Mostrar mensagens com a etiqueta Cancioneiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cancioneiro. Mostrar todas as mensagens

domingo, 4 de novembro de 2012

Cantigas de Amigo. D. Dinis. «É um dos autores representados nos ‘Cancioneiros’ com maior número de composições. A ele se deve a fundação dos ‘Estudos Gerais de Lisboa, embrião da Universidade portuguesa. A ‘Cultura’ encontrou um momento de grande florescimento…»

jdact e cortesia de wikipedia

‘Em esta mensagem adeante se comença as cantigas d’amigo que o mui Nobre Dom Denis rei de Portugal fez’.

Que trist’hoj’é meu amigo,
amiga, no seu coraçom,
ca nom pôde falar migo
nem veer-m’, e faz gram razom
meu amigo de trist’andar,
por m’el nom vir e lh’eu nembrar.

Thist’anda, se Deus mi valha,
ca nom me viu, e dereit’é;
e por esto faz sem falha
mui gram razom, per bõa fé,
meu amigo de trist’andar
por m’el nom vir e lh’eu nembrar.

D'andar triste faz guisado,
ce o nom vi, nem viu el mi,
nem ar oíu meu mandado;
e por em faz gram dereit'i
meu amigo de trist’andar
por m'el nom vir e lh'eu nembrar.

Mais, Deus, como pode durar,
que já nom morreu com pesar?

Dos que ora som na hoste,
amiga, querria saber
se se verram tard'ou toste,
por quanto vos quero dizer:
porque é lá meu amigo.

Querria saber mandado
dos que alá som, ca o nom sei,
amiga, par Deus, de grado,
por quanto vos ora direi:
porque é lá meu amigo.

E queredes que vos diga?
Se Deus bom mandado mi dê,
querria sabet amiga,
deles novas, vedes porquê:
porque é lá meu amigo,

Ca por al nom, vo-lo digo.

D. Dinis, in ‘Cantigas de Amigo’

JDACT

Cancioneiro. D. Dinis. A Poesia Galaico-Portuguesa. «A voz feminina que se exprime nas Cantigas de Amigo corresponde a uma relação homem-mulher que se baseia numa cumplicidade nascida do facto de que, entre ambos, o amor supera as conveniências sociais»

jdact

Por tudo isto, Dinis I é sem dúvida um poeta com uma voz própria, e este facto terá levado a que a sua extensa produção tivesse, presumivelmente, sido recolhida em volume próprio, que terá feito parte da Biblioteca do rei Duarte, onde se encontra referenciado. Morreu em Santarém, em 1325, mas a sua fama não morreu com ele, sendo a sua qualidade de poeta referida, entre outros, por Camões e António Ferreira, no século XVI; mas já antes deles, Dante e o Marquês de Santilhana o colocam entre outros nomes de relevo na poesia medieval.

A voz humana
A voz feminina que se exprime nas Cantigas de Amigo corresponde a uma relação homem-mulher que se baseia numa cumplicidade nascida do facto de que, entre ambos, o amor supera as conveniências sociais. É talvez uma mulher casada que diz:

‘Bem entendi, meu amigo,
Que mui gram pesar ouvestes
Quando falar nom podestes
Vós noutro dia comigo’

A amada não hesita em desafiar esses condicionalismos, servindo-se de processos como os recados, através de amigas ou da própria mãe, para chegar até, ao amigo. Muitas vezes, o poema nasce numa situação de ausência do amado: ou por ter ido com el-rei ou numa expedição guerreira. É a situação de quem fica, com a soidade do amado, que o poema retrata, acentuando o lado confessional e, ao mesmo tempo, fazendo ecoar a pureza da voz que se lamenta.
Neste diálogo, surge por vezes uma atitude de desagrado, como a que resulta da incredulidade perante as profissões de fé amorosas do amigo:

‘Vós, que em vossos cantares meu
amigo chamades, creede bem
que nom dou eu por tal enfinta rem’.

Mas esta atitude talvez resulte do modo adoptado para essa confissão, o poema, sem dúvida suspeito, pelo facto de transportar códigos e artifícios que lhe retiram toda a sinceridade. Não surpreende, por isso, que o amigo tenha de recorrer à mãe para que esta use os seus bons ofícios de alcoviteira:

‘Roga-m’hoje, filha, o voss’Amigo
Muit’aficado que aos rogasse
que de vós amar nom vos pesasse’.

Neste, pequeno, mundo de amores secretos surgem, entretanto, intrigas, próprias do meio palaciano:

‘Amiga, sei eu bem d’uma molher
que se trabalha de vosco buscar
mal a vos’amigo po-lo matar’.

Mensagens, recados, diálogos, confidências, choros e rogos: estamos aqui num universo carregado de emoção, numa amplitude que vai da credulidade mais ingénua no sentimento do outro até à ira resultante da suspeita de perjúrio, ou da traição, em que a falta à palavra dada corresponde a um dos crimes mais graves dentro do código da honra feudal.


O amor é, sem dúvida, a causa de todo este clima; e o facto de a ele ser atribuído a perturbação dos amantes remete-nos para um universo de loucura, de perda do sem, na linha do filtro amoroso bebido por Tristão e Isolda que os colocou à margem da sociedade, levando mesmo ao desabafo: ‘mais nos varria de nos matar’. A perda da razão social vai pôr, então, o marido numa situação de inimigo, objecto de insultos: irado, mal bravo, sanhudo, esquivo.
O conjunto das oito cantigas paralelísticas, em que a linguagem se depura deixando ver o amor na sua expressão mais lírica, despida das convenções de género, dá-nos toda a medida da percepção do amor feminino pelo poeta». In D. Dinis, Cancioneiro, colecção dirigida por Vasco Graça Moura, organização, prefácio e notas de Nuno Júdice, Editorial Teorema e Nuno Júdice, 1997, ISBN 972-747-684-8.

Cortesia de Teorema/JDACT

domingo, 28 de outubro de 2012

Cancioneiro. D. Dinis. A Poesia Galaico-Portuguesa. «Para ele, pelo contrário, a poesia é algo próprio do tempo humano, que não obedece a esses ciclos naturais mas apenas ao Amor. Também as cantigas constituem uma excepção pela ausência quer de palavras demasiado grosseiras quer de referências demasiado explícitas ao campo sexual»

jdact

A Poesia Galaico-Portuguesa
«Há na linguagem de D. Dinis, um retomar de muitas fórmulas e lugares-comuns da poesia medieval. Tal facto não deve surpreender, já que o conceito de originalidade é algo que não faz parte desta literatura. Não quer isto dizer que não possamos reconhecer elementos próprios e originais, nomeadamente a afirmação da sua arte poética assim como o reflexo da sua condição real no modo como desenvolve alguns aspectos das cantigas de amor: uma certa ironia no tratamento da soror, quando lhe diz érades bõa pera rei, (Amor,15); e a referência religiosa, em que se pode ver talvez uma influência de seu avô, ao pedir a protecção de Santa Maria, mas também nas referências a Nostro Senhor, a Deus e até no jogo com o terceiro dia da Ressurreição de Cristo (Amigo, 6), quando diz que a coita do amigo é um forte que a donzela já não o poderá guarir.
A sua poética encontra-se, por outro lado, no modo como se define em relação com a tradição provençal. É na Cantiga Proençaes soem bem troban, (Esdmio, l) que a sinceridade é posta acima de qualquer outra qualidade na expressão lírica. É curioso, aqui, a relação que estabelece entre o lema e o ciclo natural, ao censurar os que só escrevem poesia no tempo futuro. Para ele, pelo contrário, a poesia é algo próprio do tempo humano, que não obedece a esses ciclos naturais mas apenas ao Amor.
O facto de ser rei, por outro lado, não o inibe de entrar nos jogos de mal dizer que na maior parte dos poetas dos Cancioneiros, atinge uma violência que não hesita perante a linguagem desbragada e a denúncia de situações em que ninguém é poupado. Também aqui, as cantigas em que o monarca entra neste campo, constituem uma excepção pela ausência quer de palavras demasiado grosseiras quer de referências demasiado explícitas ao campo sexual. É certo que existe alguma ambiguidade no vocabulário relativo a Joam Bolo, que poderá ser interpretado como alusivo à sua homossexualidade (como notou Elsa Gonçalves). No entanto, os poemas podem ser lidos à letra, formando um sentido completamente lógico sem que seja necessário encontrar outras interpretações, embora elas sejam plausíveis. Admitir-se-á, neste caso, que o não ir até ao ponto da denúncia crua que encontramos na generalidade dos poetas resultará da distância que o rei deve guardar em relação aos súbditos. O que ele censura, então, são comportamentos que se afastam dos códigos cortesãos, como o de Meliom Garcia que veste mal e maltrata as duas meninas que trago, o de D. Foam que fala interminavelmente sem perceber que o rei está com sono e quer que ele parta; ou refere aspectos do quotidiano como a doença (a praga) que, como aquele que passava a vida a rogar pragas, ou o desespero de Joam Simiom que perdeu três dos seus animais porque comeram azeitonas.
Por tudo isto, Dinis I é sem dúvida um poeta com uma voz própria, e este facto terá levado a que a sua extensa produção tivesse, presumivelmente, sido recolhida em volume próprio, que terá feito parte da Biblioteca do rei Duarte, onde se encontra referenciado. Morreu em Santarém, em 1325, mas a sua fama não morreu com ele, sendo a sua qualidade de poeta referida, entre outros, por Camões e António Ferreira, no século XVI; mas já antes deles, Dante e o Marquês de Santilhana o colocam entre outros nomes de relevo na poesia medieval». In D. Dinis, Cancioneiro, colecção dirigida por Vasco Graça Moura, organização, prefácio e notas de Nuno Júdice, Editorial Teorema e Nuno Júdice, 1997, ISBN 972-747-684-8.


Cortesia de Teorema/JDACT

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Cancioneiro. D. Dinis. A Poesia Galaico-Portuguesa. «A classificação por géneros da poesia galaico-portuguesa é feita a partir de uma ‘Arte de trovar’ que se encontra no Cancioneiro da Biblioteca Nacional. Os três grandes géneros são constituídos pelas “cantigas d'amor, cantigas de amigo e cantigas de escárnio e de mal dizer”»

jdact

A Poesia Galaico-Portuguesa
«A poesia galaico-portuguesa chegou até nós através de três Cancioneiros manuscritos:
  • o da Biblioteca da Ajuda, dos últimos decénios do século XIII,
  • o da Biblioteca Nacional de Lisboa, antigo Colocci-Brancuti, copiado em Itália em começos do século XVI por ordem do humanista Angelo Colocci e comprado pelo governo português em 1924, depois da sua descoberta na biblioteca do conde Brancuti,
  • e o da Biblioteca do Vaticano, originário também da biblioteca de Angelo Colocci. É constituída por cerca de 1680 textos de carácter profano, da autoria de 153 trovadores e jograis.
A este ‘corpus’ podem acrescentar-se as 420 Cantigas de Santa Maria de Afonso X de tema religioso. A sua cronologia abrange o período que vai desde fins do século XII até à segunda metade do século XIV.
É uma poesia escrita numa língua comum a poetas de origem diversa: galegos, portugueses, leoneses e até provençais, como Raimbaut deVaqueiras, que escreveu entre 1180 e 1205, o que demonstra a existência de uma tradição oral, já firmada por essa altura, de que não restam testemunhos directos. Isto prende-se, por outro lado, com o debate sobre a origem de um dos aspectos mais originais dessa poesia, as cantigas de amigo, em que é a rapariga que fala, cuja tradição pode remontar a uma lírica peninsular pré-trovadoresca: as “jarchas” moçárabes, muito próximas, do ponto de vista formal e temático, do universo das cantigas.
jdact

A classificação por géneros da poesia galaico-portuguesa é feita a partir de uma ‘Arte de trovar’ que se encontra no Cancioneiro da Biblioteca Nacional. Os três grandes géneros são constituídos pelas “cantigas d'amor, cantigas de amigo e cantigas de escárnio e de mal dizer”. Além destes, há “tenções, pastorelas, lais”, ou ainda, “albas, prantos, discordos”, entre outros numa variedade que revela a riqueza deste conjunto.
Acrescente-se a este aspecto o lado musical desta tradição poética.

Com efeito, o Cancioneiro da Ajuda tem iluminuras que mostram a execução das cantigas, com espaço reservado para a música, que não chegou a ser copiada. Chegou até nós, no entanto, música das ‘Cantigas de Santa Maria’; um documento da transição do século XIII para o XIV, o pergaminho Vindel, transcreve sete cantigas de amigo de Martim Codax, seis das quais conservam a musica; e mais recentemente, em 1990, na Torre do Tombo, foi descoberto por Harvey Sharrer um pergaminho contendo sete cantigas do rei Dinis acompanhadas da respectiva notação musical.

A variedade de autores, desde reis, como Dinis, bastardos de sangue real como Afonso Sanches e Pedro de Portugal, nobres como Afonso Lopes de Baião, Pay Gomes Charinho, Gonçal'Eanes do Vinhal, até eclesiásticos como Gomez Carcia, abade de Valhadolide, cavaleiros como Roy Queimado, escudeiros como Pêro da Ponte, além de muitos outros, burgueses, judeus, homens de letras, dá um quadro do mundo que esta poesia retrata. Sátiras políticas e pessoais, muitas vezes de grande violência, nas cantigas de “escárnio e mal dizer”, ou quadros de um lirismo extremo, com um cenário simbólico em que a fonte, o cervo, os cabelos, ou o vestuário da rapariga, a vegetação, sugerem uma elaborada composição, nas “cantigas de amigo”, ou ainda a complexidade dos sentimentos em relação à ‘senhor’, que vão desde o ‘serviço’ em que o homem, independentemente da sua a condição social, se entrega nas mãos da mulher amada, até ao simples jogo amoroso em que a mulher se sente enganada e utilizada, nas “cantigas de amor”, dão-nos uma imagem da vida medieval nos seus aspectos mais diversos.

jdact e purl

Saliente-se, finalmente, a cultura cavaleiresca dos trovadores. Patente em citações de romances de cavalaria e dos seus heróis, como Tristão e Isolda, ou Lançarote; e o uso da técnica perfeita do paralelismo, com versos que se vão repetindo com variações mínimas ao longo do poema, nas “cantigas de amigo”, que é um dos aspectos mais originais desta escola poética, que decai até desaparecer, em meados do século XIV, quando o galego-português é substituído, na poesia, pelas duas grandes línguas nacionais da Península: português e castelhano. Assim, os Cancioneiros posteriores a essa data apresentam já o triunfo da poesia em castelhano e em português.
O rei Dinis é um dos autores representado nos Cancioneiros com maior número de composições: são de sua autoria 137 textos, nos vários géneros. Nasceu em Lisboa em 1261, tendo falecido em Santarém, em 1325.
É filho de Afonso III de Portugal e de D. Beatriz de Castela, sendo neto por via materna de Afonso X, de quem terá herdado o génio poético. O pai Afonso III, por outro lado, traz consigo a influência francesa e o gosto pela literatura cavaleiresca, o que terá criado um ambiente favorável a que, na corte de Dinis, que terá tido preceptores de origem provençal como Aimeric d'Ebrard, a cultura tivesse encontrado um momento de grande florescimento. A ele se deve a fundação dos “Estudos Gerais de Lisboa, embrião da Universidade Portuguesa”.

Também pelo casamento com Isabel de Aragão, a literatura em ‘langue d'oc’ viu a sua presença reforçada na corte dionisina». In D. Dinis, Cancioneiro, colecção dirigida por Vasco Graça Moura, organização, prefácio e notas de Nuno Júdice, Editorial Teorema e Nuno Júdice, 1997, ISBN 972-747-684-8.

Cortesia de Teorema/JDACT

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Cancioneiro. Cantigas de amigo. «A poesia trovadoresca ou poesia galaico-portuguesa são composições que vão do século XII ao século XIV»

Cortesia de kalipedia

Cantigas de Amigo

Ondas do mar de Vigo,
se vistes meu amigo!
E ai Deus, se verrá cedo!

Ondas do mar levado,
se vistes meu amado!
E ai Deus, se verrá cedo!

Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro!
E ai Deus, se verrá cedo!

Se vistes meu amado,
por que hei gran cuidado!
E ai Deus, se verrá cedo!
Martin Codax, Cancioneiro da Vaticaca 884,
Cancioneiro da Biblioteca Nacional 1227

:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

Pois nossas madres van a San Simon
de Val de Prados candeas queimar,
nós, as meninhas, punhemos de andar
con nossas madres, e elas enton
queimen candeas por nós e por si
e nós, meninhas, bailaremos i.

Nossos amigos todos lá irán
por nos veer, e andaremos nós
bailando ante eles, fremosas en cós,
e nossas madres, pois que alá van,
queimen candeas por nós e por si
e nós, meninhas, bailaremos i.

Nossos amigos irán por cousir
como bailamos, e podem veer
bailar moças de bon parecer,
e nossas madres pois lá queren ir,
queimen candeas por nós e por si
e nós, meninhas, bailaremos i.
Pero de Viviãez, Cancioneiro da Vaticana 336,
Cancioneiro da Biblioteca Nacional 698

Cortesia de maiamarcelinotripod

JDACT

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

BNP. Cancioneiros da Biblioteca Nacional e da Ajuda: «…disponibilizados em linha os Cancioneiros da Biblioteca Nacional e da Ajuda, num site especialmente concebido para o efeito que consubstancia uma edição crítica integrada das cerca de 1680 cantigas trovadorescas que chegaram até nós através daqueles dois cancioneiros e do Cancioneiro da Vaticana»

Cortesia de bnp

Cancioneiros da Biblioteca Nacional e da Ajuda disponíveis na Internet.
Notícia. Novembro de 2011.

«Em resultado do Projecto Littera - Edição, actualização e preservação do património literário medieval português, financiado pela FCT e da responsabilidade de Graça Videira Lopes (Coordenadora, IEM, UNL), Manuel Pedro Ferreira (CESEM, UNL, responsável pela área da música) e Nuno Júdice (IEM, UNL), acabam de ser disponibilizados em linha os Cancioneiros da Biblioteca Nacional e da Ajuda, num site especialmente concebido para o efeito que consubstancia uma edição crítica integrada das cerca de 1680 cantigas trovadorescas que chegaram até nós através daqueles dois cancioneiros e do Cancioneiro da Vaticana.
A apresentação pública do site, intitulado Cantigas Medievais Galego-Portuguesas, teve lugar na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UNL, no pf dia 27 de Outubro de 2011, e na Biblioteca Nacional de Portugal, inserida no evento Dom Dinis, Trovador, comemorativo dos 750 anos do nascimento de Dom Dinis, um dia depois.

Cortesia de bnp

O site disponibiliza, aos investigadores e ao público em geral, a totalidade das cantigas medievais presentes nos cancioneiros galego-portugueses, as respectivas imagens dos manuscritos e ainda a música (quer a medieval, quer as versões ou composições originais contemporâneas que tomam como ponto de partida os textos das cantigas medievais). A base inclui ainda informação sucinta sobre todos os autores nela incluídos, sobre as personagens e lugares referidos nas cantigas, bem como a “Arte de Trovar”, o pequeno tratado de poética trovadoresca que abre o Cancioneiro da Biblioteca Nacional.

O texto editado das cantigas dá ainda acesso a um conjunto de informações destinadas a facilitar quer a sua leitura, quer o seu enquadramento histórico (glossário, notas explicativas de versos, toponímia, antroponímia, notas gerais). E fornece igualmente informação de base sobre alguns dos seus aspectos formais. Em cada cantiga, o texto editado pode ainda ser confrontado com o texto manuscrito que transcreve, disponibilizando a base igualmente um conjunto de notas justificativas das leituras proposta (notas de leitura).

Cortesia de bnp

No que diz respeito às imagens, a base permite ainda a leitura sequencial dos fólios dos cancioneiros, bem como a visualização independente das iluminuras contidas na Cancioneiro da Ajuda. No que diz respeito à música, a base dá acesso quer a ficheiros áudio, quer a pautas (em ambos os casos, sempre que disponíveis), incluindo ainda informação sucinta sobre autores e intérpretes. A base de dados permite ainda pesquisas múltiplas, algumas delas ainda em fase de desenvolvimento.


Cortesia da BN de Portugal/JDACT

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Fernando Pessoa: Intervalo. «Seja o que for, quem foi que levemente, a teu ouvido vagamente atento, te falou desse amor em mim presente mas que não passa do meu pensamento que anseia e que não sente?»

Cortesia de appex  

Intervalo
Quem te disse ao ouvido esse segredo
Que raras deusas têm escutado
Aquele amor cheio de crença e medo
Que é verdadeiro só se é segredado?...
Quem te disse tão cedo?

Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não foi um outro, porque não sabia.
Mas quem roçou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria alguém, seria?

Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?
Foi só qualquer ciúme meu de ti
Que o supôs dito, porque o não direi,
Que o supôs feito, porque o só fingi
Em sonhos que nem sei?

Seja o que for, quem foi que levemente,
A teu ouvido vagamente atento,
Te falou desse amor em mim presente
Mas que não passa do meu pensamento
Que anseia e que não sente?

Foi um desejo que, sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse
A frase eterna, imerecida e louca
A que as deusas esperam da ledice
Com que o Olimpo se apouca.
Fernando Pessoa, in «Citações e Pensamentos, Cancioneiro».
 
JDACT