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domingo, 8 de novembro de 2015

Carlos XII. Suécia. Monarcas Infelizes. Américo Faria. «… esse Inverno de 1708 era dos mais rigorosos e tremendos não para os Russos, habituados às grandes invernias dos desertos brancos, mas para os Suecos, que lhe sofreram mal as inclemências»

Cortesia de wikipedia

Rei errante que não conseguiu voltar ao trono
«(…) Convinha, por conseguinte, refrear a impetuosidade do jovem monarca e aquietá-lo com uma batalha que fosse decisiva. Carlos XII, conhecedor dos intentos do inimigo, vê gorados os seus desejos de regresso à sua corte. Ele, embora se sinta cansado de campanhas e de combates, compreende que, para ter algumas probabilidades de êxito tem de aproveitar o entusiasmo dos soldados, ainda quente, pelos passados feitos. De Saxe, já então comandando uma massa disciplinada de 43.000 soldados, força considerável para o tempo e para o seu pequeno país Carlos antecipa-se ao antagonista nos propósitos de invasão, e toma a ofensiva, invadindo por seu turno a própria Rússia. Foi, talvez, esse o maior erro que praticou em sua vida de guerreiro. Ele não desconhecia quanto era delicada e de resultados problemáticos uma invasão dos territórios russos, de infindáveis e desérticas planícies, mormente se tivesse de afrontar um dos terríveis e devastadores invernos, internado naquelas áridas imensidades. Mas, tão bom político como hábil militar, Carlos XII não se aventurou a tão contingente proeza sem primeiramente se assegurar de uma valiosa aliança com o famoso Mazepa, hetman dos cossacos ucranianos, poderoso chefe dispondo de apreciáveis soldados e que, na altura, estava rebelado contra o czar.
O chefe cossaco fizera-lhe fantasiosas promessas quanto ao auxílio que lhe dispensaria-e, não podendo cumpri-las, colocou o aliado na terrível emergência de nada mais encontrar senão as estepas desoladas e intermináveis, cobertas de gelo. Desgraçadamente, esse Inverno de 1708 era dos mais rigorosos e tremendos não para os Russos, habituados às grandes invernias dos desertos brancos, mas para os Suecos, que lhe sofreram mal as inclemências. Os moscovitas, como mais tarde fizeram com as hostes napoleónicas e mais recentemente com as avalanches motorizadas de Hitler, foram retirando diante dos invasores, esquivando-se à batalha, com o propósito de os fazerem internar-se fundamente. Ao mesmo tempo, enquanto os seus corpos recuavam sistematicamente, sistematicamente também iam deixando a terra devastada. Os suecos gelavam de frio e morriam de fome. Tombavam pelos caminhos, de inanição, e em breve ficavam sepultados no gelo. Chegada a Primavera, do brilhante e vigoroso exército invasor, apenas restava uma pálida sombra.
A dificuldade de deslocar em ordem tão grande mole de homens, a maior parte sofrendo intensamente, depressa acudiu ao espírito agudo de Carlos. Mas, porque já estava demasiado entranhado pelo interior russo, só teve um único meio, o de prosseguir, apesar de tudo. Recuar seria a morte inglória, sem combate. O avanço dava-lhe uma probabilidade remota de escapar com a sua tropa. Em redor, ele via, dia a dia, os seus soldados caírem, exaustos, vencidos pelas doenças, privações e obstáculos de toda a espécie. O monarca sueco sentia-se impotente para resistir, ou sequer lutar contra aquele terrível inimigo que eram os elementos conjugados para o abater. Tudo ali se aliava contra a sua tropa, desmoralizando-lhe os homens, minando-lhe a vontade de vencer». In Américo Faria, Dez Monarcas Infelizes, Livraria Clássica Editora, colecção 10, Lisboa, s/d.

Cortesia de LClássicaE/JDACT

Carlos XII Suécia. Monarcas Infelizes. Américo Faria. «Os esplêndidos feitos de armas de Carlos XII, em série vitoriosa e sucessiva, tiveram extraordinária retumbância no Mundo, espantado. No seu país, tão boas e estimulantes notícias foram acolhidas com o delírio popular»



Cortesia de wikipedia e jdact

Rei errante que não conseguiu voltar ao trono
«(…) Carlos, todavia, resoluto e intimorato, não era homem para recuar, mesmo perante tão flagrante desigualdade. Assediando, nesse mesmo ano, Narva, o soberano sueco, mercê da sua habilidade e estratégia, do seu prestígio e do valor dos seus homens, obtém sobre o inimigo memorável vitória, deixando-o totalmente desbaratado, a saborear o amargo gosto da derrota. Bater o colosso russo era coisa inconcebível originou a admiração do Mundo. Faltava vencer o último dos três possantes inimigos. Carlos, verdadeiramente incansável, senhor de uma energia assombrosa e com o carácter já caldeado pela dureza da vida de campanha, dispõe-se a travar o que ele julgava ser a última batalha. Sem ter voltado à sua capital depois da declaração da guerra (aliás, ele não tornaria mais à sua corte!), avança com os seus exércitos invencíveis sobre as tropas saxónicas do rei da Polónia, às quais consegue derrotar na passagem do Duna, em 1701. Augusto II logra escapar-se ao aprisionamento e retira desordenadamente. Carlos aproveita inteligentemente a desorganização do exército inimigo, persegue-o tenazmente e invade com os seus valorosos homens o solo polaco. Contactos fortuitos se estabelecem, por vezes, entre os antagonistas, mas a decisão final da contenda só em 1703 viria a manifestar-se com uma nova e clamorosa vitória dos suecos. Estes, comandados pelo seu juvenil e querido chefe, abatem, em Kissaw, o orgulho e a pertinácia do inimigo.
Os esplêndidos feitos de armas de Carlos XII, em série vitoriosa e sucessiva, tiveram extraordinária retumbância no Mundo, espantado. No seu país, tão boas e estimulantes notícias foram acolhidas com o maior e mais justificado delírio popular. Augusto, derrotado, esmagado material e moralmente, vê-se constrangido a abandonar a pátria e a renunciar à coroa. Os polacos, humilhados, encarregam o seu compatriota Estanislau Leczinski, oriundo de ilustre família e filho de Raphael Leczinski, palatino da Posnânia, de negociar a paz junto do vencedor. E, sob o título de Estanislau I Leczinski, o negociador, por influência sueca, sobe ao trono vago da Polónia, assinando ambas as partes um acordo definitivo entre os dois países: o tratado do Alto-Randstadt, firmado em 1706, após a invasão da Saxónia.
Resolvido o caso polaco, Carlos XII, previdentemente, trata de consolidar Estanislau I Leczinski no trono, a fim de se poderem estabelecer relações duradoiras e amigáveis entre os dois povos vizinhos. Entretanto, os Russos, de recursos inesgotáveis e já refeitos da tremenda derrota sofrida em Narva, reorganizados e sem desistirem das suas pretensões de domínio, ao mesmo tempo que animados do desejo de desforra, preparam-se activamente para marchar contra os invictos suecos e entravar-lhes o sucesso das armas. As contínuas vitórias de Carlos XII estavam provocando o alarme em muitos Estados europeus e originavam, sobretudo, a inquietação no espírito de Pedro, o Grande, pela limitação de largas ambições territoriais». In Américo Faria, Dez Monarcas Infelizes, Livraria Clássica Editora, colecção 10, Lisboa, s/d.

Cortesia de LClássicaE/JDACT

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Confissões de Uma Freira Pagã. Romance histórico. Kate Horsley. «O legado da antiga sabedoria dos druidas e a crescente expansão do cristianismo. Ao fim de mil e quinhentos anos, o ‘espectro’ de Gwynneve vem à luz transmitindo-nos a sua história ocultada…»

jdact

Declaração
«(…) Eu não tinha admiração pelo meu próprio pai, o que, pelo que dizem, é um pecado. Eu fazia todo o meu trabalho para lhe agradar porque o olhar da minha mãe se dirigia sempre na sua direcção. Eu nunca recebi elogios do Cleb. Ele desempenhava diversas actividades, com o seu espírito irado, e deslocava-se até ao poço onde os homens falavam e planeavam o cultivo e o gado da túath. O meu pai também tinha negócios com o chefe e os filhos dele, relacionados com o uso da terra e a criação de bons cavalos, apesar de, na nossa túath, o chefe ser o único que possuía cavalos ou gado. Mas eu nunca me consigo lembrar de o meu pai ter qualquer ofício que não o da conversação. Ele era uma pessoa medrosa com antebraços grossos, mas mais fraco em carácter do que a minha mãe. As outras mulheres da túath repreendiam a minha mãe pela sua deferência para com ele e ela disse-lhes para o levarem para a cama delas a ver se ele não lhes dava prazer A minha mãe tinha pernas fortes e muitos homens desejavam ter-se casado com ela.
Como do meu pai não recebia louvores, eu tentei muitos métodos para obter louvores de outros. E então comecei a prática de mostrar os meus seios aos rapazes que vinham usar o barco do meu pai para pescar no lago. Todos na túath sabiam que Cleb não ia utilizar o barco em dia algum, mas pelo facto de o não ter de volta até ao anoitecer caminhava pesadamente até, ao poço para fazer promessas de castigo. Ele discutiu o assunto em termos sombrios com os outros homens que lá estavam, que se apoiavam sobre as pedras, mastigavam palha, e tinham o suor do trabalho a cair-lhes pela cara. Ele era visto como um tolo, mas respeitado em parte porque era o marido da minha mãe. Eu não receava que o meu pai me batesse porque, apesar de me ter tornado numa jovem forte, a minha fama de fracalhota e de estatura pequena livrava-me da pancada que os outros costumavam receber, tanto em zangas como em jogos.
Eu não queria aborrecer o meu pai. Eu queria agradar-lhe para poder ficar bem vista aos olhos da minha mãe. Também acreditava que, se o meu pai estivesse satisfeito, seria como se um feitiço se quebrasse e ele se transformasse numa pessoa nobre. No entanto, eu não queria ser esposa como era a minha mãe. Comecei a pensar, com uma concentração dolorosa, na vida que levaria e dos talentos que tinha. Eu não podia ser guerreira a não ser que os cavalos tivessem sido feitos mais pequenos e as armas fossem mais leves. Apesar de serem bonitos de se ver, os cavalos assustam-me porque são grandes e de mente fraca, o que é uma mistura perigosa em cavalos, homens e deuses. Como já disse antes, eu admirava os aes dána, especialmente aqueles que tinham um grande conhecimento e eram hábeis a usar as palavras. Eu não gostava dos deveres mundanos, os quais não imaginava que os druidas tinham que suportar, tal como dar de comer aos porcos, ou recolher e separar as sementes que comíamos. Um dia de trabalho era muitas vezes consumido numa só refeição, comida por pessoas demasiado cansadas para saber o que tinham nas bocas. Não havia qualquer ligação na minha mente entre os pensamentos que me davam prazer e a lama, constantemente entranhada entre os meus dedos dos pés, ou as pulgas que me picavam tendo-se infiltrado nas minhas roupas. Ao druida privilegiado era-lhe dada comida e abrigo em troca dos seus conhecimentos sobre rituais, leis e magia. Um ollam era apaparicado como se fosse filho de um rei e não tinha qualquer necessidade de lutar com uma espada, ou de domar um garanhão». In Kate Horsley, Confessions of a Pagan Nun, Confissões de Uma Freira Pagã, Romance Histórico, Ésquilo, Lisboa, 2002, ISBN 972-8605-18-8.

Cortesia Ésquilo/JDACT

Confissões de Uma Freira Pagã. Romance histórico. Kate Horsley. «Um envolvente histórico baseado na descoberta de um manuscrito do século V que retrata na primeira pessoa a experiência de Gwynneve, uma freira irlandesa colocada entre dois mundos»

jdact

Declaração
«(…) Perguntei à irmã Luirrenn, a nossa anciã, se podia transcrever a história de Noé para aprender as lições da chuva incessante antes de as ter de viver. Eu disse-lhe que receava afogar-me na poça que se formava à minha porta. A irmã Luirrenn deu uma olhadela ao meu trabalho, notando que não tinha qualquer texto aberto de onde copiar. Ela perguntou se eu já tinha acabado as transcrições das lições de Santo Agostinho. Ela própria costumava confessar que antipatizava com o seu discurso castrante, mas ela agora assumia o papel de mais velha, ainda mais exacerbado desde que, sem a sua irmã, sofria a concorrência do abade, um homem que chegara na época passada com os seus monges para ocupar o nosso convento. Eu digo que ele está a tentar geri-lo, mas a Luirrenn diz: Ele é um irmão instruído que está aqui para compartilhar as bênçãos de Brígida. Mas, desde a chegada dele, a crítica da irmã Luirrenn ao meu trabalho tem sido arguta, e eu amo-a tanto que não quero arreliá-la. Os seus olhos dançam dentro das rugas da sua cara envelhecida, mesmo quando ela faz uma repreensão. Ela disse: É uma benção que o abade tenha demasiados afazeres para olhar para as ranhuras de uma freira envelhecida e não notável. Ela fez-me uma festa na cara, como uma repreensão brincalhona, com os dedos dobrados e inchados que já não fazem transcrições, e disse, Tu és blasfema e desperdiças pergaminho.
Quando a irmã, Luirrenn fala, eu frequentemente ignoro as suas palavras e, em vez disso, ponho-me a especular sobre a aventura que a fez perder os dentes da frente. Muitas das mulheres aqui têm tido camas de espinhos para se deitarem e mágoas misteriosas. Aliviamo-nos, às vezes, ao agarrarmo-nos umas às outras nas noites escuras, ou tirando pão e queijo e culpando o povo de Bebo. A Luirrenn, confesso, é às vezes gozada por uma irmã que escurece os seus próprios dentes para imitar o vácuo da boca da anciã. A irmã Luirrenn esconde a boca com a mão, sobretudo desde que chegou o abade com os seus monges. E a chegada de uma criança recém-nascida danificou ainda mais o seu sorriso. No segundo dia de chuva, uma mulher cinzenta chegou às portas da capela com uma criança recém-nascida e moribunda. Ela queria deixá-la como sacrifício à Santa Brígida. Existe muita confusão entre os leigos sobre os novos rituais e o seu significado. Quando eu lhe disse que aqui não fazíamos sacrifícios, ela deu-me a criança e disse: Eu não consigo ver ninguém morrer. Ela repetiu isto três vezes, para que fosse ouvido em todos os mundos. Depois foi-se embora, escondendo a cara com o cabelo. Desde então, dei a criança ao pastor de cabras para ver se ela seria amamentada por uma das cabras mães. A criança, que é um rapaz, estará sem dúvida morta amanhã ao amanhecer e foi por isso que eu não estive muito tempo a segurá-la contra o meu coração. Na confissão de culpas, amanhã, eu direi que sou uma cobarde. Mas a plenitude do meu amor é, agora, resolutamente só dada ao Nosso Senhor Jesus Cristo, porque aqueles a quem eu amei e que eram mortais, deixaram-me de luto, com o coração a sangrar. Também direi na confissão de culpas que me apetecia dar duas bofetadas à irmã Aillenn, cujos dramas derivados da sua delicadeza cheia de ressentimentos me enraivecem, porque nunca me foi permitido a mim ser fraca, apesar de ser pequena. Não existe nenhuma luz redonda à volta da minha cabeça. Deus me perdoe, mas às vezes a raiva dá-me gozo. Nem tão pouco tenho carácter para mártir porque adoro sítios confortáveis, onde a chuva não é fria e as refeições são abundantes.
Acerca da história da minha família: a minha mãe, Murrynn, casou com o meu pai, Cleb, porque ela tinha terminado com outro marido, que tremeu quando ela se tornou selvagem sem nunca lhe ter dado filhos. Ele ainda vivia na túath e era respeitado pela sua habilidade de curtir e cortar pele de porco. Eu simpatizava com ele e frequentemente desejava que ele fosse o meu pai, porque sorria com facilidade, com dentes grandes, e trabalhava da luz rosácea à luz pardacenta sem se queixar. A minha mãe falava dele com respeito mas não objectava quando o meu pai o ridicularizava pela sua falta de tino e zombava dela por se ter deitado com ele». In Kate Horsley, Confessions of a Pagan Nun, Confissões de Uma Freira Pagã, Romance Histórico, Ésquilo, Lisboa, 2002, ISBN 972-8605-18-8.

Cortesia Ésquilo/JDACT

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Rainha e Mulher. Cleópatra. Terenci Moix. «Como homem preparado há tempos, como um valente, dá o teu adeus a Alexandria, que se afasta. Não te enganes, não digas que foi um sonho. Não aceites tão vãs esperanças»

Cortesia de wikipedia e jdact

Cleópatra
«Cleópatra Sétima, rainha do Egito, amante de Júlio César e de Marco António, soberana de um império em decadência cujas fronteiras sonha ampliar para muito além dos limites a que chegaram os antigos faraós. Uma vulgar prostituta? Uma criatura ambiciosa que não hesita em matar para concretizar os seus projectos? Uma destruidora de homens? Neste belo romance de amor e morte, ganhador do Prémio Planeta de 1986, o mais importante da literatura espanhola, o escritor catalão Terenci Moix mostra uma outra verdade sobre essa mulher deslumbrante, dona de vasta cultura e de enorme habilidade política, uma das personagens mais fascinantes da História. Tendo como principal cenário a mítica Alexandria, Terenci cria um vigoroso romance que resgata uma das personagens mais fascinantes da História: Cleópatra Sétima, rainha do Egipto. A célebre soberana aparece aqui como uma mulher de extraordinária cultura, apaixonada e ambiciosa, que acalenta o sonho de transformar a sua Alexandria na capital de um vasto império, do qual Cesário Ptolomeu, seu filho com Júlio César, seria o chefe supremo. Seu amor por Marco António, retratado como um soldado grosseiro, colecionador de derrotas políticas e militares, insere-se nesse projecto grandioso. Mesclando ficção e realidade, Terenci leva o leitor a transportar-se no tempo e no espaço para conviver com egípcios e romanos, sacerdotes e prostitutas; para participar de batalhas e cerimónias místicas; e para conhecer intrigas que determinaram a queda e a consolidação de dois impérios. Desse modo é elaborado um deslumbrante painel da Antiguidade, merecedor do Prémio Planeta. O romancista catalão Terenci costuma dizer que nasceu em algum ano da década de 50, no século XX, com um pé em Alexandria e outro em Barcelona. Em 1968-1969, irrompeu no mundo da literatura com La torre de los vícios capitales e Olas sobre una roca desierta, que, aplaudidos pela crítica internacional, lançaram-no de imediato a uma posição de destaque dentro da nova geração de escritores espanhóis. Ganhador de cinco troféus importantes da literatura catalã, Terenci conquistou, em 1986, o Prémio Planeta, com o romance Cleópatra, rainha e mulher (No digas que fue un sue-no). Opera, teatro, pintura e cinema (uma de suas obras mais famosas é justamente O dia em que Marilyn morreu, publicado pela Editora Globo) igualmente despertam o seu interesse e inspiram-lhe numerosos artigos e romances». In Prefácio

«Quando à meia-noite se ouvir
passar uma invisível folia
com música maravilhosa e grandes vozes,
tua sorte que declina, tuas obras fracassadas,
os planos de tua vida que não deram certo,
não chores em vão.
Como homem preparado há tempos,
como um valente,
dá o teu adeus a Alexandria, que se afasta.
Não te enganes,
não digas que foi um sonho.
Não aceites tão vãs esperanças.
Como homem preparado há tempos,
como um valente,
como convém a quem de tal cidade foi digno,
aproxima-te com passo firme da janela
e ouve com emoção, não com lamentos
nem súplicas de fracos, como derradeiro prazer,
os sons, os maravilhosos instrumentos da
folia misteriosa,
e dá o teu adeus a esta Alexandria
que perdes para sempre».
Poema de Cavafis, in ‘O deus abandona António’

«Ela era o último membro de uma raça solitária e subtil. Era uma flor que Alexandria havia tardado trezentos anos a produzir e que a eternidade não pode murchar. E abriu-se ante um soldado romano, simples mas inteligente... In Forster, Alexandria

Serpente do Nilo
«E disse a mulher: Maldito seja Amor, que me assassina. Tingi de morte o Nilo. Cobri de luto as nuvens. Convertei o Egipto em sepulcro. E assim se fez. O pavor foi descendo pelo rio. A morte instalou-se nas suas margens. E caiu o inferno sobre o universo. Cumprida a ordem, uma densa nuvem negra cobriu os céus nos quais nunca há nuvens. Tão insólita era que se diria o véu de uma deusa traiçoeira. Dir-se-ia sangue apodrecido gotejando sobre os frondosos palmeirais, as florestas de papiros, os pomares e jardins que um dia foram férteis. Uma galera real vogava com majestosa lentidão em busca dos confins mais remotos do reino, onde este se perde nos desertos que correm em busca das selvas ignotas, onde dizem que nasce o rio santo. O negror chegava acompanhado por hinos tão tristes quanto o dia. Era a percussão incessante de cem timbales doloridos. Era o bater de cem remos nas águas, por sua vez tão tristes que também se tornaram negras. As ribeiras encheram-se de camponeses procedentes dos vilarejos mais próximos. Chegavam em procissão, e nos seus rostos enrugados, nas suas rugas sulcadas pelo sol de muitos séculos, o espanto alternava-se com o medo. Jogavam-se no chão, escondiam a cabeça entre os juncos, golpeavam o peito com pedras afiadas e esfregavam os olhos com lodo, como se vem fazendo desde os tempos mais remotos quando morre um monarca ou quando a natureza interrompe o seu curso inexorável, porque os deuses não estão satisfeitos. A nuvem negra pousava sobre todas as cores da paisagem, tão sensível nos albores do mês de Atir, quando a luz já não chega, esgotada pelos flagelos do estio. Os palmeirais e os trigais, os bosques de sicómoros, as mimosas, os hibiscos, as heras que sobem pelos palácios, tudo que ontem foi uma profusão de esplendoroso colorido ficava encerrado naquela cor única, manto sinistro que os camponeses, aterrados, não podiam reconhecer. Pois ignoravam o tipo de perfume de cuja mescla brotava. Perfumes que os escravos negros da nave espargiam por toda parte. Perfumes das noites de Alexandria! Emanações entre-mescladas de sândalo, almíscar e ambarina; essências de incenso, patchuli e da mirra que adormece os sentidos; flutuações de heliotrópio e açucenas combinadas com o sumo oleoso que as gardénias destilam quando roçam o sexo de uma virgem nabateia. Em contacto com o ar, a mescla tingia-o de luto. E, assim empeçonhadas, as auras caíam sobre os camponeses como uma condenação. A noite mais pavorosa apoderava-se do dia. Todos interpretaram aquilo como um augúrio do final do universo, segundo se anuncia nas inscrições dos templos antigos. Os camponeses acolheram a catástrofe salmodiando cantos mortuários aprendidos nos grandes funerais e transmitidos de uma geração a outra. Quando os escravos que espargiam os perfumes descansavam um instante, a nuvem artificial se diluía. Em meio a uma breve pausa, semelhante a um amanhecer, surgiam como um consolo as águas familiares do Nilo e, sulcando-as, uma soberba proa em forma de papiro. E, sobre as estrias rosicleres que seu avanço abria na corrente, emergia a embarcação de Cleópatra Sétima». In Terenci Moix, Cleópatra, Rainha e Mulher, Prémio Planeta, Espanha, Editora Globo, 1989, ISBN 852-500-662-9.

Cortesia de Globo/JDACT

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Monarcas Infelizes Carlos I Inglaterra. «Ele teria tido, sem dúvida, melhor moldura para o seu reinado se, em vez de se mover no tablado das brumosas regiões inglesas, tivesse vivido noutro ambiente mais galante e mais tolerante»

Cortesia de wikipedia e jdact

Neto de Maria Stuart. Decapitado pelo Parlamento inglês
«(…) Muitos galgaram os degraus do patíbulo para ensopar os lenços no sangue, que afinal não era azul, mas vermelho, como o de toda a gente. A morte de Carlos Stuart em nada desmereceu da de sua avó, infortunada como ele. Afinal, eram ambos Stuarts e os Stuarts, era da tradição, se não sabiam governar bem, sabiam bem morrer! Realmente, a vida de Carlos I não fora brilhante ou invejável. Ele teria tido, sem dúvida, melhor moldura para o seu reinado se, em vez de se mover no tablado das brumosas regiões inglesas, tivesse vivido noutro ambiente mais galante e mais tolerante. Madrid ou Viena, por exemplo, onde a mentalidade colectiva era, ao tempo, mais delicada, teriam, talvez, compreendido melhor esta personalidade real, de psicologia remarcada e firme, este homem coroado tão generoso, humano, artista, profundamente imbuído dos seus deveres do que, por defeito de educação considerava os seus deveres.
Os-filhos mais velhos do Stuart, Carlos e Jaime, encontravam-se no exílio, na Holanda, junto do seu cunhado, o príncipe de Orange, que os auxiliava. Carlos I despedira-se dos filhos mais novos, dona Isabel e o duque de Gloucester, antes de subir ao patíbulo. O monarca deu conselhos ao último. Vão talvez aclamar-te, mas não deves ser rei enquanto viverem teus irmãos, porque se os apanharem cortar-lhes-ão a cabeça..., e o mesmo te espera, meu filho. Não deves, pois, consentir na coroação... Para Carlos I o período mais feliz do seu reinado teria sido, exactamente, o dos onze anos que governara sem Parlamento. Foi nessa fase que logrou impulsionar, de forma assinalável, a indústria do país, que muito lhe ficou devendo.
Após a execução do infeliz soberano, o governo parlamentar exigia de Portugal, por intermédio da sua esquadra, a entrega dos sobrinhos do Stuart, os príncipes palatinos Roberto e Maurício, que se haviam acolhido à protecção da corte de Lisboa. João IV, de Portugal, cedendo mais a razões humanas do que políticas (os interesses de Portugal, nesse momento, quiçá tivessem aconselhado o contrário!) negou-se a atender as imposições da Inglaterra, numa honrosíssima atitude. E os sobrinhos do rei decapitado puderam sair do solo português incólumes e em liberdade para continuarem a combater pela causa de seu tio, e agora, porventura, desejando apenas vingá-lo.
Realmente, quando, anos mais tarde, restaurada a realeza, Carlos II subiu ao trono, um dos seus primeiros actos foi o de julgar e condenar à morte os juízes de Carlos I, seu pai. Quanto à rainha-viúva, Henriqueta Maria, homiziada, apos o trágico fim do marido e depois de ter vivido, no Louvre, a miséria imposta pela avareza de Mazarino, recolheu-se ao Convento da Visitação, em Chailot, de que foi fundadora. Sobreviveu ainda vinte anos ao esposo. Morreu em 1669, em Colombes». In Américo Faria, Dez Monarcas Infelizes, Livraria Clássica Editora, colecção 10, Lisboa, s/d.

Cortesia da LCEditora/JDACT

domingo, 25 de janeiro de 2015

Monarcas Infelizes. Maximiliano I. México. Américo Faria. «Maximiliano faz ouvidos surdos às prudentes palavras de Francisco José, conquistado inteiramente pelas perspectivas que se ofereciam à sua ânsia de aventura. A coroa mexicana concedia-lhe a hipótese de uma sugestiva experiência de governo»

Cortesia de wikipedia

Habsburgo que segue o destino trágico dos seus ancestrais
«(…) Decorre 1863. Fernando José Maximiliano encontra-se, já há seis anos que eles haviam estado juntos pela última vez!, com o seu irmão, o imperador Francisco José I. O tema da conversa entre ambos não podia ser outro: México, distante e sangrento... a proclamação, por essa farsa que passou à História com o nome de Asamblea de los Notables, reunida na cidade do México em l0 de Julho de 1863, de Maximiliano como imperador do país... a deposição do presidente Juarez... Os dois irmãos estudam a situação, pesam probabilidades. Maximiliano mostra-se entusiasmado, forma planos. Para ele, o trono do México será uma capitosa evasão da vida insípida europeia, do pacífico castelo de Miramar, da existência insignificante, sem horizontes, que a sua condição de arquiduque lhe marcava. Ele, exuberante de sonho, traça utópicos programas de governo, de realizações. O irmão, mais experiente, mais maduro no poder, porventura, com a previsão do futuro dramático, objecta-lhe, friamente: Mas, quem poderá garantir que Juarez e os seus partidários não voltam, quando as francesas abandonarem o país? Recorda-lhe o exemplo de Maria Antonieta e pergunta, ansioso: Quem impedirá que os Mexicanos te façam o mesmo que os revolucionários franceses fizeram em 1793 à nossa desgraçada parente?
Maximiliano faz ouvidos surdos às prudentes palavras de Francisco José, conquistado inteiramente pelas perspectivas que se ofereciam à sua ânsia de aventura. A coroa mexicana concedia-lhe a hipótese de uma sugestiva experiência de governo. O espírito inebriava-se-lhe com o projecto e a imaginação, inflamada, sonhava já com um México moderno, poderoso, que pesasse decididamente no tabuleiro do xadrez internacional. A ideia era apaixonante. Respondeu ao imperador da Áustria: Juarez foi totalmente abandonado pelos seus partidários e anda foragido. Além disso, Napoleão prometeu-me deixar lá as tropas por mais três anos, até que a situação esteja consolidada e o país pacificado. De resto, como sou um príncipe católico e liberal, terei por mim a grande facção católica do país e a facção liberal... Uma deputação da nação mexicana vem à Europa saudar Maximiliano como seu imperador. O arquiduque Fernando José aceita a coroa imperial e em 10 de Abril de 1864 renuncia aos seus possíveis direitos à coroa austríaca.
Todo o mundo cristão depositou as maiores esperanças em que Maximiliano acabasse com as perseguições religiosas no grande país de que ia ser chefe de Estado. O próprio papa celebra por tal intenção, nesse mesmo mês, missa na Capela Sistina, com a assistência do imperador e da imperatriz, e diz no final do Ofício Divino: Eis o Cordeiro de Deus que apaga os pecados do Mundo. Por Ele reinam e governam os reis, por Ele fazem justiça, por Ele se exerce todo o poder. Eu vos recomendo em Seu nome a felicidade dos povos católicos, que vos estão confiados. Respeitai os seus direitos e os direitos da Igreja! Palavras de confiança que, em breve, o espírito um tanto inconstante do imperador olvidaria, ou a que a sua tibieza no poder não soube dar satisfação. A viagem dos imperadores do México, triunfal na Europa e saudada calorosamente pelos Estados amigos, transcorre no meio de festas a bordo, de conversas brilhantes, mas superficiais, dos membros do numeroso séquito. Todavia, na outra banda do oceano, as coisas não correram tão propícias. A chegada da frota imperial ao México, levando o Themis por navio-almirante, como não eta esperada tão cedo, levou a perturbação às autoridades. Maximiliano e a sua corte tiveram de conservar-se a bordo mais um dia inteiro, enquanto, em terra, no porto de Vera Cruz, se improvisava apressadamente a recepção». In Américo Faria, Dez Monarcas Infelizes, Livraria Clássica Editora, colecção 10, Lisboa, s/d.

Cortesia de LCEditora/JDACT

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Luís XVI. França. Monarca Infeliz. Américo Faria. «Os revolucionários, apreendendo a maneabilidade que tal espírito lhes oferecia, não fizeram mais do que estender o braço e agarrar firmemente a magnífica oportunidade para lhe fazerem a vida negra»

Cortesia de wikipedia

O ‘pobre homem’ que não queria reinar
«(…) Escreve Philippe Erlanger num bem elaborado trabalho: Na verdade, os Capetos não deixaram jamais de atravessar o círculo infernal das revoluções. Carlos V, ainda delfim, foi enlameado com o sangue dos seus servidores mais próximos, massacrados pelos homens de Etienne Marcel, e sofreu a Jacquerie camponesa. Tendo assistido, em criança, às insurreições dos Maillotins ou Tuchins, prontos a degolar todos os que não tivessem as mãos calosas, Cados VI, já adulto e louco, soube, entre dois acessos, que as muralhas das bastilhas não resistiriam ao furor popular (1413). Dois terços da França levantaram-se em armas contra Luís XI. Em 1589, Henrique III, excomungado, cercado, reinava apenas em três cidades: Tours, Blois e Beaugency. Henrique IV conquistou seu reino pedaço a pedaço. As guerras civis encheram o reinado de Luís XIII. O próprio Luís XIV foi obrigado a fugir de Paris, transformada em rio de sangue, e a errar, meio proscrito, sob a protecção de Turenne.
Tudo isso Luís XVI teria visto nessa visão retrospectiva, que o confortaria salutarmente, se não fosse o medo, o terror que se lhe aninhava no ânimo tíbio e o aprisionava dos seus efeitos desencorajantes. A sua fraqueza e indecisão, dizia dele o duque de Provença, seu irmão, estão além de tudo o que se possa classificar. Imaginem-se bolas de marfim oleosas, que em vão tentaremos manter juntas, e teremos uma alegoria perfeita do seu carácter. Ele é somente um pobre diabo, ou, como os seus contemporâneos o apelidavam, um Rapaz Grande. Os revolucionários, apreendendo a maneabilidade que tal espírito lhes oferecia, não fizeram mais do que estender o braço e agarrar firmemente a magnífica oportunidade para lhe fazerem a vida negra.
Luís XVI, demasiadamente honesto, sonhando com a felicidade do seu povo, aplicava-se com desvelo em satisfazer-lhe os anseios, só muito tarde aprendendo à sua custa, amargamente, que quanto mais cedesse mais os insaciáveis revolucionários lhe exigiriam. Tal política, era fatal, não podia agradar a todos e os próprios que ficavam satisfeitos não demoravam a recair na insatisfação. Identificado, pela História da Rebelião do conde de Clarendon, um dos seus livros predilectos, sobre a vida de Carlos I da Inglaterra (o Capeto tinha, também, sangue Stuart nas veias!) estudara pacientemente o seu reinado, prometendo a si próprio não cair nos mesmos erros que haviam levado aquele remoto parente ao patíbulo. Na realidade, ambos caminharam para um mesmo trágico e semelhante fim, embora por sendas distintas e opostas entre si, absolutamente antagónicas. Carlos I era um fantasma medonho que povoava frequentemente os sonhos do Capeto, o que, é de crer, mais pavorosa lhe tornaria, ainda, a árdua missão de reinar.
Maria Antonieta, a rainha, por seu turno, levava uma existência que não podia escapar à maledicência e à calúnia, e participava, de forma activa, nos actos de pura administração, em medidas nem sempre consentidas pelas circunstâncias. A impopularidade dela foi crescendo, crescendo, arrastando-o a ele na mesma onda de desfavor público. Com a convocação do Parlamento e os motins a que aquela deu causa, as coisas pioraram para a realeza, A monarquia ia-se tornando gradualmente execrável para toda a gente, excepto para os favorecidos. O povo estava, agora, a viver numa exaltação contínua, estimulada pelos jornais revolucionários e pelos oradores populistas. Um rio de literatura malsã, difamatória, encharcava, subvertia a reputação da corte, preparando irresistivelmente a atmosfera para os próximos futuros acontecimentos, que irrigariam de sangue o solo francês. No entanto, como a época era de festas atordoantes, só raros aristocratas teriam a noção exacta, nessa altura, de que a realeza estava caminhando vertiginosamente para o abismo. A terrível verdade só um pouco mais tarde, quatro anos depois, se tornaria evidente, horrorizando, pelas suas consequências imprevisíveis, aqueles próprios que haviam contribuído decisivamente para a decadência do trono». In Américo Faria, Dez Monarcas Infelizes, Livraria Clássica Editora, colecção 10, Lisboa, s/d.

Cortesia de LCEditora/JDACT

Monarcas Infelizes. Carlos I Inglaterra. «… subiu com impassível frieza e coragem os degraus do cadafalso e em cima, junto ao cepo e frente ao carrasco, a boca fechada descerrou-se-lhe finalmente, para pronunciar uma só palavra, uma única: - “Remember”!»

Cortesia de wikipedia e jdact

Neto de Maria Stuart. Decapitado pelo Parlamento inglês
«(…) Crê-se que, se Carlos I tivesse sido um pouco mais tolerante e transigente com a opinião pública, teria podido, nesta oportunidade, voltar vitorioso ao trono. Pelo contrário, com manifesta falta de lealdade, sempre altivo e obstinado nos seus princípios, entra em negociações secretas com ambos os partidos, num jogo perigoso que havia de o levar em linha recta ao patíbulo. Vendo que não havia acomodação possível aparente com o monarca, Cromwell, influenciado pela atitude inflexível do exército, que via o inimigo nesse homem chamado Carlos Stuart, torna-se republicano, não por convicção, mas por necessidade de momento. É então que, para evitar que o país caísse na anarquia que se vislumbrava, esse estadista enveredou pelo campo da violência, depurando o Parlamento com o famoso golpe de Estado, que proclamou a ditadura.
O panorama que envolvia a Inglaterra não era, com efeito, dos mais risonhos e promissores: a Escócia e a Irlanda, sempre rebeldes, e para servirem os seus fins nacionais, tinham pegado em armas pelo rei Carlos; havia amotinação na marinha, à qual Ruppert, nos mares, perseguia raivosamente; algumas colónias não acatavam a autoridade central; as potências desdenhavam da Inglaterra, cujo prestígio estava, ao tempo, muito abalado. Impunham-se medidas violentas. Então, no mês de Janeiro de 1649, efectua-se o julgamento dramático, que era, no Mundo, o segundo processo instaurado contra um soberano representante de Deus na terra, de Carlos I. Comparecendo perante a Câmara dos Comuns, o monarca teve a única atitude que a sua fria altivez, o seu soberano desdém, o seu manifesto desprezo pelos parlamentares podiam consentir. Às acusações que os juízes lhe faziam não se dignou responder. A boca não se lhe abriu nem para repelir a acusação de alta traição, que mais havia de ferir-lhe o coração de patriota, nem para formular qualquer queixa, nem para justificar as suas atitudes de rei. O desmedido orgulho impedia-o de considerar aqueles homens seus julgadores.
A sentença declarou-o tirano, traidor, assassino e inimigo público e condenava-o à decapitação, a mesma pena que sofrera sua avó, Maria Stuart. A multidão, estupefacta com a audácia dos julgadores, acorreu ao local da execução, em frente do palácio real de Whitehall, onde formavam fortes contingentes de tropa em guarda de honra ao patíbulo, para ver morrer o seu rei, e comoveu-se com a maneira estóica como ele soube encarar a morte. Era um rei que morria e, sobre isso, um rei que era um Stuart! O monarca subiu com impassível frieza e coragem os degraus do cadafalso e em cima, junto ao cepo e frente ao carrasco, a boca fechada descerrou-se-lhe finalmente, para pronunciar uma só palavra, uma única: - Remember! (Lembrem-se!) Depois, sempre sem mostrar o mais ligeiro temor, valorosamente, curvou-se, oferecendo o régio pescoço ao verdugo. O cutelo refulge um curto instante e desce com violenta segurança, separando, de um só golpe, do corpo esbelto a cabeça daquele que fora Carlos I, da Inglaterra. Vivera quarenta e nove anos! Em volta, o público, emocionado, de coração parado, pôde, enfim, desoprimir-se, num surto de alívio, alguns de satisfação, outros de dor. Pois não era ele um rei, apesar dos seus defeitosIn Américo Faria, Dez Monarcas Infelizes, Livraria Clássica Editora, colecção 10, Lisboa, s/d.

Cortesia de LCEditora/JDACT

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Luís XVI. França. Monarca Infeliz. Américo Faria. «Quatro anos após o seu auspicioso casamento, Luís XVI ascendia ao trono por morte do avô. É então, que ele profere a histórica frase de desespero: Sou o mais infeliz dos homens! Meu Deus, que fardo recebo na minha idade!»


Cortesia de wikipedia

O ‘pobre homem’ que não queria reinar
«Na verdade, se há, na substancial História da França, monarcas infelizes, ao neto do faustoso rei Bem-Amado, que foi o décimo-sexto da extensa relação dos Luíses, cabe, indubitavelmente, as palmas do martírio. Como soberano, o seu reinado foi dos mais tormentosos e acidentados, e, como marido, talvez tivesse sido feliz somente pela sua credulidade e confiança, o que, bem vistas as coisas, poderá ser uma forma de felicidade!, a mulher, essa bela e galante Maria Antonieta da Áustria, tê-lo-ia iludido milhentas vezes, com a volubilidade e versatilidade que historiadores autorizados lhe apontam. Luís XVI era, realmente, o pobre homem, como a esposa geralmente o nomeava, com demasiadas virtudes para reinar, se aceitarmos como boa a teoria do cínico Maquiavel. Ele não tinha as condições essenciais para poder vencer, dominar o terrível ambiente de rebeldia, de corrupção, de libertinagem, de espírito revolucionário latente para que foi arrojado pelo destino. Sinceramente religioso, cheio das melhores intenções para o seu povo, mas de carácter fraco, indeciso sempre quanto às atitudes políticas a tomar, era presa fácil para as intrigas, tanto dos cortesãos astuciosos como da própria rainha. Um inconsciente joguete nas mãos dos que o rodeavam. Tal o retrato que dele traçam unanimemente os cronistas. Filho do delfim Luís, neto de Luís XV, nasceu o infortunado Capeto, em 1754, na deslumbrante moldura de Versalhes. A morte do pai levou-o à situação, para si indesejável, de herdeiro directo da coroa, com manifesto desespero do avô: Esse balofo ente vai deitar tudo a perder!, teria dito dele o Bem-Amado, tempos antes do seu passamento.
Mas, se o avô não ficava satisfeito, parece que o desgosto do forçado herdeiro não era menor. A perspectiva de algum dia reinar nunca lhe agradara, no que também são unânimes em o reconhecer todos os seus biógrafos. Dir-se-ia que ele tinha a percepção intuitiva das dificuldades que iriam deparar-se-lhe e o destino de tragédia que o aguardava. O povo, porém, cansado de toda a sorte de escândalos da realeza e da aristocracia, depositava no gordo e apático príncipe, devido à grande reputação de virtudes que lhe engrinaldavam o espírito, as maiores esperanças. O seu casamento, ainda delfim, com a volúvel Maria Antonieta, nos princípios de 1770, acendera delirante entusiasmo na alma popular. O júbilo do povo atingiu quase as raias da loucura quando a formosa princesa austríaca fez a sua solene entrada em Paris, em Maio desse ano. A expectativa para um feliz reinado era, portanto, das melhores. Quatro anos após o seu auspicioso casamento, Luís XVI ascendia ao trono por morte do avô. É então, que ele profere a histórica frase de desespero: Sou o mais infeliz dos homens! Meu Deus, que fardo recebo na minha idade!
Nesse momento, que para tantos seria de glória e satisfação, tornou-se patente o seu desprazer do poder, para o qual não sentia a mais pequena espécie de aptidão. E, ao receber, mais tarde, a coroa na cabeça, comentou, num esgar, para o arcebispo de Reims: Ela incomoda-me! A época era, realmente, de temível subversão de ideias. O povo agitava-se numa ânsia de justiça social, de morigeração de costumes. A nação vivia numa impaciência permanente, a que os violentos desmandos dos soberanos e da aristocracia a tinham conduzido. Esses manifestos factores de desagregação monárquica constituíam, sem sombra de dúvida, fortes obstáculos a uma governação pública hábil, mas, para um timoneiro mais enérgico ou mais arguto, não eram de forma nenhuma insuperáveis. Bastava, de facto, que Luís XVI volvesse um olhar para o passado do reino, sempre envolvido ora em lutas intestinas ora em guerras com o exterior, para se fortalecer esperançosamente com a visão de outras provas bem mais difíceis que a monarquia atravessara já, por diversas vezes, e que galhardamente vencera». In Américo Faria, Dez Monarcas Infelizes, Livraria Clássica Editora, colecção 10, Lisboa, s/d.

Cortesia de LCEditora/JDACT

Monarcas Infelizes. Maximiliano I. México. Américo Faria. «… o ambiente social no México, sempre exacerbado de paixões, de irrequietudes, que o sangue escaldante do seu povo, caldeamento de raças ardentes: os espanhóis de um lado e, do outro, os índios aborígenes…»

Cortesia de wikipedia

Habsburgo que segue o destino trágico dos seus ancestrais
«Tragédias sobre tragédias se abatem, no decorrer dos tempos, sobre esta família dos Habsburgos, cujos membros só raramente escaparam à fatalidade, que parece tê-los estigmatizado. Fernando José Maximiliano, que Napoleão haveria de enviar à morte sobre um trono imperial, um trono oscilante, efémero, criado num momento de crise por influência europeia, e que logo se esbarrondaria irremediavelmente, nasceu em 1832, no palácio de Shoenbrunn, em Viena, no mesmo palácio em que, nessa mesma data, noutra sala, agonizava o infortunado filho de Napoleão Bonaparte, cujo caminho à coroa os Habsburgos tinham entravado. Dezasseis anos mais tarde, em 1848, o irmão mais velho do recém-nascido, Francisco José, sobe ao trono imperial da dualidade austro-húngara, enquanto aquele ingressa na Marinha de Guerra do seu país, onde chegou a atingir o posto de vice-almirante. Desde novo que o arquiduque Maximiliano, segundo filho do arquiduque Francisco Carlos, de espírito poético, sonhador, mostrava pendores para a literatura, que se concretizaram mais tarde na publicação de descrições, ao gosto romântico da época, das viagens que como marinheiro fez a terras distantes, a pontos pouco conhecidos ainda. Deixou o livro Memórias do Imperador Maximiliano.
Mesmo já como Governador-geral de Veneza, cargo para que fora nomeado pelo irmão, o arquiduque Maximiliano, carácter aventureiro, não soube sobrepor à fogueira do sonho que lhe abrasava a alma o senso prático das realidades, essencial a um homem de Estado. O perigo era evidente. Nestas condições espirituais pode calcular-se o efeito que nele fez a encantadora filha de Leopoldo I, da Bélgica, a princesa Carlota, dona Maria Carlota!, jovem de grande talento, beleza e ambição, e igualmente romântica como ele. Um verdadeiro casamento de amor, aliás entrelaçado nas melhores conveniências políticas, foi o deles, celebrado em Bruxelas, em 27 de Julho de 1857. Esse ano encontra os dois príncipes, que doloroso destino conduziria a trágico desastre político, radiantes na felicidade da sua lua-de-mel, no castelo de Miramar, enchendo os olhos dos largos horizontes do Adriático em frente. Entretanto, o ambiente social no México, sempre exacerbado de paixões, de irrequietudes, que o sangue escaldante do seu povo, caldeamento de raças ardentes: os espanhóis de um lado e, do outro, os índios aborígenes, talvez explique, forçara as potências europeias a uma intervenção armada no país, em 1861: para garantia das vidas e bens naquela turbulenta República liberal e anticlerical, que ofendia os seus sentimentos e prejudicava os interesses estrangeiros.
Os acontecimentos ocorridos no México impressionavam naturalmente a Europa. Mas, por um lado, a opinião pública francesa, que almejava pelo repatriamento das suas tropas, e, por outro, as potências, Inglaterra e Espanha, comparticipantes na ocupação, exigiam o termo daquela interferência. A intervenção da França, da Inglaterra e da Espanha fora decidida em face da violência da guerra civil, provocada pelo profundo descalabro moral e económico e, sobretudo, pelas medidas anti-religiosas de Benito Juarez, índio-zapoteca, que, dedicando-se, primitivamente, à Teologia, breve a trocou pelo Direito, ascendendo à suprema magistratura do país. Quando as tropas da Inglaterra e da Espanha se afastaram, ficou unicamente a França a braços com a difícil situação. O seu contingente militar desembarcou em Vera Cruz, em 1862, e dali marchou sobre Puebla, que tomou, após encarniçada luta, fazendo a entrada na capital em 7 de Junho. A Napoleão III apresentava-se, pois, um problema para resolver. Havia a certeza de que, mal as tropas estrangeiras de ocupação voltassem costas ao país, tudo ali recomeçaria. Foi então que no seu cérebro se forjou o projecto, perigoso mas de tentar, de impor ao turbulento país uma monarquia hereditária, como solução p ti os problemas internos. As vistas do imperador francês, perscrutando em volta à procura de um soberano, fixaram-se na figura do arquiduque Maximiliano, não por ser um Habsburgo, mas por descender de Carlos V». In Américo Faria, Dez Monarcas Infelizes, Livraria Clássica Editora, colecção 10, Lisboa, s/d.

Cortesia de LCEditora/JDACT

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Carlos XII. Suécia. Monarca Infeliz. Américo Faria. «… nada menos de três inimigos coroados. E que inimigos! Augusto II, da Polónia; Frederico IV, da Dinamarca; e Pedro I, Czar de Moscóvia e senhor das Rússias, haviam-se combinado numa acção comum com o intuito de arrebatarem…»

Cortesia de wikipedia

Rei errante que não conseguiu voltar ao trono
«Na galeria gloriosa e numerosa dos Carlos que reinaram na Suécia, Carlos XII foi certamente dos que mais se distinguiram, já como guerreiro notável, já como esforçado desafrontador da honra nacional, muito embora a sua curta existência nos últimos anos tivesse acentuado cunho de infelicidade. Ele foi um rei que não pôde reinar, por ter sido chamado pelo inimigo ao campo da luta, que lhe tomou todo o tempo de que dispunha. Esse mesmo facto o impediu de casar-se. Carlos XII, filho de Carlos XI, a quem sucedeu no trono, nasceu, em 1682, em Estocolmo, e cingiu a coroa real de 1697 a 1718. A Suécia era, nesses tempos, e desde sempre, uma nação poderosa, invejada pelas potências vizinhas, e a sua independência só se mantinha pelas reais qualidades de valentia, de denodo, de organização do seu povo empreendedor, bem orientado e dirigido pelos seus soberanos. O Colosso do Norte era como então, e posteriormente, ficou sendo conhecida pelo resto do Mundo, e representava um factor de importância em todos os negócios europeus. Como em todos os países, os filhos de algo eram ali preparados, desde a meninice, no manejo de todas as armas, nos estratagemas da guerra e na compreensão da sua linhagem, para que chegados à idade própria, soubessem ser valorosos e hábeis à frente dos seus vassalos. E o que sucedia com os aristocratas, com mais poderosas razões se aplicava aos príncipes.
Tal princípio explica, possivelmente, a educação guerreira que Carlos XII, desde a infância, patenteava nos mínimos actos. Até mesmo nas suas brincadeiras de menino ele começou cedo a revelar um excepcional temperamento de lutador e um carácter invicto de antes quebrar que torcer. A morte do pai, em 1697, atirou-o, na idade de quinze anos apenas, para cima do cobiçado trono, com todas as graves responsabilidades e dificuldades que impendiam sobre a coroa sueca, vindas principalmente do exterior. De facto, os perigos e complicações não se fizeram esperar para o moço soberano. Alguns dos seus mais poderosos inimigos coligaram-se contra o seu país, julgando-o fácil saque para as suas ambições expansionistas, dada a juventude e inexperiência do rei-menino. Quando Carlos XII porventura se preparava para governar pacificamente, eis que lhe saltam ao caminho, à frente dos seus numerosos e ameaçadores exércitos, nada menos de três inimigos coroados. E que inimigos! Augusto II, da Polónia; Frederico IV, da Dinamarca; e Pedro I, Czar de Moscóvia e senhor das Rússias, haviam-se combinado numa acção comum com o intuito de arrebatarem algumas das terras do seu reino e enfraquecerem o seu poderio, que lhes fazia sombra.
Sem se atemorizar, de ânimo viril e vontade férrea, mostrando uma coragem incomparável, Carlos da Suécia encara os inimigos de frente e dispõe-se à luta, logo revelando uma bela capacidade de organizador e de táctico. É admirável a atitude decidida deste jovem monarca que, levantando a provocação lançada aos seus poucos anos, abandona o remanso da sua corte, onde permanecera somente três escassos anos, e se arroja, decididamente, com o reduzido exército numa guerra desigual, que a moralidade internacional da época talvez justifique. O primeiro exército que lhe sofreu os embates ardorosos e irresistíveis foi o da Dinamarca. De tal maneira e tão fulminantemente desenvolveu a sua acção, ah!, o reizinho sueco patenteava-se um verdadeiro homem à altura das circunstâncias!, que obrigou Frederico IV a assinar a paz de Travendahl, depois de ter sido batido completamente em 1700. Â guerra começara sob os melhores auspícios. Esta primeira vitória encheu de júbilo o seu povo, que pelas ruas das cidades deu largas a uma compreensível alegria, em entusiásticas manifestações. Livre temporariamente desse inimigo colocado à ilharga do seu reino, Carlos da Suécia volta-se depois, com as diminutas forças com que contava (9.000 homens, superando a quantidade com a qualidade e decisão!), contra a avalanche das forças de Pedro, o Grande, da Rússia, que lhe opunha um formidável exército de 50.000 soldados. A desproporção era assinalável, esmagadora, e faria hesitar outro que não fosse da têmpera de aço do rei sueco». In Américo Faria, Dez Monarcas Infelizes, Livraria Clássica Editora, colecção 10, Lisboa, s/d.

Cortesia de Livraria Clássica Editora/JDACT