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domingo, 11 de dezembro de 2016

Sombras e Fortalezas. Elizabeth Chadwick. «FitzWarin ignorou o sarcasmo de Joscelin. Bem, sim, se assim o quiseres... Realmente não se compra um cavalo sem primeiro o observarmos com atenção. Joscelin não respondeu porque um jovem, com ar preocupado, aproximou-se apressadamente deles»

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«Joscelin ficou com ar pensativo e tentou perceber as palavras de Fitz-Warin. Não tinha dúvidas de que Ralf, Richard e Warin eram rapazes simpáticos, fáceis de treinar. No entanto, um rapaz que precisava de abrir as asas sugeria alguém que representava um desafio. É uma grande responsabilidade criar o herdeiro do nosso amigo, disse Joscelin. Confio em ti. E não confias em ti? FitzWarin resmungou: eu fui enviado para fora para ser treinado porque era um dos filhos mais novos mas foi isso que fez de mim aquilo que hoje sou... e o destino também teve um papel importante, porque o meu irmão mais velho morreu e tornei-me no herdeiro. Brunin é como eu. Terá mais oportunidades de desabrochar numa casa diferente, e gostaria que fosse na tua. Joscelin franziu a testa. Já discutiste esse assunto com a tua mulher? Eve fará aquilo que eu disser e, quanto à minha mãe, eu trato do assunto, respondeu bruscamente FitzWarin Joscelin pensou na sua confortável situação doméstica e sabia que, apesar da deslumbrante beleza de Eve FitzWarin, não trocaria nem por um minuto que fosse com o seu amigo.Vou comprar um novo pónei para o Brunin, continuou FitzWarin num tom mais leve. O Mark anda neste preciso momento a percorrer a feira com ele mas vamo-nos encontrar na feira dos cavalos ao sexto toque. Se quiseres ver o rapaz, junta-te a nós. Para lhe ver os dentes como se fosse um poldro para venda?
FitzWarin ignorou o sarcasmo de Joscelin. Bem, sim, se assim o quiseres... Realmente não se compra um cavalo sem primeiro o observarmos com atenção. Joscelin não respondeu porque um jovem, com ar preocupado, aproximou-se apressadamente deles vindo da zona dos petiscos. Vestia uma túnica acolchoada de homem de armas e tinha a mão esquerda pousada na bainha de uma longa faca de caça. Mark? A expressão de FitzWarin azedou. Onde está Brunin? O jovem inclinou a cabeça em sinal de deferência e pesar. Não sei, senhor. O olhar de FitzWarin podia cortar aço. Não sabes? O sargento humedeceu os lábios: fomos separados pela multidão, senhor. Vou a caminho da feira dos cavalos para ver se ele está lá. Ele sabia que esse era o nosso ponto de encontro e pensei que... Por amor de Deus, como é que se separaram? O grito de FitzWarin assustou o sargento. Eu... Num minuto ele estava comigo, a seguir desapareceu. Ele estava onde?, perguntou Joscelin. Diz-me precisamente onde o perdeste. Em que tenda? O sargento esquivou o olhar. Numa das tendas de comes-e-bebes, senhor. Os olhos de FitzWarin relampejaram. Já percebi que estavas a beber e a encher a pança quando devias estar a tomar conta do rapaz. Só me distraí por um momento, juro. Basta um momento. FitzWarin fechou o punho. Agora não tenho tempo para isto. Trato de ti depois. Temos de encontrar o meu filho. Tenho a certeza que o teu sargento tem razão e o miúdo vai ter à feira dos cavalos. Suponho que ele tem bom senso, não? FitzWarin olhou furioso para Mark. Sim, tem bom senso se assim o quiser... mais do que este cabeça de burro.
Os homens começaram a atravessar a feira. FitzWarin ordenou a Mark que fosse buscar os outros cavaleiros e sargentos para que ajudassem na busca. Mas não digas nada às mulheres, ordenou. A última coisa que preciso é pânico no galinheiro. Fitzwarin e Joscelin foram directamente para a feira de cavalos mas, apesar de ali estarem muitos rapazes a segurarem cavalos e a ajudarem os cavalariços, não havia sinais daquele que procuravam. Com a pequena mão protegida por um punho calejado, um filho passou pelos homens acompanhado pelo pai. Pararam lado a lado para inspecionar um pónei mesclado e bem alimentado. FitzWarin olhou para o rosto sério da criança que olhava para o pai, depois para o sorriso indulgente deste último e soube que Deus o estava a castigar. Se aconteceu alguma coisa a Brunin, arranco as tripas do sargento para enfeitar calças, murmurou através de dentes cerrados. O instinto inicial de Joscelin era murmurar a frase chavão de que o rapaz apareceria são e salvo, mas conteve-se. Não havia dúvida de que se uma das suas filhas desaparecesse no meio de uma multidão, ele ficaria destroçado. Prudentemente, calou-se e começou a procurar o rapaz. Mark e os outros soldados procuraram ao longo das margens do Severn onde as barcaças dos comerciantes se apinhavam nos ancoradouros mas não havia sinal de Brunin e ninguém o tinha visto. O rio, embora parecesse inocente, era traiçoeiro e fundo e rapidamente engoliria uma criança que nele caísse. Também investigaram azenhas, riachos e lagos, mas sem resultados. Fitzwarin percorreu o circuito da feira com Joscelin sem qualquer efeito e a sua agitação tinha aumentado consideravelmente quando foram abordados por um jovem monge. Meus senhores, ouvi dizer que procuram uma criança perdida? Os olhos de FitzWarin brilharam. Deus seja louvado, encontraram-no? Sim, meu senhor. O irmão Anselmo está com ele na casa da entrada do mosteiro. O monge apontou para trás de si, indicando um edifício de pedra junto ao portão principal. FitzWarin apressou o passo, colocando a mão sobre a bainha para a manter quieta. Joscelin apressou o passo atrás dele. Se ele procurou os monges para o ajudarem, isso também demonstra bom senso, disse Joscelin.
FitzWarin resmungou: bom senso teria sido ficar junto do meu sargento, disse ele. Têm os dois culpa no cartório. Sentado num banco do lado de fora da casa, estava um monge volumoso de meia-idade que confortava uma criança de ar abatido. Lágrimas escorriam ao longo da suave pele morena do rapaz e os seus olhos escuros estavam enevoados e carregados. Uma das faces tinha umas marcas que pareciam dedadas ensanguentadas e tinham-lhe aplicado uma pomada amarela sobre uma ferida que tinha no pescoço. Nas calças podia-se ver uma mancha reveladora. FitzWarin deteve-se e abriu muito os olhos. Raios me partam, meu Deus, Brunin? O monge retirou o braço que tinha à volta dos ombros do rapaz e levantou-se. Se estava perturbado pela blasfémia na casa de Deus, disfarçou bem. É seu filho, senhor? É meu filho, respondeu rapidamente FitzWarin. O que é que lhe aconteceu? Dirigindo-se ao banco, parou junto a Brunin e virou-lhe o queixo para a luz. Quem é que te fez isto? O rapaz tinha uma expressão vazia. FltzWarin conhecia aquela expressão. A dor que Brunin sentia tinha sido sugada para o seu interior onde se alimentava do silêncio, para depois se alimentar dele. Uns rapazes mais velhos estavam a troçar dele e as coisas estavam a ficar feias, disse o monge. Intervim e trouxe-o para casa. Quando ouvi um dos meus irmãos dizer que havia uma busca, pedi ao irmão Simon para que vos trouxesse até aqui. Gesticulou. Está muito abalado mas parece que não houve estragos permanentes.
FitzWarin virou-se para Brunin: reconhecerias os jovens se os visses outra vez?, perguntou, e cerrou os dentes quando viu os olhos do filho encherem-se de pavor. Conseguias? Percebeu que estava a erguer a voz, mas não conseguia evitar. Sim, senhor, sussurrou Brunin. FitzWarin colocou-o de pé abruptamente. Então vamos encontrá-los e vejamos o que têm para dizer quando provarem a minha espada. Senhor, a violência só traz mais violência, interveio o monge. Seguramente que já todos nós vimos o suficiente ao longo das nossas vidas para não querer ver mais. Guarde as suas homilias para a missa, rosnou FitzWarin. Já engoli homilias suficientes no passado para durarem toda uma vida! Voltando abruptamente as costas ao monge, pressionou o filho que tremia sob as suas mãos. Como é que eles eram?» In Elizabeth Chadwick, Sombras e Fortalezas, 2004, Edições Chá das Cinco, 2009, ISBN 978-989-803-259-1.

Cortesia de ECdasCinco/JDACT

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

As Filhas do Graal Elizabeth Chadwick. «Claire viu que a cor no seu rosto era intensa e o sorriso tão fixo e nervoso como o dela. Beatrice colocou um copo de vinho quente entre as mãos de Claire. Bebe e toma coragem, sussurrou»

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As Montanhas Negras do Alto Languedoc. Verão de 1207
«(…) Este é um dia feliz para mim. Beatrice beijou Claire afectuosarnente. Estou mais do que orgulhosa de te chamar minha nova filha. Claire tentou sorrir, mas o seu estômago estava apertado em centenas de nós. Gostava de Beatrice, mas ela não substituía a sua própria mãe, Alianor, que partiria no dia seguinte. A âncora de Claire deveria ser agora a sua nova família, mas ela sentia-se como se tivesse sido deixada à deriva num vasto e perigoso oceano. Pensar em Raoul deixava-a trémula. O que diriam um ao outro? Ou será que não teriam de dizer nada? As criadas trocavam risinhos enquanto salpicavam a cama de ervas, para promover a fertilidade. Claire não era ignorante. Alianor encontrara-se sozinha com ela várias semanas antes do casamento para explicar todas as alegrias e deveres de se ser uma esposa. Ela vira animais a acasalar no pátio e galos galarem as galinhas. Uma vez, nos estábulos, surpreendera um palafreneiro a erguer-se de entre as pernas abertas de uma criada da cozinha, por isso sabia o que acontecia aos homens quando excitados. A sua mãe dissera que o acto era, supostamente, um prazer, mas Claire não conseguia imaginar como seria isso possível. Se tinha de haver sangue, de certeza que estaria envolvida alguma dor. As suas damas soltaram-lhe o véu de gaze e grinalda de flores de ouro do cabelo e a mãe levou urna escova às ondas castanhas para as pentear e lhes dar lustro.
Filha, tu és bela, disse Alianor como que por entre uma névoa. Estou tão orgulhosa de ti. Quem me dera que aqui estivesse o teu pai para ver o dia do teu casamento. Claire engoliu em seco, incapaz de responder. Normalmente recordava o pai, que falecera cinco anos antes, com suave e melancólica afeição, mas nessa noite não tinha espaço na sua mente para mais nada excepto o seu próprio medo. Obedientemente, erguia e baixava os braços sob as ordens das mulheres e viu as roupas amontoarem-se sobre o seu suporte até ficar nua. Perto do fogo, não estava frio, mas a sua pele estava toda arrepiada. Fresca seda deslizou-lhe pelos ombros quando foi enfiada num largo roupão, e o cabelo penteado por cima dele era uma faixa de cor resplandecente. Sentia-se dormente. As pessoas falavam com ela, mas não ouvia o que lhe era dito. A porta foi aberta de rompante por um turbulento grupo de homens, Raoul enfiado no meio deles e nu por baixo da sua capa. Um estridor de ruidosas gargalhadas e bem-humorados gracejos encheu o quarto. Arriscando um rápido olhar a Raoul, Claire viu que a cor no seu rosto era intensa e o sorriso tão fixo e nervoso como o dela. Beatrice colocou um copo de vinho quente entre as mãos de Claire. Bebe e toma coragem, sussurrou.
Claire ergueu o copo e bebeu. O gosto da canela e do quente vinho tinto inundou-lhe a língua. Raoul juntou-se a ela e retirou-lhe o copo das mãos, levando os lábios ao local onde ela bebera. Ao mesmo tempo, colocou a mão livre na sua cintura. Os jovens convidados, e alguns dos mais velhos, que tinham trazido os seus copos, brindaram um encorajamento. Claire corou. A palma de Raoul parecia queimar através do fino robe de seda até à sua espinha. O padre Otho começou a abrir caminho à cotovelada até ao centro para executar a bênção que limparia e purificaria o leito matrimonial e abençoaria quaisquer frutos ali gerados. Estava embriagado, com os olhos pretos húmidos e desfocados. Ora, ora. Olhava lubricamente para Claire. Parece que foi há um momento que era um pequeno botão no seu caule e agora vede a rosa aberta, pronta para ser muito bem colhida! Enfiou o polegar da mão direita no punho fechado da esquerda num gesto que era inequívoco. Fúria e vergonha cresceram no peito de Claire. Podia aceitar gracejos ligeiros; faziam parte da tradição nupcial. Todos os noivos e noivas eram provocados na sua noite de núpcias, mas não pelo padre, de rosto congestionado de álcool e luxúria. Raoul ia investir contra ele, mas foi contido pela mão da mãe no seu braço. Berenger de Monvallant disse por entre os dentes cerrados: padre, sugiro que se confine às palavras de bênção. Otho tentou endireitar-se, mas apenas conseguiu encostar-se a um dos convidados. Que falta de sentido de humor, balbuciou, enquanto tentava precariamente manter o equilíbrio. Esticando o lábio inferior como uma criança amuada, aproximou-se do leito e deu início à bênção. Atropelou as palavras e não as disse nem na ordem nem na forma correcta, antes de salpicar a cama ao acaso com água benta. Respirando tão ruidosamente como um mastim, apresentou a Claire e Raoul uma cruz, para a beijarem.
Claire sentiu-se nauseada. Não teria ficado surpreendida se visse uma cauda bifurcada por baixo das saias do hábito de Otho. Incapaz de se obrigar a tocar a cruz com os lábios, ela beijou o ar acima dela. Também Raoul beijou o ar, com o rosto tenso de fúria reprimida. A fivela de ouro da sua capa cintilava com a sua rápida respiração. O padre Otho arrotou. Vamos lá então ao trabalho, rapaz, disse ele. A ver se temos um belo lençol ensanguentado para mostrar de manhã, está bem? O seu sórdido divertimento terminou num guincho quando Raoul o agarrou pela garganta. É uma pena que não viva para o ver!, rosnou. O rosto de Otho escureceu. Um ruído surdo ergueu-se da sua traqueia e ele agarrou-se ao pulso de Raoul, com as veias da testa a pulsar. Passado um momento, Berenger interveio, mas não foi sem esforço que retirou a mão do filho da carne manchada da sua vítima. Otho caiu no chão, agarrado ao pescoço e a silvar. Deixa-o ir, disse Berenger. Não vais querer manchar a tua noite de núpcias com um crime». In Elizabeth Chadwich, As Filhas do Graal, 1993, tradução de Ester Cortegano, Edições Chá das Cinco, 2013, ISBN 978-989-710-050-5. 

Cortesia de CdasCinco/JDACT

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Sombras e Fortalezas. Elizabeth Chadwick. «O teu despenseiro? Joscelin ergueu as sobrancelhas. Não é a tua mãe? FitzWarin largou uma gargalhada e afastou o cabelo castanho-escuro da testa»

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Feira de São Pedro. Shrewbury. Agosto de 1148
«(…) O monge ergueu uma sobrancelha fina cor de prata. Mas posso fazer com que passe a ter muito depressa, não duvidem, respondeu friamente. Soltem-no e sigam o vosso caminho. O impasse foi curto. Os jovens tinham coragem mas eram apenas jovens, não homens adultos. Quando confrontados com o carisma e autoridade da Igreja, capitularam de má vontade e, obrigando Brunin a ajoelhar-se, afastaram-se. Ao longe, o rapaz louro virou-se para eles. O teu fígado é meu, seu mijão!, gritou. E voltarei para o buscar! Brunin fixou a relva poeirenta a poucos centímetros dos olhos. Um pingo escuro de sangue escorreu do ferimento provocado pelo punhal, desceu ao longo dos caules e infiltrou-se no solo. Conseguia ouvir a respiração a subir-lhe no peito e rebentar junto à laringe em soluços pesados. Pensou se estaria a morrer e desejou já estar morto. Vá lá, miúdo. O monge inclinou-se e ajudou Brunin a erguer-se do solo. O que é que lhes fizeste para que te atacassem assim? Nada, soluçou Brunin numa voz entrecortada e abrindo muito os olhos. Sentia-se enjoado e as pernas tremiam-lhe como as de um potro. Estou a ver. O tom de voz do monge era neutro. Cuidadosamente, inclinou a cabeça de Brunin para um dos lados para poder ver a ferida na garganta. É apenas um pequeno corte, disse, mas podia de facto ter sido pior. Deu um estalido com a língua e disse, mais para si mesmo do que para Brunin: todos os anos, com este negócio, a feira traz-nos estes horríveis problemas, ainda mais desde que os homens andam à bulha para decidir quem manda no reino. Conduziu suavemente Brunin na direcção da abadia. Anda, rapaz, vamos arranjar uma pomada para colocar nesse arranhão e um sítio para te sentares por uns momentos. O seu olhar era astuto. Se não és um enjeitado, o que eu acho que não pelo corte da túnica, alguém virá à tua procura.
Fulke FitzWarin, senhor dos castelos de Whittington e Alberbury, e mais de quinze propriedades espalhadas pelos condados de Shropshire, Staffordshire, Devonshire e Cambridgeshire, deu um gole de vinho, rolou-o experientemente na boca e engoliu. Estendeu o cálice ao companheiro: o que achas? Joscelin de Dinan cheirou a bebida e, sob o olhar ansioso do negociante de vinhos, encostou a borda do cálice aos lábios. As rugas no canto dos olhos acentuaram-se enquanto sorria. Não há dúvida de que não me sentiria insultado se me servisses este vinho. FitzWarin soltou um grunhido divertido. É bom saber que não tenho de abrir o meu melhor vinho para te satisfazer. Apontou na direcção do comerciante de vinhos. Levo trinta barris. Pode discutir o preço com o meu despenseiro. Colocou o cálice sob a torneira do barril com a amostra de vinho e voltou a enchê-lo. À volta deles, a multidão rodopiava em ondas rápidas. As tendas dos comerciantes de vinho estavam sempre cheias e o melhor era visitá-las bem cedo, enquanto ainda havia muito por onde escolher. Sabia bem estar ao ar livre naquela manhã soalheira sem nada de mais importante para tratar para além do prazer de falar com velhos amigos, refazer as provisões de vinho e a perspectiva de mais tarde explorar a feira dos cavalos e as tendas de armas. O teu despenseiro? Joscelin ergueu as sobrancelhas. Não é a tua mãe? FitzWarin largou uma gargalhada e afastou o cabelo castanho-escuro da testa. Ela terá sem dúvida direito à sua palavra mas, para já, está mais interessada em comprar tecidos e linhas para a costura. Por vezes tem mais por onde escolher do que os dedos da mão. A reputação da sua mãe era lendária no seio da comunidade baronial dos Welsh Marches. Muitos diziam, por vezes até na sua cara, que lady Mellette era adversária à altura de qualquer dragão que pudesse surgir vindo do País de Gales. Era mais resistente do que a mulher de FitzWarin que tinha menos de metade da sua idade.
Os homens provaram mais umas quantas amostras. Joscelin queria provar um Rhenish e FitzWarin comprou um pequeno barril de um ice-wine bem doce e potente. Há uma coisa que ando para te perguntar, disse FitzWarin enquanto se afastavam lentamente das tendas dos vinhos. Tinha o passo seguro, um bom equilíbrio, mas sentia a língua a enrolar-se na boca. As faces de Joscelin estavam coradas e faziam os seus olhos verdes-acinzentados brilharem como pedras polidas. Desde que não seja sobre as minhas filhas, disse Joscelin, meio a brincar. Com duas enteadas, duas filhas do seu próprio sangue e nenhum rapaz, Joscelin de Dinan estava constantemente a ser abordado por homens que pretendiam obter futuros direitos sobre o estratégico castelo e a próspera vila de Ludlow. Não. FitzWarin abanou a cabeça. É sobre o meu filho..., o mais velho, explicou, visto ter seis filhos. Já devia ter começado a treinar. O rapaz já tem dez anos. Gostava de saber se tu... Joscelin ergueu as sobrancelhas porque, normalmente, um homem mantinha o herdeiro a seu lado e acolhia os filhos de outros homens como seus companheiros. Os filhos mais novos é que eram mandados para outras casas na esperança de que ali encontrassem uma posição adequada através do casamento ou como cavaleiros da casa. Não vais mantê-lo em Whittington? Pararam para deixar passar uma fila de póneis de carga, com sinos pendurados a tocar nos arreios, cestos de vime cheios de cintos em pele dourada que mais pareciam um amontoado de cobras achatadas. FitzWarin suspirou e passou a mão pelo cabelo com um ar embaraçado. Não. Se fosse o Ralf ou o Richard, ou o Warin, era isso que faria, mas Brunin precisa de abrir as asas. Não me ocorre melhor sítio para ele ser treinado do que em Ludlow..., isto se o aceitares». In Elizabeth Chadwick, Sombras e Fortalezas, 2004, Edições Chá das Cinco, 2009, ISBN 978-989-803-259-1.

Cortesia de ECdasCinco/JDACT

terça-feira, 7 de junho de 2016

Sombras e Fortalezas. Elizabeth Chadwick. «Não entendia aquela mudança repentina mas sabia o suficiente para perceber que a sua presença não era desejada e que isso deveria ter algo a ver com o pai. Começou a afastar-se e sentiu um forte empurrão nas costas»

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Feira de São Pedro. Shrewbury. Agosto de 1148
«(…) Fascinado, Brunin aproximou-se e foi de imediato empurrado para o lado por um cavaleiro de cabelos claros pertencente ao séquito do nobre. Sai da frente, fedelho, disse com ar de escárnio. Vai para ao pé da tua ama-seca. Brunin corou. O jovem usava uma túnica vermelha e trazia à cintura um punhal não muito mais pequeno do que aquele que Mark usava. Uma das mãos pairava junto ao cabo como se estivesse a pensar desembainhar a arma. Apercebendo-se da ameaça velada, Brunin começou a ficar nervoso. Perdeu a língua, troçou um outro homem de azul, mais jovem e mais bem constituído. A menos que seja galês e não nos entenda. Tem ar de galês, não tem? Brunin ergueu a cabeça. Devido ao esforço para se manter quieto, todos os músculos do seu corpo estavam rígidos. Não sou g-galês, disse. O nobre parou de examinar a segunda espada e olhou para eles. Ernalt, Gerald, deixem o rapaz em paz. Deixem-no olhar, se ele assim o desejar. O seu tom de voz era tolerante. Como te chamas, rapaz? Brunin fez um esforço para manter as boas maneiras. Fulke, senhor, disse ele, usando o seu nome formal de nascimento. Fulke F-FitzWarin... A boa disposição desapareceu dos olhos do homem. De Whittington? Sim, senhor. E que andas a fazer aqui sozinho no meio das tendas? Estou à espera do meu pai, respondeu Brunin. O nobre ergueu a cabeça e olhou à volta como se esperasse descobrir o pai de Brunin no meio da multidão. Então talvez seja melhor não esperares por ele nas minhas redondezas, disse. A sua voz tinha perdido o tom carinhoso. Se o teu pai for tão descuidado com as suas terras como é com o filho, talvez acabe por perder os dois. Voltando as costas a Brunin com um ar deliberado de desinteresse, entregou a segunda espada ao artesão e começou a discutir as condições.
Brunin estava estupefacto. Não entendia aquela mudança repentina mas sabia o suficiente para perceber que a sua presença não era desejada e que isso deveria ter algo a ver com o pai. Começou a afastar-se e sentiu um forte empurrão nas costas. Desequilibrou-se e, surpreendido, voltou-se, dando de caras com o cavaleiro louro e o companheiro. Sabes o que é que acontece a um filhote quando se afasta demasiado da ninhada?, perguntou o rapaz louro numa voz que oscilava entre a de um rapaz e a de um homem. Desembainhou o punhal. Brunin engoliu em seco e a sua inquietação aumentou. Achas que ele está com medo? O rapaz mais encorpado deu outro empurrão a Brunin com uma expressão predadora nos olhos. Claro que sim. N-não estou nada, contradisse Brunin. Passava-se algo de estranho com a sua bexiga, era como se o agitar da lâmina do cavaleiro louro conseguisse controlá-la. O jovem tocou na ponta da arma com o dedo e depois deslizou o mesmo ao longo da lâmina. Mas devias estar, seu cachorro. Talvez te corte a tua pequena cauda e te envie para a tua ninhada com um coto, hã? Deslizou lentamente a lâmina por baixo do nariz de Brunin.
Brunin retraiu-se. Sabia que não era uma atitude muito adulta, mas não a conseguiu evitar. Desejou estar de novo na hospedaria com a mãe e irmãos, até com a avó. Desejava estar ainda com Mark e a morrer de tédio. O cavaleiro de azul agarrou no braço de Brunin. Queres que o segure? Se quiseres. Brunin sentiu o terror percorrer-lhe o corpo como ferro derretido. Puxou o pé atrás e deu um pontapé na canela do seu agressor e, contorcendo-se, mordeu a mão que lhe agarrava o cotovelo. O jovem deu um grito e largou-o. Brunin começou a correr. Serpenteando pelo meio das tendas, Brunin foi tão rápido e maleável como uma enguia no meio das rochas, mas os seus perseguidores também eram rápidos, e eram dois. Brunin disparou na direcção da tenda onde tinha deixado Mark a beber cerveja e a namoriscar a rapariga mas, para seu horror, o jovem sargento já lá não estava. A rapariga, inclinada sobre o balcão, troçou com o rapaz de olhos esgazeados e arquejante: ele foi à tua procura. O tom de voz dela indicava que estava furiosa por ter sido obrigada a interromper o namorisco. Estás feito, estás.
Não precisava que lhe dissessem isso. Por favor..., gemeu com voz rouca, mas era demasiado tarde. Os cavaleiros agarraram-no com força, um de cada lado. Quando a rapariga olhou desconfiada, o do cabelo louro piscou-lhe o olho. Pestinha, disse ele. Mais descansada, a rapariga virou-se, deixando Brunin abandonado à sua sorte. Lutou com todas as forças que tinha no seu pequeno corpo, mas tal não chegava para se libertar dos vigorosos adolescentes. As unhas deles enterravam-se-lhe na carne enquanto o arrastavam pelos terrenos da feira. Uma mão tapou-lhe com força a boca para abafar os gritos e, quando tentou de novo morder, sentiu a queimadura gelada do aço contra a garganta. De repente sentiu-se envergonhado por um calor que lhe manchou as calças. Raios, o atrasado mijou nas calças!, troçou o jovem mais encorpado. O jovem louro bufou e disse: o que é que se pode esperar de um sangue como o dele? Até é para admirar que seja vermelho e não amarelo. Mostrou os dedos manchados de sangue a Brunin e depois arrastou-os ao longo do rosto do rapaz. Se lhe cortares o fígado, aposto contigo meio marco que este seria da cor dos ranúnculos. Meio marco? Apostado. Rapazes! A voz era peremptória e ríspida. Através da névoa ardente das lágrimas, Brunin viu a figura escura de um monge beneditino a bloquear-lhes o caminho, com os braços cruzados bem alto junto ao peito e com uma expressão severa. O que é que estão a fazer? Não tens nada a ver com isso, escarneceu o adolescente mais velho». In Elizabeth Chadwick, Sombras e Fortalezas, 2004, Edições Chá das Cinco, 2009, ISBN 978-989-803-259-1.

Cortesia de ECdasCinco/JDACT

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Sombras e Fortalezas. Elizabeth Chadwick. «O latim e o francês dos criadores mais abastados eram-lhe familiares. Aqui e acolá, uma voz galesa sobrepunha-se à algaraviada do inglês. Brunin falava uma mistura pouco fluente das duas»

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Feira de São Pedro. Shrewbury. Agosto de 1148
«No dia em que Brunin FitzWarin encontrou os homens que iriam mudar e moldar a sua vida, tinha dez anos e vagueava sozinho pelas tendas da Feira de São Pedro. Mark, o sargento do pai que deveria vigiá-lo, tinha-se deixado distrair por um jarro cheio e a robusta filha do taberneiro de uma das tendas de bebidas. Cada vez mais aborrecido com os galanteios do homem, Brunin resolvera explorar sozinho as tendas. Era um rapaz magricela de pele cor de azeitona e olhos de um castanho tão escuro que pareciam pretos, daí a sua alcunha, visto o seu verdadeiro nome ser Fulke, tal como o pai. Os seus cinco irmãos tinham pele clara como os progenitores. Diziam os mais caridosos que ele tinha ido buscar aquele ar a um seu antepassado, um mercenário de Lorena de origens duvidosas. Os menos generosos sussurravam que era uma criança que tinha sido trocada pelas fadas das montanhas de Gales. Brunin passou por uma tenda de comida onde bolos de aveia cozinhavam sobre uma grelha para depois serem vendidos aos visitantes. Uma mulher tinha comprado vários e distribuía os mesmos pelos seus numerosos filhos. Exasperada, ralhou com um deles mas, pouco depois, fez-lhe uma festa na cabeça. Apercebendo-se do olhar guloso de Brunin, sorriu, partiu um bocado do bolo que ainda restava e ofereceu-lhe um pouco como se estivesse a alimentar um ser selvagem. Brunin abanou a cabeça e afastou-se rapidamente. Não tinha sido o bolo de aveia que tinha provocado o seu olhar.
Jarros e púcaros!, gritou um comerciante aos seus ouvidos. Canecas e panelas! Os melhores artigos de Stamford e Nottingham! O homem agitava no ar um jarro vidrado verde com um rosto sorridente gravado no bico. Com faces vermelhuscas e um ar belicoso, uma dona de casa roliça discutia vigorosamente com o ajudante deste em relação ao preço de uma panela. Todos os Verões, e durante três dias, os comerciantes deslocavam-se até Shrewsbury e exibiam a sua mercadoria à sombra da grande abadia beneditina de São Pedro e São Paulo. Nem mesmo a confusão provocada pela guerra civil entre os apoiantes do rei Estevão e da imperatriz Matilde faziam decrescer o entusiasmo das pessoas em relação a bons preços e raridades. O pai de Brunin dizia que, quanto mais não fosse, a agitação tornava a feira ainda mais popular porque os homens podiam encontrar aliados e discutir assuntos importantes, embora os outros pensassem que estavam à procura de produtos para o dia-a-dia.
Era ali que estava agora o seu pai, a falar com velhos amigos, e era por isso que Mark tinha ficado encarregue de olhar por ele. Era suposto encontrarem-se com FitzWarin na feira dos cavalos quando o sino da abadia batesse as seis horas. Brunin ia comprar um novo pónei porque já estava demasiado crescido para montar o baio galês que o servia desde que tinha seis anos. Pernas de aranhiço, tinha-lhe chamado a avó na semana anterior, como se o seu repentino crescimento fosse um pecado. As várias línguas utilizadas naqueles negócios entravam-lhe pelos ouvidos vindas de todos os cantos. O latim e o francês dos criadores mais abastados eram-lhe familiares. Aqui e acolá, uma voz galesa sobrepunha-se à algaraviada do inglês. Brunin falava uma mistura pouco fluente das duas, mas nunca na presença da avó, a menos que pretendesse deliberadamente aborrecê-la. As tendas dos tecidos estavam a abarrotar de mulheres que olhavam e mexiam, discutiam, desejavam e por vezes compravam tecidos. A mãe de Brunin tinha um vestido de seda no mesmo tom dourado-avermelhado que um dos rolos pousados sobre a bancada da barraca. Tinha-o visto na arca de roupa da mãe mas ela raramente o vestia. Uma vez tinha-lhe dito, com um olhar distante, que se tratava do seu vestido de noiva.
Brunin deteve-se junto à carroça de um comerciante para acariciar uma ninhada de cachorros de caça malhados. O comerciante também tinha um casal de pequenos cães com pêlo longo e sedoso e com fitas coloridas atadas à volta do pescoço. O seu ganir feria os ouvidos de Brunin. Tentou imaginar o pai a tratar daqueles ratos de colo e sorriu só de pensar nessa imagem. FitzWarin só gostava de cães de caça, quanto maiores, melhor. Dirigindo-se lentamente para a feira dos cavalos, Brunin pensava se desta vez conseguiria arrastar o olhar do pai para um pónei malhado ou todo preto, algo que sobressaísse no meio dos vulgares cavalos alazões e castanhos. Claro que as cores invulgares eram mais dispendiosas e, se o preço não fosse razoável, o pai iria recusar-se a comprar. Para chegar à feira dos cavalos, Brunin tinha de percorrer um atalho pelo meio das tendas dos ferreiros. A visão das lâminas brilhantes das espadas, dos martelos, punhais, escudos, cotas, elmos e variados equipamentos dos guerreiros, conquistou o seu olhar e imaginação. Ali estava uma faca numa bainha de pele trabalhada, tal como aquela que Mark usava à cintura, ali uma espada com punho entrançado a vermelho e uma inscrição em latim ao longo do sulco em relevo. Brunin até se babava só de ver tudo aquilo. Às vezes retirava a espada do pai da bainha e fingia ser o grande guerreiro Roland, a defender a passagem de Roncesvalles contra os infiéis.
À avó tinha-o apanhado uma vez e zangou-se por ele ter deixado a marca pegajosa dos dedos na lâmina polida. A partir daí, tornou-se mais circunspecto e, nunca esquecendo as palavras dela, limpava sempre a lâmina da espada à túnica antes de a voltar a arrumar. Um nobre e o seu séquito aproximaram-se da tenda onde Brunin estava a ver as armas e começaram a inspeccionar as espadas. Brunin observou o nobre enquanto este avaliava a lâmina que o artesão lhe mostrava. Têm um bom equilíbrio, disse o nobre. O punho é um pouco curto. Não quero perder as extremidades dos meus dedos na batalha. Agitou a espada no ar, testando a sensação, depois girou habilmente a lâmina para trás antes de a passar aos seus homens para obter uma opinião. Se gostar da lâmina, posso mudar o punho, senhor, disse o comerciante. Ou então tenho esta aqui. Apresentou outra espada, esta com o punho revestido com pele rosada e macia». In Elizabeth Chadwick, Sombras e Fortalezas, 2004, Edições Chá das Cinco, 2009, ISBN 978-989-803-259-1.

Cortesia de ECdasCinco/JDACT

terça-feira, 24 de maio de 2016

O Nó do Amor. Elizabeth Chadwick. «Nem em três anos de viagens pelos lugares mais selvagens desta terra de Deus alguma vez vi uma coisa como esta, disse ele, com a voz rouca. É melhor que te acostumes»

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Floresta de Dean. Gloucestershire. Verão de 1140
«Oliver Pascal puxou as rédeas de Hero e cheirou o ar. Fumo, disse ele.
Gawin Brionne, o companheiro de armas, deteve a sua própria montada e inalou profundamente. Aqui perto só há o pavilhão de caça em Penfoss. É Aimery Sens que cuida dele para o conde Robert. Oliver soltou um grunhido e mudou de posição para acomodar as nádegas doridas. As selas novas eram sempre um inferno, e aquela mal tinha uma semana, adquirida que fora a um artesão de Bristol. Levaria pelo menos um mês a moldá-la numa forma confortável. O que Oliver queria fazer era atravessar o Severn no barco de transporte e continuar a cavalo até aos domínios do conde em Bristol, onde teria seguramente uma refeição quente e um lugar seguro para dormir. Com a guerra civil a devastar cada cidade e condado enquanto o rei Estêvão e a sua prima Matilde lutavam ferozmente pelo trono de Inglaterra, as oportunidades para se dormir em segurança escasseavam. Um homem mais acostumado às depredações daquela guerra em particular poderia ter seguido em frente, mas Oliver estava ainda verde para o jogo de incursão e contra-incursão, de pilhagem e carnificina, um jogo que se estava a tornar tão comum que a moral e as sensibilidades humanas eram extirpadas pela raiz. Durante a maior parte do conflito, ele estivera ausente, em peregrinação, e sobre o chão rochoso do Santo Sepulcro, em Jerusalém, arrastara um fardo de preces pela alma da sua esposa falecida. Fora apenas há seis meses que regressara a uma terra que ardia e sangrava, e que viera a descobrir que, como tantos outros, ele se tornara um homem sem terras.
Gawin, que era cinco anos mais novo, com vinte e um, mas tinha um mundo de experiência a mais, agitou as rédeas e recomeçou a andar. Provavelmente é apenas um carvoeiro. Acreditas nisso? Gawin encolheu os ombros. Não podemos fazer nada. Não é sensato que nos deixemos arrastar para isto. Oliver abanou a cabeça. Talvez não, mas não podemos simplesmente ignorar e continuar o nosso caminho. O cavaleiro mais novo suspirou, com fadiga nos olhos azuis que permaneciam à sombra do elmo. A tua consciência é uma mó que carregas à volta do pescoço. Oliver comprimiu os lábios. Ao contrário da maior parte dos seus contemporâneos, usava a barba bem escanhoada, pois, em contraste com o cabelo cor de linho, a sua barba, quando lhe era permitido crescer, assumia um ardente vermelho-fogo que o fazia sentir como um fenómeno da natureza. Deixa que a minha consciência me arraste para onde quiser e procura pela tua, disse ele friamente, e virou Hero na direcção do cheiro a queimado. Gawin hesitou por um momento e, depois, fazendo rolar os olhos, foi atrás do seu companheiro.
No espaço de meia milha, as baforadas de fumo tornaram-se mais fortes, removendo a esperança de que a sua fonte fosse um controlado fogo doméstico, e foram-se adensando significativamente, à medida que os homens atingiam o caminho principal para Penfoss. Os cavalos ficaram inquietos e difíceis de manobrar, e os dois cavaleiros foram forçados a desmontar e continuar a pé. Penfoss era cercada por uma paliçada de afiadas estacas de carvalho cortadas da floresta circundante e montada com cordas de cânhamo. A paliçada pendia agora numa posição inclinada e, do outro lado, o telhado de colmo do pavilhão de caça e os edifícios exteriores eram obliterados por línguas de chamas e colunas de fumo negro. Cautelosamente, de armas em punho, Oliver e Gawin abandonaram a cobertura oferecida pelas árvores e aproximaram-se da paliçada. Viram o corpo de um homem estatelado no portão. Havia um corte aberto na sua garganta, e ele fora despido de todas as vestes excepto o pano que lhe cingia os rins, que ele manchara nos seus estertores de morte. Um enorme cão preto jazia ao seu lado, de peito aberto.
Gawin fez uma careta e olhou em volta nervosamente. Partamos. Já não há nada a fazer aqui e quem quer que tenha provocado tudo isto ainda deve estar por perto. Ignorando-o, Oliver entrou no recinto. Flocos de fuligem elevavam-se num vento de fogo e rajadas de calor eram vomitadas em cima dele. Os corpos juncavam o pátio ao acaso, abatidos em fuga, a julgar pela quantidade de ferimentos nas costas. Armados e desarmados; homens, mulheres e crianças. A boca de Oliver encheu-se de fluido e ele apertou o punho da sua espada. Era isso ou atirar com ela para o mais longe que conseguisse. Nem em três anos de viagens pelos lugares mais selvagens desta terra de Deus alguma vez vi uma coisa como esta, disse ele, com a voz rouca. É melhor que te acostumes. Havia na voz de Gawin um tremor que desmentia a indiferença das palavras, e a sua mão livre procurou a cruz que trazia em volta do pescoço.
Oliver prosseguiu. Uma brilhante massa de cabelo dourado atraiu-o ao corpo de uma mulher. Ela estava caída de costas, com as pernas abertas. Os seus olhos abertos olhavam para o céu cegamente; tinha a face inchada e o lábio pisado, mas ainda respirava. Misericórdia de Deus! Oliver caiu de joelhos ao seu lado. Amice, Amice, consegues ouvir-me? Conhece-la? A voz de Gawin era de consternação. Desde há muito tempo, disse Oliver sem olhar para trás. Era uma das pupilas do conde Robert, juntamente com a minha mulher. Se as circunstâncias tivessem sido diferentes, eu podia até ter casado com ela e não com Emma. Pela piedade de Jesus, não acredito nisto! Ele juntou-lhe as pernas e puxou-lhe o vestido sobre as coxas pisadas e ensanguentadas. A mulher voltou a cabeça e olhou para Oliver, mas não havia sinal de reconhecimento nos seus escuros olhos cor de safira. Gawin cofiou a barba curta que lhe contornava o queixo. É muito grave? Não sei. Foi espancada e violada, pelo que consigo perceber. Não podemos deixá-la neste lugar. Vai buscar os cavalos». In Elizabeth Chadwick, O Nó do Amor, 1998, Edições Chá das Cinco, 2013, ISBN 978-989-710-057-4.

Cortesia de ECdasCinco/JDACT

As Filhas do Graal. Elizabeth Chadwick. «A tremer de tensão, Claire entrou na alcova onde passaria a sua noite de núpcias. Tapeçarias bordadas de escarlate, azul e ouro adornavam as paredes e afastavam as correntes de ar»

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As Montanhas Negras do Alto Languedoc. Verão de 1207
«(…) Sobrinha?, Chretien inclinou-se na sua direcção, um olhar de preocupação no seu rosto. O que tens? Bridget forçou-se a sorrir. Como poderia ela explicar que o seu corpo estava a vibrar de desejo de estar no lugar da noiva nessa noite? Estou esmagada com toda esta abundância, disse ela, e muito cansada. Já passa da hora de ir em busca da minha enxerga. Não, terminem o vosso vinho. Eu gostava de ter um pequeno momento a sós, antes de dormir. Pressionou-lhe ligeiramente o braço e afastou-se do sagaz escrutínio do seu tio. Lá fora, o morno ar da noite transportava o perfume do carvão quente e da carne a cozinhar nos braseiros que ardiam no pátio. O som do alaúde e da flauta, o bater dos tamborins, seguiam implacavelmente Bridget, ricocheteando nas suas virilhas em regulares ondas de desejo. Ela parou para encostar a testa contra a pedra fria das paredes do castelo e respirou profundamente, procurando acalmar-se. Bridget? Bridget, minha querida? Ela olhou para cima para ver uma mulher alta que se aproximava rapidamente.
Geralda? Bridget deu um passo em frente e foi envolvida num forte abraço maternal. Acabei de ver Chretien e Matthias no salão e eles disseram-me que te encontraria aqui fora. Deixa-me olhar para ti! Ainda agarrando Bridget pelos ombros, Geralda de Lavaur examinou-a atentamente. Tão parecida com a tua mãe. Lágrimas brilhavam nos seus escuros olhos de avelã - Chretien contou-me que a mataram. Tenho tanta pena. Ela está junto da Luz. Bridget pestanejou com os olhos igualmente cheios de lágrimas. Foi apanhada por uns frades pregadores a curar uma mulher doente numa das aldeias da montanha. E foi torturada. A sua voz quebrou-se. Sinto tanto a sua falta. O abraço de Geralda fechou-se novamente em sua volta e Bridget estremeceu e deu livre expressão a uma tempestade de dor e lágrimas, enquanto Geralda a abraçava e confortava como a uma criança. Finalmente, recompondo-se, Bridget fez um esforço determinado e afastou-se.
O meu tio contou-lhe que íamos a caminho de Lavaur, ao seu encontro? Disse, sim, e são muito bem-vindos. Tenho alguns novos manuscritos que quero que Matthias veja. O povo quererá ouvir Chretien e procurar as tuas curas. Os frades não ousarão interferir comigo! Os seus olhos reluziam de ferocidade. Bridget sabia que Geralda tinha todas as razões para estar confiante. O seu irmão, Aimery, era um dos mais importantes guerreiros no sul. Todas as razões, e, no entanto, a bruxuleante luz das tochas pintou negros buracos sob as maçãs do rosto de Geralda, e aprofundou-lhe as órbitas de sombra, até a sua face se transformar numa caveira. A tremer, Bridget começou a caminhar na direcção do pequeno abrigo que ela e os seus guardiães tinham montado encostado às muralhas junto do portão principal. A sua sensação de mau agouro aumentou quando ela e Geralda passaram a casa do poço. Por um momento, Bridget soube que, se o permitisse, a visão viria com horrível claridade para lhe mostrar o que ela não desejava ver. Fechou a sua mente, expulsando a premonição, apagando-a da existência. Como forma de distracção, interrogou a amiga a respeito do casamento.
Geralda não podia estar mais desejosa de a satisfazer. Eu conheço o Raoul desde que era criança de colo, disse ela calorosamente. É meu afilhado, sabes? Ou era, quando eu pertencia à igreja de Roma. Ele e Claire estão prometidos desde que eram pequenos. Parecem feitos um para o outro, não parecem? Bridget murmurou que pareciam, com efeito. O seu olho interior não recusou ser bloqueado e encheu-se com outra imagem, a de Raoul Montvallant e a sua noiva, os membros entrelaçados sobre frescos lençóis de linho. Febril calor corporal. Enquanto Geralda continuava a tagarelar, Bridget viu a Lua erguer-se sobre as muralhas do castelo, adornando de prata o céu, e viu um homem e uma mulher, viu luz e escuridão e fogo.
A tremer de tensão, Claire entrou na alcova onde passaria a sua noite de núpcias. Tapeçarias bordadas de escarlate, azul e ouro adornavam as paredes e afastavam as correntes de ar, e, onde não havia tapeçarias, o estuque era pintado com delicadas figuras representando flores, vinhas e rolos de folhagem. A grande cama de madeira de nogueira dominava a sua consciência. Os reposteiros de damasco azul e escarlate tinham sido recolhidos para revelar uma colcha de fina seda azul-escura trabalhada com luas e estrelas de fio de prata. As criadas tinham-na dobrado para trás, deixando ver um travesseiro e lençóis de prístino linho branco que aguardava a inscrição do seu sangue virginal. Se as suas pernas não estivessem a tremer de medo, ela teria fugido do aposento. Uma criada tinha deixado uma infusão de vinho e especiarias a fervilhar na lareira. Beatrice, a mãe de Raoul, conduziu Claire até perto do fogo e fê-la parar sobre um tapete de carneiro enquanto as serviçais a despiam». In Elizabeth Chadwich, As Filhas do Graal, 1993, tradução de Ester Cortegano, Edições Chá das Cinco, 2013, ISBN 978-989-710-050-5.     


Cortesia de CdasCinco/JDACT

O Leão Escarlate. Elizabeth Chadwick. «Isabelle mordeu o lábio e debateu-se para não fazer força com o ímpeto que os seus instintos lhe ditavam. Pegando nos tornozelos do bebé, puxando com cuidado…»

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Fortaleza de Longueville. Normandia. Primavera de 1197
«Isabelle de Clare, condessa de Leinster e Striguil, esposa do assessor do rei Ricardo, dava à luz o seu quarto filho. Vai nascer de rabo, anunciou a parteira, limpando as mãos a uma toalha depois de examinar a sua paciente. Deve ser um rapaz, são sempre eles que dão mais problemas. Isabelle fechou os olhos e reclinou-se nos travesseiros empilhados. Durante a manhã, as contracções haviam-se tornado cada vez mais frequentes e dolorosas. As suas damas de companhia tinham-lhe desfeito as tranças do cabelo, para que não existissem nenhumas amarras em seu redor que pudessem prender o bebé ao útero, e as espessas madeixas douradas como o trigo espalhavam-se sobre os ombros e seios inchados e tocavam-lhe na barriga arredondada. Ele já estava atrasado. O seu marido esperara acolher o seu novo rebento antes de partir para a guerra dez dias antes, mas, ao invés, tivera de se despedir de Isabelle com um beijo à distância, já que a sua barriga grávida parecia uma montanha a separá-los. Estava-se agora em Maio. Se ela sobrevivesse à gravidez desta criança e ele conseguisse ultrapassar a campanha de Verão, ver-se-iam no Outono. Por agora, ele estava algures no seio de Beauvaisis com o seu soberano, e ela desejava estar em todos os lugares menos nestes aposentos atravancados a passar pela provação do parto.
Uma contracção teve início no fundo da coluna e apertou-lhe o útero. A dor apoderou-se da parte de baixo do seu corpo, fazendo-a ofegar e cerrar os punhos. Dói sempre mais quando eles vêm de rabo. A parteira olhou astutamente para Isabelle. Não é o seu primeiro; sabe o que a espera, mas as crianças que chegam ao mundo pela parte de trás têm uma passagem perigosa. A cabeça vem em ultimo lugar, e isso não é bom para o bebé. E melhor rezar à abençoada santa Margarida para pedir ajuda. Fez sinal para a imagem de madeira pintada colocada sobre uma arca ao lado da cama, rodeada por um brilho de velas votivas. Tenho-lhe rezado todos os dias, desde que soube que estava de bebé, disse Isabelle de forma irritadiça, sem acrescentar que o parto atrasado de um bebé a nascer de rabo dificilmente seria uma feliz recompensa para a sua devoção. Estava quase a sentir aversão à imagem. Quem quer que a tivesse esculpido tinha-lhe colocado uma expressão santimonial muito semelhante a um sorriso arrogante. A contracção que se seguiu fê-la contorcer-se e ter vontade de fazer força. A parteira fez sinal à rapariga que a auxiliava e ocupou-se do interior das coxas de Isabelle. Devia convocar o seu capelão para baptizar a criança imediatamente, anunciou ela, com a voz abafada pelo lençol levantado. Já tem nome?
Gilbert, se for menino, e Isabelle, se for menina, disse Isabelle, por entre dentes cerrados, enquanto fazia força. A contracção desvaneceu-se. Deixando-se cair nos travesseiros, pediu, ofegante, a uma das damas de companhia que fosse buscar o padre Walter e lhe pedisse para esperar na antecâmara. Mais uma dor se apoderou dela, depois outra e mais outra, violenta e severa, agora sem intervalos, enquanto o seu corpo se esforçava por expelir o bebé do seu útero e fazê-lo entrar no mundo. Arquejante, chorou e gemeu com estorço, com os tendões a sobressaírem-lhe na garganta, as mãos agarradas às das suas companheiras com força suficiente para lhes deixar marcas permanentes na pele. Houve um súbito jorro de calor húmido por entre as suas coxas e a parteira começou às apalpadelas. Ah, disse ela, com satisfação. Eu tinha razão, é mesmo um rapaz. Ora, e tem um belo par de tintins! Vamos lá ver se conseguimos mantê-lo vivo para lhes dar uso, hã? Faça força novamente, minha senhora. Mais devagar, mais devagar. Com calma, agora.
Isabelle mordeu o lábio e debateu-se para não fazer força com o ímpeto que os seus instintos lhe ditavam. Pegando nos tornozelos do bebé, puxando com cuidado, a parteira levantou-lhe o tronco por cima do abdómen de Isabelle. Quando a boca e o nariz emergiram do canal do parto, ela limpou-lhes o sangue e o muco e, depois, observando atentamente, controlou a saída do resto da cabeça com uma mão meiga. Apoiada sobre os cotovelos, Isabelle fitou o bebé deitado sobre o seu corpo como um marinheiro afogado, naufragado. Tinha uma cor cinzenta-azulada e não se mexia. O pânico apoderou-se dela. Sagrada Santa Margarida, ele está... ? A mulher levantou o bebé pelos tornozelos, balançou-o suavemente e deu-lhe uma palmada vigorosa nas nádegas, depois mais outra. Um tremor percorreu-o, o seu peito pequenino expandiu-se e um choro de protesto encheu o ar, inseguro ao início, mas ganhando força e infundindo-lhe no corpo um vitalizante rubor rosado.
Endireitando-o, a parteira virou-se para Isabelle, com um sorriso a vincar-lhe as pregas das bochechas enrugadas. Só precisava de um bocadinho de persuasão, disse ela. Mas é melhor que o padre lhe dê um nome, pelo sim, pelo não. Embrulhou-o numa toalha quentinha e colocou-o nos braços de Isabelle. Depois de cortado o cordão umbilical e de expelida a placenta para ser levada para enterrar, Isabelle contemplou os traços enrugados pelo parto do seu filho recém-nascido e, ainda profundamente ansiosa, observou a sua respiração fraca. Um desconcertado e ligeiramente intrigado franzir de sobrolho enrugou-lhe as sobrancelhas delicadamente desenhadas. As suas pequeninas mãos estavam cerradas com força, como se fossem combater o mundo no qual fora tão brutalmente iniciado. Gilbert, disse ela, suavemente. O que será que o teu pai irá fazer de ti? Soprou-lhe suavemente para a bochecha e deu-lhe o dedo indicador, para que ele enrolasse à sua volta a mão em miniatura. Passado um momento, ela desviou o olhar do bebé e fixou-o na janela dos seus aposentos e no arco de suave céu azul que ela emoldurava. A sua própria provação estava quase terminada e, se Deus quisesse, se ela não apanhasse a febre puerperal, em breve estaria a pé. Poderia agradecer a Santa Margarida com uma oferenda e voltar a guardá-la na sua arca, até que fosse necessária. Agora iria concentrar-se em orações pela segurança do seu marido e pedir a Deus que o trouxesse de volta a casa inteiro, para conhecer o seu novo filho». In Elizabeth Chadwick, O Leão Escarlate, 2006, Edições Chá das Cinco, 2009, ISBN 978-989-803-247-8.

Cortesia de ECdasCinco/JDACT

terça-feira, 8 de março de 2016

As Filhas do Graal. Elizabeth Chadwick. «Bridget conteve o fôlego ao vê-lo mais de perto. Sentiu o magnetismo do jovem corpo vigoroso e a alegria que dele irradiava. O seu próprio corpo reagiu como a corda tangida de uma harpa»

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As Montanhas Negras do Alto Languedoc. Verão de 1207
«(…) Raoul observou a mão rechonchuda de Otho mergulhar num prato de amêndoas açucaradas, agarrá-las, levá-las aos lábios húmidos e atafulhá-las na boca ávida. Sentiu-se nauseado e desviou o olhar. Três peregrinos tinham acabado de chegar ao salão de banquetes. As suas capas e chapéus de abas largas estavam poeirentos da viagem. Alein, o escudeiro do seu pai, encontrou-lhes lugares para se sentarem nas apinhadas mesas junto da porta. Eram dois homens, um por volta dos quarenta anos, o outro, uns dez anos mais velho. Sentada entre eles e a agradecer a Alein com um caloroso sorriso estava uma jovem mulher. Os ossos que formavam o seu rosto eram demasiado fortes para lhe dar beleza, mas havia alguma coisa para além do seu aspecto que a tornava totalmente hipnotizante. Cheio de curiosidade, Raoul estudou-a, perguntando-se de onde viria ela e para onde ia. Os peregrinos paravam ocasionalmente em Montvallant a caminho de Toulouse, mas, de uma forma geral, pediam hospitalidade na igreja em Villemur. Uma criada debruçou-se sobre a mesa para servir mais pão e vinho, escondendo a jovem da vista de Raoul. Ele inclinou o pescoço, tentando mantê-la no seu campo de visão. Os músicos, que tinham estado a tocar baixinho durante os variados pratos do banquete, mudaram de ritmo e os vivos acordes de uma jiga encheram o salão. O pai deu-lhe uma cotovelada. Não vais dançar com a tua noiva? provocou-o Berenger. As pessoas estão à espera que a convides. Raoul apercebeu-se dos olhares expectantes dos convidados da boda. Mortificado, ergueu-se apressadamente e, voltando-se para Claire, estendeu-lhe a mão para a ajudar a levantar-se. Ela corou e pousou os dedos finos nos dele. O ouro novo do seu anel de casamento brilhava como uma promessa. Raoul esqueceu a peregrina quando conduziu a sua noiva para o espaço que fora aberto no salão, esqueceu tudo para além da sensação daquele corpo esguio que ora tocava ligeiramente o seu, ora se afastava, à medida que rodopiavam nos antigos passos da celebração. Mais pão, Bridget?, Chretien ofereceu à sobrinha o cesto com pequenos pãezinhos. Ela recusou com um sorriso. Não conseguiria comer nem mais um pedaço. Pousando os cotovelos sobre a mesa, observou os dançarinos com olhos melancólicos. Eles pertenciam a outro mundo, um que ela podia ver mas nunca penetrar. Uma parte de si ansiava pelas cores, as festas e a descuidada exuberância que não se preocupava com nada para além do momento. Por vezes era muito difícil ser quem era e ser o que era. Os dançarinos rodopiaram na sua direcção, o jovem noivo encurralado no meio de um grupo de outros homens. Ele ria enquanto tentava sem grande esforço escapar às suas mãos. Bridget conteve o fôlego ao vê-lo mais de perto. Sentiu o magnetismo do jovem corpo vigoroso e a alegria que dele irradiava. O seu próprio corpo reagiu como a corda tangida de uma harpa. Baixou o olhar para a mesa e fixou-o numa escura mancha de vinho na madeira, o seu coração acelerando e a pele a vibrar de sensibilidade. O salão irrompeu em aplausos e gritos, assobios de aprovação e brados de encorajamento quando o noivo foi conduzido para as escadas da torre. O que é que se está a passar?, perguntou Bridget a uma mulher sentada à sua mesa. O que é que se vai passar, quer a menina dizer, gracejou a mulher. Está na altura de o senhor Raoul e a sua noiva serem levados para a cama para cumprirem o seu dever! Ah!, soltou Bridget. Fora por isso que ela sentira o seu vigor, uns momentos antes, mas nessa noite esse vigor já tinha um objectivo. A nova esposa, rodeada pelas suas damas, estava a ser conduzida do dossel para um diferente lanço de escadas. Ela tinha o andar gracioso de uma corça e os mesmos modos tímidos e perplexos. Silenciosamente, Bridget desejou felicidades ao casal». In Elizabeth Chadwich, As Filhas do Graal, 1993, tradução de Ester Cortegano, Edições Chá das Cinco, 2013, ISBN 978-989-710-050-5.           
Cortesia de CdasCinco/JDACT

As Filhas do Graal. Elizabeth Chadwick. «Ela lançava-lhe constantemente rápidos olhares, e os seus olhos tinham o castanho opulento do mel dos bosques»

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As Montanhas Negras do Alto Languedoc. Verão de 1207
«(…) Com uma prudência invulgar para os seus vinte e um anos, Raoul de Montvallant cobriu o cálice veneziano com a palma da mão e abanou a cabeça para o escudeiro que se inclinara para o voltar a encher. Não que lhe desagradasse o vinho; de facto, numa ocasião diferente, ele teria bebido tanto como todos os outros jovens presentes, mas nessa noite tinha uma boa razão para permanecer sóbrio. Deixou que o seu olhar insaciável se escapasse novamente para essa razão, a sua noiva, Claire, a quem fora prometido desde a infância. Na última vez que a vira, ela tinha um sorriso desdentado e lama na bainha do vestido, de chapinhar nas poças depois de um aguaceiro de Verão. Hoje, o seu sorriso era deslumbrante e completo. A bainha do seu vestido estava bordada não de lama mas com losangos de fio de ouro que cintilava contra um fundo de sumptuoso samito verde. O seu cabelo, deixado solto para proclamar a sua virgindade, brilhava como seda em fogo e Raoul queria passar os dedos pelas suas ondas para descobrir se era tão macio como parecia. Ela lançava-lhe constantemente rápidos olhares, e os seus olhos tinham o castanho opulento do mel dos bosques. Raoul tentou pensar em algo para dizer que não parecesse usado ou banal, mas deu por si completamente perdido. A linda criatura ao seu lado não apresentava qualquer semelhança com a rapariga magricela que ele recordava. A noção de que em breve estariam ambos a sós, na cama, e nus, roubava-lhe todos os pensamentos coerentes. Embora não tivesse vasta experiência com mulheres, Raoul visitara algumas vezes as maisons lupanardes de Toulouse, onde uma das meretrizes tivera o capricho de lhe ensinar que existia mais prazer para além da breve e rude simplicidade dos seus primeiros encontros. Claire, porém, era inocente, uma virgem, e não era provável que o viesse a ajudar, se ele se mostrasse desajeitado. Era também bastante desejável e ele ardia de desejo ao ponto de duvidar do seu próprio controlo. Estendeu a mão para o seu copo, depois lembrou-se de que este estava vazio por aquela mesma razão e pousou-a novamente sobre a mesa. Desejoso de a provar, não?, riu o padre Otho, o sacerclote que oficiara ao seu casamento na poeirenta e negligenciada capela do castelo. Não o condeno. Nem eu me importava de lhe pôr o freiol! Mordeu um doce de maçã e mastigou-o lascivamente. Raoul cerrou o punho e pensou em lançá-lo contra o rosto sobrealimentado do sacerdote. O padre Otho era um lúbrico glutão que cuidava dos seus próprios bolsos e prazeres acima das necessidades do seu rebanho, que, sob a sua desmazelada direcção, era pequeno e indiferente. Então ainda bem que fez um voto de celibato, ripostou Raoul. O sacerdote arrotou. Há sempre espaço para diferentes interpretações, no meu entender. Para conhecer o pecado, há que lutar com ele primeiro. Isso mesmo, rapaz, enche-o bem, enche-o bem! Fez um gesto imperativo para o escudeiro, depois ergueu o seu cálice a transbordar e inclinou-se para o pai de Raoul. Uma magnífica adega que aqui tem, meu senhor! Berenger Montvallant ofereceu a Otho um tépido sorriso que não se estendia aos seus olhos. E ele vai esvaziá-la antes de a noite terminar, murmurou Raoul para o pai quando a atenção do clérigo se desviou para uma bonita serviçal que atendia à sua noiva. Se ele não fosse meu primo em segundo grau e eu não tivesse prometido ao pai que lhe daria aqui um lugar, há muito tempo que o teria mandado embora, disse Berenger com uma careta. Será de admirar que os cátaros floresçam entre nós, quando selhas de banha como esta governam o clero?» In Elizabeth Chadwich, As Filhas do Graal, 1993, tradução de Ester Cortegano, Edições Chá das Cinco, 2013, ISBN 978-989-710-050-5. 
Cortesia de CdasCinco/JDACT