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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Poesia. Diogo Bernardes. Século XVI: «Era o dia em que fui d'amor vencido, alegre em todo o mundo e festejado por ser àquelle sancto dedicado, que sancto foi primeiro que nacido»

Cortesia de bibliopoemes

III
Cantei um tempo, agora choro a guerra
que fui com dor sofrendo d'ano em ano,
sogeito dum cruel fero tirano
que nunca, sem ter vista, os golpes erra.

Musas, por quem Parnasso s'abre, e cerra,
pois à morte fazeis eterno engano,
conservai a memória do meu dano
em quanto cego Amor reinar na terra.

Porque de quem me ler aviso seja,
primeiro que vá dar desatentado
nas ciladas mortais deste homicida,

ou, se nelas deu já, dê volta, e veja
que só merece e deve ser amado
quem deu por nosso amor a própria vida.

IV
Era o dia em que fui d'amor vencido,
alegre em todo o mundo e festejado
por ser àquelle sancto dedicado,
que sancto foi primeiro que nacido.

Seguro de ciladas de Cupido,
entrei num fresco vale descuidado,
onde fui dele preso, onde roubado,
onde com seta d'ouro fui ferido.

Vi üa Ninfa andar colhendo flores
entre outras muitas, mais que todas bela,
com cuja vista amor ficou vencendo,

porque, se não tomara as armas dela,
inda que suas forças forâo mores.
por ventura me fora defendendo.
Diogo Bernardes, in «Rimas Várias - Flores do Lima», 1596

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sábado, 24 de dezembro de 2011

Poesia. Diogo Bernardes. Século XVI: «Dos mais por satisfeito me darei, se deste vão trabalho (o que duvido) colherem fruto algum, ou passatempo. E quando assi for, bem sofrerei, até de vós, não ser bem recebido, em pena de tão mal gastado tempo»

Cortesia de myopera

Sonetos
I
Vós, que d'amor cruel nunca sentistes
o fogo onde grão tempo ardi tremendo,
que mil erros notais, estou já vendo, 
na lição triste destas rimas tristes.

Mas em vós, que vos vedes, ou já vistes
em sua viva chama ardar ardendo,
desculpa, e piedade achar entendo
de quantas faltas nelas descobristes.

Dos mais por satisfeito me darei,
se deste vão trabalho (o que duvido)
colherem fruto algum, ou passatempo.

E quando assi for, bem sofrerei,
até de vós, não ser bem recebido,
em pena de tão mal gastado tempo.

II
Aqui de largos males breve história
lede vós, desamados amadores,
que para dar alívio em vossas dores
das minhas quis deixar esta memória.

Escrevi não por fama, nem por glória,
de qu'outros versos são merecedores,
mas por mostrar o mal dos meus amores
a quem neles de mim teve vitória.

Por tempo foi a dor crescendo tanto,
que já de ser mui grande me moveo
a descobrilla em rimas pobres d'arte.

Dei logo olhos a choro, língua a pranto,
a mão sem uso à pena, qu'escreveo
de mil partes, da minha só parte.
Diogo Bernardes, in «Rimas Várias - Flores do Lima», 1596

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