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sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Os Portugueses em Marrocos. António Dias Farinha. «… mais extensos territórios. Podemos mesmo supor que se trataria de alguma crítica ao modo como o infante Henrique tinha ordenada a cidade»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Interesse pelo Norte de África

«(…) Das praias do Algarve, onde passou amiúde a residir, o Navegador perscrutava as notícias da Berberia, o comportamento dos defensores de Ceuta e a eficiência dos meios afectos à ponte naval entre Lisboa, o Algarve e Ceuta. No cerco de 1418, ele próprio e o infante João embarcaram em auxílio dos sitiados. Um dos barcos ocupados no serviço de Ceuta, no regresso ao Reino, chegou à ilha do Porto Santo. A dimensão atlântica somava-se então à empresa marroquina. Os recursos afectos à manutenção de Ceuta eram muito elevados. Entre eles figuravam parte dos consignados às Ordens Militares e aos bispados do Reino. Em 1419, a pedido de João I, o papa Martinho V decidiu que todos os arcebispos, bispos, demais prelados e pessoas eclesiásticas, seculares e regulares, contribuíssem com 9000 florins anuais, durante três anos, para ajuda à nova cidade cristã. A dificuldade em manter uma colónia europeia em África começou a recortar-se com nitidez: pagamento da guarnição, abastecimento em armas e víveres, manutenção da armada no Estreito, dificuldade no recrutamento de fronteiros e moradores, estabelecimento de uma administração permanente em Ceuta e no Reino, enfim, todo o lançamento da estrutura necessária aos territórios de além-mar. João I procurou suscitar o apoio de outros monarcas cristãos para a guerra contra os Mouros e, para isso, escreveu a Afonso V, rei de Aragão e da Sicília; a resposta, dada em 1420, adiava o auxílio para ocasião favorável. O abastecimento de cereais a Ceuta foi, frequentemente, dado a contratadores portugueses e estrangeiros que iam buscar o trigo a Castela, Sicília e outros lugares. Foi o caso do contrato, feito em 1423, com Luís Eanes, outros portugueses e dois genoveses, Bartholomeu Lomellim e Bartholomeu Baraboto, de 2000 moios de trigo para Ceuta. Surgiu então em Portugal um debate complexo a que podemos chamar a questão de Ceuta, que seria alargado mais tarde à escolha dos diferentes rumos que a expansão poderia assumir. Os dirigentes portugueses preocupavam-se com as despesas permanentes que a manutenção de Ceuta exigia, procuravam soluções expeditas e menos onerosas e questionavam-se sobre o futuro da colónia. Assistiu-se à internacionalização do problema, em que foram parte interessada os países ibéricos, o Papado e os meios financeiros europeus, atentos aos projectos carenciados de avultados recursos. De tudo isto nos dá conta a famosa carta que o infante Pedro escreveu de Bruges, em 1426, a seu irmão Duarte: Do que sentya dos feitos de Cepta per algua vez, senhor, vo-lo razoey; mas a conclusão é que, emquanto asy estiver ordenada como agora está, que é muy bom sumydoiro de gente de vossa terra e d'armas e de dinheiro. E, segundo eu senty d'alguns bons homens de Inglaterra de autoridade e daquy, deixam já de falar na honrra e boa fama que é em a asy terem, e falam na grande indiscrição que é em a manterem com tam grande perda e destruyçom da terra, do que a mym parece que eles hão muyto peor informação do que ainda é. O remedio desto, senhor, per muytas vezes o falastes e o sabeis melhor do que vos eu poderia escrever; parece-me, senhor, que farieis serviço de Deus e voso ordena-lo sem delonga. A solução proposta pelo infante  Pedro não está expressa na carta, mas já fora discutida com o herdeiro da coroa. O infante das Sete partidas beneficiava das viagens pela Europa para colher ensinamentos sobre a forma como ali se considerava a conquista de Ceuta; mostra-se um crítico da situação, mas não podemos julgar, em termos definitivos, se era contra a guerra de África e pelo abandono de Ceuta se, pelo contrário, propunha a conquista de novos e mais extensos territórios. Podemos mesmo supor que se trataria de alguma crítica ao modo como o infante Henrique tinha ordenada a cidade». In António Dias Farinha, Os Portugueses em Marrocos, Instituto Camões, Colecção Lazúli, IAG, Artes Gráficas, ISBN 972-566-206-7.

 Cortesia de Instituto Camões/JDACT

 JDACT, D. João I, Ceuta, António Dias Farinha, Marrocos, 

Os Portugueses em Marrocos. António Dias Farinha. «No início de 1416, o Rei confiou ao infante Henrique todallas cousas que conprem pera a dicta nossa cidade de Ceuta e pera sua defensoon»

Cortesia de wikipedia e jdact

 O Interesse pelo Norte de África

«(…) O novo florão nobilitário, situado em solo africano, fazia tornar menos pobre a comparação com o título dos émulos castelhanos dos reis portugueses... Depois da conquista, João I reuniu o Conselho para decidir se deveria manter a posse de Ceuta. A questão figura na Crónica da Tomada de Ceuta, escrita por Gomes Eanes Zurara cerca de 1450, e parece ter sido uma mera formalidade. Como seria possível o abandono de Ceuta depois do enorme esforço militar e financeiro a que o Reino se submetera? A justificação da pergunta parece ser outra. A empresa era muito arriscada; concebida com muita fé e persistência durante vários anos, não deixava de ser um acto de grande temeridade embarcar o rei, os três filhos mais velhos e a grande nobreza do Reino ao mesmo tempo. A situação de insegurança em que Portugal se encontraria em caso de derrota ou de tempestade em que a frota soçobrasse, a incerteza sobre o desenlace da viagem e da batalha e a necessidade de segredo, são razões que explicam a ausência de planeamento para depois da vitória e a questão levantada por João I no Conselho. A resposta, defendida pelo Rei, era óbvia: manter Ceuta portuguesa.

A escolha do capitão suscitou algumas dificuldades porque os principais nobres não estavam dispostos a permanecer em local tão perigoso depois da retirada da frota. O oferecimento que de si próprio fez Pedro Meneses e a subsequente valorização da sua casa oferecem um exemplo da nova situação social portuguesa: a ascensão na escala hierárquica da nobreza através dos serviços prestados no exército e no funcionalismo ultramarino. O monarca João I permaneceu em Ceuta durante alguns dias para prover a cidade de meios de defesa adequados aos ataques que os Mouros não deixariam de fazer. Distribuiu benesses pelos companheiros mais arrojados, como a confirmação do couto de Leomil e a doação de Numão ao marechal Gonçalo Vasques Coutinho. Ao regressar ao Reino, desembarcou em Tavira, cidade onde fez os dois filhos, Pedro e Henrique, respectivamente duques de Coimbra e de Viseu. Ceuta iniciou então a vida que viria a ser habitual nas cidades portuguesas do Norte de África, sujeitas a incursões mouras feitas de surpresa ou a assédios mais ou menos prolongados. Tratava-se de uma ocupação restrita à cidade murada, sendo os arredores aproveitados para recolher lenha, fazer pastar o gado ou entrar em território inimigo. Apesar das dificuldades, o campo vizinho da fortaleza era cultivado, embora as colheitas fossem incertas, porque podiam ser roubadas ou destruídas pelos Mouros. Alguns locais, em particular junto da costa, foram doados pelo rei a particulares, como Bolhões e o Castelo de Larotona. A dinastia merínida, então no poder em Marrocos, atravessava um período de acentuado declínio, pelo que a reacção ao ataque português demorou alguns anos; neste período consolidaram-se as defesas da cidade e a guarnição portuguesa habituou-se à guerra em África, com entradas profundas em Marrocos, e à actividade de corso a partir do porto de Ceuta. A ocupação da cidade magrebina granjeou fama internacional ao monarca português; findavam também os cuidados que a preparação da frota e o segredo sobre o seu objectivo ocasionaram nos países que se consideravam alvos potenciais. Nos meios eclesiásticos saudava-se o facto de poder ser ocupada, efectivamente, uma sé na Berberia. O Dr. Gil Martins, em 1416, no final do discurso que proferiu no Concílio de Constança, sublinhava a importância de Ceuta para a conquista futura da África: portus et clavis est totius Africae [...]. No início de 1416, o Rei confiou ao infante Henrique todallas cousas que conprem pera a dicta nossa cidade de Ceuta e pera sua defensoon. Depois da intervenção que tivera na preparação da frota e no ataque a Ceuta, eis o Infante investido na direcção da empresa ultramarina, então confinada àquela cidade de Marrocos. O trabalho maior a desenvolver era o da mobilização dos recursos necessários à guarnição da praça e o seu transporte». In António Dias Farinha, Os Portugueses em Marrocos, Instituto Camões, Colecção Lazúli, IAG, Artes Gráficas, ISBN 972-566-206-7.

Cortesia de Instituto Camões/JDACT

JDACT, D. João I, Ceuta, António Dias Farinha, Marrocos,

Os Portugueses em Marrocos. António Dias Farinha. «Sabemos que alguns vieram do estrangeiro, pelo menos da Galiza, Biscaia, Bretanha, Inglaterra e Flandres. Parte do exército era constituído pelos portugueses que participaram nas guerras com Castela…»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

 O Interesse pelo Norte de África

«(…) A primeira conquista no além-mar obrigou à preparação de uma frota capaz de transportar numeroso exército equipado com armas e abastecimentos. Foi necessário mandar construir, comprar e alugar muitos navios. As notícias da época registam galés, galeões, naus, barcas, fustas, cocas e barinéis, entre outros, cuja variedade revela a inexperiência neste género de combate, a insuficiência dos recursos e a dispersão dos seus locais de origem. Sabemos que alguns vieram do estrangeiro, pelo menos da Galiza, Biscaia, Bretanha, Inglaterra e Flandres. Parte do exército era constituído pelos portugueses que participaram nas guerras com Castela; esse treino militar deveria ser sensível, sobretudo, ao nível dos comandos, como o demonstra a presença do próprio rei João I, do condestável Nuno Álvares Pereira e homens encanecidos cuja memória perdurou no parecer de João Gomes Silva, alferes do Reino: Ruços, além! É conhecida a presença de estrangeiros na expedição, entre os quais ingleses, alemães, polacos e franceses, que, tal como o exército português, ignoraram, até à passagem por Lagos, qual o destino final da empresa a que prestavam colaboração. A frota foi reunida em duas cidades, Lisboa e Porto, que desta forma assumiam simultaneamente o papel de centros mais importantes do País. A expansão obrigava os Portugueses a acantonarem-se próximo do mar, gerava os seus pólos mais dinâmicos e iniciava o virar de costas a Castela, que perdurou até aos nossos dias. O infante Pedro, filho segundo, ocupou-se dos preparativos em Lisboa e o infante Henrique, filho terceiro, no Porto; o Rei e o herdeiro do trono assumiram a direcção da empresa.

Depois de reunida a frota em Lisboa, um infausto acontecimento poderia ter alterado o plano da expedição: em 18 de Julho faleceu de peste a rainha Filipa de Lencastre, que, antes de morrer, abençoara a expedição. A vontade política era tão determinada que apenas cinco dias mais tarde foi dada ordem de partida; no dia 25 de Julho os navios deixaram a barra do Tejo. Em 27 de Julho, em Lagos, pela voz do capelão real frei João de Xira, foi anunciado o destino da frota: Ceuta. A cidade africana foi presa fácil dos Portugueses, bem preparados para a sua conquista. O Rei e o infante Pedro foram cruzar o mar em frente da cidade, em manobra de diversão; o infante Henrique comandou as forças que desembarcaram no lado do morro de Almina e entrou na cidade. Era o dia 21 de Agosto de 1415, verdadeiro acto do nascimento da expansão portuguesa. Os vencedores, senhores da cidade, saquearam as casas, quintais e terrenos, à procura de riquezas; parece que a colheita foi rendosa porque o assédio não fora esperado pelos Mouros e estes pouco tempo tiveram para fugir. A mesquita foi limpa e consagrada a Nossa Senhora da Assunção. No minarete colocaram-se dois sinos encontrados na cidade e outrora roubados em Lagos pelos corsários. Seguiu-se a cerimónia de armar cavaleiros os infantes e muitos outros nobres: feliz ocasião de honrar a nova geração do poder e os altos infantes que asseguravam o futuro da dinastia iniciada por João I, a cujo título de rei de Portugal e do Algarve era agora acrescentado o do senhor de Ceuta». In António Dias Farinha, Os Portugueses em Marrocos, Instituto Camões, Colecção Lazúli, IAG, Artes Gráficas, ISBN 972-566-206-7.

Cortesia de Instituto Camões/JDACT

 JDACT, D. João I, Ceuta, António Dias Farinha, Marrocos,

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Os Portugueses em Marrocos. António Dias Farinha. «Devemos insistir neste aspecto: o interesse pela África do Norte não se restringia à Coroa, aos grandes nobres ou à alta burguesia»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

O Interesse pelo Norte de África

«(…) A conquista das cidades e as incursões nos campos e aldeias eram aproveitadas para recolher o produto do saque de tudo o que tinha valor: alfaias, gado, cereais. Cada um dos contendores procurava fazer cativos, a fim de obter o dinheiro dos resgates. As praças serviam de base a uma importante actividade de corso feita ao serviço do rei ou dos nobres. Barcos pesqueiros ocupavam-se na exploração dos ricos bancos da orla marítima marroquina. Os períodos de paz eram aproveitados para as trocas comerciais com os diferentes produtos do país, os importados do Sudão, como o ouro e os escravos, ou as especiarias do Oriente. A indústria de tecidos, em particular os destinados ao vestuário e utilizados também para a cobertura durante a noite, assumiu uma importância decisiva depois da instalação dos portugueses em Arguim (cerca de 1448) e na Mina (depois de 1481) porque os Negros estavam habituados a utilizá-los. Ficaram célebres os lambéis como referiu Duarte Pacheco Pereira no Esmeraldo: uma roupa feita como mantas do Alentejo, que tem uma banda vermelha e outra verde e outra azul e utra branca, as quais bandas são de largura de dois e três dedos (...) E esta é a principal mercadoria por que se em Axem resgata o dito ouro, além de outras de menos valia que também praticamos. A obtenção de cereais em Marrocos foi muito aleatória porque estava dependente das colheitas, que nem sempre eram abundantes, e da situação de guerra ou de paz com as diferentes praças. Em 1414, um ano antes da conquista de Ceuta, os Portugueses venderam trigo no reino de Fez. Durante a maior parte do século XV assistimos ao abastecimento das praças lusitanas a partir da Europa. A paz de 1471, o protectorado na região de Azamor, Safim e Meça e o período dos mouros de pazes trouxeram tributos em cereais e outros produtos, além do incremento das compras e do comércio em geral. A reacção xarifina comprometeu quase definitivamente essa época promissora. Os diferentes estratos sociais tinham vantagens económicas com a colonização das praças da África do Norte. A exploração das terras era fonte de rendimentos. Afonso V procedeu a generosas doações no território que lhe pertencia nos termos da paz de Os cargos militares e civis eram asperamente disputados. Os reis favoreciam com moradias, comendas e outras benesses os que se dispunham a servir em África. Os burgueses interessavam-se pelos contratos de abastecimento das diferentes praças, associando-se, se necessário, a comerciantes estrangeiros. Devemos insistir neste aspecto: o interesse pela África do Norte não se restringia à Coroa, aos grandes nobres ou à alta burguesia. Grande número de particulares, pequenos comerciantes, pescadores e artesãos mantinham relações privilegiadas com Marrocos. Eram homens comprometidos com o abastecimento em víveres, armas, materiais de construção e outros produtos necessários à vida naquelas fronteiras e ao provimento das armadas que ali se dirigiam. Os pescadores algarvios habituaram-se a frequentar os ricos mares das costas marroquinas. O contrabando de todo o género de mercadorias, incluindo as proibidas, como as armas florescia nos portos portugueses, em especial do Algarve. Procuravam obter produtos diversos, como as especiarias, que, embora em quantidades diminutas, afluíam aos mercados norte-africanos. Este comércio fomentava o gosto pelos produtos exóticos que se desenvolvia em Portugal e em toda a Europa». In António Dias Farinha, Os Portugueses em Marrocos, Instituto Camões, Colecção Lazúli, IAG, Artes Gráficas, ISBN 972-566-206-7.

 Cortesia de Instituto Camões/JDACT

JDACT, D. João I, Ceuta, António Dias Farinha, Marrocos

quinta-feira, 12 de março de 2015

Os Portugueses em Marrocos. António Dias Farinha. «… o seu declínio, aliado a razões conjunturais de forte poder político, permitiu ao marquês de Pombal, em 1769, o abandono da Mazagão, última praça que os portugueses mantiveram em Marrocos»

jdact

O Interesse pelo Norte de África
«(…) O interesse pelas praças norte-africanas evoluiu durante os séculos XV e XVI; as motivações políticas e económicas persistiram como determinantes em diversas fases desse longo domínio. As razões políticas confundem-se com a própria formulação e dinâmica da expansão portuguesa, que postulava a conquista dos reinos de Fez e de Marrocos, considerada legítima porque se tratava de reconquista para a fé cristã os territórios usurpados pelos muçulmanos. A hierarquia religiosa abençoava este projecto, concedia-lhe importantes rendas eclesiásticas, a tal ponto que o valor destas parece ter determinado algumas atitudes do poder, e a referência à cruzada permitia apoios internacionais, em particular do papado, que condicionavam fortemente as opções portuguesas.
As praças marroquinas constituíam um dos lados do triângulo estratégico do Atlântico português, completado pela costa europeia e pelas ilhas. O monarca Manuel I planeou mesmo centrar na Madeira as acções a desenvolver, não só nesse espaço, mas ainda em regiões servidas pelas rotas marítimas que o atravessam. As praças do estreito de Gibraltar asseguravam a defesa contra os piratas e a segurança das rotas marítimas entre o Mediterrâneo e o Atlântico. Esta ordem de factores, de índole essencialmente política, pressupunha numerosos compromissos pessoais ou de grupo. A nobreza, por exemplo, mostrava-se cada vez mais enredada na teia dos proveitos das empresas ultramarinas, em particular na ascensão social, bem ilustrada na família Meneses, e nas benesses repartidas entre os fronteiros de África, como os que foram concedidas aos capitães e povoadores das Ilhas em paga de serviço em Marrocos.
A força dos argumentos de carácter politico em favor da permanência em África alcançou todo o seu sentido quando a crise ocasionada pela perda de Agadir, em 1541. Foram abandonadas todas as praças que os portugueses ali detinham, com excepção de Ceuta, Tânger e Mazagão. As primeiras mantinham o controlo do Estreito e seriam a porta destinada a um possível ataque ao reino de Fez. Guardavam também a magia do símbolo, a evocação da empresa pioneira da gesta marroquina e do martírio do infante Fernando. Por aquela zona (por Arzila, de novo e de forma efémera nas mãos dos portugueses) passou o rei Sebastião a Alcácer Quibir para testemunhar perante a História um dos sentidos básicos da colonização portuguesa dos séculos XV e XVI. No sul de Marrocos, o rei João III decidiu manter Mazagão, onde mandou erigir poderosas fortificações para apontar a Marraquexe, capital dos xarifes, a ameaça de uma rápida invasão. O repto foi aceite e os mouros cercaram, sem êxito, a praça em 1562. Ali mandou Sebastião I, em 1578, uma armada destinada a iludir Mulei Maluco quanto ao local de desembarque do exército português apoiante de seu sobrinho, o sultão deposto, Mulei Mahamet.
Os interesses económicos ligados à presença portuguesa nas praças de Marrocos são de índole muito diversa, como seria de esperar da ocupação, por um período de mais de três séculos, de um espaço marítimo vasto, da existência de terras muito ricas e de um povo habituado a um comércio de longa distância. Essas motivações foram determinantes em vários períodos, como quando se tratou de adquirir tecidos e outros produtos para os negros da zona da Mina, no princípio do século XVI, o seu declínio, aliado a razões conjunturais de forte poder político, permitiu ao marquês de Pombal, em 1769, o abandono da Mazagão, última praça que os portugueses mantiveram em Marrocos». In António Dias Farinha, Os Portugueses em Marrocos, Instituto Camões, Colecção Lazúli, IAG, Artes Gráficas, ISBN 972-566-206-7.

Cortesia de Instituto Camões/JDACT

sábado, 15 de novembro de 2014

Crónica de Almançor. Sultão de Marrocos (1578-1603). Dias Farinha. «A sua história é uma narrativa de combates incessantes com os mouros, apesar dos períodos em que foi possível manter uma paz precária, em especial nas primeiras décadas. O abandono de várias praças no reinado de João III permitia antever o fim da presença portuguesa no Magrebe»

jdact

A Época. Os Portugueses em Marrocos no século XVI
«(…) Os combates terrestres eram também frequentes. A situação de carência económica era dolorosa. Em carta ao seu antecessor no governo da praça, escrevia Afonso Noronha: amandey o adayl aos Allemos com dez de cavalo nüa taforea e armey hum caravelão e dous barguantyns que não há aqui mais que me desfiz deles com minha ida e também não tinha fazenda com que os poder suster porque os homens de Ceyta são tão proves [pobres] que se os não ajudarem não podem ter navios e como lhes el-Rei nosso senhor não dá nada era necessário dar-lho eu do meu […] não escrevo as necessidades que há em Ceyta assim da guerra como de obras porque nunca vejo resposta de carta que sobre isso escreva nem sei se se há Sua Alteza por servidou. A situação das restantes praças não era melhor. Em Mazagão, Luís Loureiro sofreu considerável derrota em 30 de Março de 1547. Duzentos cavaleiros mouros surgiram diante da praça. O capitão saiu a combatê-los com cento e vinte cavaleiros e trezentos infantes levando também seu filho Luís Anes de catorze anos. Os assaltantes simularam fugir, Luís Loureiro perseguiu-os e caiu numa emboscada preparada pelo alcaide Hamu ben Daúde com seis mil cavaleiros. Quase todos os portugueses foram chacinados, entre os quais o filho do capitão. Este conseguiu fugir graças à abnegação de Lázaro Martins que lhe deu o próprio cavalo, ficando cativo. Luís Loureiro salvou-se, mas sofreu quatro grandes feridas e perdeu três dedos da mão esquerda. Luís Loureiro, acabrunhado, só escreveu ao rei em 16 de Abril. Mas, entretanto, o Algarve já socorria a praça vítima de tal destroço.
A nova da derrota chegara a Tavira no domingo 24, à tarde, e quatro navios foram imediatamente aparelhados e despachados: o primeiro no dia seguinte, e os outros nos dias 26 e 27 de manhã com duzentos homens na frol desta cidadela escrevia Duarte Martins, corregedor de Tavira, em carta a João III, de 27 do mesmo mês. Os exemplos referidos, do ano de 1547, pouco antes da presença de Camões, são frequentes nas praças de Marrocos durante o século XVI. A sua história é uma narrativa de combates incessantes com os mouros, apesar dos períodos em que foi possível manter uma paz precária, em especial nas primeiras décadas. O abandono de várias praças no reinado de João III permitia antever o fim da presença portuguesa no Magrebe e a assunção de outros rumos nos projectos expansionistas do Reino. Mas a dúvida persistente e inquietante cristalizava entre a opção pela longínqua aventura oriental e a conquista de um império cristão, sem solução de continuidade entre as praças do Algarve de aquém e de além mar em África.

A época anterior à batalha de Alcácer Quibir é muito complexa e encerra múltiplas contradições cuja influência relativa na condução da vida política do reino surge difícil de conhecer com rigor. Pode, no entanto, afirmar-se que a decisão do monarca Sebastião passar a África teve origem num largo conjunto de motivações que actuaram em convergência e que determinaram uma avaliação incorrecta da correlação das forças em conflito e dos riscos consequentes a uma possível derrota. Apontaram-se razões políticas que remontam à época da conquista de Ceuta e das restantes praças marroquinas e que pretendiam alargar o território, graças à ocupação de algumas regiões na África do Norte. São referidas causas sociais a propósito das necessidades expansionistas da nobreza, dos mercadores e de outros sectores da população. Argumentos de carácter estratégico e militar valorizavam o livre acesso aos estreitos marítimos, a presença no Mediterrâneo e a defesa da costa ocidental africana. Interesses económicos pretendiam a obtenção de trigo, de ouro, de especiarias e de escravos. A curiosidade de saber, e mesmo a atracção do desconhecido e da aventura, certamente motivaram muitos homens do período dos Descobrimentos e da Expansão. Razões psicológicas e de mentalidade da época permitem compreender as ambições de poder e de riqueza. O espírito religioso de salvação da alma, e de almas, iluminou muitas actuações individuais e de grupo e explica o grande esforço missionário daqueles tempos.
Os povos com quem os portugueses entraram em contacto possuíam os seus próprios padrões de cultura e de civilização e diferente capacidade de reacção perante o desafio que os cristãos representavam no viver quotidiano e nos seus hábitos ancestrais. O impacto produzido pelos novos vizinhos foi diverso em tantas regiões e assumiu aspectos muitas vezes contraditórios. A resposta das populações contactadas variou desde a xenofobia à rejeição, à quase indiferença, até ao apoio e colaboração. Muitas vezes a guerra impediu o conhecimento entre os povos e criou conflitos insanáveis. Os descobrimentos, a expansão política e militar, a vida económica, a colonização e a missionação foram ajustados pela capacidade e interesses dos portugueses e pelas respostas sucessivamente obtidas. O conjunto inscrevia-se, naturalmente, num quadro com implicações mais vastas em que sobrelevavam o espírito ecuménico da igreja e os condicionalismos da política peninsular e europeia. A matriz expansionista portuguesa procurou, de início, conquistar uma parte do Magrebe. A tomada de Ceuta, as tentativas para obter Tânger, as expedições a Alcácer Ceguer e a Arzila mobilizaram milhares de homens e grande parte dos recursos do Reino. O século XV foi dominado por este pensamento constante, cujos protagonistas maiores foram João I, o infante Henrique, o vedor da Fazenda João Afonso Alenquer, Afonso V, o Africano, e o infante Fernando, sobrinho e herdeiro do Navegador. O Infante Fernando, o dito Santo, por seu lado, aureolou a empresa africana com a coroa do martírio». In António Dias Farinha, Crónica de Almançor, Sultão de Marrocos (1578-1603), Investigação Científica Tropical, Lisboa, 1997, ISBN 972-672-864-9.

Cortesia de IICT/JDACT

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Crónica de Almançor. Sultão de Marrocos (1578-1603). Dias Farinha. «Bernardino [de Mendoza], capitão das galés do Imperador [comandava uma esquadra de vigia no Estreito] veio ter a Ceita com Afonso Noronha, capitão] haverá oito dias, para concertar com ele irem ambos a Targa a saqueá-la […]»

jdact

A Época. Os Portugueses em Marrocos no século XVI
«(…) Os biógrafos de Luís de Camões situam a sua presença em Ceuta entre 1549 e 1551. O Poeta terá, permanecido naquela cidade como membro da guarnição e combatido nas frequentes escaramuças com os Mouros. Numa delas terá, perdido um dos olhos, efeméride que alguns autores consideram ter ocorrido durante um combate naval no estreito de Gibraltar. Na Elegia II, o Poeta descreve-nos o monte Acho, em Ceuta, de maneira que sugere a sua permanência no local:

Subo-me ao monte que Hércules Tebano
do altíssimo Calpe dividiu,
dando caminho ao mar Mediterrano;
dali, estou tenteando aonde viu
o pomar das Hespéridas, matando
a serpe que a seu passo resistiu.

Nos Lusíadas surge-nos uma descrição semelhante quando se refere a Espanha:

Com Tingitânia entesta, e ali parece
que quer fechar o Mar Mediterrano,
onde o sabido Estreito se enobrece
co'o extremo trabalho do Tebano.

A comparação de Nuno Álvares, cercado pelos castelhanos, ao leão atacado pelos caçadores junto a Ceuta, parece ser uma recordação da época em que permaneceu naquela praça:

Está ali, Nuno, qual pelos outeiros
de Ceuta está o fortíssimo leão,
que cercado se vê dos cavaleiros
que os campos vão correr de Tetuão:
perseguem-no com as lanças, e ele, iroso,
torvado um pouco está, mas não medroso.

Com torva vista os vê, mas a natura
ferida e a ira não lhe compadecem
que as costas dê, mas antes na espessura
das lanças se arremessa, que recrescem.
Tal está o cavaleiro, que a verdura
tinge co’o sangue alheio […]

O episódio em que o cativo Pero Galego caçou um leão, narrado por António Saldanha na Crónica de Almançor, comprova a abundância daqueles animais no Magrebe, apesar de ter ocorrido meio século depois. A cidade de Ceuta era governada, no tempo de Camões, por Afonso Noronha, quarto filho de Fernando, 2.º marquês de de Vila Real, que desempenhou aquelas funções de 1538 a 1550. A época era de profunda crise para as armas portuguesas. Em 1541 perdera-se Agadir e, no mesmo ano, foram evacuadas as fortalezas de Safim e de Azamor. Os navios de Argel cruzavam incessantemente o estreito de Gibraltar numa desgastante luta de pirataria. As necessidades económicas do reino acentuavam-se e o abastecimento regular das praças era muito afectado. Sobre tudo isto crescia o poder dos Xarifes que, vindos do sul, iam reduzindo o território sob domínio da dinastia oatácida de Fez, até que conseguiram a unificação do país sob o governo de Mawlây Muhammad al-Shaykh (Mulei Mahamede Xeque) em 1549. A situação preocupava o reino, pelo que João III pretendia negociar uma aliança defensiva com a Espanha e com o monarca oatácida contra o Xarife. Procuraram-se informações dos avanços deste enquanto se combatiam os piratas barbarescos e turcos junto do estreito de Gibraltar.
Domingos Lopes Barreto, feitor em Puerto de Santa Maria, em carta a João III, datada de 9 de Julho de 1547, relatava uma dessas escaramuças: Bernardino [de Mendoza], capitão das galés do Imperador [comandava uma esquadra de vigia no Estreito] veio ter a Ceita com Afonso Noronha, capitão] haverá oito dias, para concertar com ele irem ambos a Targa a saqueá-la […] A gente que saltou em terra, houve nela desordem, em que os mouros lhe mataram seis ou sete homens e feriram 20 [...] De Ceuta foi com Bernardino o adail e almocadém Fernão Noronha cada um em seu bergantim: vieram a salvamento com a gente que foi na sua companhia [... ] A nova de navios de turcos e andarem nesta costa e no Estreito sete fustas e bergantins e uma galeota que tem feito dano em tomarem alguns navios de que se salvou a gente». In António Dias Farinha, Crónica de Almançor, Sultão de Marrocos (1578-1603), Investigação Científica Tropical, Lisboa, 1997, ISBN 972-672-864-9.

Cortesia de IICT/JDACT

domingo, 19 de outubro de 2014

Crónica de Almançor. Sultão de Marrocos (1578-1603). Dias Farinha. «A retumbância europeia do feito e a sua consagração no concílio de Trento foi propícia aos adeptos da expansão ao “pé da porta” contra os da longínqua empresa oriental. A população das nossas praças de Marrocos era formada por fronteiros e moradores»

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A Época. Os Portugueses em Marrocos no século XVI
«(…) A perda de Santa Cruz do Cabo de Guer, em 1541, precipitou a tomada de decisão. Safim e Azamor, na zona meridional de Marrocos, foram abandonadas no mesmo ano; Arzila e Alcácer Ceguer conheceram a mesma sorte em 1550, após a conquista do reino de Fez pelo xarife sádida. Mantiveram-se apenas as cidades de Mazagão, Tânger e Ceuta que foram dotadas de novas e imponentes fortificações, aptas a resistir ao cerco dos inimigos providos de artilharia. A opção foi clara: mantinham-se os dois pontos estratégicos do estreito de Gibraltar, de onde (sobretudo de Tânger) se tornava possível a invasão de Fez, e guardava-se uma porta (Mazagão) que permitia a entrada no reino de Marraquexe. Esta fortaleza foi dotada de um porto importante para a época que continuou a ser um dos ancoradouros mais seguros de toda a orla atlântica de Marrocos até à construção das modernas instalações portuárias de Casablanca. Após o abandono das praças, concentraram-se as forças, aumentaram as motivações, agora excitadas pelo pecado do abandono, mas manteve-se a dúvida quanto ao melhor rumo da Expansão Portuguesa e, nessas condições, permaneceu o sonho ou projecto de conquista marroquina. O grande cerco de Mazagão, em 1562, tornou-se uma referência muito significativa do longo percurso magrebino dos Portugueses.
O povo do Algarve, de Lisboa, do Porto, de toda a orla marítima comoveu-se com a sorte dos sitiados e um considerável auxílio foi mobilizado antes mesmo da decisão da regente D. Catarina. A vitória obtida surgiu como uma prova da capacidade portuguesa contra os exércitos sitiantes e afigurava-se de molde a permitir novos êxitos. A retumbância europeia do feito e a sua consagração no concílio de Trento foi propícia aos adeptos da expansão ao pé da porta contra os da longínqua empresa oriental. A população das praças portuguesas de Marrocos era formada principalmente por duas categorias: os fronteiros e os moradores. Os primeiros constituíam a gente de armas, geralmente fidalgos, que ali iam servir por um período de dois ou três anos e que levavam um séquito de servidores que os auxiliavam na guerra. Os moradores eram a população permanente, ali estabelecida de longa data. Desempenhavam as tarefas mais humildes, asseguravam o comércio e mantinham uma agricultura de subsistência, aproveitando as terras vizinhas e as possibilidades da pastorícia (…).
Nestas condições, a sua resolução era descoordenada e, assim, assistiu-se a uma multiplicidade de centros de decisão com sede em cada uma das praças. Tal divisão não poderia servir iniciativas comuns contra o inimigo. O abastecimento das praças portuguesas foi geralmente muito irregular. Quando não era possível fazer comércio com o território marroquino, e essa era a situação normal em período de crise, o único recurso era o envio frequente de navios com mantimentos idos do continente, da Andaluzia ou das ilhas do Atlântico. Sempre que a administração faltava, ou demorava os seus fornecimentos, havia carências naquelas fortalezas que chegavam a pontos críticos de fome e de desespero. A numerosa correspondência que se conserva nos arquivos portugueses, e que em parte está publicada, abunda em referências às dificuldades económicas e às situações de dramatismo vividas pelos fronteiros e moradores nas praças de África.
As dúvidas sobre os rumos que a Expansão deveria adoptar foram bem equacionadas por Luís de Camões que exprimiu as incongruências da política seguida no Oriente e as dificuldades da conquista do Magrebe, mas, ao mesmo tempo, exaltou a epopeia protagonizada pelos portugueses em circunstâncias assaz difíceis. Alguns dos seus versos esclarecem a situação de embaraço lusitano perante os caminhos a percorrer e o clima político-militar que condicionou a atitude várias vezes referida pelo Autor da Crónica de Almançor». In António Dias Farinha, Crónica de Almançor, Sultão de Marrocos (1578-1603), Investigação Científica Tropical, Lisboa, 1997, ISBN 972-672-864-9.

Cortesia de IICT/JDACT

domingo, 27 de julho de 2014

Crónica de Almançor. Sultão de Marrocos (1578-1603). Dias Farinha. «O monarca e o governo de Lisboa deviam pensar que aqueles pontos se encontravam demasiado próximos e que as suas actuações podiam ser comandadas da capital. […]a administração central estar assoberbada com a resolução dos problemas das várias parcelas»

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A Época. Os Portugueses em Marrocos no século XVI
«(…) A conquista e a permanência em Alcácer Ceguer compreendem-se devido à dificuldade da ligação terrestre entre Ceuta e Tânger e à utilidade de mais um posto de guarda do estreito de Gibraltar. A praça está situada na margem baixa e arenosa de um pequeno rio, apenas acessível a batéis, ê é dominada por uma colina, o Seinal, que a deixava à mercê de um exército que dispusesse de artilharia. A instalação dos portugueses em Azamor, Mazagão e Safim foi desejada pelas facilidades de comércio e porque aquelas cidades dominavam as regiões férteis da Erxovia e da Duquela. Os nomes destas províncias derivam das tribos que as povoavam: os Shawiya e os Dukalla (?). As difíceis condições portuárias explicam o fracasso da instalação portuguesa na Mamora, situada junto à foz do rio Cebu, onde hoje se situa Mehdia e, a montante, a cidade de Kenitra. A perda de Mogador, em 1510, terá, sido devida à forte oposição da confraria dos Iiagraga (?). O desastre de Santa Cruz do Cabo de Guer foi facilitado pelo lugar em que a fortaleza foi construída, junto ao sopé de um monte onde havia uma fonte de boa água, mas que permitiu o bombardeamento feito de uma posição elevada que dominava o interior da praça.
A empresa marroquina teve para os portugueses um forte cunho religioso e popular. Entre os factores que criaram esse sentimento, deve acentuar-se a lembrança da formação do reino em luta contra os mouros, a existência das lendas das (mouras encantadas) as notícias sobre as suas riquezas, a expansão do culto dos santos Mártires de Marrocos, os cinco franciscanos que perderam a vida pregando pela conversão daquele país no século XIII, as surtidas dos piratas contra as costas algarvias, a própria proximidade do território. Todos esses dados predispunham a soluções de beligerância militante. A vitória obtida em Ceuta, em 1415, consolidou o projecto de ocupação de Marrocos na mente de boa parte da população e dos dirigentes portugueses. O desastre de Tânger, em 1437, é o desejo de compensar a frustração causada pelo cativeiro e morte do infante Fernando, a grande derrota da Mamora (1515) e a perda de Santa Cruz (1541), entre outros eventos, foram marcos que contribuíram para a exacerbação do projecto português. Vários sucessos importantes de carácter económico, como o do comércio de tecidos produzidos na região de Safim, o dos objectos de cobre manufacturados na zona do Suz, a importação de trigo e de gado, prometiam uma empresa com êxito garantido. Alguns triunfos militares e políticos contribuíram, igualmente, para a persistência da luta no Magrebe. Entre eles figura o reconhecimento da soberania portuguesa sobre o Algarve de além-mar em África, aceite por Mulei Xeque, e a existência de um vasto território de mouros de paz junto das praças de Safim e de Azamor, nas primeiras décadas do século XVI. As dificuldades na manutenção do império levaram, no tempo de João III, à dolorosa interrogação sobre o abandono ou a permanência nesse largo rosário de praças fortes que cingia a costa marroquina. Havia, ainda, alguns mouros convertidos, em número muito escasso, e judeus atarefados na ligação comercial com o território marroquino.
A figura principal era a do capitão, nomeado habitualmente por três anos. Em algumas praças os capitães possuíram o cargo em propriedade por várias gerações, como os marqueses de Vila Real em Ceuta. O adail era o lugar-tenente do capitão para os assuntos militares. Outras funções de carácter bélico eram desempenhadas pelo almocadém, pelo anadel, pelo meirinho do campo, pelo condestável da artilharia, e pelos atalaias, atalhadores, facheiros e escutas. A administração civil era dirigida pelo contador, alto funcionário que, em geral, assegurava a interinidade do capitão nas suas ausências ou morte. Outros funcionários civis eram os escrivães e porteiros dos Contos, os almoxarifes, os recebedores e escrivães dos almoxarifados, os vedores das obras e os tabeliães. Os juízes estavam subordinados ao capitão a quem pertencia a regedoria da justiça.
Um dos aspectos preocupantes da administração portuguesa das praças de África, justamente relevado por Robert Ricard, era a ausência de uma direcção centralizada. Ao invés do que sucedia no Oriente e no Brasil, nunca se tentou um comando unificado que coordenasse as acções empreendidas pelos capitães. Estes agiam de forma isolada e as poucas empresas que realizaram conjuntamente, como a entrada até Marraquexe feita pelas guarnições de Safim- e de Azamor no tempo de Nuno Fernandes Ataíde, resultaram de iniciativa limitada e não de uma imposição superior. O monarca e o governo de Lisboa deviam pensar que aqueles pontos se encontravam demasiado próximos e que as suas actuações podiam ser comandadas da capital. Esta impressão não se coadunava com o facto de a administração central estar assoberbada com a resolução dos problemas das várias parcelas de um imenso território, além de que as dificuldades das diferentes praças chegavam ali fragmentadas». In António Dias Farinha, Crónica de Almançor, Sultão de Marrocos (1578-1603), Investigação Científica Tropical, Lisboa, 1997, ISBN 972-672-864-9.

Cortesia de IICT/JDACT

sábado, 5 de julho de 2014

Crónica de Almançor. Sultão de Marrocos (1578-1603). Dias Farinha. «A conquista, manutenção e desenvolvimento das várias praças encontrava-se relacionada com o tipo de projecto que imperava na vida política portuguesa da época»

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A Época. Os Portugueses em Marrocos no século XVI
«A presença portuguesa em Marrocos durante o século XVI enquadrava-se no movimento expansionista ibérico e europeu e obedecia a várias motivações. No plano militar pretendia assegurar posições estratégicas no estreito de Gibraltar, no mar Mediterrâneo e ao longo da costa ocidental africana. Na perspectiva política reivindicava a posse das praças africanas como esteio da independência do Reino e garantia do equilíbrio das forças peninsulares.

NOTA: As razões para a conquista eram outras, visavam o equilíbrio das forças internacionais. A operação militar é o resultado de uma estratégia [...] tem em vista assegurar para Portugal uma maior área de intervenção, para o equilíbrio peninsular ibérico [...]; in História Diplomática Portuguesa, Lisboa, 1987. A importância da posse das praças magrebinas foi ainda mais acentuada a partir dos finais do século XV. Castela entrou em competição com Portugal pela conquista da África do Norte e o litígio só foi resolvido graças à assinatura dos tratados de Alcáçovas-Toledo (1479-1480), de Tordesilhas (1494) e de Sintra (1509). Nesses acordos foi reconhecido a Portugal o direito de conquista do reino de Fez. Durante o domínio filipino, o monarca ibérico obliterou esses convénios e deu ordem a tropas da Coroa de Castela para ocuparem Larache (1610) e a Mamora (1614). A rivalidade luso-espanhola pela posse dos territórios magrebinos subjaz a alguns dos julgamentos de António Saldanha, pelo que a leitura da Crónica de Almançor exige a consideração desse longo requisitório.

Na dimensão ideológica persistia no projecto de alargar as fronteiras cristãs, continuando a obra da Reconquista. Como razões de carácter económico aduzia a riqueza em cereais, gados e outros produtos das regiões costeiras de Marrocos e o comércio dos artigos fabricados nas cidades do Magrebe que eram trocados em diversos lugares do mundo frequentado pelos portugueses, sobretudo na África Negra. A exploração do ouro do Sudão ocidental, a que as caravelas já tinham acesso pela costa atlântica de África, ficava quase reservada a quem dominasse os portos magrebinos. A orla atlântica de Marrocos não oferecia ancoradouros fáceis à navegação. A costa é pouco recortada e sujeita a temporais frequentes, os estuários dos numerosos rios que correm das altas e pluviosas montanhas daquele país são pouco profundos, assoreados, sujeitos a variações de caudal, causadas quer pela estiagem, quer pelas chuvas prolongadas. Acrescente-se a circunstância de as marés poderem enganar os navegadores quanto aos verdadeiros fundos da costa e a existência de recifes em alguns dos pontos passíveis de aproveitamento portuário.
A região norte, contígua ao estreito de Gibraltar, é extremamente montanhosa. A passagem por terra de Ceuta a Tânger, apesar da curta distância que as separa, é empresa que oferece sérias dificuldades e só recentemente foi aberta uma sinuosa e perigosa estrada. Os numerosos rios que correm para a fachada atlântica de Marrocos compartimentam o país em províncias e dificultam as comunicações no sentido dos meridianos, sobretudo na época em que os cursos de água têm grandes caudais. Vários factores levaram a que o poder gravitasse em torno de duas cidades: Fez, situada à latitude de Rabat - Salé, e Marraquexe a sul do paralelo de Safim. A autoridade política foi frequentemente precária no reino magrebino, devido à autonomia das várias tribos e à carência de disposições sucessórias claras e de regras que definissem a legitimidade do exercício do poder político. A luta contra a presença estrangeira e uma resposta adequada ao desafio daqueles que pretendiam o acesso ao poder, em especial os morábitos e as confrarias, impunham a necessidade de manter um exército permanente e de promover campanhas frequentes contra o inimigo externo e contra as revoltas e conjuras internas.
A actuação portuguesa no Magrebe foi condicionada por aqueles factores, pela existência de cidades nos lugares considerados relevantes e, ainda, pela distância aos portos europeus. A conquista, manutenção e desenvolvimento das várias praças encontrava-se relacionada com o tipo de projecto que imperava na vida política portuguesa da época. A história da Expansão é indissociável das vicissitudes do Reino porque é um seu corolário, embora, ao mesmo tempo, tivesse influência determinante na sua própria evolução. A situação de Ceuta, debruçada sobre o estreito de Gibraltar e rodeada de montanhas, reforça a insularidade do local e a sua posição estratégica como chave do Mediterrâneo. O fracasso do exército português na empresa de Tânger, em 1437, e a não utilização de Ceuta como base de invasão de Marrocos comprovam esse carácter. A presença cristã naquele país necessitava de nova base de operações mais largamente aberta para o interior. Quando foi escolhida a cidade de Tânger, como alvo de uma empresa bélica lusitana, foi valorizada a existência de uma baía e a comunicação com o sul magrebino por uma larga faixa de terras baixas ao longo do Atlântico. Apesar dessa situação, Tânger ficava longe da estrada natural para Fez e os movimentos dos portugueses podiam ser observados com facilidade. A conquista de Arzila, situada mais a sul, embora desprovida de porto, permitia o domínio das planícies que se estendiam na direcção de Alcácer Quibir e do interior de Marrocos». In António Dias Farinha, Crónica de Almançor, Sultão de Marrocos (1578-1603), Investigação Científica Tropical, Lisboa, 1997, ISBN 972-672-864-9.

Cortesia de IICT/JDACT

terça-feira, 26 de março de 2013

Os Portugueses em Marrocos. António Dias Farinha. «Na foz do Cebu, o rio mais caudaloso de Marrocos, os portugueses pretenderam construir, em 1515, a fortaleza de Mamora. A expedição saldou-se por um grave desastre, porque os Mouros atacaram na maré baixa…»

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O Interesse pelo Norte de África
«A tomada de Ceuta integra-se no desejo cristão de reconquista da África do Norte e de colonização portuguesa da parte ocidental desse território. O fracasso final dessa política revela o ponto de equilíbrio entre as forças cristãs e muçulmanas, a islamização e arabização a que a Berberia fora submetida e, talvez, a sintonia com que o Islão árabe soube viver com os Berberes e outros habitantes dessa particular região do mundo então chamada Jazirat al-Magrib, a ilha do Magrebe. No território de Marrocos distinguem-se três faces distintas que lhe conferem uma vigorosa personalidade. Em contacto com o mar situa-se uma zona de planícies atlânticas, regadas por numerosos rios que correm das montanhas do Atlas, férteis em cereais e pastagens e habitadas, sobretudo, por nómadas arabizadas.
A zona de montanhas divide-se em dois sistemas principais: o Rife e o Atlas. O Rife bordeja o Estreito de Gibraltar, incluindo a cidade de Ceuta, e a fachada norte, virada ao Mediterrâneo; o Atlas, formado pelo Médio, Alto e Antiatlas, orientado no sentido nordeste-sudoeste e paralelo à linha da costa; separa as planícies atlânticas do deserto que se estende a oriente e a sul. Este, o Sara, o maior dos desertos, merece bem a designação de Mediterrâneo sariano, pelo carácter de insularidade que confere ao Magrebe. As duas últimas regiões são predominantemente habitadas por Berberes, sedentários nas montanhas e nómadas no deserto. Os portos magrebinos eram de difícil acesso, por factores vários: a costa tem um recorte pouco pronunciado, com raras enseadas, e é exposta aos ventos de norte e do oeste. Os estuários dos rios são de medíocre valor para a navegação de alto mar, devido às areias que as torrentes arrastam no momento das cheias ou ao recorte rochoso com que a natureza os dotou. Só pequenos barcos podem fundear no interior desses estuários, como acontece com o rio que desagua junto do Alcácer Ceguer ou com o Lucos, rio de Larache, na margem do qual se ergueu a cidade antiga de Lixus, já abandonada quando das conquistas portuguesas.
Na foz do Cebu, o rio mais caudaloso de Marrocos, os portugueses pretenderam construir, em 1515, a fortaleza de Mamora. A expedição saldou-se por um grave desastre, porque os Mouros atacaram na maré baixa e os navios portugueses não puderam manobrar nem receber reforços dos barcos de maior tonelagem que haviam permanecido fora do estuário. Mais para sul, a foz do Bu Regregue, ou rio de Salé, e o Umm al-Rabi, o Morbeia dos textos portugueses, junto a Azamor, não permitem tão pouco o acesso aos navios oceânicos. As enseadas de Safim e Agadir serviam de portos a regiões ricas pela indústria de tecidos e de escoadouro aos produtos do Sus. No extremo sul a costa torna-se baixa, povoada de recifes, e a ressaca afasta os barcos da costa. O rico comércio do interior obrigava os mercadores a fundear em Meça, na foz do rio do mesmo nome, já próximo do cabo Não, limite meridional na navegação atlântica anterior aos descobrimentos portugueses.
As fronteiras de Marrocos coincidem com limites geográficos naturais que contribuem para lhe conferir uma individualidade marcada e para um relativo isolamento: ao Norte, o mar Mediterrâneo; a Ocidente, o oceano Atlântico, e a Sul e Oriente, o grande deserto do Sara. As ligações com o exterior limitavam-se, assim, à via marítima, com as deficiências já apontadas, ao estreito corredor de Taza, tradicional caminho das invasões orientais, situado entre os sistemas montanhosos do Rife e do Atlas, e às cáfilas de camelos que atravessavam o deserto para ir buscar o ouro, os escravos e outros produtos à terra dos negros». In António Dias Farinha, Os Portugueses em Marrocos, Instituto Camões, Colecção Lazúli, IAG, Artes Gráficas, ISBN 972-566-206-7.

Cortesia de Instituto Camões/JDACT

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Os Portugueses em Marrocos. António Dias Farinha. «A intervenção de João Afonso, vedor da Fazenda, ao sugerir Ceuta como alvo da ambição expansionista portuguesa, ilustra a importância que alguns ministros assumiam na alvorada dos tempos modernos. O seu esforço em contribuir para um melhor conhecimento da localização de Ceuta…»



Cortesia de wikipedia

O Interesse pelo Norte de África
«A conquista de Ceuta, chave do estreito de Gibraltar e da expansão para a África do Norte, visava a afirmação da dinastia de Avis, consolidar a independência portuguesa no contexto peninsular e criar um espaço de valorização económica e social aos Portugueses. A presença lusitana em Marrocos alargou-se quando, no princípio do século XVI, Manuel I senhoreou vastas áreas de mouros de pazes. A Igreja apoiou a guerra porque a África já tinha sido cristã e por desejo missionário pregado pelos franciscanos e dominicanos.
Ao conseguir a independência portuguesa perante a dinastia de Avis procurou alargar as fronteiras do Reino para criar um novo padrão de segurança ao território luso e um horizonte de afirmação política e de expansão económica e social aos Portugueses. A grandeza dos recursos utilizados e embarcados em 1415, o cuidado posto na preparação da empresa que se iniciou cerca de seis anos antes e, sobretudo, a qualidade das pessoas que tomaram parte na expedição, entre as quais figuravam o Rei, os três filhos mais velhos e grande número dos principais fidalgos, são dados que certificam o êxito antevisto para um projecto de largo alcance nacional. A indecisão quanto ao destino final a atingir, o segredo que foi possível manter e o debate em Ceuta sobre o abandono ou permanência na cidade espelham, por formas diferentes, as dificuldades em admitir um objectivo de contorno preciso para o empreendimento, seja ele tingido pelo ideário medieval de cavalaria, da busca de cereais ou ouro, resultado dos interesses de um grupo social, como a nobreza ou a burguesia, ou simples cruzada contra o infiel.
A fronteira portuguesa estava já bem definida naquela época e a possibilidade de fazer a guerra entre Estados Cristãos era limitada. As potencialidades da colonização das ilhas atlânticas e dos territórios africanos a sul do Bojador eram ainda quase desconhecidas. As iniciativas que visassem a expansão do poder da monarquia portuguesa tinham de limitar-se ao ataque às terras dominadas pelos Muçulmanos: os reinos de Granada e de Fez, este último designado, frequentemente, por Berberia.
A guerra com Granada apresentava uma dificuldade maior. O direito de conquista dos lugares submetidos aos Mouros exercia-se no sentido dos meridianos e, por isso, aquele território era reservado aos reis de Castela por se encontrar na sua fronteira meridional. Além disso, o desaparecimento do reino de Granada aumentaria a força de Castela, já então potência hegemónica no solo ibérico. A opção pela África do Norte impunha-se, portanto, aos desígnios expansionistas portugueses. Ceuta, chave do estreito de Gibraltar, apresentava-se como lugar de eleição pela facilidade do ancoradouro e de defesa que oferecia a situação da cidade no istmo que ligava o morro de Almina ao continente africano. Desde o século XIII, as potências cristãs da Península haviam previsto a reconquista da África do Norte. Apesar da indefinição dos limites, Ceuta tinha sido, na linha oriental do Magrebe, o último lugar aberto à iniciativa portuguesa aceitável pelo ‘direito de conquista’ dos restantes países ibéricos, nomeadamente Castela. Ao ocupar Ceuta, Portugal ia tão longe quanto possível na reserva de espaços ao seu ulterior projecto expansionista. Finalmente, a posse de Ceuta privava o reino de Granada do seu melhor porto de ligação com a Berberia; era, pois, trunfo de grande valor a ser exibido perante Castela e aos atentos dos restantes reinos cristãos e do papa.
A intervenção de João Afonso, vedor da Fazenda, ao sugerir Ceuta como alvo da ambição expansionista portuguesa, ilustra a importância que alguns ministros assumiam na alvorada dos tempos modernos. O seu esforço em contribuir para um melhor conhecimento da localização de Ceuta, em particular a situação do porto e o sistema de defesa, insere-se na definição de uma estratégia por parte dos homens de Estado, preocupados com o planeamento racional da acção política e militar, com a gestão dos recursos e com os resultados económicos das opções preferidas. A conquista de Ceuta, em 1415, era uma empresa de grande vulto para os parcos recursos de que Portugal então dispunha. O segredo de que se rodeou a expedição e a força política do rei e do seu Conselho restrito permitem considerar João Afonso como um lídimo representante ao Estado dirigido por João I». In António Dias Farinha, Os Portugueses em Marrocos, Instituto Camões, Colecção Lazúli, IAG, Artes Gráficas, ISBN 972-566-206-7.

Cortesia de Instituto Camões/JDACT