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quinta-feira, 23 de abril de 2020

A Ala dos Namorados. António Campos Júnior. «Amanhã haveremos de ter dura luta. A armada que veio do Porto entrará e nós de cá lhe daremos uma mão, disse o Mestre. Grande armada, Senhor?...»

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Dor que enlouquece
«(…) A multidão olhava para aqueles dois, esperançada como se aquele homem de gorra negra e cabelos de neve fosse o símbolo imaculado da Pátria, que os de Castela pretendiam matar, e o outro, um bastardo real, monge-cavaleiro de vinte e seis anos, representasse a maior promessa e a mais rútila esperança de um Portugal remoçado, mais forte, mais brilhante, de mais pura e altiva alma, emergido daquela decadência pelos milagres de esforço de uma revolução. Viva o nosso Messias!, gritaram algumas mulheres comovidamente. E envolveram, num olhar de sonho, aquele homem jovem, de amplas costas, trigueiro e rubro como os galeotes da Ribeira e os picos das montanhas; de rosto largo numa forte expressão de energia; naquela cabeça de pensador o bacinete emplumado dos campeadores fidalgos, nos ombros largos o manto branco dos Cavaleiros de Avis e sobre a cota de armas o estreito escapulário com a esguia cruz verde do mestrado da Ordem, estampada naquela brancura do hábito, a lembrar as toalhas dos altares e a bandeira da Nação.
Messias da Pátria para a redimir, filho de um rei para ascender ao trono, se a Nação vencesse, filho de uma mulher do povo, como o aclamavam febrilmente. Que Deus vos guarde, Senhor!, clamava a ralé num voto fervoroso, de braços erguidos como para o abraçar, e a trapagem de burel agitava-se-lhe sobre o peito arquejante. Deus vos ouça, gente leal, e a todos nos mantenha na santa defesa de Portugal, volveu-lhes o Mestre, pondo neles, afectuosamente, os seus olhos negros, penetrantes, e esboçando nos lábios rubros um sorriso de familiaridade, que lhe modificava as linhas duras do longo rosto, quase quadrangular, de queijo proeminente e barba escanhoada, conforme o preceito imposto aos monges cavaleiros.
Amanhã haveremos de ter dura luta. A armada que veio do Porto entrará e nós de cá lhe daremos uma mão, disse o Mestre. Grande armada, Senhor?, perguntou um mesteiral, de barrete na mão. Dezassete naus e outras tantas galés. Mestre e Defensor nosso, bom socorro será, mas a outra de Castela tem mais do dobro! Respondeu-lhe. Deus estará connosco, e pela nossa causa a alma e o sangue de nós todos. Ficai prevenidos. Ao romper da manhã, estaremos todos onde for preciso. Conto convosco; contai comigo. El-rei de Castela não levará a herança que vem aqui buscar. Só Lisboa lha poderia entregar, e nem vós nem eu deixaremos que a tome. Mestre e Defensor, honradas palavras dissestes!, acudiu Afonso Eanes na sua voz dominadora. A cidade não se rende e a herança não se entrega! Assim o queremos todos e assim será com a ajuda de Deus!, confirmou o Mestre com uma grande energia sugestiva.
Todos!, gritaram. Por esta nossa terra contra as hostes de Castela: Portugal e S. Jorge! Ide agora repousar, meus filhos, disse-lhes paternalmente Álvaro Pais, na sua voz tremente de velho. Ao romper da manhã seremos uns com os outros e o dia há-de ser de bravia luta. Mas até eu, com as minhas pernas trôpegas, me hei de arrastar para onde for preciso para que a soldadesca de Castela veja como os velhos de Lisboa são capazes de morrer pela sua terra. Pai do povo sois vós, disse uma regatona velha da Ribeira conhecida entre o povo por Tia Lourença da Ribeira, que reunia à sua volta um grupo de mulheres mais novas, e aqui tendes quem vos ajude a ir ver como esse bailado de amanhã há-de ser. Falta o pão na cidade, mas ainda, louvores a Deus, não faltam as pedras para britar os focinhos a esses cães danados de Castela! Ide repousar, meus filhos, repetiu o alquebrado chanceler dos tempos de Fernando I. Muito há que dispor para o dia de amanhã, e a todas as coisas precisa de prover a sua graça, disse indicando o Mestre. Ide com Deus. Até ao amanhecer, acudiu dom João num gesto amigável de despedida. E foi andando para cima, ao lado de Álvaro Pais e do douto João das Regras.
Viva o Mestre! Viva o nosso Messias!, aclamou a multidão num arrebatamento de entusiasmo, como se estivesse esquecida de todas as privações, de todas as misérias e de quantos perigos enormes podia trazer-lhe o dia seguinte. Vamos ter pão, mulheres de Deus!, disse a regatona da Ribeira. Virá trigo na armada do Porto. Vai acabar a fome! Destacando-se do adro da Sé, numa aparição como a de um fantasma, nos braços a criancita morta, a pobre mãe enlouquecida, disse em gritos agudos como uivos: acabar a fome!... Também a minha filha... Acabou! Tantas mulheres! E não houve nenhuma... Nenhuma... Que lhe matasse a fome... A ela!... Olhai... Morreu! Uma profunda impressão de estranheza e de supersticioso pavor oprimiu a multidão, e com mais profunda violência o coração das mulheres. Recuaram, cheias de terror como se aquela desventurada fosse um espectro fugido de alguma campa da Sé». In António Campos Júnior, A Ala dos Namorados, 1905, Luso Livros, 2013.

Cortesia de LLivros/JDACT

terça-feira, 1 de março de 2016

A Ala dos Namorados. António Campos Júnior. «Pela noite adiante chegara o batel em que vinha o comerciante do Porto, João Ramalho, com a notícia de ter atracado em Cascais a esquadra de socorro. O Mestre combinou então com o Ramalho o plano a seguir»

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Dor que enlouquece
«(…) Tinha sido o tribuno e o comandante da populaça, para que a Nação se defendesse das pretensões de el-rei de Castela e não lhe deixasse levar a coroa do monarca falecido, na herança da infanta portuguesa dona Beatriz, esposa do rei invasor, mais a bandeira e a história da terra portuguesa. E o caso foi que, sem a intervenção daquele mestre tanoeiro, talvez a Nação não tivesse por chefe o jovem Mestre de Avis, e tivesse esmorecido na defesa da sua independência. Entre os homens de acção preponderante que apoiaram o bastardo de el-rei Pedro I e da plebeia dona Teresa Lourenço à subida do trono, três havia de incontestável grandeza, Nuno Álvares Pereira, fidalgo e guerreiro juvenil; Álvaro Pais, o velho chanceler dos tempos de el-rei Fernando, e aquele valente mesteiral (mestre artesão), que se chamava Afonso Eanes Penedo. Ei-lo, aí vem! anunciou outra voz. E com ele aquela alma boa do povo. O nosso querido velhinho, Álvaro Pais. Certo se irá recolher o Mestre aos paços de Apar S. Martinho. Viva o Mestre!, gritou uma multidão próxima das Portas de Ferro. E pouco depois, adiante de todos, mulheres e carpinteiros da Ribeira com archotes acesos. Sem nenhuma ostentação de poder, singelamente, quase ombro a ombro com o povo que o adorava, o Mestre de Avis subia lentamente com Álvaro Pais, muito abordoado ao seu bastão, arrastando por ali acima, penosamente, com as suas pernas trôpegas. Ao lado dele, na esquerda, um legista que, há dois anos, viera da Universidade de Bolonha onde se formara em leis, o doutor João das Regras.
Um pouco atrás, acotovelados pela multidão dos maltrapilhos descalços, dois pajens com tochas acesas, e depois o comandante dos besteiros. Oito homens de armas por escolta e mais ninguém naquele cortejo do Defensor do Reino, título dado pelos cidadãos de Lisboa, o Mestre da Ordem de Avis; um infante bastardo pelo pai, um homem do povo pela mãe. Havia explicação para o cortejo ser pequeno. Ainda nessa tarde o Mestre recebera avisos de certos movimentos suspeitos da esquadra castelhana e fora logo para as Portas do Mar, sem nenhuma comitiva, para observar ele próprio qual seria o intento do almirante de Castela. E por lá se demorara pela noite dentro, de atalaia, sem ter podido perceber o intento daquela evolução dos navios sitiantes. Tomou precauções, mandou um aviso confidencial às torres e às quadrilhas que guardavam as portas para se manterem em dobrada vigilância, mas não quis dar alarme à pobre cidade, já tão atribulada de provações. Nas trincheiras da praia dirigiu ele próprio, sem alarmes, as precauções de sobreaviso e, como em outras ocasiões, teve a auxiliá-lo dedicadamente o arcebispo de Braga, Lourenço, com o seu estado-maior de cônegos e a sua hoste de frades e clérigos seculares. Os trabalhos e os sacrifícios eram para todos.
O arcebispo, um homem intrépido, não admitia isenções de privilégio para ninguém naquela conjuntura angustiosa. Para ele era também serviço de Deus defender a Nação à mão armada, e a sua hoste de tonsurados não era das menos fervorosas nem das menos destemidas na defesa das trincheiras e no arranque das sortidas. Fora ele até o principal organizador na defesa do lado do rio, passando indiferentemente da sua tarefa de dirigente aos mais rudes trabalhos de construção, para estímulo da peonagem e dos seus clérigos. Pela noite adiante chegara o batel em que vinha o comerciante do Porto, João Ramalho, com a notícia de ter atracado em Cascais a esquadra de socorro. O Mestre combinou então com o Ramalho o plano a seguir, não só quanto à entrada dos navios, mas também a respeito do apoio que poderiam dar-lhe os defensores da cidade. Assente o que devia fazer-se para que a empresa, realmente grave, tivesse bom êxito, Ramalho voltou para Cascais com o mesmo risco e destemor, e o Mestre regressava agora ao paço para ali discutir com os seus cavalheiros e caudilhos do povo, entre os quais tinham lugar proeminente os homens de ofícios da Casa dos Vinte e Quatro do povo, com todas as minúcias e disposições da parte do plano que pertencia à cidade. E era neste assunto gravíssimo que o Mestre vinha a conversar com aquele velho alquebrado, que fora o cérebro dirigente da revolução e trazia em si, no seu arcabouço de septuagenário, uma das maiores almas de Portugal». In António Campos Júnior, A Ala dos Namorados, 1905, Luso Livros, Uma nova forma de ler, Formato digital, 2013.

Cortesia de LusoLivros/JDACT

sábado, 30 de janeiro de 2016

A Ala dos Namorados. António Campos Júnior. «E olhai que nunca mais se lhe soube o paradeiro! E enquanto iam falando assim, em grupos ou de porta para porta, a multidão dos alvoroçados aumentava de instante para instante»

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Dor que enlouquece
«(…) Uma grande lâmpada de bronze punha os seus reflexos de luz dourada na figura da Virgem com o seu Jesus pequenino ao colo, Mãe e Filho numa expressão de júbilo e ridente fulgor. Foi até ela, a tremer, a pobre esfarrapada; ajoelhou-se fervorosamente, a acalentar a filha, e pôs no painel um olhar mortificado, numa súplica em que as lágrimas davam o dobro das palavras. Senhora, acudi-me! Ninguém me ouviu, ninguém me pôde socorrer! Escutai-me vós! Socorrei-me, Senhora! Mãe divina fostes, mas também eu quero à minha filha, como vós, Senhora, ao vosso filho. Sofreu, sofrestes com ele, e mataram-no; mas o vosso era Deus, e a esta, coitadinha, sou eu que a deixo morrer! Senhora, talvez nunca sofresse fome o vosso pequenino Jesus, por se não terem secado para ele os vossos seios como secaram os meus! A criancinha estrebuchou-lhe nos braços como uma avezita agonizante e soltou um grito dolorido. A esfarrapada ergueu-se de repente, a tremer doidamente, e deu uns passos torcidos para que a luz da lâmpada lhe iluminasse melhor o rosto da pequenina. Estás a esfriar! Filha! Filha! Olha para mim!, rouquejou ao beijá-la, a tactear-lhe a cara, em convulsões de epiléctica. Mas a filha já não a ouvia. Estava morta. Morta pela fome. A mulher sacudiu-se em soluços e pôs-se numa correria doida pelo terreiro da Sé com o cadáver da pequenina erguido nos braços, trementes como se fossem de uma octogenária. E no céu de profundo azul brilhou um fulgor intenso de estrelas, no alheamento e na indiferença daquela dor de mãe a envolver-se em desvario de loucura! A enlouquecida sentou-se no degrau do portal a regougar uma trova de acalentar crianças e a embalar nos braços o corpo hirto da filha. Vibraram de repente naquele lúgubre silêncio vozes altas de gente que vinha da Porta de Ferro a correr. Gentes, despertai! Boas novas chegaram! Erguei-vos e dai graças a Deus! E com as vozes altas, alvoroçadas, ressoavam nos ares as marteladas das aldravas, revoava um sussurro de gente surpreendida, um ranger de portas que se abriam e um ruído de adufas que se levantavam.
Entrou um grupo de homens no terreiro da Sé. Vinha diante deles um galeote com uma acha de pinho embreada, acesa em guisa de archote, a esfumar de negro aquela frouxa penumbra das estrelas e a projectar os seus clarões vermelhos na fachada vetusta daquele grande templo. Por Deus, que chegaram boas notícias! Que notícias são?, inquiriram os estremunhados, assomando às portas com as candeias de luz na mão. São notícias de Nuno Álvares, o jovem campeão?, perguntavam. Quereis ver que deu nova arremetida contra os castelãos e venceu outra batalha? Eu já sonhei com ele três noites a fio, a entrar por Castela adentro, ao lado do senhor S. Jorge, com o seu bacinete de ouro e a sua lança de prata! E que tinha levado à escalada os muros de Badalhouce (assim chamavam a Badajoz.; parece que foi fundada pelos mouros com a denominação de Baladelaixe, que os nossos antigos mudaram para Badalhouce). Não vos deiteis a adivinhar, gente endrominada, que o caso foi outro. Dizei qual. Contai o que houve. Falai depressa. Dizei, insistiram muitas vozes. Lançou ferro (atracou) em Cascais a armada que veio do Porto a socorrer-nos, esclareceu um dos recém-chegados. Pois Santa Maria seja bendita e que viva quem nos vem ajudar. Viva! Viva! E o senhor dom Bispo que mande abrir as portas da Sé, e os senhores cónegos que mandem pôr luzes nos altares, para que Deus nos ampare! E quem trouxe tal notícia? Um homem bom do Porto, mercador rico, de rijas febras e destemida gana para o mar, que pelo escuro da noite fugiu de Cascais num batelzito e, por entre a armada inimiga, se atreveu a cá vir trazer-nos a boa notícia! Já esteve a falar com o Mestre, informou outro dos avisadores, referindo-se ao Mestre da Ordem Militar de Avis, filho bastardo de el-rei Pedro I. E com ele veio também aquele destemido fidalgo jovem de Riba-Douro, que foi o mais belo pajem da rainha comborça (mulher que tem amores ou vive com um homem casado. Assim chamavam à rainha dona Leonor Teles) e o mais animoso na guerra do ano passado. Não sei quem seja! Ora! Nem Lisboa conhece outro mais afoito de alma. É aquele jovem de vinte anos que mandou desafiar o Condestabre de Castela. Ah! Esse então todos nós sabemos quem é. É claro que se sabe. É Ruy Vasconcelos, da melhor nobreza de Riba-Douro.
Morrem por ele as mulheres novas. E dizem que no paço real por ele se perdeu certa dama linda como as estrelas. E olhai que nunca mais se lhe soube o paradeiro! E enquanto iam falando assim, em grupos ou de porta para porta, a multidão dos alvoroçados aumentava de instante para instante; as luzes das candeias brilhavam pelas adufas como pirilampos e voejava pelos ares um rumor mais intenso de passos e de vozes. Entretanto, no portal da Sé, alheada de tudo, a enlouquecida mãe, a quem a filha morrera, soluçava as orações com ela deitada no regaço. A multidão podia lá ouvi-la! Ninguém reparara naquela mulher nova, enrodilhada em farrapos de brocado, endoidecida no drama da maior dor humana, toda mirrada na sombra enorme da igreja. E ela também absolutamente alheia a todo aquele alvoroço, como se ali a tivessem cegado as suas próprias lágrimas e de tudo tivesse ensurdecido no estonteamento daquela mágoa inexcedível e sem remédio! Gentes, aí vem o Mestre, o Defensor, o que um dia será rei!, gritou à frente da multidão, numa voz dominadora, que se sobrepunha a todas as outras, um homem alto, espadaúdo, exemplar admirável dessa raça de plebeus que havia então, de consciência lavada e ânimo intemerato, para falarem alto fosse a quem fosse, e para morrerem a peito descoberto pelo seu crer e pela sua coragem. Era o tanoeiro (tanoeiro ou toneleiro é um artesão dedicado ao fabrico de barris, pipas ou tonéis para embalar, conservar e transportar mercadorias, principalmente líquidos) Afonso Eanes, o chamado Juiz do Povo", um revolucionário dos dias turbulentos que seguiram à morte do rei Fernando I». In António Campos Júnior, A Ala dos Namorados, 1905, Luso Livros, Uma nova forma de ler, Formato digital, 2013.

Cortesia de LusoLivros/JDACT

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A Ala dos Namorados. António Campos Júnior. «Em frente da Sé, as torres castelãs, envoltas num manto de sombra como figuras gigantescas de alguma lenda, uma mulher nova, de cabelos esparsos, uma farrapagem de brocados a cingir-lhe o corpo, que era talvez belo…»

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Dor que enlouquece
«Fora calmo aquele dia de Junho de 1384. O sol sumira-se afogueado, globo enorme de ouro fulvo que deixara pelos cumes dos montes e sobre as águas dormentes do Tejo um crepúsculo agoirento, vermelho como a púrpura antiga dos autocratas e como o sangue forte da plebe. Em todas as torres de Lisboa bateram lugubremente as badaladas da alvorada. Parecia que nunca os sinos da cidade tinham tido uma voz assim dolente! Badaladas como trágicos soluços daquele bronze que parecia ter dentro em si a alma angustiosa da cidade. E não era deles afinal aquela tristeza imensa; era do coração de quem os ouvia. A voz dos sinos era a mesma dos dias jubilosos; no coração dos atormentados, dos famintos, dos que traziam consigo a dor e o luto, é que a repercussão mudara como se viesse timbrada pelas amarguras da Pátria e pelas tristezas de cada lar. Jesus!, soluçara uma velha a quem o marido e o filho tinham morrido, dias antes, numa sortida às portas de Santa Catarina, contra os castelhanos que cercavam Lisboa (o bloqueio terrestre da cidade pelas tropas de Castela começara em 9 de Fevereiro de 1384. O cerco cerrara-se em 27 de Abril, depois de ter chegado ao Tejo a primeira divisão de uma poderosa esquadra castelhana). Estão a dar aquelas badaladas como se fosse para lembrar os tantos que a morte levou e os muitos que hão de acabar, se o nosso Senhor não tiver dó desta pobre cidade e desta infortunada Nação! E para maior agouro e mais doloroso contraste, as sinetas de bordo das cinquenta e três naus e galés que El-rei de Castela tinha no Tejo também tocaram na alvorada, mas essas numas vibrações agudas, ligeiras, como se tivessem um timbre de riso de escárnio pela aflição da cidade. Ouviam-se bem na trágica melodia daquele crepúsculo. A armada potente de Castela estava atracada desde Santos até para lá de Cacilhas, muito próxima da praia, a cerrar estreitamente o cerco. Mas do acampamento castelhano, a rodear Lisboa das alturas de Santa Clara ao Monte da Graça e à Penha, das extremidades de Valverde (o valezito da actual Avenida da Liberdade), daqueles hortejos às lombas de Campolide e do monte de Santa Catarina às praias de Santos; dali vinham ainda mais opressoras repercussões naquele anoitecer de Junho. Vinham do estridor arrogante das trombetas no soberbo alarde das Trindades. Estão a uivar os lobos de Castela! Má peste os ponha em fuga!, comentara um besteiro (soldado que tem a besta como arma, estando na mesma categoria bélica que os arqueiros ou archeiros) de cabelos grisalhos. Já pela noite dentro, as procissões de penitência cruzavam-se nas ruas, gemendo o seu miserere, e as igrejas atulhavam-se de gente angustiada, que fazia preces pela boa fortuna da cidade. Para que Deus protegesse o jovem Nuno Álvares Pereira, já vencedor dos castelhanos na batalha dos Atoleiros, e para que a nossa Senhora trouxesse rapidamente e a salvamento a esquadra que esperavam do Porto com o socorro de que tanto carecia a capital.
Depois passaram silenciosas, num passo pesado e lento, de piques e bestas ao ombro, as quadrilhas de peonagem (era todo o soldado raso de posição militar mais baixa, apelidado de peão) de reforço para as setenta e sete torres e trinta e oito portas que tinham as muralhas de Lisboa e para as trincheiras de estacaria dobrada, que reforçavam as defesas até à praia de Santos, e seguiam ao longo da Ribeira e dos Fornos da Cal até ao mosteiro de Santa Clara. Para os lados das Portas de Santa Catarina e da Torre de Álvaro Pais (na moderna rua de S. Roque), trotava um grupo de cavaleiros, de bacinetes emplumados, cotas e braçais. Iam para onde o perigo era maior e mais frequentes as escaramuças com os sitiantes. Depois o soluçar das preces emudeceu, as velas dos altares apagaram-se, as grandes portas das igrejas cerraram-se. Esmoreciam pelas esquinas e sobre as portas de casas abastadas os lampiões e as candeias dos nichos, à míngua de umas gotas de azeite, porque até nisto se manifestava a miséria daquela encantadora Lisboa, à qual os mouros tinham chamado a Sultana do Mar Azul do Ocidente. Foi correndo a noite e a cidade parecia adormecida num sono de pesadelos. Mas nem toda ela adormecera. Nas muralhas velavam as atalaias, e dos lados da Ribeira vinha, a espaços, um rumor brando de vozes. Mas nos lares que a morte enlutara de lágrimas de dor, nos castelos miseráveis, quantos esquálidos havia, que não conseguiam dormir por causa da sua horrorosa tortura de famintos?
No recanto de uma travessa, um grupo de esfarrapados esquartejava sofregamente uma mula escanzelada para o seu banquete daquela noite. Havia dois dias que não traziam na sacola nem uma côdea bolorenta de esmola, uma côdea daquele pão miserável que então se fazia na cidade com o bagaço da azeitona, as raízes das ervas e as malvas dos quintalejos abandonados. No terreiro, onde ainda um mês antes se vendiam uns restos de trigo, bandos de crianças semi-nuas, estonteadas de sono e roídas de fome, andavam a arranhar o chão para ver se a terra tinha escondida em si a fartura de alguns bagos de trigo. Eram mais bem sucedidos que as pobres crianças, os cães sem dono, a focinhar nas montureiras, que trescalavam podridões de cadáveres. Em frente da Sé, as torres castelãs, envoltas num manto de sombra como figuras gigantescas de alguma lenda, uma mulher nova, de cabelos esparsos, uma farrapagem de brocados a cingir-lhe o corpo, que era talvez belo, parara arquejante, aconchegando muito aos seios um vulto pequenino de criança, num choro convulsivo e débil.  Como tu choras, amor da minha alma! Cheia de fome! Eu sei! Eu sei! Filha, dava-te o meu sangue, e não posso matar-te a fome!  Murmurara-lhe isto num estrangulamento de soluços como se a pequenina a pudesse compreender, e apertava-a mais contra o peito como se quisesse que do seu seio ressequido aquela boquita lhe pudesse beber o sangue. Lavada em lágrimas! Têm mais sorte os que morrem! Que tamanha misericórdia seria se a nossa Senhora nos levasse a ambas para si! E a pequenita num choro cada vez mais convulso, mais rouco, mais dolorido. Num relancear dos seus olhos de alucinada, turvos de lágrimas, a desventurada mulher deu com um painel da Senhora Mãe de Deus, que o padre Cabido mandara erguer por cima da porta do templo, desde que as misérias do cerco tinham posto a cidade em maiores desalentos». In António Campos Júnior, A Ala dos Namorados, 1905, Luso Livros, Uma nova forma de ler, Formato digital, 2013.

Cortesia de LusoLivros/JDACT

sábado, 7 de junho de 2014

Guerreiro e Monge. Romance Histórico. Campos Júnior. «Apeou-se na Ribeira. Toda a comitiva lhe seguiu o exemplo. Foi para as cavernas das naus, imóveis nos grosseiros e singelos estaleiros daquele tempo, como se fossem o truncado esqueleto de enormes paquidermes antediluvianos…»

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O Bastardo. Na Ribeira das Naus
«(…) Havia também um sentimento de piedosa comiseração por aquele extraordinário desditoso. A morte sentara-se com ele no trono. Fora a sua terrível colaboradora e era agora o espectro da sua trágica expiação. O filho que estremecia, o seu único filho legítimo, talvez o seu único amor, morrera-lhe desastrosamente, havia três anos, na ribeira de Santarém, e aquele coração, que parecia de bronze, espedaçara-se na sua imensa dor de pai! Ao vê-lo, a multidão descobriu-se e curvou-se, num espontâneo movimento de veneração. Havia entre o povo muitos judeus, que tinham sido recentemente expulsos de Espanha, com iníqua ferocidade. Dera-lhes El-rei guarda, contra a maioria de votos dos seus conselheiros. Os pobres expulsos curvavam-se, sinceramente gratos, diante daquele rei tolerante. O rei João II volvia para a multidão um olhar de falso júbilo e mascarava em sorrisos, que eram como esgares dolorosos, o drama sombrio que trazia dentro de si. Olhai quanto El-rei vem mudado!, segredava-se entre a multidão. - As barbas de um velho! - Tão rosado era, e vem mais amarelo que um círio! - É a peçonha que lhe deram na Fonte Coberta que anda a trabalhar com ele! Não o matou logo, mas lá o vai queimando por dentro.
Mal empregado, que é um homem às direitas e tem sido o amparo dos que não são fidalgos nem clérigos. Compreendia-se este interesse do povo, como se explicava a sua curiosidade. Andara João II por largo tempo afastado de Lisboa, cuidando da sua saúde, profundamente abalada. Regressara à capital, havia alguns dias apenas, e fizera constar que iria à Ribeira ver as naus e dar-lhes nome. Aparecia ao povo pela primeira vez depois de uma larga ausência; aparecia-lhe solenemente, com aquela grandeza de representação que ele julgava o culto exterior da sua dura e trágica vitória de outros tempos! Apeou-se na Ribeira. Toda a comitiva lhe seguiu o exemplo.
Foi para as cavernas das naus, imóveis nos grosseiros e singelos estaleiros daquele tempo, como se fossem o truncado esqueleto de enormes paquidermes antediluvianos, foi para elas que o Rei volveu o seu primeiro olhar, e como que um estranho clarão de júbilo lhe fulgiu nas amortecidas pupilas. Foi um demorado olhar. Se a morte, pensava João II, se essa lúgubre companheira que a toda a parte o seguia, como trágica sombra da sua própria figura, o não levasse em poucos anos, iriam as derradeiras esperanças do seu coração espedaçado e a última grande ambição da sua vida tormentosa dentro do cavername daqueles navios, como dentro do tórax de um gigante. E na volta da Índia, rasgado o rútilo caminho, que espantosa glória não seria a sua, se lhe fosse dado ver a esvoaçar nos mastros daquelas naus, esfarrapada talvez pelas ventanias do Cabo, requeimada pelo sol do Levante, mareada pela espuma das ondas, a ínclita bandeira da terra portuguesa, transmudada em lábaro imortal da civilização cristã! Fora nos deslumbramentos deste sonho, que a espaços lhe iluminava docemente a alma entenebrecida, como um raio de sol pode esclarecer e acalentar os gélidos muros de um cárcere; fora em um desses deslumbramentos que o Rei decidira a sua visita à Ribeira, por tal arte que aos olhos do povo tivesse a significação de um grande e faustoso acontecimento. Assim se iria consagrando o seu plano, ainda mal compreendido». ». In António Campos Júnior, Guerreiro e Monge, Romance Histórico, Livraria Romano Torres, Lisboa, 1952.

Cortesia de L.R.Torres/JDACT

Guerreiro e Monge. Romance Histórico. Campos Júnior. «Terrivelmente fero na sua luta de defesa, mas imensamente grande nos seus desígnios de homem de estado! ‘O povo sabia-lhe a história e compreendia-o’. Aquele braço, que brandira um punhal, desoprimira-o; aquela alma…»

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O Bastardo. Na Ribeira das Naus
«(…) A pouco espaço, singelamente vestido e quase isolado da sua brilhante comitiva, aparece El-rei, lívido, altivo, inconfundível, montando um soberbo cavalo de opulentos jaezes. No Tejo estrondeiam então as bombardas e os berços (pequenas peças de artilharia) da nau de mil tonéis e das grandes caravelas de guerra. Sente-se que vem ali a figura gigantesca de uma grande época, resumindo na velhice precoce, na palidez funérea, no olhar de condor, a sua história de sangue e a sua história de glórias. O povo sabe a história desse Rei; conhece a tragédia imensa desse homem. Aos dezasseis anos, ainda imberbe, é dos mais bravos entre os valentes de Afonso V, na conquista de Arzila, e ao cabo da peleja, com a .espada vermelha de sangue, embotada nas cimeiras moiriscas, recebe de joelhos, junto do cadáver de um herói, o conde de Marialva, na mesquita transmudada em templo católico, a sagração do seu primeiro feito de cavaleiro, como na pragmática heróica dos velhos tempos medievos.
Na batalha de Toro foi ele o vencedor. Fica à frente da sua hoste, que os castelhanos não puderam repelir, fica no campo de batalha como um triunfador antigo, e na página em que a história espanhola assinala uma vitória, porque a ala de Afonso V recuou destroçada, alastra-se como um desmentido enorme a sombra formidável daquele homem. No trono, que estivera deprimido pelo poder imenso da nobreza e do clero, no trono, outrora sombreado pelos espantosos privilégios de uma fidalguia insubmissa, ergue-se como um trágico antigo, luta como um gladiador indomável e, buscando no povo oprimido e espoliado a aliança e a força que lhe sustente o sólio, quebra em volta de si as arrogâncias rebeldes, faz relampejar o cutelo do algoz sobre a cabeça do duque de Bragança e apunhala impiedosamente, como um sicário, o moço duque de Viseu, o indicado chefe de uma conspiração.
Terrivelmente fero na sua luta de defesa, mas imensamente grande nos seus desígnios de homem de estado! O povo sabia-lhe a história e compreendia-o. Aquele braço, que brandira um punhal, desoprimira-o; aquela alma, implacável para a vindicta, suscitara-lhe os queixumes de agravos contra as classes privilegiadas e ouvira-lhos clemente. A voz daquele homem, sinistro para quantos lhe afrontavam o poder, sabia falar destemidamente à audácia estrangeira, e no cérebro, que tantas vinganças…, vivia o pensamento inabalável do engrandecimento e da glória da pátria portuguesa. Sabia o povo que por vezes se planearam conspirações de morte contra aquele Rei e que o punhal, o arcabuz e o veneno estiveram a ponto de o derribar do trono. Vencera talvez o veneno, pois estava-o denunciando a terrível palidez do seu rosto.
Os humildes não podiam esquecer as cortes de 1481, aquelas cortes de Évora, em que os procuradores dos concelhos, os antigos deputados do povo, haviam exposto, a instigações indirectas do filho de Afonso V, todos os agravos e todas as violências e extorsões que desde muito eram oprimidos pelos grandes privilegiados. Fosse ou não sincera a aliança daquele soberano com o braço popular; houvesse-o movido apenas o interesse de consolidar o trono e erguê-lo acima da sobranceria semifeudal dos fidalgos e dos príncipes da igreja; fosse como fosse, o povo reconhecia-lhe o patrocínio e percebia o grande vulto que era, a despeito de todas as suas máculas. Estimava-o. Não seria amor; era decerto gratidão. Sentia-lhe a grandeza, e pagava-lhe os benefícios estimando-o». In António Campos Júnior, Guerreiro e Monge, Romance Histórico, Livraria Romano Torres, Lisboa, 1952.

Cortesia de L.R.Torres/JDACT

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Pedras Que Falam. Campos Júnior. «Na salita humilde e rústica, onde apenas podiam caber quatro ou cinco pessoas. Diogo Silveira convidava a desconhecida a sentar-se na mais segura das suas quatro velhas cadeiras»

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A Misteriosa Protectora
«(…) Muito do coração vos agradeço a gentileza-disse a dama carinhosamente. - Nada tendes que agradecer-me. A minha mágoa é que João Alberto não esteja agora na aldeia para vos mostrar ali dentro da escola com os seus rapazes, como pai que tivesse sessenta filhos e de todos eles fosse querido e admirado. Como ele fala aos garotos e as lindas coisas que sabe contar-lhes! De tal modo, minha senhora, que até os mais pequenos lhas entendem e sentem!
 - Costuma sair daqui frequentemente? - Todos os dias, depois de dar aula. - Talvez de visita a pessoas das suas relações? – perguntou a dama com a voz um pouco turbada. - Não, minha senhora.- Vai dar lições particulares de português e francês, para o curso dos liceus, aos filhos de uns lavradores ricos, uns cinco, dos que mais podem aqui por estes sítios. Naquela sua tamanha lida, cedo virá a envelhecer mal empregado!
Corno se a houvessem comovido estas palavras do velho mestre-escola a dama do véu negro teve um arrepio nervoso que a fez estremecer. - Aceito o convite - decidiu numa tremura de voz - e seria bondade vossa que me désseis a honra de ir convosco. Tenho de seguir para longe e receio demorar-me por causa de minha mãe, uma doente que precisa de especiais cuidados. - Pois não, minha senhora. Estou às vossas ordens. E se quereis que vossa mãe me dê também a honra de entrar em minha casa... - Não, muito obrigada. Qualquer coisa a fatiga e lhe sobressalta o pobre coração amargurado. Irei eu sozinha convosco.
A jovem foi ter com a mãe, murmurou-lhe umas palavras em voz baixa, ajudou-a a entrar no, automóvel e voltou agilmente para junto do velho Diogo Silveira. E lá foram os dois para o outro extremo da aldeia. Ficou atónita aquela espantada gente que se tinha juntado no terreirozito da escola. O Mestre-Velho, todo ancho com aquela senhora, toda de preto como, enviuvada! Talvez fidalga ou alguma estrangeira, alguma princesa! Nova e airosa, bem se via que era por aquele seu passo leve e miudinho como o das andorinhas. E bem podia ser que fosse lindo como as estrelas aquele seu rosto coberto, de negrumes, como também às vezes no céu um farrapo de nuvem negra encobre a face resplandecente de uma estrela.
Mas o que teria o Mestre-Velho com aquela criatura que nunca ninguém vira ali na aldeia, e para onde iriam os dois, deixando ficar a outra desconhecida, a velha, muito bem sentada naquela caranguejola roncadora que ali ficara arquejante, como se estivesse a deitar os bofes pela boca fora?

Na salita humilde e rústica, onde apenas podiam caber quatro ou cinco pessoas. Diogo Silveira convidava a desconhecida a sentar-se na mais segura das suas quatro velhas cadeiras. - Perdoai a pobreza de tudo isto e fazei-me a mercê de estardes como em casa de um criado vosso. - Por amor de Deus, não faleis assim! Estarei aqui no desafogo de quem encontra guarida em casa de pessoa amiga, que o fosse há muitos anos. Levantou o longo e pesado véu e sentou-se com graciosa gentileza. Maravilhado então com aquele rosto de peregrina beleza, o Mestre-Velho nem se atrevia a sentar-se também.
Nos grandes olhos negros daquela beldade, que não teria mais de vinte e cinco anos, havia uma doce e entristecida luz, que suavemente lhe iluminava as faces de pálida alvura. Seria encantadora aquela pequenina boca vermelha quando sorrisse na consoladora alegria de viver. Bendito Deus! - exclamava de si para si, numa expressão de assombro, o pobre do mestre-escola – Nunca em dias de minha vida vi lindeza assim! - Então não vos quereis sentar, senhor Diogo Silveira? - Sento, sim, minha senhora - respondeu-lhe ainda com maior acanhamento, como se tivesse ali diante de si uma desencantada princesa dos velhos contos de outras eras.
 - Falai-me então, do vosso colega João Alberto, do seu viver, da sua escola, de tudo o que dele souberdes». In Campos Júnior, Pedras Que Falam, romance histórico, edição Romano Torres, Lisboa, 1953.

Cortesia de RTorres/JDACT

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Guerreiro e Monge. Romance Histórico. Campos Júnior. «Ouvia-se iá próximo o tropel da companhia dos ginetes de El-rei sobre as pedras da “rua Nova”, que João II havia pouco tempo mandara calçar. Os cavalos, de orelhas fitas e olhares inquietos, escarvavam na areia impacientes e soltavam o seu relincho estridente»

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O Bastardo. Na Ribeira das Naus
«(…) Salomão Zacuto indicava as primeiras caravelas que em Portugal e na Europa foram armadas de artilharia de grosso calibre. A primeira fora artilhada em Setúbal com bombardas de bronze, por ordem de João II, que muito se havia entregado ao estudo do armamento dos navios e muito a peito havia tomado os progressos da artilharia, mandando proceder ao fabrico de peças de bronze. - E para que se não ficasse por uns pequenos baixéis da carreira da Mina - prosseguiu Zacuto - ali se está embalando no rio aquela alterosa nau de mil tonéis, a maior que ainda se viu cá; tão grande navio que certamente iguala, se não excede, as maiores galés de Veneza!
E o moço Lourenço seguia a indicação do judeu, num olhar de infantil entusiasmo. - Bem compreende El-rei que só nos mares o reino alcançará tornar-se poderoso, à semelhança de Génova e de Veneza. É Portugal tão pequeno estado que seria loucura sonhar outra coisa que não fossem armadas para segurar o tráfico do Oriente e feitorias para abastecer as armadas. - Parecer diverso é o meu, Francisco – objectou o estribeiro-mor do Rei com excepcional vivacidade e como se uma recatada ambição lhe lampejasse no olhar - Nações, que principiaram pequenas, foram essas as que no mundo talharam mais dilatados impérios. Entre os livros do paço real existe um velho códice, que há cerca de vinte anos um moço escudeiro de el-rei Afonso V costumava ler apaixonadamente, nas suas horas de repouso. Conta a vida e os feitos de Alexandre, o Grande, o velho livro latino. Em tal livro aprendi eu, Francisco de Almeida, como as nações pequenas se tornam impérios. Se algum dia os nossos forem à Índia, se lá formos...
E Albuquerque não pôde concluir a frase, ou calculadamente aproveitou o ensejo de a deixar incompleta. Por cima das muralhas do Castelo estrondeavam foguetes, e a este sinal vibraram os sinos das numerosas igrejas da cidade. Chegavam até à Ribeira os sons agudos das trombetas e charamelas da escolta real, que saía do Castelo. Um ruído espantoso de vozes revoou da multidão irrequieta. - É El-rei que sai da Alcáçova - disse o judeu. E o moço Lourenço, quase de pés nos estribos, olhos fitos na ladeira do Castelo, o corpo agitado em estremecimentos de ingénua comoção, exclamou: - Vem ver e baptizar as naus da Índia! - Ai, meus ilustres fidalgos! No prazer de vos ouvir, de todo me passou que alguém me está aguardando a bordo de uma galera de Veneza, que esta madrugada entrou!
 - E não ficais, Salomão Zacuto, agora que vai chegar El-rei? - perguntou Lourenço. - Bem quisera ficar, meu querido menino, mas por mim espera quem nada conhece da cidade e muito me foi recomendado de Veneza. - Ides agora buscá-lo ao navio? - perguntou Francisco. - Irei ao cais do Corpo Santo, pois que defronte dele lançou ferro a galera Santa Fé, conforme o aviso que me deram. Se ainda o meu hóspede não houver desembarcado, certo será que terei de o ir buscar a bordo. - Daqui ao cais maravilha será que logreis atravessar por tamanha multidão - observou Albuquerque. Conheço bem o anadel dos espingardeiros, e fio que por sua intervenção me será dado romper para o cais. – Pois ide em paz, mestre Salomão Zacuto – disse-lhe Francisco, e logo acrescentou, como recordando-se subitamente-Ah! É verdade, que de todo se me ia varrendo da memória. Dizei ao mancebo vosso protegido, esse de quem me haveis falado, que em minha casa me procure depois de amanhã, para tratarmos o que sabeis.
 - Por ele e por mim vos beijo as mãos, Francisco. E em qual ocasião deverá ir, sem que se vos torne molesto? - Logo da banda de manhã. Pelo que dele me haveis dito, certo será que nos entenderemos a contento. - Nisso creio, Francisco. - Ide, ide, enquanto o aperto se não torna maior com a chegada de El-rei, que não poderá tardar. Salomão saudou Albuquerque e os Almeidas, e tomou caminho por entre a multidão.

Ouvia-se iá próximo o tropel da companhia dos ginetes de El-rei sobre as pedras da rua Nova, que João II havia pouco tempo mandara calçar. Os cavalos, de orelhas fitas e olhares inquietos, escarvavam na areia impacientes e soltavam o seu relincho estridente. As filas dos espingardeiros mais comprimiam a multidão, para abrir caminho à comitiva, já muito próxima da Ribeira. - Almas de Belzebu, para trás! - bramia o anadel dos espingardeiros com a bigodeira ferozmente encrespada. Pelas Portas da Ribeira desembarcaram as primeiras filas da companhia dos ginetes. Está-lhes o sol fulgindo em lampejos rutilantes nos capacetes, nos arneses, na longa lâmina das espadas. Branqueja como espuma o suor na anca dos cavalos, insistentemente refreados. A multidão reconcentra-se instintivamente, num movimento de surpresa e de receio. Vinham a cavalo e descobertos os porteiros da cana e os moços da estribeira; depois, os homens das charamelas com os seus trajes de vivas cores». In António Campos Júnior, Guerreiro e Monge, Romance Histórico, Livraria Romano Torres, Lisboa, 1952.

Cortesia de L. R. Torres/JDACT

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Guerreiro e Monge. Romance Histórico. Campos Júnior. «Seja como for, mestre Salomão - atalhou Albuquerque - a boa verdade é que o tempo vai agora para os embarcadiços das caravelas da Mina, e bem percebeis com qual razão a espada que batalhou em Marrocos e Otranto…»

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O Bastardo. Na Ribeira das Naus
«(…) Tudo mudou! - prosseguiu Albuquerque – Castela seguirá os destinos da grande monarquia que se formou em volta do trono de El-rei Fernando, o Católico. - Ou melhor se poderia dizer da rainha Isabel, que vale bem o melhor dos reis, tal é a grandeza do seu ânimo - observou Francisco. - Melhor o sabeis vós do que eu, que aos dois valorosamente haveis servido - volveu Albuquerque. Seja, porém, como for, é bem claro que também Castela se volta para a aventura dos mares, tomando o caminho que as nossas caravelas abriram, no tempo do senhor infante Henrique. Aprenda a ler cartas de marear quem tiver ânsias de glória troque a espada pela cana do leme como o genovês que ali veio o ano passado alardear as suas prosápias de descobridor das ilhas do Zipango. Vereis que há-de ir atrás dele a cobiça espanhola em busca do oiro e das especiarias do Levante.
Se assim for, quando algum dia os nossos chegarem à Índia, se lá forem, andará já o Oriente enxameado de castelhanos e aragoneses - observou Francisco. - Perdoai, se de algum modo vos contradigo – acudiu o judeu, mas creio bem que tal não sucederá. Cristóvão Colombo prometera encontrar essa Índia de que messer Marco Pólo contara maravilhas no seu livro do Cathaio e do Zipango, e para se não confessar em erro…
 - Que se o foi, como entendo - atalhou Albuquerque – boa culpa cabe também ao sábio Toscanelli, a quem o genovês pedira conselho. Como em tempo lho havia pedido o senhor rei Afonso V, a respeito das terras onde amadurecem as especiarias. Mas nem ao rei de Portugal nem ao aventureiro de Génova podia o sábio florentino dizer outra coisa que não fosse uma suposição colhida em livros de antigos geógrafos. Cristóvão Colombo não quer dar o braço a torcer, e é talvez intento seu realçar a sua aventura no fingimento de haver encontrado as terras do Zipango. - Mas olhai, mestre Salomão Zacuto - redarguiu Albuquerque - olhai que no ano passado ele próprio teve a audácia de o dizer aí por Lisboa, mostrando, como testemunho da sua verdade, os cativos e as coisas que pudera trazer das terras encontradas.
 - Tenho um traslado do livro de messer Marco Pólo; atentamente o hei lido e meditado e, do ensinamento que dele colhi e das falas que tive com o próprio genovês, sondando nele disfarçadamente todos os particulares de sua viagem, vim ao convencimento de que, ou nunca leu o livro do veneziano e só das maravilhas contadas ouviu falar por alto, ou, se bem o conhecia, a todos nos quer embair, fingindo haver achado o remoto Oriente. O mais certo será que nunca o houvesse lido, bem que seja homem de saber. O que ele viu e conta da sua viagem em nada se combina e parece com o que messer Marco Pólo referiu. Outras terras encontrou – concluiu o judeu – novas terras, certamente, de que pilotos portugueses haviam já trazido vaga notícia, tais como um tal Afonso Sanches.
 - E não falta quem diga - acrescentou Albuquerque - que esse tal piloto legara à hora da morte ao apregoado genovês, genro de Bartolomeu Perestrelo, uns certos papéis da sua viagem a umas novas terras das bandas de oeste. - Terras de entranhas de oiro - prosseguiu o judeu - mas não as do Zipango. - Mas lembrai que El-rei teve dúvidas a tal respeito – redarguiu Francisco - e, pelas ter, havia resolvido que uma armada fosse verificar se o descobrimento do genovês ofendia as obrigações do tratado das Alcáçovas, entrando na limitação das paragens que Portugal tem o direito de descobrir. - Assim é, Francisco de Almeida – confirmou o judeu - e por tal sinal vos escolheu Sua Alteza para capitão-mor dessa armada. Mas não se houvesse convencido El-rei de que o genovês não tinha chegado às Índias, e não seriam os rogos do Sumo Pontífice, nem as boas palavras de amizade do enviado de Castela, que do seu propósito lograriam demover o nosso rei João II.
 -Seja como for, mestre Salomão - atalhou Albuquerque - a boa verdade é que o tempo vai agora para os embarcadiços das caravelas da Mina, e bem percebeis com qual razão a espada que batalhou em Marrocos e Otranto se não pode honrar agora a golpear os negros boçais do Manicongo. Quanto à Índia, Deus sabe o que será, se algum dia lá formos. - Está o cometimento em excelentes mãos, e anda-me a dizer o coração que lá hão-de ir os Portugueses, e quem sabe se também vós, meus ilustres fidalgos? - disse o judeu calorosamente, com uns grandes ares proféticos. - Se algum dos dois houver de ir lá - notou Francisco, sorrindo - esse tal será Afonso de Albuquerque, mais entendido do que eu na arte de navegar. - Primeiro se lembrará de vós El-rei, que já vos confiou o mando de uma armada - retorquiu-lhe Albuquerque.
 - E com meu pai e senhor, certo iria eu também, mestre Salomão - disse timidamente o pequeno, corando muito. - Pois certo é que haveis de ir, meu querido menino - respondeu-lhe o judeu carinhosamente. - Tendes ares de profeta, mestre Salomão - volveu-lhe Francisco de Almeida, rindo - O pior é que o descobrimento ainda não está feito, e as naus que hão-de intentá-lo aí as tendes ainda em esqueleto. - Tudo El-rei traz prevenido e disposto. Será mais cedo do que muita gente supõe. Olhai como as coisas da armada se vão aumentando! Vede aí, toucadas de pendões e galhardetes, aquelas donairosas caravelas já abastecidas de artilharia, como até nossos dias se não havia visto em tais navios». In António Campos Júnior, Guerreiro e Monge, Romance Histórico, Livraria Romano Torres, Lisboa, 1952.

Cortesia de L. R. Torres/JDACT

Guerreiro e Monge. Romance Histórico. Campos Júnior. «Passava Albuquerque por um dos mais cultos fidalgos do seu tempo e dizia-se que era muito dado ao estudo da geografia e das letras clássicas. - Bom olhado vos ponham, mestre Salomão Zacuto…»

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O Bastardo
Na Ribeira das Naus
«(…) Já não eram apenas dois fidalgos de preclaro nascimento. No seu livro de linhagens havia uma página de glórias, escrita pelas suas próprias espadas. Francisco estivera na batalha de Toro, militara distintamente na Espanha e como voluntário se assinalara na conquista de Granada, ao serviço dos reis de Aragão e Castela, contra os moiros. Albuquerque fora à conquista de Arzila e estivera com uma esquadra portuguesa no cerco de Otranto, ao lado das forças do rei de Nápoles, contra os turcos. Era Albuquerque homem de regular estatura, seco e nervoso. Emoldurava-se-lhe o rosto alvo e comprido em longas barbas pontiagudas, que lhe ondeavam sobre o peito. Gracejador e prazenteiro na conversação tranquila e despreocupada, era, todavia, habitualmente severo e cismador.
Frequentemente se lhe avincava a fronte, como se no cérebro alguma desconsoladora luta de ideias profundamente o contrariasse. Tinha no rosto os traços indicadores de uma rara energia e de uma insofrida audácia. Às vezes relampagueava-lhe cóleras no olhar, altivo e profundo como o olhar das águias. Naturalmente arrebatado, fragueiro como então se dizia, as suas cóleras eram como as tempestades do mar, que subitamente se agita em ondas formidáveis. Passava Albuquerque por um dos mais cultos fidalgos do seu tempo e dizia-se que era muito dado ao estudo da geografia e das letras clássicas.
 - Bom olhado vos ponham, mestre Salomão Zacuto, disse Francisco para um velho judeu, que junto dele ia passando - Por vida minha, que muito embebido ides nos dizeres desse papel! -Vós aqui, Francisco de Almeida! -exclamou o judeu, voltando - E vós também, Afonso de Albuquerque! Em boa hora passei para ter a ventura de vos encontrar! - acrescentou, saudando com uma grande expressão de respeito e de afectuosa alegria. E, reparando em Lourenço, fez-lhe um carinhoso cumprimento, cheio de bondade. - Como o vosso filho se vai fazendo homem, Francisco! - disse Zacuto - Que donairoso cavaleiro, loiro e gentil como os príncipes encantados, não tendes vós aqui, meu nobre fidalgo! - Então, mestre Salomão Zacuto! - repreendeu, sorridente, Francisco de Almeida, com os olhos a encherem-se-lhe de água - Olhai que mo fazeis vanglorioso!
 - Desse perigo o creio eu livre, que é vosso filho. Tem o bom exemplo dos seus. Para afugentar vaidades, aqui vos tem a vós, embaixador que fostes na corte de França, cavaleiro de Granada, companheiro do grão-capitão Gonçalo de Córdova na conquista do derradeiro estado moiro da Espanha, ilustre pelo berço e pelo esforço do ânimo, e apartado do brilho da corte, bem que de El-rei sejais tão querido e estimado que já à sua mesa vos assentou. - Favores vossos. Com El-rei estarei, com ele e por ele, cada vez que da minha espada e da minha vida carecer para o seu serviço e para a honra e defensão desta nossa terra. Para o mais, lá tem consigo El-rei fidalgos de sobra.
 - Boas e nobres palavras as vossas, Francisco - comentou Albuquerque - Assim também o entendo e sinto, e bem que a vida em grande parte se me tenha decorrido no paço, desde os tempos do senhor D. Afonso V, que Deus tenha em glória, mais me aprazem rudes pelejas com moiros de África ou turquescos do que as grandezas e os festejos da corte. - E bem o haveis mostrado, senhor -- observou o judeu. - Não tanto como era ambição minha - retorquiu Albuquerque - Ainda criança me trouxeram ao paço deveres de obediência aos meus e lá me prendem ao presente, como sabeis, deveres de gratidão aos favores de El-rei. Grande mercê me faria, porém, Sua Alteza, trocando-me por algum cometimento de perigo o repousado encargo de seu estribeiro-mor.
 - Não faltarão ocasiões e certo vos tem junto de si para vos aproveitar no que melhor quadre ao seu serviço e ao vosso nome - disse Francisco. - Com boa razão o dizeis, meu nobre fidalgo, e de vós outro tanto se pode dizer, embora andeis mais afastado da corte. El-rei sabe conhecer os homens e, longe ou perto de si, lá tem na memória os que hão-de ajudá-lo nos seus altos desígnios. - Os desígnios de Sua Alteza - volveu Albuquerque a Salomão Zacuto - mais hão-de importar aos homens do mar, que a nós outros, criados na guerra. Vede como depois do feito da Graciosa, no rio de Larache, o moiro de Marrocos se encolheu acobardado, não dando azo a que El-rei fosse à África, segundo era seu intento! Contra o turco, dia a dia mais poderoso e mais audaz, parece que já não há espadas cristãs que se lhe oponham, a tal vergonha chegámos! Das bandas de Castela nenhum perigo se avizinha e anda já esquecida a contenda que nos levou à batalha de Toro!»

In António Campos Júnior, Guerreiro e Monge, Romance Histórico, Livraria Romano Torres, Lisboa, 1952.

Cortesia de L. R. Torres/JDACT

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Guerreiro e Monge. Romance Histórico. Campos Júnior. «Adivinhava-se-lhe no olhar, calmo e firme, um grande ânimo resoluto, a intrépida serenidade leonina, cujas cóleras seriam talvez formidáveis. Montava um soberbo cavalo baio da Andaluzia, coberto de opulentos ‘jaezes’»

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O Bastardo
Na Ribeira das Naus
«(…) Um grupo de cavaleiros, que vinha do lado das Portas da Moeda, afastam-se da multidão e fora colocar-se na praia contígua a Vila Nova de Gibraltar, em sítio desafogado, donde se viam bem os navios em construção na Ribeira e se abrangia de um lance de olhos uma parte, porventura a mais bela do soberbo panorama da cidade, desde a torre de menagem do castelo, arrogante e formidável como um velho guerreiro medievo na sua rija armadura de batalha, à fímbria de espumas do Tejo, a espreguiçar-se pelas areias, nas indolências de um lago que o sol houvesse enlanguecido. Compunha-se o grupo de um homem de mais de cinquenta anos, de um rapazinho de pouco mais de doze e de dois escudeiros.
De forte musculatura, o rosto alvo e levemente rosado, que as rugas cruzavam profundamente, as longas barbas já embranquecidas, o velho cavaleiro tinha a distinção e o aspecto de um homem de guerra. Percebia-se-lhe a altivez de quem está habituado ao mando. Adivinhava-se-lhe no olhar, calmo e firme, um grande ânimo resoluto, a intrépida serenidade leonina, cujas cóleras seriam talvez formidáveis. Montava um soberbo cavalo baio da Andaluzia, coberto de opulentos jaezes. Ao lado do velho cavaleiro, montando um morzelo de pequena estatura, aprumava-se garbosamente o seu juvenil companheiro, relanceando em volta de si um doce olhar de sonhador. Era formoso e gentil. Os seus grandes cabelos loiros anelados davam-lhe o aspecto de um desses belos arcanjos, ideados pelos poetas e pelos sonhadores do seu século.
De quando em quando se fitavam nele os olhos do cavaleiro de barbas embranquecidas, envolvendo-o num olhar de imenso amor. - Aqui nos quedaremos, Lourenço. Olhai, daqui se vê a contento o arcaboiço das naus da Índia e toda essa turbamulta de curiosos – disse para o pequeno. - Onde vos aprouver, pai e senhor - volveu o juvenil cavaleiro. E de pé nos estribos, relanceou um longo olhar por todo aquele formoso e estranho panorama, que lhe deslumbrava o espírito. – Que lindo isto é! - exclamou - E que donairosas caravelas ali no Tejo! E ficaram-se a contemplar o trecho da cidade.
Atrás deles, os escudeiros conversavam despreocupadamente. Era opulento o trajar daqueles dois escudeiros. Trazia o velho fidalgo, que tudo nele estava indicando a sua alta jerarquia, um gorro de duas voltas com firmal de oiro, gibão de brocado e seda, pelote de cetim alionado, de largas mangas golpeadas, ao uso da época. Pendiam-lhe do cinto, marchetado de prata, um punhal e uma espada de punhos doirados e de bainhas de veludo com bocais e ponteiras de prata doirada. Brilhavam-lhe grandes esporas de prata nas altas botas cordovesas. Ondulava uma pluma branca no gorro do juvenil cavaleiro, e eram mais vivas as cores do seu gibão. Não vestia pelote, não trazia colar de oiro, nem espada e punhal. Outros cavaleiros apareceram na praia. A nobreza, que se não incorporava na comitiva real, afastava-se dos grandes ajuntamentos.
Ainda não havia seges em Lisboa, e nenhum fidalgo andava a pé por entre as multidões, a não ser no cortejo de alguma procissão. Só não apareciam a cavalo nestas grandes reuniões públicas, sem carácter religioso, os que, pela idade ou pelas enfermidades, já não podiam sair senão de liteira. Os próprios eclesiásticos andavam frequentemente a cavalo. Da banda das Portas Novas do Mar entrou na praia um cavaleiro, coberto de pó, e em traje que indicava uma larga jornada. Era seguido por um velho criado. - Guarde-vos Deus, senhor dom Francisco. Bom encontro o meu, por vida minha! - disse o recém-chegado, acercando-se do velho fidalgo e acariciando o rosto do pequeno.- Vós por aqui, sr. Afonso de Albuquerque! No paço vos julgava, para acompanhardes El-rei, sr. estribeiro-mor!... - De Sua Alteza alcancei licença para ir à minha quinta do Paraíso, e por lá estive toda a semana que passou. Vinha ali às Portas Novas do Mar, quando dei conta da gente que para aqui se encaminhava. Perguntei o que havia, e então me disseram que Sua Alteza viria agora ver e dar nome às naus da Ribeira. Não era tempo de ir ao paço para acompanhar El-Rei, nem deste modo, coberto de pó, me seria dado ajuntar-me à comitiva real. Assim, pois, tive por melhor torcer caminho e ver daqui a passagem de El-rei.
 - E bom foi, que assim me dais o prazer da vossa companhia, sr. Afonso de Albuquerque. - Bem melhor fortuna é a minha, que me trouxe aqui, dom Francisco. - Com este belo tempo criador há-de estar um encanto a vossa quinta de Alhandra. - Estão lindas e de boa promessa todas aquelas veigas e colinas. E desta forma continuaram conversando, afectuosamente, Francisco de Almeida, o ilustre filho do primeiro conde Abrantes, e Afonso de Albuquerque, o nobre filho dos senhores de Vila Verde, o homem que fora educado na corte de D. Afonso V e era estribeiro-mor de El-rei João II». In António Campos Júnior, Guerreiro e Monge, Romance Histórico, Livraria Romano Torres, Lisboa, 1952.

Cortesia de L. R. Torres/JDACT

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Guerreiro e Monge. Romance Histórico. Campos Júnior. «Os grandes mercadores, os aljubebes como então se dizia, os vendedores de livros e de perfumes da rua Nova de El-Rei, a famosa predecessora da moderna rua dos Capelistas, predecessora pelo local e por ter sido também o centro da alta finança…»

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O Bastardo
Na Ribeira das Naus
«(…) Havia na capital o quer que fosse de extraordinário no dia 26 de Abril de 1494. Mais excitação, mais ruído, maior movimento nas ruas, como se em todos palpitasse um forte sentimento de curiosidade. De todos os pontos da cidade, do Castelo, da Betesga, do Rossio, das bandas do Carmo, da Moiraria, da Alfama, de Vila Nova de Gibraltar, magotes de gente de todas as classes e condições afluiam, num grande e alegre borborinho, às imediações da Ribeira, que já então se chamava das Naus, e ficava próximo das antigas Tercenas Navais. Fechavam-se apressadamente as tendas da rua das Linheiras e as oficinas das ruas dos oirivezes do oiro e da prata, aquelas pequenas oficinas onde os lavrantes portugueses fundiam e cinzelavam essas obras de peregrino engenho, que são ainda hoje o espólio opulento da arte ornamental daqueles tempos.
Os grandes mercadores, os aljubebes como então se dizia, os vendedores de livros e de perfumes da rua Nova de El-Rei, a famosa predecessora da moderna rua dos Capelistas, predecessora pelo local e por ter sido também o centro da alta finança, mandavam trancar açodadamente, pelos escravos moiros e negros, as portas chapeadas das suas lojas ou boticas, pois que também assim se denominavam. Era a rua Nova a mais larga de Lisboa, com os seus sessenta palmos craveiros, 13,6 metros, de uma a outra correnteza de arcos, que de um e outro lado a marginavam, e ia atulhada de gente! Na dos ourives da prata, a velha rua da Prataria, nessa então, como era estreitíssima, a multidão acotovelava-se doidamente, num impulso irresistível de levada que houvesse alagado a represa. No largo do antigo Pelourinho, onde desembocavam as ruas de Ver o Peso, a rua Nova e a da Prataria, os escreventes de cartas e apontamentos, secretários públicos da turba dos analfabetos, haviam já levantado as bancas instaladas ao ar livre, por não contarem já com os proventos da sua aptidão epistolar naquele dia de revolta curiosidade.
Apinhava-se gente pelas torres e quadrelas da muralha que dava para o Tejo, e levantavam-se as adufas das janelas altas dos prédios mais próximos da Ribeira. Eram apenas oito horas da manhã e só a poder de formidáveis murros e coronhadas dos pesados arcabuzes a fila dos espingardeiros da guarda de El-Rei, que logo ao amanhecer se fora postar em volta da Ribeira das Naus, alcançava conter a onda do povo, a encapelar-se de momento a momento contra aquele muro de ferro.
De espaço a espaço, o anadel dos espingardeiros, ou como se disséssemos hoje o seu capitão, incitava os soldados à repressão da teimosia popular, clamando-lhes na sua formidável voz de estentor: - Fernan Gil, alçai o coice do arcabuz contra esse perro moiro, que se não queda um momento! - E vós lá, Mendo Ruivo, olhai o focinho de Pilatos desse judeu, que vo-lo está poisando no ombro! E na furiosa distribuição da pancadaria policial e urbana, o maior e o mais rude quinhão era para os pobres diabos dos judeus e para os escravos negros e moiros, que constituíam uma parte numerosa da população. Muito miserável havia de ser o mecânico ou o regatão que não tivesse um escravo moiro ou um negro, comprados for baixo preço nos mercados da escravaria.
Era uma enorme e dura monstruosidade aquela, mas não fora inventada em Portugal. Viera doutras civilizações. Fizera-se na Europa o tráfico da escravaria branca e tolerava-se ainda. A própria plebe, ao cabo de uma angustiosa luta de séculos, ainda não estava completamente emancipada da servidão, que por longuíssimos tempos a prendera à gleba rústica, à exploração e ao arbítrio dos senhores, como os cães das matilhas ou como os bois da lavoura, na propriedade privilegiada do barão ou do rico homem!» In António Campos Júnior, Guerreiro e Monge, Romance Histórico, Livraria Romano Torres, Lisboa, 1952.

Cortesia de L. R. Torres/JDACT

Guerreiro e Monge. Romance Histórico. Campos Júnior. «Pois no reinado de Fernando I (1367-1383), a cidade havia absorvido uma parte dos arrabaldes do século XII, e nacionalizara-lhe os habitantes moiros, “os saloios”, como lhes chamaram no tempo da conquista»

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O Bastardo
Na Ribeira das Naus
«(…) Lisboa não era então a grande e ruidosa cidade que é hoje. Mais pequena e mais simples, mais rústica e mais crente, guerreira e monástica, fanática e mercadora, vivia apertada no seu cinto de muralhas e repartia-se-lhe a vida, a bem dizer, entre o lar e o templo, entre o palácio do nobre privilegiado, a oficina do mecânico e a loja do mercador vilão. Estavam ainda as suas classes profundamente extremadas, embora já fossem consideráveis as conquistas da plebe; tinha outra feição, outras paixões, outros hábitos. Em fins do século XV a cidade abrangia nos seus limites, traçados pelas formidáveis muralhas que o rei Fernando I opusera aos castelhanos, o núcleo das edificações que se continham no Castelo de S. Jorge e se aconchegavam à protecção dos seus muros, pelos declives do monte; o formigueiro sombrio da Alfama, a populosa Mouraria e, para além do Rossio, praça ampla e irregular, as casas da encosta fronteira, que nem chegavam ao moderno Loreto. Ainda ficavam então fora das muralhas o monte da Graça e os terrenos vizinhos das Portas de Santo Antão e do paço dos Estaus, onde é hoje o teatro de D. Maria II.
No terreiro, que se chamou de S. Roque, erguia-se a velha torre de Álvaro Pais, junto às Portas do Condestável, como um rude padrão das lutas épicas da independência. Atapetavam-se de pâmpanos a colina da Graça e a de Almofala, fronteira à de Vila Quente; recortava-se em hortas e almuinhas e ensombrava-se de pomares essa estreita Planura, que até então se chamava Valverde e hoje se denomina Avenida da Liberdade. Cobriam-se de trigais e pomares as encostas onde hoje se ostentam as formosas edificações do Príncipe Real, da Estrela e de Buenos Aires. Vicejavam hortas e almuinhas na baixa do terreno que vai do moderno largo do Conde Barão a Santos, onde havia uma casa de campo, que João II adquirira e foi mais tarde o palácio de verão, dilecto do rei Manuel I Ondulavam pela Pampulha fora olivais e vinhedos, que iam até Alcântara, então um dos arrabaldes distantes da cidade.
Na linha de montanhas que lhe cerravam o horizonte, as velas brancas dos moinhos agitavam-se, como asas colossais.
Livre das peias que depois lhe puseram, o Tejo revolvia-se livremente aos pés da cidade, e ia lamber com a espuma das marés as praias em que mais tarde se demarcou o Terreiro do Paço e, no século passado, se construiu uma parte do Arsenal da Marinha.
Encostado à antiga muralha, da banda do Oriente, desafogado de cubelos e quadrelas guerreiras, a debruçar-se no rio, ficava o burgo mercantil da gente hebraica, laborioso e próspero; a comuna dos judeus, a judiaria grande, denominada Vila Nova de Gibraltar. Era o tolerado asilo daqueles ,expatriados; asilo e cárcere. Em volta dele uivava às vezes, sinistramente, o velho ódio católico; mas o sol, imensamente misericordioso, sem preconceitos de raça e sem ódios de religião, aparecia-lhe logo ao nascer, como um recém-chegado do Oriente, como se fora um mensageiro da remota Sion, a santa pátria extinta de Judá, e dava-lhe o seu mais generoso quinhão de luz.
A cidade crescera consideravelmente em mais de três séculos. Tinha quinze mil habitantes quando foi tomada aos moiros, em 1147, e teria em 1494 não menos de oitenta a noventa mil almas. A Lisboa moirisca não passava, a bem dizer, do monte do Castelo, a Kasba, altaneira. Quando a cercaram os guerreiros de Afonso Henriques e os cruzados seus auxiliares, ficava fora das muralhas o sítio onde está S. Vicente; o Rossio, leito entulhado de um antigo esteiro do Tejo, era uma planura extra-muros, e no monte, onde séculos depois se ergueu o convento do Carmo, alvejavam então as tendas de campanha dos cruzados. Pois no reinado de Fernando I (1367-1383), a cidade havia absorvido uma parte dos arrabaldes do século XII, e nacionalizara-lhe os habitantes moiros, os saloios, como lhes chamaram no tempo da conquista e como ainda hoje nós denominamos os povos circunvizinhos da moderna Lisboa.

O exército de João de Castela que pôs cerco à cidade em 1384, e que Lisboa repeliu heroicamente, escrevendo com o próprio sangue a mais altiva epopeia da sua história, estabelecera os seus acampamentos em Campolide, nos terrenos do moderno Bairro Alto e em Alcântara, arrabaldes da capital. Formosa é que ela sempre fora. Tinham-na os moiros pela mais linda das suas cidades, e tanto dela se encantaram os cruzados, que levaram para Jerusalém a lembrança entusiástica da sua peregrina beleza.

NOTA: A remota Alisubbo dos fenícios, a Olissipon e a Felacitas Julia dos romanos e visigodos, a Lissibona ou Aschbounah dos moiros, a Lisboa portuguesa e cristã, tinha ocultas nas suas ruínas, embebidas nas muralhas e nas igrejas; ou sepultadas nas suas próprias entranhas, lápides comemorativas, estátuas mutiladas, colunas partidas, ídolos truncados, escombros de templos e de termas, que eram como ossadas esparsas das maiores civilizações antigas, em dois mil anos de história! Mas nos fins daquele assombroso século XV, ciclo épico da nossa raça, era bem a soberba capital de um povo crente e forte, cujos destinos históricos já começavam a encher o mundo.

In António Campos Júnior, Guerreiro e Monge, Romance Histórico, Livraria Romano Torres, Lisboa, 1952.

Cortesia de L. R. Torres/JDACT

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Pedras Que Falam. Campos Júnior. «Aquilo é uma engenhoca cheia de molas, que traz em si umã coisa a arder chamada cansolina, que cheira mal como seiscentos diabos! Chamam-lhe lá um aitomóvle»

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A Misteriosa Protectora
«Em Abril, fazia então três anos que João Alberto viera tomar conta da escola, apareceu na aldeia, com desabalado espanto de todos os seus moradores, um carro que deitava fumo pelas traseiras e corria tanto, como o comboio de Coimbra por cima dos carris; da linha férrea, apesar de se lhe não ver coisa que o puxasse. Estava o regedor na horta a fazer a rega do couval, quando o pasmoso carro passou. - Ó Zé Artilheiro - disse ele para o criado, que tinha sido praça num regimento de Lisboa - olha para aquele estafermo daquele carro! Dá urros como um toiro, anda sem cavalgaduras, e corre que nem que tivesse o diabo no ventre! O Zé Artilheiro endireitou-se, muito senhor de si, e com seus ares de doutor, explicou pausadamente, tomando sabor às grandes e sábias palavras que dizia:
 - Daqueles vi eu uns poucos quando foi de uma pa rada em Lisboa. Aquilo é uma engenhoca cheia de molas, que traz em si umã coisa a arder chamada cansolina, que cheira mal como seiscentos diabos! Chamam-lhe lá um aitomóvle. Gasolina e automóvel devia dizer, mas não sabia, coitado. Tinha a desgraça de não saber ler e a outra, quase igual, de nem ao menos pedir explicações a respeito do que via. Nem sequer o ouvido o ajudava a repetir fielmente as palavras que outros, menos ignorantes do que ele, sabiam dizer.
Soavam-lhe erradas e retorcia-as toscamente na sua boca de analfabeto. Nisto valia ele menos que os papagaios do Brasil. Mas deixemos o Zé Artilheiro a discretear com o regedor a respeito do automóvel que passou e vamos saber aonde foi ele dar pela estrada ladeirenta da aldeia. Parou no terreirozito em frente da escola. Muita gente se foi juntando para ver o mostrengo, mas ninguém ousava aproximar-se dele. Dava que entender aos mais medrosos o resfolegar daquele espantoso carro, que dava ideia de uma grande alimária a arquejar de cansada.
Do automóvel desciam, instantes depois, duas senhoras, ambas vestidas de luto. Uma tinha cabelos brancos e o seu andar era vagaroso e pesado; a outra, ágil e donairosa, dava bem a perceber que estava em plena mocidade, apesar de se lhe não ver o rosto, que um grande véu de crepes, como se fosse viúva, completamente lhe velava. Elas a apearem-se, e o antigo mestre-escola da aldeia, o velho que se aposentara depois de quarenta :anos de magistério, a atravessar o pequeno largo no passo curto e arrastado de quem leva em cima de si o peso de sessenta e sete anos de idade. Encaminhou-se para ele a dama que trazia crepes de viúva. O velhote parou, tirando o chapéu, que parecia quase tão antigo como ele.
 - Desejava pedir-vos o favor de uma breve informação - disse-lhe a dama depois de o ter cumprimentado, baixando a cabeça. Diogo Silveira, assim se chamava o antigo mestre-escola, notou logo uma suave música de mocidade e um brando tom de mágoa na voz daquela senhora que trazia o rosto, coberto de luto. - Tudo o que eu souber e puder dizer-vos - respondeu com certo embaraço de pessoa acanhada, que nunca houvesse convivido senão com a simples gente das aldeias. - Dizei-me então o nome do professor primário desta povoação. – O que veio para aqui, vai em três anos, chama-se João Alberto. - Vive só? - Não, vive com a mãe, uma santa senhora de cabelos brancos... - Sim, quase uma velhinha... Mas não era bem isso o que eu desejava saber. Perdoai a impertinência e dizei-me se esse professor não tem o apelido de Condeixa.
- Se o tem, minha senhora, não usa dele, nem mesmo nos papéis oficiais. Tenho razões para o saber melhor que ninguém aqui na aldeia, Era eu o professor que João Alberto veio substituir, e sou quem mais convive com ele. Aqui se tem conservado com aprazimento de todos e abençoado proveito dos rapazitos da escola. - Se não fosse o receio de abusar da vossa benevolência, pedir-vos-ia outro favor, ainda maior. - O que for da vossa vontade, e perdoai que não saiba tratar-vos como, quem sois. Vai em trinta e tantos anos que não saio desta aldeia.
 - Mas não, tem de que pedir-me perdão quem tão afectuosamente me tem ouvido. Peço-vos a fineza de uns minutos de informações reservadas em proveito do vosso colega João Alberto. - Colega e amigo, minha senhora. E até me podia dizer também discípulo dele, pois que, apesar dos meus sessenta e sete anos, com ele tenho aprendido o que pode e deve ser o professor primário que eu nunca fui, por mal dos meus pecados! Senhora, a minha casa é rústica e pobre como eu, mas, tal como é, vo-la ofereço para essas informações reservadas que julgais proveitosas para João Alberto». In Campos Júnior, Pedras Que Falam, romance histórico, edição Romano Torres, Lisboa, 1953.

Cortesia de R. Torres/JDACT