Mostrar mensagens com a etiqueta John Updike. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta John Updike. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Procurai a Minha Face. John Updike. «A jovem, uma lâmina fina e nova no velho e fofo revestimento da cadeira, lê com a sua entrecortada voz nova-iorquina, uma voz que se inclina na direcção de Hope…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Deixe-me começar lendo para V, diz a jovem vestida de preto, uma figura esguia, sentada tensa e empertigada na beira da espreguiçadeira de um tecido xadrez grosseiro e desbotado, os braços de carvalho cor de laranja envernizados, que Hope conheceu inicialmente no solário em Germantown, onde seu avô se instalava para ler o jornal, com a cabeça reclinada para trás para usufruir as vantagens das grossas bifocais, sim, isso há mais de setenta anos, uma declaração sua tirada do catálogo ds sua última exposição, em 1996. Quando criança Hope sentava-se na cadeira tentando sentir como era ser adulta, apoiando seus pequenos cotovelos nos braços largos, espalhando os dedos, um anel de gordura em volta de cada articulação, na ponta da cavilha, que era encaixada no braço ligeiramente curvo, uma espécie de cunha de madeira com uma barra, a extremidade do assento fixando a cavilha. Os braços da cadeira eram separados demais para ela apoiar mais de um cotovelo e uma mão ao mesmo tempo. Devia ter, quanto?, uns cinco, seis anos. Mesmo quando nova, na década de 1920 ou ainda antes, a cadeira devia ter sido uma coisa desajeitada, deselegante, um tipo de mobília de verão torrando no calor do fundo do solário envidraçado, com o filodendro plantado no vaso e o descanso inclinado para os pés, e a parte de cima dividida como uma torta em longas fatias de couro triangulares de diferentes cores.
Quando a morte da avó nos anos 1950 provocou, por fim, a desmancha da casa de Germantown, Hope desejou a velha cadeira e, não havendo objecção do seu bem-humorado irmão sobrevivente, trouxe-a para Long Island, onde foi colocada no andar superior, no seu assim chamado estúdio, no qual às vezes ela tentava ler junto à janela que dava para o norte, a janela corrediça que deixava penetrar o vento que vinha do estreito de Block Island, enquanto lá em baixo Zack ouvia discos de jazz, Armstrong, Benny Goodman, um arranhado Beiderbecke, alto demais; e de lá para o apartamento com Guy e as crianças na East Seventy-ninth, no quarto extra dos fundos com as suas paredes pardas, ao lado do aquecedor que estalava como um prisioneiro demente enquanto ela tentava determinar o seu próprio ritmo com o pincel carregado de tinta; e dali para Vermont, onde ela e Jerry haviam comprado e reformado uma casa e lá se enfurnado no seu último reduto na vida, uma cadeira transportada da mormacenta Pensilvânia para um clima mais frio, mais alto, todavia dificilmente incongruente nesta saleta da frente despojada, afectada, de tecto baixo, os pés dianteiros redondos da cadeira pousados sobre o tapete oval de retalhos trançados em espiral, os pés traseiros quadrados sobre as tábuas do piso colorindo o reluzente preto-avermelhado de cerejeira, os marrons, os verdes e os estreitos carmins do tecido xadrez desbotando ainda mais num tom pálido, aqui na esparsa luz montanhosa do começo de Abril. Estranho, Hope pensava, como as coisas nos seguem de lugar em lugar, mais leais que amigos de carne e osso, que nos abandonam quando morrem. A casa de Germantown tornara-se grande demais nos últimos e solitários anos da sua avó, as suas grossas paredes de pedra foram abocanhadas até os peitoris do segundo andar por um sombrio matagal, hortênsias e azevinho e um pau-rosa cujos galhos se quebravam a cada tempestade de gelo ou neve, a caiação descascando e o reboco caindo em longos fragmentos quebradiços que se perdiam entre os caules de peónias, as raízes do pau-rosa. Ela tinha adorado morar lá quando pequena, mas depois que seus pais se mudaram para Ardmore, as visitas à casa davam uma sensação estranha, a gigantesca cicuta de ramos caídos ficara sinistra, o quintal com sua relva macia com um cheiro quente e estagnado, como o ar de uma estufa, a balança que o seu activo avôzinho, a primeira pessoa cuja morte Hope conheceu, tinha pendurado no galho de uma nogueira apodrecendo, as cordas e a tábua de um jeito eternamente negligenciado que a assustava.
A jovem, uma lâmina fina e nova no velho e fofo revestimento da cadeira, lê com a sua entrecortada voz nova-iorquina, uma voz que se inclina na direcção de Hope com uma pressão de ansiedade mas também com o que parece ser, sob esta luz trémula de um período tardio da vida, uma espécie de afectação filial, por um longo tempo vivi como reclusa, temendo as muitas evidências da não existência de Deus abundantes no mundo. O mundo veio-me lentamente, é a colcha de retalhos do Diabo, colorida em vez de imaculada. Restrinjo minhas atuais telas a tons de cinza cada vez mais juntos um do outro, como que na pré-aurora, antes de a luz começar a alçar as arestas para a existência. Estou tentando, pode ser, pintar a santidade. Suponho que deveria ficar lisonjeada quando alguns críticos chamam esta de minha melhor fase, eles escrevem que finalmente me livrei da sombra do meu primeiro marido. Mas miraculosamente, pode-se dizer, parei de me importar com o que eles pensam, ou que imagem tenho aos olhos de estranhos. Fim da citação. Isso foi há cinco anos. V diria que isto ainda é verdade? Hope tenta desacelerar a jovem, arrastando a sua própria voz como se fosse um pensamento. Bastante verdade, diria eu, apesar de soar num tom de autodramatização. Talvez temer seja forte demais. Sentir horror e desgosto em relação a ter sido mais acurado, e apropriado.
Hope sente um nó na garganta com a presença dessa intrusa nervosamente agressiva, com a sua face urbana branca, suas longas mãos de unhas escuras e o seu traje dogmaticamente preto, gola preta, jaqueta de couro sintético preta com um grande zíper central, cabelos pretos presos acima das orelhas por dois pentes curvos prateados e que caíam sobre as costas como um leque solto e sedoso, e o sinistro acabamento de um calçado grosseiro de bico quadrado, os cadarços passando por uma dúzia ou mais de ilhoses como duas escadinhas pretas subindo e sendo cobertas pelas bocas largas das suas calças, as quais eram feitas de um tecido finamente canelado, um pouco brilhante, que Hope nunca viu antes, um tecido sem nome. As botas, com aquele novo tipo de salto alto, largo para os lados mas estreito no sentido do comprimento, não aparentavam ser muito confortáveis, a não ser que agora o aspecto masculino fosse considerado confortável». In John Updike, Procurai a Minha Face, 2002, Civilização Editora, 2015, ISBN 978-972-262-409-1.

Cortesia de CivilizaçãoE/JDACT

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Pecados e Seduções. John Updike. «O sexo e a religião tinham odores distintos e antigos, as famílias estavam empoleiradas, como ninhos trémulos, sobre os ramos emaranhados da história passada, e a morte podia atacar a meio da noite»

jdact

«(…) Tinha vendido a sua quinta e mudara-se para Alton, a dezasseis quilómetros de distância. A seguir, com a Depressão, as suas poupanças esfumaram-se e a filha foi viver para lá com o marido e o filho. Um dos casais tinha uma casa e o outro tinha alguma capacidade de ganhar dinheiro. O pai de Owen era contabilista numa das tecelagens em Alton. A mãe arruivada de Owen, que nessa altura era magra, vendia tecidos num grande estabelecimento de Alton até ao dia em que o seu rapazinho lhe causou remorsos ao correr atrás dela pela Avenue, a soluçar, quando ela ia apanhar o eléctrico; largou o emprego para passar mais tempo com ele. O pai, Floyd Mackenzie, era de Maryland. A Owen tinha sido dado o nome de um avô que morrera antes de ele nascer, mas que, pelos relatos lendários da família, tivera uma mente brilhante, viva e inventiva, que eles pensavam ser resultado da sua viagem escocesa. Este primeiro Owen era dono de uma loja de ferragens em Mount Airy e inventava coisas no seu tempo livre, melhoramentos para as ferramentas que vendia, um extractor de ervas daninhas que uma pessoa podia usar sem se curvar, um aparador de sebes a motor para tornar o movimento bastante mais fácil, mas nenhuma companhia tinha pegado nas suas invenções para o tornar rico. Morrera falido e tuberculoso. No entanto, uma centelha das suas esperanças de levar a melhor às dificuldades tinha-se transmitido ao neto. Os Mackenzie não eram idiotas. O pai de Owen dissera-lhe: sais ao meu velhote. Tens a curiosidade intelectual dele. Ele gostava de estar sossegado a descobrir como é que as coisas funcionam. Quanto a mim, nunca me interroguei sobre nada, a não ser de onde viria. O outro avô, com quem Owen vivia, tinha também um pouco de sonhador quando vendeu a sua quinta e investiu em acções que se tornaram inúteis. Era um alemão da Pensilvânia, mas de uma estirpe adaptada, que falava perfeitamente o inglês, lia fielmente o jornal vespertino e embelezava a sua ociosidade com pensamentos amplos e declarações grandiloquentes. Owen reconhecia no velhote, com o seu bigode amarelado, os cabelos brancos e as mãos a gesticular, a melancolia do estrangeiro parcial que não tinha conseguido encontrar o seu caminho até às fontes do poder, aos segredos decisivos, no único ambiente que alguma vez conheceu.
O paizinho devia ter sido político, tem o dom da verborreia, dizia o seu genro; mas até Owen conseguia perceber que o avô era demasiado escrupuloso para a política, demasiado passivo no modo como ia passando os seus dias, a começar pelo quintal das traseiras, onde cavava e mondava a horta e podia fumar um cigarro, depois no quarto do andar de cima, onde fazia uma sesta, terminando no sofá da sala com espaldar de vime, onde se sentava à espera que a avó lhe preparasse o jantar. A casa deles era em Alton, mas, à excepção da filha única e da mulher, ninguém era de lá. A avó era a mais nova de dez irmãos, um membro de um clã populoso espalhado por todo o país. Alton, estava cheio de parentes dela, primos e sobrinhos; por vezes, a avó ganhava um dinheiro extra a ajudar um deles numa grande limpeza de Primavera ou a ajudar a preparar e a servir a refeição para uma grande reunião. Estes parentes tinham dinheiro: possuíam pequenos negócios ou ocupavam bons cargos nas fábricas de meias, usavam roupas boas e passavam férias nos montes Poconos ou na costa de Jersey. Quando Owen os ouvia falar da Tia Annie com simpatia, naquele tom sentimental e lento a que as pessoas da província facilmente se acostumam, ao princípio tinha dificuldade em perceber que se estavam a referir à avó. Nós somos pessoas diferentes, apercebeu-se ele, para pessoas diferentes. Depois de Owen ter partido, a sua povoação original parecia um lugar inocente e precioso, mas enquanto lá vivera não a vira dessa maneira. Aquilo era o mundo, com um passado impenetrável e limites para lá do horizonte. Havia cobras na erva e nos montes de pedras aquecidos pelo sol. O sexo e a religião tinham odores distintos e antigos, as famílias estavam empoleiradas, como ninhos trémulos, sobre os ramos emaranhados da história passada, e a morte podia atacar a meio da noite». In John Updike, Pecados e Seduções, 2004, Civilização Editora, 2008, ISBN 978-972-262-676-7.
                                                          
Cortesia de CivilizaçãoE/JDACT

Pecados e Seduções. John Updike. «A própria frase tinha um som terrível e pecaminoso e um gosto a cinzas de desastre, como as casas bombardeadas a fumegar que preenchiam os noticiários da Fox…»


jdact

«(…) Quando lhe disseram, na segunda classe, que teria de usar óculos para ler e para ver cinema, Owen chorou. Um dia, consolava-se a si mesmo, iria deixar de precisar deles. Talvez o facto de os ter encontrado não fosse exactamente um milagre, porque ele tomava aquele atalho por cima das ervas todos os dias para se encontrar com Buddy Rourke, o seu amigo da classe a seguir, para irem juntos para a escola, afastados do grupo de raparigas da 2ª Sfteet. Buddy perdera o pai, o que o tornava estranho e ligeiramente assustador. Era carrancudo e tinha pêlos entre as sobrancelhas. Tinha um cabelo liso e grosso, espetado para a frente, e uma boca que nunca sorria por causa do aparelho, uns arames de metal brilhante com um quadrado prateado no meio de cada dente. Owen teve vontade de correr até casa para contar à mãe que tinha encontrado os óculos e que o pai não ia ter de comprar uns novos, mas não se queria atrasar para ir ao encontro de Buddy e prosseguiu, apressado, com o estojo recuperado a deixar húmido o bolso dos seus calções, fazendo a pele da coxa arrepiar-se. Uma outra manhã, bem cedo, Owen ouviu o som de um tiro que vinha daquele lado da casa, para lá do terreno baldio. Ele estava a dormir. Parecia ter acordado no momento antes de escutar, como num sonho, o barulho que o acordou. Tinha visto filmes de gangsters vezes suficientes para reconhecer o som da pólvora sob percussão, mas nos filmes surgia em vagas de metralhadora, enquanto este era um som único e isolado. Os pais ouviram-no também, porque se agitaram no quarto deles, atrás da sua porta fechada, e as duas vozes, masculina e feminina, entrelaçaram-se. Depois, ficaram novamente em silêncio. Não estava muito escuro lá fora; as árvores no quintal ao lado eram silhuetas, volumes que emergiam daquela mancha de luz cinzenta, com um ligeiro tom rosado no céu, antes de os pássaros começarem a chilrear. A rua estava silenciosa, despojada de trânsito, nem mesmo uma carroça. Mais tarde, Owen ouviu uma sirene e, mais tarde ainda, a notícia, relatada ao pequeno-almoço pelo pai, que tinha ido à rua saber as novidades, de que um jovem da casa dos Hoffmans, duas portas a seguir ao terreno baldio, se tinha alvejado a si próprio com um revólver da tropa, um Colt 38 que Wes Hoffman guardara do seu tempo de serviço na Primeira Guerra Mundial. Danny Hoffman não tinha ainda vinte anos, mas uma criança sob a sua guarda num acampamento de Verão tinha mergulhado em água pouco profunda e partido o pescoço. A responsabilidade assombrava-o, apesar de aquilo ter acontecido no ano anterior. Danny nunca mais voltara a ser o mesmo; ficava em casa a escutar as séries da rádio e deixara de procurar emprego.
Estava explicado. Ao longo de uma dúzia de anos, desde a Depressão à Segunda Guerra Mundial, de 1933 a 1945, este foi o evento mais dramático no bairro de Owen. A mulher do outro lado da rua, mrs. Yost, tinha uma bandeira com uma estrela de cinco pontas na janela da frente, mas os seus cinco filhos soldados voltaram sãos e salvos. Skip Potteiger engravidou Mary Lou Brumbach, da casa ao lado, quando ela tinha apenas dezassete anos, mas a seguir casou com ela, portanto, ficou tudo bem, no Dia D, o bebé estava num carrinho que Mary Lou empurrava a caminho da Acme, por cima dos regos que levavam a água dos algerozes para as valetas e pelas lajes do passeio que as raízes dos castanheiros estavam a levantar, e que faziam as pessoas tropeçar quando andavam de patins. Nas tardes quentes de Verão, os sons das brigas familiares atravessavam a rua, vindos das janelas de rede da fila compacta das casas do outro lado, o lado alto, ao cimo das escadas de cimento dos muros que se inclinavam precariamente para fora. Mas não havia divórcios, de acordo com o que Owen recordava. Havia vozes alteradas e o som dos gritos e das portas a bater atravessava a vizinhança, mas os divórcios aconteciam noutros sítios, em Hollywood e em Nova Iorque, e eram escândalos trágicos, produzindo aquilo que ninguém, e certamente nenhuma criança, desejava: um lar desfeito.
A própria frase tinha um som terrível e pecaminoso e um gosto a cinzas de desastre, como as casas bombardeadas a fumegar que preenchiam os noticiários da Fox Movietone no Scheherazade, a sala de cinema local. O mundo estava cheio de destruição e de maldade, e apenas os Estados Unidos, ao que parecia, o podiam endireitar. O país estava em guerra e, na fantasia de Owen, o terreno baldio que ele via da janela do seu quarto era a cratera de uma bomba coberta pelas ervas. O salgueiro original mantinha-se vivo, mimado como um velho dignitário com injecções de pesticida e fertilizante nas suas raízes, através de buracos feitos com um pé-de-cabra; sobrevivia desde o tempo em que tinha havido uma fábrica de papel com uma azenha, um lago cheio de trutas e uma pista de terra para corridas de atrelados, antes de traçarem uma rede de ruas na planície baixa a norte do Pike. A casa de Owen, que, na verdade, não era a sua casa, nem mesmo a dos seus pais; ela pertencia aos pais da mãe dele, Isaac e Anna Rausch, era uma das maiores e mais antigas ao longo da Mifflin Avenue, comprada pelo seu avô quando se julgou rico, com o lucro da sua plantação de tabaco durante a Primeira Guerra Mundial». In John Updike, Pecados e Seduções, 2004, Civilização Editora, 2008, ISBN 978-972-262-676-7.
                                                          
Cortesia de CivilizaçãoE/JDACT

terça-feira, 10 de abril de 2018

Pecados e Seduções. John Updike. «Na Pensilvânia, as pousadas de arenito, sementes de povoações, algumas das quais floresciam e cresciam, enquanto outras se transformavam num amontoado decrépito…»

jdact

«(…) A primeira ficava na Pensilvânia: no distrito de Willow com uma população de quatro mil habitantes. Uma povoação que cresceu em fila ao longo da estrada, a partir de uma estalagem, quando o século XIX se transformou em XX, rodeada por campos de milho e de tabaco. A estrada, que seguia um rio para sueste ao longo de setenta quilómetros, acabava por chegar a Filadélfia, mas aqui fora baptizada como Mifflin Avenue, por causa do primeiro governador conflituoso de Keystone State. A cinco quilómetros para o outro lado ficava uma cidade de tamanho médio, Alton, Alton, com as suas fábricas de tijolo enegrecido metidas no meio das filas de casas, com os carris da ferrovia a cortar a baixa em duas, o bairro das prostitutas, conhecido como Pussy Alley (alameda das passarinhas), os bares de esquina com fachadas a imitar pedra, as salas de cinema com uma grandiosidade pseudo-islâmica e os seus restaurantes barulhentos e sebosos. Antros de ladroagem, chamava o pai dele aos restaurantes. O pai de Owen detestava comer fora; detestava ser servido, sobretudo por homens, que lhe davam a sensação de serem mais dispendiosos e mais intimidativos do que as empregadas; detestava a comida pesada dos restaurantes, que por vezes vomitava mais tarde como sinal de desdém; detestava a sobremesa, o imposto e a gorjeta. A mãe de Owen, sempre obesa, a não ser nas primeiras memórias do filho, adorava comer bem e ficava ali quieta, amedrontada e ressentida, enquanto o marido lhe estragava metodicamente o prazer, pelo menos, assim parecia ao filho único do casal, que interpretava aquele drama conjugal de um ponto de vista limitado: apesar de o seu cabelo ter o castanho baço e inofensivo do pai, - um cabelo tão fino que se levantava das suas cabeças quando tiravam o chapéu ou se sentavam perto de uma ventoinha, Owen tomava o partido da sua mãe de cabelos arruivados. No entanto, o medo que o pai tinha de ficar sem dinheiro residia no seu estômago e ficava lá a corroê-lo. Talvez não fosse por acaso que a migração da sua vida o tivesse levado para nordeste, para uma região de solo pedregoso e raso onde as pessoas têm relutância às despesas.
Na Pensilvânia, as pousadas de arenito, sementes de povoações, algumas das quais floresciam e cresciam, enquanto outras se transformavam num amontoado decrépito, estavam espaçadas em cerca de cinco quilómetros, a distância que um homem conseguia percorrer numa hora ou que uma parelha de cavalos conseguia fazer a puxar um atrelado num dia de Verão sem precisar de beber água. A vida do campo ainda controlava o tempo. Os velhos faziam a sesta a meio do dia. Os vizinhos da rua vendiam uns aos outros os espargos, feijões e tomates criados nos seus quintais; e a Mifflin Avenue, com a sua encosta alta que fazia a água da chuva correr para as valetas, ressoava de manhã com o bater lânguido dos cascos dos cavalos que puxavam as carroças em direcção ao mercado dos lavradores, a menos de um quilómetro de distância, ao fundo da estrada principal, a Alton Pike, que tinha linhas de eléctrico ao meio. Na altura em que Owen nasceu, em 1933, e foi trazido para Willow, para casa do seu avô, à falta de outra, Roosevelt era novo no cargo e a povoação, assim chamada por causa de um enorme salgueiro antigo junto à estalagem, com as raízes regadas pelo ribeiro que serpenteava em direcção a Filadélfia, tinha sido incorporada como um distrito. Tinham nascido ruas secundárias, paralelas à Mifflin Avenue, a 2nd Street e depois a 3rd e a 4th, por uma encosta acima, por onde as crianças andavam de trenó no Inverno, escorregando pela neve compacta, descendo velozmente pelos cruzamentos barricados até a corrida acabar com uma explosão de faíscas sobre o tapete de cinzas que o pessoal da câmara despejara à pazada de um camião. As faíscas, a neve compacta, as árvores de Natal no interior das casas ao longo de todo o caminho até à escola, tudo isto durava apenas alguns dias, a meio de um Inverno mortiço e húmido, mas fornecia memórias que duravam o ano inteiro e que faziam o tempo andar para a frente na eternidade virtual de uma criança.
O tempo morno durava de Março a Outubro. Uma neblina assentava sobre Willow. O pequeno quarto de Owen, com as suas paredes apaineladas e a pequena estante, dava para umterreno baldio onde muitas vezes brincava com as outras crianças da vizinhança durante uma hora depois do jantar, no Verão, num crepúsculo leitoso, com a erva longa e áspera já a dar sementes. Basebol, escondidas, futebol: as raparigas jogavam todas, dado que a vizinhança tinha mais raparigas do que rapazes. Uma vez, na erva emaranhada do terreno, calcada e molhada de orvalho, porque era Outono e a escola tinha começado novamente, Owen encontrou os seus óculos no estojo castanho, desaparecidos alguns dias antes. Encontrou-os! Tinha-os procurado em todo o lado, dentro de casa, e a sua mãe lastimara o problema que aquilo ia ser, porque o pai teria de pagar um outro par para os substituir. Era um milagre, julgou o garoto quando se baixou e pegou no estojo, molhado pelas noites e dias de espera paciente até que ele o encontrasse. Lá dentro, sim, ali estavam os discos de aros dourados que lhe apuravam a vista, as pequenas peças em forma de feijão que deixavam marcas no seu nariz, as hastes curvas de metal que lhe magoavam as orelhas». In John Updike, Pecados e Seduções, 2004, Civilização Editora, 2008, ISBN 978-972-262-676-7.
                                                          
Cortesia de CivilizaçãoE/JDACT

Pecados e Seduções. John Updike. «Quando era criança, Owen pressupunha que o mundo, de certa maneira, se começava a mover quando ele acordava»

jdact

«(…) Owen estica o lábio inferior para uma raspadela com a lâmina de esguelha, a fazer cócegas. Tenta barbear-se sem ver o seu rosto, que nunca foi exactamente o rosto que ele desejava, demasiado nariz, falta de queixo. Um aspecto de fragilidade atraente, porém, com um olhar penetrante e atento. Ultimamente, os vincos afundaram-lhe os cantos da boca e as pálpebras tornaram-se enrugadas como répteis do deserto, de tal forma que as suas pregas se projectam e lhe pesam sobre as pestanas, pela manhã. Owen detesta aquela sensação familiar de ter alguma coisa nos olhos, imprecisa mas irritante. Pólen. Uma pestana. Um vazo capilar rebentado. Atrás dele, através das matas, o som dos motores, o barulho dos carburadores e os apitos de aviso dos camiões em marcha, atrás deixam perceber a acanhada área comercial de Haskells Crossing, com um quarteirão ou dois de comprimento; é audível mas não é visível da casa dele, no seu esconderijo arborizado ao cimo da encosta. Apesar de conseguir ver claramente as luzes da cidade pelas janelas do andar de cima, Owen nunca encontrou um sítio na cidade de onde a sua casa fosse visível. Isso agrada-lhe; é como a sua consciência, invisível mas central.
Quando era criança, Owen pressupunha que o mundo, de certa maneira, se começava a mover quando ele acordava. O que tinha acontecido antes de acordar era como o tempo antes de ter nascido, um vazio que não conseguia imaginar. Surpreendia-o sempre o facto de as actividades matinais começarem tão cedo, tanto nas povoações como nas cidades, não apenas entre os pássaros do ditado que apanham as minhocas (o pássaro que madruga é que apanha a minhoca), como entre os homens, a pressa para apanharem o comboio das 6h 11m, o dono da mercearia já de volta com a sua camioneta, vindo do mercado ao ar livre junto a Callahan Tunnel, as jovens mães que fazem jogging, já com os seus quilómetros cumpridos antes de esperarem com os seus filhos na paragem do autocarro, os ociosos da povoação já instalados no seu banco junto ao monumento aos mortos da guerra, ali ao lado do antigo edifício em tijolo dos bombeiros, na rua principal, em frente à padaria. O padeiro, um canadiano francófono mal barbeado, com o peito mirrado pelo excesso de cigarros, está a pé desde as quatro, a tingir o ar frio com a fragrância dos croissants no forno, das tortas de canela e dos queques de mirtilo.
Owen consegue ver tudo isto com os olhos da mente, enquanto raspa o resto da espuma de barbear, projectando o queixo curto para a frente para alisar as pregas flácidas lá por baixo. O edifício dos bombeiros, se quiserem saber, é uma construção ornamentada do século XIX, quase demasiado estreita para o camião moderno recentemente adquirido pela Câmara de Cabot City, para a qual Haskells Crossing é um bairro limítrofe; depois de cada chamada, normalmente um falso alarme, o camião volta para a sua garagem, a apitar entusiasticamente, apenas com alguns centímetros de folga de cada lado. O monumento aos mortos da guerra é uma lista de nomes possível de expandir, em letras brancas amovíveis sobre uma superfície preta com ranhuras, por trás de um vidro, com os mortos de Haskells Crossing listados desde as guerras com os franceses e com os índios. O grupo maior está na Guerra Civil, e o seguinte sob a Segunda Guerra Mundial. Por baixo do conflito da Coreia (dois nomes), da intervenção no Vietname (quatro) e da acção de 1991 no Iraque (um único nome, um homem acidentalmente esmagado enquanto ajudava a descarregar um tanque de artilharia pesada MIAI Abrams de dentro de um avião de carga C-5 Galaxy, no aeroporto Al-Jubail, na Arábia Saudita), foi deixado um espaço considerável para baixas Futuras em conflitos futuros. É a economia previdente da Nova Inglaterra: Owen gosta dela. Ele encontrou aqui a sua derradeira povoação». In John Updike, Pecados e Seduções, 2004, Civilização Editora, 2008, ISBN 978-972-262-676-7.
                                                          
Cortesia de CivilizaçãoE/JDACT

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Pecados e Seduções. John Updike. «… escuta o rouxinol encarrapitado no seu poleiro favorito, no topo do cedro mais alto, numa longa reprimenda chilreada sobre uma coisa qualquer…»

jdact

«(…) A povoação de Haskells Crossing acorda em torno da sua encosta; o zumbido monótono e constante do trânsito introduz-se pelas paredes das casas de pinho e estuque e pelas matas isoladoras por trás delas. Os jornais, o Boston Globe para ele e o New York Times para ela, já foram entregues. Os pássaros já despertaram há muito tempo, os tordos picam à procura de vermes, os corvos escavam os relvados procurando larvas de percevejo, as andorinhas apanham mosquitos no ar, cada espécie a chamar-se entre si nos seus alegres códigos de cérebro de ervilha. Bom dia, Júlia!, grita ele para o fundo das escadas, a caminho da casa de banho. Owen! Já te levantaste!, responde o grito dela. É claro que estou levantado, querida. Meu Deus, já passa das sete! Quanto mais velhos ficam, mais falam como crianças. A voz deia chega ao cimo da escada, num tom ligeiramente reprovador, meio no gozo: dormes sempre até às oito, agora que não tens nenhum comboio para apanhar.
Querida, que mentirosa que tu és! Eu nunca durmo depois das sete; quem me dera, continua Owen, apesar de não ter a certeza se ela se afastou das escadas e se o consegue ouvir, mas isso é uma das coisas da velhice, acordar com as galinhas. Espera até acontecer o mesmo contigo. Palermices conjugais, já que se falou em códigos de cérebro de ervilha. Se o dia fosse um computador, pensa ele, era assim que se iria reiniciar: a carregar a memória principal, Júlia realmente dorme menos do que ele (tal como a sua primeira mulher, Phyllis), mas o facto de ela ser cinco anos mais nova sempre foi para Owen um motivo de orgulho e de estímulo sexual, tal como a visão dos seus dedos dos pés na frente das chinelas azuis. Ele também gosta de ver, por baixo do roupão de banho de Júlia, os seus calcanhares cor-de-rosa a afastarem-se, com os riscos verticais dos tendões de Aquiles a alternarem a cada passo rápido e firme, com os pés para fora ao modo característico das mulheres.
Mantêm esta conversa enquanto Owen está à porta da casa de banho, com a bexiga a doer, junto às escadas que descem para a cozinha. A imagem da sua amada Júlia, estendida nua e morta naquele sonho, a sensação de culpa que fazia o seu suicídio ser, na verdade, um homicídio cometido por ele, ainda estão mais nítidas do que os pormenores da realidade, o papel de parede com as suas rosas sépia e um brilho de metal baço, a nova carpete bege do átrio, com a sua base felpuda, espessa e fofa, o dia à sua frente com horas para escalar como se fossem os degraus de uma escada velha, perigosa e a abrir rachas. Enquanto se barbeia ao espelho pendurado junto à janela, onde a sua cara envelhecida, papuda e estragada pelo sol, cruelmente ampliada, aceita frontalmente a luz impiedosa, Owen escuta o rouxinol encarrapitado no seu poleiro favorito, no topo do cedro mais alto, numa longa reprimenda chilreada sobre uma coisa qualquer, alguma questão procedimental menor mas persistente. Todos estes níveis da Natureza local, os pássaros, os insectos, a fauna furtiva de esquilos e de marmotas a correr para dentro e para fora das suas tocas como se uma caçadeira os pudesse estoirar a qualquer instante, têm a sua própria rede de preocupações e de comunicações; para eles, o mundo humano é meramente um rebuliço à parte, uma estática incompreensível, uma interferência intermitente, raramente letal e sem nenhuma relação perceptível com a abundância orgânica (o lixo, os jardins) que a espécie humana põe à mesa da Natureza.
Eles desdenham de nós, pensa Owen. Devíamos ser deuses para eles, mas falta-lhes a nossa capacidade para venerar, para imaginar, com os terrores e os intrincados disparates mentais que a imaginação encerra, incluindo a invenção de uma vida póstuma. Os animais não fazem distinções entre nós e os outros bichos, ou entre nós e as pedras e as árvores, cada um com o seu cunho e relevância na luta pela existência. A terra oferece abrigo aos escorpiões, às marmotas e a milhões de formigas; as estrelas guiam os gansos do Canadá e as gaivinas do Árctico, as andorinhas-das-chaminés e as borboletas-monarcas nas suas enormes migrações anuais. Nós somos meros pontos por baixo das suas asas, as nossas cidades são interrupções sujas e estéreis no discurso de predador e presa. Não, não são interrupções, porque muitas espécies aceitam as nossas cidades como habitats, não apenas os ratos da cave e os morcegos do sótão, mas também os falcões e os pombos nos beirados dos arranha-céus e agora os veados destemidos mas indefesos que atravessam os quintais dos subúrbios, simultaneamente acarinhados e vistos como pragas». In John Updike, Pecados e Seduções, 2004, Civilização Editora, 2008, ISBN 978-972-262-676-7.
                                                          
Cortesia de CivilizaçãoE/JDACT

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Pecados e Seduções. John Updike. «O barulho das chinelas e o perigo que elas representam para as suas andanças, está sempre a tropeçar nos degraus, irritam-no»

JDACT

«Há muito tempo que a sua mulher acorda cedo, às cinco ou às cinco e meia. Pelos ritmos da sua química, por vezes diferentes dos de Owen, Julia desperta cheia de afecto por ele, pelo seu companheiro da viagem imóvel na cama, através de uma noite de sono imperfeito. Ela abraça-o e, sobrepondo-se aos seus protestos de que ainda está a dormir, declara, numa voz suave mas inflexível, o quanto o ama, o quanto está contente com o seu casamento. Sou simplesmente tão feliz contigo! Isto ao fim de vinte e cinco anos de vida em comum. Ele tem setenta anos, ela sessenta e cinco; esta declaração, importante para Julia, insulta-o ligeiramente: como não podia ser? Depois de todas as suas provações e do sofrimento que causaram a outros? Eles conseguiram atravessá-las; aqui estão eles, chegados à outra margem. Julia puxa-o; vira a cabeça dele para lhe conseguir beijar a boca. Mas os lábios de Owen estão inchados e insensíveis com ir sono; no seu estado anestesiado, com os nervos baralhados, aquilo parece uma tentativa para o sufocar, e aquele gesto irrita-o solenemente. Depois de alguns minutos de mais provocações amorosas, em que ele continua teimosamente sem reagir, a proteger a possibilidade de regressar aos seus sonhos, Julia cede e levanta-se da cama. Owen, esticando-se, satisfeito, para o espaço que ela deixou vago, continua a dormir por mais uma hora ou duas.
Certa manhã, durante esta última hora roubada, ele sonha que, numa casa que não conhece (tem o aspecto degradado de um local público, como uma estalagem ou um hospital), vultos graves e sem rosto o conduzem a um quarto onde, numa cama como a deles, duas camas individuais unidas para fazerem uma muito grande, um homem, bastante jovem, a avaliar pela suavidade do seu corpo branco, com as nádegas roliças, está estendido por cima da sua mulher, como se tentasse reanimá-la ou (muito pelo contrário) escondê-la. Quando, sob as ordens silenciosas dos vultos graves que o acompanham, este estranho se afasta, o corpo da mulher de Owen, também nu, fica a descoberto de barriga para cima: o ventre branco e flácido, os seios achatados pela gravidade, o sexo que ele ama e conhece, com a sua rama de pêlos ralos. Ela está morta, suicidou-se. Encontrou a maneira de se libertar do seu sofrimento. Se eu não tivesse interferido na vida dela, ainda estaria viva, pensa Owen. Tem ânsias de a abraçar, de afazer voltar à vida, de sugar o veneno que a sua existência destilou sobre a dela.
A seguir, devagar, com relutância, como alguém que desvia a atenção de um enigma ainda por resolver, Owen acorda, e é claro que ela não está morta; Julia está no andar de baixo, de onde vem um cheiro a café e o ruído de um noticiário matinal: várias vozes bem-humoradas, masculinas e femininas. O trânsito e o tempo; Julia adora as duas coisas e estas contingências crónicas e diárias nunca deixam de lhe interessar, apesar de já não ir para o emprego em Boston há três anos. Owen ouve as chinelas de borracha azul que ela insiste em usar, como se fosse eternamente jovem e estivesse vestida para a praia, a chinelar de um lado para o outro pela cozinha, do frigorífico para o balcão, da mesa do pequeno-almoço até ao lava-loiça, até ao processador do lixo e à máquina de lavar roupa, e a seguir até à sala de jantar, para regar as suas plantas. Ela adora as plantas com o mesmo órgão emocional, talvez, com que adora o boletim meteorológico. O barulho das chinelas e o perigo que elas representam para as suas andanças, está sempre a tropeçar nos degraus, irritam-no; no entanto, ele gosta de ver os seus dedos dos pés à mostra, ligeiramente afastados, como os dos pés das operárias asiáticas, com as pequenas articulações esbranquiçadas pela tensão de segurar as chinelas. Julia é uma morena baixinha com um corpo compacto; ao contrário da sua primeira mulher, ela fica com um belo bronzeado suave. Há dias em que, algo excitado, Owen só consegue voltar a adormecer quando se lembra de uma das mulheres, Alissa ou Vanessa, Karen ou Faye, que partilhavam com ele a povoação de Middle Falls, no Connecticut, nos anos sessenta e setenta. Com a mão a agarrar o membro sonolento, alivia-se como se tivesse uma delas por baixo, ao seu lado ou por cima, ou a segurar o cabelo para trás enquanto inclina o rosto para o centro intumescido de Owen, cujos nervos gritam pelo contacto húmido e expedente; mas hoje não é um desses dias. O sol branco da Primavera, cada vez mais forte, brilha brutalmente por baixo da persiana da janela. O mundo real, um tigre imune aos sonhos de Owen, aguarda. Está na altura de se levantar e de suportar um dia muito parecido com o de ontem, um dia que o seu optimismo animal presume que vai ser o primeiro de uma sequência que se estenderá infinitamente pelo futuro, mas que o seu cérebro, hipertrofiado na espécie Homo sapiens, sabe que é apenas mais um de uma quantidade finita e a diminuir». In John Updike, Pecados e Seduções, 2004, Civilização Editora, 2008, ISBN 978-972-262-676-7.

Cortesia de CivilizaçãoE/JDACT