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domingo, 13 de dezembro de 2020

Servidão Humana. W. Somerset Maugham. «A sala era dotada de sólido mobiliário e em cada um dos sofás viam-se três grandes almofadas. As poltronas tinham também as suas almofadas»

jdact e cortesia de wikipedia

«O dia rompeu cinzento e triste. As nuvens pairavam pesadamente, e havia no ar certa aspereza que era uma promessa de neve. Penetrando no quarto em que dormia uma criança, a criada cerrou as cortinas, após lançar um olhar maquinal à casa em frente, um prédio revestido de estuque com colunas no portal, e caminhou em direcção ao leito. Acorde, Philip, disse ela. Puxando as cobertas, tomou-o nos braços e desceu as escadas. Philip ia ainda meio adormecido. Sua mãe deseja vê-lo, acrescentou a criada. Abriu a porta de um quarto no andar térreo e conduziu a criança até à cama em que jazia uma mulher. Era a mãe do pequeno. Estendeu os braços para o filho, que se aninhou ao seu lado sem perguntar por que razão o tinham acordado. A mulher beijou-lhe os olhos e, com as mãos delicadas e magras, procurou sentir o calor do pequeno corpo através da alva camisola de flanela. Aconchegando-o ainda mais a si, perguntou. Está com sono, querido? A voz era tão débil que parecia vir de muito longe. O garoto não respondeu, mas sorriu satisfeito. Sentia-se feliz no leito grande e quente, enlaçado por aqueles braços macios. Procurou fazer-se ainda mais pequenino, encolhendo-se de encontro ao corpo da mãe, e beijou-a sonolentamente no rosto. Fechou os olhos, logo após, e adormeceu profundamente. O médico aproximou-se então da cama. Por favor, não o levem ainda!, gemeu ela.

Sem responder, o médico olhou para ela com ar grave. Sabendo que não lhe permitiriam ficar com a criança por muito tempo, a mulher tornou a beijá-la, correndo a mão ao longo do corpo até alcançar-lhe os pés. Segurou o pé direito, apalpou, um a um, os cinco dedinhos, e em seguida passou lentamente a mão pelo pé esquerdo. Deixou escapar um soluço. O que houve?, disse o doutor. A senhora está cansada. Ela balançou a cabeça, impossibilitada de falar, enquanto as lágrimas lhe rolavam pelas faces. O médico inclinou-se sobre o leito. Deixe-me levá-lo. Estava tão fraca que não pôde opor qualquer resistência. O menino foi entregue à criada. É melhor levá-lo para a cama dele. Pois não, doutor. Ainda adormecido, o garoto foi conduzido para cima. A mãe agora soluçava, com desespero. Que será feito do pobrezinho?

A enfermeira tentou acalmá-la, até que o pranto cessou pelo cansaço. O médico dirigiu-se a uma mesa, no outro lado do quarto, sobre a qual, coberto por uma toalha, jazia o corpo inanimado de um recém-nascido. Levantando a toalha, o doutor olhou. Um biombo o separava da cama, mas a mulher parece que adivinhou de que se tratava. Era menina ou menino?, cochichou para a enfermeira. Outro menino. A doente não disse mais nada. Pouco tempo depois, a ama de Philip regressava, aproximando-se do leito. O menino não chegou a acordar, disse ela. Seguiu-se uma pausa. O doutor examinou então, mais uma vez, o pulso da enferma. Nada me resta fazer no momento, observou ele. Voltarei depois de comer. Vou levá-lo até a porta, doutor, disse a ama. Desceram as escadas em silêncio. No hall o médico parou por um instante. Já mandou chamar o cunhado de mrs. Carey? Mandei, doutor. Sabe a que horas deverá chegar? Não, senhor. Estou esperando um telegrama. E o menino? Achava melhor afastá-lo daqui. Miss Watkin disse que o levaria. Quem é ela? É a madrinha do menino, doutor. Acha que mrs. Carey resistirá? O médico sacudiu a cabeça negativamente.

Passara-se uma semana. Philip estava sentado no soalho da sala de visitas de miss Watkin, na sua casa de Onslow Gardens. Era a única criança da casa e estava habituado a brincar sozinho. A sala era dotada de sólido mobiliário e em cada um dos sofás viam-se três grandes almofadas. As poltronas tinham também as suas almofadas. Servindo-se delas e dos banquinhos dourados, leves e fáceis de transportar, conseguira improvisar uma espécie de caverna onde se escondia dos peles-vermelhas emboscados atrás das cortinas. Encostou o ouvido ao soalho e fingiu ouvir o tropel dos búfalos que se precipitavam através da planície. Sentindo que a porta se abria, prendeu por um momento a respiração com medo de ser descoberto; um puxão violento afastou, entretanto, uma das cadeiras e as almofadas caíram ao chão. Menino levado! Miss Watkin vai ficar zangada. Olá, Ema!, disse ele. A ama-seca inclinou-se e beijou-o, ocupando-se depois em sacudir as almofadas e colocá-las nos respectivos lugares. Vou voltar para casa?, perguntou ele. Vai, sim. Vou levá-lo comigo. Você está com um vestido novo, Ema.

Era 1885, e ela usava anquinhas. Seu vestido era de veludo negro, com mangas justas, ombros inclinados e saia de armação, com três grandes babados. Usava também uma touca preta com cordões de veludo. Ema hesitou. Como esperava outra pergunta, não pôde dar a resposta que preparara. Você não se interessa em saber como está a sua mãe?, indagou por fim. Oh, me esqueci! Como está a mãe? Chegara a ocasião. Sua mãe está bem e é muito feliz. Oh, que bom! Sua mãe foi embora. Não a verá mais. Philip não compreendia o que a ama queria dizer. Por quê? Sua mãe está no céu». In W. Somerset Maugham, 1915, Edições ASA, 2009, ISBN 978-989-230-648-3.

Cortesia de ASA/JDACT

JDACT, W. Somerset Maugham, Século XX, Literatura, Cultura,

quinta-feira, 2 de julho de 2020

O Processo. Franz Kafka. «Ora, esta é muito boa!, exclamou K., saltando da cama para vestir rapidamente as calças. Verei que tipos de pessoas são as que estão na peça ao lado…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Um belo dia, Josef K., um bem-sucedido gerente bancário, é subitamente preso no seu próprio quarto, sem saber porquê nem por quem. Vê-se então envolvido num labiríntico e absurdo processo que decorre secretamente em obscuras secretarias instaladas em sótãos, conduzido por juízes menores que têm a mera incumbência de o inquirir. Concebido em 1914, o romance O Processo constitui para Kafka a forma ideal para expressar a fragmentação do mundo e da realidade em que vive o homem moderno. A presente tradução é de Álvaro Gonçalves, a primeira em Portugal a ser feita a partir da versão alemã baseada no manuscrito original de Kafka, que anula as alterações introduzidas pelo amigo e testamenteiro do autor, Max Brod, na sua primeira edição de 1925». In Sinopse

«Alguém devia ter caluniado Josef K., pois sem que ele tivesse feito qualquer mal foi detido certa manhã. A cozinheira da senhora Grubach, sua hospedeira, que todos os dias às oito horas lhe trazia o pequeno-almoço, não se apresentou no quarto de K. nessa manhã. Jamais acontecera isso. K. aguardou ainda um poucochinho, olhou, recostado no seu travesseiro, a anciã que morava em frente da sua casa e que o observava com uma curiosidade inteiramente fora do comum; depois, porém, sentindo-se ao mesmo tempo faminto e surpreso, fez soar a campainha. Imediatamente bateram na sua porta, e no dormitório entrou um homem ao qual K. jamais vira antes naquela casa. Era um tipo esbelto, porém de aspecto sólido, que vestia um traje negro e justo, o qual, semelhante a uma roupa de viagem, apresentava diversas pregas, bolsos, abas, botões e um cinto, que emprestavam à veste um ar estranhamente prático sem que, porém, pudesse estabelecer-se claramente para que serviriam todas aquelas coisas.
Quem é você?, perguntou K., erguendo-se a meio no leito. O homem, contudo, ignorou a pergunta, como se se devesse desculpar a sua aparição naquela casa, e limitou-se por sua vez a indagar: você chamou? Ana precisa trazer-me o pequeno-almoço, disse K., procurando estabelecer por conjectura, enquanto permanecia um momento em silêncio, quem seria aquele homem. Este, porém, não ficou muito tempo exposto aos olhares de K., mas, voltando-se para a porta, que entreabriu um pouco, disse a alguém que certamente estava por trás dela: quer que Ana lhe traga o pequeno-almoço. No quarto pegado seguiu-se a isto uma risota por cujo som não se poderia descobrir se correspondia a uma ou a diversas pessoas. Embora essa risota não tivesse dito ao estranho nada que ele ignorasse, este, contudo, disse a K., como um aviso: é impossível.
Ora, esta é muito boa!, exclamou K., saltando da cama para vestir rapidamente as calças. Verei que tipos de pessoas são as que estão na peça ao lado e como a senhora Grubach me explica esta intromissão. No mesmo instante, entretanto, ocorreu-lhe que não devia ter dito isso em voz alta porque assim reconhecia, de certo modo, o direito que o estranho tinha em vigiá-lo; no momento, porém, não deu importância ao facto. De todas as maneiras, o estranho já o entendera assim, pois lhe disse: não acha melhor ficar aqui? Não quero nem ficar aqui nem falar com você até que me diga quem é. Perguntei-lhe com boa intenção, disse o estranho, abrindo então a porta por iniciativa própria. A sala pegada, onde K. penetrou mais lentamente do que teria desejado, tinha à primeira vista quase o mesmo aspecto da noite anterior. Era o salão da senhora Grubach que talvez, com os seus móveis, tapetes, porcelanas, apresentava-se um tanto mais espaçoso que de costume; isso, porém, não se percebia de imediato, tanto mais que a modificação principal era a presença de um homem, sentado à janela, com um livro do qual afastou a vista quando K. se apresentou. Você deveria ter ficado em seu quarto. Franz não lhe disse? Sim, mas que deseja você?, indagou K., desviando o olhar do novo personagem para fixá-lo naquele a quem acabavam de chamar Franz, que permanecia de pé junto à porta, e para tornar a dirigi-lo por fim ao outro. Através da janela aberta tornava-se a ver a anciã vizinha que, apoiada na sua, contemplava a cena com curiosidade verdadeiramente senil, como se nada devesse perder dela». In Franz Kafka, O Processo1914-1925, Livros do Brasil, Colecção Dois Mundos, 2019, ISBN 978-972-382-928-0.

Cortesia de ELivrosdoBrasil/JDACT

domingo, 14 de junho de 2020

Trópico de Capricórnio. Henry Miller. «Diversas vezes, de tantos em tantos anos, estive na iminência de fazer essa descoberta, mas, caracteristicamente, consegui sempre fugir aos encartes»

jdact

«(…) No meu azedume, procuro muitas vezes razões para os condenar, a fim de melhor me condenar. Sim, porque eu também sou como eles, em muitas coisas. Durante muito tempo pensei que escapara, mas à medida que o tempo passa verifico que não sou melhor, que sou até um bocadinho pior, pois vejo mais claramente do que eles jamais viram e, contudo, sou impotente, incapaz de modificar a minha vida. Quando olho para trás, para o já vivido, tenho a impressão de que nunca fiz nada de minha livre vontade e sim, sempre, por pressão de outros. Ê costume considerarem-me um tipo aventureiro, mas nada poderia estar mais longe da verdade. As minhas aventuras foram sempre casuais, foram-me sempre impostas, foram sempre mais suportadas do que empreendidas. Sou da própria essência desse altivo e fanfarrão povo nórdico que nunca teve a mínima noção da aventura, mas que, não obstante, devastou a Terra, a virou do avesso, espalhando por toda a parte ruínas e relíquias. Espíritos inquietos, mas não aventureiros. Espíritos atormentados, incapazes de viver no presente. Vergonhosos cobardes todos eles, incluindo eu. Há apenas uma grande aventura. E essa é para o interior, rumo ao eu, e para essa não contam tempo nem espaço, nem tão-pouco feitos. Diversas vezes, de tantos em tantos anos, estive na iminência de fazer essa descoberta, mas, caracteristicamente, consegui sempre fugir aos encartes. Quando tento encontrar uma boa desculpa para isso, só consigo pensar no ambiente, nas ruas que conhecia e nas pessoas que as habitavam. Não sou capaz de me lembrar de nenhuma rua da América, nem de nenhuma pessoa moradora em tal rua, que pudesse conduzir alguém à descoberta do eu. Percorri as ruas de muitos países do mundo, mas em lado algum me senti tão degradado e humilhado como na América. Penso em todas as ruas da América reunidas e formando uma imensa cloaca, uma cloaca do espírito para a qual tudo é aspirado e levado na enxurrada para a mer… eterna. Sobre essa cloaca o espírito do trabalho agita uma vara mágica; irrompem lado a lado palácios e fábricas, fábricas de munições e de produtos químicos, siderurgias e sanatórios, prisões e manicómios. Todo o continente é um pesadelo que causa a maior miséria ao maior número. Fui um deles, uma entidade isolada no meio da maior congregação de riqueza e de felicidade (riqueza estatística e felicidade estatística), mas nunca conheci nenhum homem que fosse verdadeiramente rico ou verdadeiramente feliz. Eu, pelo menos, sabia que era infeliz e pobre, que estava fora do ritmo e da linha. Era essa a minha única consolação, a minha única alegria. Mas não chegava. Teria sido melhor para a minha paz de espírito, para a minha alma, se tivesse manifestado a minha rebelião abertamente, se tivesse ido para a cadeia por causa dela e se lá tivesse apodrecido e morrido. Teria sido melhor se, como o louco Czolgosz, tivesse abatido a tiro algum born presidente McKinley, alguma alma insignificante e bondosa como ele que nunca fizera o mínimo mal a ninguém. Sim, porque no fundo do meu coração havia assassínio: queria ver a América destruída, arrasada de alto a baixo. Queria ver isso acontecer por pura vingança, para castigo dos crimes cometidos contra mim e contra outros como eu, que nunca foram capazes de erguer a voz e exprimir o seu ódio, a sua rebelião, a sua legítima sede de sangue.
Era o produto maldito de um solo maldito. Se o eu não fosse imperceptível, o eu acerca do qual escrevo há muito teria sido destruído. A alguns isto poderá parecer uma invenção, mas seja o que for que eu imagine tenha acontecido, aconteceu realmente, pelo menos a mim. A história poderá negá-lo, uma vez que não representei qualquer papel na história do meu povo, mas mesmo que tudo quanto digo esteja errado e imbuído de preconceitos, de despeito e de malevolência, mesmo que eu seja um mentiroso e um envenenador, mesmo assim é a verdade e terá de ser engolida». In Henry Miller, Trópico de Capricórnio, 1939, Editorial Presença, colecção Obras Literárias Escolhidas, 2009, ISBN 978-972-234-097-7

Cortesia de EPresença/JDACT

domingo, 19 de janeiro de 2020

O Amante de lady Chatterley. D. H. Lawrence. «O intruso! O intruso! E chamavam-lhe pretensioso! Clifford parecia muito mais pretensioso e convencido! E muito mais estúpido»

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«(…) Mas não, nunca acabariam. De certo modo fazia os possíveis por ser maltratado, porque se imiscuía num meio a que não pertencia: a alta sociedade inglesa. E divertia-se com os pontapés que lhe dava. E ele odiava-a. Mesmo assim viajava com o criado e num bom carro, esse vadio de Dublim. Havia qualquer coisa nele que Connie apreciava. Não se fazia importante, não tinha ilusões sobre si próprio. Conversava com Clifford de maneira delicada, breve, prática sobre tudo que este queria saber. Não se expandia nem se deixava entusiasmar. Sabia que tinha sido convidado para Wragby para ser usado, e, como um velho homem de negócios, esperto e indiferente, como um importante homem de negócios, permitia que o interrogassem e respondia sem que os seus sentimentos interferissem. Dinheiro! O dinheiro é uma espécie de instinto, uma das características da natureza humana é fazer dinheiro. Não tem nada a ver com o que uma pessoa faça, nem é um jogo. É uma espécie de acidente permanente da nossa própria natureza. Quando se começa, faz-se dinheiro e não se pára mais, até um determinado ponto, é claro.
Mas é preciso começar, respondeu Clifford. Oh, absolutamente, é preciso entrar na roda, quando se está de fora não se consegue nada. Tem de se lutar para entrar, e uma vez que o tenha conseguido, é inevitável. Mas poderia ter ganho dinheiro sem as peças? Oh, provavelmente não! Posso ser bom ou mau, mas sou escritor, um escritor teatral, e não podia ser outra coisa. Disso não tenho a menor dúvida. E acha que tem de ser um autor de peças para o grande público?, perguntou Connie. É esse exactamente o ponto!, respondeu Michaelis, voltando-se para ela, num impulso súbito. Tudo isso não significa nada. A popularidade não significa nada, nem o grande público, se quiser. Realmente não há nada nas minhas peças que as torne populares, não é isso. São apenas como o tempo... São como têm de ser, pelo menos por agora. Olhou para Connie e os seus olhos um pouco rasgados e a expressão lenta eram de quem se tivesse afogado numa desilusão abismal. Ela sentiu um estremecimento. Parecia muito velho, infinitamente velho, formado por camadas de desilusão, afundando-se dentro dele geração após geração, como os estratos geológicos. E, ao mesmo tempo, estava perdido como uma criança. Um proscrito, de certo modo, mas com a coragem desesperada de uma existência de ratazana. Pelo menos é extraordinário o que você já fez, com a sua idade, disse Clifford, pensativo. Tenho trinta anos, sim, trinta!, respondeu Michaelis, de maneira ríspida e brusca, com um riso estranho, ao mesmo tempo profundo, triunfantemente amargo. E está só?, perguntou Connie. Que é que quer dizer? Se vivo só? Tenho o meu criado, é grego, ele assim o afirma, e é bastante incompetente. Mas conservo-o. E vou casar. Ah, sim, tenho de casar.
Parece que está a falar de uma operação às amígdalas, disse Connie, a rir-se. Tem de fazer esforço? Ele olhou para ela com admiração. Bem, lady Chatterley, de certo modo tenho. Acho... ,desculpe..., acho que não me poderia casar com uma inglesa, nem mesmo com uma irlandesa. Experimente com uma americana!, disse Clifford. Oh, as americanas!, respondeu, com um grande sorriso. Não, pedi ao meu criado que me encontrasse uma turca, ou coisa assim..., mais oriental. Connie estava realmente impressionada com este curioso e melancólico espécime, com um êxito extraordinário. Dizia-se que, só da América, tinha um rendimento de cinquenta mil dólares. Por vezes era atraente, outras, quando olhava de lado ou para baixo, e a luz incidia nele, tinha uma beleza silenciosa e persistente, como uma máscara de um negro esculpida em marfim, com os seus olhos muito rasgados, as sobrancelhas pronunciadas, curiosamente arqueadas, a boca imóvel e contraída. Aquela imobilidade momentânea, mas expressa, aquela imobilidade e intemporalidade a que o Buda aspira e que os negros possuem por vezes, sem querer. Qualquer coisa de velho, de velho e aquiescente, própria da raça. Séculos de aquiescência como destino de raça, em vez da nossa resistência individual. E depois uma travessia a nado como fazem os ratos num rio escuro. Connie sentiu uma súbita e estranha simpatia por ele, feita de compaixão, e com uma tonalidade de repulsa, quase amor. O intruso! O intruso! E chamavam-lhe pretensioso! Clifford parecia muito mais pretensioso e convencido! E muito mais estúpido. Michaelis percebeu imediatamente que a tinha impressionado. Olhava-a com os seus olhos rasgados, cor de avelã, ligeiramente salientes, com uma expressão de pura indiferença. Estava a avaliá-la e a avaliar a impressão que despertara. Com ingleses ele nunca podia deixar de ser o eterno intruso, mesmo tratando-se de amor. No entanto, algumas vezes, as mulheres cediam, e as inglesas também». In D. H. Lawrence, O Amante de lady Chatterley, 1928, Relógio D’Água Editores, Ficções, 2011, ISBN 978-972-708-848-1.
                  
Cortesia de RD’ÁguaE/JDACT

terça-feira, 29 de outubro de 2019

O Amante de lady Chatterley. D. H. Lawrence. «Apesar de tudo foi muito delicado, porque ele alcançara um êxito extraordinário. A Glória, a deusa-cadela, como se costuma chamar, andava à volta dos pés de Michaelis…»

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«(…) O pai voltou a avisá-la: porque não arranjas um apaixonado, Connie? Aproveita o que há de bom na vida. Nesse Inverno, Michaelis veio passar alguns dias em Wragby. Era um jovem irlandês, que já tinha feito fortuna com as suas peças na América. Fora apoiado muito entusiasticamente por uns tempos pela alta sociedade de Londres, porque escrevia peças de salão. Depois, gradualmente, essa mesma sociedade foi percebendo que tinha sido ridicularizada por um rato sujo das ruas de Dublim, e a reacção súbita sobreveio. Michaelis era a última palavra em grosseria e má-criação. Descobriu-se que ele assumia uma posição antibritânica, e para a classe que tinha feito esta revelação, era pior do que o crime mais condenável. Foi completamente ignorado e o seu cadáver lançado à lata do lixo. Apesar disso, Michaelis tinha o seu apartamento em Mayfair, e a imagem de um cavalheiro descia a Bond Street, porque nem os melhores alfaiates põem de parte os clientes grosseiros quando estes pagam.
Clifford convidava um homem de trinta anos no momento menos auspicioso da sua carreira. Mas, apesar de tudo, Clifford não hesitou. Michaelis captara as atenções de talvez um milhão de pessoas, provavelmente, e, sendo um intruso sem remissão, sem dúvida ficaria grato pelo convite para Wragby no momento em que todo o mundo elegante o repudiava. Sem dúvida que a sua gratidão só poderia trazer vantagens a Clifford, do lado de lá, na América. Glória! Um homem consegue a glória, seja ele o que for, se se falar dele da maneira certa, especialmente do lado de lá. Clifford era um homem de futuro, e era notável o seu profundo instinto de publicidade. Afinal retratou-o magnificamente numa peça, e Clifford era uma espécie de herói popular. Até ao dia em que descobriu que tinha sido ridicularizado. Connie estranhava um pouco a tendência cega, imperiosa de Clifford de se tornar conhecido, conhecido nesse mundo vasto e amorfo, que ele próprio não conhecia e que receava com inquietação; ser conhecido como escritor, como escritor moderno de primeira classe. Connie sabia, pelo afortunado, velho, vigoroso e bonacheirão sir Malcolm, que os artistas faziam a sua própria publicidade e se esforçavam por exportar as suas obras. Mas o pai servia-se de vias já preparadas, que eram de todos os outros académicos que vendiam os seus quadros, enquanto Clifford descobria novas vias de publicidade, quaisquer que fossem. Convidava todos os tipos de pessoas para Wragby, sem no entanto se rebaixar. Mas, decidido a conseguir rapidamente uma reputação, servia-se de tudo o que estivesse ao seu alcance. Michaelis chegou no momento oportuno, num bom carro, com o seu motorista e um criado. Era incontestavelmente um homem de Bond Street! Mas, ao vê-lo, Clifford, que tinha qualquer coisa de fidalgo rural, retraiu-se. Ele não era de modo nenhum..., não era exactamente..., de facto, em suma, não era como pretendia parecer, atendendo à sua aparência. Para Clifford isto era decisivo e suficiente.
Apesar de tudo foi muito delicado, porque ele alcançara um êxito extraordinário. A Glória, a deusa-cadela, como se costuma chamar, andava à volta dos pés de Michaelis, quase humildes e provocadores, ao mesmo tempo rosnadora e protectora, e isso intimidava totalmente Clifford, porque ele também se queria prostituir à Glória, deusa-cadela, se ela o aceitasse. Obviamente que Michaelis não era inglês, apesar dos alfaiates, chapeleiros, barbeiros e sapateiros do melhor bairro de Londres. Não, era óbvio que ele não era inglês, tinha uma cara fora do comum, pálida e uniforme, e um rancor também fora do comum. Mostrava ressentimento e rancor, e isso era evidente para qualquer cavalheiro de genuíno sangue inglês, que nunca permitiria que tais sentimentos transparecessem. Pobre Michaelis, tinha sido tão maltratado, que ainda não perdera um certo ar de cauda entre as pernas. Tinha aberto o seu caminho por puro instinto e total ousadia até à cena, à boca da cena, com as suas peças. Tinha surpreendido o público e pensara que os maus dias tinham acabado». In D. H. Lawrence, O Amante de lady Chatterley, 1928, Relógio D’Água Editores, Ficções, 2011, ISBN 978-972-708-848-1.
                  
Cortesia de RD’ÁguaE/JDACT

sábado, 26 de outubro de 2019

O Amante de lady Chatterley. D. H. Lawrence. «Connie, contudo, sentia dentro de si uma inquietação crescente. Em virtude do seu afastamento de todas as coisas, uma inquietação apossava-se dela como se fosse demência…»

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«(…) Clifford tinha bastante amigos, mais conhecidos do que amigos, que convidava para Wragby. Convidava todos os tipos de pessoas, críticos, escritores, pessoas que contribuíam para que os seus livros fossem elogiados. Todos se sentiam lisonjeados pelo convite para Wragby, e elogiavam realmente. Connie entendia tudo perfeitamente. Mas porque não? Era uma das transitórias imagens do espelho. Não via nisso nenhum inconveniente. Recebia todas aquelas pessoas, na sua maioria homens. Recebia igualmente as poucas relações aristocráticas de Clifford. Com a sua doçura e o seu bom aspecto de rapariga do campo, com tendência para as sardas, com os grandes olhos azuis e o cabelo castanho encaracolado e uma voz suave, o torso feminino, mas forte, era considerada um pouco antiquada e demasiado feminina. Não era um esqueleto, nem tinha peito e nádegas de rapazinho. Era demasiado mulher para ser completamente elegante. Por isso os homens, especialmente os não jovens, eram muito gentis para com ela. Mas, sabendo a tortura que Clifford poderia sentir à menor suspeita de devaneio amoroso da sua parte, não lhes dava absolutamente nenhum encorajamento. Era tranquila e distante, não tinha nenhum contacto com eles nem tencionava tê-lo. Clifford sentia-se extraordinariamente orgulhoso.
A família de Clifford tratava-a de uma forma muito gentil. Sabia que essa gentileza não era mais do que falta de medo, pois esse tipo de pessoas só respeitam aqueles que receiam. Também não tinha contacto com eles, deixava-os ser amáveis e desdenhosos, deixava-os sentir que não precisavam de se pôr em defesa. Estava completamente longe deles. O tempo passava. Tudo o que acontecia não era nada, porque ela estava fora de todas as coisas. Ela e Clifford viviam as suas ideias e os livros dele. Ela recebia, pois havia sempre visitas em casa. O tempo passava, como num relógio. Eram oito e meia em vez de sete e meia.

Connie, contudo, sentia dentro de si uma inquietação crescente. Em virtude do seu afastamento de todas as coisas, uma inquietação apossava-se dela como se fosse demência, contraía-lhe os membros quando não queria, fazia-a levantar-se quando preferia ficar confortavelmente sentada; vibrava dentro dela, no ventre, por todo o corpo, até sentir que tinha de se atirar à água para se libertar. Era uma inquietação exasperada. Fazia bater o coração com muita força e sem razão. E estava a emagrecer. Era apenas inquietação. Queria correr pelo parque, abandonar Clifford e deitar-se de barriga para baixo nos fetos. Fugir daquela casa, tinha de fugir daquela casa e das pessoas. O bosque era o seu único refúgio, o seu santuário. Mas não era realmente um refúgio, um santuário, porque ela não tinha nada a ver com ele. Era apenas o lugar para onde podia ir libertar-se do resto. Nunca esteve em contacto com o espírito do bosque, se é que tal absurdo existia. Sabia vagamente que, de certo modo, se estava a desfazer física e mentalmente. Sabia vagamente que estava fora de tudo, que tinha perdido o contacto com o mundo real e vital. Só Clifford e os seus livros, que não existiam, vazios por dentro do vazio. Tinha consciência de tudo isto, vagamente. Mas era como bater com a cabeça contra uma pedra». In D. H. Lawrence, O Amante de lady Chatterley, 1928, Relógio D’Água Editores, Ficções, 2011, ISBN 978-972-708-848-1.
                  
Cortesia de RD’ÁguaE/JDACT

O Amante de lady Chatterley. D. H. Lawrence. «O que os olhos não vêem, o espírito não conhece: não existe. Connie e Clifford viviam já há quase dois anos em Wragby, aquela vida vaga de absorção por Clifford…»

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«(…) Nunca perdoaria a Connie por a ter despojado da sua união psicológica com o irmão. Deveria ser ela, Emina, a produzir esses contos, esses livros, com ele. Os contos Chatterley, algo de novo no mundo, e que era deles, dos Chatterley. Não existia nada que os tivesse precedido, nem nenhuma ligação orgânica, quer de pensamento, quer de expressão. Apenas algo de novo no mundo: os livros Chatterley, inteiramente pessoais. O pai de Connie, quando fez uma visita rápida a Wragby, disse à filha, a sós: aquilo que Clifford escreve está em voga, mas é vazio. Não terá futuro!. Connie olhou para aquele cavalheiro escocês corpulento, que sempre vivera bem, e os seus olhos, os seus grandes olhos azuis espantados, tornaram-se vagos. Vazio! Que quereria ele dizer com vazio? Se os críticos elogiaram, e o nome era quase famoso, e já ganhava até dinheiro com o que escrevia..., que quereria o pai dizer com o vazio dos seus contos? Que é que lhes faltava?
Connie adoptara o lema das jovens: o momento presente era tudo. E os momentos sucediam-se sem relação necessária uns com os outros. No segundo Inverno passado em Wragby, o pai disse-lhe: espero, Connie, que não permitas que as circunstâncias te obriguem a ser uma demí-vierge. Demi-víerge!, repetiu Connie, num tom vago. Porquê? Porque não? A não ser que gostes, evidentemente, respondeu o pai com vivacidade. Depois disse o mesmo a Clifford, estando os dois a sós: receio que Connie não seja do tipo de mulher que se adapte a uma demivierge. Semivirgem, repetiu Clifford, traduzindo, para ter certeza da expressão. Pensou por uns momentos, depois ficou muito vermelho. Estava zangado e ofendido. Em que é que não se adapta a ela?, perguntou, num tom duro. Está a ficar magra..., angulosa. Não é o estilo dela. Não é do género de mulher magra como uma solha, é uma truta escocesa das grandes.
Sem as manchas, evidentemente, respondeu Clifford. Mais tarde quis falar no assunto a Connie, da história da demi-vierge, do estado de semi-virgindade das suas relações, mas não foi capaz. Era, ao mesmo tempo, demasiado íntimo com ela e não suficientemente íntimo para o fazer. Espiritualmente, os dois eram como se fossem um só, mas, corporalmente, não existiam, e nenhum deles seria capaz de falar no corpus delicti. Eram muito íntimos e muito intocáveis. Connie sabia no entanto que o pai tinha dito alguma coisa, e que essa coisa estava na mente de Clifford. Sabia que ele não se importava que ela fosse meio virgem ou meio mundana, desde que ele o ignorasse completamente e nunca fosse obrigado a saber. O que os olhos não vêem, o espírito não conhece: não existe. Connie e Clifford viviam já há quase dois anos em Wragby, aquela vida vaga de absorção por Clifford e pelo seu trabalho. Os seus interesses eram todos canalizados para a sua obra. Conversavam e discutiam na angústia da composição, e sentiam que algo se estava a passar, realmente, que preenchia todo o vazio. E a vida era isto: vazio. Todo o resto não existia. Wragby estava ali com os criados..., somente espectros inexistentes. Connie dava passeios no parque e na floresta próxima, e desfrutava a solidão e o mistério. Pisava as castanhas folhas de Outono e colhia as primaveras. Mas tudo era um sonho, ou um simulacro da realidade. As folhas de carvalho pareciam-lhe agitar-se, reflectidas num espelho, ela própria era uma figura tirada de um livro, e que colhia primaveras que eram apenas sombras ou recordações ou palavras. Não havia substância à sua volta, nada..., nada para tocar, nenhum contacto. Somente aquela vida com Clifford, aquele entrelaçar permanente de fios de histórias, das minúcias da consciência, aquelas histórias que sir Malcolm considerava vazias e efémeras. Porque é que haviam de ter conteúdo e porque é que haviam de ser duradouras? Cada dia tem o seu calvário. Cada momento, a sua aparência de realidade». In D. H. Lawrence, O Amante de lady Chatterley, 1928, Relógio D’Água Editores, Ficções, 2011, ISBN 978-972-708-848-1.
                  
Cortesia de RD’ÁguaE/JDACT

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

O Amante de lady Chatterley. D. H. Lawrence. «… mais um fenómeno rude e natural do que seres humanos. De certa maneira, receava-os, não podia suportar que eles o observassem agora, que estava aleijado»

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«(…) Mas Clifford, desde que ficara estropiado, era extremamente tímido e embaraçado. Odiava ver pessoas a não ser os seus criados, porque tinha de estar sentado numa cadeira de rodas. Todavia vestia-se com a mesma elegância de sempre, fatos feitos por caros alfaiates e as habituais gravatas da Bond Street, e, sentado, parecia tão elegante e distinto como sempre. Nunca fora um dos jovens modernos, efeminado; até bastante bucólico, com o seu rosto corado e ombros largos. Mas a sua voz suave, hesitante, e os olhos ao mesmo tempo corajosos e assustados, firmes e inseguros, revelavam a sua natureza. A sua maneira de ser era muitas vezes ofensivamente arrogante, e, logo a seguir, modesta e humilde, quase trémula. Connie e Clifford estavam ligados um ao outro à maneira moderna, distraída. Ele estava demasiado machucado pelo choque que sofrera, ficar aleijado, para poder ser simples e superficial. Era uma coisa magoada e Connie por isso mesmo era-lhe apaixonadamente fiel. Mas não podia deixar de sentir que ele tinha realmente pouca ligação com as pessoas. Os mineiros eram, de certo modo, os seus homens, mas considerava-os mais como objectos do que como homens, partes da mina e não partes da vida, mais um fenómeno rude e natural do que seres humanos. De certa maneira, receava-os, não podia suportar que eles o observassem agora, que estava aleijado.
E a vida deles, estranha e rude, parecia-lhe tão anormal como a do ouriço-cacheiro. Era um homem remotamente interessado, como se visse tudo por um microscópio ou por um telescópio. Estava de fora. Estava afastado de todos, excepto de Wragby, por tradição, e, por um laço estreito de defesa familiar, de Emina. Para além disto, nada realmente o tocava. Connie sentia que estava longe dele, talvez porque não havia nada entre os dois, só a negação do contacto humano. No entanto, ele era totalmente dela, precisava dela em todos os momentos. Embora grande e forte, não podia fazer nada. Podia deslocar-se na cadeira de rodas e na cadeira de três rodas com motor, que lhe permitia passear lentamente pelo parque. Mas sozinho era como uma coisa perdida; precisava que Connie estivesse com ele, para lhe garantir que ainda existia.
Todavia, era ambicioso. Tinha começado a escrever histórias, histórias curiosas, muito pessoais, sobre pessoas que conhecera. Inteligentes, um pouco malévolas e, no entanto, estranhamente vazias de significado. A observação era extraordinária e peculiar, mas sem ligação, sem contacto real, era como se toda a acção se passasse no vácuo. E porque a vida hoje é muito semelhante a um palco artificialmente iluminado, as histórias eram curiosamente fiéis à vida moderna, à moderna psicologia. Clifford era sensível às histórias de um modo quase doentio. Queria que todos as considerassem de boa qualidade, da melhor, neplus ultra. Foram publicadas nas revistas mais modernas, e como é habitual foram elogiadas e censuradas. Mas para Clifford a censura era uma tortura, como se fossem facas a picá-lo, era como se todo o seu ser estivesse nas suas histórias. Connie ajudava-o no que podia. A princípio entusiasmara-se. Discutia com ela sobre tudo, numa voz monótona, insistente, persistente, e ela tinha de responder com todo o seu entusiasmo. Era como se toda a sua alma, o seu corpo e o seu sexo tivessem de despertar e passar para as histórias. Isto apaixonava-a e absorvia-a.
A vida material era limitada. Ela tinha de dirigir a casa, mas a governanta trabalhara para sir Geoffrey durante muitos anos, e a mulher que servia à mesa, seca, de certa idade, extremamente correcta, a quem não se podia chamar criada de sala, nem mesmo mulher, estava naquela casa havia quarenta anos. Até as outras criadas já não eram novas. Um horror! Que se poderia fazer em semelhante lugar, a não ser deixar as coisas como estavam? Todos aqueles salões enormes de que ninguém se servia, toda a rotina dos Midlands, o asseio e a ordem mecânicos! Clifford insistira em ter uma nova cozinheira, uma mulher bastante experiente que tinha sido sua criada em Londres. Tudo no solar parecia dirigido por uma anarquia mecânica. As coisas decorriam em perfeita ordem, dentro de uma limpeza e pontualidade estritas, e até de uma estrita honestidade. E, todavia, para Connie era uma anarquia metódica, nenhum calor humano a unia intrinsecamente. A casa parecia tão lúgubre como uma rua abandonada. Que poderia ela fazer senão deixar as coisas continuarem como antes? E assim fez. Miss Chatterley aparecia de vez em quando, com o seu rosto aristocrático e magro, e exultava ao ver que nada se tinha alterado». In D. H. Lawrence, O Amante de lady Chatterley, 1928, Relógio D’Água Editores, Ficções, 2011, ISBN 978-972-708-848-1.
                  
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sexta-feira, 19 de outubro de 2018

O Amante de lady Chatterley. D. H. Lawrence. «Passava sem as ver, e elas fixavam-na como se fosse uma figura de cera a andar. Quando Clifford tinha de lidar com elas, era altivo e desdenhoso…»

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«(…) Connie estava habituada a Kensington, ou às colinas da Escócia, ou às dunas do Sussex: esta era a sua Inglaterra! Com o estoicismo dos jovens, aceitou imediatamente a fealdade extrema, desumana dos Midlands de carvão e ferro. Era incrível, e não valia a pena pensar nisso. Das divisões sombrias de Wragby ela ouvia o chocalhar dos crivos na mina, o barulho do motor do guindaste, o estalido das camionetas em manobras e o desgarrado e enrouquecido apito das locomotivas de carvão. O silo do poço de Tevershall estava a arder havia anos, e custaria milhares para o extinguir. Por isso tinha de arder. E quando o vento soprava desse lado, o que era frequente, a casa enchia-se do cheiro pestilento da combustão sulfurosa do excremento da terra. Mas, mesmo nos dias sem vento, havia sempre o cheiro a qualquer coisa debaixo da terra: enxofre, ferro, carvão ou ácido. E até sobre as rosas do Natal se fixava a fuligem persistente e inconcebivelmente, como se fosse um maná negro de um céu maldito. Bem, assim era, estava escrito como todo o resto. Era terrível, mas para quê resistir? Não era possível, tinha de se continuar. A vida como sempre. No céu baixo e negro da noite havia manchas vermelhas de fogo que iluminavam, oscilavam, tornando-se nítidas, cresciam e contraíam-se, como queimaduras que fazem sofrer. Eram as fornalhas. A princípio fascinaram Connie, mas sentia ao mesmo tempo pavor, tinha a impressão de estar a viver debaixo da terra, depois habituou-se a elas. De manhã chovia sempre.
Clifford dizia que gostava mais de Wragby do que de Londres. Aquela região tinha uma determinação própria, inflexível, e os habitantes eram corajosos. Connie perguntava a si mesma se teriam algo mais: olhos e espírito não tinham com certeza. As pessoas eram tão pálidas, disformes, tristes e hostis como a terra. Só na dureza do seu dialecto e no malhar das botas mineiras, ferradas, quando em grupo se arrastavam no asfalto em direcção a casa vindos do trabalho, havia qualquer coisa de terrível e de misterioso. Não houve boas-vindas para o jovem fidalgo, nem festa, nem delegação, nem mesmo uma simples flor. Somente uma viagem húmida de carro através de uma estrada sombria e húmida, que desaparecia por entre as árvores tristes e reaparecia na vertente do parque, onde carneiros cinzentos e húmidos pastavam, até chegar ao cimo do monte, onde a casa estendia a sua fachada castanho-escura e a governanta e o marido esperavam, como caseiros indecisos, prontos a balbuciar as boas-vindas. Não havia comunicação entre Wragby Hall e a aldeia de Tevershall, nenhuma. Nem saudações, nem reverências. Os mineiros apenas olhavam, os comerciantes tiravam os bonés a Connie como a uma pessoa conhecida e baixavam a cabeça desajeitadamente a Clifford. E era tudo. Havia um abismo intransponível e um tranquilo ressentimento de parte a parte. Ao princípio, Connie sentiu-se afectada com os laivos constantes de ressentimento que a aldeia manifestava. Depois tornou-se insensível e passou a ser como um tónico aquilo com que era obrigada a viver. Ela e Clifford não eram de modo nenhum impopulares, mas pertenciam a uma espécie diferente da dos mineiros.
Havia um abismo intransponível, uma brecha indescritível, talvez como riem sequer exista no sul de Trent. Mas nos Midlands e o Norte industrial havia um abismo tal que era impossível uma comunicação. Fica no teu lugar que eu fico no meu! Uma estranha recusa do pulso comum da humanidade. No entanto, a aldeia gostava de Clifford e de Connie, num plano abstrato. Na carne, de cada lado era Deixem-me em paz. O reitor era um homem simpático, de cerca de sessenta anos, sempre ocupado com os seus deveres, e reduzido como pessoa quase a uma insignificância pelo silencioso deixem-me em paz dos aldeões. As mulheres dos mineiros eram quase todas metodistas, os mineiros não eram nada. Mas até o uniforme oficial do clérigo era o suficiente para ocultar a realidade de que ele era um homem como qualquer outro. Não, ele era o senhor Ashby, uma espécie de obrigação automática, para pregar e orar. Esta teimosia, tendência de pensar sempre Somos tão boas como tu, lady Chatterley, nos primeiros tempos confundia e desorientava Connie profundamente. A amabilidade curiosa, desconfiada, falsa, com que as mulheres dos mineiros lhe correspondiam; e o tom estranhamente ofensivo de valha-me Deus! Agora sou alguém, porque a lady Chatterley falou comigo! Mas ela que não pense que vale mais do que eu que ela sempre ouvia vibrar nas vozes, quase aduladoras, das mulheres, eram impossíveis de suportar. Era impossível de transpor esta barreira. Era irremediável e ofensivamente não conformista. Clifford deixava-as em paz, e ela aprendeu a fazer o mesmo. Passava sem as ver, e elas fixavam-na como se fosse uma figura de cera a andar. Quando Clifford tinha de lidar com elas, era altivo e desdenhoso, impedindo imediatamente toda a cordialidade. Na realidade era sempre assim com pessoas de outra classe. Mantinha-se firme sem fazer qualquer tentativa de conciliação. O povo não gostava nem desgostava dele, apenas fazia parte das coisas como a própria mina e Wtagby». In D. H. Lawrence, O Amante de lady Chatterley, 1928, Relógio D’Água Editores, Ficções, 2011, ISBN 978-972-708-848-1.
                  
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O Amante de lady Chatterley. D. H. Lawrence. «Os três tinham afirmado que viveriam sempre juntos. Mas, agora, Herbert estava morto, e sir Geofrey queria que Clifford casasse. Geoffrey mal tocava no assunto»

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«(…) Eram honestas em relação ao problema dos Tommies, e à ameaça de recrutamento e à escassez de açúcar e de caramelos para as crianças. Evidentemente, que por este estado de coisas as autoridades estavam a laborar ridiculamente num erro. Mas Clifford não podia tomar isto muito a peito; para ele, as autoridades eram ridículas não por causa dos caramelos ou dos Tommies. E as autoridades sentiam-se ridículas e comportavam-se de uma forma bastante ridícula, e tudo aquilo pareceu durante algum tempo uma festa em casa de um louco. Até que as coisas chegaram a este ponto no continente, e Lloyd George vinha salvar a situação na ilha. Isto ultrapassava os limites do ridículo, os jovens irreverentes deixaram de rir. Em 1916 Herbert Chatterley foi morto; assim, Clifford passou a ser o herdeiro. Até com isso ficou aterrorizado, a sua importância como filho de sir Geoffrey e senhor de Wragby estava tão arraigada nele que não se podia libertar. E, apesar de tudo, sabia também que isto era ridículo aos olhos do imenso mundo em agitação. Agora era herdeiro e responsável por Wragby. Era uma situação terrível e esplêndida e, ao mesmo tempo, talvez, profundamente absurda. Geoffrey não compreendia o absurdo de tudo aquilo. Era pálido e tenso, reservado, obstinadamente decidido a salvar o seu país e a sua posição, fosse Lloyd George quem fosse. Estava tão isolado, tão separado daquela Inglaterra que era a verdadeira Inglaterra, tão profundamente incapacitado, que tinha mesmo boa opinião de Horatio Bottornley. Geoffrey lutava pela Inglaterra e por Lloyd George como os seus antepassados tinham lutado pela Inglaterra e por São Jorge, e nunca compreendeu que havia uma diferença. Assim, sir Geoffrey deitava as suas árvores abaixo e defendia Lloyd George e a Inglaterra, a Inglaterra e Lloyd George. E queria que Clifford casasse e lhe desse um herdeiro. Clifford reconhecia que o pai era um anacrónico incurável, mas o único ponto em que estava mais evoluído era exactamente no sentido de ridículo em relação a todas as coisas, e no imenso ridículo da sua própria posição. Porque, quer fosse desejado ou indesejado, assumiu a baronia e Wragby com a maior seriedade. O entusiasmo alegre da guerra desaparecera. Morrera. Havia demasiada morte e horror. Um homem precisava de apoio e de conforto, tinha necessidade de uma âncora num mundo seguro. Um homem precisava de uma esposa. Os Chatterley, dois irmãos e uma irmã, por estranho que pareça, tinham vivido sempre isolados, fechados em conjunto em Wragby, apesar de todas as suas relações pessoais. Uma sensação de isolamento reforçara os laços de família, uma sensação de fragilidade da sua posição, de carência de defesas, apesar do título e da propriedade, ou talvez por causa disto. Viviam afastados desse Midlands industrial no qual tinham passado as suas vidas. Viviam afastados das pessoas da sua classe, pelo carácter instável, obstinado, taciturno, de sir Geoffrey, o pai, de quem escarneciam, mas a quem eram muito sensíveis.
Os três tinham afirmado que viveriam sempre juntos. Mas, agora, Herbert estava morto, e sir Geofrey queria que Clifford casasse. Geoffrey mal tocava no assunto, falava muito pouco. Mas a insistência silenciosa, melancólica, de que assim deveria ser fora para Clifford difícil de suportar. Mas Emina disse Não! Era dez anos mais velha do que Clifford e sentia que o casamento dele seria uma deserção e uma traição a tudo aquilo por que tinham lutado os jovens da família. Apesar disso, Clifford casou com Connie e teve o seu mês de lua-de-mel com ela. Foi no terrível ano de 1917, e viviam tão intimamente como duas pessoas que se mantêm unidas num navio prestes a afundar-se. Ele era virgem quando casou e a parte sexual não tinha para ele grande significado. Eram tão íntimos, ele e ela, independentemente disso! E Connie sentiu-se feliz com essa intimidade que estava para além do sexo, para além da satisfação do homem; Clifford, de qualquer forma, interessava-se menos por essa satisfação do que a maior parte dos homens. Não, a intimidade era mais profunda, mais pessoal do que isso, e o sexo era apenas um acidente, ou um complemento, um desses processos curiosamente obsoletos, orgânicos, que persistem na sua própria inépcia, mas não são na realidade necessários. Connie, porém, queria filhos, quanto mais não fosse para a proteger contra a cunhada Emina. Mas, nos princípios de 1918, Clifford foi reenviado para Inglaterra aos poucos, e não haveria filhos. E sir Geoffrey morreu de desgosto.
Connie e Clifford foram para Wragby no Outono de 1920. Miss Chatterley, indignada ainda com a deserção do irmão, tinha saído de casa e vivia num pequeno apartamento em Londres. Wragby era uma casa comprida, baixa e antiga de pedra castanha, principiada a construir nos meados do século XVIII e sucessivamente aumentada, sem no entanto ter um estilo definido. Edificada numa elevação no meio de um parque antigo e belo com carvalhos, mas podia-se ver a pouca distância a chaminé da hulheira de Tevershall, com as suas nuvens de vapor e fumo e, na distância húmida e enublada da colina, a aldeia de Tevershall toscamente dispersa, uma aldeia que começava quase nos portões do parque e se estendia numa grande extensão sinistra, feia e profundamente esmagadora: casas, filas de pequenas casas de tijolo, miseráveis, pequenas, enegrecidas, com telhados pretos de ardósia, com ângulos pontiagudos e de aspecto sombrio, intencional e inexpressivo». In D. H. Lawrence, O Amante de lady Chatterley, 1928, Relógio D’Água Editores, Ficções, 2011, ISBN 978-972-708-848-1.

Cortesia de RD’ÁguaE/JDACT

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Trópico de Capricórnio. Henry Miller. «Ainda usava cueiros e já era filósofo. Era contra a vida por princípio. Que princípio? O princípio da inutilidade. À minha volta toda a gente lutava e se debatia»

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«Uma vez entregue a alma, segue-se tudo com uma certeza infalível, mesmo no meio do caos. Desde o princípio nunca foi outra coisa senão caos: era um fluido que me envolvia, que eu aspirava através das guelras. Nos substratos, onde a Lua brilhava firme e opaca, o ambiente era suave e fecundante; por cima disso, reinavam a selva e a desarmonia. Não tardei a ver em tudo o oposto, a contradicção, e entre o real e o irreal a ironia, o paradoxo. Era o meu próprio pior inimigo. Não havia nada que desejasse fazer que me importasse de não fazer. Já em criança, quando não me faltava nada, queria morrer: queria render-me porque não via sentido nenhum em lutar. Sentia que nada seria provado, comprovado, acrescentado ou subtraído pelo facto de continuar uma existência que não pedira. Todos quantos me cercavam eram falhados, ou, se não eram falhados, eram ridículos. Especialmente os bem-sucedidos. Os bem-sucedidos chateavam-me até às lágrimas. Era cornpreensivo até ao exagero, mas não era a compreensão que assim me tornava. Era uma qualidade puramente negativa, uma fraqueza que desabrochava à simples vista da miséria humana. Nunca ajudava ninguém com a esperança de que isso servisse para alguma coisa; ajudava porque não era capaz de proceder de outro modo. Querer mudar o estado das coisas parecia-me vão, inútil; estava convencido de que nada mudaria, a não ser que se verificasse uma mudança de intenções, e quem poderia modificar o coração dos homens? De vez em quando, um amigo convertia-se, o que me causava vómitos. Tinha tanta necessidade de Deus como Ele de mini, e costumava dizer para comigo que, se havia Deus, me encontraria com Ele calmamente e Lhe cuspiria na cara. O irritante era que, ao primeiro rubor, as pessoas costumavam tomar-me por bom, amável, generoso, leal e fiel. Talvez possuísse essas virtudes, mas se possuía era por ser indiferente: podia-me dar ao luxo de ser bom, amável, generoso, leal, etc., porque estava isento de inveja. A inveja era a única coisa de que nunca tinha sido vítima. Nunca invejei nada nem ninguém. Pelo contrário, só senti compaixão por tudo e todos.
Desde o princípio que me devo ter treinado para não querer nada com muita veemência. Desde o princípio que fui independente, de uma maneira falsa. Não tinha necessidade de ninguém porque queria ser livre, livre para fazer e para dar só de acordo com os meus caprichos. Mal esperavam ou exigiam alguma coisa de mim, recusava e daí não arrancava. Foi essa a forma que a minha independência assumiu. Por outras palavras, fui corrupto, fui corrupto desde o princípio. Dir-se-ia que a minha mãe me dera um veneno como leite, um veneno que nunca me abandonou o organismo, apesar de ter sido desmamado cedo. Parece que até mesmo quando ela me desmamou me mostrei completamente indiferente. A maioria das crianças revoltam-se, ou fingem que se revoltam, mas eu estive-me nas tintas. Ainda usava cueiros e já era filósofo. Era contra a vida por princípio. Que princípio? O princípio da inutilidade. À minha volta toda a gente lutava e se debatia. Pessoalmente, nunca fiz sequer um esforço. Se dava a impressão de que o fazia, era apenas para agradar a alguém; no fundo, estava-me marimbando. E se forem capazes de me dizer porque era assim, desmenti-los-ei, pois nasci com uma pecha má e nada a pode eliminar. Mais tarde, quando já era crescido, ouvi dizer que tiveram um trabalhão para me tirar do útero. Compreendo perfeitamente que assim fosse. Incomodar-me para quê? Para quê sair de um lugar agradável e quentinho, de um nicho acolhedor, onde tudo me era oferecido gratuitamente? A minha mais antiga recordação é do frio, da neve e do gelo nas valetas, da geada nos vidros das janelas e do suor gelado das paredes verdes da cozinha.
Porque vivem as pessoas em agrestes climas das zonas temperadas, como erradamente lhes chamam? Porque são naturalmente idiotas, preguiçosas, naturalmente cobardes. Até cerca dos dez anos nunca imaginei que existissem países quentes, lugares onde não era preciso suar para ganhar a vida nem tremer de frio e fingir que isso era tónico e revigorante. Onde há frio há pessoas que se esfalfam a trabalhar e que, quando têm filhos, lhes pregam o evangelho do trabalho, o que, no fundo, não é mais do que a doutrina da inércia. Os meus progenitores eram inteiramente nórdicos, o que equivale a dizer idiotas. Perfilhavam todas as ideias erradas que jamais têm sido expostas. Entre elas contava-se a doutrina do asseio, para já não falar da da honradez. Eram penosamente asseados, mas por dentro fediam. Nunca, nem uma única vez, tinham aberto a porta que conduz à alma; nunca, nem uma única vez, lhes passou pela cabeça dar um salto às cegas, no escuro. Depois do jantar, os pratos eram imediatamente lavados e arrumados no armário; o jornal, depois de lido, era muito bem dobrado e arrumado numa prateleira; a roupa, depois de lavada, era passada a ferro, dobrada e guardada em gavetas. Preparava-se tudo para amanhã, mas o amanhã nunca chegava. Õ presente era apenas uma ponte, e eles continuam a gemer, como o mundo geme, e não há um idiota que se lembre de atirar a ponte pelos ares». In Henry Miller, Trópico de Capricórnio, 1939, Editorial Presença, colecção Obras Literárias Escolhidas, 2009, ISBN 978-972-234-097-7

Cortesia de EPresença/JDACT

domingo, 2 de julho de 2017

Diz-me Quem Sou. Julia Navarro. «Que idade tens? A pergunta irritou-me. Ela sabia perfeitamente que eu estava na casa dos trinta, que era o mais velho dos primos»

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Guillermo
«És um falhado. Sou uma pessoa decente. A minha tia ergueu os olhos dos papéis que tinha nas mãos. Estava a lê-los como se o seu conteúdo representasse uma novidade para ela. Mas não era assim. Naquele currículo, estava resumido o meu breve e desastrado percurso profissional. Fitou-me com curiosidade e continuou a ler, ainda que eu soubesse que não haveria muito mais para ler. Chamara-me falhado não com a intenção de me ofender, mas como quem constata algo evidente. O gabinete da minha tia era intimidante. Na verdade, aquilo que mais me perturbava nela era a sua atitude altiva e distante, como se o facto de ter triunfado na vida lhe permitisse olhar para o resto da família de nariz empinado. Não gostava dela, mas eu também nunca havia sido o seu sobrinho favorito, pelo que fiquei surpreendido quando a minha mãe me disse que a sua irmã pretendia ver-me com urgência.
A tia Marta tornara-se a matriarca da família, dominando inclusivamente os seus outros dois irmãos, o tio Gaspar e o tio Fabián. Era consultada para qualquer assunto e ninguém tomava uma decisão que não tivesse sido previamente aprovada por ela. A bem dizer, eu era o único que a evitava e que, ao contrário dos meus primos, nunca procurava a sua aprovação. Mas ali estava ela, orgulhosa por ter salvado e triplicado o património familiar, um negócio dedicado à compra, venda e reparação de maquinaria, graças, entre outas razões, ao conveniente casamento com o seu bondoso marido, o tio Miguel, por quem eu nutria uma simpatia secreta. O tio Miguel tinha herdado alguns edifícios no centro de Madrid, cujos inquilinos lhe pagavam avultadas rendas mensais. Exceptuando as reuniões uma vez por mês com o administrador dos edifícios, nunca trabalhara. A sua única preocupação era colecionar livros raros, jogar golfe e, sob qualquer pretexto, escapar ao olhar vigilante da minha tia Marta, a quem delegara de bom grado a responsabilidade de se reunir mensalmente com o administrador, sabendo que ela possuía a inteligência e a paixão necessárias para acertar em tudo aquilo que fazia.
Pelos vistos, ao falhanço chamas decência. Significará isso que todos aqueles que triunfam na vida são indecentes? Estive quase a dizer que sim, mas, como tal atitude não agradaria à minha mãe, decidi-me por uma resposta mais neutra. Como sabes, na minha profissão, ser decente costuma significar acabar no desemprego. Não calculas como está o jornalismo neste país. Ou estás alinhado com a direita ou com a esquerda. Não passas de uma correia de transmissão para as ideias de uns ou de outros. Limitarmo-nos a reportar aquilo que acontece e a opinar imparcialmente conduz-nos à marginalização e ao desemprego. Sempre julguei que fosses um rapaz com ideias de esquerda, disse a minha tia com uma certa ironia. E, agora, é a esquerda quem governa...
Sim, mas o governo pretende que os jornalistas da mesma corrente ideológica fechem os olhos e calem a boca perante os seus erros. Criticá-lo equivale a ser-se marginalizado. Deixam de te considerar um dos seus e claro que, como também não estás vinculado aos outros, acabas por ficar em terra de ninguém, ou seja, no desemprego, como eu estou. No teu currículo, dizes que trabalhas num jornal digital. Que idade tens? A pergunta irritou-me. Ela sabia perfeitamente que eu estava na casa dos trinta, que era o mais velho dos primos. Mas era a sua forma de demonstrar o desinteresse que sentia por mim. Assim, decidi não lhe dizer a minha idade, dado ser evidente que ela já a sabia.
Sim, faço crítica literária num jornal da Internet. Não encontrei coisa melhor, mas, pelo menos, não tenho de pedir dinheiro à minha mãe para comprar tabaco. A minha tia Marta observou-me de cima a baixo, como se fosse a primeira vez que me visse, parecendo hesitar antes de se decidir por me fazer uma proposta. Bem..., vou oferecer-te um emprego, que aliás será bem pago. Confio que estejas à altura daquilo que esperamos de ti. Não sei aquilo que pretendes oferecer, mas a minha resposta é não. Não gosto dos gabinetes de imprensa das empresas. Se vim ter contigo foi porque a minha mãe me pediu». In Julia Navarro, Diz-me quem Sou, 2010, Bertrand Editora, 2011, ISBN 978-972-252-367-7.

Cortesia de BertrandE/JDACT

domingo, 21 de maio de 2017

O Amante de lady Chatterley. D. H. Lawrence. «Mas Clifford, apesar demais educado e de melhor sociedade do que Connie, era à sua maneira mais provinciano e mais tímido»

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«(…) Era óbvio, olhando para eles. que conheciam o amor, isto é. Tinham tido a experiência física. É curiosa a subtil mas inequívoca transmutação que ela provoca no corpo quer dos homens quer das mulheres: a mulher floresce, as suas formas ficam mais arredondadas, as formas angulosas atenuam-se, e a expressão torna-se ora ansiosa ora triunfante; o homem torna-se mais calmo, mais interiorizado, e o contorno dos ombros e das nádegas menos acentuado, mais hesitante. Com a emoção corporal, as duas irmãs quase sucumbiram ao poder estranho do macho. Mas rapidamente se recompuseram, encararam e emoção sexual como uma sensação e continuaram livres. Os homens, gratos às mulheres pela experiência física, deram-lhes um pouco da sua alma. Depois, pareciam por vezes mais uma pessoa que perde dez tostões e encontra cinco. O jovem de Connie tinha mau feitio e o de Hilda era trocista. Mas os homens são assim! Ingratos e sempre insatisfeitos; se não são aceites, odeiam a mulher por não os aceitar, se o são, odeiam-na por qualquer outra razão, ou nenhuma razão, porque são crianças descontentes e nada os satisfaz por mais que a mulher faça.
Todavia, a guerra rebentou e Connie e Hilda regressaram apressadamente a Inglaterra, depois de também aí terem passado o mês de Maio, quando do funeral da mãe. Antes do Natal de 1914 os dois jovens já estavam mortos, e as irmãs choraram-nos e amaram-nos apaixonadamente; mas no fundo já os tinham esquecido, eles já não existiam. Viviam então na casa do pai, ou melhor, da mãe. em Kensington. Davam-se com um jovem grupo de Cambridge, que defendia a liberdade e as calças, camisas de flanela abertas no pescoço, e uma espécie de anarquia saudável. Tinham uma voz murmurante de quem falava baixo. e eram ultra-sensíveis. Hilda, porém, casou de súbito com um homem dez anos mais velho, dos mais velhos desse grupo de Cambridge, um homem com bastante dinheiro e com um bom cargo oficial, que também escrevia ensaios filosóficos. Foi viver com ele para uma pequena casa em Westminster, e passou a frequentar aquele tipo de sociedade do meio governamental que não é exactamente o pináculo, mas que constitui, ou, pelo menos, deveria constituir, o poder realmente inteligente da nação: pessoas que sabem do que falam, ou falam como se assim fosse.
Connie teve um emprego de guerra e ligou-se aos intransigentes, de calças de flanela do grupo de Cambridge, que subtilmente troçavam de tudo. O seu amigo era Clifford Chatterley, um jovem de vinte e dois anos, que regressara apressadamente de Bona, onde estudava as técnicas da exploração mineira do carvão. Antes estivera em Cambridge dois anos e agora era primeiro-tenente num regimento de escol. Assim podia escarnecer de tudo, mais elegantemente no seu uniforme. Clifford Chatterley era da melhor sociedade que Connie. Esta pertencia à intelectualidade próspera, mas ele era da aristocracia, não da alta, mas da aristocracia, de qualquer modo. O pai era baronete e a mãe filha de um visconde.
Mas Clifford, apesar demais educado e de melhor sociedade do que Connie, era à sua maneira mais provinciano e mais tímido. Sentia-se à vontade no seu pequeno grande mundo, isto é, entre a aristocracia da terra, mas tímido e nervoso perante esse outro grande mundo que consiste nas hordas das classes média e baixa e dos estrangeiros. Para dizer a verdade, ele tinha um pouco de receio da humanidade da classe média e baixa e dos estrangeiros que não pertenciam à sua classe. Estava consciente da sua impossibilidade de defesa, embora possuísse a defesa do privilégio. É curioso, mas é um fenómeno do nosso tempo. Assim, a suave autoconfiança de uma rapariga como Constance Reid fascinava-o. Ela era muito mais senhora de si mesma naquele mundo caótico do que ele.
Todavia, também ele era um rebelde, rebelando-se até contra a sua classe. Rebelde talvez seja uma palavra forte demais. Ele apenas partilhava da aversão geral e popular dos jovens às convenções e a qualquer tipo de verdadeira autoridade. Os pais eram ridículos, o seu ainda mais por ser obstinado. E os governos eram ridículos, e o nosso principalmente por manter uma atitude de expectativa. E os exércitos eram ridículos, assim como os antiquados generais, o mais importante de todos o corado Kjtchner. Até a guerra era ridícula, embora matasse muita gente. De facto, tudo era um pouco ridículo, ou muito ridículo: tudo aquilo relacionado com autoridade, quer fosse no exército, no governo ou nas universidades, era muitíssimo ridículo. E, na medida em que as classes dirigentes tinham pretensões de governar, eram também ridículas. O pai de Clifford, sir Geoffrey, era bastante ridículo a deitar abaixo as árvores e a expulsar os homens da mina de carvão para os mandar para a guerra, sendo ele tão prudente e patriota, e ao mesmo tempo gastando mais dinheiro do que possuía para bem da pátria.
Quando miss Chatterley chegou a Londres, vinda dos Midlands, para trabalhar como enfermeira, era discretamente muito espirituosa quando falava de sir Geoffrey e do seu patriotismo decidido. Herbert, o irmão mais velho e herdeiro, ria abertamente, embora fossem as suas árvores que caíssem para fazer as trincheiras da propriedade, mas Clifford só sorria, um pouco constrangido. De facto, tudo é ridículo, mas quando nos começa a tocar de mais perto tornamo-nos também ridículos... Pelo menos, pessoas de outra classe, como Connie, eram honestas em alguma coisa, acreditavam em alguma coisa». In D. H. Lawrence, O Amante de lady Chatterley, 1928, Relógio D’Água Editores, Ficções, 2011, ISBN 978-972-708-848-1.

Cortesia de RD’ÁguaE/JDACT

sábado, 22 de abril de 2017

Maria Adelaide. M Teixeira-Gomes. «Francisca, deixa-me brincar contigo. Se quiseres vai buscar pão... Corri a casa: mãe…»

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«(…) O mês que durou a nova instalação foi encantador. Maria Adelaide transformava-se e assumia uma individualidade que a extremava do resto da família. Mas o arranjo do quintal, onde ela dava largas à sua fantasia, delineando planos de jardinagem e arborização que mal caberiam num grande parque, esse, então foi um poema. Eu ouvia-a embevecido, achando graça em tudo quanto dizia e facilitando quanto podia a realização do seu sonho.
Tão contente andava que não recusou, como até ali fizera, as lições de ler e escrever que eu pretendia dar-lhe. Ela andara na escola mas nem as letras do alfabeto conhecia. Nessa fase é que lhe descobri o inexaurível fundo de superstição em que a sua alma assentava, e até nisso lhe achava chiste: sonhar com flores eram penas remediadas; excrementos, dinheiro certo; as mãos dentro de água, lágrimas, etc. Uma vez, antes de nos deitarmos, eu queria que se fosse pentear e repartisse o cabelo em bandós, mas ela recusou porque era de noite e não sabia se o pai andava no mar, o que seria de mau agoiro. Uma vizinha dos Fumeiros, andando o marido na lancha, fora da barra, pôs-se a pentear uma noite, e apenas atirava à rua o molhinho de cabelos caídos, vem uma refega de vento que por pouco não mete a porta dentro. Nesse mesmo instante o marido caía no mar e por pouco não se afoga...
Também se não devem despejar os cântaros da cantareira quando há em casa algum doente em perigo de vida. As almas, tão depressa largam os corpos, e antes de seguir ao seu destino, precisam de água pronta para se lavar, e preferem a água dos cântaros por serem fundos. Outra mulher, também dos Fumeiros, estando o marido agonizante, despejou, de propósito, a água que havia em casa, deixando apenas uma gota na bacia do lavatório. Morreu o marido e logo ouviu ruído no quarto do lavatório: foi ver e achou tudo em volta salpicado de água, sem que lá estivesse alguém...

Bairro dos pescadores
A respeito destas crendices Maria Adelaide não admitia dúvidas, e se eu delas zombava, a sua testa curta, de cinco pontas, enrugava-se, com uma expressão obstinada que a tornava sombria, opaca, e os recortes perdiam toda a graça como inestético desenho tosco. Mas eu não teimava. Uma grande ternura me invadia o coração à lembrança de que a pobrezinha sofrera frios e fome e andara descalça e levara, sem dó, pancadas da mãe, e mais da mestra naquela escola de torturas onde nada aprendera e onde as lunetas da professora, sábia e solerte, a espavoriam. Agora era ela que sustentava generosamente os seus, matando-lhes fomes e frios, e a ternura penetrava-me ainda mais fundo à lembrança dos seus primeiros arranjos, no seu primeiro quarto: a cómoda pobre mas vistosa; a cama fofa, larga e limpa, e o aroma especial que ali pairava e que era natural do seu próprio corpo, da sua própria carne...
E os pitorescos episódios da sua meninice. A miúdo referia-se a uma rapariga que fora sua vizinha, era muito má e gostava de morder nas companheiras. E contava: uma vez estava ela à porta de casa, a armar uma loja em cima de uma cadeira com muitas coisas já em ordem: conchas de coquinhas, latas velhas de sardinhas, dois fundos de copos, e um grande ramo de loiros, quando eu chego e digo: Francisca, deixa-me brincar contigo. Se quiseres vai buscar pão... Corri a casa: mãe, dê-me um pedacinho de pão para ir brincar com a filha da vizinha Antónia. Pão a estas horas, moça? O que tu precisas é uma boa data de açoites. Volto à Francisca: a mãe não me dá pão, mas tu deixas-me brincar, deixas? Mas ela, muito má, responde: não, não e não; se quiseres traz pão. E a mim deu-me logo uma grande raiva; emborco a cadeira com toda a loja e atiro o ramo de loiros para a lama da regueira. Então a moça atira-se a mim e prega-me uma mordedela que me fez ver as estrelas e de que ainda aqui tenho o sinal. Fujo para casa mas daí a nada já ela lá estava com a sua mãe a queixar-se à minha de mim. Tiveram as duas uma assanhada guerreia de língua, mas quando tudo serenou apanhei uma sova de sapato de que me hei-de lembrar toda a minha vida... O que estas historietas me entretinham!» In Manuel Teixeira-Gomes, Maria Adelaide, 1938, Romances Portugueses, Obras Primas do século XX, Coordenação de Davis Mourão-Ferreira, Círculo de Leitores, Cortesia da Livraria Bertrand, 1986.

Cortesia de CLeitores/LBertrand/JDACT

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Maria Adelaide. M. Teixeira-Gomes. «E quando se despediu, de manhã, foi novamente inspeccionar tudo, percebendo-se-lhe no olhar certa pena de deixar aquele cenário luxuoso, cuja beleza começava a apreciar»

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«(…) Eu habitava ainda então na casa paterna, onde tinha um vasto aposento inteiramente independente, com saída para a rua. Maria Adelaide apeteceu vir visitar-me, o que não fazia havia já bastante tempo. Dera-se ali a nossa entrevista definitiva e sempre que lá voltava era infalível a sua exclamação, embora a rir: foi aqui que eu me desgracei!... Encontrou tudo mudado: os móveis noutra disposição e alguns que ainda não conhecia; uma aparatosa estante nova de colunas torcidas; a poltrona regence brilhando sob uma réstia de sol em todo o esplendor do seu brocado persa; e no meu quarto de cama a lindíssima papeleira Luís XVI, muito vistosa nos seus enfeites de porcelana esmaltada e bronze doirado. Olhava para tudo com um ar de gato que estuda o recinto onde pela primeira vez o introduziram, mas disfarçando mal uma irrebatível expressão de despeito. Instintivamente comparava o arranjo e qualidade das minhas coisas com aquelas que tinha em casa e reputava formosíssimas: a cómoda de mogno coberta de croché, a cama de ferro pintado, cadeiras de palhinha frouxa, e sentia-se vexada com a evidente superioridade do meu mobiliário em que só agora reparara miudamente. Começou a mostrar mau humor, buscando, no decorrer da conversa, pequenas contradições que dessem azo a implicação e a queixas. Mas como eu me esquivasse a contendas pouco a pouco se lhe foi dissipando a irritação, pondo-se á vontade; já se sentava nas cadeiras de braços, procurando as posições mais cómodas e ia, sem amargura, gabando os móveis, os estofos, as madeiras.
Eu também quero uma cadeira assim, ia para a minha casa e hei-de tê-la, não é verdade, amigo?, quando tiver uma salinha melhor, porque realmente a minha é tão má... E quando mandará o demónio da velha (a senhoria) arranjar a casa? E inspeccionando as paredes: não é verdade, amigo, que aquele quadro está torto? Pois vai-se já pôr direito. Eu não posso ver, lá em casa, os meus quadrinhos tortos, nas paredes. A sua criada não arranja isto melhor agora. E dispunha os trastes com um sentimento de harmonia surpreendente, colocando, ao mesmo tempo, por cima das mesas e das estantes os bibelôs de forma a dar-lhes mais valor, mais relevo. Quis dormir comigo, no meu quarto, e durante a noite acordou-me para repetir: a gente também há-de ter um dia uma casa muito bem arranjadinha; não é verdade, amigo?, mas com coisas minhas, só minhas.
E quando se despediu, de manhã, foi novamente inspeccionar tudo, percebendo-se-lhe no olhar certa pena de deixar aquele cenário luxuoso, cuja beleza começava a apreciar, porém, boazinha, acrescentava: que eu nunca poderei ter coisas tão ricas, nem quero. Quero que o meu amiguinho as tenha. Lá na nossa casa coisinhas simples e asseadinhas. Dê cá um beijo; outro, outro... Até logo. Vá bem cedo, sim? Adeus... Tudo isto era dito sem o mais leve tom de pieguice, com uma naturalidade, uma espontaneidade, que me sensibilizou, e lembrando-me dos seus continuados e justificados queixumes dos tratos que sofria à mãe, e também do que havia de humilhante, vexatório, em sujeitar-me àquela promiscuidade, resolvi separá-la da família de modo que fizesse vida à parte, e logo nesse mesmo dia aluguei uma casa alta, em boa rua, com um grande quintal, destinando o primeiro andar a Maria Adelaide e os baixos à família». In Manuel Teixeira-Gomes, Maria Adelaide, 1938, Romances Portugueses, Obras Primas do século XX, Coordenação de Davis Mourão-Ferreira, Círculo de Leitores, Cortesia da Livraria Bertrand, 1986.

Cortesia de CLeitores/LBertrand/JDACT