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terça-feira, 13 de outubro de 2015

Steve Jobs. Walter Isaacson. «Steve Jobs soube desde cedo que havia sido adoptado: Meus pais eram muito abertos comigo em relação a isso. Ele tinha uma memória, quando tinha seis ou sete anos, e contar esse facto a uma menina que morava do outro lado da rua»

Cortesia da wikipedia e jdact

«As pessoas que são loucas o suficiente para achar que podem mudar o mundo são aquelas que o mudam». In Pense diferente, Apple, 1997

Infância. Abandonado e escolhido. A adopção
«(…) Seu pai possuía refinarias de petróleo e muitas outras empresas, com grandes propriedades em Damasco e Homs, e a certa altura chegou a controlar o preço do trigo na região. Tal como a família Schieble, os Jandali valorizavam a educação; durante gerações, os membros da família foram mandados a Istambul ou à Sorbonne para estudar. Abdulfattah Jandali, embora muçulmano, foi enviado para um internato jesuíta e fez a graduação na Universidade Americana, em Beirute, antes de ir para a Universidade de Wisconsin como estudante de pós-graduação e assistente de ensino de ciência política. No verão de 1954, Joanne foi com Abdulfattah para a Síria. Passaram dois meses em Homs, onde ela aprendeu com a família dele a fazer pratos sírios. Quando voltaram para Wisconsin, ela descobriu que estava grávida. Tinham ambos 23 anos, mas decidiram não se casar. O pai dela estava muito doente na época, e havia ameaçado deserdá-la se ela se casasse com Abdulfattah. Tampouco o aborto era uma opção fácil numa pequena comunidade católica. Assim, no início de 1955, Joanne viajou para San Francisco, onde ficou sob a protecção de um médico bondoso que abrigava mães solteiras, fazia o parto de seus bebés e cuidava discretamente de adopções sigilosas. Joanne fez uma exigência: seu filho deveria ser adoptado por pessoas com estudos universitários Então o médico providenciou para que o bebê fosse adoptado por um advogado e esposa. Mas quando o menino nasceu, em 24 de Fevereiro de 1955, o casal designado decidiu que queria uma menina e recuou. Assim, o menino tornou-se filho, não de um advogado, mas de um mau aluno da escola secundária e com paixão por mecânica e da sua carinhosa esposa, que trabalhava então como guarda-livros. Paul e Clara deram ao recém-chegado bebé o nome de Steven Paul Jobs.
No entanto, ainda havia a questão da exigência de Joanne de que os novos pais de seu filho tivessem estudos universitários: quando descobriu que ele fora adoptado por um casal que não tinha sequer completado os estudos básicos do secundário, ela recusou-se a assinar os papéis da adopção. O impasse durou semanas, mesmo depois que o bebé Steve já estar a viver na casa dos Jobs. Por fim, Joanne cedeu, mas, estipulou que o casal prometesse, na verdade, eles assinaram um compromisso, que iria criar poupanças e enviar o menino para a faculdade. Havia outra razão para que Joanne fosse recalcitrante quanto a assinar os papéis da adopção. O pai estava prestes a morrer e ela planeava casar-se com Jandali logo depois da sua morte. Ela mantinha a esperança, como contaria mais tarde a membros da família, às vezes com lágrimas nos olhos, ao lembrar, de que, depois que estivessem casados, ela poderia recuperar o seu bebé.
Com efeito, Arthur Schieble morreu em Agosto de 1955, poucas semanas após a adopção ser oficializada. Logo depois do Natal daquele ano, Joanne e Abdulfattah Jandali casaram-se na igreja católica de São Filipe, o Apóstolo, em Green Bay. Ele obteve o seu doutoramento em política internacional no ano seguinte, e mais tarde tiveram outra criança, uma menina chamada Mona. Depois, ela e Jandali divorciaram-se em 1962, e Joanne deu início a uma vida fantasiosa e peripatética, que sua filha, que se tornaria a grande romancista Mona Simpson, captaria em seu pungente romance Anywhere but here (Em qualquer lugar, menos aqui). Mas, tendo em conta que a adopção de Steve havia sido particular e sigilosa, demoraria vinte anos para que eles todos se encontrassem.
Steve Jobs soube desde cedo que havia sido adoptado: Meus pais eram muito abertos comigo em relação a isso. Ele tinha uma memória vívida de estar sentado no relvado de sua casa, quando tinha seis ou sete anos, e contar esse facto a uma menina que morava do outro lado da rua. Então isso significa que os teus pais verdadeiros não te queriam, a menina perguntou. Ooooh! Relâmpagos explodiram na minha cabeça, segundo Jobs. Lembro-me de correr para casa, chorando. E meus pais disseram: Não, tu tens de entender. Estavam muito sérios e olharam-me directamente nos olhos. Eles disseram: Nós escolhemos-te. Ambos disseram isso e repetiram devagar para mim. E puseram ênfase em cada palavra daquela frase». In Walter Isaacson, Steve Jobs (Edição 1), tradução de Berilo Vargas, Denise Bottmann, Pedro Soares, Editora Companhia das Letras, Wikipedia, iOS Books, LegiLibro, 2011, ISBN 978-853-591-971-4.

Cortesia ECdasLetras/JDACT

Steve Jobs. Walter Isaacson. «Steve Paul Jobs nasceu em São Francisco, filho de Joanne Schieble Jandali Simpson, nascida em Wisconsin, e de Abdulfattah Jandali, membro de uma proeminente família síria. O casal conheceu-se em meados dos anos 50…»

Cortesia da wikipedia e jdact

«As pessoas que são loucas o suficiente para achar que podem mudar o mundo são aquelas que o mudam». In Pense diferente, Apple, 1997

Infância. Abandonado e escolhido. A adopção
«Quando deu baixa da guarda costeira, após a II Guerra Mundial, Paul Jobs fez uma aposta com os seus colegas de tripulação. Eles haviam chegado a São Francisco, onde seu navio foi retirado do serviço, e Paul apostou que encontraria uma esposa em duas semanas. Ele era um mecânico de motores e tatuado, com mais de 1,80 metro de altura e uma leve semelhança com James Dean. Mas não foi a sua aparência que lhe valeu uma saída com Clara Hagopian, uma meiga filha de imigrantes arménios. Foi o facto de que ele e seus amigos tinham acesso a um carro, ao contrário do grupo com quem ela havia originalmente planeado sair naquela noite. Dez dias depois, em Março de 1946, Paul ficou noivo de Clara e ganhou a aposta. Viria a ser um casamento feliz, que durou até que a morte os separou, mais de quarenta anos depois. Paul Reinhold Jobs fora criado numa fazenda de Germantown, Wisconsin. Embora o seu pai fosse alcoólico e, por vezes, violento, ele acabou com uma disposição gentil e calma sob uma aparência dura. Depois de abandonar o ensino médio, vagueou pela parte Ocidental do país, fazendo trabalhos de mecânico, até que, aos dezanove anos, entrou para a guarda costeira, ainda que não soubesse nadar. Foi incorporado ao USS M. C. Meigs e passou grande parte da guerra transportando tropas para a Itália, destinadas ao general Patton. O seu talento como maquinista e bombeiro rendeu-lhe elogios, mas envolveu-se em pequenas confusões e nunca saiu do posto de marinheiro.
Clara nascera em Nova Jersey, onde os seus pais haviam desembarcado depois de fugir dos turcos na Arménia, porém eles mudaram-se para São Francisco, quando ela era criança. Clara tinha um segredo que raramente mencionava a alguém: havia sido casada, mas o seu marido morrera na guerra. Assim, quando conheceu Paul Jobs naquele primeiro encontro, ela estava preparada para começar uma nova vida. Como muitos que viveram na época da guerra, eles haviam experimentado emoção suficiente para que, quando ela acabou, quisessem simplesmente estabelecer-se, criar uma família e levar uma vida menos agitada. Tinham pouco dinheiro, então mudaram-se para Wisconsin e moraram com os pais de Paul por alguns anos, depois foram para Indiana, onde ele conseguiu um emprego de mecânico na International Harvester. A sua paixão era mexer em carros antigos, que ele comprava, restaurava e vendia, fazendo um bom dinheiro no seu tempo livre. Por fim, largou o emprego para se tornar vendedor de carros usados em tempo integral.
Clara, no entanto, gostava da cidade de São Francisco e, em 1952, convenceu o marido a voltar para lá. Conseguiram um apartamento no Sunset District, de frente para o Pacífico, logo ao sul do Golden Gate Park, e ele arranjou um emprego de recuperador numa companhia de financiamentos: forçava as fechaduras dos carros cujos donos não tinham pago os empréstimos e os retomava. Também comprava, consertava e vendia alguns dos carros, ganhando uma vida suficientemente decente. Havia, no entanto, algo que faltava nas suas vidas. Eles queriam filhos, mas Clara tivera uma gravidez ectópica, aquela em que o óvulo fecundado se implanta na trompa de Falópio em vez de no útero, e não podia mais tê-los. Assim, em 1955, após nove anos de casamento, eles estavam querendo adoptar uma criança.
Tal como Paul Jobs, Joanne Schieble vinha de uma família da zona rural de Wisconsin, de ascendência alemã. O seu pai, Arthur Schieble, tinham imigrado para os arredores de Green Bay, onde ele e a esposa tinham uma criação de visons e se aventuravam com sucesso em vários outros negócios, de imóveis a fotogravura. Ele era muito rigoroso, sobretudo no que dizia respeito aos relacionamentos da filha, e desaprovara fortemente o seu primeiro amor, um artista que não era católico. Assim, não surpreende que tenha ameaçado deserdar Joanne completamente quando ela se apaixonou pelo muçulmano sírio Abdulfattah John Jandali, assistente de ensino na Universidade de Wisconsin, onde ela fazia pós-graduação. Jandali era o filho mais novo de nove filhos de uma família proeminente da Síria». In Walter Isaacson, Steve Jobs (Edição 1), tradução de Berilo Vargas, Denise Bottmann, Pedro Soares, Editora Companhia das Letras, Wikipedia, iOS Books, LegiLibro, 2011, ISBN 978-853-591-971-4.

Cortesia ECdasLetras/JDACT

domingo, 31 de maio de 2015

Uma Pausa para a Luz no 31. O Sentimento do Si. António Damásio. «… a sobrevivência depende de encontrarmos e incorporarmos fontes de energia e de evitarmos toda a espécie de situações que ameaçam a integridade dos tecidos vivos. Desprovidos de capacidade de acção…»

wikipedia e jdact

Em busca do Si
«(…) Se, nesta altura, começarem a ficar preocupados, pensando que estou prestes a cair na armadilha do homúnculo, deixem-me dizer imediata e veementemente que nada devem recear. O modelo-do-corpo-no-cérebro a que me refiro em nada se parece com o rígido homúnculo, essa criatura problemática que habita os antiquados manuais de neurologia. Nada neste modelo se assemelha a uma pequena pessoa escondida dentro de uma grande. O modelo nada percebe e nada conhece. Não fala nem produz consciência. Em vez disso, o modelo é um conjunto de dispositivos cerebrais cuja principal tarefa é a gestão automatizada da vida do organismo. Como veremos mais adiante, a gestão da vida é conseguida através de uma variedade de acções reguladoras, predeterminadas de forma inata: secreção de substâncias químicas, tais como as hormonas, bem como movimentos eficazes nas vísceras e nos sectores musculo-esqueléticos do corpo. O desenrolar destas acções depende da informação fornecida pelos mapas neurais que assinalam, a cada momento, o estado dos diversos departamentos do organismo. Acima de tudo, nem os dispositivos de regulação vital nem os seus mapas corporais são os geradores de consciência, embora a sua presença seja indispensável para os mecanismos que produzem a consciência nuclear. Esta é a questão-chave, no jogo da consciência, o organismo é representado no cérebro, de forma abundante e com diversas facetas, e essa representação está ligada à manutenção da vida. Se esta minha ideia estiver correcta, a vida e a consciência estão indelevelmente entrelaçadas.

Para que serve a Consciência?
Para os leitores que por acaso se surpreendam com a ligação entre vida e consciência, gostaria de acrescentar o seguinte: a sobrevivência depende de encontrarmos e incorporarmos fontes de energia e de evitarmos toda a espécie de situações que ameaçam a integridade dos tecidos vivos. Desprovidos de capacidade de acção, organismos como os nossos não sobreviveriam, uma vez que não encontrariam as fontes de energia necessárias à renovação da estrutura do organismo e à manutenção da vida e não poderiam evitar os perigos presentes no ambiente. Porém, as acções não nos levariam muito longe se não fossem orientadas por imagens. As boas acções precisam da companhia de boas imagens. As imagens permitem-nos escolher entre repertórios de acção anteriormente disponíveis e optimizar a execução da acção escolhida. De forma mais ou menos deliberada ou mais ou menos automática, conseguimos rever mentalmente as imagens que representam as diferentes opções de acção, os diferentes cenários e os diferentes resultados da acção. Podemos seleccionar as acções mais adequadas e rejeitar as que o não são. As imagens também nos permitem inventar novas acções aplicáveis a novas situações e conceber planos para acções futuras.
A capacidade de transformar e combinar imagens de acções e cenários é a fonte de toda a criatividade. Se as acções estão na origem da sobrevivência e se o seu poder está ligado à disponibilidade de imagens orientadoras, é bem plausível que um dispositivo capaz de maximizar a manipulação efectiva de imagens ao serviço dos interesses de um determinado organismo tivesse conferido uma enorme vantagem aos organismos que o possuíssem e tivesse provavelmente prevalecido na evolução. A consciência é, precisamente, esse dispositivo. A novidade pioneira trazida pela consciência foi a possibilidade de ligar o santuário íntimo da regulação da vida à capacidade de manipular imagens. Dito por outras palavras, foi a possibilidade de o sistema de regulação vital, que se encontra situado nas profundezas do cérebro, em regiões como o tronco cerebral e o hipotálamo, se relacionar com o processamento de imagens que representam as coisas e os acontecimentos que existem dentro e fora do organismo. Esta novidade tornou-se numa vantagem porque a sobrevivência num meio ambiente complexo, isto é, a gestão eficiente da regulação da vida, depende de um curso de acção correcto que pode ser melhorado através de previsão e planeamento duas funções que, por seu turno, dependem da manipulação de imagens na mente. A consciência permitiu a ligação entre a regulação da vida interior e a manipulação das imagens». In António Damásio, O Sentimento de Si, O corpo, a emoção e a neurobiologia da consciência, Publicações Europa-América, 1999, 2004, ISBN 972-1-04757-0.

Cortesia de PEA/JDACT

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Las raíces astronómicas de la Navidad. Rafael Bachiller «La celebración de la Navidad en el solsticio de invierno sería así una coincidencia, pero sin duda una coincidencia sumamente conveniente, pues al solsticio, momento de las noches mínimas en el Hemisferio Norte, se le puede dotar de un simbolismo claro de renacimiento y renovación»

El censo de Belén. Pieter Brueghel, el viejo, 1566
Cortesia de elmundo

Com a devida vénia a El Mundo - Ciência

«El astrónomo Rafael Bachiller nos descubre en esta serie los fenómenos más espectaculares del Cosmos. Temas de palpitante investigación, aventuras astronómicas y novedades científicas sobre el Universo analizadas en profundidad.  Es una creencia generalizada que la fecha de la Navidad se fijó en el 25 de diciembre para sustituir a celebraciones paganas ligadas al solsticio de invierno. Sin embargo, numerosos estudios muestran que aunque la fecha de la Navidad tiene una raíz astronómica, ésta no se encuentra en el solsticio de invierno, sino que se remonta al equinoccio de primavera.

El laberinto del nacimiento de Cristo
No hay referencias directas en la Biblia sobre la fecha del nacimiento de Cristo, ni siquiera indicaciones aproximadas sobre el momento del año en el que se produjo, y nadie se atrevería a sostener hoy que la fecha del 25 de diciembre tiene una base histórica. A lo largo de los siglos, la Natividad se ha celebrado en fechas diferentes y aún hoy, la Iglesia armenia la celebra el 6 de enero. A pesar de que establecer una fecha precisa para esta celebración ocupó a los cronógrafos cristianos durante siglos, estos esfuerzos condujeron a resultados muy variados.  Por ejemplo, en el século II Clemente de Alejandría se refiere a trabajos anteriores que fijaban el 6 de enero, el 19 de abril y el 20 de mayo, mientras que él mismo proponía el 17 de noviembre. Otras fechas calculadas o adivinadas posteriormente fueron el 25 y el 28 de marzo, el 2 de abril (por Hipólito de Roma), etc. Fue hacia el año 300-330 que la fecha del 25 de diciembre aparece ya en Roma como un día festivo bien establecido para celebrar el nacimiento de Cristo, una tradición que se extendió a Asia Menor hacia el año 380 y a Egipto hacia el 430. Sin embargo, en otras comunidades cristianas, se eligió la fecha del 6 de enero, una opción que con el tiempo fue perdiendo adeptos.
A primera vista parece universalmente aceptado que el 25 de diciembre fue elegido para oponer la celebración cristiana a otras celebraciones paganas. Esas fiestas incluyen por supuesto al solsticio de invierno que, de acuerdo con el calendario Juliano, se celebraba el 25 de diciembre. Además, de acuerdo con el famoso Calendario del 354 (el Calendario de Filócalo), 30 carreras de carros festejaban en ese día Natalis Invictis, el nacimiento de Sol Invictus, una celebración fijada por el emperador Aureliano en el año 274.

Solsticios y equinoccios
Muchos estudios realizados desde principios del século XX cuestionan, sin embargo, esta idea de que los cristianos habrían optado por el 25 de diciembre para sustituir a fiestas paganas, pues no encuentran evidencias históricas que la apoyen. De hecho, los primitivos cristianos ponían mucho más énfasis en la celebración de la pasión y la muerte de Cristo. El escritor cristiano Tertuliano había calculado en el año 200 que la muerte de Cristo tuvo lugar el 25 de marzo (cerca del equinoccio de primavera), mientras que en provincias orientales del Imperio Romano, fijaron la muerte de Cristo en el 6 de abril. En resumen, hacia los siglos II y III se barajaban las fechas del 25 de diciembre y 6 de enero para el nacimiento de Cristo y 25 de marzo y 6 de abril para su muerte. Puede haber una relación entre estas fechas? Son exactamente 9 meses de diferencia. Los cristianos de la época estaban suponiendo que la concepción de Cristo tuvo lugar en el mismo día del año que su muerte. Esta suposición encaja bien con una creencia muy generalizada en aquellos tiempos de que los grandes sucesos de la creación y la salvación habían sucedido en la misma fecha del año. Por ejemplo, según el Talmud babilónico, la creación, el nacimiento de los patriarcas y la redención del mundo, todo tuvo lugar en el mes hebreo de Nisan. En el mundo judío de aquellos tiempos también estaba extendida la idea de que todos los grandes profetas de Israel habían vivido con una edad íntegra, un número exacto de años, es decir que morían en la misma fecha del año en la que habían nacido o habían sido concebidos. Parece plausible que, siguiendo esta creencia, los cristianos de los siglos II y III adoptasen la idea de que Jesús fue concebido en el mismo día del año en que moriría (el 25 de marzo), y que nació 9 meses más tarde (el 25 de diciembre).
Con el tiempo, el 25 de diciembre como fecha de la Natividad se extendió mucho más que el 6 de enero, fecha que, no obstante fue conservada en la inmensa mayoría de los lugares para celebrar la Epifanía. Pero no habría habido una intención deliberada en los antiguos cristianos, todavía una comunidad dispersa y poco organizada, de sustituir con la Navidad cristiana las celebraciones paganas ligadas al solsticio. Es más, se ha llegado a proponer que la institución de la fiesta de Sol Invictus, que como hemos mencionado se realizó en el año 274, fue un intento de dar un sentido pagano a la celebración de la Navidad de Cristo que databa de antes y que, en ese tiempo, ya estaba tomando auge en Roma. La celebración de la Navidad en el solsticio de invierno sería así una coincidencia, pero sin duda una coincidencia sumamente conveniente, pues al solsticio, momento de las noches mínimas en el Hemisferio Norte, se le puede dotar de un simbolismo claro de renacimiento y renovación. A partir del solsticio, los días se alargan permitiendo que la actividad humana recupere todo su brío. La realidad cósmica del Sol (un ente ambivalente en la antigua Roma por su doble significado astronómico y divino) quedaba asociada así a un momento de suma importancia en la Historia Sagrada.
Además de asociar el solsticio de invierno al nacimiento de Jesús, la Iglesia asoció el solsticio de verano al nacimiento de Juan Bautista, mientras que los equinoccios quedaron asociados a los momentos de su concepción (y muerte, al menos en el caso de Jesús). La predictibilidad de los fenómenos astronómicos dotan de esta manera a la religión de una simbología que remite al firmamento, arropando así a la liturgia con alegorías celestes de gran dignidad, acreedoras del respeto que inspira la repetición de los ciclos cósmicos. Vemos pues que aunque la fecha de la Navidad tiene un origen astronómico, la raíz no se encuentra de manera directa en el solsticio de invierno, sino que se remontaría a 9 meses antes, al equinoccio de primavera y a la feliz coincidencia de que la gestación en el seno materno dura aproximadamente tres estaciones, esto es, tres cuartas partes del tiempo empleado por la Tierra en completar su órbita alrededor del Sol». In Rafael Bachiller, (Director do Observatório Astronómico de Espanha e académico da Real Academia de Doutores de Espanha JDACT), El Mundo, Ciencia, Astronomia, Crónicas del Cosmos, Madrid.

Cortesia de El Mundo/JDACT

terça-feira, 19 de agosto de 2014

O Sentimento de Si. António Damásio. «… tem dentro de si uma espécie de modelo desse mesmo organismo. Este estranho facto, tantas vezes esquecido, é mais do que notável. Considero-o a pista mais importante na descoberta dos possíveis alicerces da consciência»

jdact

Em busca do Si
«(…) A imagem construída nos ecrãs multiplex do seu cérebro mudou de forma notória. Mas enquanto o seu sistema visual mudou submissamente de acordo com os objectos a cartografar, certas outras regiões do seu cérebro, cuja função é regular o processo da vida e que representam vários aspectos do seu corpo, mantiveram-se inalteradas em termos do tipo de objecto que representam. O corpo permaneceu sempre como objecto, e as sim permanecerá até que a morte sobrevenha. Não só o tipo do objecto se manteve precisamente o mesmo, mas também o grau de modificação que ocorreu no objecto, o corpo, foi mínimo. E porquê? Porque apenas uma pequena amplitude de estados corporais é compatível com a vida e o organismo está geneticamente desenhado de forma a manter essa pequena amplitude de estados vitais e equipado para procurar obtê-los, a qualquer preço. Repare na curiosa assimetria que acabo de descrever e que pode ser expressa nos seguintes termos: algumas partes do cérebro têm liberdade para vaguear pelo mundo e, ao fazê-lo, podem cartografar qualquer objecto que as características do organismo lhes permitam cartografar. Por outro lado, certas partes do cérebro, as que representam o próprio estado do organismo, não têm esse mesmo à-vontade. Não têm liberdade de escolha. Só podem cartografar o corpo e fazem-no no interior de mapas relativamente predeterminados. Constituem a audiência cativa do corpo e encontram-se à mercê da sua uniformidade e conformidade.
Existem várias razões por trás desta assimetria. Em primeiro lugar, a composição e as funções gerais do organismo vivo permanecem as mesmas, em termos da sua qualidade, ao longo de uma vida inteira. Em segundo lugar, as modificações corporais que continuamente ocorrem são pequenas, em termos quantitativos. Possuem limites dinâmicos estreitos, uma vez que o corpo, para sobreviver, tem de operar dentro de uma pequena amplitude de parâmetros; o estado interno do corpo deve permanecer relativamente estável em comparação com o ambiente que o rodeia. Em terceiro lugar, este estado de estabilidade é governado a partir do cérebro através de um sofisticado equipamento neural desenhado para detectar variações mínimas nos parâmetros do perfil químico interno do corpo e para comandar acções destinadas a corrigir, directa ou indirectamente, as variações detectadas. Em suma, no teatro de relações da consciência, o organismo constitui a unidade do nosso ser vivo, ou seja, do nosso corpo; e, no entanto, como se verá, a parte do organismo chamada cérebro tem dentro de si uma espécie de modelo desse mesmo organismo. Este estranho facto, tantas vezes esquecido, é mais do que notável. Considero-o a pista mais importante na descoberta dos possíveis alicerces da consciência.
Cheguei à conclusão de que o organismo, tal como é representado no interior do seu próprio cérebro, é um precursor biológico provável daquilo que finalmente se torna o fugidio sentido do si. As raízes profundas do si, incluindo o si alargado que abarca identidade e individualidade, podem ser encontradas no conjunto dos dispositivos cerebrais que de forma contínua e não consciente mantêm o estado do corpo dentro dos estreitos limites e da relativa estabilidade necessárias à sobrevivência. Estes dispositivos representam, de forma contínua e não consciente, o estado do organismo vivo nas suas várias dimensões. Denomino proto-si a actividade que ocorre no conjunto destes dispositivos. O proto-si é o precursor não consciente dos níveis do si que surgem nas nossas mentes como os protagonistas da consciência: o si nuclear e o si autobiográfico».

In António Damásio, O Sentimento de Si, O corpo, a emoção e a neurobiologia da consciência, Publicações Europa-América, 1999, 2004, ISBN 972-1-04757-0.

Cortesia de PEA/JDACT

domingo, 10 de agosto de 2014

O Sentimento de Si. António Damásio. «… a compreensão da biologia da consciência transforma-se na questão de descobrir como é que o cérebro consegue cartografar "ambos" os actores e a relação que estes mantêm. O problema geral da representação do objecto não é particularmente enigmático»

Cortesia de wikipedia

Em busca do Si
«De que modo vimos a saber que estamos a ver um determinado objecto? Como é que nos tornamos conscientes no sentido completo da palavra? Como é que o sentido de si no acto de conhecimento se implanta na mente? O caminho para uma possível resposta a estas perguntas só se tornou claro após eu ter começado a encarar o problema da consciência em função de dois actores principais, o organismo e o objecto, e em função da relação mantida por estes actores ao longo das suas interacções naturais. O organismo em questão é aquele dentro do qual acontece a consciência; o objecto, em questão é qualquer um que se dê a conhecer no processo da consciência; e as relações entre organismo e objecto constituem o conteúdo do conhecimento a que chamamos consciência. Vista nesta perspectiva, a consciência consiste na construção do conhecimento sobre dois factos: que o organismo está envolvido numa relação com um objecto e que o objecto presente nessa relação provoca uma modificação no organismo. Esta nova perspectiva também transforma a realização biológica da consciência num problema tratável. O processo da construção do conhecimento requer um cérebro e requer as propriedades de sinalização através das quais os cérebros conseguem construir padrões neurais e formar imagens.
Os padrões e as imagens necessários ao aparecimento da consciência são nem mais nem menos que os deputados cerebrais do organismo, do objecto, e da relação entre os dois. Nesta perspectiva, a compreensão da biologia da consciência transforma-se na questão de descobrir como é que o cérebro consegue cartografar ambos os actores e a relação que estes mantêm. O problema geral da representação do objecto não é particularmente enigmático. O aturado estudo da percepção, da aprendizagem, da memória e da linguagem deu-nos uma ideia considerável do modo como o cérebro processa um objecto, em termos sensoriais e motores, e uma ideia de como o conhecimento de um objecto pode ser guardado na memória, classificado em termos conceptuais ou linguísticos, e recuperado na recordação ou no reconhecimento. Os pormenores neurofisiológicos destes processos ainda não foram completamente resolvidos, mas os contornos destes problemas são compreensíveis. Do meu ponto de vista, a neurociência tem vindo a dedicar a maior parte dos seus esforços à compreensão da base neural daquilo que vejo como o deputado do objecto. No jogo de relações da consciência, o objecto é mostrado sob a forma de padrões neurais, nos córtices sensoriais apropriados para cartografar as suas características. Por exemplo, no caso dos aspectos visuais de um objecto, os padrões neurais são construídos numa diversidade de regiões dos córtices visuais, não apenas numa ou duas mas em muitas, que trabalham concertadamente para cartografar os vários aspectos do objecto em termos visuais. Porém, do ponto de vista do organismo, as questões são bem diferentes. Para mostrar quão diferentes elas são, vou sugerir ao leitor um exercício.
Levante os olhos desta página e dirija-os para a sala e para as coisas que estão à sua frente, observe-as com atenção e regresse depois à página do livro. Quando levantou os olhos, as várias estações do seu sistema visual, desde as retinas até às diversas regiões do córtex cerebral, deixaram rapidamente de seguir estas palavras para cartografarem a sala que se encontra à sua frente. Quando regressou ao livro, todas essas regiões voltaram mais uma vez a cartografar a página. Agora, dê uma volta de cento e oitenta graus e olhe para o que está atrás de si. Mais uma vez a cartografia da página desaparece de repente para que o sistema visual possa representar a nova cena que está a contemplar. Moral da história: numa sucessão rápida, precisamente as mesmas regiões do cérebro construíram mapas completamente diferentes devido às diferentes disposições motoras que o organismo assumiu e às diversas informações sensoriais colhidas pelo organismo». In António Damásio, O Sentimento de Si, O corpo, a emoção e a neurobiologia da consciência, Publicações Europa-América, 1999, 2004, ISBN 972-1-04757-0.

Cortesia de PEA/JDACT

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O mapa mais completo para estudar o movimento do gelo da Antárctida: « É como ver, pela primeira vez num mapa, todas as correntes oceânicas. Observamos os incríveis movimentos de gelo, desde o coração do continente, que nunca tinham sido descritos, afirma Eric Rignot, investigador do Laboratório da NASA»

Cortesia de elmundo

«Lo que ocurre en la Antártida tiene consecuencias para el clima mundial. El comportamiento y el desplazamiento de los bloques de hielo en este continente es monitorizado constantemente por los científicos, que a partir de ahora dispondrán de un nuevo mapa para estudiar mejor los efectos de las variaciones en el clima.
Se trata del primer mapa completo en alta resolución que muestra la velocidad de movimiento de los glaciares y su dirección. Ha sido elaborado a partir de los datos facilitados entre 2007 y 2009 por satélites de la Agencia Espacial Europea (ESA), Japón y Canadá. La NASA, por su parte, ha aportado la tecnología necesaria para plasmar toda esta información en un mapa. La nueva herramienta y las primeras conclusiones de los investigadores han sido presentadas en la revista «Science».
La cartografía muestra cómo los glaciares se desplazan desde el interior del continente hacia las zonas costeras, una tendencia que, según advierten los científicos, provocará un aumento del nivel del mar en los próximos años. El mapa ayudará a los investigadores a hacer estimaciones sobre la subida del nivel en el futuro causada por el deshielo.

Cortesia de elmundo

«Es como ver por primera vez en un mapa todas las corrientes oceánicas. Estamos observando increíbles movimientos [de hielo] desde el corazón del continente que nunca habían sido descritos", afirma Eric Rignot, investigador del Laboratorio de Propulsion Jet de la NASA y autor principal del estudio publicado en 'Science'.
Las animaciones realizadas por la NASA no muestran dónde se está derritiendo el hielo, sino cómo éste se desplaza de forma natural desde las regiones del interior a la costa. Los colores representan la velocidad de los flujos de hielo (en metros por año). Las áreas señaladas en rojo y morado son las que se mueven a mayor velocidad.

Formaciones de hielo desconocidas.
Con sorpresa, los investigadores descubrieron una cresta que se desliza de este a oeste. Asimismo, han detectado formaciones de hielo hasta ahora desconocidas que se desplazan unos 244 metros cada año hacia el Océano Antártico. Y lo hacen de una forma diferente a la que sugerían modelos anteriores.

La Antártida tiene una extensión de unos 14 millones de kilómetros cuadrados y casi toda su superficie está permanentemente cubierta de hielo, incluso durante el verano austral. En varias zonas, el manto de hielo va más allá de los límites del continente y conforma barreras heladas de manera permanente sobre las bahías del Océano Antártico. Debido al aumento de las temperaturas, los científicos calculan que cada año este continente pierde más de 150 kilómetros cuadrados de hielo. Según la NASA, el nuevo mapa permitirá comprender mejor los movimientos de las capas de hielo de la Antártida y cómo podrían responder en el futuro al cambio climático. Asimismo, ayudará a los científicos reconstruir cómo han evolucionado las capas de hielo en las regiones polares». In Teresa Guerrero, El Mundo, NASA.





Cortesia de El Mundo/JDACT

sábado, 11 de junho de 2011

Cortesia de getulionetvargas 

Tecnologia e Ciência
Tabela periódica tem dois novos símbolos químicos
«Novos elementos foram descobertos em laboratório por uma equipa internacional de investigadores de Química e Física dos EUA e da Rússia. A tabela periódica vai passar a ter dois novos elementos químicos, ainda sem nome, aos quais foram atribuídos a numeração 114 e 116, que representam os números atómicos.
Os dois novos elementos foram descobertos em laboratório por uma equipa internacional de investigadores de Química e Física dos EUA e da Rússia. Ao contrário de outros elementos químicos, como o carbono ou o ouro, estes novos elementos têm uma vida muito curta.
Os átomos do elemento químico 114 desintegram-se em poucos segundos. Ao 116 basta uma fracção de segundo. Ambos foram descobertos em experiências de laboratório com outros elementos da tabela periódica em 2004 e 2006.
Os números atómicos representam o número de protões que existem no núcleo de cada elemento químico. O Hidrogénio aparece sempre em primeiro lugar, com o número um.

Nos últimos 250 anos têm sido acrescentados novos elementos à tabela periódica. O mais recente datava de 2009, ao qual foi atribuído o nome copernicium, em honra de Copérnico». In Washington, Estados Unidos, 10 jun (Lusa).

Cortesia de Lusa/Expresso/JDACT

domingo, 15 de maio de 2011

Coleccionar Nuvens: «The Cloud Collector’s Handbook, o manual do coleccionador de nuvens, publicado pela Chronicle Books, é um guia de campo encantador e sério sobre nuvens. O livro ensina os leitores a identificar nuvens, e tem um espaço para eles anotarem as observações...»

Cortesia de ultimosegundo

Gavin Pretor-Pinney encara de frente o maior problema de seu novo livro.
«Pode pensar-se que coleccionar nuvens é ridículo. É verdade, reconhece, que as nuvens são efémeras, «que passam a existir num passe de mágica» da atmosfera e vivem em constante mutação. E, é claro, elas não podem ser colhidas e armazenadas. Mas para Pretor-Pinney, não é preciso possuir uma coisa para coleccioná-la:
  • «Basta percebê-la e registá-la».
Por essa razão, «The Cloud Collector’s Handbook», o manual do coleccionador de nuvens, publicado pela Chronicle Books, é um guia de campo encantador e sério sobre nuvens. O livro ensina os leitores a identificar nuvens, e tem um espaço para eles anotarem as observações, da mesma forma que os observadores de pássaros criam listas das aves localizadas. Há até um sistema de pontuação, no qual os observadores de nuvens ganham dez pontos para nuvens comuns, como o nimboestrato, as nuvens de chuva mais ou menos sem graça em que as pessoas costumam pensar quando dizem que elas são deprimentes, 40 pontos para a tempestuosa cúmulonimbo, «a nuvem das nuvens», com formato de bigorna, e pontos extras para formações mais exóticas.

Cortesia de ultimosegundo
O objectivo, declarou Pretor-Pinney durante uma entrevista, é ajudar os leitores a escapar da tirania do «raciocínio do céu azul», além de compreender e apreciar a beleza de um dia nublado.
O livro contém fotografias de dezenas de tipos de nuvens, com informações sobre sua formação e de como diferem dos parentes próximos. Também há um guia de arco-íris e outros efeitos ópticos das nuvens, além de um glossário de termos técnicos. Um gráfico mostra como os meteorologistas classificam as nuvens por géneros, espécies e variedade, seguindo a maneira com que os biólogos catalogam a flora e a fauna.

Cortesia de ultimosegundo

Pretor-Pinney, fundador da Sociedade dos Apreciadores de Nuvens, que tem por lema «olhe para cima e imagine», combate a ideia de que os dias ensolarados são os melhores. Embora a agremiação conte com 25 mil membros em 87 países e continue crescendo, encorajar a apreciação de nuvens é um trabalho árduo.
«Elas fazem parte da nossa linguagem, como "cair das nuvens" ou "em brancas nuvens"». In The New York Times / iG.


Cortesia de The New York Times/JDACT

quinta-feira, 10 de março de 2011

Anthony Giddens: O Mundo na Era da Globalização. «O século XXI será o campo de batalha em que o fundamentalismo se vai defrontar com a tolerância cosmopolita. Num mundo em processo de globalização, em que a transmissão de imagens através de todo o globo se tornou rotineira, estamos todos em contacto regular com outros que pensam de maneira diferente, que vivem de maneira diferente»

Cortesia de celeirobmd

«O mundo está a aproximar-se velozmente do fim», assim disse o arcebispo Wulfstan, num sermão proferido em York, no ano 1014. Nos tempos que corïem, é fácil que haja pessoas a pensarem o mesmo:
  • Será que as esperanças e as angústias de cada período não passam de meras cópias a papel químico das eras precedentes?
  • Este mundo em que vivemos, no início do século XXI, será realmente diferente do que foi em outras épocas?
É. Temos boas razões, razões objectivas, para pensar que estamos a viver um período histórico de transição muito importante.
Além do mais, as mudanças que nos afectam não estão confinadas a nenhuma zona do globo, fazem-se sentir um pouco por toda a parte.

Cortesia de editorapresença
A nossa época evoluiu sob o impacte da ciência, da tecnologia e do pensamento racionalista, que tiveram origem na Europa setecentista e oitocentista. A cultura industrial do ocidente foi moldada pelas ideias do Iluminismo, pelos escritos de pensadores que rejeitavam a influência da religião e do dogma, e que, na prática, queriam substituí-los por formas mais racionais de encarar a vida.
Os filósofos do Iluminismo serviram-se de um preceito simples mas aparentemente muito poderoso: quanto mais capazes formos de usar a razão para entenderïnos o mundo e para nos entendermos a nós próprios, mais capazes seremos de moldar a História à nossa medida. Para controlarmos o futuro, é necessário que nos libertemos dos hábitos e dos preconceitos do passado.
Karl Marx, cujas ideias devem muito ao pensamento iluminista, expôs o conceito de forma muito simples. Para fazermos a História, sustentava, temos de compreender a História. Graças a esta noção, Marx e o marxismo tiveram uma influência tremenda no século XX.
De acordo com esta visão, com o desenvolvimento sucessivo da ciência e da tecnologia, o mundo tornar-se-ia mais estável e mais ordenado. A ideia foi aceite mesmo por diversos pensadores que se opunham a Marx. O romancista George Orwell, por exemplo, anteviu uma sociedade com demasiada estabilidade e previsibilidade, na qual todas as pessoas se tornariam simples peças de uma vasta máquina económica e social. E aconteceu o mesmo com vários pensadores sociais, como o famoso sociólogo germânico Max Weber.

Cortesia de itsnoon
Contudo, o mundo em que agora vivemos não se parece muito com aquele que foi previsto, nem o vemos como tal. Em vez de estar cada vez mais dominado por nós, parece totalmente descontrolado - um mundo virado do avesso. Além disso, algumas das razões que levaram o homem a pensar que a vida se tornaria mais estável e previsível, incluindo os progressos da ciência e da tecnologia, tiveram por vezes efeitos totalmente opostos. As mudanças do clima e os riscos que transportam consigo, por exemplo, resultam provavelmente das nossas intervenções no meio ambiente. Não são fenómenos naturais. É inevitável que a ciência e a tecnologia tenham de estar envolvidas nas tentativas que fazemos de enfrentar os riscos ambientais, mas também temos de reconhecer que ambas tiveram papéis importantes na origem de muitos deles.
Enfrentamos situações de risco, de que o aquecimento global é apenas um exemplo, que nenhuma geração anterior teve de enfrentar. Muitos dos novos riscos e incertezas afectam-nos qualquer que seja o lugar em que vivamos, pouco importando que sejamos privilegiados ou pertencentes às classes mais desfavorecidas. Também a ciência e a tecnologia se estão a globalizar Já alguém calculou que o número de cientistas a trabalhar nesta altura é superior à totalidade dos que trabalharam durante toda a história da ciência. Mas a globalização é um fenómeno diversificado, tem outras dimensões. Está a trazer para a ribalta outras formas de risco e novas ìncertezas, em especial as que se relacionam com a economia electrónica globar, ela própria de criação muito recente. Como acontece com a ciência, também neste caso o risco tem duas faces. O risco está estreitamente ligado à inovação. E existe sempre a tendência para o minimizar; o enlace activo entre o risco financeiro e o empresarial é a verdadeira locomotiva da globalização da economia.

Cortesia de ogerente
A globalização também afecta a vida corrente, da mesma forma que determina eventos que se passam à escala planetária. É por isso que este livro inclui discussões alargadas acerca da sexualidade, do casamento e da família. Em muitas partes do mundo, as mulheres estão a exigir maior autonomia em relação ao passado e a entrar no mundo laborar em grande número. Estes aspectos da globalização são pelo menos tão importantes como os que afectam os mercados. Contribuem para o stress e para as tensões que afectam as maneira de viver tradicionais e as culturas da maioria das regiões do mundo. A família tradicionar está ameaçada, está a mudar, e vai mudar ainda mais. outras tradições, como as que têm a ver com a religião, também estão a passar por transformações de importância enorme. Um mundo de tradiçoes em desmoronamento alimenta o fundamentalismo.
O século XXI será o campo de batalha em que o fundamentalismo se vai defrontar com a tolerância cosmopolita. Num mundo em processo de globalização, em que a transmissão de imagens através de todo o globo se tornou rotineira, estamos todos em contacto regular com outros que pensam de maneira diferente, que vivem de maneira diferente». In O Mundo na Era da Globalização, Anthony Giddens 1999, Editorial Presença 2ª edição, Abril 2000, ISBN 972-23-2573-6.

Cortesia da  Editora Presença/JDACT