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sábado, 5 de setembro de 2015

Antes da Guerra (1902-1904). Cartas do Japão. 1902. Wenceslau de Moraes. «Prometti, n’uma das correspondencias anteriores, apresentar aqui alguns conselhos aos portuguezes que queiram visitar a próxima exposição de Osaka, debaixo de um ponto de vista comercial»

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16 de Maio de 1902
«(…) Como julgo que fallar do Japão a pachorrentos filhos da terra lusitana corresponde quasi ao mesmo que referir-me a um paiz fabuloso, que fica alli para os lados da Lua ou de Saturno, ajunto ao convite alguns conselhos de velho residente, úteis, porventura, aos meus compatriotas; mas isto não vai a matar, bem entendido, ficando, pois, os conselhos para a correspondência próxima.

29 de Maio de 1902
Conselhos aos portuguezes que visitem a exposição de Osaka. Inauguração do edifício da perfeitura.
Prometti, n’uma das correspondencias anteriores, apresentar aqui alguns conselhos aos portuguezes que queiram visitar a próxima exposição de Osaka, debaixo de um ponto de vista commercial. Seguem os conselhos; mas convém antes notar que não me dirijo aos grandes ricaços, pois estes não carecem de conselhos; imagino que um empregado intelligente e de confiança é mandado ao Japão por uma ou mais das nossas casas mercantis, com o fim de estudar o commercio de exportação e de importação, e necessariamente com instrucções para ser económico nos seus gastos.
Pagam a um tal empregado, necessariamente, as viagens de ida e volta; note-se que a linha japoneza que parte de Londres, é a mais barata e bastante confortável. O empregado que estou imaginando, desembarcará em Kobe, d’onde lhe é fácil visitar attentamente a exposição de Osaka, seguindo depois para outros centros, Kyoto, Nagoya, etc., até Yokohama e Tokyo; sem duvida alguma, as indicações do nosso cônsul em Kobe, por certo não regateadas, lhe serão utilíssimas. Conte com uma despeza diária não inferior a uma e meia libra sterlina, e que a sua estada no Japão pode durar dous ou três mezes.
Deve vir munido com pequenas mas variadas amostras dos nossos productos, vinhos, cortiças, conservas, azeites, e melhor ainda se também dos nossos artigos coloniaes, marfim, borracha, café ; amostras deverá distribuir por algumas firmas respeitáveis de Kobe e de Yokohama, não com grande mira em lucros immediatos, mas principalmente com o fim de tornar bem conhecidas no meio as nossas boas producções, sobre as quaes apresentará todos os esclarecimentos requeridos. Mas não basta isto: cuidando do assumpto da exportação dos nossos productos, pode cumulativamente estudar o da importação dos productos japonezes. Eu não me illudo: não espero que se encha o Japão, mesmo em momento tão propicio, de comerciantes portuguezes; um que venha, com o duplo intuito que apresento, já pode fazer muito. Venha, pois, habilitado com um credito de dous ou três contos de réis, ou mais, exclusivamente destinados á compra de amostras dos mil artefactos da industria local, os quaes, estou bem certo, serão recebidos com alvoroço nas nossas cidades de Lisboa e Porto, e permittirão aos negociantes o ensejo de mais tarde fazerem para cá os seus pedidos com conhecimento de causa.
O individuo commissionado, seguindo sempre quanto possível as indicações desinteressadas dos nossos cônsules no Japão, terá oportunidade de relacionar-se com muitas firmas japonezas e estrangeiras, o que será da mais alta utilidade. Ora, pois, com os conhecimentos adquiridos pela própria experiência, com a sua bagagem de amostras e também… com o espirito um pouco enfeitiçado por esta terra, regressará aos pátrios lares, terá feito um grande beneficio ao commercio portuguez e contará certamente aos seus amigos que o Japão não é bem o paiz fantástico que imaginava, povoado de monstros budhistas, de adaga em punho para cortarem a cabeça aos imprudentes que d’este solo se avisinham. É facto que ha mais de 300 annos muitos dos nossos tiveram esta sorte; mas Mendes Pinto, que chegou primeiro, foi rodeado de carinhos; e Xavier, o apostolo, dizia do Japão que era o paiz do seu agrado. Desculpem-se-me gracejos; é feitio». In Wenceslau de Moraes, Cartas do Japão, Antes da Guerra (1902-1904), prefácio de Bento Carqueja, Livraria Magalhães & Moniz, Editora, Oficinas do Comércio do Porto, Porto, 1904.

Cortesia de L.Moniz/JDACT

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Histórias de Amor de Outros Tempos. Retratos Vivos. Pascal Quignard. «Embora já passasse dos cinquenta anos, tinha uma filha que só tinha dez. Era encantadora: os seus longos cabelos, a sua silhueta e as suas formas graciosas, tudo era de uma beleza perfeita»

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História do ministro do Centro Takafuji
«(…) A mansão de Iyamasu foi transformada em templo e é hoje o templo de Kanju -ji, E em frente, no sopé dos montes Higashi-yama, a esposa de Takafuji mandou construir outro templo, o Oyakedera. Segundo parece, o imperador Daigo gostava muito do local onde o avô tinha vivido, porque mandou construir o seu túmulo nas proximidades. Pensando bem, se o acaso de um abrigo contra a tempestade durante uma caçada provocou tantos acontecimentos felizes, é porque tudo isso já tinha sido predeterminado pelas existências anteriores. E assim dizem que tudo isto foi contado.

Como a senhora Roku no Miya foi abandonada pelo marido
Já são coisas do passado. No bairro conhecido por Roku no Miya vivia o assessor principal, fulano de tal, do Departamento da Guerra. Filho de um príncipe há muito esquecido, era uma personagem muito requintada, de modos antigos, que não procurava o convívio em sociedade e não saía da residência de seu pai, o antigo príncipe. Todavia, da magnífica mansão já só existia o pavilhão de leste, quase em ruínas, no vasto jardim de altas e frondosas ramagens. Era lá que ele vivia. Embora já passasse dos cinquenta anos, tinha uma filha que só tinha dez. Era encantadora: os seus longos cabelos, a sua silhueta e as suas formas graciosas, tudo era de uma beleza perfeita. De maneiras nobres, tinha um coração adorável. A sua beleza era tão deslumbrante que ninguém estranharia se viesse a casar com um jovem da classe mais alta. Sim, era muito bela, mas, como ninguém no mundo sabia, ninguém ia pedi-la em casamento. E o pai, com aquela discrição de outros tempos, pensava: seja como for, não me compete a mim ir à procura de um pretendente; se aparecer algum, dou-lha. Por vezes, pensava: Ah! Se eu pudesse fazê-la entrar na corte como esposa de um príncipe ou do mperador!. Mas como era muito pobre, nada disso era possível. O pai e a mãe estavam tão preocupados com a filha que a obrigavam a dormir à noite no meio deles, e davam-lhe toda a espécie de ensinamentos: não devia confiar na ama, não tinha irmãos com quem pudesse contar... Assim, indescritivelmente atormentados com o futuro dela, os pais já só podiam lamentar-se e chorar de desespero.
Passado pouco tempo, o pai deixou este mundo efémero, e, pouco depois, a mãe seguiu-lhe os passos. Que sofrimento deve ter sido para a menina! Chorava de tristeza, inconsolável. Não há palavra que possa descrever a sua dor. Os dias e as noites foram passando, sem ela notar, até que largou os trajos de luto. Como os pais não se tinham cansado de lhe dizer que a ama não era digna de confiança, não pôde criar intimidade com ela. Não podia fazer nada, e os anos iam desaparecendo, e com eles o esplêndido mobiliário e a baixela esplêndida que herdara dos pais, e que a ama vendeu ao desbarato. E a menina viu-se na maior miséria e a sua vida passou a ser só tristeza. Um dia, a ama disse-lhe: o meu irmão que é monge recebeu a visita do filho do ex-governador da província de tal no que o encarregou de interceder em seu favor. É um rapaz de cerca de vinte anos, muito belo, distinto e sincero. O pai está actualmente na administração provincial, mas era filho de um nobre da classe alta, portanto o rapaz é pessoa de boas famílias. Ouviu falar da vossa beleza e propõe-vos casamento. Deixai-o vir visitar-vos, não é homem de que devais envergonhar-vos. Vale mais do que esta triste vida! Ao ouvir tais palavras, menina sacudiu os longos cabelos que lhe caíram em desordem pelo rosto, misturando-se com os soluços. Depois desse dia, a ama foi trazendo cartas de amor escritas por esse homem, mas a menina nem sequer se dignava olhar para elas. Então, a ama disse a uma jovem dama de companhia que havia lá em casa para escrever uma resposta como se fosse a patroa, e mandou-a entregar. Essa manobra repetiu-se por várias vezes, até que chegou o dia em que o homem decidiu ir lá a casa. A menina, pensando que não tinha outra opção, aceitou o pedido de casamento. Era tão bela que ele não pôde deixar de a amar perdidamente. Aliás, nascido igualmente numa família nobre, a sua figura e o seu carácter nada tinham de vulgar». In Pascal Quignard, Histoiresd’Amour du Temps Jadis, Editiones Philippe Picquier, Arles, 1998, Histórias de Amor de Outros Tempos, Retratos Vivos, tradução de Maria Vilar Figueiredo, Edições Cotovia, Lisboa, 2002, ISBN 972-795-043-4.

Cortesia de Cotovia/JDACT

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Histórias de Amor de Outros Tempos. Retratos Vivos. Pascal Quignard. «Como não tinham dama de companhia, o que não era decente, o rapaz pediu à mãe da jovem para os acompanhar. Esta, mulher de uns quarenta anos, de uma beleza digna e serena…»

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História do ministro do Centro Takafuji
«(…) Era em meados de Fevereiro, diante da casa, as ameixoeiras em flor semeavam as suas pétalas aqui e ali; nos ramos mais altos, o rouxinol cantava a sua pungente melodia e, no riacho do jardim, as pétalas deslizavam, levadas pela água. Ao ver este espectáculo, o jovem sentiu-se profundamente emocionado. Sem desmontar, como da primeira vez, transpôs o portal e só depois é que desmontou. Chamou pelo dono da casa, que apareceu sem tardar, satisfeito com aquela visita inesperada e desdobrando-se em atenções para o fazer entrar. A menina está em casa?, perguntou logo o rapaz. Como a resposta era sim, todo contente, entrou na sala que já conhecia. Ela estava por detrás da tapeçaria, meio escondida. Ele aproximou-se: a rapariga era agora uma mulher tão bela que ele quase não a reconhecia. Haverá neste mundo um ser mais maravilhoso? Não será uma fada?, pensou. E, estupefacto, viu, sentada junto dela, uma adorável menina, de uns cinco ou seis anos, de um encanto indescritível. Quem é essa menina?, perguntou. Ela baixou a cabeça sem responder e ele pensou que estava a chorar. Ao ver o seu embaraço, não insistiu e chamou o pai dela, que veio prosternar-se com todo o respeito diante dele, de mãos espalmadas sobre o soalho. Repetiu-lhe a pergunta e o homem explicou: Noutros tempos, honrastes-nos com a vossa visita e desde então a minha filha nunca se aproximou de nenhum homem. Antes disso, era uma criança, e é claro que não conheceu ninguém. Foi depois de vós terdes vindo que ela ficou grávida e esta criança nasceu. Estas palavras perturbaram-no. Sobre o travesseiro da jovem, cuidadosamente pousada, descobriu a sua espada. Que fortes eram os laços que tecemos entre nós!, pensou, extremamente comovido. Olhou para a menina, era o retrato vivo do pai, não havia qualquer dúvida. Ficou para passar a noite. De madrugada, decidiu voltar para casa, mas, antes de partir, anunciou: Venho buscar-vos em breve. Como tinha curiosidade em saber quem era o dono daquela casa, informou-se e disseram-lhe que era o chefe do distrito e se chamava Miyaji no Iyamasu. Ficou muito surpreendido: Embora seja filha de um homem de baixa condição, se eu a amo é porque o destino assim o quis. No dia seguinte, apareceu num carro de bois com tecto e cortinas de palha entrançada, escoltado por dois escudeiros. O carro avançou até à galeria. A sua esposa e a menina subiram para o carro. Como não tinham dama de companhia, o que não era decente, o rapaz pediu à mãe da jovem para os acompanhar. Esta, mulher de uns quarenta anos, de uma beleza digna e serena, parecia a esposa de um Administrador de Província. Enfiou os longos cabelos por baixo de uma túnica amarelo-clara engomada, e, de joelhos, subiu para o carro. Quando o quarto na residência do jovem senhor ficou pronto para as receber, desceram do carro. Depois disso, ele nunca mais olhou para outra mulher, e os dois esposos viveram muito felizes. Passado pouco tempo, nasceram-lhes mais dois filhos, quase um a seguir ao outro.
O senhor Takafuji era um homem notável, fez uma carreira brilhante, chegando a ocupar o cargo de Grande Conselheiro. A filha casou com o imperador Uda, a quem deu sem tardar o príncipe herdeiro que reinou com o nome de Daigo. Quanto aos dois filhos, o mais velho, Sadakuni, veio a ser Grande Conselheiro e recebeu o título de General da Guarda Imperial da Direita. Também era conhecido pelo nome de General de Izumi. O mais novo, Sadakata, veio a ser Ministro da Esquerda e era conhecido por Ministro da Esquerda de Sanjo. O avô, o Chefe de Distrito, passou para o quarto escalão e foi nomeado Administrador-geral do Departamento das Reparações. E quando o imperador Daigo subiu ao trono, Takafuji, seu avô, então Grande Conselheiro, foi promovido a Ministro do Centro». In Pascal Quignard, Histoiresd’Amour du Temps Jadis, Editiones Philippe Picquier, Arles, 1998, Histórias de Amor de Outros Tempos, Retratos Vivos, tradução de Maria Vilar Figueiredo, Edições Cotovia, Lisboa, 2002, ISBN 972-795-043-4.

Cortesia de Cotovia/JDACT

terça-feira, 24 de junho de 2014

Antes da Guerra (1902-1904). Cartas do Japão. 1902. Wenceslau de Moraes. «Ouso convidar insistentemente esse ‘alguem’ susceptivel do capricho de dar um pontapé na rotina e de tentar um mercado novo; com a coragem, pouco vulgar em portuguezes de hoje, de agarrar n’uma mala, de dizer adeus, por seis mezes, á família…»

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23 de Abril de 1902. Géneros portuguezes negociáveis
«(…) A cortiça é aqui muito procurada para diferentes industrias, incluindo a de artigos de navegação; havendo importantes fabricas de cerveja e de aguas mineraes, das quaes se faz grande consumo, e fabricando-se também muitos medicamentos, que reclamam frascos rolhados, comprehende-se que as rolhas constituam também um producto de importância muito notavel; cortiça e rolhas téem vindo acaso excepcionalmente de Portugal, sendo as firmas estrangeiras do Japão que mandam vir o género da Allemanha, da França, da Inglaterra, etc, embora em muitos casos elle provenha originariamente da nossa terra. Aviso aos negociantes portuguezes de cortiça.
Deveria experimentar-se o commercio das nossas conservas, exclusivamente representadas no Japão por algumas latas de sardinhas, e estas apenas nas lojas chinezas, que as importaram não se sabe como, de Macau? de Hong-Kong? Em Yokohama, em Kobe, em Nagasaki, abundam conservas europeias e americanas, de fructas, de vegetaes, etc.; se os fabricantes portuguezes não forem muito exigentes em preços, de modo que os nossos artigos possam competir com os estrangeiros, devem aqui ser bem recebidos. Porque não tentam os negociantes portuguezes de Macau e de Hong-Kong a introdução no Japão do excellente café de Timor, em vez de deixal-o ir para Macassar e outros pontos das colónias hollandezas, onde perde o nome e as qualidades, pois passa a ser misturado a cafés inferiores? A resposta é bem simples: porque não querem. Pois, deveriam querer, compenetrando-se de que, na época actual, o bem estar individual e da familia, e, consequentemente, da pátria, só se alcança á custa de trabalho perseverante e de lucta de competições. Confiar na boa fortuna de um bilhete de loteria premiado, ou na benevolência de Deus (que ha muito se deixou de proteger indolencias), é mau negocio. Os commerciantes do reino poderiam tentar a introducção do café africano, bem como de outros artigos coloniaes; poderiam e deveriam.

16 de Maio de 1902
Indiquei, na minha correspondência anterior, quaes os artigos portuguezes que julgo poderão ser melhor recebidos no mercado do Japão, no intuito de estreitar as relações de commercio directo entre os dois paizes. Tratarei hoje dos artigos japonezes, que mais bem acceitos podem ser em Portugal; mas a tarefa é mais difficil, pela variedade dos productos, e a escolha só poderá ser feita, com boas probabilidades de êxito, quando os nossos negociantes adquiram no Japão correspondentes muito zelosos e pacientes, ou, o que melhor será, quando aqui venham portuguezes, commissionados pelas firmas mercantis portuguezas, afim de estudarem attentamente o assumpto, o que me parece valer bem a pena. Julgo que o arroz japonez (um dos melhores do mundo), a cera vegetal (substituindo a stearina e productos análogos), a camphora, etc, poderão vantajosamente ser importados no nosso mercado.
Com referencia aos artigos da industria indigena, direi que uma grande variedade d’elles, recommendaveis pela sua barateza, pelo bom gosto do fabrico, pela novidade que constituiriam nos centros portuguezes de consumo, devem ser introduzidos em Portugal. No numero d’esses artefactos devem especialmente citar-se as esteiras, a palha em trança, as fazendas de seda, o crepe de seda, o crepe de algodão, os leques e ventarolas (que agora chegara ahi por intermédio da Hespanha), os objectos de porcellana e de charão, os álbuns, as photographias, o papel, os brinquedos, as quinquilharias, uma lista interminável de deliciosas bugigangas, caracterizadas pela fina feição artística que este povo de artistas sabe imprimir a todos os objectos da sua industria, por mais communs e baixos em preço que elles sejam.
Já vêem, por esta ligeiríssima resenha, que a difficuldade está na escolha, tornando-se evidente quanto util seria para o nosso commercio que algum negociante portuguez se desse á empreza de vir ao Japão vêr pelos seus olhos, fazer a sua selecção e adquirir relações commerciaes, que mais tarde muitas vantagens lhe dariam. Offerece-se em breve occasião excepcionalmente favorável para pôr em prática tal intento : a exposição de Osaka. Ouso convidar insistentemente esse alguem susceptivel do capricho de dar um pontapé na rotina e de tentar um mercado novo; sobretudo, com a coragem bastante, pouco vulgar em portuguezes de hoje, de agarrar n’uma mala, de dizer adeus, por seis mezes, á familia e de vir dissipar spleens em paizagens exóticas e distantes ; ouso convidar esse alguem, se existe, a vir ao Japão, na Primavera próxima». In Wenceslau de Moraes, Cartas do Japão, Antes da Guerra (1902-1904), prefácio de Bento Carqueja, Livraria Magalhães & Moniz, Editora, Oficinas do Comércio do Porto, Porto, 1904.

Cortesia de L. Moniz/JDACT

sábado, 31 de maio de 2014

Prosa no 31. Cartas do Extremo Oriente. Wenceslau Moraes. «… escritas umas aos 20 anos, outras mais de 15 anos passados, umas primitivamente impressas nos folhetins dos jornais, outras agora escolhidas por entre a papelada inútil de uma pobre gaveta de secretária, tem como única razão esta mesma dedicatória»

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Introdução
«(…) O tempo foi temperando e depurando sabiamente esta amizade: Wenceslau de Moraes enviava brinquedos à filha do amigo, confessava-lhe os seus segredos íntimos, pedia-lhe conselhos, solicitava-lhe favores e manifestava a sua profunda admiração em cartas que dirigia ao sobrinho, Joaquim Moraes Costa: Alegro-me em saber que o Dr. Peres Rodrigues e sua Esposa os visitaram, brindando-te com um aquário. Eu tenho o Dr. Rodrigues por um homem altamente superior; Portugal inteiro talvez não tenha cem indivíduos que o igualem; tu e tua irmã são ainda muito novos para o compreenderem completamente, só bem tarde talvez o possam apreciar como ele merece. No entretanto, devem estimá-lo muito, como um parente, como um amigo; abrirem-lhe o seu coração, não terem o menor segredo para ele; e finalmente seguirem todos os seus conselhos, pois só nele encontrarão guia seguro contra as grandes dificuldades da vida. Sólida amizade que foi veementemente lavrada em cartas e dedicatórias, das quais se destaca esta, que se encontra inédita, na Biblioteca Central da Marinha: A publicação destas páginas destonantes, escritas umas aos 20 anos, outras mais de 15 anos passados, umas primitivamente impressas nos folhetins dos jornais, outras agora escolhidas por entre a papelada inútil de uma pobre gaveta de secretária, tem como única razão esta mesma dedicatória. Fiz este livro para o oferecer a um amigo, que me desculpará a sua inutilidade, apreciando apenas a primeira página, como um penhor da minha cordial simpatia. Por sua vez, Sebastião Peres Rodrigues não era menos efusivo. Em carta inédita, dirigida a Wenceslau, afirmava nomeadamente: Outro companheiro como o Amigo é para mim, já não espero encontrar cá por esta vida. Na verdade, a sua disponibilidade era total o que o levou inclusivamente a pôr à disposição do escritor as suas economias para a publicação de um livro, a incentivá-lo constantemente e a dissipar as mágoas que o consumiam e o minavam gradualmente. Mais tarde foi seu procurador, tutor dos sobrinhos, com Almeida d'Eça, e contribuiu decisivamente para desbloquear o seu vencimento de Cônsul, em 1911.
No extenso testemunho referido anteriormente, Sebastião Peres Rodrigues evoca o seu primeiro encontro com Wenceslau do seguinte modo: Impressionou-me a figura e modos de W.: magro, de encurvado arcabouço, barba toda muito loira, olhos grandes de expressão bondosa e inteligente, não era um tipo vulgar, e a natural distinção impunha-se a quem lhe ouvisse o falar correcto, despretensioso, e a breve trecho revelando qualidades afectivas. […] Certo é que, desde os primeiros dias de viagem, longas conversas se travaram; gostos, hábitos e tendências se revelaram, surgindo a seguir a confidência dos seus lavores literários, dados a público no Diário da Manhã, sob a égide de Pinheiro Chagas, mas ao abrigo de um impenetrável pseudónimo.
Anos depois, Sebastião Peres Rodrigues insurgiu-se contra as alusões de certa imprensa periódica, que associava a demissão inesperada de Wenceslau dos cargos de Cônsul e de oficial da Marinha a uma opção de carácter exclusivamente político: Não houve nessa atitude [...1 o menor propósito de significar incompatibilidades com a República, como poderá julgar. Quem não conhecer o superior espírito que é Wenceslau de Moraes. Não, nunca ele pensaria em agravar desse modo os homens do seu país. Aquele gesto de renúncia é a consequência dum estado de alma muito particular, que eu via lentamente desenvolver-se, em delicadas e dolorosas florações, nas cartas que ele me escrevia. É a realização de um sonho, velho de muitos anos [...]. Esta amizade extinguiu-se por volta de 1914: segundo Sebastião Peres Rodrigues, a rotura prendeu-se com uma atitude menos positiva de Wenceslau para com os sobrinhos de quem aquele médico era tutor». In Wenceslau de Moraes, Cartas do Extremo Oriente, Fundação Oriente, Lisboa, 1993, ISBN 972-9440-07-7.

Cortesia de FOriente/JDACT

segunda-feira, 31 de março de 2014

Prosa no 31. Cartas do Extremo Oriente. Wenceslau Moraes. «Também não simpatizava com a realeza, de que ao contrário de muitos outros da sua classe, não procurava aproximar-se na intenção de melhorar a sua carreira, [...]. Era livre pensador, imbuído das ideias dos filósofos»

Postal de JAN de 1926
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Introdução
«A correspondência de um escritor, dado o seu carácter intimista, confessional e introspectivo, faculta-nos frequentemente dados biográficos e psicológicos relevantes e constitui uma inesgotável fonte histórico-cultural. Acerca destes acervos pródigos em surpresas, se manifestou lapidarmente Eça de Queirós:

[...] uma correspondência revela melhor que uma obra a individualidade, o homem; uma obra nem sempre aumenta o pecúlio do saber humano, uma Correspondência, reproduzindo necessariamente os costumes, os modos de sentir, os gostos, o pensar contemporâneo e ambiente, enriquece sempre o tesouro da documentação histórica. Temos depois que as cartas sendo o produto quente e vibrante da sua vida, contêm mais ensino que a sua filosofia, que é apenas uma criação impessoal do seu espírito. Uma Filosofia oferece meramente uma conjectura mais que se vai juntar ao imenso montão das conjecturas; uma Vida que se confessa constitui o estudo duma realidade humana, que, posta ao lado de outros estudos, alarga o nosso conhecimento do Homem (correspondência de Fradique Mendes, 1969).

Escrever, livros e cartas, constituía para Wenceslau Moraes um acto de catarse, uma compensação para a extrema solidão que lhe alongava os dias, uma ponte erigida para o mundo. Wenceslau viveu grande parte da sua vida longe da terra natal, dos familiares e amigos. Com efeito, desde a sua juventude começou a trilhar as sete partidas do mundo, Estados-Unidos, Médio Oriente, Moçambique, Timor, Macau, China e Japão, primeiramente na qualidade de oficial da Marinha e, mais tarde, de Cônsul. As suas estadas em Portugal foram, portanto, breves e pouco frequentes, sendo a última vez que pisou terra portuguesa em 1891. Desenraizado, torturado, aguilhoado pela saudade, afectivamente descompensado, Wenceslau supriu a ausência dos seus entes queridos com uma correspondência assídua, de que se conhecem centenas de cartas maioritariamente inéditas. Reúne-se a correspondência dirigida pelo escritor ao médico naval Sebastião Peres Rodrigues, ao Cônsul de Portugal em Kobe, Cerveira Albuquerque, e ao engenheiro-maquinista João Manuel Guerreiro Amorim. Este espólio, inédito na sua esmagadora maioria, encontra-se depositado na Biblioteca Central da Marinha, em Lisboa. A correspondência é relevante pois pertence a três fases distintas e marcantes da vida do escritor:
  • a sua vivência em Macau e em Kobe;
  • o seu quotidiano em Tokushima, cidade do sul do Japão onde se homiziou, na sequência da sua demissão de Cônsul e de oficial da Marinha, em 1913;
  • o desmoronamento físico e psíquico dos últimos e dramáticos anos da sua vida.
Revelam-nos estas cartas a depressão que sempre acompanhou Wenceslau, as fracturas afectivas sucessivas, o relacionamento difícil com o outro, a sua sensibilidade dorida, a insegurança que sentia relativamente à sua obra, a ligação tempestuosa mantida com a chinesa Vong-Ioc-Chan e com os dois filhos, José Sousa Moraes e João Sousa Moraes, a afectividade extrema que nutria pela esposa japonesa O-Yoné e pela sobrinha Ko-Haru. Este volume deixa ainda transparecer a mundividência política do escritor. Com efeito, a sua postura perante o regicídio que teve lugar em 1908, bem como excertos de outras cartas, refutam plenamente a tese do seu monarquismo, levantada ignominiosamente na sequência da sua abrupta demissão em 1913, considerada como uma reacção ao regime republicano que despontava. Por outro lado, revela-nos também que Wenceslau se manteve crítico relativamente à anarquia, ao populismo e ao nepotismo que se foram gradualmente instaurando nas hostes dirigentes republicanas, à semelhança do que aconteceu com outras figuras relevantes da época como Raul Proença e António Sérgio. Abra-se um parêntesis para nos socorrermos de um depoimento inédito de Sebastião Peres Rodrigues, acerca das suas ideias políticas, que é bem elucidativo e fidedigno pois foi feito por alguém que o conheceu bem de perto:

Não as tinha positivas. Não indiferente, mas de critério puramente negativista, descrente das boas intenções dos politicantes. Em política colonial indignava-o a sistemática espoliação do indígena e tinha por hipócritas todas as afirmações oficiais da pretendida assistência e igualização liberal. Quanto a formas de governo não se descosia, mas revelava-se céptico e sem simpatia alguma pelos homens do seu tempo que propagandeavam as ideias avançadas no sentido de substituir a República à Monarquia. Também não simpatizava com a realeza, de que ao contrário de muitos outros da sua classe, não procurava aproximar-se na intenção de melhorar a sua carreira, pois isso ser-lhe-ia facilitado pelas suas relações de família [...]. Era livre pensador, imbuído das ideias dos filósofos enciclopedistas (carta de 9 de Janeiro de 1888) [...].

A correspondência dirigida a Sebastião Peres Rodrigues, que apresenta algumas lacunas, constitui o núcleo mais importante, facto que decorre das relações privilegiadas que mantinham, forjadas a partir de 1886, data em que se encontraram na canhoneira Douro, em viagem para Moçambique». In Wenceslau de Moraes, Cartas do Extremo Oriente, Fundação Oriente, Lisboa, 1993, ISBN 972-9440-07-7.

Cortesia de FOriente/JDACT

domingo, 9 de março de 2014

Histórias de Amor de Outros Tempos. Retratos Vivos. Pascal Quignard. «Que bela era! Pousou a bandeja de pé alto no chão, colocou os pauzinhos no seu lugar, empurrou-a para junto do hóspede, e desapareceu. Vista de costas, a cascata longa e ondulante dos cabelos parecia chegar-lhe à cova dos joelhos»

jdact e wikipedia

História do ministro do Centro Takafuji
«(…) O rapaz continuou deitado durante algum tempo, a descansar. Depois, a porta de correr que dava para o quarto contíguo abriu-se e ele viu entrar uma rapariga de uns treze ou catorze anos, envergando uma túnica cor de malva por cima de umas calças largas, de um vermelho-vivo. Numa das mãos trazia um leque que lhe cobria o rosto, e na outra, uma bandeja de pé alto. Hesitante e tímida, parou longe dele. Aproxima-te, disse-lhe o rapaz. Ela aproximou-se devagar, sobre os joelhos. Com aqueles traços delicados e os cabelos separados sobre a testa a caírem-lhe deliciosamente sobre os ombros, ninguém diria que era filha de um camponês. Que bela era! Pousou a bandeja de pé alto no chão, colocou os pauzinhos no seu lugar, empurrou-a para junto do hóspede, e desapareceu. Vista de costas, a cascata longa e ondulante dos cabelos parecia chegar-lhe à cova dos joelhos. Uns instantes depois, estava de regresso, trazendo vários pratos com comida. Era ainda uma criança; não sabia servir bem, limitava-se a colocar os pratos no chão e recuava logo, sempre de joelhos.
Tinha trazido arroz estaladiço, nabos pequenos, búzios, carne seca e outras coisas mais. Depois daquele longo dia de caça, o rapaz estava esfomeado e devorou tudo sem pensar em queixar-se daquela ementa de gente pobre. Serviram-lhe saké, que também não recusou, e, como a noite já ia alta, preparou-se para dormir. Mas a rapariga que acabava de o servir não lhe saía do pensamento. Não é lá muito tranquilizador dormir sozinho. Não querereis vir fazer-me companhia?, chamou ele baixinho, e ela apareceu. Vem cá!, disse-lhe ele, atraindo-a para os seus braços. Ao vê-la abraçada a si, achou-a ainda mais bela e mais encantadora. Ficou perturbado; com toda a sinceridade do seu coração de rapaz, prometeu-lhe que nunca deixaria de a amar, e a longa noite de Outono foi ainda mais longa e mais terna. Não dormiu um só instante, todo entregue ao seu amor. A rapariga revelava tal nobreza de modos que, maravilhado, Takafuji amou-a loucamente até de manhã. Aos primeiros alvores da madrugada, levantou-se. Tenho de me ir embora, disse-lhe, mas fica com isto, para te lembrares de mim, e deu-lhe a espada que levava à cintura. Quando os teus pais, que ignoram o nosso amor, quiserem casar-te, não aceites ser mulher de outro!, acrescentou ele, deixando-a com grande mágoa.
Ainda não tinha percorrido a cavalo mais de quatro ou cinco chô (cerca de quinhentos metros), quando os do seu séquito surgiram de todos os lados, intrigados por o encontrarem ali e, ao mesmo tempo, aliviados. Regressaram juntos à capital. O Guarda seu pai, que sabia que o jovem senhor partira na véspera para a caça e não o vira chegar, passara a noite a pensar no que lhe poderia ter acontecido. Louco de angústia, aos primeiros alvores da madrugada, enviara alguns homens à sua procura, e agora via-o regressar com eles! Deu largas à sua alegria, mas depois repreendeu o filho: Esse entusiasmo pela falcoaria é coisa da tua idade. Quando eu era novo, também gostava de andar pelo mato com os meus falcões, e o meu falecido pai deixava. Já fiz o que tu fizeste, mas, depois do que acaba de acontecer, fico muito inquieto. A partir de hoje, enquanto não tiveres juízo, proíbo-te de ir à caça! E foi assim que o rapaz teve de desistir da caça. Os escudeiros que o tinham acompanhado naquele dia não tinham visto a casa. Nenhum deles a conhecia. O palafreneiro era o único que sabia onde ela ficava, mas tinha sido despedido e voltara para o campo. Ninguém podia ajudá-lo e o jovem senhor morria de saudades da rapariga e não tinha meio de lhe fazer chegar uma mensagem. Os dias e os meses iam passando e o seu amor ia aumentando; estava inconsolável. E assim passaram quatro ou cinco anos.
Um dia, o Guarda, seu pai, morreu ainda jovem. Takafuji ficou a cargo de uns nobres que eram seus tios e foi viver com eles. Um desses tios, o ministro da Direita Yoshifusa, reparou no seu belo porte e na nobreza do seu carácter, percebeu que ele viria a ser um homem de grande valor e tratou-o com mil e um cuidados; todavia, após a morte do pai, o rapaz andava sempre melancólico e só pensava na tal mulher, e o seu coração trasbordava de amor por ela. Passou mais um ano, e ele continuava a não querer casar-se. Ora, um dia, ouviu dizer que o escudeiro que o tinha acompanhado regressara do campo. Mandou-o chamar e, como se fosse pedir-lhe para o pentear, fez-lhe sinal para se aproximar: Lembras-te daquela casa onde nos abrigámos da chuva, naquele dia em que fomos à caça?, perguntou-lhe. Claro que me lembro!, respondeu o escudeiro, para grande alegria do jovem senhor. Pois bem, gostava de 1á ir hoje. Diremos que vamos à caça. Mas não te esqueças do que eu quero!, disse-lhe ele. Levou com eles um fiel escudeiro que lhe levava a espada, e cavalgaram em direcção aos cumes do monte Amida. Quando chegaram ao local, estava o Sol a pôr-se». ». In Pascal Quignard, Histoiresd’Amour du Temps Jadis, Editiones Philippe Picquier, Arles, 1998, Histórias de Amor de Outros Tempos, Retratos Vivos, tradução de Maria Vilar Figueiredo, Edições Cotovia, Lisboa, 2002, ISBN 972-795-043-4.

Cortesia de Cotovia/JDACT

sábado, 8 de março de 2014

Retratos Vivos. Histórias de Amor de Outros Tempos. Pascal Quignard. «Os escudeiros não o reconheceram. O seu cão não o reconheceu. A sua ama não o reconheceu. Os irmãos não o reconheceram. As irmãs não o reconheceram. A sua antiga esposa, que tinha voltado a casar, não o reconheceu»

jdact e cortesia de wikipedia

[…]
« Dor indescritível que se sente na presença de pais demasiado idosos, ou que sofrem da doença de Alzheimer, ou que saem de uma anestesia geral ou de um estado de coma, não nos reconhecem, ou só nos reconhecem por alguns instantes, ou se enganam, vendo em nós outros vivos, ou nos confundem com mortos que nós conhecemos e já morreram há muito tempo. A vida de Santo Aleixo é a seguinte. No ano 364, Eufemiano, então prefeito de Roma, estava casado com uma rica patrícia chamada Aglaé. Tiveram vários filhas e um único filho varão, a quem chamaram Aleixo. No dia do seu casamento, enquanto a jovem esposa tirava o alfinete da sua túnica e revelava ao marido as suas partes íntimas intactas, Aleixo apagou a candeia, cobriu bruscamente o corpo da mulher, deu-lhe o seu anel de ouro e deixou-a. Foi até à praia e embarcou para Laodiceia. Daí, partiu para Edessa, na Síria, onde se encontrava o único retrato que teria sido conservado de Jesus de Nazaré: não tinha sido feito por mão humana, mas o seu rosto dolorido ficara gravado ao enxugar-se num pano que pertencera a uma prostituta da cidade de Jerusalém chamada Verónica. Então, Aleixo beijou o pano sagrado, logo a seguir vendeu todas as suas roupas e, completamente nu, sentou-se e pôs-se a mendigar debaixo do pórtico da Basílica da Virgem Maria de Edessa.
Ficou debaixo desse pórtico durante dezassete anos. Um dia, porém, sentiu vontade de voltar para casa; com o dinheiro das esmolas comprou uns calções e uma écharpe; saiu de Edessa; meteu-se num barco; desembarcou em Óstia e encaminhou-se a pé para Roma; empurrou a porta do palácio de seu pai. Os escudeiros não o reconheceram. O seu cão não o reconheceu. A sua ama não o reconheceu. Os irmãos não o reconheceram. As irmãs não o reconheceram. A sua antiga esposa, que tinha voltado a casar, não o reconheceu. Nenhum dos seus amigos o reconheceu, mas o intendente do palácio, que era um cristão muito piedoso, tomou-o sob a sua protecção e todos os dias lhe dava pão e água. Aleixo agradeceu-lhe e sentou-se, nu, debaixo da escada. Durante dezassete anos, viveu assim, desconhecido, na casa de seu pai. Roía as migalhas dos banquetes, as espinhas dos peixes, a pele branca dos ouriços das castanhas que há mesmo por baixo dos espinhos, ou as cascas duras das nozes. Mordiscava os ossos das carnes, os caroços dos frutos, as cascas dos melões, as conchas das ostras e dos mexilhões. Era um caixote do lixo. Um dia, sentindo a morte chegar, Aleixo estendeu a mão debaixo da escada e pediu ao intendente que lhe desse um estilete e um pedaço de pele de vitelo usado, para escrever. Escreveu o relato da sua vida e morreu. Ninguém se apercebeu, mas os imperadores Arcádio e Honório e o papa Inocêncio foram avisados em sonhos da sua morte.
Um pajem imperial acorreu, mandou abrir as portas da casa do prefeito de Roma, pegou num archote e, debaixo da escada, inclinou-se para o santo, já rígido, mas que ainda tinha na mão a sua vida escrita. A sua vida secreta foi lida em voz alta, diante dos seus. Em 1648, em Lunéville, na Lorena, Georges de La Tour pintou para Monsieur de la Fierté o momento em que o pajem imperial descobriu o corpo de Santo Aleixo, debaixo da escada de seu pai. Então, Eufemiano, Aglaé, a primeira esposa de Aleixo, as irmãs, os irmãos, os sobrinhos, os escudeiros e os amigos deitaram-se lado a lado nas lajes do pavimento que rodeava a escada do palácio paterno, e uns adoraram o filho, outros, o irmão, o tio, o senhor, o primeiro marido, o amigo morto. No 16º dia das calendas do mês de Agosto do ano 398, o corpo de Santo Aleixo foi transportado pelos principais cidadãos de Roma e pelo pai, o prefeito da cidade, numa padiola de ouro, ornada de rubis e lápis-lazúli, para o templo de São Bonifácio, em Roma». In Pascal Quignard, Histoiresd’Amour du Temps Jadis, Editiones Philippe Picquier, Arles, 1998, Histórias de Amor de Outros Tempos, Retratos Vivos, tradução de Maria Vilar Figueiredo, Edições Cotovia, Lisboa, 2002, ISBN 972-795-043-4.

Cortesia de Cotovia/JDACT

Histórias de Amor de Outros Tempos. Retratos Vivos. Pascal Quignard. «No entanto, a pouco e pouco, o dia foi dando lugar às trevas. O nobre Takafuji começou a sentir-se perdido. Que hei-de fazer?, pensou, angustiado. Nesse instante, um homem de casaco de caça e calças largas azul-escuras…»

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História do ministro do Centro Takafuji
«Já são coisas do passado. Havia um ministro Fulano de Tal da Direita, conhecido por ministro do Kan-in, que se chamava Fulano de Tal. Gozava neste mundo de uma fama ilustre e possuía uma sabedoria admirável. Todavia, morreu ainda jovem, deixando muitos filhos. O filho mais velho, Nagara, era Segundo-Conselheiro; o segundo filho, Yoshifusa, era Ministro-Presidente do Grande Conselho; o terceiro filho, Yoshimi, era Ministro da Direita. O quarto, Yoshikado, era Guarda. Nesse tempo, mesmo os filhos das famílias nobres começavam a sua carreira na administração pelo modesto cargo de Guarda. Ora, o Guarda Yoshikado teve um filho chamado Takafuji que, desde a mais tenra infância, começou a interessar-se pela falcoaria, interesse que deve ter-lhe sido transmitido por seu pai, grande apaixonado por essa arte.
Portanto, um dia, tinha ele quinze ou dezasseis anos, estava-se por volta do mês de Setembro, o jovem senhor partiu para a caça. Calcorreava as encostas da montanha, para os lados de Minami-Yamashina, quando, de repente, à hora do Macaco (a hora chinesa corresponde a duas das nossas, portanto, entre as 15 e as 17 horas), nuvens escuras toldaram o céu. Começou a chover, levantou-se um vento violento, os relâmpagos ziguezaguearam e o trovão ecoou com grande estrondo. As pessoas do séquito do nobre Takafuji, que só pensavam em abrigar-se, fugiram em debandada, sem olharem sequer para os lados. No sopé das montanhas do Oeste, o jovem senhor viu uma casa e esporeou o cavalo. A seu lado, só ficara um escudeiro. Ao chegar à tal casa, viu que estava rodeada por uma paliçada de cascas de cipreste onde havia um pequeno portal chinês. Transpô-lo a galope. O pavilhão principal, revestido de ripas de madeira, prolongava-se numa das extremidades para uma estreita galeria construída sobre quatro pilares. Parou em frente do pavilhão e desmontou. Depois de ter abrigado o cavalo debaixo do alpendre da galeria, entregou as rédeas ao escudeiro e sentou-se no chão. O vento e a chuva eram cada vez mais fortes, a tempestade esbravejava, lançando relâmpagos e trovões. Era de meter medo, e ele não podia sequer pensar em voltar para casa; por isso, ficou sentado, à espera.
No entanto, a pouco e pouco, o dia foi dando lugar às trevas. O nobre Takafuji começou a sentir-se perdido. Que hei-de fazer?, pensou, angustiado. Nesse instante, um homem de casaco de caça e calças largas azul-escuras, com cerca de quarenta anos, saiu de casa e aproximou-se dele. A quem tenho a honra?, perguntou. Andava à caça, respondeu o rapaz, e fui surpreendido pela tempestade. Como não sabia para onde havia de ir, deixei-me levar pelo cavalo, e, quando vi esta casa, foi com alegria que me dirigi para cá. Mas, agora, que hei-de fazer? Por favor, ficai aqui até a chuva parar, disse-lhe o homem, dirigindo-se para o escudeiro, que ficara um tanto afastado. Quem é este?, perguntou-lhe. Ao ouvir a resposta do escudeiro, o homem, muito admirado, desapareceu no interior da casa. Só teve tempo para fazer alguns arrumos e acender um candeeiro, e regressou, declarando: A minha casa não passa de uma pobre choupana, mas, se assim o desejardes, entrai e aguardai que a tempestade passe. As vossas roupas estão encharcadas. Vou pô-las a secar junto do fogo. Também haverá feno para os vossos cavalos. Vou abrigá-los nas traseiras. Embora fosse uma casa humilde, estava arranjada com um gosto que agradava à vista. O tecto estava forrado com finas cascas de ciprestes entrelaçadas. Na sala, biombos de bambu entrançado e, no chão, três ou quatro bonitas esteiras de debrum coreano. Sentindo-se cansado, o jovem despiu-se e deitou-se confortavelmente. Pouco depois, o dono da casa foi ter com ele. Vou pôr a secar o vosso casaco de caça e as vossas calças de cordões, anunciou ele, levando a roupa». In Pascal Quignard, Histoiresd’Amour du Temps Jadis, Editiones Philippe Picquier, Arles, 1998, Histórias de Amor de Outros Tempos, Retratos Vivos, tradução de Maria Vilar Figueiredo, Edições Cotovia, Lisboa, 2002, ISBN 972-795-043-4.

Cortesia de Cotovia/JDACT

Retratos Vivos. Histórias de Amor de Outros Tempos. Pascal Quignard. «… num tom mais japonês: como é que o Agora se agita com a visitação, a condensação, a capitalização do Outrora no fundo de si mesmo? Ao reconhecimento excessivo e impossível…»

jdact e cortesia de wikipedia

[…]
«Então, o povo perguntou à criança quem era o seu pai, mas a criança, sempre em latim, disse que se lembrava do rosto do homem que tinha estado em cima da mãe no instante em que tinha sido concebido, mas que não poderia saber como se chamava. Porquê? Porque o que ele murmurava, nesse instante, ao ouvido da mãe, não era propriamente o seu nome. Em suma, tudo o que a criança podia garantir é que o seu pai não era São Brício. Ora, o povo, descontente com a resposta dada pelo recém-nascido, continuava a querer apedrejar o bispo. Decidiram fazer um ordálio. O ferreiro colocou brasas ardentes nas mãos de São Brício. A multidão pediu-lhe para levar as brasas incandescentes até ao túmulo de São Martinho. São Brício atravessou o Loire. A multidão seguia-o, gritando. Ora, depois de ele ter pousado as brasas ardentes sobre o túmulo de São Martinho, as palmas das mãos que as tinham levado estavam intactas. Então, a populaça voltou-se contra a mãe da criança; desnudaram-lhe os seios e um jovem cortou-lhos por ser uma pecadora. Depois disso, o corpo da mulher ficou coberto de sangue e de leite porque continuava a amamentar o filho de um mês, e a freira foi apedrejada pela multidão, por ter mentido.

A criança de um mês conhece a nudez e o rosto do progenitor, embora ignore a sua identidade nominal. Assistiu, manifestamente inclinado para a frente, à cena primitiva. Jacques de Voragine foi buscar esta história a São Gregório de Tours.

A sétima história do XXXII rolo do Konjaku poderia muito bem intitular-se Retrato vivo e silêncio absoluto. Um dia, um caçador de quinze anos vai à caça com o seu falcão e é surpreendido por uma tempestade na montanha. Vê-se sozinho com o seu moço de estrebaria no meio da borrasca e dos relâmpagos. Um homem dá-lhe abrigo numa misteriosa casa de cipreste. A filha do dono da casa, uma jovem de treze anos, dá-lhe de comer, sempre ajoelhada, e, durante a noite, o caçador tem relações íntimas com ela. A jovem não pronuncia uma palavra. De madrugada, ele levanta-se, dá-lhe a sua espada de ferro, despede-se, vai-se embora, chama o moço e volta para o palácio de seu pai. Passam cinco anos.
Não há dia em que o caçador não pense na jovem, mas o moço foi despedido pelo pai ao regressarem da tormentosa caçada, e ele não sabe o caminho que o levaria até ela. Depois de o pai morrer, o caçador manda procurar o antigo moço de estrebaria. Voltam à montanha. Era o primeiro dia de Primavera. Encontram a misteriosa casa de cipreste. O caçador volta a ver a jovem. Está ajoelhada, mas, a seu lado, há uma menina de cinco anos, tão parecida com ele como duas gotas de água. Todavia, ele não se reconhece nela, e chega mesmo a perguntar quem é. O dono da casa ergue para ele os olhos e, em voz baixa, docemente, diz que é a filha que ele teve da sua filha. Depois, o dono da casa retira-se e o caçador fica com a criança e a jovem mãe; aproxima-se do leito; vê a espada de ferro pousada ao lado da almofada de madeira. Sentado no leito, antes de satisfazer no corpo da jovem o desejo que há tanto tempo sente, examina o rosto da menina: é o retrato vivo de quem ele foi outrora. Por fim, deita-se; durante a noite, volta a ter relações com a jovem mãe, e sente-se deliciado. A jovem continuou a não descerrar os lábios. Na manhã seguinte, o caçador regressa à capital sem nada dizer, e envia um carro de bois para a ir buscar. A partir desse dia, o caçador nunca mais olhou para outra mulher. Mal a noite cai, à luz dos astros, das candeias, ou dos relâmpagos, procuta na face da esposa, enquanto a possui, todos os seus rostos, que vão nascer nos rostos dos filhos que ele expele com a extremidade do seu pincel (penicillum).
Como é que o passado reconhece o presente? Como é que o presente reconhece o passado? Como é que o reproduzido reconhece o reprodutor? Como é que a mulher reconhece o homem?
Ou, exprimindo-me num tom mais japonês: como é que o Agora se agita com a visitação, a condensação, a capitalização do Outrora no fundo de si mesmo? Ao reconhecimento excessivo e impossível (do fecundante pelo fecundado) oponho três formas de não reconhecimento: o desconhecimento, o reconhecimento insuficiente ou difícil, o reconhecimento excluído». In Pascal Quignard, Histoiresd’Amour du Temps Jadis, Editiones Philippe Picquier, Arles, 1998, Histórias de Amor de Outros Tempos, Retratos Vivos, tradução de Maria Vilar Figueiredo, Edições Cotovia, Lisboa, 2002, ISBN 972-795-043-4.

Cortesia de Cotovia/JDACT

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Entre duas civilizações. O universo de leituras em Wenceslau Moraes. Maria Margarida Capitão. « torturado pela realidade e pelo seu próprio carácter, instável, angustiado, algo mórbido, céptico, solitário, um tanto provinciano, […] insatisfeito e inseguro, mas extremamente crítico, […] numa luta que se adivinha de corrosão, desgaste e de desilusão quotidiana»

Cortesia de wikipedia

Introdução. Entre Duas Civilizações. A Entrega a Esse Outro que me torno EU
A Estrutura
«(…) O Quinto Capítulo é dedicado aos sentimentos da Saudade e do Exílio, recorrentes durante toda a sua vida, ganhando maior expressividade a partir de 1912, data da morte da sua amada O-Yoné. No Sexto Capítulo faz-se a apresentação de Wenceslau enquanto humanista e elo de ligação entre duas culturas totalmente opostas, não só geograficamente, mas quanto à religião, costumes, língua, hábitos e valores. Por último, o Sétimo Capítulo, dedicado às considerações finais e onde são apresentadas as possíveis respostas às questões sobre a importância da escrita-documentário no ensino da língua e cultura portuguesas e qual o significado do acto de ensinar. Devemo-nos então entregar ao estudo da sua obra, cuja escrita é altamente subjectiva e que nos faz mergulhar nesse mundo distante e desconhecido, de costumes e de linguagem estranhos ao homem ocidental.

Estado da Arte
A principal fonte de documentação na presente dissertação é sem dúvida o conjunto de obras do autor em estudo. Wenceslau apresenta um tão vasto leque de temas na sua produção literária, que esta é por si fonte essencial nas problemáticas levantadas. No entanto, e devido ao valor de Moraes nas relações diplomáticas e culturais entre Portugal e o Japão, são diversos os autores portugueses e estrangeiros que o referem nos seus estudos e investigações. Do Japão chegam-nos quase todas as obras de Moraes traduzidas pelo professor Tomizo Hanano: O Bon-Odori em Tokushima, sob o título Tokushima no Bon Odori (Tóquio, 1935), Serões no Japão, sob o título Nihon Yobanashi (Tóquio, 1936), O-Yoné e Ko-Haru, sob o título O-Yone to Koharu (Tóquio, 1936), Traços do Extremo oriente, sob o título Kyokuto Yuki (Tóquio, 1941), Relance da História do Japão, sob o título Moraes Nihon Rekishi (Tóquio, 1942), Dai Nippon (Tóquio, 1942) e Relance da Alma Japonesa (Nihon Seishin) em 1944 e reeditada em 1954. Esta é seguida de um posfácio sobre A Vida de Moraes (Moraesno Shogai). Hanano escreveu também uma biografia de Wenceslau, intitulada Nihonjin Moraesu (O Japonês Moraes), em 1940. São vários os investigadores japoneses que participam em traduções conjuntas, em artigos e estudos sobre Wenceslau e sobre a presença dos portugueses no Oriente, como Jitsuo Tsukuda, Minako Nonoyama, Katsura Shobo, Kazuo Okamoto, e muitos outros.
Sobre a influência dos portugueses no Oriente, a sua presença e as questões históricas, culturais, humanas, diplomáticas e económicas, surgem diversos estudos a nível nacional. Autores como Armando Martins Janeira, Maria de Deus Manso, João Cosme, José Alberto Leitão Barata, Ana Paula Laborinho, Danilo Barreiros, entre outros, cuja consulta foi imprescindível param a recolha de dados e para uma maior compreensão da história e das ideias no encontro de duas culturas tão diferentes. De entre os nomes citados, tiveram maior relevância para o presente estudo Armando Martins Janeira e Danilo Barreiros, por uma questão de cumplicidade de experiência de vida, da viagem, da permanência no Oriente, do contacto com o Outro e da partilha que vai mais além e que permanece no coração daquele que viaja e se descobre num outro mundo, tal como em Wenceslau, e que contribuem para o desenvolvimento cultural e humano fazendo um elo de ligação entre o Ocidente e o Oriente. Danilo Barreiros, um dos fundadores da Casa de Macau, fez uma excelente abordagem da vida privada e particular de Moraes pela compilação da troca de correspondência que efectuou com João Sousa Moraes, filho do autor, durante a década de 1940. Sobre o mesmo, escreve na sua obra A Paixão Chinesa de Wenceslau de Moraes, que este viveu torturado pela realidade e pelo seu próprio carácter, instável, angustiado, algo mórbido, céptico, solitário, um tanto provinciano, profundamente saudosista e passivo, insatisfeito e inseguro, mas extremamente crítico, arguto, mordaz e sensível, numa luta que se adivinha de corrosão, desgaste e de desilusão quotidiana. Também Danilo Barreiros embarcou num navio rumo ao oriente, com o sentimento de ânsia de fuga comum aos aventureiros. Durante 15 anos viveu em Macau (1931 - 1946), de regresso a Lisboa com mulher e filhos entregou-se ao estudo de Direito, exerceu advocacia, e apesar da distância física o seu espírito esteve sempre em Macau». ». In Maria Margarida Silva Faria Capitão, Entre duas civilizações. O universo de leituras em Wenceslau de Moraes, Dissertação de Mestrado, 2011, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2012.

Cortesia de FCSH/JDACT

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Cartas do Japão Antes da Guerra (1902-1904). Wenceslau Moraes. «Algumas casas hespanholas de Yokohama e de Kobe fazem bello negocio com o género. Ora, não valeria a pena que os nossos negociantes estudassem o assumpto, as qualidades e preços do artigo…»

Cortesia de wikipedia

Cartas do Japão. 23 de Abril de 1902
«(…) Estamos em plena primavera, esplendida, attrahindo aos logares mais pittorescos milhares e milhares de visitantes; a peregrinação começa com a florescência das ameixoeiras, em principio de março, seguindo-se os pecegueiros, as cerejeiras, as azáleas, um nunca acabar de encantos naturaes, podendo dizer-se que a população inteira passa n'esta quadra a vida na rua, de aldeia em aldeia, de collina em collina, em extasis bucólicos; agradável diversão aos rigores do inverno, que foi este anno bastante benigno, mas não tanto que não deixasse de si uma pungente lembrança. Refiro-mo a um temporal de neve ao norte do paiz, cerca de Owomori, ocasionando a morte de quasi todo um batalhão de infanteria (mais de 200 homens), que largara imprudentemente o seu quartel, em excursão de exercício. A neve, abundantíssima, surpreendeu esses homens em pleno campo, impedindo-os de proseguirem ou de retrocederem, morrendo quasi todos. O commandante da força, o major Yamaguchi, foi depois encontrado ainda com vida, rodeado de cadáveres de soldados, que lhe faziam barreira, indicando isto que elles intentaram, antes de tudo, abrigar do frio e salvar o seu chefe, sacrificando-se. O major falleceu poucos dias depois, n'um hospital, e sabe-se que recebera antes uma carta do próprio pai, que lhe dizia ter por provável que a morte o não pouparia reservando-lhe igual sorte á dos seus subordinados; mas, se assim não acontecesse, aconselhava-o a suicidar-se, como expiação honrosa pela falta que praticara… Exemplos d'estes, restos do antigo cavalheirismo militar do Japão, estão ainda longe de ser raros, e fazem da cada japonez o melhor soldado do mundo, no respeitante a orgulho de classe, patriotismo sem limites, temeridade, desprezo pela vida. A guerra com a China, em 1895, e os últimos acontecimentos no império chinez, onde se encontraram juntas tropas europeias e japonezas, bem confirmam esta opinião.
Interessado n'uma campanha, que não se me affigura banal, de chamar a attenção dos portuguezes para esteja muito florescente império do Extremo Oriente, que tão pouco conhecemos, prometti dar a indicação dos géneros que, em minha opinião, devem particularmente servir para estreitar as relações de commercio directo entre Portugal e o Japão. Tratarei hoje dos géneros portugueses, que são: vinhos (generosos, espumosos e communs), cortiça (bruta e em obra), conservas alimentícias (sardinhas, fructas, etc), azeites, vários produtos coloniaes, como borracha, marfim, café. O Japão importa já bastantes vinhos generosos e espumosos, em geral para consumo dos europeus residentes e da chusma de visitantes dos hotéis de Yokohama, de Kobe e de Nagasaki. Os nossos vinhos são conhecidos, uns importados, em mui pequena quantidade, directamente de Portugal, outros, em maior quantidade, vindos por intermédio de vários paizes estrangeiros, e outros, em muito maior proporção, portuguezes só no nome, chamados Porto, Madeira, etc, quando são fabricados na Allemanha ou na Inglaterra. Os nossos negociantes devem, sem demora emprehender tenazmente a introducção aqui, directa, das boas marcas dos vinhos portuguezes, não regateando sacrifícios, que mais tarde se traduzirão em prospero e remunerador trafego.
Os japonezes, em geral, e particularmente o proletário, não apreciam, é claro, os bons vinhos europeus e americanos, contentando-se com o saké indígena, que é o producto da fermentação do arroz. No emtanto, os vinhos inferiores, ínfimos mesmo, téem aqui bastante acceitação, servindo a preparar uma beberagem adocicada e tida por fortificadora, muito apreciada entre o povo. Taes vinhos vêem da Hespanha, da França, da Itália e de outros paizes; mas não do nosso. Algumas casas hespanholas de Yokohama e de Kobe fazem bello negocio com o género. Ora, não valeria a pena que os nossos negociantes estudassem o assumpto, as qualidades e preços do artigo, no intuito de introduzirem no Japão os vinhos baratos portuguezes?» In Wenceslau de Moraes, Cartas do Japão, Antes da Guerra (1902-1904), prefácio de Bento Carqueja, Livraria Magalhães & Moniz, Editora, Oficinas do Comércio do Porto, Porto, 1904.

Cortesia de L. Moniz/JDACT

Entre duas civilizações. O universo de leituras em Wenceslau Moraes. Maria Margarida Capitão. «… o exemplo do viajante humanista, o elo de ligação entre culturas, a possibilidade de conhecer o outro e de dar a conhecer também a sua cultura, a sua língua, aquele que reúne em si o eu e o outro»

Cortesia de wikipedia

Introdução. Entre Duas Civilizações. A Entrega a Esse Outro que me torno EU
A Metodologia
«(…) No decurso da presente investigação encontraram-se algumas dificuldades para a sua concretização. Uma delas, a impossibilidade de viajar ao País do Sol Nascente e procurar descobrir as paisagens e sentimentos que despertaram em Moraes a sua escrita e sensibilidade. Outra, fora a impossibilidade da fuga à subjectividade, pois apesar da elaboração de uma dissertação se querer clara e objectiva, facilmente nos vemos embrenhados numa subjectividade inevitável, própria daquele que se revê nas palavras do outro, sobretudo quando há uma identidade entre sujeito e objecto. Para tal, seguiu-se a metodologia própria daquele que documenta, e na impossibilidade de percorrer a viagem empreendida por Wenceslau, houve a pesquisa de documentos da época, selecção e análise de artigos sobre as temáticas da saudade e do exílio, da troca de correspondência entre o autor e os seus contemporâneos (como Camilo Pessanha), a leitura de estudos (como os de Armando Martins Janeira) sobre a relação entre o Oriente e o Ocidente, a pesquisa de artigos e de exposições na Fundação Oriente, recolha fotográfica e audição de música tradicional japonesa.

Objectivo
Compreender o que este português encontrou numa civilização tão diferente da sua, que fez mudar os seus padrões culturais, sempre com os sentimentos do exílio e da saudade presentes na sua alma e no seu coração, sentimentos tão particulares do seu povo; um português que procurou manter um contacto diplomático quer com os seus conterrâneos, quer com os japoneses, mas terminou os seus dias sozinho em Tokushima; e encontrar por fim na imagem de Moraes o exemplo do viajante humanista, o elo de ligação entre culturas, a possibilidade de conhecer o outro e de dar a conhecer também a sua cultura, a sua língua, aquele que reúne em si o eu e o outro. Finalmente, a sua importância no ensino da língua portuguesa como língua segunda ou estrangeira, como exemplo do expoente máximo da possibilidade de união de duas culturas.

A Estrutura
No Primeiro Capítulo verifica-se o Estado da Arte, no qual se abordam autores nacionais e estrangeiros, que investigaram e estudaram tanto o homem que foi Wenceslau, como a sua obra literária, procedendo-se a um comentário crítico dessas mesmas teorias, encaminhando o estudo para as problemáticas levantadas. O Segundo Capítulo é dedicado à vida e à obra de Wenceslau, apresentam-se os principais momentos da sua vida, as pessoas mais próximas que com ele conviveram e as obras que foi escrevendo. Para o desenvolvimento deste capítulo foram essenciais as correspondências trocadas entre amigos e familiares, assim como o testemunho fotográfico encontrado. No Terceiro Capítulo são abordadas as relações históricas e culturais entre o Ocidente e o Oriente no período compreendido entre o século XVI até à actualidade. As principais fontes documentais foram as diversas obras e artigos de Maria de Deus Manso sobre a difusão do cristianismo e a influência dos jesuítas no Oriente, e a obra de Armando Martins Janeira, O Impacto Português sobre a Civilização Japonesa. Dá-se essencial ênfase ao contributo dos padres jesuítas no ensino da língua portuguesa no Oriente, na criação dos primeiros dicionários bilingues e tradução para japonês dos clássicos da cultura ocidental. No Quarto Capítulo desenvolve-se a temática da obra de Wenceslau enquanto documentário, abordando problemáticas levantadas aquando da leitura de Álvaro Manuel Machado sobre a escrita de Moraes enquanto mito histórico ([…] um mito histórico no sentido em que António José Saraiva o define ao traçar uma síntese da nossa cultura, relevando o valor fantasmagórico desencadeado na memória de um povo por essa função mítica […]. In Álvaro Manuel Machado, O mito do Oriente na Literatura Portuguesa, Lisboa, 1983) enquanto exemplo do exotismo orientalista da moda da época e o facto de os seus textos serem um mero conhecimento enciclopédico. Este capítulo subdivide-se noutros três, fazendo-se a análise das duas principais obras em estudo: Traços do Extremo Oriente e Notícias do Exílio Nipónico, das quais são apresentados excertos exemplificativos do estilo literário do autor; na terceira parte enunciam-se os diversos temas que Moraes apresenta ao longo das suas obras, como os costumes, as lendas, o vestuário, a habitação japonesa, entre muitos outros, revelando que a ideia de interdisciplinaridade está sempre presente». In Maria Margarida Silva Faria Capitão, Entre duas civilizações. O universo de leituras em Wenceslau de Moraes, Dissertação de Mestrado, 2011, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2012.

Cortesia de FCSH/JDACT

Entre duas civilizações. O universo de leituras em Wenceslau Moraes. Maria Margarida Capitão. «Qual a importância da escrita diária, dos relatos de viagens ou apontamentos das observações, para o ensino de uma língua e de uma cultura? É ou não a escrita de Wenceslau Moraes um mito, no sentido de epopeia? Serão as suas obras reflexo de um mero conhecimento enciclopédico?»

Cortesia de wikipedia

Resumo
«O presente estudo das obras Traços do Extremo Oriente e Notícias do Exílio Nipónico de Wenceslau Moraes, terá por objectivo reflectir sobre a importância da técnica do documentário em literatura, como forma de descobrir e dar a conhecer outras culturas diferentes da nossa. Neste sentido, as suas obras são de extrema importância a nível cultural e enquanto reflexo do pensamento português no mundo e sobre o mundo; encontramos em cada palavra sua o cruzamento de ideias e de história, de imaginários e realidades. A importância da abordagem deste autor aquando do ensino do português deverá ser feita, não apenas à luz de todo um passado de conhecimento e de relação entre Portugal e o Japão mas, principalmente, através do olhar interessado, de amadurecimento e de profunda reflexão que o autor nos oferece. Actualmente, é cada vez mais importante documentar, revelar, dar a conhecer todas as realidades que nos circundam e aprender a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, a acolher o outro sem imagens pré-concebidas, a respeitar as diferenças e a compreender novos pontos de vista. Neste aspecto, Wenceslau Moraes foi um verdadeiro humanista. A presente dissertação procura responder às seguintes questões:
  • Qual a importância da escrita diária, dos relatos de viagens ou apontamentos das observações, para o ensino de uma língua e de uma cultura? 
  • É ou não a escrita de Wenceslau Moraes um mito, no sentido de epopeia? 
  • Serão as suas obras reflexo de um mero conhecimento enciclopédico? 
  • Afinal, o que será ensinar, tendo como imagem a figura de Wenceslau Moraes?
Introdução. Entre Duas Civilizações. A Entrega a Esse Outro que me torno EU
Não é apenas o Oriente visto pelos olhos de um ocidental. É o Oriente vivido, o Oriente sentido primeiramente a nível físico, para ser depois incorporado espiritualmente. Wenceslau Moraes, longe da figura do heróico marinheiro e conquistador vaidoso, é a imagem sublime do viajante humanista. Enquanto oficial da armada portuguesa passou por Moçambique, por Timor, leccionou no liceu em Macau e foi cônsul no Japão, onde viria a terminar os seus dias. As obras de Wenceslau Moraes são de extrema importância a nível cultural e enquanto reflexo do pensamento português no mundo e sobre o mundo. Encontramos em cada palavra sua o cruzamento de ideias e de História, de imaginário e realidade.

A Temática
O que inicialmente poderia ser um comum relato de viagens torna-se testemunho do destino de um português que adopta uma cultura e costumes diferentes da terra onde nasceu. A sua escrita vai evoluindo com o conhecimento e a entrega a este novo mundo. Os textos, enriquecidos com descrições cada vez mais vivas e sensitivas, transportam o leitor para esta terra distante. Este relato é feito ao estilo de um diário ou registo de correspondência. Não deverá ser lido de uma forma fugaz, é preciso saborear, sentir os cheiros, deixarmo-nos embrenhar nas cores e no ambiente desta civilização tão distante do mundo ocidental, e que desde sempre seduziu os espíritos mais inquietos com imagens de um cenário idílico e quente. Quase que sentimos os cheiros dos cozinhados e dos odores corporais, quase que nos sentimos perdidos no meio daqueles verdadeiros enxames de gente. A época de Wenceslau caracteriza-se nas artes plásticas pelo impressionismo, e na literatura pelo naturalismo e realismo. Apesar de ao longo da sua vida se ter afastado e criticado o modo de vida ocidental, e consequentemente ter-se retirado também desse meio cultural pela distância física, estas correntes são de alguma forma visíveis na sua escrita de carácter autobiográfico, relatando as suas experiências e vivências, descrevendo também a vida, a cultura e os costumes nipónicos. As obras em estudo são uma verdadeira prova de que a sua escrita, mais do que factual, é apaixonada, repleta de sensações visuais, apelando ao esgotamento dos sentidos.
Os seus textos, todos eles datados, podem ser vistos como documentários, curtas-metragens que fixam instantâneos do quotidiano vivido, através dos quais o autor retrata com elegância a paisagem idílica, venera a musumé (mulher japonesa) e descreve a perfeição artística do Japão. Através desta escrita-documentário o autor consegue captar momentos verdadeiramente singulares, transportando o leitor da realidade, através da palavra escrita, para um imaginário visual. Nem sempre esta viagem é feita de belas paisagens e alegres encontros. A temática do exílio e da saudade é recorrente nos seus escritos, sentimentos presentes naquele que deixa a sua pátria para se descobrir numa outra. No prefácio à 1ª edição de Janeiro de 1895, escreve o editor seu amigo, Vicente Almeida d’Eça sobre o autor: encontra-se em Wenceslau de Moraes a nota triste, a funda compreensão das misérias humanas, o fácil apanhar de um facto que a outros se afiguraria trivial mas que, bem estudado, encerra um mundo de considerações. Estas experiências pessoais são testemunhadas não apenas como factos, mas com o calor de quem sente o que vê. A escrita de Moraes é uma escrita auto-reflexiva em primeira pessoa, vivendo do espontâneo e da emoção. Sendo a palavra expressão do sentimento, tudo o que nos toca deve ser dito. O que é dito resulta da observação curiosa e do interesse do nosso viajante, que se torna simultaneamente espectador, pintor e juiz. Aqui, o sentido mais aguçado será a visão, as suas impressões fazem desenhar no nosso imaginário um perpétuo carnaval de usos exóticos. Quando conhecemos verdadeiramente o outro, torna-se incompreensível qualquer justificação para uma guerra. Neste aspecto, Wenceslau foi um verdadeiro humanista.

A Problemática
A escolha do tema provém da realização do trabalho prévio no seminário de Literaturas e Culturas dos Países de Língua Portuguesa. Como resultado do mesmo, foram-se levantando várias problemáticas, como a importância da escrita-documentário como material de estudo para o conhecimento e ensino de uma cultura e de uma língua; se serão ou não as obras de Moraes uma epopeia; se serão ou não as suas obras um conjunto de conhecimentos enciclopédicos; e finalmente, o que está por detrás do acto de ensinar tendo como imagem a figura de Wenceslau». In Maria Margarida Silva Faria Capitão, Entre duas civilizações. O universo de leituras em Wenceslau de Moraes, Dissertação de Mestrado, 2011, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2012.

Cortesia de FCSH/JDACT