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quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Madalena. História e Mito. Helena Barbas. «Terá sido um camponês Mohammed Ali Samman quem, inadvertidamente, desenterrou a ânfora de barro selada contendo 13 volumes de manuscritos. Levou-os para casa e a mãe terá chegado a usar algumas folhas para atear o fogo na cozinha»

jdact e wikipedia

Madalena e os Evangelhos Gnósticos
Nag Hammadi
«(…) Foi pois em Dezembro de 1945 que se deu uma das maiores descobertas de textos de carácter religioso, com repercussões de peso para toda a tradição ocidental. Em Nag Hammadi, no sopé da montanha Gebel al Tarif no alto Egipto, encontraram-se 1156 páginas escritas dos dois lados, em copta, encadernadas em cabedal. Terá sido um camponês Mohammed Ali Samman quem, inadvertidamente, desenterrou a ânfora de barro selada contendo 13 volumes de manuscritos. Levou-os para casa e a mãe terá chegado a usar algumas folhas para atear o fogo na cozinha. Terá confiado uma primeira parte dos textos a um religioso, Al-Qummus Basiliyus Abd el Masih, que por sua vez os envia ao historiador Raghib. Depositados no museu Copta do Cairo, virão a ser estudados pelo egiptólogo francês Jean Doresse (falecido em Maio de 2007), e Toga Mina, o seu director. Uma segunda parte dos manuscritos cai nas mãos de Bahij Ali, conterrâneo de Ali Samman, que os negoceia com um antiquário, Focion Tano. Antes que o Museu os consiga recuperar, o codex nº. 14 terá sido sucessivamente vendido a Alfredo Malardi e depois Thomas A. Malko. A última informação coloca-o na posse de Peter Volker e desaparecem ambos em 1975. Os restantes são comprados por uma italiana, vindo a constituir a colecção Dattari que, em 1952, se torna propriedade do Museu do Cairo. Uma terceira parte é vendida no mercado negro e recuperada pelo antiquário egípcio Albert Eid, que os deposita num cofre-forte na Bélgica. A viúva de Eid vende-os a Gilles Quispel, representante da fundação Jung de Zurique.
Além dos tratados gnósticos, entre eles os Evangelhos de Tomé e Filipe, os volumes incluem 3 obras pertencentes ao Corpus Hermeticum e uma tradução parcial da República de Platão. Pensa-se que se trata de uma biblioteca escondida pelos monges do mosteiro de S. Pacómio para escaparem à censura por heresia. Terão sido compostos em grego pelo século II, e depois traduzidos para o copta.

Datação dos manuscritos
Quanto aos manuscritos em si, os exames colocam-nos em cerca 350-400 d.C.. Mas os estudiosos discordam ferozmente quanto à data dos originais. E têm-se socorrido dos heresiólogos, pois Ireneu de Lião, a escrever por volta de 180 d.C., declara que os hereges se gabam de possuir mais evangelhos do que realmente existem e lamenta que no seu tempo tais escritos tenham alcançado vasta circulação, da Gália através de Roma, Grécia e Ásia Menor. Com a descoberta destes papiros em 1945 os termos gnóstico, gnose, gnosticismo passaram a exigir ajustamentos. Num colóquio em Messina, em 1966, J. Torrents, um dos tradutores, propõe uma redefinição para se evitar qualquer febre pan-gnóstica. Sugere que se conceba a gnose como um grupo de sistemas tendo por objectivo o conhecimento dos mistérios divinos reservados a uma elite, tido por uma revelação diversa das bíblica e islâmica.

O problema da salvação
Todos os textos sagrados são, naturalmente, salvíficos. O problema da salvação em si corresponde à passagem de um lugar para outro, de preferência melhor, depois da morte. Nalguns casos, há a ideia de que já se esteve nesse lugar (sempre um paraíso) do qual se saiu, caiu, ou foi expulso por algum motivo. Será por isso que se inauguram com um génesis, que é também uma cosmologia, como na Teogonia do grego Hesíodo, no Timeu de Platão, ou na Bíblia judaica, depois cristã. No panteão grego, em que os deuses se guerreiam, a degradação alastra a partir do espaço divino. No caso judaico-cristão, tendo como criador um único deus perfeito, a falha primordial é atribuída à criatura, os desobedientes Adão e Eva. Também os textos gnósticos se preocupam com a salvação do homem, com a relação que este possa manter com a entidade que imaginam o criou. Nos seus conceitos tentam fundir aquelas tradições antagónicas. Por um lado, assumem a existência de uma divindade suprema una e perfeita (macho-fêmea), no topo da de uma hierarquia herdada de Platão e da Bíblia. Esta entidade (o Único, o Absoluto, a Mónada, o Perfeito, o Grande Arquitecto) e suas emanações (Éons, os pares macho-fêmea, as sigizias entre 20 a 30) distribuem-se por um espaço simbólico: o Pleroma, cuja última fronteira traz por nome Limite, por vezes coincidindo com a órbita de Saturno. No alto encontra-se o reino da Luz, abaixo até à terra, na zona sublunar, o reino das trevas criado pelo Demiurgo. O Demiurgo é Iahvé, ou Ialdabaot, o Deus do Antigo Testamento. É um deus secundário que ignora a existência do único e verdadeiro Deus, o Grande Espírito Invisível e Transcendente». In Helena Barbas, Madalena, História e Mito, Ésquilo Edições, Lisboa, 2008, ISBN 978-989-8092-29-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

Madalena. História e Mito. Helena Barbas. « Etimologicamente, heresia vem do grego hairesis e significará escolha, enquanto herege vem do latim tardio haireticu, derivado do grego hairetikós através do provençal antigo heretge…»

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Madalena e os Evangelhos Gnósticos
«(…) A distinção entre Evangelhos Apócrifos e Evangelhos Gnósticos resulta de catalogações históricas fundamentadas em questões de conteúdo. Como se disse, os Apócrifos não exibem erros dogmáticos evidentes e os que apresentam talvez não incomodem muito porque, na sua maioria, se dedicam à infância e adolescência de Jesus. Por sua vez, os outros documentos, em grande parte relatando os eventos posteriores à Ressurreição, são refutados com base em argumentos de heresia, em particular gnóstica. Funda-se esta no facto de Valentim (c.100-160d.C.) e Marcião de Sinope (c.110-160), por exemplo, defenderem que só os seus próprios evangelhos e revelações apresentam os ensinamentos secretos de Jesus: Estes escritos contam inumeráveis histórias sobre o Cristo ressuscitado, o ser espiritual que Jesus representava, uma figura que os fascinava muito mais do que o Jesus meramente humano, o obscuro Rabi de Nazaré. Os escritos gnósticos começam onde os Evangelhos acabam, narrando os encontros do Cristo espiritual com os seus discípulos. Assim, estes textos exibem uma marcada vertente cristológica, justificada pelo duplo objectivo de enraizamento na tradição cristã, e mais ou menos discreto desvio face a essa forma de pensamento, uma heresia.

Heresia. Escolha, opção
Etimologicamente, heresia vem do grego hairesis e significará escolha, enquanto herege vem do latim tardio haireticu, derivado do grego hairetikós através do provençal antigo heretge, com o sentido de partidarista. S. Tomás d’Aquino define heresia como uma espécie de infidelidade dos homens que, tendo professado a fé de Cristo, corrompem os seus dogmas. Em ambos os casos afirma-se o termo pela sua qualidade de independência e escolha face a um cânone ou credo prescrito por terceiros. Herege será quem recusa as ideias e normas ditadas por outros, muitas das vezes acabando por criar as suas próprias regras. Por tal, os textos heréticos serão aqueles que, de algum modo negam ou subvertem o dogma que pretende impor a Igreja nascente. Conhecidos pelo período de estabelecimento dos Evangelhos ortodoxos terão inclusive, como se viu, fundamentado a necessidade de criação do cânone.

Os caçadores de heresias
A notícia destes textos e das seitas gnósticas chegaram-nos pela pena dos padres da Igreja, os caçadores de heresias dos séculos II e III da nossa era: Justino o Mártir, Ireneu de Lião, Hipólito de Roma, Clemente de Alexandria, Orígenes, Tertuliano e o pagão Plotino. Todos referem os diferentes tratados de um modo parcelar e tendencioso, pois têm como objectivo confesso defender os dogmas, evitar os desvios. Embora o termo gnosticismo só tenha sido cunhado pelo século XVIII, são os caçadores de heresias quem apelida indiscriminadamente de gnósticos todos os heréticos que combatem. Consideram-nos como duplamente perigosos, seja por se auto-denominarem cristãos, seja por se assumirem como depositários de ensinamentos transmitidos, mais ou menos secretamente, pelo Salvador aos apóstolos. Recorrem tanto ao Antigo como ao Novo Testamento, daqui variando as suas denominações, e defendem-se argumentando com Marcos (a quem, também anda atribuído um segundo Evangelho oculto): Marcos, Quando ficaram sozinhos, os que estavam junto dele com os Doze o interrogaram sobre as parábolas. Dizia-lhes: A vós foi dado o mistério do Reino de Deus; aos de fora, porém, tudo acontece em parábolas, a fim de que: vendo, vejam e não percebam; e ouvindo, ouçam e não entendam; para que não se convertam e não sejam perdoados.
Apoiam-se, assim, numa tradição esotérica reportada oralmente por Jesus aos discípulos, que complementaria o ensinamento exotérico veiculado em público e registado no Novo Testamento. Daqui sucede que cada seita acabe por se colocar sob a égide de algum dos doze apóstolos, organizando-se em torno de variados evangelhos pretensamente elaborados por qualquer dos discípulos mais próximos de Cristo, ou fabricados por contemporâneos com maior entendimento e habilidade para interpretar as escrituras. Ireneu, o presbítero de Lião, acusa todos os gnósticos de mutilar as escrituras, de usar excertos e citações em proveito próprio, de deturpar os textos de modo a que provem as suas elucubrações incorrectas. Além da proximidade, da mistura acrítica de informações de proveniência vária (contaminar os textos sagrados com oráculos antigos e pregações do presente, por exemplo), incomoda-o afirmarem possuir um conhecimento superior.
As refutações dos heresiólogos de mais peso provam que as variantes das narrativas evangélicas eram conhecidas ao seu tempo, e eles próprios acabam a servir de intermediários na sua difusão pelo Ocidente, atravessando a Idade Média e o Renascimento. Expurgam os escritos, sujeitam-nos a um resumo redutor que ignora diferenças, por vezes fundamentais e antagónicas entre as várias heresias. Num levantamento sumário encontram-se perto de 40 variedades. Isto porque, ao alcançar a iluminação, cada indivíduo deverá escrever o seu próprio evangelho, original e único como a revelação que recebeu. As acusações e críticas, desta vez aos heresiólogos, foram crescendo de par com a lenta descoberta de manuscritos gnósticos ao longo dos séculos. Adquiriram um novo impulso com o aparecimento do extraordinário corpus da Biblioteca de Nag Hammadi em 1945». In Helena Barbas, Madalena, História e Mito, Ésquilo Edições, Lisboa, 2008, ISBN 978-989-8092-29-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Madalena. História e Mito. Helena Barbas. «A partir destes textos encontramos um acumular dos vários tipos de relações “pessoais” que se podem estabelecer entre Maria Madalena e as outras personagens com quem se cruza»

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1ª. tentativa de roubo do Noli me tangere, (con)fusão de Marias
 (…) Também o Discurso XX de Cirilo de Jerusalém faz esta (con)fusão. Encontra-se uma versão semelhante no ciclo de peças de York, The Wynedrawers, e estará decerto na origem das curiosas divagações do autor do nosso Flos Sanctorum de 1513: devemos crer que apareceu a sua mãe Santa Maria, embora não o achássemos escrito (...) e ainda que não o contem os evangelistas. Mas devemos crer que lhe apareceu depois da Ressurreição porque não achámos que nenhum evangelista dissesse em que lugar, nem quando lhe apareceu. Mas não queira Deus que tal desonra ele fizesse a sua mãe: mas não falariam disso os evangelistas, porque era seu ofício trazer testemunhos da ressurreição.
Nas lendas do século IX, como a do Pseudo-Rábano Mauro, não existem ainda inquietações deste tipo: vendo-se ela apenas favorecida com a primeira e mais privilegiada das suas aparições, como sendo entre todas as mulheres (com excepção da Virgem Mãe de Deus) a mais ternamente amada, a mais adorada e a mais querida, não podia fazer outra coisa do que exercer o apostolado com o qual ela tinha sido honrada. Esta rasura do Noli me tangere vai tornar-se peremptória a partir do século XVI. E a autoridade posteriormente invocada para tal é Inácio de Loiola (1491-1556) que, nos seus Exercícios Espirituais (1538), dedica um capítulo ao tema: sobre a Ressurreição de Cristo Nosso Senhor, a sua primeira Aparição, Primeiro Ponto onde diz: primeiro: Ele apareceu à Virgem Maria. Isto, embora não seja dito na escritura, está incluído no dito que Ele apareceu a tantos outros, porque a Escritura supõe que compreendamos como está escrito, estás tu também sem entendimento.
Este primeiro ponto primeiro irá preocupar a maioria dos pregadores portugueses de setecentos, não deixando, entretanto, de ser corrigido pelos pintores. A última versão nacional do Noli me tangere encontrada é a de Francisco Henriques, com a data de 1513. Um alto-relevo do círculo de João de Ruão, de 1550-1560, retábulo da Capela de Soure, Coimbra resolve o problema atribuindo ao Ressuscitado o dom da ubiquidade, e fazendo-o aparecer a Madalena e à Mãe em simultâneo.

O riso de Maria na Última Ceia e a exclusão das mulheres da eucaristia
Idêntica fortuna literária vai ter uma cena narrada nos Agrapha. Os Agrapha ou Ditos de Cristo, talvez conservados pela tradição oral, mas transcritos pelos padres da Igreja, aparecem como apêndice aos Evangelhos. Esta cena irá ser utilizada por João para excluir as mulheres da celebração eucarística. Dizem os textos grego e latino: Esqueceram-se, irmãos, quando o professor pediu pelo pão e pelo cálice, e os abençoou, dizendo: Isto é o meu corpo e o meu sangue, que ele não permitiu a estas mulheres que ficassem connosco. Marta disse: foi por causa de Maria, porque a viu sorrir. Maria disse: não me tinha rido ainda (ou mais): porque ele nos tinha dito antes. O que é fraco será salvo por meio do que é forte. O siríaco diz: não me ri na verdade, mas recordei as palavras de Nosso Senhor e fiquei contente: porque sabem que ele nos tinha dito quando nos ensinou, etc.. E ainda: falando de Maria, disse Marta que a havia visto sorrir-se. Maria respondeu: não me ri, pois Jesus anunciou na sua prédica que o fraco seria salvo pelo forte.
Para além de outras alusões de menor importância (embora retomadas por alguma literatura patrística), salienta-se apenas o insinuar de uma certa agressividade de Marta para com a superioridade de Maria, ressentimento natural por esta ter escolhido a melhor parte, num empolgamento da sequência evangélica, que irá ser atribuída a João para justificar a ausência das mulheres na Última Ceia e excluí-las da celebração da missa. A partir destes textos encontramos um acumular dos vários tipos de relações pessoais que se podem estabelecer entre Maria Madalena e as outras personagens com quem se cruza. Pelo distanciamento que se vai instalando entre Madalena e essas mesmas personagens, começa a esboçar-se um relacionamento privado de eleição com Cristo. Este estatuto de eleição ainda incipiente, que a distingue e distância dos outros apóstolos, suscita neles o ciúme ou a agressividade, inscritos nas figuras de Pedro e Judas. Também por ele se instaura o conflito entre Marta e Madalena.
Nos Evangelhos Apócrifos o estatuto de apóstola de Madalena é identificado com o de mensageira, relativamente a Maria, anunciando-lhe a paixão do filho, e a Tibério, comunicando-lhe a morte de Jesus. Caso raro nestes textos, não aparece aqui relacionada com o episódio da Ressurreição. Por sua vez, é agora o acto da unção que passa para segundo plano, embora se marque na sequência da compra do vaso dos óleos, erotizado pela referência à circuncisão e antecipando-lhe o papel de figura feminina complementar do Salvador que se evidenciará nos textos gnósticos. Todavia, aqui Madalena é ainda uma personagem do romance de Cristo, embora se esboce já a extrapolação evangélica do muito amor que vai alimentar a tradição de um relacionamento mais profundo com Jesus. Paradoxalmente, esta mais íntima ligação com a personagem de Cristo vai proporcionar-lhe, simultaneamente, uma maior autonomia». In Helena Barbas, Madalena, História e Mito, Ésquilo Edições, Lisboa, 2008, ISBN 978-989-8092-29-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Madalena. História e Mito. Helena Barbas. «Maria Madalena surge ainda numa Carta de Tibério a Pilatos como mensageira e a sua narrativa do desastre da Paixão perturba o Imperador levando-o a condenar a morte de Cristo um tão bom médico»


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Madalena interlocutora privilegiada de Jesus
 (…) Na primeira parte das Actas de Pilatos  encontram-se umas Memórias de Cristo, hipoteticamente compostas ao tempo de Pilatos, em que se elabora sobre a subida ao Calvário, a aflição dos amigos e familiares de Jesus (X), se desenvolve o episódio de José de Arimateia (XI), e se exploram as lamentações das mulheres, entre elas Madalena, sobre a sua morte. Este parece ter inspirado algumas narrativas versificadas da paixão, como o pranto da Virgem, em diálogo dramático com Maria Madalena, de mestre André Dias (1435). Encontra-se, também, uma outra versão semelhante na literatura de cordel, um texto inédito do século XVI, no Arquivo da Biblioteca de Évora de F. Vaz Guimarães, o Auto Da Muito Dolorosa Payxão de Nosso Senhor Jesus Cristo Conforme a Escreveram Os Quatro Evangelistas (1593).

E veendo esto a Magdalena,
vayse de manhaã com grande mazella,
dizer a sua mãe aquesta novella:
viinde ora veer oo muito mesella,
como levam preso vosso filho cousa muyto bella,
como se fosse huum falsso enganador.

[E vendo isto a Madalena/ vai-se de manhã com grande dor/ dar à sua mãe esta notícia/ vinde agora ver ó muito infeliz/ como levam preso vosso filho coisa muito bela/como se fosse um falso enganador.]

A par da acção e pregação públicas da lenda, encontra-se o discurso privado da emoção individual que apresenta Madalena como interlocutora e parceira privilegiada na relação com Cristo.

Cristo, um tão bom médico
Maria Madalena surge ainda numa Carta de Tibério a Pilatos como mensageira e a sua narrativa do desastre da Paixão perturba o Imperador levando-o a condenar a morte de Cristo um tão bom médico. Esta Carta, que também inspira um romance do século XX (Pazzi, Evangelho de Judas, 1989), vai aparecer transcrita na sua totalidade na versão portuguesa da Legenda Aurea, o Flos Sanctorum português de 1513, Carta de Pôncio Pilatos Ao Tibério César Sobre A Morte y Ressurreição de Cristo Carta de Publio Lentulo, da Terra de Herodes, Escreveu aos Senadores de Roma.

1ª. tentativa de roubo do Noli me tangere, (con)fusão de Marias
Mais importante será o Evangelho de Bartolomeu, em português, Os Actos de Bartolomeu incluídos nos medievos Autos dos Apóstolos, que explora a mesma temática, embora quase pise o risco da fronteira em direcção ao gnosticismo: elucubra sobre a encarnação, a descida aos Infernos de Jesus, a criação dos anjos, a queda de Lúcifer. Temas análogos se desenvolvem nas Actas de Pilatos na segunda parte. A literatura apocalíptica, abundante em extremo, sentia predilecção por todos estes pontos. Temos já feito notar repetidas vezes que a seita dos Gnósticos também se preocupava com eles com frequência. Não obstante, o nosso apócrifo não contém em geral erros dogmáticos.

É neste texto que se torna patente a inquietação da Igreja pela injustiça de que a primeira aparição de Cristo tenha sido feita a Maria Madalena e não a sua Mãe, como mandaria a piedade filial. É a primeira das inúmeras tentativas para roubar o Noli me tangere a Madalena. O processo vai ser desencadeado pelo esforço de confusão entre os nomes e as Marias: O Salvador então apareceu-lhes no carro do pai e disse a Maria: Maria Khar Mariath (Maria a mãe do Filho de Deus). Maria respondeu: Rabbouni Kathiathari Miõth (Filho de Deus Todo-Poderoso, meu Senhor e meu Filho). Segue-se um longo discurso de Jesus a Maria, durante o qual ele lhe pede que diga aos seus irmãos: Vou subir ao meu Pai e teu Pai etc. Maria diz: Se de facto não me é permitido tocar-te, pelo menos abençoa o meu corpo em que te dignaste habitar. A confusão entre Maria, Mãe de Jesus, e Madalena, é apresentada como uma típica falta de respeito pela história própria dos textos coptas. Mas vamos voltar a encontrá-la usada premeditadamente para diluir a personagem de Madalena».

In Helena Barbas, Madalena, História e Mito, Ésquilo Edições, Lisboa, 2008, ISBN 978-989-8092-29-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Madalena. História e Mito. Helena Barbas. «… no ‘Evangelho de Pedro’ a visita das santas mulheres ao sepulcro é dramatizada, de modo primário, pela insistência no seu medo aos soldados romanos e terror perante o túmulo vazio»

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Apócrifo: oculto ou falso
(…) Portugal já não andava alheio a todo este processo de influências, como o provam os trabalhos de Mário Martins, ou os escritos de frei Fortunato de S. Boaventura. Talvez devido às perseguições a que foram sujeitos, também os diversos corpora dos escritos não canónicos sofreram oscilações, tendo vindo a ser enriquecidos por descobertas tão recentes como as dos Manuscritos do Mar Morto e a Biblioteca de Nag Hammadi. Estes documentos, se por um lado permitem atestar a veracidade de alguns dos textos bíblicos, por outro têm contribuído para alargar o rol dos livros apócrifos, gnósticos, ou testemunhos de heresias várias.

Ligação entre o vaso de óleos e a circuncisão
Respeitando as classificações dos especialistas citados, será necessário considerar, para já, os textos conhecidos há mais tempo, como os Apócrifos da Infância e Natividade, onde se encontram menções parcelares à figura de Maria Madalena. Começando pelo Evangelho Árabe da Infância, nele se encontra uma curiosíssima referência que, através do vaso do óleo, liga Maria, a pecadora, à circuncisão de Jesus.
E ao chegar o tempo da circuncisão, isto é, o dia oitavo, o menino teve que se submeter a esta prescrição da Lei. A cerimónia teve lugar na mesma cova. E sucedeu que a anciã hebreia tomou a partezinha de pele circuncidada, outros dizem que foi o cordão umbilical, e introduziu-a numa redomazinha de bálsamo feito de nardo. Tinha ela um filho perfumista e entregou-lha, fazendo-o com todo o encarecimento esta recomendação: Tem sumo cuidado em não vender a ninguém esta redoma de unguento de nardo, por mais que te ofereçam por ela até trezentos dinheiros. E esta é aquela redoma que comprou Maria, a pecadora, e que derramou sobre a cabeça e os pés de Nosso Senhor Jesus Cristo, enxugando-os logo com os seus próprios cabelos.
Esta variante aumenta de modo considerável o valor simbólico do óleo de nardo, aqui enquanto perfume e, tradicionalmente, um dos aromas dedicados a Afrodite. Segundo O Livro Santo chamado Mónada ou Oitavo Livro de Moisés, fragmento de um papiro grego contendo parte de um ritual de Mitra, provavelmente de origem Alexandrina, o nardo aparece como o aroma aparentado a Afrodite. Recebe assim uma conotação algo erótica e, ao mesmo tempo, sugere-se a predestinação do acto de ungir a Cristo, temas essencialmente explorados na pintura pré-tridentina como, por exemplo, nas conversações sacras, veja-se Mantegna (1490), Neroccio de Landi (1495) ou van Leyden (1522).
Permite também estabelecer já uma primeira ligação com uma lenda búdica mais antiga,
A Conversão da Meretriz Vâsavadattâ, onde a heroína tenta seduzir o belo e santo filho de um perfumista, acabando numa dupla conversão. Por outro lado, fundamenta a ideia de Madalena como patrona dos perfumistas, ou mesmo perfumista (escola do Rabi Yehuda Ben Simon). Pode radicar ainda na própria tradição judaica que associa a questão do perfume ao episódio bíblico de Tobias a queimar o fígado do peixe como exorcismo: O odor do perfume exprime-se em hebraico e nas línguas semíticas pela raiz RWH, RWI que designa o espírito. Este aroma expulsa os maus espíritos...

O medo de Pedro e a coragem de Madalena
Comparando com os Apócrifos da Paixão e Ressurreição, naturalmente que nestes é maior a quantidade de alusões, mas pouco acrescentam aos dados canónicos. Assim, no Evangelho de Pedro a visita das santas mulheres ao sepulcro é dramatizada, de modo primário, pela insistência no seu medo aos soldados romanos e terror perante o túmulo vazio. Encontramos ecos destes receios em vários poemas laicos que, sem este referente, surpreenderiam pelo excesso encomiástico no louvor da coragem de Maria Madalena aquando da sua visita ao sepulcro. Mais ou menos implicitamente, o episódio oferece-se como oposto à cena em que, diante dos guardas, Pedro temerosamente nega conhecer a Cristo, com saldo positivo para a figura feminina.

Madalena interlocutora privilegiada de Jesus
Dentro do Ciclo de Pilatos destacam-se as Actas de Pilatos ou Evangelho de Nicodemos, pela influência que exercem a nível da iconografia cristã, mas também pelas repercussões que parecem ter nalguns textos medievais portugueses, em particular O segundo livro que fala de todo o feyto e de todalas vidas e das paixões dos apostolos. Trata-se de um manuscrito alcobacense de 1442-43, depois impresso sob o patrocínio da rainha D. Leonor com o título de Autos dos Apostollos, em Lisboa, em 1505, muito longe dos canónicos, e retranscrito por frei Fortunato de S. Boaventura em 1829. É nestes Autos que vamos encontrar a história de José de Arimateia associada ao Santo Graal».

In Helena Barbas, Madalena, História e Mito, Ésquilo Edições, Lisboa, 2008, ISBN 978-989-8092-29-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Madalena. História e Mito. Helena Barbas. «Se Madalena unge a cabeça de Jesus é mestra dele; ao derramar-lhe lágrimas/água sobre os pés reconhece-o a ele como mestre, transformando-se na discípula mais atenta, imagem que vamos encontrar reiterada nos vários evangelhos gnósticos e apócrifos»

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Fusão com Maria de Betânia
«(…) Os passos evangélicos até aqui inventariados são considerados por todos os estudiosos e apaixonados pelo assunto como o núcleo duro e ortodoxo a partir do qual se elaborou a principal versão da hagiografia/biografia de Maria Madalena. Lendo as cenas sucessivamente pode entender-se como funcionou o processo de síntese lendária, aglutinando duas unções numa ou multiplicando-as, privilegiando um evangelista por outro, confundindo-os, pegando no Simão leproso de Betânia e, talvez por homonímia, transformando-o no fariseu da Galileia. Uma série de episódios desgarrados vão ser ligados entre si pela necessidade de narrar, de preencher os vazios entre os fragmentos, de estabelecer uma unidade narrativa coerente, de criar um romance».
Além destas associações e sínteses, temos os problemas suscitados pelas mais inesperadas tresleituras ou ignorâncias resultantes do facto de se estar diante de outro universo cultural. Por exemplo, ainda hoje, para um judeu, deitar água sobre os pés de alguém é uma expressão idiomática, uma metáfora, que significa o respeito do aluno pelo professor: o discípulo prova e demonstra que tudo o que sabe aprendeu com o mestre, o que, não deixando de estar nela implícita, pode suscitar uma outra leitura da cena das lágrimas. Segundo esta perspectiva, a relação mestre/discípulo entre Madalena e Jesus pode ser interpretada de modos duplos e ambivalentes. Só alguém de estatuto superior poderia ungir a cabeça a outrem. Nesta cena reúnem-se dois gestos de respeito, unção na cabeça/pés e lágrimas/água sobre os pés, como reconhecimento de um estatuto de superioridade de um ser sobre o outro, mas são ambos atribuídos a Maria. Se Madalena unge a cabeça de Jesus é mestra dele; ao derramar-lhe lágrimas/água sobre os pés reconhece-o a ele como mestre, transformando-se na discípula mais atenta, imagem que vamos encontrar reiterada nos vários evangelhos gnósticos e apócrifos.

Madalena e os Evangelhos Apócrifos
Embora as características atribuídas a Madalena nos textos canónicos formem o núcleo duro que vai inspirar a figura popular, não bastam para justificar os pormenores que vão aparecer nas suas muito variadas representações, em escritos, pinturas e esculturas. Mesmo que a figura ficcionalizada da Madalena não cause um grande impacto na arte e literatura ocidentais até ao início das cruzadas, as metamorfoses da figura dos evangelhos inaugurou-se no Oriente durante os tempestuosos começos da Cristandade. É nos textos apócrifos, e outros rejeitados pelo cânone, que se vão encontrar elementos fundamentais para a construção da vida e figura de Maria Madalena.

Apócrifo: oculto ou falso
Etimologicamente, apócrifo significará coisa escondida, oculta. O termo é aplicado para definir os livros que se destinavam exclusivamente ao uso privado dos adeptos de uma seita ou iniciados em mistérios. Posteriormente adquire o sentido de falso ou espúrio. Porém, inicialmente e face ao Novo Testamento, como vimos, a designação apócrifo refere os escritos que, desenvolvendo temas análogos são excluídos do cânone. Os textos são rejeitados por uma excessiva proximidade temática relativamente aos oficiais, ou seja, uma semelhança de conteúdos que, do ponto de vista religioso-ideológico, poderá desencadear e fundamentar interpretações erróneas. Apesar disto, alguns deles continuam a ser utilizados pelos próprios padres da Igreja (Clemente de Alexandria, Eusébio, etc.) e algumas festas litúrgicas não têm outro fundamento escrito. Uma aceitação que vai ter a sua contraparte mais clara e evidente nas representações artísticas.
Para o nosso percurso, estes textos, contemporâneos da versão oficial, serão considerados como variantes narrativas de um mesmo episódio que, por vezes, procuram explicitar ou complementar (não permitindo, ainda, que seja ignorada a possibilidade de contaminação. Têm um interesse inegável sob uma perspectiva cultural: Se não são fontes fidedignas para a história de uma maneira, são-no de outra. Registam as imaginações, esperanças e medos dos homens que os escreveram; mostram o que era aceite pelos cristãos ignorantes dos primeiros tempos, o que lhes interessava, o que admiravam, que ideais de conduta defendiam para as suas vidas, o que pensavam ir encontrar na próxima».
Em última instância, à semelhança do que acontece com a lenda, têm por função registar a mentalidade de um tempo e espaço. São úteis e preciosos: para o amante e estudante de arte e literatura medievais revelam a fonte de parte muito considerável do seu material e a solução de muitos enigmas. Têm, de facto, exercido uma tão grande e vasta influência (totalmente desproporcionada aos seus méritos intrínsecos) que ninguém que se preocupe com a história do pensamento e arte cristãos pode correr o risco de os negligenciar. É enorme a influência dos Evangelhos Apócrifos no Ocidente, seja em termos literários como pictóricos: A Idade Média dispensou-lhes um franco acolhimento. A Legenda Aurea de Jacopo da Varagine (Varazze) e o Speculum Historiale de Vicente de Beauvais, ao transcrevê-los quase integralmente, sub ministraram abundante matéria de inspiração para os decoradores das velhas catedrais e para os pincéis de Fra Angelico ou de Giotto. À revelia das tentativas de correcção e rasura decorrentes do Concílio de Trento, continuam a inspirar os mais diversos criadores: Dante, Calderón de la Barca, Milton, Klopstock e os nossos contemporâneos Paula Rego e José Saramago».

In Helena Barbas, Madalena, História e Mito, Ésquilo Edições, Lisboa, 2008, ISBN 978-989-8092-29-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

Madalena. História e Mito. Helena Barbas. «Apareceu então uma mulher da cidade, uma pecadora. Sabendo que ele estava à mesa na casa do fariseu, trouxe um frasco de alabastro com perfume. E, ficando por detrás, aos pés dele, chorava; e com as lágrimas começou a banhar-lhe os pés, a enxugá-los com os cabelos…»

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Acoplamento das unções
«(…) Mas o episódio passa-se em casa de Simão, o leproso, um doente, sofrendo ou tendo sofrido de um mal de pele contagioso. Todo o problema da doença e do pecado terá que ter em conta as ferozes regras judaicas, tanto bíblicas quanto neotestamentárias, sobre a pureza, a purificação, o kashrut e o kosher. Apesar disso, aqui Madalena é apenas acusada de desperdício, o que se limita à ideia de riqueza já atribuível à personagem. A importância da passagem acima reside na fala de Cristo. Este dirige-se a Madalena, dando-lhe existência como pessoa / personagem. Antecipa-lhe a função de mirrófora e insere-a no grupo das mulheres que, em breve, lhe irão ministrar os ritos funerários. A esta cena segue-se a traição de Judas e a Última Ceia. Todas estas circunstâncias são confirmadas pela versão de Marcos, praticamente idêntica, e que reitera a fama futura do gesto da unção, a ter tanta fortuna quanto a própria palavra do Salvador. Só em Lucas vai ser marcada claramente a negatividade tanto do anfitrião, um fariseu, quanto da personagem, uma pecadora:
  • Lucas: Apareceu então uma mulher da cidade, uma pecadora. Sabendo que ele estava à mesa na casa do fariseu, trouxe um frasco de alabastro com perfume. / E, ficando por detrás, aos pés dele, chorava; e com as lágrimas começou a banhar-lhe os pés, a enxugá-los com os cabelos, a cobri-los de beijos e a ungi-los com perfume. (...) disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me derramaste água nos pés; ela, ao contrário, regou-me os pés com lágrimas e enxugou-os com os cabelos. Não me deste um ósculo; ela, porém, desde que eu entrei, não parou de cobrir-me os pés de beijos. Não me derramaste óleo na cabeça; ela, ao invés, ungiu-me os pés com perfume. (...) Em seguida, disse à mulher: Teus pecados estão perdoados. E logo os convivas começaram a reflectir: Quem é este que até perdoa pecados? Ele, porém disse à mulher: Tua fé te salvou; vai em paz.
Aqui, a figura feminina já não unge a cabeça de Cristo, mas os seus pés, depois do tradicional banho de lágrimas e enxugar com os cabelos, um ritual que não se apresenta como fúnebre, mas de hospitalidade. De salientar o facto de existir o gesto de derramar óleo sobre a cabeça dos convidados que pode, à primeira, ser lido como o cumprir de uma regra de etiqueta, um acto associado às boas maneiras sociais. Em qualquer dos casos, a figura feminina que unge a cabeça de Cristo nos outros episódios não é a anfitriã, é uma intrusa que vem perturbar uma reunião de amigos. Com os tempos, este comportamento vai tornar-se insólito, ou adquirir outras leituras decorrentes do uso sacramental, por cristãos, gnósticos e cátaros, que passa a ser feito do gesto da unção. Também a cena que se segue não é a da morte, como irá acontecer de novo em João:
  • João: Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi a Betânia, onde estava Lázaro, que ele ressuscitara dos mortos. Ofereceram-lhe aí um jantar; Marta servia e Lázaro era um dos que estavam à mesa com ele. Então Maria, tendo tomado uma libra de um perfume de nardo puro, muito caro, ungiu os pés de Jesus e os enxugou com os seus cabelos; e a casa inteira ficou cheia com o perfume do bálsamo. Disse então Judas Iscariotes, um de seus discípulos, o que o iria trair: Porque não se vendeu este perfume por trezentos denários para dá-los aos pobres? Ele disse isso não porque se preocupasse com os pobres, mas porque era ladrão e, tendo a bolsa comum, roubava o que aí era colocado. Disse então Jesus: Deixa-a; que ela o conserve para o dia da minha sepultura! Pois sempre tereis os pobres convosco; mas a mim nem sempre me tereis.
O acto de ungir retoma o carácter funéreo, embora o enxugar dos pés com os cabelos não patenteie qualquer característica penitencial. A cena da refeição em casa do leproso / fariseu muda-se para casa do ressuscitado.

Fusão com Maria de Betânia
É no Evangelho de João que Maria, homónima de Madalena, se funde com esta última dando origem ao estabelecimento de laços familiares com Marta e Lázaro, processo tão caro ao modo de formação das lendas. É também neste Evangelho que a crítica ao gesto de Maria, primeiro anónima e depois feita pelo anfitrião, é atribuída a Judas. Criam-se aqui outros laços particulares entre a pecadora e o traidor que mais tarde vão ser explorados pela tradição, como o noivado de Madalena com Judas, talvez inspirado pela coloração do ciúme presente na sequência.
Maria de Magdala é assim identificada com Maria de Betânia e, deste modo, entra retroactivamente em todas as outras situações narrativas, anteriores e posteriores, que tenham aquele cenário por espaço, como o jantar em casa de Simão. Por outro lado, havendo recorrência de personagens, mais ou menos secundárias, passam estas cenas, junto com os respectivos actores, para a sua biografia. Assim acontece com mais dois episódios, o da ressurreição de Lázaro, narrado por João:
  • João: Havia um doente, Lázaro de Betânia, povoado de Maria e de sua irmã Marta. Maria era aquela que ungira o Senhor com bálsamo e lhe enxugara os pés com seus cabelos. Seu irmão Lázaro se achava doente. (...) Quando Marta soube que Jesus chegara, saiu ao seu encontro; Maria, porém, continuava sentada, em casa. (...) Tendo dito isso, Marta, afastou-se e chamou sua irmã Maria, dizendo baixinho: O Senhor está aqui e te chama! Esta, ouvindo isso, ergueu-se logo e foi ao seu encontro. (...) Quando os judeus que estavam na casa com Maria, consolando-a, viram-na levantar-se rapidamente e sair acompanharam-na, julgando que fosse ao sepulcro para aí chorar.
E aquele em que Maria escolhe a melhor parte e se recusa a ajudar Marta nos afazeres domésticos, narrado por Lucas:
  • Lucas: Estando em viagem, entrou num povoado, e certa mulher chamada Marta, recebeu-o em sua casa. Sua irmã, chamada Maria, ficou sentada aos pés do Senhor, escutando-lhe as palavras. Marta estava ocupada pelo muito serviço. Parando, por fim, disse: Senhor, a ti não importa que minha irmã me deixe assim sozinha a fazer o serviço? Dize-lhe pois que me ajude. O Senhor, porém respondeu: Marta, Marta, tu te inquietas e te agitas por muitas coisas; no entanto, pouca coisa é necessária, até mesmo uma só. Maria, com efeito, escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada».
In Helena Barbas, Madalena, História e Mito, Ésquilo Edições, Lisboa, 2008, ISBN 978-989-8092-29-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Madalena. História e Mito. Helena Barbas. «Este ponto pode ainda permitir as associações posteriores da própria Maria Madalena com a estrangeira do episódio da Samaritana que entra nas tradições populares por via da balada, em Inglaterra (The Maid and the Palmer)»

Cortesia de wikipedia e jdact

Madalena e os Evangelhos Canónicos
«(…) Apenas esta cena particular, o Noli me tangere, tem uma maior coincidência testemunhal ao ser atestada pelo Evangelho de João, e a descrença dos apóstolos na sua mensagem de Ressurreição narrada em Marcos e Lucas. É o constatar dos eventos até aqui enumerados que fundamentará os ataques dos estudiosos e eclesiásticos renascentistas aos partidários da ideia de unidade de pessoa em Maria Madalena. Por tudo isto, os restantes e, curiosamente, mais famosos episódios da biografia de Maria de Magdala revelam-se como construção meramente ficcional, que muito provavelmente terá resultado de associações de ideias suscitadas pelos próprios textos. Associações que, dado a origem tardia dos próprios Evangelhos e a problemática sobre a sua instituição como cânone, seriam possivelmente fundamentáveis pela predominância de qualquer forma de tradição oral que, entretanto, se terá perdido.
À partida, temos apenas uma série de episódios fragmentários não ligados entre si por mais do que o mero desejo de unidade implícito no pacto narrativo, desejo que, nalguns casos, parece chegar ao delírio logo desde os primeiros momentos.
Cirilo, bispo de Jerusalém, identifica Maria Madalena com Maria Clopas, a irmã da Virgem e tia de Jesus, com a própria Mãe de Jesus, e depois com outras duas Marias do Novo Testamento: A minha mãe era Ana, que me criou, e que normalmente era chamada de Mariham. Eu sou Maria Madalena porque o nome da aldeia onde nasci era Magdalia. O meu nome é Maria, que pertenci a Cleofas. Eu sou Maria que pertenceu a Jacobos (Tiago) o filho de José o carpinteiro a cuja guarda me entregaram. A posteriori, tornam-se evidentes dois ou três dos aspectos que teriam permitido alguns dos relacionamentos entre a personagem de Maria Madalena e outras das figuras femininas evangélicas não nomeadas, mas cujos gestos acabaram atribuídos à primeira. Cria-se, então, um campo paradigmático em que determinadas palavras, ou elementos chave, parecem ter funcionado como forças centrípetas, atraindo, por uma lógica simbólica, através da associação de imagens ou ideias, esses gestos alheios sobre a figura nomeada.

Acoplamento das unções
Sendo uma das mirróforas, Maria Madalena pode aceitar ligar-se a todas as outras figuras relacionadas com perfumes, óleos e unções, em particular se esta associação é sancionada por um outro elemento comum, pertença do grupo em que se inclui (no caso, ser ex-possessa/doente). No que respeita à possessão é do consenso geral a associação entre os sete demónios expulsos de Maria Madalena e os sete vícios, ou sete pecados mortais. Num dos mais famosos dramas medievais, a Paixão de Jean Michel, 1490, estes chegam a ser transformados em personagens que dialogam de facto com Madalena. A situação vai repetir-se em textos de alguns autores dos séculos XVI-XVII, até portugueses.
Assim, possessão e doença, enquanto duas formas de mal, alastram também o seu sentido, englobando outras formulações com características paralelas, como a ideia de pecado, evidenciado na figura da adúltera e já pertença da protagonista do Jantar em Betânia. Esta ideia é agravada pela ligação ao perfume e ao seu mau uso. Mas, em termos bíblicos e evangélicos, possesso do demónio, tal como a palavra samaritano, são também usados como sinónimo de pagão, como se pode ver quando Jesus é insultado pelos judeus: Não dizemos com razão que és samaritano, e que estás possesso de um demónio?. Este ponto pode ainda permitir as associações posteriores da própria Maria Madalena com a estrangeira do episódio da Samaritana que entra nas tradições populares por via da balada, em Inglaterra (The Maid and the Palmer), bem como nas versões escandinavas e finlandesas. Em Portugal encontramo-la num simbolista, e num fado nosso contemporâneo. No caso do texto de Mateus a figura feminina da unção não se apresenta valorizada nem como boa, nem como má:
  • Estando Jesus em Betânia, em casa de Simão, o leproso, aproximou--se dele uma mulher trazendo um frasco de alabastro de perfume precioso, e pôs--se a derramá-lo sobre a cabeça de Jesus, enquanto ele estava à mesa. Ao verem isto, os discípulos ficaram indignados e diziam: A troco do quê esse desperdício? Pois isso poderia ser vendido bem caro e distribuído aos pobres. Mas Jesus, ao perceber essas palavras, disse-lhes: Porque aborreceis a mulher? Ela, de facto, praticou uma boa acção para comigo. Na verdade, sempre tereis os pobres convosco, mas a mim nem sempre me tereis. Derramando este perfume sobre o meu corpo, ela o fez para me sepultar. Em verdade vos digo que, onde quer que venha a ser proclamado o Evangelho em todo o mundo, também o que ela fez será contado em sua memória
In Helena Barbas, Madalena, História e Mito, Ésquilo Edições, Lisboa, 2008, ISBN 978-989-8092-29-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Madalena. História e Mito. Helena Barbas. «… Madalena aparece sistematicamente em grupo pouco se diferenciando das outras suas companheiras também nomeadas. A sua particularidade reside em ter sido curada da possessão demoníaca. (…) uma situação de pecado, pois há outros possessos que não são considerados pecadores»

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Madalena e os Evangelhos Canónicos
«(…) Nesta perspectiva, os quatro Evangelhos canónicos serão considerados como quatro enunciados de quatro narradores diferentes, sobre um mesmo herói, Jesus Cristo, onde, por vezes, se encontram reiterados episódios e personagens. Por este motivo não parece relevante estabelecer quaisquer diferenças entre os evangelhos sinópticos (Marcos, Mateus, Lucas) e o de João. A multiplicidade de narradores desencadeia igual número de pontos de vista que afectam não apenas a caracterização das personagens, mas interferem a nível da própria ordem narrativa. A cronologia das sequências varia e apresentam discrepâncias entre si. A quantidade e qualidade de informação prestada também não são idênticas. Porém, em termos literários, incongruências e discrepâncias não se anulam, pelo contrário, acumulam-se e contribuem todas para o enriquecimento de uma estória que prova estar em permanente construção.
Considerando, pois, a personagem de Maria de Magdala, verifica-se que são raras as situações em que é identificada pelo seu nome. Surge como uma das mulheres que, junto com os apóstolos, acompanhavam Cristo na sua pregação. Fazendo uma listagem:
  • Uma das curadas de espíritos malignos-doenças. É referida como uma das mulheres curadas de espíritos malignos ou doenças: Lucas (8,1-3) - Os doze o acompanhavam, assim como algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e doenças; Maria, chamada Madalena, da qual haviam saído sete demónios, Joana, mulher de Cuza, o procurador de Herodes, Susana e várias outras, que o serviam com os seus bens. 
  • Uma das mulheres no Calvário. Pertence ao grupo das Santas mulheres que, no Calvário, assistem à Paixão: Mateus (27,55-56) - Estavam ali muitas mulheres, olhando de longe. Haviam acompanhado Jesus desde a Galileia, a servi-lo. Entre elas, Maria Madalena, Maria mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu. Marcos (15,42-47) - E também estavam ali algumas mulheres, olhando de longe. Entre elas, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José, e Salomé. Elas o seguiam e serviam enquanto esteve na Galileia. E ainda muitas outras que subiram com ele para Jerusalém. João (19,25-27) - Perto da cruz de Jesus, permaneciam de pé sua mãe, a irmã de suamãe, Maria, mulher de Clopas, e Maria de Madalena. 
  • Observa onde fica o sepulcro. É uma das observadoras do acto de sepultamento do corpo de Cristo por José de Arimateia (que em Lucas se perde no anonimato): Mateus (27,57-61) - Em seguida, rolando uma grande pedra para a entrada do túmulo, retirou-se. Ora, Maria de Madalena e a outra Maria estavam ali sentadas em frente do sepulcro. Marcos (15,42-47) - Em seguida, rolou uma pedra, fechando a entrada do túmulo. Maria Madalena e Maria, mãe de Joset, observavam onde ele fora posto. 
  • Testemunha o esvaziamento do sepulcro. É também uma das primeiras testemunhas do esvaziamento do sepulcro e logo, da Ressurreição de Cristo. Em Marcos e Lucas, com a descrença dos restantes discípulos perante a boa nova; em João entra em diálogo com Cristo que ela pensa ser o jardineiro/hortelão, reconhecendo-o por fim, e sendo proibida de lhe tocar, o Noli me tangere: Mateus (28,1-10) - Após o sábado, ao raiar o primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria vieram ver o sepulcro. E eis que houve um grande terramoto: pois o Anjo do Senhor, descendo do céu e aproximando-se, removeu a pedra e sentou-se sobre ela. (...) Mas o Anjo dirigindo-se às mulheres disse-lhes: Não temais! Sei que estais procurando Jesus, o crucificado. Ele não está aqui, pois ressuscitou conforme havia dito. Vinde ver o lugar onde ele jazia. Ide já contar aos discípulos que ele ressuscitou dos mortos, e que ele vos precede na Galileia. Ali o vereis. Vede bem, eu vo-lo disse! Elas, partindo depressa do túmulo, com medo e grande alegria, correram a anunciá-lo aos seus discípulos. / E eis que Jesus veio ao seu encontro e lhes disse:/ Alegrai-vos. Elas, aproximando-se, abraçaram-lhe os pés, prostrando-se diante dele. Então Jesus disse: Não temais! Ide anunciar a meus irmãos que se dirijam para a Galileia; lá me verão; 
  • […] Noli me tangere - testemunha a Ressurreição. João (20,11-18) - Maria estava junto ao sepulcro, de fora, chorando. Enquanto chorava, inclinou-se para o interior do sepulcro e viu dois anjos, vestidos de branco, sentados no lugar onde o corpo de Jesus fora colocado, um à cabeceira e outro aos pés. Disseram-lhe então: Mulher, porque choras?Ela lhes diz: Levaram o meu Senhor e não sei onde o colocaram! Dizendo isso, voltou-se, e viu Jesus de pé. Mas não sabia que era Jesus. Jesus lhe diz: Mulher porque choras? A quem procuras? Pensando ser ele o jardineiro, ela lhe diz: Senhor, se foste tu que o levaste, diz-me onde o puseste e eu o irei buscar! Diz-lhe Jesus: Maria! Voltando-se, ela lhe diz em hebraico: Rabun ni! que quer dizer Mestre. Jesus lhe diz: Não me retenhas, pois ainda não subi ao Pai. Vai, porém, a meus irmãos e diz-lhes: Subo a meu Pai e vosso Pai; a meu Deus e vosso Deus. Maria de Madalena foi anunciar aos discípulos: Vi o Senhor, e as coisas que ele disse.
Resumindo, Madalena aparece sistematicamente em grupo pouco se diferenciando das outras suas companheiras também nomeadas. A sua particularidade reside em ter sido curada da possessão demoníaca. À partida, mesmo em termos evangélicos, isto não representará necessariamente uma situação de pecado, pois há outros possessos que não são considerados pecadores. São ferozes e ainda aparentemente neutros. Depois da diferença em João, Madalena é de novo incluída em vários conjuntos. O das milagradas, as mulheres curadas de doenças, o que lhe vai permitir venha a ser associada com todas as outras figuras femininas dos Evangelhos nas mesmas condições, recorde-se a mulher do fluxo, que a tradição tanto vai identificar com ela, como com a sua pseudo-irmã Marta. O das mulheres que serviam a Cristo com os seus bens, justificando a tradição da sua provável riqueza e abastança. Sempre em grupo, continua a pertencer às mulheres que assistem à Paixão. À distância, observa o sepultamento de Cristo e fixa o local onde o corpo é depositado. No dia seguinte, dirige-se ao túmulo sem intenções explicitadas, ou com o objectivo de ungir o corpo de Jesus, é uma das mirróforas. Confirma a ausência de cadáver e testemunha a Ressurreição, sendo uma das primeiras transmissoras da boa nova em que os apóstolos não crêem. Só em Marcos e João se apresenta individualizada pelo diálogo que estabelece com Cristo ressuscitado, que lhe aparece antes de visitar sua Mãe». In Helena Barbas, Madalena, História e Mito, Ésquilo Edições, Lisboa, 2008, ISBN 978-989-8092-29-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT