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sábado, 25 de fevereiro de 2023

Poesia. Soneto. Antero de Quental. «Mas que filha de reis, que anjo ou que fada, era essa que assim a mim descia, do meu casebre à húmida pousada?»

jdact

1862 - 1866

Visita

«Adornou o meu quarto a for do cardo,

Perfumei-o de almíscar recendente;

Vesti-me com a púlpura fulgente,

Ensaiando meus cantos, como um bardo.


Ungi as mãos e a face com o nardo

Crescido nos jardins do Oriente,

A receber com pompa, dignamente.

Misteriosa visita a quem aguardo.


Mas que filha de reis, que anjo ou que fada

Era essa que assim a mim descia,

Do meu casebre à húmida pousada?


Nem princesas, nem fadas. Era, flor,

Era a tua lembrança que batia…

Às portas de ouro e luz do meu amor!

In Antero de Quental, Sonetos Completos, Publicações Europa-América, 1998, ISBN 972-104-421-0.


Cortesia de PEAmérica/JDACT

JDACT, Antero de Quental, Poesia, Açores, Cultura,

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Poesia. Soneto. Antero de Quental. «Sim, vivo e quente! E já a luz do dia não virá dissipá-lo nos meus braços como névoa da vaga fantasia…»

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1862 - 1866

Amor Vivo

«Amar! Mas dum amor que tenha vida…

Não sejam sempre tímidos harpejos,

Não sejam só delírios e desejos

Duma doida cabeça escandecida…

 

Amor que viva e brilhe! Luz fundida

Que penetre o meu ser, e não só beijos

Dados no ar, delírios e desejos

Meu amor… dos amores que têm vida…

 

Sim, vivo e quente! E já a luz do dia

Não virá dissipá-lo nos meus braços

Como névoa da vaga fantasia…


Nem murchará do Sol à chama erguida…

Pois que podem os astros dos espaços

Contra uns débeis amores… se têm vida?»

In Antero de Quental, Sonetos Completos, Publicações Europa-América, 1998, ISBN 972-104-421-0.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

 JDACT, Antero de Quental, Poesia, Açores, Cultura,

domingo, 11 de setembro de 2022

A Geração de 70. Uma Revolução Cultural e Literária. Álvaro Manuel Machado. «A Geração de 70 veio arrancar dessa modorra de degenerescência romântica não só a literatura portuguesa mas sobretudo, de uma maneira geral, a cultura portuguesa»

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Tragédia. Ironia. Sátira

«(…) Ora, a chamada Geração de 70, a de Antero, que foi também a de Eça de Queirós, a de Oliveira Martins e, a um nível culturalmente e esteticamente inferior, a de Ramalho Ortigão e alguns outros, sentiu-se atraída por essa pretensa aceleração, essa vertigem, esse totalitarismo da história de que fala Octávio Paz. Só que, como é óbvio, essa vertigem e esse totalitarismo se manifestaram de diferentes maneiras, consoante a formação cultural e o próprio temperamento criador de cada um.

Assim, em Antero de Quental tudo é tragédia. Tragédia estritamente pessoal (apesar das suas implicações colectivas) que o conduziu ao suicídio como a um fim inevitável, tornado inevitável pela própria lógica do mecanismo das ideias. Da mesma maneira, em Oliveira Martins o trágico predomina, um trágico inseparável da sua ideia da decadência histórica de Portugal. Inseparável, paralelamente, do que no essencial é a sua teoria da história, resumida na frase, extremamente ambígua: um homem é um momento. Em Eça de Queirós, pelo contrário, tudo tomou a forma de jonglerie irónica. Lâmina de dois gumes, a ironia não deixa, porém, em Eça como noutros (raros na literatura portuguesa), de ser comédia e tragédia ao mesmo tempo: ela desencadeia o riso para logo fazer dele um esgar. É que, como diz Vladimir Jankelevitch, l’ironie regarde ailleurs, ela pertence ao domínio da consciência inquieta e multiforme. Já em Ramalho Ortigão, destituído de grande capacidade criadora e com igualmente menor capacidade de percepção do que no homem e do que do homem perante a história é mais complexo, tudo se tornou sátira, mera caricatura. Tudo descambou nesse gargalhar a que muito frequentemente se reduz o pretenso espírito hiper-crítico do português. Mas o riso ramalhal não deixa de ter o seu lugar importante no conjunto da cultura portuguesa oitocentista. Como diz o próprio Eça, que a bem dizer nunca ria mas, como já vimos, sorria ironicamente, fazendo-o com funda e finíssima amargura, nessa Lisboa fin-de-siècle o que ainda tornava a vida tolerável era de vez em quando uma boa risada. (...) Só nós aqui, neste canto do mundo bárbaro, conservamos ainda esse dom supremo, essa coisa bendita e consoladora, a barrigada de riso!

Romantismo e revolução cultural

Seja como for, seja qual for o nível da capacidade crítica e da capacidade inventiva pessoais, o certo é que a chamada Geração de 70 representa, em Portugal, uma profunda revolução cultural. Até então, tinham-se criado hábitos de um romantismo demasiadamente limitado aos problemas (e também às obsessões) nacionais. Se, apesar das suas limitações, que são justamente as que se ligam a um certo nacionalismo cultural excessivo, o nosso primeiro romantismo, o da Geração de 1830, trouxe com Garret e Herculano qualquer coisa de novo e de perdurável, a verdade é que, por meados do século XIX, o que restava desse romantismo pouco era. À parte o vulto tutelar de Camilo, que no entanto se fica por um balzaquismo regionalista lusitano, um balzaquismo sem Balzac, o período que sucede ao primeiro romantismo português e que vai de cerca de 1850 a cerca de 1870, não é fértil em criações verdadeiramente originais. Sobretudo, rareiam os contactos com o estrangeiro a nível das grandes criações de ideias.

A Regeneração do marechal Saldanha (1851) é um período de modorra confortável para esses escritores que sucedem a Garrett e a Herculano, esses escritores que, querendo escapar à monótona ordem burguesa conservadora que impera na Europa após o fracasso das insurreições de 1848, se refugiam no mais fácil sentimentalismo bucólico ou fatalista ou então no mais provinciano culto, quer da literatura filosófica de importação, quer do panfleto literário. Para evocar alguns exemplos, citem-se os dramalhões históricos ou os chamados dramas da actualidade de um José Silva Mendes Leal (1818-1886), o lirismo vagamente à la manière de Lamartine de um Bulhão Pato (1829-1912) ou de um António Augusto Soares Passos (1826-1860).

A Geração de 70 veio arrancar dessa modorra de degenerescência romântica não só a literatura portuguesa mas sobretudo, de uma maneira geral, a cultura portuguesa». In Álvaro Manuel Machado, A Geração de 70 - Uma Revolução Cultural e Literária, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, Instituto Camões, Livraria Bertrand, 1986.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT

JDACT, Instituto Camões, Antero de Quental, Álvaro Manuel Machado, Conhecimento,

A Geração de 70. Uma Revolução Cultural e Literária. Álvaro Manuel Machado. «… Octávio Paz apresenta o exemplo da revolução mexicana, que nos leva igualmente a duvidar da pretensa aceleração da história, pois no México actual estamos mais próximos da época do Vice-Rei…»

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Revolução e Memória

«(…) Assim, no que diz respeito à nossa história, em especial à nossa história cultural e política, a posição dos intelectuais portugueses da geração de 1830, a de Alexandre Herculano, e a da geração de 1870, a de Antero de Quental, relativamente à teoria e à prática da revolução difere, mantendo no entanto pontos comuns essenciais em que, para lá da formação filosófica e política universalista que caracterizou ambas, se denotam elementos específicos da história de Portugal. De facto, para citar apenas Herculano e Antero, ambos participam activamente em movimentos revolucionários com ideias e com acções e ambos acabam por se retirar totalmente do palco da história, profundamente decepcionados. Ambos recorrem ao esquecimento, Herculano através do seu exílio voluntário de Vale de Lobos, Antero através do exílio igualmente voluntário e definitivo do suicídio. Ambos, embora a níveis muito diferentes de psiquismo pessoal, se recusam a aceitar a, digamos, memória artificial, mecânica, de uma revolução que nunca chegou a sê-lo inteiramente, a memória tornada praxis falsamente revolucionária. Ao Antero apolíneo e hegeliano do Hino à Razão opõe-se o Antero nocturno e, afinal, sobretudo baudelairiano (apesar da influência aparentemente predominante de Heine) das Primaveras românticas e em especial destes versos:

Este coração cansado!

O que ele quer é dormir

...O que ele quer é deitar-se

No leito do esquecimento.

(Ao luar)

No fundo, o que esquece Antero? Esquece a própria memória e a sua função historicamente mediadora. Esquece a própria memória, e nisto o seu esquecimento difere essencialmente do de Herculano, o qual, tentando esquecer a decepcionante realidade da evolução política, social e económica da Revolução Liberal de 1820, que acabou no Fontismo, nem por isso renega o valor do movimento revolucionário em si como recuperação de uma memória histórica que sucedesse ao esquecimento momentâneo do passado e à visão utópica do futuro. Daí a sua idealização propriamente romântica do Portugal pré-constitucional até 1385. Antero, pelo contrário, como autêntico revolucionário que foi da Geração de 70 e, portanto, mentor de uma utopia revolucionária mais próxima do século XX, intimamente ligada ao niilismo, esquece a própria memória, nega-a na medida em que nega o Estado como memória da nação, a Igreja como memória da alma, o partido como memória de classe.

Este esquecimento, anarquista no sentido mais absoluto do termo, que é no caso de Antero o de uma anarquia hegeliana do espírito, envolvido momentaneamente na aceleração da história, não pode conduzir senão à morte. Essa morte que está na raíz de uma ilusória aceleração da história. Como diz Octávio Paz:

A aceleração do tempo histórico não passa de uma ilusão. As mudanças e as convulsões que, ora nos angustiam ora nos deslumbram, são talvez muito menos profundas e decisivas do que nós supomos.

E, depois de citar a União Soviética como exemplo típico de uma apenas aparente ruptura entre passado e futuro, verificando-se actualmente a predominância nítida de elementos tradicionais da antiga Rússia (um mundo burocrático e um terror policial semelhantes ao do czarismo), Octávio Paz apresenta o exemplo da revolução mexicana, que nos leva igualmente a duvidar da pretensa aceleração da história, pois no México actual estamos mais próximos da época do Vice-Rei e mesmo do mundo pré-hispânico do que da época da Revolução. In Álvaro Manuel Machado, A Geração de 70 - Uma Revolução Cultural e Literária, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, Instituto Camões, Livraria Bertrand, 1986.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT

JDACT, Instituto Camões, Antero de Quental, Álvaro Manuel Machado, Conhecimento, 

A Geração de 70. Uma Revolução Cultural e Literária. Álvaro Manuel Machado. «Antero, pelo contrário, como autêntico revolucionário que foi da Geração de 70 e, portanto, mentor de uma utopia revolucionária mais próxima do século XX…»

 

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Revolução e Memória

«A alguns de nós, portugueses de após o 25 de Abril, a chamada Geração de 70 poderá parecer, antes de mais, uma estranha geração de, digamos, revolucionários falhados. Ou mesmo de revolucionários anti-revolucionários. Ou mais simplesmente: de idealistas cépticos. Cépticos porque cultivaram, uns mais outros menos, o cepticismo fin-de-siècle e por vezes altamente blasé do pós-romantismo europeu. Idealistas, no sentido mais rigoroso do termo (convicção de que o poder absoluto das ideias transforma o mundo), porque, cultivando esse cepticismo, idealizavam ao mesmo tempo um Portugal que, de facto, nem existia na época em que viveram, fim de uma monarquia provinciana, colonizada social, económica e culturalmente pelos ingleses e pelos franceses e princípio da formação de uma ideologia republicana positivista, pequeno-burguesa e diletante, nem talvez tenha existido nunca.

Mas, se reflectirmos bem, todo este paradoxal cepticismo-idealismo da Geração de 70 tem a ver essencialmente com todo o grande drama do homem moderno, que é o drama da obsessão revolucionária e das suas relações com o tempo. De facto, se analisarmos atentamente o comportamento político do homem moderno, ou, para ser mais exacto, do homem ocidental desde o princípio do nosso século (e a Geração de 70 foi dele precursora em Portugal), somos levados a analisar o seu (essencialmente inconsciente ou subconsciente) comportamento perante o tempo. Tentado pela grande aventura ideológica da revolução total, universal, e não (pelo menos na aparência) fundamentalmente nacionalista, o homem moderno, herdeiro directo do século XIX e sobretudo da Revolução Francesa, parece querer esquecer o passado e com ele o tempo primordial dos grandes mitos das origens. Ou antes, pretende dominar este tempo primordial através de uma sistematização de ideias revolucionárias que conduz à ideia-base de um fim absoluto da história, atitude que, afinal, sobretudo no que diz respeito à ideologia revolucionária marxista, se enraíza nos elementos propriamente judaicos do Cristianismo como esperança escatológica.

De certo modo, todo o acto revolucionário é um acto de esquecimento. Através dele, recorre-se ao instante de aparente convergência total do passado, do presente e do futuro para esquecer o passado histórico de um país no seu todo, bem como o de uma estruturação social, e mesmo o passado privado de cada indivíduo em si. Melhor ainda: esquece-se o passado no seu todo para o confundir com um futuro ainda inevitavelmente obscuro graças à omnipotência de um presente igualmente obscuro mas pleno de promessas miríficas, de valores utópicos. Mas até quando e até onde vai esse esquecimento? Não tarda muito que esse esquecimento revolucionário fulgurante do passado colectivo e individual se torne teologia terrorista baseada numa falsa continuidade histórica, ideologicamente codificada e controlada (e é contra isso que, profeticamente, se revolta um Dostoievski). Porquê? Por uma contradição fatal que está na base de toda a revolução moderna, contradição que remonta aos grandes precursores do romantismo revolucionário (a começar por Rousseau), os quais atacaram tudo o que era não-racionalista e, portanto, pregaram a revolução total como solução racionalista universal, para logo recusarem e até atacarem tudo o que na revolução era sistemático, dogmaticamente racionalista, origem de um terror revolucionário incontrolável, degradação ética, limitação burocrática e fanaticamente partidária. O romantismo e o que se lhe seguiu consistiu, em suma, ao nível histórico, nessa suprema contradição que foi a negação do Iluminismo, o qual esteve na sua origem e do qual dependeu inteiramente. O que, no plano das ideias e dos acontecimentos revolucionários, se traduziu em conflitos dramáticos que se arrastam desde a Revolução Francesa de 1789 e desde começos do século XIX nos países que a tomaram como modelo». In Álvaro Manuel Machado, A Geração de 70 - Uma Revolução Cultural e Literária, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, Instituto Camões, Livraria Bertrand, 1986.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT

 JDACT, Instituto Camões, Antero de Quental, Álvaro Manuel Machado, Conhecimento,

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Odes Modernas. Antero de Quental. « Se, desde Prometeu até Jesus, o fazem ir …, estranho peregrino, o Homem, tenteando a grossa treva, vai..., mas ignora sempre quem o leva! »


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Panteísmo
[…]
III
«Fecundou!... Se eu nas mãos tomo um punhado
Da poeira do chão, da triste areia,
E interrogo os arcanos o seu fado,

O pó cresce ante mim..., engrossa..., alteia...
E, com pasmo, nas mãos vejo que tenho
Um espírito! O pó tornou-se ideia!

Ó profunda visão! Mistério estranho!
Há quem habita ali, e mudo e quedo
Invisível está..., sendo tamanho!

Espera a hora de surgir sem medo,
Quando o deus encoberto se revele
Com a palavra o imortal segredo!

Surgir! Surgir!…, é a ânsia que os impele
A quantos vão na estrada do infinito
Erguendo a pasmosíssima Babel!

Surgir! Ser astro e flor! Onda e granito!
Luz e sombra! Atracção e pensamento!
Um mesmo nome em tudo está escrito…
                                                           
Eis quanto me ensinou a voz do vento.

1865 - 1874.


À História
I                                                            
Mas o Homem, se é certo que o conduz,
Por entre as cerrações do seu destino,
Não sei que mão feita d’amor e luz
Lá para as bandas d’um porvir divino...
Se, desde Prometeu até Jesus,
O fazem ir …, estranho peregrino,
O Homem, tenteando a grossa treva,
Vai..., mas ignora sempre quem o leva!

Ele não sabe o nome de seus Fados,
Nem vê de frente a face do seu guia.
Onde o levam os deuses indignados?...
Isto só lhe escurece a luz do dia!
Por isso verga ao peso dos cuidados;
Duvida e cai, lutando em agonia:
E, se lhe é dado que suplique e adore,
Também é justo que blasfeme e chore!

Já que vamos, é bom saber aonde...
O grão de pó que o simoun levanta,
E leva pelo ar e envolve e esconde,
Também, no turbilhão, se agita e espanta,
Também pergunta aonde vai e d’onde
O traz a tempestade que o quebranta...
E o homem, bago d’água pequenino,
Também tem voz na onda do destino!

Porque os evos, rolando, nos lançaram
Sobre a praia dos tempos, esquecidos,
E, náufragos d’uma hora, nos deixaram
Postos ao ar, sem tecto e sem vestidos.
Estamos. Mas que ventos nos deitaram
E com que fim, aqui, meio partidos,
Se um Acaso, se Lei nos céus escrita...
Eis o que a mente humana em vão agita!

Ó areias da praia, ó rochas duras,
Que também prisioneiras aqui estais!
Entendeis vós acaso estas escuras
Razões da sorte, surda a nossos ais?
Sabê-las tu, ó mar, que te torturas
No teu cárcere imenso? E, águas, que andais
Em volta aos sorvedouros que vos somem,
Sabeis vós o que faz aqui o Homem?»
[…]
In Antero de Quental, Antologia, Odes Modernas
Organizacao de José Lino Grunewald e Maria Fernanda AM Andrade

JDACT

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Odes Modernas. Antero de Quental. «E todavia ardente... , eterno alento! Teu sopro é que fecunda a esfera vasta... Choras na voz do mar..., cantas no vento...»

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Panteísmo
[…]
«Ide! Crescei sem medo! Não e avara
A alma eterna que em vós anda e palpita...
Onda, que vai e vem e nunca pára!
Em toda a forma o Espírito se agita!
O imóvel é um deus, que está sonhando
Com não sei que visão vaga, infinita...

Semeador de mundos, vai andando
E a cada passo uma seara basta
De vidas sob os pés lhe vem brotando!
Essência tenebrosa e pura..., casta
E todavia ardente... , eterno alento!
Teu sopro é que fecunda a esfera vasta...
Choras na voz do mar..., cantas no vento...

II
Porque o vento, sabei-o, é pregador
Que através das soidões vai missionando
A eterna Lei do universal Amor.
Ouve-o rugir por essas praias, quando,
Feito tufão, se atira das montanhas,
Como um negro Titã, e vem bradando...

Que imensa voz! que prédicas estranhas!
E como freme com terrível vida
A asa que o libra em extensões tamanhas!
Ah! quando em pé no monte, e a face erguida
Para a banda do mar, escuto o vento
Que passa sobre mim a toda a brida,

Como o entendo então! e como atento
Lhe escuto o largo canto! e, sob o canto,
Que profundo e sublime pensamento!
Ei-lo o Ancião-dos-dias! ei-lo, o Santo,
Que já na solidão passava orando,
Quando inda o mundo era negrume e espanto!

Quando as formas o orbe tateando
Mal se sustinha e, incerto, se inclinava
Para o lado do abismo, vacilando;
Quando a Força, indecisa, se enroscava
Às espirais do Caos, longamente,
Da confusão primeira ainda escrava;

Já ele era então livre! e rijamente
Sacudia o Universo, que acordasse...
Já dominava o espaço, onipotente!
Ele viu o Princípio. A quanto nasce
Sabe o segredo, o gérmen misterioso.
Encarou o Inconsciente face a face,
Quando a Luz fecundou o Tenebroso».
[…]
In Antero de Quental, Antologia, Odes Modernas
Organizacao de José Lino Grunewald e Maria Fernanda AM Andrade

JDACT

domingo, 31 de dezembro de 2017

No 31. Sonetos. Antero de Quental. «E a mim, a quem deu olhos para ver-te, sem poder mais... A mim o que me há dado? Voz que te cante e uma alma para amar-te!»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Pôs-te Deus sobre a fronte a mão piedosa:
o que fada o poeta e o soldado
volveu a ti o olhar, de amor velado,
e disse-te: vai, filha, sê formosa!

E tu, descendo na onda harmoniosa,
pousaste neste solo angustiado,
estrela envolta num clarão sagrado,
do teu límpido olhar na luz radiosa...

Mas eu... Posso eu acaso merecer-te?
Deu-te o Senhor, mulher! O que é vedado,
anjo! Deu-te o Senhor um mundo à parte.

E a mim, a quem deu olhos para ver-te,
sem poder mais... A mim o que me há dado?
Voz que te cante e uma alma para amar-te!»

«Porque descrês, mulher, do amor, da vida?
Porque esse Hermon transformas em Calvário?
Porque deixas que, aos poucos, do sudário
te aperte o seio a dobra humedecida?

Que visão te fugiu, que assim perdida
buscas em vão neste ermo solitário?
Que signo obscuro de cruel fadário
te faz trazer a fronte ao chão pendida?

Nenhum! Intacto o bem em si assiste:
Deus, em penhor, te deu a formosura:
bênçãos te manda o Céu em cada hora.

E descrês do viver?... E eu, pobre e triste,
que só no teu olhar leio a ventura,
se tu descrês, em que hei-de eu crer agora?»

«No Céu, se existe um céu para quem chora,
céu para as mágoas de quem sofre tanto...
Se é lá do amor o foco, puro e santo,
chama que brilha, mas que não devora...

No Céu, se uma alma nesse espaço mora,
que a prece escuta e enxuta o nosso pranto...
Se há pai, que estenda sobre nós o manto
do amor piedoso... Que eu não sinto agora...

No Céu, ó virgem! Findarão meus males:
hei-de lá renascer, eu que pareço
aqui ter só nascido para dores.

Ali, ó lírio dos celestes vales!
Tendo seu fim, terão o seu começo,
para não mais findar, nossos amores»

«Aquela que eu adoro não é feita
de lírios nem de rosas purpurinas,
não tem as formas lânguidas, divinas,
da antiga Vénus de cintura estreita...

Não é a Circe, cuja mão suspeita
compõe filtros mortais entre ruínas,
mem a Amazonas, que se agarra às crinas
dum corcel e combate satisfeita...

A mim mesmo pergunto, e não atino
com o nome que dê a essa visão,
que ora amostra ora esconde o meu destino...

É como uma miragem que entrevejo,
ideal, que nasceu na solidão,
nuvem, sonho impalpável do Desejo...»

Sonetos de Antero de Quental, in “Farol das Letras

JDACT

terça-feira, 21 de março de 2017

Odes Modernas. Dia Mundial. «Impulso universal!, forte e divino, aonde quer que irrompa!, e belo e augusto. Quer se equilibre em paz no mudo hino…»


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Antologia. Panteísmo
«Aspiração..., desejo aberto todo
numa ânsia insofrida e misteriosa...
A isto chamo eu vida: e, d’este modo,

que mais importa a forma? Silenciosa
uma mesma alma aspira à luz e ao espaço
em homem igualmente e astro e rosa!

A própria fera, cujo incerto passo
lá vaga nos algares da deveza,
por certo entrevê Deus, seu olho baço

foi feito para ver brilho e beleza...
E se ruge, é que a agita surdamente
tia alma turva, ó grande natureza!

Sim, no rugido há uma vida ardente,
uma energia íntima, tão santa
como a que faz trinar ave inocente...

Há um desejo intenso, que alevanta
ao mesmo tempo o coração ferino,
e o do ingénuo cantor que nos encanta...

Impulso universal!, forte e divino,
aonde quer que irrompa!, e belo e augusto.
Quer se equilibre em paz no mudo hino

dos astros imortais, quer no robusto
seio do mar tumultuando brade,
com um furor que se domina a custo;

quer durma na fatal obscuridade
da massa inerte, quer na mente humana
sereno ascenda à luz da liberdade...

É sempre eterna vida, que dimana
do centro universal, do foco intenso,
que ora brilha sem véus, ora se empana...

É sempre o eterno gérmen, que suspenso
no oceano do Ser, em turbilhões
de ardor e luz, evolve, ínfimo e imenso!

Através de mil formas, mil visões,
o universal espírito palpita
subindo na espiral das criações!

Ó formas!, vidas!, misteriosa escrita
do poema indecifrável que na Terra
faz de sombras e luz a Alma infinita!

Surgi, por céu, por mar, por vale e serra!
Rolai, ondas sem praia, confundindo
a paz eterna com a eterna guerra!

Rasgando o seio imenso, ide saindo
do fundo tenebroso do Possível,
onde as formas do Ser se estão fundindo...

Abre teu cálix, rosa inalterável!
Rocha, deixa banhar-te a onda clara!
Ergue tu, águia, o voo inacessível!
[…]

In Antero de Quental, Antologia, Odes Modernas

JDACT

domingo, 22 de novembro de 2015

Bom-Senso e Bom-Gosto. Antero de Quental. «… confesso não me merecerem nem admiração nem respeito, nem ainda estima. A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança. V. ex.ª precisa menos cincoenta annos de edade, ou então mais cincoenta de reflexão»

Cortesia de wikipedia e jdact

Carta a António Feliciano Castilho (V)
«(…) O ideal quer dizer isto: desprezo das vaidades; amor desinteressado da verdade; preoccupação exclusiva do grande e do bom; desdem do futil, do convencional; boa fe; desinteresse; grandeza d'alma; simplicidade; nobreza; soberano bom gosto e soberanissimo bom senso..., tudo isto quer dizer esta palavra de cinco letras, ideal.
Por todos estes motivos ella é sobremaneira odiavel; ella é desprezivel por todas estas causas; e v. ex.ª tem toda a razão, chacoteando, bigodeando, pulverisando esse miseravel ideal.
Elle, com effeito, nada do que elle é ou do que vem d'elle, serve ou pode servir jamais para alguma cousa do que se procura na vida, do que nella procuram os homens graves, os homens serios, os homens de senso e gosto como v. ex.ª, que nada querem com ideaes ou com idêas, mas só com realidades e com tactos; para captar a admiração das turbas; o applauso das multidões; para formar um grande nome composto de pequeninas lettras; para merecer os encomios dos grammaticões e o assombro dos burguezes; para ser das academias; das arcadias; commendador; citado pelos brasileiros retirados do commercio; decorado pelos directores de collegio; o Tirteu dos mercieiros e um Homero constitucional.
Para isto é que não serve o ideal. E é por isso, pela sua absurda inutilidade, que v. ex.ª o apeia com tanta sem cerimonia do pedestal aonde, para o adorarem, o têm posto os loucos que nunca foram nada neste mundo, nem das academias nem do conselho de instrucção publica, um Christo, um Socrates, um Homero...
Por isso é que v. ex.ª faz muito bem em o destruir, a esse pobre diabo do ideal; de o pôr fóra de casa a bofetões; de o bannir das suas obras, que não haver por lá nem a mais leve sombra d'elle. Agradam a todos assim. Os versos de v. ex.ª não têm ideal, mas começam por letra pequena. As suas criticas não têm idêas, mas têm palavras quantas bastem para um diccionario de synonimos. Os seus poemas lyricos não são methaphysicos, não precisam d'uma excessiva attenção, de esforços de pensamento para se compreenderem, e têm a vantagem de não deixarem ver nem um só ideal. Nas suas obras todas ha uma falta tão completa d'essas incomprehensibilidades, que deve pôr muito á sua vontade os leitores que v. ex.ª têm no Brasil. V. ex.ª diz tudo quanto se pode dizer sem idêas, boa, excellente receita para não cahir nas nebulosidades do ideal. Os seus escriptos são optimos escriptos, menos as idêas: e é v. ex.ª um grande homem, menos o ideal.
Dante, que era um barbaro, e Shakspeare, que era um selvagem, é que rechearam as suas obras de ideal. Victor Hugo tambem cáe muito nesse defeito. V. ex.ª é que o tem sempre evitado cautelosamente, e por isso não é um barbaro como Dante, nem selvagem como Shakspeare, nem um máo poeta como Victor Hugo. Não é Dante, nem Shakspeare, nem Hugo, mas é amigo do sr. Viale, que falla latim como Mevio e Bavio.
Mas, ex.mo sr., será possivel viver sem idêas? Esta é que é a grande questão. Em Lisboa, no curso de lettras, na academia, no conselho superior, no gremio, nos saraus de v. ex.ª, dizem-me que sim, e que é mesmo uma condição para viver bem. Fóra de Lisboa, isto é, no resto do mundo, em Paris, Berlim, Londres, Turim, Goettingue, New-York, Boston, paizes mais desfavorecidos da sorte, na velha Grecia tambem e mesmo na Roma antiga, é que nunca poderam passar sem essas magnificas inutilidades. Ellas o muito que têm feito é servirem de entretenimento aos visionarios como Christo (um metaphysico bem nebuloso), como Socrates, como Çakia-Mouni, como Mahomet, como Confucio e outros sujeitos de nenhuma consideração social, que se entretinham fazendo systemas com ellas, e com os systemas religiões, e com as religiões povos, e com os povos civilisações, e com as civilisações codigos, leis, sentimentos, amores, paixões, crenças, a alma emfim da humanidade, cousa que se não vê nem rende, e é tambem inutil e incomprehensivel. Eis ahi o mais a que as idêas têm chegado. Creio que pouco mais ou nada mais têm feito do que isto.
Em Lisboa é que nem isto. Não sei se tem havido quem tente introduzil-as nessa capital. V. ex.ª é que eu tenho a certeza de que não era capaz d'essa má acção. Por isso Lisboa não cahe como cahiram Athenas e Roma, por causa das suas idêas, e Jerusalem e outras cidades infelizes, cujos poetas tiveram um amor demasiado ao ideal... Uma só cousa ficou d'ellas: uma memoria grande, honrosa, nobilissima. Cahiram, mas deram ao mundo um espectaculo raro, o espirito e a consciencia humana triumphando da matéria e brilhando no meio das ruinas como a chamma que se alimenta da destruição da lenha d'onde sahe e que a gerou. Eu não sei se v. ex.ª acha isto sensato e de bom gosto. Cuido que não. O que eu sei sómente é que isto é sublime...
Paro aqui, ex.mo sr. Muito tinha eu ainda que dizer: mas temo, no ardor do discurso, faltar ao respeito a v. ex.ª, aos seus cabellos brancos. Cuido mesmo que já me escapou uma ou outra phrase não tão reverente e tão lisongeira como eu desejára. Mas é que realmente não sei como hei de dizer, sem parecer ensinar, certas cousas elementares a um homem de sessenta annos; dizel-as eu com os meus vinte e cinco! V. ex.ª aturou-me em tempo no seu collegio do Portico, tinha eu ainda dez annos, e confesso que devo á sua muita paciencia o pouco francez que ainda hoje sei. Lembra-se, pois, da minha docilidade e adivinha quanto eu desejaria agora podel-o seguir humildemente nos seus preceitos e nos seus exemplos, em poesia e philosophia como outr'ora em grammatica franceza, na comprehensão das verdades eternas como em outro tempo no entendimento das fabulas de La Fontaine. Vejo, porem, com desgosto que temos muitas vezes de renegar aos vinte e cinco annos do culto das auctoridades dos dez; e que saber explicar bem Telemaco a crianças não é precisamente quanto basta para dar o direito de ensinar a homens o que sejam razão e gosto. Concluo d'aqui que a edade não a fazem os cabellos brancos, mas a madureza das idêas, o tino e a seriedade: e, neste ponto, os meus vinte e cinco annos têm-me as verduras de v. ex.ª convencido valerem pelo menos os seus sessenta. Posso pois fallar sem desacato. Levanto-me quando os cabellos brancos de v. ex.ª passam deante de mim. Mas o travesso cerebro que está debaixo e as garridas e pequeninas cousas, que sahem d'elle, confesso não me merecerem nem admiração nem respeito, nem ainda estima. A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança. V. ex.ª precisa menos cincoenta annos de edade, ou então mais cincoenta de reflexão.
É por estes motivos todos que lamento do fundo d'alma não me poder confessar, como desejava, de v. ex.ª.»
Coimbra, 2 de Novembro de 1865
Nem admirador nem respeitador
Anthero do Quental.

In Antero de Quental, Bom-Senso e Bom-Gosto, Carta ao Exmo Sr. António Feliciano Castilho, Inprenda da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1865, (livros de Lavado, Lisboa; Livraria da Viuva Moré), Pedro Saborano, the Project Gutenberg ebook, 2009, ISO 8859-15.

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