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domingo, 20 de novembro de 2016

Aprendizagem. O arranque dos Descobrimentos. Paulo Jorge Pinto. «A conquista de Ceuta fora um sucesso, mas importava prosseguir a guerra. E enquanto não havia condições para fazê-lo, afinal, Ceuta, fora cercada logo em 1419…»

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Porque só em 1434 foi passado o cabo Bojador?
«(…) O infante Henrique, que dispunha das rendas da Ordem de Cristo, de que era administrador, foi esse homem. Durante mais de uma década, enviou os seus homens para irem além do Bojador, sem sucesso, até que Gil Eanes acedeu finalmente, em 1434, tendo sido generosamente recompensado após o seu regresso. Não parece ter encontrado grandes dificuldades, no fim de contas. O cronista Zurara registou o que fora, afinal, um bluff: e já seja que o feito, quanto à obra, fosse pequeno, só pelo atrevimento foi contado por grande. E que contou Gil Eanes? Muito pouco: não vira gente nem nada de especial interesse, limitando-se a trazer uns arbustos que colhera na terra para, de alguma forma, provar que lá estivera. De tal modo foi decepcionante e, talvez, duvidoso o seu relato, que o infante o mandou de imediato repetir a viagem, desta vez acompanhado com alguém de sua inteira confiança. Desta segunda viagem resultou uma novidade: viram pegadas humanas e rasto de camelos. Porque estava o infante Henrique tão interessado, afinal, em vencer aquela barreira? São célebres as cinco razões que Zurara expõe na sua Crónica da Conquista de Guiné. Há motivações práticas (comércio, conhecimento da extensão do mundo muçulmano) e ideológicas (procura de aliados cristãos, salvação das almas), mas também simples curiosidade. Para um qualquer marinheiro, essa curiosidade era inconsequente, mas para o infante, não: era uma curiosidade, digamos, geopolítica.
A conquista de Ceuta fora um sucesso, mas importava prosseguir a guerra. E enquanto não havia condições para fazê-lo, afinal, Ceuta, fora cercada logo em 1419 e os custos da sua manutenção esvaziavam os cofres do Estado, o infante Henrique não ficava de braços cruzados à espera que surgisse uma nova oportunidade para retomar a acção militar. Nesse entretanto, havia todo um trabalho árduo e moroso a fazer: fortalecer a presença portuguesa no Estreito e garantir a segurança da navegação face aos corsários mouriscos, prosseguir a guerra no mar enquanto não era possível retomá-la no terreno, promovendo o corso e o assalto à navegação inimiga, e finalmente, porque não, explorar e conhecer os limites do poderio adversário, precisamente numa região mal conhecida e que não despertara interesse: a costa atlântica.
Não foi, assim, por acaso que a primeira tentativa de ocupação das Canárias tenha ocorrido pouco depois do início das viagens destinadas a passar o Bojador, em 1421. A chegada à Madeira (cuja existência era, provavelmente, já conhecida) ocorreu também nesta conjuntura. Portugal, pela mão de um membro da família real, e não da Coroa, como por vezes se subentende, ganhava deste modo um renovado interesse pela faceta atlântica de Marrocos, onde não havia jurisdição tácita de Castela de que se trataria de terras de sua conquista, como acontecia em Granada ou nas paragens marroquinas a leste de Ceuta. Neste contexto, ganha especial relevo uma das cinco razões, apontadas por Zurara: a que menciona o interesse do infante Henrique em saber até onde se estendia o mundo islâmico. Talvez fosse possível, deste modo, contornar Marrocos pelo sul e, quem sabe, encontrar gente cristã, ou, pelo menos, não-muçulmana, que pudesse servir de apoio e aliança estratégica comum.
As tentativas para passar o Bojador tiveram, assim, tudo que ver com o que estava em jogo na altura: o regresso à guerra e a retomada da (re)conquista do norte de África. A viagem de Gil Eanes, que hoje se aceita unanimemente ter quebrado o isolamento milenar da Europa e inaugurado uma nova era, por pouco que não ficou no esquecimento. Três anos depois, como afirma Zurara, passou o nobre infante Henrique em Tânger, por cuja razão não enviou mais navios contra aquela terra». In Paulo Jorge Sousa Pinto, Os Portugueses Descobriram a Austrália? Porque foi Conquistada Ceuta? O arranque dos Descobrimentos, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-498-7.

Cortesia de EdosLivros/JDACT

Aprendizagem. O arranque dos Descobrimentos. Paulo Jorge Pinto. «Gil Eanes, a quem a lentidão do progresso irritava e que desprezava as superstições, decidiu averiguar o que, na realidade, se encontrava a sul do Bojador»

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Porque não dominaram os Portugueses as Canárias?
«(…) Esta chegou, finalmente, em 1475, quando se declarou a guerra entre Afonso V e Isabel de Castela: de imediato, os Castelhanos deixaram de respeitar as proibições e as direticvas papais que concediam o exclusivo aos Portugueses e enviaram diversas expedições à Guiné, chegando mesmo a atacar e a saquear Santiago, em Cabo Verde. Foi, portanto, no sentido de garantir a exclusividade portuguesa nestas paragens, e reconhecendo que o domínio castelhano sobre as Canárias era uma realidade, que Portugal renunciou formalmente a qualquer pretensão a estas ilhas, no Tratado de Alcáçovas-Toledo, que pôs fim ao estado de guerra entre as duas coroas.

Porque só em 1434 foi passado o cabo Bojador?
Quando se fala do cabo Bojador como limite do mundo conhecido pelos Europeus até ao século XV, é comum surgirem várias ideias associadas: a de que existiria um conjunto de lendas e de superstições sobre monstros marinhos, o fim do mundo ou grandes perigos que esperariam os marinheiros que ousassem passar este marco, a de que a própria passagem seria muito difícil e perigosa ou, ainda, que Gil Eanes foi o primeiro a passá-lo, em 1434, e que era um destemido navegador. Durante muito tempo ignorado e mantido na sombra de Cristóvão Colombo, a quem se atribuía o mérito, quase exclusivo, de desbravar o Atlântico desconhecido, Gil Eanes emergiu lentamente do anonimato e obteve finalmente o seu lugar no panteão dos grandes navegadores do século XV. Passou, contudo, e talvez demasiado depressa, de anónimo a herói. Numa obra de divulgação histórica, diz-se que Gil Eanes, a quem a lentidão do progresso irritava e que desprezava as superstições, decidiu averiguar o que, na realidade, se encontrava a sul do Bojador. Na verdade, e segundo nos conta Zurara, Gil Eanes só passou o Bojador à segunda, e depois de fortemente admoestado pelo seu senhor, o infante Henrique. Fora-lhe atribuído o comando de uma barca, mas, na primeira tentativa, em 1433, escusou-se a passar o cabo e preferiu fazer o mesmo que os outros que o infante Henrique enviara anteriormente, ao longo de mais de uma década: fazer uma razia e capturar uns quantos escravos, nas Canárias, e regressar a Lagos. O que tinha aquele ponto da costa, então, de especial? Em primeiro lugar, a costa era inóspita em toda aquela extensão a sul de Marrocos, no actual Sara Ocidental, sem água nem vegetação; depois, era ideia assente entre os marinheiros de que havia ali baixios, ou seja, a água era pouco profunda, com correntes que impediam os navios de regressar. Nada se sabia sobre o que ficava além. Para quê arriscar, então, com tantas incertezas e tão pouco proveito?
Há notícias de, pelo menos, duas tentativas anteriores: a dos irmãos Vivaldi, nos finais do século XIII, e a do catalão Jaime Ferrer, em meados do século seguinte. O facto de nada se saber dos resultados destas viagens, e o fracasso da expedição dos Vivaldi era conhecido por toda a Europa, adensava evidentemente o mistério e não convidava a novas tentativas. Nada motivava a viagem; só a persistência de alguém suficientemente rico e teimoso para arriscar a perda de homens e navios permitiria superar as hesitações e cumprir o objectivo, de duvidosa utilidade e mérito, pensava-se, de passar o Cabo». In Paulo Jorge Sousa Pinto, Os Portugueses Descobriram a Austrália? Porque foi Conquistada Ceuta? O arranque dos Descobrimentos, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-498-7.

Cortesia de EdosLivros/JDACT

domingo, 9 de outubro de 2016

Aprendizagem. O arranque dos Descobrimentos. Paulo Jorge Pinto. «À medida que se sucediam as tentativas de ocupação efectiva das ilhas, invariavelmente incompleta, temporária ou falhada, tanto Portugal como Castela…»

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Porque não dominaram os Portugueses as Canárias?
«(…) Todavia, o arquipélago desempenhou um papel essencial na primeira fase dos Descobrimentos portugueses, não apenas pela sua ligação ao arranque das viagens, mas também por constituir um objectivo importante nos planos e na acção, antes, durante e depois da vida do infante Henrique. A evolução e a persistência do interesse português pelas Canárias é, aliás, um excelente exemplo que permite compreender melhor as alterações e o amadurecimento dos projectos de expansão. Se o conhecimento da existência dos arquipélagos da Madeira e dos Açores antes do seu descobrimento pelos Portugueses, em 1419 e 1427, respectivamente, não passa de uma suspeita, no que respeita às Canárias é um dado seguro desde, pelo menos, a primeira metade do século XIV. É tradicionalmente atribuído ao genovês Lancelotto Malocello o seu descobrimento, na década de 1320. A esta viagem (e possivelmente umas quantas que não deixaram rasto) seguiram-se outras de conquista, nomeadamente as levadas a cabo por mercadores italianos e promovidas por Afonso IV. As Canárias, como se percebe olhando para um mapa, estão um pouco a norte do cabo Bojador, o que significa que o arquipélago também assinalava, até ao século XV, a fronteira do mundo conhecido pelos Europeus. E se a passagem do cabo era pouco atractiva, não apenas por não se saber o que ficava além, mas também porque a costa era inóspita e pouco interessante, as Canárias eram um alvo bem mais apetecido, porque eram habitadas e possuíam vegetação. Deste modo, o arquipélago formava uma espécie de terceira yia para o prosseguimento da chamada Reconquista), a par de Granada e de Marrocos, mau grado a inexistência de populações islamizadas ou de qualquer prova de que haviam alguma vez integrado os territórios da cristandade. Numa primeira fase, os principais actores foram simples aventureiros desejosos de estabelecerem aí os seus senhorios, submetendo as populações locais (chamadas guanches) e utilizando-as como mão de obra escrava. Havia também algumas plantas com valor e interesse comercial, como o sangue-de-drago, usado em tinturaria. Esses personagens procuravam depois protecção oficial, colocando-se sob a suserania portuguesa ou castelhana. São exemplos um tal Lançarote da França, a quem Fernando concedeu o senhorio de várias ilhas, em 1370, e o normando Jean Bethencourt, que se colocou sob protecção castelhana após efectuar uma expedição de conquista, em 1402.
À medida que se sucediam as tentativas de ocupação efectiva das ilhas, invariavelmente incompleta, temporária ou falhada, tanto Portugal como Castela reforçavam o seu interesse e reclamavam direitos de posse. Durante mais de um século, desde as expedições promovidas por Afonso IV até ao Tratado de Alcáçovas-Toledo, de 1479-80, os dois reinos envolveram-se numa disputa acesa e feroz pela posse das ilhas, não só da sua ocupação efectiva, mas também do seu reconhecimento pela Santa Sé. A questão é que as Canárias deixaram de ser um mero palco de aventuras guerreiras e de saque para passarem a constituir um objectivo estratégico integrado em planos de expansão mais alargados. O caso português é evidentemente mais nítido e claro. O infante Henrique considerava o arquipélago uma excelente base para o futuro assalto a Marrocos e assumiu o patrocínio da conquista das ilhas, a par das viagens de reconhecimento da costa. Enviou uma expedição logo em 1424, comandada por Fernando Castro, que não veio, contudo, a ser bem sucedida. Ao longo da sua vida fez várias tentativas, ora apoiando um dos aventureiros em contenda, ora comprando a ilha de Lanzarote, ora, ainda, enviando novas expedições militares. Depois da sua morte, o infante Fernando (seu sobrinho e afilhado) prosseguiu este esforço, mediante a tentativa de compra de várias ilhas e o envio de uma derradeira expedição de conquista, já em 1466. Desde que a exploração da costa africana começara a dar proveitos e a chamar a atenção de vários sectores, algo visível ao longo da década de 1440, o interesse pelas Canárias ganhou uma nova dimensão: para os Portugueses, era um ponto de apoio importante à navegação que progredia para sul e ao florescente comércio da Guiné, ao mesmo tempo que permitia vigiar a concorrência castelhana, interceptar navios furtivos e garantir o controlo daquelas paragens. Para Castela, o cenário era obviamente o inverso: não tendo sido protagonista da exploração atlântica e em clara desvantagem perante o avanço rival, à coroa castelhana restava apenas segurar esta base avançada e, assim, promover o corso e as viagens à Guiné ao arrepio das pretensões portuguesas e manter-se à espreita de uma oportunidade». In Paulo Jorge Sousa Pinto, Os Portugueses Descobriram a Austrália? Porque foi Conquistada Ceuta? O arranque dos Descobrimentos, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-498-7.

Cortesia de EdosLivros/JDACT

Aprendizagem. O arranque dos Descobrimentos. Paulo Jorge Pinto. «O infante Henrique não era decerto o eremita visionário que se vê nos quadros, mas sem a sua vontade e determinação…»

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O impulso dos Descobrimentos foi dado por um homem ou por um colectivo?
«(…) Trata-se de visões distintas da mesma realidade, de opções pedagógicas que destacam determinados aspectos, tidos como mais relevantes: antes de 1974 era preciso, de algum modo, destacar a especificidade portuguesa, assinalar o que distinguira Portugal e o conduzira ao caminho da expansão ultramarina, de algum modo justificando a situação colonial do momento, também ela uma prova de que os Portugueses eram diferentes dos outros impérios coloniais; para isso, nada melhor do que realçar datas-chave e pulsões nacionais, a vontade de descobrir, a bravura, o dilatação da fé, etc., e os nomes que as consubstanciavam e tornaram realidade. Vinte anos depois, pelo contrário, tentava-se mostrar que a expansão portuguesa fizera parte de um movimento global, de uma etapa do avanço do conhecimento ocidental, e fora moldado por condicionantes técnicas, materiais e sociais; Portugal movia-se, ontem como então, num espaço e num contexto europeu e não numa aventura solitária. Muito curiosamente, o discurso oficial dos nossos dias é diferente, mas nem por isso menos artificial; na realidade, tende a fundir as duas facetas: fala-se e exalta-se a forma heróica, destemida e voluntariosa como caminhámos sobre o mar (como afirmou recentemente uma ex-governante), agindo em sentido colectivo pela abertura de novos caminhos e pela inauguração de uma era de prosperidade, talvez como estímulo e motivação para os tempos actuais, mas não se referem nomes nem se mencionam personalidades em concreto, não só porque soa algo salazarista estar a invocar o infante Henrique, mas também porque se tende a considerar que todos, sem excepção, desde o marinheiro anónimo ao monarca, do piloto experiente ao fidalgo que desprezava o mar e o comércio, desempenharam o seu papel sem fricções, oposição ou contracorrentes à aventura ultramarina. Criar uma oposição artificial entre as acções individuais de um pequeno número de figuras, as condições materiais do Portugal do século XV que as sustentaram ou o apoio social que as tornou possíveis num determinado momento e oportunidade não faz realmente muito sentido. O infante Henrique não era decerto o eremita visionário que se vê nos quadros, mas sem a sua vontade e determinação, para não dizer teimosia incorrigível, é possível que o rumo dos acontecimentos tivesse sido bem diferente; o infante Pedro não foi um mero instrumento das aspirações do povo de Lisboa, mas o apoio social que recebeu foi imprescindível para os avanços que se verificaram durante a sua regência. A História-passado foi, quase sempre, mais caprichosa do que a História-conhecimento atinge; esta não passa, afinal de contas, de uma aproximação grosseira e tosca a uma realidade complexa, tão complexa quantas as pessoas que dela fizeram parte.

Porque não dominaram os Portugueses as Canárias?
O arquipélago das Canárias está fora do imaginário que envolve os Descobrimentos portugueses, sendo algo associado exclusivamente a Espanha. De facto, pelo famoso Tratado de Alcáçovas-Toledo, Portugal desistiu de qualquer pretensão sobre as ilhas, que foram definitivamente atribuídas a Castela. O ego nacional omite os reveses e prefere, naturalmente, assinalar o que foi obtido em contrapartida: a exclusividade da exploração de todo o continente africano a sul do arquipélago. Sobre o que ocorreu anteriormente, a memória colectiva não reteve praticamente nada. Nos últimos anos, as Canárias mereceram menção na imprensa nacional por dois motivos: pelos grandes incêndios florestais que devastaram várias ilhas, no Verão de 2007, e por ter sido o local de retiro e de residência de José Saramago (mais especificamente, a ilha de Lanzarote), onde morreu em 2010». In Paulo Jorge Sousa Pinto, Os Portugueses Descobriram a Austrália? Porque foi Conquistada Ceuta? O arranque dos Descobrimentos, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-498-7.

Cortesia de EdosLivros/JDACT

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Aprendizagem. O arranque dos Descobrimentos. Paulo Jorge Pinto. «Como afirma um autor do século passado, desencadeados, pelos guias, os grandes movimentos ideológicos, doutrinários, espirituais, as multidões movem-se…»

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Como foi feita a aprendizagem da ciência náutica?
«(…) Assim, a cada passo, a cada avanço, seguia-se inevitavelmente um novo obstáculo, um novo desafio que era necessário vencer, o que, por vezes, obrigava a um abrandamento das viagens. Um dos mais importantes foi a chegada dos navios ao equador, região onde a Estrela Polar não é mais visível. O regimento da Polar deixava de ser útil. Foi necessário aperfeiçoar e adaptar os conhecimentos astronómicos que a Europa já dispunha: o regimento do Sol, ou seja, a determinação da latitude pela sua observação ao meio-dia, utilizando para isso um outro instrumento, o astrolábio e tábuas, com os dados da declinação solar ao longo do ano. O aperfeiçoamento e crescente rigor da navegação astronómica eram simultaneamente causa e consequência do contacto, da prática e do avanço para sul. No reinado de João II, este processo foi acelerado, com a exploração do Atlântico Sul e a preparação das condições técnicas necessárias para a viagem à Índia, que veio a ocorrer já no reinado de Manuel I.

O impulso dos Descobrimentos foi dado por um homem ou por um colectivo?
Podia ser uma questão escolar: quem construiu a grande pirâmide do Egipto? Os manuais afirmam que foi um faraó da 4.ª dinastia, Kéops, também chamado Khufu, mas há muito que foi lançada uma pergunta alternativa: o faraó ou os muitos milhares de escravos e de trabalhadores anónimos? Este exemplo simples tem múltiplas variantes interrogativas: o nazismo foi obra de um líder e de um punhado de seguidores ou de todo um povo? Cortés conquistou o império Asteca ou foram os seus aliados tlaxcalas que venceram os inimigos? A relação entre o indivíduo, geralmente uma figura política central, e o colectivo, uma massa indistinta de gente cujo nome não ficou registado, sempre foi um dos problemas mais importantes na História; não apenas da História-passado, mas da História-conhecimento. Estas questões estão também presentes na história dos descobrimentos portugueses, envolvendo o protagonismo e a responsabilidade pelo arranque e impulso da expansão. Existiria, de alguma forma, uma vontade dos portugueses, enquanto povo, para se lançarem na aventura marítima, ou esse impulso ficou a dever-se, sobretudo, à acção determinada de um indivíduo? Ou a iniciativa terá partido de um determinado grupo específico ou classe social? De um modo grosseiro, pode afirmar-se que a visão deste problema oscila entre dois extremos, que revelam concepções opostas da História e dos seus motores: primeiro, uma visão tradicional que tendia a detectar e a concentrar a atenção nos protagonistas, nas figuras de topo e nos heróis, fossem eles o infante Henrique, o seu irmão Pedro ou João II, tomando as várias épocas da História como cenários de fundo onde se movem os grandes vultos.
Como afirma um autor do século passado, desencadeados, pelos guias, os grandes movimentos ideológicos, doutrinários, espirituais, as multidões movem-se, com todas as suas virtudes e defeitos, produzindo heróis e santos, feitos sublimes e misérias confrangedoras. No outro extremo, e em reacção a estas abordagens meramente biográficas e desligadas da realidade social, está a procura das motivações económicas, dos conflitos sociais e dos interesses de classes, sejam da nobreza terra-tenente ou da burguesia urbana. Aqui, a importância das figuras dilui-se e estas não passam de receptáculos da vontade de forças sociais mais profundas. Eis a conclusão: a luta entre a burguesia [...] a nobreza feudal pelo domínio do estado, com a força impulsionadora dominante e decisiva duma burguesia estrategicamente na ofensiva [...] é o verdadeiro motor da história do século XV pelo menos e, no caso, da história da expansão. Estas abordagens opostas reflectiram-se, como noutras temáticas, no ensino. Quem frequentou a escola antes de 1974 aprendia nomes, datas e factos; posteriormente, a atenção centrou-se em conceitos abrangentes, em problemas sociais e em condições materiais, técnicas e mentais. Comparando os manuais escolares, é com alguma dificuldade que se percebe estar-se perante a mesma época e o mesmo mundo. Assim, no antigo 7.º ano dos liceus falava-se na vocação marítima de Portugal, e no espírito de cruzada, e citavam-se os nomes e as datas mais importantes das explorações henriquinas. Duas décadas mais tarde, e para o ano escolar equivalente, 11.º ano, os capítulos referem civilização material e mentalidade, progressos técnicos e domínio do espaço ou a nova representação cartográfica da Terra; a expansão portuguesa está diluída nas grandes transformações europeias, não há datas exactas e figuram poucos nomes, o do infante Henrique, entre outros, está omisso». In Paulo Jorge Sousa Pinto, Os Portugueses Descobriram a Austrália? Porque foi Conquistada Ceuta? O arranque dos Descobrimentos, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-498-7.

Cortesia de EdosLivros/JDACT

O arranque dos Descobrimentos. Aprendizagem. Paulo Jorge Pinto. «… que a altura da estrela acima do horizonte era tanto maior quanto a distância a que o observador se encontrasse do equador, ou seja, ‘equivale a uma latitude’…»

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Como foi feita a aprendizagem da ciência náutica?
«(…) Até ao século XV, o horizonte náutico da Europa estava limitado ao Mediterrâneo, ao norte da Europa e ao sul de Marrocos. Para um piloto era suficiente, portanto, munir-se de bússola e de uma carta-portulano, isto é, uma carta / mapa onde constavam, não as coordenadas geográficas, latitude e longitude, mas sim os rumos de navegação. Como esta era feita com bússola, bastava seguir a rota traçada, consoante o porto onde se encontrasse e o de destino, calculando as milhas a percorrer na viagem; por isso se chamava navegação por rumo e estima. Como se navegava à vista de terra e nunca se passava muito tempo sem vista dela, o piloto corrigia eventuais desvios da rota com alguma facilidade. As correntes e os ventos eram conhecidos, o que minimizava o risco de acidentes e de naufrágios. O cabo Bojador marcava o limite do conhecimento náutico, ou seja, não se sabia que ventos e correntes existiriam a partir dali e não havia registos nas cartas ou informações sobre profundidades, baixios, recifes ou outros acidentes da costa. Os portugueses passaram-no sem grandes dificuldades mas, à medida que avançavam para sul, perceberam que sopravam ventos em sentido desfavorável que dificultavam o regresso. Havia, portanto, que encontrar uma solução, que acabou por ser a adaptação de um navio de origem árabe, a caravela, às necessidades práticas: dispondo de uma vela triangular, este tipo de navio permitia bolinar, ou seja, avançar mesmo que o vento não fosse favorável, manobrando em ziguezague.
Esta solução foi suficiente durante algum tempo. Mas o regresso era cada vez mais lento e difícil, uma vez que obrigava o piloto às manobras de bolina, isto é, a virar constantemente de rumo para poder avançar. A certa altura, tornou-se impraticável, já que as distâncias a percorrer eram cada vez maiores. Porque não encontrar um modo de aproveitar integralmente o vento, em vez de procurar contrariá-lo? Mas isso forçaria o navio a afastar-se da costa e a perder-se no mar alto, a menos que se encontrasse um modo de determinar com rigor a localização do navio e o rumo a tomar; no mar alto, as estrelas e o Sol eram as únicas referências possíveis, portanto, esse modo teria de guiar-se por eles: é isto a navegação astronómica, cujos primeiros passos foram dados pelos homens do infante Henrique e cujo mérito lhes cabe inteiramente a eles, marinheiros e pilotos, e não a qualquer junta de sábios estrangeiros reunida em Sagres. A navegação astronómica percorreu um longo caminho de prática e aperfeiçoamento, desde as primeiras décadas do século XV até ao século XVIII, quando o último dos problemas fundamentais, o cálculo rigoroso da longitude, foi finalmente resolvido. A orientação pelos astros não era uma coisa nova; desde há muito que se sabia que certas estrelas apontavam em determinadas direções. A Estrela Polar indica o Norte e, aos poucos, percebeu-se que a altura da estrela acima do horizonte era tanto maior quanto a distância a que o observador se encontrasse do equador, ou seja, equivale a uma latitude; a leitura de várias alturas da Polar dava latitudes distintas, cada uma delas correspondente a uma determinada região na costa africana.
Com a sistematização das informações recolhidas e com um instrumento simples, o quadrante, era possível aplicar os conhecimentos astronómicos às rotinas de navegação. Gradualmente, estes cálculos tornaram-se mais rigorosos e fiáveis, e foram encontradas várias formas de corrigir erros de leitura, por exemplo, decorrentes das variações da própria Estrela Polar consoante a hora da noite. A súmula destes conhecimentos práticos era então registada em regimentos, espécie de manuais de utilização e guias de instrução para pilotos e marinheiros. A partir de quando se pode afirmar que os Portugueses passaram a fazer navegação astronómica, ou seja, regressando a Portugal pelo largo e não junto à costa? Os dados são escassos, mas hoje é aceite sem grandes dúvidas que terá sido algures entre 1435 e 1440, segundo se depreende da comparação entre um mapa de 1436, o início da colonização dos Açores, 1439, e uma passagem da crónica de Zurara». In Paulo Jorge Sousa Pinto, Os Portugueses Descobriram a Austrália? Porque foi Conquistada Ceuta? O arranque dos Descobrimentos, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-498-7.

Cortesia de EdosLivros/JDACT

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Quando se descobriu que a China e o Japão eram o Cataio e o Cipango de Marco Polo? O arranque dos Descobrimentos. Paulo Jorge Pinto. «… para a história da região, mas cujos tratados de Geografia constituem uma amálgama confusa a que alguém chamou um dia de pesadelo cartográfico»

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«Um dos aspectos mais interessantes da época dos Descobrimentos, e que, só por si, quase bastaria para derrubar certos mitos e teses, desde a Escola de Sagres até aos alegados conhecimentos trazidos da Europa pelo infante Pedro, foi o modo como Portugal, que sempre estivera desactualizado no que dizia respeito à produção europeia sobre o conhecimento do mundo, introduziu novas informações que tornaram obsoletas as noções clássicas e tradicionais da geografia ocidental. Um problema de sincronia; quem quer que tenha alguma vez trabalhado em edição de vídeo num computador perceberá do que falo: quando o processamento da imagem se atrasa em relação ao som, o resultado torna-se incompreensível e obriga a começar do início.
Algo de idêntico se passou ao longo do século XVI: duas dimensões distintas, uma livresca e erudita, outra prática e ligada à navegação, que obrigou a Europa a um esforço de actualização e sincronização. Durante algum tempo foi ainda possível ajustar as duas fontes informativas, mas a certa altura já não havia forma de alinhar os novos dados com os antigos. Alguns autores, desejosos de mostrar erudição e conhecimento dos clássicos, tentaram-no, com resultados desconcertantes; caso exemplar é o do luso-malaio Manuel Godinho Erédia, uma excelente fonte para Malaca e para a história da região, mas cujos tratados de Geografia constituem uma amálgama confusa a que alguém chamou um dia de pesadelo cartográfico.
O caso da identificação da Taprobana, por surgir mencionada logo no início d’Os Lusíadas é o mais conhecido. O que era? A ilha de Ceilão (actual Sri Lanka), decerto. Mas, segundo alguns geógrafos italianos, era Samatra, por relutância em contradizer Ptolomeu. Outros incluíam ainda informações provenientes do Livro de Marco Polo famoso viajante veneziano que percorrera a Ásia e cujo relato se tornou célebre por toda a Europa. Adiante-se, porém, que são escassos os vestígios de Ptolomeu e de Marco Polo na cartografia portuguesa, cuja fonte era mais segura e fiável: o manancial informativo proveniente das viagens de exploração.
Em boa parte dos casos, bastou corrigir nomes, acertar pormenores, substituir nomenclaturas, algo que foi feito muito lentamente, à medida que o prestígio da tradição ptolemaica decaía e as informações de Marco Polo eram revistas. Porém, ao mesmo tempo que a Europa recebia com avidez as informações portuguesas sobre o Oriente, algumas obras antigas conheciam um interesse renovado; o caso mais curioso é o do livro de John Mandeville, uma das fontes principais de Cristóvão Colombo, relembre-se, cheio de histórias fabulosas e criaturas fantásticas, que continuou a ser reeditado e traduzido Europa fora, quando já eram claras as suas falsidades e pouca fiabilidade. Nada que nos deva surpreender, afinal: também nos nossos dias, As Cartas da Maya tem uma audiência várias vezes superior ao Com Ciência.
Todavia, outras situações foram um pouco mais complexas. Que era feito do riquíssimo Cataio, que Marco Polo visitara e que os Europeus nunca haviam localizado? E o Cipango, cujas descrições de casas com telhados de ouro haviam inflamado a imaginação de Cristóvão Colombo e acendido o seu projecto de navegação atlântica? Não foram simplesmente riscados dos manuais. Pelo contrário, subsistiram durante muito tempo. Cataio é a forma portuguesa do italiano Catai, corruptela do Khitan ou Khitai (Qidan em pinyin mandarim), um povo nómada da Mongólia que acabou por ser absorvido pela China mongol. No Livro de Marco Polo, designa, por extensão, a China que conheceu.
Esta dimensão continental e medieval da China interior era completamente desconhecida dos Portugueses e nunca suscitou grande interesse por cá. O que os Portugueses contactaram e conheciam era a China marítimaq e costeira, acessível a partir de Malaca, do Guangdong e do Fujian. Atribui-se geralmente ao jesuíta Mateo Ricci (1522-1610), figura de proa da missão em Pequim, a equivalência entre o Cataio de Marco Polo e a China real, a que o próprio acedera a partir de Macau». In Paulo Jorge Sousa Pinto, Os Portugueses Descobriram a Austrália? Quando se descobriu que a China e o Japão eram o Cataio e o Cipango de Marco Polo?, Mitos de Ontem e de Hoje, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-498-7.

Cortesia de ELivros/JDACT

Mitos de Ontem e de Hoje Existe um tesouro da Flor de la Mar? O arranque dos Descobrimentos. Paulo Jorge Pinto. «O fabuloso tesouro da Flor de la Mar não passa, portanto, de ‘um mito’. Não deixa de ser um tesouro, cujo interesse histórico não pode ser minimizado…»

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Mitos
«(…) A primeira questão que intriga os estudiosos sobre este assunto é: onde ocorreu o naufrágio? As fontes dizem que foi junto à costa de Samatra, mas o local diverge: nos baixios de Aru ou em Pasai? Brás Albuquerque e João Barros mencionam o primeiro, o governador faz referência explícita a este último. É que entre os dois sultanatos medeiam uns 300 km, pelo que a indefinição contribui em muito para adensar o mistério sobre o naufrágio e, evidentemente, sobre o local exacto do tesouro. É, pois, o tesouro que interessa. É interessante confrontar a imagem das riquezas fabulosas com a documentação da época. Esse cotejo faz percorrer um arrepio na espinha de qualquer entusiasta da caça ao tesouro. O desconhecimento da língua portuguesa e de algumas fontes, a tradução errada e a sobrecitação, que inevitavelmente leva ao exagero, fazem insuflar, de forma muito nítida, a dimensão da carga da Flor de la Mar. O cronista mais exuberante, como é seu hábito, é Gaspar Correia, a quem se deve a história dos leões de ouro (em número de quatro) e a descrição de vários objectos preciosos, tudo avaliado, segundo o mesmo, em um conto de ouro, ou seja, um milhão de cruzados. Brás Albuquerque fala em castelos de madeira aparamentados, diversos objectos forrados de ouro e outras preciosidades, mas a perda que Afonso Albuquerque mais teria lamentado foi a dos leões, que pretendia colocar no seu mausoléu em Goa. Leões de ouro? Não, de ferro fundido, e de valor sobretudo simbólico, como conta João Barros: haviam sido oferecidos pelo imperador da China ao sultão de Malaca e Albuquerque levara-os porque eram a mais principal peça do seu triunfo da tomada daquela cidade. Fernão Lopes Castanheda, por último, é lacónico e pouco diz. Sobre as alegadas toneladas de ouro, nem uma palavra: como apareceram e constam em tudo o que é página da Internet, é um mistério que rivaliza com o do próprio naufrágio.
Há um outro pequeno mistério adjacente: o que terá sucedido ao que restou do infortúnio. O próprio Albuquerque, em carta ao monarca Manuel I, afirma, e os Comentários do seu filho atestam, que alguns objectos preciosos foram salvos, nomeadamente os presentes do rei do Sião: uma espada, uma coroa de ouro e um anel de rubi, enviados para Lisboa. Onde estarão? Na mesma carta o governador lamenta a perda de algumas peças mas, acima de tudo, da documentação respeitante à conquista de Malaca. Uma vez mais, nenhuma referência a quantidades imensas de ouro. O fabuloso tesouro da Flor de la Mar não passa, portanto, de um mito. Não deixa de ser um tesouro, cujo interesse histórico não pode ser minimizado, mas o seu valor será provavelmente muito inferior ao que é apregoado e difundido. Até aqui apenas falei da carga que naufragou em 1512; o que sobreviverá hoje, cinco séculos depois, é evidentemente uma outra história, pois uma boa parte, se não a quase totalidade, do tesouro afundado perdeu-se. Sou eu que o digo? Não, é Tomé Pires, que escreveu em Malaca pouco depois do naufrágio, quem afirma perentoriamente que o rei de Batak (na costa norte de Samatra) recolheu o nau Flor de Ia Mar que com a tormenta se perdeu avante da sua terra e dizem que recobrou muito quanto a água não podia danar do qual dizem que é muito rico». In Paulo Jorge Sousa Pinto, Os Portugueses Descobriram a Austrália? Existe um tesouro da Flor de la Mar?, Mitos de Ontem e de Hoje, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-498-7.

Cortesia de ELivros/JDACT

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Mitos de Ontem e de Hoje Existe um tesouro da Flor de la Mar? O arranque dos Descobrimentos. Paulo Jorge Pinto. «Em 1511, os problemas da Flor de la Mar eram conhecidos, mas o governador utilizou-a na expedição a Malaca. Em Janeiro do ano seguinte, quando se preparavam para regressar a Goa…»

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Mitos
«Não é preciso procurar muito; basta digitar Flor de la Mar no Google e espreitar a primeira página de resultados: informações incríveis sobre um fabuloso tesouro perdido nas águas indonésias, afundado com a nau carregada com o saque de Malaca, na qual Afonso Albuquerque regressava à Índia. Uma das páginas coloca-o no top 10 dos tesouros perdidos e diz tratar-se do mais rico tesouro ainda por encontrar, constando de mais de 54 toneladas de ouro, avaliadas em 216 mil milhões de dólares; outro fala em elefantes e tigres em ouro maciço, valendo mais de mil milhões de libras; outro ainda menciona 60 toneladas de ouro e 200 cestos cheios de diamantes, rubis e esmeraldas, o maior tesouro alguma vez transportado pela marinha portuguesa. São dados que ocasionalmente aparecem na imprensa e que inflamam a imaginação de caçadores de tesouros e do público em geral. Nunca foi, que eu saiba, motivo para uma adaptação cinematográfica, mas já serviu de mote para um romance histórico e, até, para um disco do Vitorino. Que verdade há em tudo isto?
A Flor de la Mar era uma nau portuguesa de 400 t, construída em Lisboa, que fez a sua primeira viagem em 1502, na armada de Vasco da Gama. Viria a repetir a jornada entre Portugal e a Índia por diversas vezes, tendo sido, portanto, submetida a grande desgaste. Os primeiros problemas surgiram em 1506, no regresso a Portugal, por alturas da passagem do cabo da Boa Esperança. Reparada em Moçambique, voltou à Índia e foi colocada novamente ao serviço. Fez parte da armada que, em 1509, infligiu uma memorável derrota a uma frota egípcio-otomana que surgira no Índico para expulsar os Portugueses, a célebre batalha de Diu. Aparentemente, era a nau preferida do vice-rei Francisco Almeida, que a terá escolhido para fazer a sua viagem de regresso a Portugal. Mas isso não veio a ocorrer e a Flor de la Mar ficou ao serviço do novo governador, Afonso Albuquerque, que lhe deu largo uso. Conhecem-se alguns pormenores sobre a sua tripulação, nomeadamente quem era o seu condestável, o escrivão a bordo e o mestre.
Em 1511, os problemas da Flor de la Mar eram conhecidos, mas o governador utilizou-a na expedição a Malaca. Em Janeiro do ano seguinte, quando se preparavam para regressar a Goa, os Portugueses hesitaram em carregá-la com o espólio do saque da cidade. Os sinais de degradação eram visíveis a todos e, pelo que contam os cronistas, ninguém queria embarcar nela. Foi preciso que Albuquerque desse o exemplo e decidisse viajar ele próprio na velha nau para dissipar as dúvidas. Pouco depois da largada, e ainda no estreito de Malaca, o navio não resistiu ao mar agitado e afundou-se, partindo-se em duas metades. O governador salvou-se, assim como parte dos passageiros que com ele regressavam à Índia, mas a carga perdeu-se na sua quase totalidade. Assim nasceu a lenda do tesouro da Flor de la Mar. Quem for hoje a Malaca pode ver uma réplica do navio, no museu histórico local». In Paulo Jorge Sousa Pinto, Os Portugueses Descobriram a Austrália? Existe um tesouro da Flor de la Mar?, Mitos de Ontem e de Hoje, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-498-7.

Cortesia de ELivros/JDACT

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Mitos de Ontem e de Hoje. Idade Média. O Oceano e a Ásia eram povoados de monstros? Paulo Sousa Pinto. «É, possivelmente, o mito mais divulgado e resiliente da história de Portugal, como se de uma praga viral ou de uma bactéria resistente aos antibióticos se tratasse: há muito que se provou que não tem fundamento…»

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«(…) Homero, algures no século VIII a. C., parece, de facto, ter concebido o mundo como um disco, no qual a terra firme (com o mar Mediterrâneo no centro) estava cercada por um rio oceânico em permanente movimento. Mas já na Grécia Clássica, a noção da esfericidade da Terra era dominante. O geógrafo Eratóstenes (276-194 a. C.) chegou mesmo a calcular o seu diâmetro com boa precisão, mas foi Platão e, sobretudo, Aristóteles quem fez vingar definitivamente o conceito da Terra redonda que passou aos geógrafos da Idade Média. Nesta época subsistiam, portanto, várias tradições herdadas da Antiguidade, cujos autores foram, ainda e durante muito tempo, as autoridades mais respeitadas nestas temáticas, em conjunto com a Bíblia e alguns Doutores da Igreja. Não concordavam entre si em vários aspectos, mas o pressuposto de que o mundo era esférico dominava de forma clara e inequívoca. A tradição da Terra plana cujo principal defensor foi Cosmas Indicopleustes, um monge e viajante egípcio que viveu no século VI, era diminuta e não mereceu grande crédito entre os comentadores e autores medievais mais importantes. Isto não significa que não subsistissem dúvidas e incongruências. Uma das mais interessantes diz respeito à necessidade que o homem medieval tinha de tentar conciliar os conhecimentos dos autores gregos e romanos com as palavras da Bíblia. Ora, esta fala em quatro cantos do mundo; como era então possível conceber um mundo esférico com quatro cantos? A maior parte dos autores minimizava esta contradição ou deixava-a em aberto. Quem desenhava e ilustrava mapas resolvia esta quadratura do círculo com o traçado de um mundo esférico dentro de um quadrado, preenchendo os quatro cantos vazios com iluminuras.
A concepção de um mundo plano, além de constituir uma tradição geográfica de reduzida expressão, não era, portanto, um obstáculo à exploração e à navegação oceânica. Havia outras ideias defendidas por alguns autores que colocavam questões bem mais sérias a esta possibilidade. A mais importante era, talvez, a dos antípodas. Vários geógrafos da Antiguidade discutiram a possibilidade de existência de vida humana no outro lado do mundo. É uma questão que nos parece ridícula hoje em dia, mas que era muito pertinente na época. Uma vez que havia a percepção de que a temperatura aumentava quando se avançava para sul, alguns autores concebiam a existência de uma zonatórrida, à latitude do equador, onde a vida não seria possível devido ao extremo calor. Alguns mapas da época assinalam uma faixa de oceano em toda esta região, separando o que chamamos hoje de hemisfério norte do hemisfério sul. Mas prosseguindo ainda mais para sul, existiria uma outra zona temperada como a da Europa? E seria habitada? Eram isto os antípodas.
Foi o geógrafo romano Macróbio (século V) quem sistematizou estas ideias, que perduraram ao longo dos séculos seguintes, e alargou igualmente o debate e as dúvidas: seria possível viajar e passar incólume pela zona tórrida? E se existissem homens no outro lado do mundo (ou seja, nos (antípodas), seriam descendentes de Noé? De que filho? Por fim, existia uma outra tradição, igualmente importante mas muito mais recente, a do geógrafo greco-romano Ptolomeu (século II), redescoberta na Europa no século XV. Esta lançava dúvidas igualmente pertinentes sobre as viagens de exploração, em concreto as que os Portugueses fizeram no século XV: o continente africano prolongava-se indefinidamente para sul, não permitindo qualquer comunicação marítima com o Índico e com a Ásia. Neste, como noutros aspectos e interrogações, a prática de navegação e de contacto directo constituiu a prova definitiva de confirmação ou refutação das tradições geográficas europeias, que se haviam mantido praticamente inalteradas durante mais de um milénio.

Existiu uma Escola de Sagres?
É, possivelmente, o mito mais divulgado e resiliente da história de Portugal, como se de uma praga viral ou de uma bactéria resistente aos antibióticos se tratasse: há muito que se provou que não tem fundamento, mas permanece incrustado no imaginário nacional e continua presente em livros, sítios da Net, materiais de promoção turística e, até, por entidades respeitáveis de quem se exigiria maior rigor e responsabilidade. A maior empresa nacional paga anúncios de página inteira na imprensa escrita com o homem do chapeirão com a seguinte legenda, da remota escola náutica de Sagres desenhou-se um Mundo novo, criou-se a civilização transoceânica, renovou-se Portugal. Um prestigiado instituto de uma reputada universidade portuguesa afirma-se apostado em renovar o fantástico exemplo cosmopolita da Ecola de Sagres, com a qual o infante Henrique colocou Portugal no caminho dos Descobrimentos. E lá fora? Ainda é possível encontrar curiosas reminiscências em obras de reputados historiadores estrangeiros da actualidade: o infante Henrique criou a Escola de Sagres para onde convidou, com elevadíssimos honorários, construtores náuticos, navegadores, matemáticos, astrónomos e geógrafos, entre outros especialistas estrangeiros». In Paulo Jorge Sousa Pinto, Os Portugueses Descobriram a Austrália? A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-498-7.

Cortesia de E. dos Livros/JDACT

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Porque foi Conquistada Ceuta? O arranque dos Descobrimentos. Paulo Jorge Pinto. «Uma das características mais importantes dos Descobrimentos do século XV foi o seu carácter experimental, prático e utilitário. Não é necessário procurar qualquer “Escola de Sagres”…»

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A primazia portuguesa nos Descobrimentos é hoje aceite sem reservas. Sempre foi assim?
«(…) Mais tarde, os Portugueses voltaram a invocar os direitos históricos decorrentes das viagens de Diogo Cão, aquando da disputa colonial sobre o rio Zaire e a região circundante. O século XIX marcou o triunfo do norte da Europa industrializada, sobretudo a Inglaterra, sobre as antigas potências do sul, como Portugal e Espanha, cuja imagem de prosperidade e riqueza estava agora transformada em sinónimo de pobreza e obscurantismo. Era no norte e nos Estados Unidos da América que se encontravam os paradigmas do progresso, da racionalidade e da ciência. Este ambiente mental afectava inevitavelmente o estudo da História. No que toca aos Descobrimentos, espalhou-se a ideia de que o desenvolvimento da ciência náutica, da cartografia ou da construção naval, que permitira aos Portugueses o avanço no Atlântico, tivera certamente origem estrangeira. Um dos casos mais flagrantes deste preconceito envolvia a figura de Martim Behaim (1459-1507), um mercador alemão que viveu em Lisboa e a quem foi atribuída, durante muito tempo, a introdução em Portugal dos conhecimentos teóricos e instrumentos náuticos que permitiram o sucesso das viagens de descobrimento. O célebre geógrafo e naturalista Alexander von Humboldt (1769-1859) concedeu crédito a esta ideia, e o peso da sua autoridade e prestígio contribuiu decisivamente para a sua divulgação. Só no século XX foi possível desmontar os erros e falácias desta e de outras noções, nomeadamente com os trabalhos de Luciano Pereira Silva, Joaquim Bensaúde e Luís de Albuquerque, entre outros. O estudo destas temáticas conheceu um formidável avanço, quer pela publicação de mapas, cartas e outros documentos, quer pelo trabalho de investigação, em bases sólidas e fiáveis, de várias gerações de historiadores, em Portugal e além-fronteiras.
Importa referir, contudo, que, como seria de esperar, também se verificaram erros no sentido oposto, pela mão de autores portugueses: teses e obras a defender ideias de credibilidade duvidosa e sem sustentação documental, meras especulações elevadas à categoria de verdades históricas e destinadas, muitas vezes, apenas a satisfazer o ego nacional e um discutível sentido de patriotismo. Que os Portugueses teriam chegado ao continente americano muito antes de Colombo, que teriam conhecimentos náuticos e cartográficos avançados desde o reinado do rei Dinis I ou que o infante Henrique disporia de informações concretas e actualizadas sobre a Índia, geralmente em articulação com a fantasiosa Escola de Sagres, são apenas alguns exemplos mais conhecidos e que tiveram eco há algumas décadas quando, uma vez mais, a história da presença portuguesa além-mar voltou a servir objectivos políticos e que hoje possuem uma expressão meramente residual.

Como foi feita a aprendizagem da ciência náutica?
Uma das características mais importantes dos Descobrimentos do século XV foi o seu carácter experimental, prático e utilitário. Não é necessário procurar qualquer Escola de Sagres para reconhecer o valor dos navegadores portugueses, muito pelo contrário: a capacidade de encontrar soluções para os problemas que surgiam a cada momento e de adaptar, improvisar e resolver questões concretas apenas aumenta o seu mérito e explica, aliás, o seu sucesso. Apenas uma pequena parte do manancial de conhecimento náutico da Europa medieval era útil na exploração do Atlântico. A tradição mediterrânica, velha de muitos séculos, estava adaptada à navegação costeira, típica de um lago como o Mediterrâneo, mas era insuficiente para navegar em alto-mar, sem vista de terra. Os conhecimentos teóricos já existiam na Europa, como se vê nos tratados medievais de Astronomia; mas faltava introduzi-los e adaptá-los à navegação, com instrumentos adequados às rotinas práticas dos pilotos e dos marinheiros. E porque foram os Portugueses a fazê-lo? Porque foram os primeiros a confrontar-se com os problemas técnicos que o exigiam». In Paulo Jorge Sousa Pinto, Os Portugueses Descobriram a Austrália? Porque foi Conquistada Ceuta? O arranque dos Descobrimentos, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-498-7.

Cortesia de E. dos Livros/JDACT

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Porque foi Conquistada Ceuta? O arranque dos Descobrimentos. Paulo Jorge Pinto. «Até ao século XVIII, a informação que circulava na Europa concedia aos Portugueses, o papel pioneiro na exploração do Atlântico e da costa africana, descrevendo o processo que culminaria com as viagens de Colombo e Gama»

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O ‘Arranque’ dos Descobrimentos. O infante Fernando foi realmente um mártir abandonado à sua sorte?
«(…) Contudo, a ideia, muito vulgarizada, de que os Portugueses o abandonaram à sua sorte, não abrindo mão da cidade de Ceuta por motivações estratégicas, não é verdadeira. Há três informações que escapam, geralmente, aos juízos e análises que se fazem a este assunto. A primeira é a fragilidade da dinastia merínida, que então reinava em Marrocos, assolada por disputas internas e desprestigiada devido às incursões portuguesas, o que dificultava as negociações e a diplomacia; a segunda é o clima de grande desconfiança entre as duas partes, agravada pelo adiamento por parte dos Portugueses a estabelecer o acordo e, evidentemente, pela tentativa frustrada em libertar o infante cativo. Finalmente, houve, de facto, uma decisão final para entregar Ceuta, já depois da morte do rei Duarte, e que mereceu a concordância do regente Pedro e da rainha D. Leonor. Foi ultimada uma embaixada para se dirigir a Ceuta, tomar o governo da cidade e proceder daí à troca do infante Fernando. Contudo, o navio em que seguia foi atacado, ao largo do cabo de S. Vicente, por um navio de piratas genoveses, causando a morte do embaixador. As negociações conheceram novo interregno, mas estava em curso um processo diplomático que poderia, eventualmente, ter obtido sucesso se a morte do infante, em 1443, não tivesse ocorrido em data tão prematura.

A primazia portuguesa nos Descobrimentos é hoje aceite sem reservas. Sempre foi assim?
Quando o público português tomou contacto com a obra de divulgação Os Descobridores, de Daniel J. Boorstinlo, nem todos terão reparado num pequeno capítulo (n.º 21,) dedicado aos Portuguese Sea Pioneers. Aqui é sucintamente descrito e apresentado o processo, as causas e as explicações que levaram o infante Henrique e os seus homens a assumir a vanguarda do descobrimento do mundo; nada que constitua surpresa para os leitores portugueses, afinal são matérias aprendidas desde os bancos da escola e que fazem parte do imaginário e das referências nacionais. Mas para outros públicos, foi certamente uma novidade. As informações contidas no livro não são especialmente interessantes, nem os Portugueses são pintados com cores particularmente elogiosas, assumindo esta questão uma tonalidade banal, perfeitamente assimilada e dentro dos parâmetros do conhecimento corrente e balizado pela comunidade científica. E é verdade, felizmente. Mas para se atingir este grau de anormalidade, numa obra com tão grande divulgação internacional, houve um longo caminho a percorrer entre disputas académicas e pessoais, lacunas informativas, preconceitos nacionalistas, interesses políticos e simples oportunismo.
Até ao século XVIII, a informação que circulava na Europa concedia aos Portugueses, sem grandes reticências, o papel pioneiro na exploração do Atlântico e da costa africana, descrevendo o processo que culminaria com as viagens de Colombo e Vasco da Gama. Os enciclopedistas da Luzes, que compilavam e sistematizavam informação e a faziam divulgar pela Europa, tinham acesso às crónicas portuguesas, sobretudo as Décadas de João de Barros, onde constavam estes dados. Por exemplo, a Histoire des Deux Indes, atribuída a Guillaume-Thomas Raynal, conhecido vulgarmente por Abade Raynal (1713-1796), que conheceu um extraordinário sucesso e divulgação na época, menciona as viagens tuteladas pelo infante Henrique e a importância da figura do rei João II.
Foi no século XIX que surgiram as primeiras obras que, apesar da falta de suporte documental e de credibilidade argumentativa, colocavam em causa o que até então era tomado como um dado adquirido: que os Portugueses haviam sido os primeiros a explorar o Atlântico e a desenvolver métodos e práticas de navegação modernas. A alteração estava ligada à forma como estas questões, que até essa altura eram meros dados históricos, adquiriram uma crescente importância internacional. De facto, as potências europeias começavam a interessar-se por África; Portugal, sem poder naval e militar para impedi-las, invocava direitos históricos decorrentes do facto de ter sido o primeiro a explorar essas paragens. A História foi, assim, mais uma vez utilizada ao serviço dos conflitos e das disputas entre as potências coloniais. Em 1832, o autor francês Louis Estancelin, deputado da região do Somme, publicou uma obra na qual defendia que os seus compatriotas (mais especificamente os Normandos da região de Dieppe) haviam explorado as costas africanas e navegado até à Guiné no século XIV, antes, portanto, dos portugueses. Coube ao visconde de Santarém, diplomata em Paris, rebater estes argumentos e provar definitivamente o contrário, alguns anos mais tarde. Não era uma disputa meramente académica: o argumento histórico tinha utilidade no conflito que opunha interesses portugueses e franceses na região do rio Casamansa, no actual Senegal». In Paulo Jorge Sousa Pinto, Os Portugueses Descobriram a Austrália? Porque foi Conquistada Ceuta? O arranque dos Descobrimentos, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-498-7.

Cortesia de E. dos Livros/JDACT

Mitos de Ontem e de Hoje. Idade Média. O Oceano e a Ásia eram povoados de monstros? Paulo Sousa Pinto. «Se os bosques, as montanhas ou os rios próximos escondiam seres temíveis ou mágicos, como esperar que terras distantes e desconhecidas não albergassem maravilhas ainda mais estranhas?»

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«(…) A estas criaturas semi-humanas acrescia um vasto rol de animais maravilhosos, como dragões, centauros, unicórnios, sátiros ou sereias, que se supunha viverem algures, em coordenadas mais ou menos imprecisas, no oceano ou em terras situadas além dos limites directamente conhecidos pelos Europeus. A Ásia longínqua, para lá do mundo muçulmano, suscitava especial interesse. Circulavam pela Europa várias compilações de maravilhas do Oriente, e uma em especial, a de John de Mandeville, conheceu grande difusão, tendo sido copiada, traduzida e, mais tarde, impressas. Este autor permanece um mistério. Aparentemente, trata-se de um relato de uma viagem realizada por um nobre inglês algures em meados do século XIV, mas essa personagem provavelmente nunca existiu e a viagem parece não passar de uma compilação de dados de viajantes reais misturada com histórias fabulosas.
Convém, contudo, relembrar que não era apenas o oceano desconhecido e a Ásia longínqua que se julgavam povoados de criaturas sobrenaturais. Bruxas, lobisomens, vampiros, anjos ou faunos preenchiam o imaginário e faziam parte do quotidiano dos Europeus, condicionando a forma como se relacionavam entre si e com o mundo em redor (tanto o natural como o sobrenatural). Se os bosques, as montanhas ou os rios próximos escondiam seres temíveis ou mágicos, como esperar que terras distantes e desconhecidas não albergassem maravilhas ainda mais estranhas? Como é natural, as descrições de monstros, seres maravilhosos e homens bizarros, assim como de fabulosas riquezas, que existiriam nas margens e para além do mundo conhecido, alimentavam a imaginação e excitavam tanto o temor como a curiosidade. Não eram, porém, um móbil suficientemente poderoso para iniciar um processo de descobrimento do mundo, como o que os Portugueses desencadearam na primeira metade do século XV, nem um travão inibidor capaz de impedir ou refrear a sua progressão e sucesso.

Antes dos Descobrimentos, pensava-se na Europa que a Terra era plana?
Tive uma professora no antigo ciclo preparatório que o afirmou uma velha sala de aula. Como não se tratava de uma docente de História ou Geografia, assumi que as suas palavras não passavam de um simples comentário, um mero eco de uma ideia muito comum. Uma Terra plana, quadrada e com abismos onde se pensava que se precipitariam os navios que se chegassem demasiado perto, ou um disco circular sob uma abóbada celeste, são ideias correntes, embora erradas, acerca do alegado pensamento dominante na Europa sobre a forma da Terra, até ao século XV. As viagens marítimas teriam sido, assim, um movimento de enorme ousadia e coragem, não só por contrariarem a tradição defendida por sábios e autoridades eclesiásticas, mas também por desafiarem um destino fatal que se tinha por certo. Estas noções erróneas, mas que permanecem enraizadas, ainda nos nossos dias, estão articuladas com o mito de uma Idade Média obscurantista, dominada por uma Igreja Católica ferozmente avessa ao espírito crítico e que defenderia, de forma dogmática, a ideia da Terra plana. A sua divulgação ficou a dever-se, em boa parte, ao físico americano John William Draper (1811-1882) e ao enorme sucesso e difusão da sua obra History of the Conflict between Religion and Science, de 1874.
É também fácil de constatar, em certa literatura de divulgação, sobretudo norte-americana, como Cristóvão Colombo era apresentado como um génio revolucionário decidido a provar que o mundo era redondo, contra o pensamento dominante, e obscurantista, da época. Aparentemente, foi o escritor americano Washington Irving (1783-1859) o criador e principal responsável pela difusão deste mito, na sua biografia do navegador (A History of the Life and Voyages of Christopher Columbus, 1828). No nosso tempo, existir quem defenda que a Terra é plana (como os membros da Flat Earth Society, fundada por Samuel Shenton em 1956 e actualmente com actividade residual) não passa de uma curiosidade bizarra, mas há séculos não o era seguramente. Contudo, esta ideia nunca prevaleceu e as tradições geográficas que a defendiam nunca conheceram expressão significativa». In Paulo Jorge Sousa Pinto, Os Portugueses Descobriram a Austrália? A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-498-7.

Cortesia de E. dos Livros/JDACT

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Mitos de Ontem e de Hoje. Idade Média. O Oceano e a Ásia eram povoados de monstros? Paulo Sousa Pinto. «A ocidente existia um vasto mar tempestuoso e desconhecido, do qual apenas emergiam ilhas lendárias, perdidas e envoltas em brumas de magia e superstição. A sul e a leste estava o mundo muçulmano…»

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«Uma das ideias mais comuns acerca dos Descobrimentos marítimos do século XV é a de que as viagens desvaneceram velhos mitos e ideias enraizadas sobre a existência de monstros e de criaturas fabulosas que alegadamente habitariam no oceano desconhecido, nas terras a sul do cabo Bojador e na Ásia. É comum falar-se do Mar Tenebroso da crença nos seres mitológicos que o povoariam e, até, de um abismo oceânico cujo receio impediria os Europeus de tentar passar o Bojador. Uma vez, mais precisamente em 2010, aquando do Campeonato do Mundo de Futebol na África do Sul, uma jornalista portuguesa chegou até, num directo televisivo, a misturar Bojador, Boa Esperança e Camões, ao apontar para um rochedo e afirmar que Bartolomeu Dias o teria confundido com o temível Adamastor, que aterrorizava os navegantes. Misturada com estas ideias está ainda a noção de que a Índia e as regiões asiáticas a oriente eram desconhecidas e que os Europeus estariam convencidos de que eram habitadas por monstros e criaturas míticas. Há uma tendência exagerada para realçar a ruptura entre o antes e o depois das viagens de exploração do século XV, a vários níveis e em diversas dimensões. Subsiste a ideia, herdada do Renascimento e da Idade Moderna europeia, de atribuir aos homens da Idade Média (a própria designação de medieval mantém hoje uma nítida carga pejorativa) todo um conjunto de atributos negativos, como superstição, crendice, ignorância, extrema religiosidade, ausência de espírito crítico, em oposição à curiosidade científica, racionalidade e desejo de conhecimento dos séculos posteriores.
Na verdade, o percurso foi bem mais lento, feito de pequenos passos e avanços: nem os homens dos séculos XIII e XIV eram exemplos acabados de nesciência beata, nem os navegadores do século XVI rejeitavam por completo as superstições e crendices que estavam enraizadas por toda a Europa. O conhecimento prático, concreto e real do mundo e a sua divulgação foi gradual e, muitas vezes, misturado com ideias antigas e desactualizadas. Ontem, como hoje, o peso da tradição não pode ser descartado de um dia para o outro. É curioso verificar como a mesma Europa que se entusiasmava e estava ávida de novas informações sobre as terras descobertas pelos Portugueses continuava, no século XVI, a divulgar, a produzir e a imprimir livros claramente desactualizados, cheios de erros grosseiros e velhas cantilenas fabulosas. Nada que nos admire; afinal, no tempo da chegada do robô Curiosity a Marte e da descoberta de dois planetas que orbitam duas estrelas a 5 mil anos-luz da Terra, a astrologia continua a ser muito popular e a cativar largas parcelas do público.
Desde a Antiguidade que circulavam na Europa histórias sobre o que se passava para além dos limites do mundo conhecido. Estes limites não eram rígidos e claramente definidos; eram, pelo contrário, muito difusos. A ocidente existia um vasto mar tempestuoso e desconhecido, do qual apenas emergiam ilhas lendárias, perdidas e envoltas em brumas de magia e superstição. A sul e a leste estava o mundo muçulmano, que formava uma espécie de barreira que circundava a Europa cristã, mas, apesar do antagonismo político-religioso que existia entre os dois blocos, as informações sobre o que existia mais além não deixavam de circular. Parte do conhecimento geográfico herdado dos Gregos e Romanos sobreviveu, aliás, por via dos autores árabes e persas. Contudo, esse conhecimento estava também imbuído de erros e distorções: uma boa parte das ideias fabulosas e dos seres maravilhosos que se supunha existirem no Oriente distante não eram invenções medievais, mas herança dos autores antigos. Por exemplo, as descrições de homens que se alimentavam de cheiros (astomi), ou só com um pé, que servia de sombrinha para se protegerem do Sol, (monocoli), ou sem cabeça e com os olhos e boca no meio do peito (blemmyae) ou, ainda, com orelhas enormes com as quais se cobriam (panotti), provinham de autores clássicos como Megástenes, Ctésias ou Plínio. Mesmo alguns viajantes medievais incluíram nos seus relatos histórias fabulosas, como o célebre Marco Polo que, entre outras referências bizarras, relata a existência de homens com cabeça de cão (cynocephali) nas ilhas Andaman, no golfo de Bengala». In Paulo Jorge Sousa Pinto, Os Portugueses Descobriram a Austrália? A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-498-7.

Cortesia de E. dos Livros/JDACT

quinta-feira, 1 de maio de 2014

O ‘Arranque’ dos Descobrimentos. Paulo Sousa Pinto. «… nada fazia prever, na viragem do século XV, que seriam os Portugueses quem tomaria a dianteira na exploração marítima do mundo e que, um século mais tarde, Portugal partilharia o mundo em zonas de influência com a vizinha Castela»

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Foram, de facto, os Portugueses os primeiros a desbravar o Atlântico?
«(…) O caso mais bem documentado e com bases mais seguras do ponto de vista arqueológico diz respeito a uma época posterior e a uma origem diferente: as navegações escandinavas nos finais do 1.º milénio da nossa era. É hoje aceite com poucas reservas que Erik Thorvaldsson (conhecido como Erik, o Vermelho),um viking exilado da sua terra natal, a Noruega, empreendeu viagens de exploração e colonização da Islândia e da Gronelândia, e que o seu filho Leif Eiriksson alcançou o continente americano, mais precisamente a região hoje conhecida como Newfoundland, no actual Canadá. Esta história está descrita nas chamadas Sagas de Vinland, nome dado pelos Vikings àquela terra, e atestada do ponto de vista arqueológico, com a descoberta em 1960, de uma colónia escandinava em L'Anse aux Meadows, hoje classificado como Património Mundial pela UNESCO. Foi, no entanto, uma iniciativa sem consequências. Até às viagens portuguesas do século XV, o Atlântico permaneceu um oceano misterioso e inexplorado. Apesar dos contactos prolongados entre as cidades italianas e a Flandres, por um lado, e o desenvolvimento das cidades na orla atlântica de Marrocos, mais a sul, a Europa continuava a desconhecer e a temer o oceano. Este manteve, durante ainda muito tempo, o epíteto que lhe deram os navegadores andaluzes e magrebinos: o de al-bahr-al-Mugbim, o Mar Tenebroso.

O que explica o pioneirismo dos Portugueses?
A explicação mais simples e vulgarizada é, simplesmente, a da coragem. Numa das suas séries televisivas, produzida há cerca de duas décadas, José Hermano Saraiva falava a bordo do navio-escola Creoula, em pleno alto-mar, para discorrer sobre as viagens portuguesas do século XV. Num dos episódios, um elemento da tripulação do navio, com aquela espontaneidade típica das perguntas combinadas, pergunta-lhe porque haviam sido os Portugueses a tomar a dianteira; seriam os marinheiros portugueses mais valentes do que outros? Ainda há poucos meses, uma revista de divulgação juvenil anunciava na capa: os Portugueses são os mais corajosos porque descobriram o mundo inteiro. E na altura não havia GPS. Qualquer pessoa que tenha lido as Viagens na Minha Terra lembrar-se-á do episódio da discussão entre campinos ribatejanos e pescadores de Aveiro, precisamente sobre força e valentia; estes últimos saem vencedores da contenda, quando argumentam que não há comparação possível entre a força de um touro e a força do mar. De facto, enfrentar o mar implica riscos, incertezas e uma grande dose de coragem; mas é um ponto de discussão que se coloca ao nível da conversa informal, ou no decorrer de uma viagem pelo Tejo, como ocorre na obra de Almeida Garrett ,e não no plano das causas explicativas e das motivações de um processo profundo, lento e complexo que levou a Europa a extravasar as suas fronteiras e a modificar o rumo da História mundial, e onde os Portugueses desempenharam papel central e pioneiro.
Não adianta muito, portanto, reclamar a coragem e a bravura dos navegadores do século XV. Também não é especialmente esclarecedor invocar a longa tradição marítima portuguesa, a sua extensa linha de costa debruçada sobre o Atlântico e a importância do mar para as populações costeiras: não só nada disto é particularmente marcante nem excepcional, se comparado com Biscainhos, Bretões ou Zelandeses, como não esclarece nada acerca do factor tempo: porquê os Portugueses e porquê naquela altura? De um modo geral, são invocadas explicações mais abrangentes: interesses económicos, curiosidade, espírito religioso, motivação política ou envolvimento social. Porém, não consta que, em comparação com Portugal, os mercadores da Flandres fossem menos empreendedores, os interesses dos reis de Castela fossem mais modestos, os Ingleses tivessem fervor religioso inferior ou os sábios franceses fossem menos curiosos e interessados no descobrimento do mundo.
Por muito que possa ofender algum brio nacionalista mais sensível, nada fazia prever, na viragem do século XV, que seriam os Portugueses quem tomaria a dianteira na exploração marítima do mundo e que, um século mais tarde, Portugal partilharia o mundo em zonas de influência com a vizinha Castela. Então, se não se tratou de um caso de bravura excepcional que permitiu enfrentar medos e temores, comuns e enraizados, e levou os Portugueses a arriscar o que outros não se atreveriam, e se os interesses, práticas, conhecimentos e motivações presentes no Portugal da época não diferiam substancialmente dos de outras paragens na Europa, o que explica o arranque das viagens de exploração do Atlântico e da costa africanaIn Paulo Jorge Sousa Pinto, Os Portugueses Descobriram a Austrália? Porque foi Conquistada Ceuta? O arranque dos Descobrimentos, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-498-7.

Cortesia de E. dos Livros/JDACT