passado e do presente, quando me sugeriu, por ali estarmos perto, dar uma saltada à Câmara da vila, onde o Presidente Carolino teria, com certeza, prazer em conhecer-me, e com quem eu gostaria de falar. Que sim, que era boa ideia, e lá fomos os três, ao mesmo tempo, ao mesmo lado, como que a gradar as ruas e os acontecimentos que se tinham rebolado sobre elas. Seguimos pelas Carreiras de Cima e fomos lá à frente, onde parámos, para entrar, subindo, uma grande escadaria, que se atingia, depois de ultrapassado um precioso portão de ferro forjado, como que a dizer do subido e superior ar daquela casa municipal, domicílio das respostas às solicitações dos cidadãos da vila e do seu termo. O Presidente apareceu, o Mário Rainho disse quem eu era, e com saudações contagiantes nos cumprimentámos, com delicadezas mútuas, que o tempo haveria de decretar duradoiras». In Aníbal Belo, Carta de Marvão, Edições Universidade Fernando Pessoa, 2001, ISBN-972-8184-66-2.

Cortesia da U.F. Pessoa/JDACT

José de Encarnação. Das Guerras Peninsulares e das Epígrafes Romanas. «Um dos conjuntos mais importantes da epigrafia latina antiga da Península Ibérica, e um dos menos conhecidos, é constituído pelos materiais que Lothar Wickert…»

Pedestal de estátua encontrado em Aramenha
Esboços das inscrições feitas por Cornide
jdact

«(…) Em 1797, três anos antes da chegada de Cornide, tinha o duque de Lafões, citado por Hübner, dado notícia dessas epígrafes à Academia Portuguesa. Hübner viu ali seis inscrições, pois ainda estava no lugar CIL II 160. Quando, em 1798, visitou a Quinta do Deão o médico alemão Langsdorff, já só identificou CIL II 159, 161, 162, 163 e 164, isto é, as mesmas cinco inscrições que Cornide vira em Agosto de 1800. Significa isso que, entre 1797 e 1798, saiu do lugar o monumento CIL II 160, que reapareceu depois e se expõe hoje no Museu de Ammaia aí instalado.
A ser assim, a História literaria de cada uma dessas cinco epígrafes é a seguinte:
  • CIL II, 159: Editio princeps, em 1797, do duque de Lafões (daí, E. Xaro nos Annaes da Sociedade Archeologica Lusitana I-III, Lisboa 1850-1851, citado por Hübner. Em 1984, a parte direita encontrava-se no Museu de Marvão e, em 1986, o fragmento esquerdo na Quinta do Deão. Hoje no Museu de Ammaia.
  • CIL II, 161: Editio princeps de Langsdorff 1798. Vista em 1996, numa casa de Gomes Esteves, no Largo de Camões, de Marvão. Hoje no Museu de Ammaia. 
  • CIL II, 162: Editio princeps de Langsdorff 1798. Em 1984 no Museu de Marvão. 
  • CIL II, 163: Editio princeps, em 1797, do duque de Lafões (daí, E. Xaro nos Annaes da Sociedade Archeologica Lusitana II, Lisboa 1851. Em 1984, na posse de José Cordeiro. 
  • CL II, 164: Editio princeps, em 1797, do duque de Lafões (daí, E. Xaro nos Annaes da Sociedade Archeologica Lusitana II, Lisboa 1851. Localiza-se a parte inferior, em 1982, na Quinta do Deão.
Quando o general Alexander Dickson visitou a Quinta do Deão, a 24 de Fevereiro de 1810, indica, no seu diário que In the yard are three or four broken stones with Roman inscriptions, que deveria ser o conjunto já descrito por Lafões, Langsdorff e Cornide. Pelas notas de E. Xaro nos Annaes da Sociedade Archeologica Lusitana, que Hübner citou, ficamos a saber que o achamento deste grupo de epígrafes ocorreu em 1797, e que, até 1810, foram descritas pelo menos em quatro ocasiões.

O Estatuto Jurídico de Ammaia a propósito de uma Inscrição copiada em 1810
Um dos conjuntos mais importantes da epigrafia latina antiga da Península Ibérica, e simultaneamente um dos menos conhecidos, é constituído pelos materiais que Lothar Wickert, encarregado pela Academia de Berlim de preparar um segundo suplemento ao CIL II de Emílio Hübner, reunira com essa finalidade. Esses materiais são um mixtum compositum: representam não apenes os resultados das viagens epigráficas de Wickert por Espanha e Portugal, levadas a cabo nos anos de 1928 e 1931, respectivamente, de que somente chegaria a publicar uma magra e aleatória selecção em dois artigos, enquanto que o resto permaneceu como work in progress, abarcando desde excertos de anteriores publicações, passando por fichas de trabalho de campo até fichas perfeitamente elaboradas para a publicação; incluem, além disso, um número imenso de cartas, folhetos e notas soltas, que foram remetidas à Academia de Berlim, posteriormente à morte de Hübner, em 1901, por colegas e por correspondentes seus tanto peninsulares como internacionais». In Juan Manuel Abascal, Universidad de Alicante, Rosario Cebrián, Parque Arqueológico de Segóbriga, José d’Encarnação, Universidade de Coimbra, Marvão e Ammaia ao tempo das Guerras Peninsulares, IBN MARUAN, 2009, Edições Colibri, Câmara Municipal de Marvão, ISBN 978-972-772-876-3.

Cortesia de E. Colibri/CM de Marvão/JDACT

domingo, 3 de fevereiro de 2013

O Soldadinho Novo. «Versão de Carvalhal, freguesia do Salvador da Aramenha. Concelho de Marvão. Recitada por D. Maria Josefa Baptista, nascida em 1919. Recolhida por Ruy Ventura. “Se tu és a minha amada, porque não olhas p'ra mim? Os olhos com qu' eu te via já de terra os enchi. Se és a minha amada, beija-me agora aqui»

Cortesia de wikipedia

Soldadinho Novo

Adeus soldadinho novo que tão triste andas na guerra.
Ou te lembra pai ou mãe ou alguém da tua terra.
o me lembra pai nem mãe, nem ninguém da minha terra,
só me lembra a minha amada, que era uma linda donzela.

Toma lá este cavalo, vai a tua amada ver,
mas no fim de sete meses há-des mo cá vir trazer.
Soldadinho, de contente, no cavalo s' amontou.
Chegando lá muito adiente, o Diabo o incuntrou.
o te espantes cavalo branco, cavaleiro que nele vem.

o te espantes cavalo branco, cavaleiro que nele vem,
aqui tens a tua amada, que t' amou com grande bem.

Onde vás ó soldadinho, por que vás todo a termer?
Deixa-me lá ó diabo, vou a minha amada ver.
Tua amada já é morta. Já é morta, bem na vi.
Dá-me os sinais que levava, que me quero fiar em ti.
Levava vestido d' ouro, camisa de carmesim.

Os padres qu' àcompanhavam não tinham conto nem fim.
Forem a abrir a cova cá no centro do jardim,
a enxada era de prata, o cabo de marafim.
Mas seja o que Deus quiser, eu p'ra diente sempre vou.
A meio da sua jornada, um nuvraceiro s' armou.
o t' espantes cavalo branco, cavalheiro que nele vem.

Aqui tens a tua amada que t' amou com grande bem.
Se tu és a minha amada, porque não olhas p'ra mim?
Os olhos com qu' eu te via já de terra os enchi.
Se és a minha amada, beija-me agora aqui.

Os lábios com qu' eu te beijava, já a cor deles perdi.
Vai-t' imbora, vai-t' imbora, vai-t' imbora amor eterno.
Já sinto por mim puxar lá das cordas do Inferno.
Eu hei-d' ir àquele outêro, eu àquele outêro hei-d' ir.
Tanta vez t' hê-de bradar, até que m' há-des acudir.

Com amizade.
Cortesia de Ruy Ventura
Publicada no suplemento cultural Fanal, do jornal O Distrito de Portalegre, nº 1/JDACT

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Carta de Marvão. Aníbal Belo (1945-2001). «E a mim, narrador do futuro, testemunha credenciada de consensos, aprouve-me a função de assistir àquele acontecido encontro, forrado, para aquém, da espessura dos dias. O meu ajudante, com a fraqueza das forças a afadigarem as suas energias, foi-me levando para o jardim do Parque…»

jdact

«O Mário Rainho alongava-se em biografias e hagiografias, em dados contornos, enquanto eu, de espírito cada vez mais giratório, me espairecia na lonjura dos acontecimentos, para trás e para a frente dos carris do tempo, ora evocando Camilo Castelo Branco, que dizia que até os pardais se assustavam com aquele touro negro de ferro, a galgar as travessas, ora colocando o engenheiro Horta, na dianteira, a corrigir erros e cálculos do fidalgo João na estação de Caminho de Ferro da Beirã. No dissêncio dos dias, consegui pô-los a conversar acerca de cálculos, topografias e texturas de construção, conseguindo, com inegável sucesso, que o tempo se encurtasse para ser mais legível a história e mais fácil a construção dos amanhãs. Bom conhecedor do cadastro de Marvão, o Horta agradeceu a João da Câmara os seus ensinamentos, este louvou-lhe as simpatias e as referências da memória.
E a mim, narrador do futuro, testemunha credenciada de consensos, aprouve-me a função de assistir àquele acontecido encontro, forrado, para aquém, da espessura dos dias. O meu ajudante, com a fraqueza das forças a afadigarem as suas energias, foi-me levando para o jardim do Parque, todo recheado de árvores frondosas, de cujos galhos os passarinhos faziam coreto, para aí entoarem seus trinados de alegria. Era um jardim cuidado e frequentado por gente, que dele fazia uso vivo. Pessoas sentadas nos bancos, com ar despreocupado e livre, conversavam amenamente com figurantes que passavam, e a quem davam dedos grandes de conversa, para terapia da monotonia ou da solidão da mesma mesmice dos dias.
E, enquanto ele me continuava a falar das rivalidades com Marvão, eu, a boiar em mim, ia estendendo o olhar gostoso para aquela natureza, ali trabalhada e ordenada, quando, ao subir a ladeira, nas suas calmas, me apontou para a estalagem, que se esquinava no encontro de duas ruas. Era a Casa Parque, de construção de meados do século, denotando qualidade bastante para compensar os meus depauperados aposentos, já com descrição acima.
Entrámos, a porta tilintou. À entrada, vindo a descer umas escadas, apareceu a dona, a Isabelinha. Pessoa graciosa e delicada, cumprimentou o Garcia e, adivinhando quem era, me desejou ali logo boa estada no Marvão. Que me sentisse bem ali na sua casa, informando-me de que, à esquerda, era o restaurante e, lá em cima, apontava para as escadas, donde tinha acabado de vir, eram os quartos. Agradou-me a ambiência e a arquitectura de interiores. Entretanto, conheci o marido da dona, o Guimarães, o estalajadeiro. Reservado e contido, senti, pela cara dele, prazer em me ter na sua casa. De ar circunspecto e respeitável, teceu considerações acerca de Marvão, falando-me também das suas origens do Minho, das bandas do Gerês.
Eu, agradado dele e dela, ia soletrando a vontade interior de ali fazer o meu domicílio, cercado que estava daquele bem-estar, e tendo, como vizinhança bucólica, aquela passarada chilreante, que, do alto dos seus estreitos palanques, diziam músicas melodiosas.
Os estalajadeiros, a Isabelinha e o Guimarães, foram o aconchego familiar, que logisticamente me suportaram a estada, orgulhosos de mim, e eu cioso do orgulho deles, dedicando-lhes, em silêncios, agrados, ficando à minha conta a dívida de afectos, que ainda perdura e que nunca prescreverá. Na sequência dos dias, dos meses e dos anos, sempre recebi deles tratamento especial, com louvores por eles publicados e de que amiúde me chegavam ecos frequentes, o que inventariava nos meus escaninhos, onde tenho instalado o culto da gratidão.
Foi naquela guarida e abrigo que me estalagei, na companhia daquela boa gente, que com o meu conforto se cuidava. À roda do fogão de lenha, no Inverno, todos em conclave, falávamos de tudo e de todos, sempre pela linguagem dos afectos, que, por lá, abundavam, como o frio». In Aníbal Belo, Carta de Marvão, Edições Universidade Fernando Pessoa, 2001, ISBN-972-8184-66-2.

Cortesia da U.F. Pessoa/JDACT

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Jorge de Melo em Portalegre. O bispo, a história e a Arte. Manuel Inácio Pestana. «Sabe-se comprovadamente que Jorge de Melo fora forçado a aceitar o bispado em troca da famosa e proveitosa “Abadia de Alcobaça”, pois esta a cobiçara a rainha D. Maria para seu filho Afonso…»


jdact

«Pouco se sabe, tanto quanto seria desejável, a respeito de Jorge de Melo. Não está feita a biografia completa. Dados disponíveis são apenas notas, algumas notas, e registos dos estudiosos da história da Igreja em Portugal, donde os coordenadores de enciclopédias e dicionários históricos retiram os apontamentos mínimos para informarem de modo genérico o público curioso.
Carece-nos a nós próprios o tempo para atenta e dilatada investigação, de modo que esta proposta não será mais que uma reflexão sem outras pretensões que não sejam as de relembrar o homem que, vindo de terras distantes, legou a Portalegre um importante património cultural. Das linhas biográficas, aliás muito elementares, que lhe dedicou na sua obra Évora Ilustrada o padre António Franco, que para a sua cidade se esforçou denodadamente e, às vezes, com evidente exagero e correndo riscos, por atrair glórias e virtudes, declara-o natural da capital transtagana, notícias que apenas reencontramos em Gama e Castro, praticamente redigidas nos mesmos termos.
Na verdade, àquela cidade estão ligados os Melos da Casa Cadaval, e são estes os da linha do bispo Jorge. Uma sua parente, D. Joana de Melo, monja e abadessa bernarda do Convento de Portalegre, é tida por vários autores como igualmente natural de Évora. Não se estranhará, pois, aceitar-se para o bispo Jorge a mesma pátria alentejana. É das crónicas, designadamente das páginas da Alcobaça Ilustrada que Jorge de Melo, feito bispo da Guarda em 1519, se recusou a tomar assento nesta cidade, atribuindo-se-lhe a desculpa de que não queria viver na terra onde matavam os bispos, alusão clara à morte violenta do bispo Álvares de Chaves, apunhalado no ano de 1496 por um seu criado que pretendia, e conseguiu, arrebatar-lhe as chaves do cofre episcopal.
Sabe-se comprovadamente que Jorge de Melo fora forçado a aceitar o bispado em troca da famosa e proveitosa Abadia de Alcobaça, pois esta a cobiçara a rainha D. Maria para seu filho Afonso, com cuja acomodação na vida muito se preocupou e para o qual, quando ainda não atingira os 8 anos de idade, já alcançara os bispados de Évora e de Viseu, um cardinalato, o arcebispado de Lisboa e o priorado do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. De facto, embora titular também do bispado da Guarda, a abadia de Alcobaça representava honrarias especiais e benefícios de grande vulto. Abade perpétuo do mais rico convento do país seria, além de particularíssimo privilégio, segura garantia de um futuro tranquilo. Eram, na realidade, extraordinárias, no sentido mais exacto desta expressão, as benemerências dos abades daquele mosteiro cisterciense:
  • acumulavam os títulos, e correspondentes rendas e prerrogativas, de fronteiros-mores das suas terras e alfândegas do mar, de esmoleres-mores;
  • o direito, com seus criados, a aposentadoria por onde quer que se deslocassem, em tudo segundo se praticava com as pessoas reais; 
  • isenção de sisas e portagens; propriedade e rendimentos dos riquíssimos coutos anexos, etc, etc.
Por tudo isto e pela ilustração, prestígio e respeitabilidade eclesiástica e social do cargo, muito bem instalado se sentiria nele Jorge de Melo desde o momento em que o seu protector Jorge da Costa, cardeal de Alpedrinha e bispo de Frassati, assim o houvera por bem e o determinara em Roma no ano de 1505 ao renunciar, ofendido que estava pela desfeita de el-rei João II que aceitara a eleição de frei João Claro na sucessão alcobacense de frei Isidoro de Portalegre. Manifestara o cardeal particular estima por Jorge de Melo, que entretanto em Roma se passeava sem alarde, fidalgo nobilíssimo dos deste apelido, o qual assistia na cidade pontifícia como filho segundo para se acomodar pelo eclesiástico, provavelmente à espera de uma oportunidade.
Seu nome secular era Simão, filho de Garcia de Melo, alcaide-mor de Serpa, e de D. Filipa Pereira da Silva e teve como irmãos Jorge de Melo, monteiro-mor que foi de D. João III, Henrique de Melo, o primogénito, alcaide-mor na sucessão do título paterno, sobrinho do alcaide-mor de Olivença Martim Afonso de Melo, senhor de Ferreira, origem da Casa dos Duques de Cadaval. Do seu protector de Roma, teria provavelmente Simão de Melo retirado e aproveitado o primeiro antropónimo, talvez, quem sabe?, como demonstração de admiração e reconhecimento.
Retomemos, porém, a sequência biográfica para afirmarmos a convicção, aliás subscrita por diversos autores de que Jorge de Melo se recusara a entrar na cidade da Guarda, espírito atrabiliário que era e sempre mal disposto, relata Fortunato de Almeida, certamente mais violento que melancólico, para demonstrar a sua contrariedade pela imposta nomeação prelatícia, e nessa sua disposição se fundamentará a intencional ausência para lugares distantes, os mais distantes, da diocese, primeiro, segundo se crê, para Abrantes e pouco depois para Portalegre, em definitivo». In Ibn Maruán, Manuel Inácio Pestana, Revista Cultural do Concelho de Marvão, Coordenação de Jorge Oliveira, nº 4, 1994.

continua
Cortesia da CM de Marvão/JDACT