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sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Justine. Quarteto de Alexandria. Lawrence Durrell. «Não podia mentir, eu nunca minto. Toma a letra, rasga-a: mas não voltes a jogar com ele. Não te podes ligar com um homem da sua espécie»

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«(…) Mais tarde quando quase enlouqueci em tormentos e me encontrei pesadamente endividado para com Capodistria, passei a considerá-lo um companheiro menos agradável; e certa noite, Melissa, meio embriagada, encontrou-se sentada em frente dele, diante do fogo, num tamborete baixo, tendo entre os dedos longos e pensativos a letra que eu tinha assinado, com a simples palavra pago escrita transversalmente, a tinta verde, numa caligrafia agressiva..., são estas recordações que fazem sofrer. Melissa explicou: Justine poderia rer pago a tua dívida e isso não lhe causaria grande transtorno. Mas já basta que tenha o teu desejo: não quero que tenha, também, a tua gratidão. E depois, embora te não importes muito comigo, queria fazer alguma coisa por ti, e o sacrifício, afinal, não foi demasiado grande. Pensava que não ficarias muito triste por me deitar com ele. Não fizeste tu o mesmo por mim, quero dizer, não pediste dinheiro a Justine para pagar a clínica, as radiografias e tudo o mais? Mentiste-me a esse respeito mas descobri a verdade. Não podia mentir, eu nunca minto. Toma a letra, rasga-a: mas não voltes a jogar com ele. Não te podes ligar com um homem da sua espécie. E voltando a cara fez o simulacro de cuspir, como fazem os árabes. Da vida pública de Nessim, essas gigantescas e enfadonhas recepções, de início frequentadas apenas por homens de negócios, mas que mais tarde deram pretexto a tenebrosas conjuras políticas, não quero ocupar-me.
Atravessando furtivamente o vestíbulo a caminho do estúdio, detinha-me para examinar o grande escudo de couro sobre a chaminé, onde se encontrava também um plano da mesa, para ver quem tinha sido colocado à direita e à esquerda de Justine. Durante algum tempo tentaram, gentilmente, fazer-me participar destas reuniões, mas eu protestava cansaço e sentia-me feliz por poder dispor do estádio e da imensa biblioteca. Mais tarde encontrávamo-nos como conspiradores e Justine lançava fora as máscaras de alegria, tédio e petulância que arvorava em sociedade. Desembaraçava-se dos sapatos e jogávamos cartas à luz da candeia. Quando ia deitar-se lançava um olhar ao espelho e dizia para a sua imagem: não passas de uma judia histérica e pretensiosa!
O estabelecimento de Mnemjian, barbeiro, natural da Babilónia, ficava na esquina da Rua Fouad com a Rua Nebi Daniel, e era lá que todas as manhãs, eu e Pombal nos encontrávamos reflectidos em frente dos espelhos vizinhos. Erguiam-nos ao mesmo tempo nas cadeiras e cobriam-nos com duas mortalhas brancas, como faraós mortos, para logo reaparecermos nos espelhos, como dois insectos numa montra. Era um garoto negro quem nos prendia as toalhas, enquanto o barbeiro ia misturando a espuma oleosa e perfumada numa grande tigela vitoriana, antes de aplicá-la em pequenos toques hábeis nas nossas faces. Depois de dar a primeira camada, deixava-nos de novo nas mãos do garoto para ir afiar a navalha numa enorme língua de couro que pendia, ao fundo da loja, no meio das fitas de papel mata-moscas». In Lawrence Durrell, Quarteto de Alexandria, 1957, Justine, tradução de Daniel Gonçalves, 1960/1961, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-205-110-1.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Justine. Quarteto de Alexandria. Lawrence Durrell. «… cada casal era inferior ao precedente e Sofia, a sabedoria, era a fêmea do trigésimo casal e a menos perfeita de todas). Tudo o que é em excesso é pecado»

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«(…) O seu centro espiritual era a paisagem esquecida de Soma, onde o corpo atormentado do jovem soldado foi um dia depositado na sua divindade fictícia; a sua sede temporal era o Clube dos Correctores, onde, autênticos gnósticos (gnose; o corpo astral dos que morrem prematuramente, creêm poder realizar actos corporais quando, com efeito, não possuem corpo físico e agem em pensamento, Paracelso), os correctores vinham, nas suas roupas de algodão, beber café, fumar charutos rançosos e contemplar Capodistria, como os vagabundos dos cais contemplam um pescador ou um pintor. O primeiro simboliza, para mim, as grandes conquistas do homem nos domínios da matéria, do espaço e do tempo, que devem inevitavelmente abandonar o seu conhecimento, penosamente adquirido, ao conquistador no seu túmulo; o outro não era um símbolo mas o limbo vivo do livre-arbítrio, onde a minha bem-amada Justine errava em busca (no meio de uma terrível solidão de espírito) do lampejo que lhe revelaria uma nova perspectiva do seu ser. Nela, como verdadeira alexandrina, a licença era uma forma estranha mas real de abnegação, uma máscara da liberdade; e se eu via nela um testemunho da cidade não pensava em Alexandria, nem em Plotino, mas na filha infeliz de Valentino que caiu, não como Lúcifer, por se ter rebelado contra Deus, mas pelo excessivo desejo que tinha de se unir a Ele (a doutrina gnóstica considera a criação um erro... Imagina um Deus primordial que engendrou manifestações de si próprio sob a forma de casais macho-fêmea; cada casal era inferior ao precedente e Sofia, a sabedoria, era a fêmea do trigésimo casal e a menos perfeita de todas). Tudo o que é em excesso é pecado.
Separada da divina harmonia, caiu, diz o filósofo trágico, e tornou-se a manifestação da matéria; e todo o universo da sua cidade e do mundo nasceu da sua agonia e do seu remorso. O gérmen trágico que engendrou os seus pensamentos era o gérmen de um gnosticismo pessimista. Sei que esta identificação era real porque, muito mais tarde, quando com tanta hesitação e maus presságios ela me permitiu entrar para o pequeno círculo que todos os meses se reunia em torno de Balthazar, eram sempre as suas referências ao gnosticismo as que mais a interessavam. Lembro-me da noite em que com tanto fervor e humildade ela lhe perguntou se tinha interpretado correctamente o seu pensamento: Quer dizer que Deus nunca nos criou nem tão-pouco pensou fazê-lo, mas que somos obra de uma divindade inferior, um demiurgo, que se supunha Deus? Ah!, como isso parece provável; e é esse hubris presunçoso que foi transmitido aos nossos filhos. E de uma outra vez, íamos lado a lado, ela colocou-se, repentinamente, diante de mim, e segurando-me as abas do casaco, olhou-me bem nos olhos e disse-me: e tu, em que crês? Nunca dizes nada. Basta-te rir, uma vez por outra. Não sabia á que lhe havia de responder; para mim todas as ideias se equivalem; o facto de existirem, apenas prova que alguém as criou. Que me interessa que sejam objectivamente justas ou falsas? De qualquer modo, não podem ficar indefinidamente no mesmo estado». In Lawrence Durrell, Quarteto de Alexandria, 1957, Justine, tradução de Daniel Gonçalves, 1960/1961, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-205-110-1.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Justine. Quarteto de Alexandria. Lawrence Durrell. «Entretanto, não existe mulher, por mais humilde velha ou usada, que não lhe mereça uma demonstração exterior de consideração…»

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«(…) A vozinha cariciosa envolve todas as frases com um sentido equívoco, e o seu discurso não perde nada com os pequenos e lancinantes suspiros com que ele o sublinha. Durante uns minutos reina o silêncio. Vejo no espelho o alto da cabeça de Mnemjian, essa crista obscena de cabelos negros que ele arranjou em caracol ao lado das fontes, sem dúvida com o fim de distrair as atenções da marreca. Enquanto manobra a navalha, os olhos perdem o brilho e o rosto torna-se tão inexpressivo como um fundo de garrafa. Os dedos trabalham as nossas faces com o mesmo desinteresse frio com que trabalham as faces exigentes (e, sim!, felizes) dos mortos. Desta vez, diz Mnemjian, há-de ficar satisfeito. Ela é nova, asseada e não custa caro. Verá por si próprio, é uma perdigota, um raio de mel com todo o mel intacto dentro dela, uma pombinha. Neste momento tem falta de dinheiro. Saiu há pouco do manicómio de Helwan, onde o marido tentou interná-la. Arranjarei para que ela esteja no Rose-Marie na última mesa do passeio. Vá vê-la quando for uma hora; se a quiser, entregue-lhe o cartão que eu lhe vou dar. Mas lembre-se de que é a mim que deve pagar. De homem para homem, é a única exigência que eu faço. Durante um momento não diz mais nada. Pombal continua a observar a sua própria imagem no espelho, enquanto a curiosidade natural que o revolve se debate com a imensa apatia do Estio. Mais tarde precipitar-se-á, sem dúvida, no apartamento, levando consigo qualquer pobre criatura esgotada e bravia, cujo sorriso idiota nenhum outro sentimento despertará nele além da piedade. Não posso negar a bondade do meu amigo, pois, na verdade, dá-se a trabalhos para conseguir empregar essas raparigas; com efeito, a maior parte dos consulados contam entre o seu pessoal antigas desgraçadas que se esforçam desesperadamente por parecer dignas, e é à assiduidade de Georges junto dos seus colegas de carreira que elas devem os seus empregos. Entretanto, não existe mulher, por mais humilde velha ou usada, que não lhe mereça uma demonstração exterior de consideração, uma dessas pequenas galantarias, uma dessas frases que eu associo com o temperamento gaulês, esse encanto francês, cerebral e falso que tão facilmente se evapora para se transformar em orgulho e em indolência mental, tal como os pensamentos franceses que tão rapidamente se perdem em moldes de areia, o esprit original cristalizando imediatamente em conceitos de onde se encontra ausente toda a sensibilidade. O omnipresente sexo que flutua sobre os seus pensamentos e as suas acções tem, contudo, um ar de desapego que o torna qualitativamente diferente das acções e dos pensamentos de um Capodistria, por exemplo, a quem muitas vezes encontramos na loja de Mnemjian à hora da barba. Capodistria tem uma maneira involuntária de feminilizar tudo aquilo de que se aproxima; sob o seu olhar, as cadeiras tornam-se dolorosamente conscientes da nudez das suas pernas. Penetra nas coisas. Sentado à mesa com ele, vi uma melancia fremir sob a carícia do seu olhar e senti vibrar as grainhas do seu ventre! As mulheres sentem-se como a ave diante da víbora em frente daquela cara estreita e chata, daquela língua que se move sem cessar sobre os lábios sumidos. Penso uma vez mais em Melissa: hortus conclusus, soror mea sponsor...
Regard dérisoire, diz Justine. Como se explica que você seja um de nós e entretanto..., esteja tão longe? Ela arranja os seus belos cabelos negros diante do espelho, com um cigarro a arder entre os lábios. Você é, evidentemente, um refugiado mental, visto que é irlandês, mas tem ainda que partilhar a nossa angoisse. De facto, o que ela procura surpreender é essa qualidade distintiva que procede não de nós mas da paisagem, os aromas metálicos que impregnam a atmosfera debilitante do lago Mareotis. Enquanto a escuto, penso nos fundadores da cidade, no Deus-Soldado no seu caixão de vidro, no corpo de comovente juventude na sua armadura de prata, descendo o rio até ao local onde se erguia o túmulo. Ou nessa grande cabeça quadrada, de negro, de onde emana um conceito de Deus, concebido no espírito da pura especulação intelectual: Plotino. É como se as preocupações desta paisagem convergissem num ponto fora do alcance da maior parte dos seus habitantes, numa região onde a carne, posta a nu pelo abuso das suas reticências finais, devesse submeter-se a uma preocupação infinitamente mais compreensiva; ou extinguir-se nessa espécie de esgotamento que as obras do Mouseion representam, os cândidos jogos dos hermafroditas nos jardins verdejantes da Arte e da Ciência. Poesia, desajeitada tentativa de inseminação artificial das Musas; metáfora de uma estupidez flagrante, da cabeleira de Berenice cintilando no céu nocturno por sobre a face adormecida de Melissa. Ah!, disse Justine uma certa vez, se ao menos houvesse algo de livre, algo de polinésico nesta devassidão em que vivemos. Ou mesmo de mediterrânico, devia ela ter acrescentado, porque as implicações de cada beijo seriam diferentes em Itália e em Espanha; aqui, os nossos corpos estavam feridos pelos ventos ásperos e esterilizantes que sopravam dos desertos africanos, e éramos obrigados a substituir o amor por uma ternura cerebral mais cruel, que, longe de repelir a solidão, só servia para exacerbá-la ainda mais. Até a própria cidade tinha dois centros de gravidade: o pólo real e o pólo magnético da sua personalidade; e, entre os dois, o temperamento dos seus habitantes dissolvia-se e esgotava-se em vãs descargas eléctricas». In Lawrence Durrell, Quarteto de Alexandria, 1957, Justine, tradução de Daniel Gonçalves, 1960/1961, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-205-110-1.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

domingo, 29 de janeiro de 2017

Justine. Quarteto de Alexandria. Lawrence Durrell. «O seu velho comércio abrange os dois mundos, e algumas das suas melhores observações começam por esta frase: como me dizia Fulano ao dar o último suspiro»

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«(…) Mais tarde, quando quase enlouqueci em tormentos e me encontrei pesadamente endividado para com Capodistria, passei a considerá-lo um companheiro menos agradável; e, certa noite, Melissa, meio embriagada, encontrou-se sentada em frente dele, diante do fogo, num tamborete baixo, tendo entre os dedos longos e pensativos a letra que eu tinha assinado, com a simples palavra pago escrita transversalmente, a tinta verde, numa caligrafia agressiva... São estas recordações que fazem sofrer. Melissa explicou: Justine poderia ter pago a tua dívida e isso não lhe causaria grande transtorno. Mas já basta que tenha o teu desejo: não quero que tenha, também, a tua gratidão. E depois, embora te não importes muito comigo, queria fazer alguma coisa por ti, e o sacrifício, afinal, não foi demasiado grande. Pensava que não ficarias muito triste por eu me deitar com ele. Não fizeste tu o mesmo por mim, quero dizer, não pediste dinheiro a Justine para pagar a clínica, as radiografias e tudo o mais? Mentiste-me a esse respeito mas eu descobri a verdade. Eu não podia mentir, eu nunca minto. Toma a letra, rasga-a: mas não voltes a jogar com ele. Tu não te podes ligar com um homem da sua espécie. E voltando a cara fez o simulacro de cuspir, como fazem os Árabes.
Da vida pública de Nessim, essas gigantescas e enfadonhas recepções, de início frequentadas apenas por homens de negócios, mas que mais tarde deram pretexto a tenebrosas conjuras políticas, não quero ocupar-me. Atravessando furtivamente o vestíbulo a caminho do estúdio, detinha-me para examinar o grande escudo de couro sobre a chaminé, onde se encontrava também um plano da mesa, para ver quem tinha sido colocado à direita e à esquerda de Justine. Durante algum tempo tentaram, gentilmente, fazer-me participar destas reuniões, mas eu pretextava cansaço e sentia-me feliz por poder dispor do estúdio e da imensa biblioteca. Mais tarde encontrávamo-nos como conspiradores e Justine lançava fora as máscaras de alegria, tédio e petulância que arvorava em sociedade. Desembaraçava-se dos sapatos e jogávamos cartas à luz da candeia. Quando ia deitar-se lançava um olhar ao espelho e dizia para a sua imagem: não passas de uma judia histérica e pretensiosa! O estabelecimento de Mnemjian, barbeiro, natural da Babilónia, ficava na esquina da Rua Fouad com a Rua Nebi Daniel, e era lá que todas as manhãs eu e Pombal nos encontrávamos reflectidos em frente dos espelhos vizinhos. Erguiam-nos ao mesmo tempo nas cadeiras e cobriam-nos com duas mortalhas brancas, como faraós mortos, para logo reaparecermos nos espelhos, como dois insectos numa montra. Era um garoto negro quem nos prendia as toalhas, enquanto o barbeiro ia misturando a espuma oleosa e perfumada numa grande tigela vitoriana, antes de aplicá-la em pequenos toques hábeis nas nossas faces. Depois de dar a primeira camada, deixava-nos de novo nas mãos do garoto para ir afiar a navalha numa enorme língua de couro que pendia, ao fundo da loja, no meio das fitas de papel mata-moscas. O pequeno Mnemjian é um anão cujo olhar violeta não perdeu ainda a candura infantil. E, contudo, ele é o arquivo da cidade. Se quisermos conhecer os ascendentes ou as posses de qualquer pessoa, não há quem melhor nos informe; conta-nos todos os pormenores enquanto afia a navalha, experimentando o fio nos pêlos hirsutos do antebraço. E o que ele não souber depressa o descobre. E sabe tanto sobre os mortos como sobre os vivos, posto que o hospital grego o utiliza para barbear e vestir as suas vítimas, antes de as abandonar aos gatos-pingados; é uma tarefa que ele desempenha com o zelo e o prazer de todos os da sua raça. O seu velho comércio abrange os dois mundos, e algumas das suas melhores observações começam por esta frase: como me dizia Fulano ao dar o último suspiro. Parece que tem muita sorte com mulheres e consta que arredondou uma pequena fortuna à custa das suas admiradoras. Mas há, também, as velhotas egípcias, mulheres e viúvas dos paxás, que ele visita regularmente para lhes compor o penteado. Segundo ele, essas senhoras já experimentaram tudo e, dando uma palmada na medonha giba que lhe carrega as costas, acrescenta orgulhosamente: isto excita-as. Entre outras coisas possui uma cigarreira de ouro, oferta de uma sua admiradora, onde guarda uma colecção de mortalhas soltas. O seu grego é deficiente, mas enriquecido pôr inesperadas imagens, e Pombal não consente que ele lhe fale em francês, embora domine esta língua muito melhor. Está, presentemente, alcovitando para o meu amigo, e sempre me admiram os súbitos assomos de poesia que ele põe na descrição das suas protégées. Debruçado sobre a face lunar de Pombal, dirá, por exemplo, enquanto a navalha começa a ranger sob a camada de espuma: tenho uma coisa para si, uma coisa muito especial. Pombal surpreende o meu olhar no espelho e volta rapidamente a cabeça com receio de que desatemos ambos a rir às gargalhadas. Emite um grunhido prudente. Mnemjian eleva-se ligeiramente na ponta dos pés e aproxima-se mais da orelha de Pombal, entortando os olhos». In Lawrence Durrell, Quarteto de Alexandria, 1957, Justine, tradução de Daniel Gonçalves, 1960/1961, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-205-110-1.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Clea. O Quarteto de Alexandria. Lawrence Durrell. «Creio que Balthazar lhe fez a descrição de todos os nossos infortúnios. Espero que não exigirá um arrependimento excessivo por parte daqueles que só lhe querem bem»

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«(…) Oh, claro. É agora uma personagem importante das Forças Francesas Livres. Tem conferências particulares com sir Mountolive. Este também lá ficou. Verá, Darley, vai encontrar muita gente do seu tempo. Mnemjian parecia satisfeitíssimo por me ter causado tantas surpresas. Foi então que me disse qualquer coisa que me provocou um sobressalto violento. Parei e obriguei-o a repetir o que dissera, tão incrível me parecia. Venho de fazer uma visita a Capodistria. Olhei-o por um momento, incrédulo. Capodistria! Mas ele morreu!, exclamei. O barbeiro deixou-se cair para trás como quem se recosta numa poltrona de molas e ficou a oscilar sobre as pernas curtas. Desta vez o gracejo era de primeira ordem e demorou-se a saboreá-lo durante um extenso minuto. Por fim, soltando um suspiro deliciado, retirou do bolso um postal e apresentou-mo: nesse caso, quem é este sujeito? Era uma fotografia pouco nítida, precipitadamente revelada por um fotógrafo ambulante. Viam-se dois homens caminhando à beira-mar, mas um deles era Mnemjian. O outro... Observando-o com atenção, não havia dúvida possível... Capodistria vestia calças do mais puro estilo eduardino e calçava sapatos pretos pontiagudos. Cobria-o um sobretudo académico, com gola e punhos de peles. Finalmente, coroava-o um chapeau melon que o fazia parecer-se irresistivelmente com uma espécie de ratazana de desenhos animados. Tinha deixado crescer um bigode à Rilke, que caía ligeiramente sobre os cantos da boca. Cravada entre os dentes via-se ainda uma comprida boquilha. Era incontestavelmente Capodistria. Mas, então..., comecei, mas o pequeno Mnemjian fechou um olho levando um dedo discreto aos lábios. Há sempre mistérios, murmurou.
E, como para guardá-los melhor, engoliu em seco como um enorme sapo e olhou-me de frente com um ar de maldosa satisfação. Talvez me tivesse esclarecido se nesse momento o apito do vapor de Esmirna não começasse a ouvir-se para lá da aldeia. Tomado de pânico, apressou vivamente o passo. Depressa. Ah! Já me esquecia de entregar-lhe a carta de Hosnani. O sobrescrito estava dobrado em dois no fundo do bolso interior do casaco, e acabou por retirá-lo, todo amarrotado, enquanto acelerava o andamento, quase correndo já. Bem, até à vista, disse ele. Está tudo arranjado. Até breve. Apertei-lhe a mão e fiquei a vê-lo precipitar-se para o cais, surpreendido e indeciso. Depois retomei o caminho do olival e sentei-me numa pedra para ler a carta de Nessim. Era breve e continha em pormenor as disposições que tinha tomado para a nossa viagem. Um barco viria buscar-nos à ilha. Fixava-me uma data aproximada e pedia-me para estar preparado. Tudo isso exposto de maneira clara e precisa. Depois Nessim acrescentava em pós-escrito, na sua letra generosa: será agradável tornar a vê-lo sem qualquer espécie de reservas. Creio que Balthazar lhe fez a descrição de todos os nossos infortúnios. Espero que não exigirá um arrependimento excessivo por parte daqueles que só lhe querem bem. Que o passado seja para todos nós como um livro definitivamente fechado. Foi assim que as coisas se decidiram.
Durante os últimos dias a ilha presenteou-nos generosamente com o seu melhor tempo e com essas austeras simplicidades das Cíclades, que nos foram direitas ao coração como abraços calorosos, e eu sabia que ia sentir saudades quando os miasmas do Egipto se tivessem cerrado sobre a minha cabeça. Na noite da partida toda a aldeia saiu para nos oferecer o prometido banquete: cordeiro no espero e esse dourado rezina, um vinho delicioso. As mesas e as cadeiras tinham sido arrumadas em todo o comprimento da rua principal, e cada família trazia a sua própria contribuição para o festim. Até os dois orgulhosos dignitários, o presidente da câmara e o padre, lá estavam, ocupando cada um a sua cabeceira na extensa mesa. Fazia frio, ali sentados ao ar livre como se estivéssemos em pleno Verão; mas a Lua, erguendo-se por sobre o mar, veio dar a sua contribuição para o brilhantismo da festa, realçando a brancura dos guardanapos e polindo os copos de vinho. As faces buriladas dos velhos, aquecidas pelas libações, avermelhavam-se como caldeirões de cobre. sorrisos antigos, saudações arcaicas, gracejos tradicionais, cortesias do mundo antigo que já desaparece e se afasta de nós. Velhos capitães das flotilhas de pesca das esponjas, que despejavam todos os ganhos nas canecas de vinho de esmalte azul..., os seus abraços cordiais cheiravam a batata no forno e as guias dos grandes bigodes amarelados pelo tabaco subiam para as orelhas». In Lawrence Durrell, O Quarteto de Alexandria, Clea, 1960, Publicações dom Quixote, tradução de Daniel Gonçalves, 1960/1961, 2012, ISBN 978-972-205-110-1.

Cortesia PdQuixote/JDACT

Mountolive. O Quarteto de Alexandria. Lawrence Durrell. «Será que então eles existiam? Mas aqui, na posição vantajosa de alguém integrado na tela que a sua própria imaginação pintou, o exótico pareceu-lhe subitamente normal»

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«(…) Então gostou?, crocitou o inválido num tom onde flutuava (como uma mancha de óleo à superfície da água) o orgulho e a suspeita. Um criado negro, gigantesco, rolou uma mesa onde havia copos e uma garrafa de uísque, estranha anomalia: bebiam cocktails pôr do Sol, como quaisquer coloniais, nesta velha casa inundada de tapetes magníficos, em cujas paredes se ostentavam as zagaias tomadas em Omdurman e em cujas salas se viam estranhos móveis Segundo Império fabricados na Turquia. Sente-se, disse o velho, e Mountolive, sorrindo-lhe, sentou-se, notando que mesmo aqui, nas salas de visitas, havia livros e jornais por toda a parte, símbolos da fome insaciável de Leila pelas coisas do saber. Normalmente ela guardava os seus livros e jornais no harém, mas acabavam sempre por inundar a casa. Seu marido não participava desse mundo. Tanto quanto possível ela evitava torná-lo consciente desse facto, temendo o seu ciúme que crescia à medida que a doença se agravava. Os rapazes lavavam-se ali perto, Mountolive ouvia sons de águas correntes. Dentro de alguns minutos pediria licença e retirar-se-ia a fim de vestir um fato branco para jantar. Bebia e falava com o inválido na sua voz baixa e melodiosa. Parecia-lhe uma coisa terrível e imprópria ser o amante da mulher; o facto de Leila ser capaz de dissimular tão facilmente cortava-lhe a respiração. (A sua voz fria e doce, etc., etc.; tentaria não se deixar absorver tão completamente por ela. Estremeceu e sorveu a bebida). Tinha sido difícil encontrar o caminho do solar para onde se dirigia com uma carta de apresentação; a estrada para carros não ia além do rio e era necessário utilizar daí para diante cavalos para alcançar a casa erigida no meio dos canais. Teve de esperar quase uma hora antes de um transeunte amável lhe oferecer um cavalo que o levou ao seu destino. Nesse dia não estava em casa ninguém além do inválido. Mountolive notou divertido que ao ler a carta de apresentação, redigida no estilo floreado dos árabes, o inválido murmurava as tradicionais respostas que a delicadeza impõe aos cumprimentos que o autor da missiva lhe endereçava, tal como se aquele se encontrasse presente. Depois, levantando a cabeça, considerou o jovem inglês com simpatia. Ficará connosco; é a única maneira de melhorar o seu conhecimento da língua árabe. Dois meses, se assim desejar. Os meus filhos falam inglês e terão muito prazer em conversar consigo; minha mulher também. Para eles será uma alegria ver por aqui uma cara nova. E o meu querido Nessim está no seu último ano de Oxford.
Orgulho e prazer brilharam fugazmente nos olhos afundados e depois foi novamente o habitual olhar de dor e tristeza. A doença suscita o desprezo. Um doente não ignora esse facto. Mountolive aceitou, e renunciando ao gozo de uma licença na pátria obteve permissão para ficar dois meses em casa deste cavalheiro copta. Era um abandono de tudo o que lhe fora habitual este ingresso numa existência familiar fundada e nutrida na pompa inconsciente de um feudalismo que se ia filiar na Idade Media ou mais longe ainda. O mundo de Burron, Beckford, Ladv Hester... Será que então eles existiam? Mas aqui, na posição vantajosa de alguém integrado na tela que a sua própria imaginação pintou, o exótico pareceu-lhe subitamente normal. A sua poesia vinha do facto de essa vida ser vivida naturalmente. Mountolive, que já dominava a língua, sentiu-se contudo pela primeira vez penetrar num país estrangeiro com os seus estranhos costumes. Sentiu o que se sente em casos análogos, nomeadamente o vertiginoso prazer de perder uma personalidade antiga para ganhar outra nova. Tinha por assim dizer a impressão de que os contornos da sua pessoa se dissolviam. Estará nisso o verdadeiro sentido da educação? Tinha começado a transplantar um enorme e intacto mundo da sua imaginação para o solo da sua nova vida. A família Hosnani era variada em espécies. O gracioso Nessim e sua mãe pertenciam ambos ao mesmo mundo intenso da inteligência e da sensibilidade. Ele, o filho mais velho, estava sempre pronto para servir a mãe, fosse para lhe abrir uma porta ou levantar um lenço caído. Falava perfeitamente inglês e francês, era impecável de maneiras e o seu corpo era elegante e potente. Em frente destes, iluminados pela luz das velas, viam-se os outros dois: o inválido nas suas cobertas e o filho mais novo, grosseiro e abrutalhado como um mastim e com um ar indefinível de estar sempre pronto para lutar. De compleição pesada e feio, era contudo gentil; mas pelo seu olhar de adoração percebia-se perfeitamente que amava o pai acima de tudo. A simplicidade brilhava-lhe nos olhos, era serviçal, e quando o trabalho nas terras o não afastava de casa estava sempre pronto para dispensar os serviços do criado silencioso que esperava por detrás da cadeira de rodas, servindo ele próprio o pai com um orgulho radiante, feliz mesmo, quando o carregava nos braços, com uma espécie de avidez ciumenta, para conduzi-lo aos lavabos. Reservava para sua mãe o mesmo olhar de orgulho e maldade infantil que se descobria nos olhos do enfermo. Contudo, embora os irmãos estivessem assim divididos como ramos de oliveira, pertenciam ao mesmo tronco e amavam-se profundamente, pois na verdade um era complemento do outro, sendo um forte onde o outro era fraco. Nessim detestava o derramamento de sangue, o trabalho manual e as maneiras rudes; Narouz sentia prazer em tudo isso. E Leila? Mountolive considerava-a um belo enigma, quando teria podido, se tivesse mais experiência, reconhecer na sua naturalidade uma perfeita simplicidade de espírito e na sua natureza extravagante um temperamento frustrado no seu desenvolvimento normal e que tinha aceitado de boa mente uma solução de compromisso». In Lawrence Durrell, O Quarteto de Alexandria, Mountolive, 1958, Publicações dom Quixote, tradução de Daniel Gonçalves, 1960/1961, 2012, ISBN 978-972-205-110-1.

Cortesia PdQuixote/JDACT

Balthazar. Quarteto de Alexandria. Lawrence Durrell. «… a verdade é o que mais se contradiz com o decorrer do tempo. Quando se colhe uma flor, a haste volta a endireitar-se. Mas isso não é verdade com as afecções do coração…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Mas espere um pouco..., antes de ir... Vi-o desaparecer numa cabina e reaparecer pouco depois para atirar ao mar qualquer coisa que veio cair a meu lado com um ruído doce: é uma rosa de Alexandria, disse, da cidade que oferece tudo aos seus amantes menos e felicidade. Soltou uma risadinha irónica: ofereça-a à criança. Adeus, Balthazar. Escreva-me..., se tiver ânimo para tanto! Aprisionado como uma aranha entre a teia de luzes, e voltando-me para a esteira amarelada que ligava o navio à praia invisível, acenei um adeus e Balthazar agitou a mão. Coloquei a preciosa rosa entre os dentes e comecei a aproximar-me da praia, dando braçadas irregulares e falando para mim próprio. E ali estava sobre a mesa, à luz do candeeiro, o grosso manuscrito comentado de Justine, fora este o título que eu lhe dera. Balthazar cobrira-o de notas quase ilegíveis, perguntas e respostas escritas em tintas de cores diferentes, algumas mesmo datilografadas. Agora parecia-me até de certa forma um símbolo da própria realidade que tínhamos participado, um palimpsesto sobre o qual cada um de nós tinha deixado os seus vestígios pessoais, camada sobre camada. Será necessário aprender a ver com novos olhos, habituar-me às verdades que Balthazar acrescentou? É impossível descrever com que emoção li as suas notas, algumas vezes tão pormenorizadas, outras vezes tão desconcertantemente breves, como, por exemplo, na lista que intitulou Falácias e falsas interpretações, onde afirma friamente: número 4; que Justine o amava a si. Se ela amava alguém, esse alguém era Pursewarden. Que significa isso? Ela via-se forçada a utilizá-lo como um espantalho para proteger o amante contra os ciúmes do marido. Pursewarden, por sua vez, não queria saber dela para nada, lógica suprema do amor.
E a cidade ergue-se uma vez mais na minha mente contra a superfície plana e polida do lago verde e os afloramentos de pedra mole que assinalam os limites do deserto. A política do amor, as intrigas do desejo, o bem e o mal, a virtude e o capricho, o amor e o crime, movem-se obscuramente nos recantos tenebrosos de Alexandria, nas suas ruas e praças, nos seus bordéis e salões, movem-se como grandes migrações de enguias na vasa das tramas e contratramas. Era quase dia quando me desprendi do fascinante montão de folhas com os seus comentários sobre a minha verdadeira vida (interior) e, como um ébrio, fui aos apalpões cair sobre a cama, a cabeça em fogo, cheia de ecos da cidade, a única cidade do mundo onde as raças e os costumes mais estranhos se casam e se misturam, onde se entrecruzam os destinos menos comuns. Até adormecer pareceu-me ouvir a voz seca do meu amigo, perguntando: até que ponto deseja saber a verdade... Que mais deseja saber? Desejo saber tudo para poder libertar-me finalmente da cidade, respondi em sonhos. Quando se colhe uma flor, a haste volta a endireitar-se. Mas isso não é verdade com as afecções do coração, disse Clea certa vez a Balthazar. E assim, lentamente, relutantemente, regressei ao ponto de partida, como um homem que no fim de uma terrível e inevitável jornada descobre que percorreu todo o caminho a dormir. A verdade, disse-me uma vez Balthazar assoando o nariz numas velhas peúgas de ténis, a verdade é o que mais se contradiz com o decorrer do tempo. E Pursewarden noutra ocasião não menos memorável: se as coisas fossem sempre o que parecem ser, como se encontraria empobrecida a imaginação dos homens! Como me libertarei dessa prostituta entre as cidades, mar, deserto, minarete, areia, mar? Não. Tenho de pôr o preto no branco, friamente, até que todo o desejo e recordação se desvaneçam. Bem sei que a chave que procuro se encontra dentro de mim.
Capodistria costumava chamar-nos Le cénacle nesses dias em que nos encontrávamos para o ritual de fazer a barba no salão ptolomaico de Mnemjian, com os seus espelhos e palmeiras, as suas cortinas de missanga e a deliciosa imitação da água tépida e toalhas limpas: aquilo tinha um ar comovedor de embalsamamento de cadáveres! O corcunda de olho violeta oficiava em pessoa porque éramos clientes importantes (faraós mortos no seu banho de carbonato de sódio, cérebro e vísceras a remover purificar e restituir aos seus lugares). O barbeiro muitas vezes não tinha tido sequer tempo de se barbear, tendo chegado a toda a pressa do hospital onde acabava de escanhoar um morto. Encontrávamo-nos aqui nas cadeiras acolchoadas, diante dos espelhos, por um breve instante, antes de nos dirigirmos às nossas respectivas ocupações: Da Capo para se encontrar com os seus corretores, Pombal para a sensaboria do consulado francês (maldisposto, boca amarga, sensação de ter caminhado toda a noite de cabeça para baixo), eu para a escola onde ensinava, Scobie para a repartição da polícia, e assim por diante...» In Lawrence Durrell, Quarteto de Alexandria, 1958, Balthazar, tradução de Daniel Gonçalves, 1960/1961, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-205-110-1.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

Justine. Quarteto de Alexandria. Lawrence Durrell. «Ela foi má de muitas maneiras, é bem certo, mas isso não tinha importância. Nem sequer posso, também, afirmar que ela não fez mal a ninguém. Mas mesmo aqueles a quem ela feriu…»

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«(…) Sei bem que o mundo ignora esta espécie de paradoxo e não está habituado a ele; mas Nessim conhecia-a e aceitava-a de um modo que é absolutamente incompreensível para aqueles que não conseguem separar o amor dos ideais corruptos da propriedade privada. Um dia, muito mais tarde, ele disse-me: que podia eu fazer? Justine era demasiado forte para mim, sob muitos aspectos. Não podia fazer nada senão amá-la, a despeito de tudo, era o meu único trunfo. Antecipava-me, adivinhando todos os seus erros; ela encontrava-me sempre junto de si, pronto a ajudá-la quando caía, como para lhe demonstrar que nada disso tinha importância. No final das contas, ela só comprometia a parte mais insignificante da minha pessoa: a minha reputação. Mas isto ocorreu muito mais tarde: só nos conhecemos bastante bem para podermos falar assim livremente quando o destino infeliz nos devorou a todos. Lembro-me também de ele me ter dito certo dia, foi na vila de Verão, perto de Bourg El Arab: talvez o surpreenda se lhe disser que sempre pensei que em Justine havia uma espécie de grandeza. Há certas espécies de grandeza, sabe, que se não se aliam à arte ou à religião, fazem destroços na vida ordinária. É pena que ela tenha aplicado os seus dons somente nos domínios do amor. Ela foi má de muitas maneiras, é bem certo, mas isso não tinha importância. Nem sequer posso, também, afirmar que ela não fez mal a ninguém. Mas mesmo aqueles a quem ela feriu saíram enriquecidos da experiência. Ela arrancava as pessoas dos seus velhos invólucros, obrigava-as a sair de si próprias. É natural que isso seja doloroso, e muitos se equivocaram sobre a natureza da dor que ela lhes infligia. Mas eu, não! E sorrindo aquele seu bem conhecido sorriso, onde a doçura se casava com uma inexprimível amargura, repetiu em voz baixa: mas eu, não.
Capodistria..., como situá-lo no quadro? Mais parece um duende do que um homem, podereis julgar. A cabeça chata e triangular de serpente com os dois grandes lóbulos frontais; os cabelos avançando em riste, como uma viseira. Uma língua esbranquiçada e nervosa que passa incessantemente pelos lábios secos e delgados. É incrivelmente rico e não necessita mexer uma palha para viver. Sentado o dia inteiro no terraço do Brokers Club, observa a passagem das mulheres, com o olhar inquieto do homem que baralha sem cessar um velho baralho de cartas sebosas. De tempos a tempos, tem um sobressalto, como um camaleão atirando bruscamente a língua, o que é um sinal subtil. Então, há uma silhueta que se afasta do terraço, para seguir a mulher que o seu gesto designou. Às vezes os seus agentes detêm e importunam abertamente uma mulher na rua, em seu nome, mencionando uma soma de dinheiro. Na nossa cidade, uma mulher não se considera ofendida por lhe oferecerem dinheiro. Algumas limitam-se a rir. Outras aceitam imediatamente. Mas nunca se zangam. O vício e a virtude praticam-se com a mesma naturalidade. Capodistria conserva-se distante de tudo isto, no seu fato imaculado, com um colorido lenço de seda a espreitar do bolso. Os sapatos bicudos brilham intensamente. Os amigos chamam-lhe Da Capo devido a certas proezas sexuais iguais à sua fortuna, ou à sua fealdade. Existe um obscuro parentesco entre ele e Justine. Lastimo-o, diz ela. Tem o coração empedernido e tudo quanto lhe resta são os cinco sentidos, como os fragmentos de um copo quebrado. Contudo, a monotonia de uma tal vida não parece deprimi-lo. A família é famosa pelo número de suicídios cometidos e a sua herança psicológica está carregada de doenças e perturbações mentais. Mas isso não o afecta em absoluto e ele costuma dizer, pousando um indicador demasiado longo sobre a têmpora: todos os meus antepassados tinham pancada. Meu pai também. Era um grande femeeiro. Quando já era muito velho, tinha um manequim de borracha, feito à imagem de uma mulher perfeita, em tamanho natural; no Inverno, podia encher-se de água quente. Era uma boneca extraordinariamente bela. chamava-lhe Sabina, que era o nome de sua mãe, e levava-a sempre consigo. Tinha a paixão dos paquetes, e os dois últimos anos da sua vida passou-os no mar, entre a Europa e Nova Iorque, sem descer a terra quase nunca. Sabina possuía um magnífico guarda-roupa. Era um grande espectáculo vê-los descer os dois à sala de jantar, vestidos como para uma récita de gala. o velho viajava com um criado chamado Kelly. Cada um do seu lado, pegavam em Sabina por um braço, e ela tinha o ar de uma dama de sociedade, maravilhosamente vestida e ligeiramente embriagada. Na noite em que morreu, disse a Kelly: envia um telegrama a Demétrio e diz-lhe que Sabina morreu nos meus braços, sem sofrimento. Enterraram-na em Nápoles, junto do velho. Quando acabava de contar esta história, a sua gargalhada era a coisa mais natural e sã que se possa conceber». In Lawrence Durrell, Quarteto de Alexandria, 1957, Justine, tradução de Daniel Gonçalves, 1960/1961, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-205-110-1.

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domingo, 13 de dezembro de 2015

O Quarteto de Alexandria. Clea. Lawrence Durrell. «Prendeu a tangerina entre os dentes e subiu à superfície, descrevendo uma espiral perfeita. Vai secar-te depressa. Não está frio nenhum. Faz o que te digo, despacha-te. E o senhor corcunda? Foi-se embora»

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«(…) Com um gesto de cabeça e um suspiro, fechava essas imagens pintadas no cofre de tesouros do seu espírito. De Melissa, sua mãe morta, falava menos vezes, mas quando me fazia perguntas eu recorria na mesma ao livro de histórias; mas Melissa já tinha descido, pálida estrela, abaixo da linha do horizonte, na imobilidade da morte, deixando aos outros o proscénio, às figuras vivas do baralho de cartas. A criança lançara à água uma tangerina e reclinava-se para vê-la rolar no leito arenoso da gruta. Ficara ali no fundo, trémula como uma chamazinha acariciada pelo afluir e refluir da corrente. Agora, repara, vou buscá-la. Não com a água assim gelada. Podes morrer de frio. Hoje não está frio. Repara. Ela nadava como uma lontra jovem. Da rocha que dominava a água, observando-a, reconhecia nela os olhos atrevidos e ligeiramente oblíquos de Melissa, e, em certos momentos, como um resto de sono esquecido nos cantos, o olhar sombrio e indeciso (suplicante, inquieto) de Nessim, seu pai. Recordei-me de Clea dizendo certa vez: observe bem: se uma rapariga não gosta de dançar nem de nadar nunca será uma amante perfeita. Sorri e perguntei a mim próprio qual o valor dessa afirmação, vendo aquela criaturinha mergulhar docemente na água clara e deslizar com graça para o alvo, os pés unidos com os dedos apontados para o céu. A mancha do lenço branco em torno da cintura. Prendeu a tangerina entre os dentes e subiu à superfície, descrevendo uma espiral perfeita. Vai secar-te depressa. Não está frio nenhum. Faz o que te digo, despacha-te. E o senhor corcunda? Foi-se embora.
A inopinada aparição de Mnemjian na ilha tinha-a impressionado bastante porque fora ele o portador da mensagem de Nessim. Foi um espectáculo único vê-lo atravessar a praia de seixos, com um ar grotesco de receio, como se caminhasse sobre saca-rolhas e temesse perder o equilíbrio a cada passo. Penso que pretendia demonstrar-nos que havia muitos anos que não caminhava senão sobre os melhores pavimentos do mundo civilizado. Era um citadino esquecido da terra que se calca com os pés nus. Emanava de toda a sua aparência um ar de preciosidade e de finura absolutamente incongruente nesta paisagem. Vestia um fato prateado, calçava polainas e trazia os dedos carregados de anéis. Somente o sorriso, um sorriso de bebé, continuava imutável, e o caracol abrilhantinado ainda se estampava a meio da testa.
Casei com a viúva de Halil. Actualmente sou o barbeiro mais rico do Egipto. Anunciou-me aquilo apoiando-se numa bengala de castão de prata, objecto que manifestamente manobrava há pouco tempo. O seu olho cor de malva avaliou com certo desdém a nossa instalação bastante rústica e recusou a cadeira, receando provavelmente estragar as calças. Deve levar aqui uma vida dura, hem? Falta aqui um pouco de luxo, Darley. Suspirou e acrescentou: mas agora vai voltar para junto de nós. Fez um gesto vago com a bengala para significar a hospitalidade que a cidade voltava a oferecer-nos. Quanto a mim, não posso demorar-me. Vou de regresso. Fiz este desvio simplesmente para ser agradável a Hosnani. Falava de Hosnani num tom altivo, como se agora estivessem os dois no mesmo plano social; surpreendeu-o o meu sorriso e teve o bom senso de desatar a rir antes de voltar-se de novo para assuntos graves. De qualquer maneira, não tenho tempo a perder, disse ele dando um piparote para sacudir da manga um grão de poeira. Isso tinha pelo menos o mérito de ser verdade porque o vapor de Esmirna só se detém o tempo suficiente para despachar o correio e descarregar alguns fardos: dois ou três caixotes de macaroni, alguns sacos de sulfato de cobre, uma bomba. Os habitantes da ilha têm poucas necessidades. Tomámos os dois o caminho da aldeia, atravessando o olival, conversando um com o outro. Mnemjian avançava no seu passo saltitante de pomba, mas eu sentia-me contente por poder fazer-lhe algumas perguntas a respeito da cidade, ficando a saber, pelas suas respostas, as alterações que ia encontrar, os elementos desconhecidos.
Passaram-se muitas coisas depois de ter começado a guerra. O doutor Balthazar esteve muito doente. Sabe das intrigas de Hosnani na Palestina? Toda a organização se desmantelou. Os egípcios tentam confiscar-lhe os bens. Já se apoderaram de muita coisa. Sim, agora são pobres e longe de estarem livres de apuros. Ela tem residência fixa em Karm Abu Girg. Há muito tempo que ninguém a vê. Por privilégio especial, ele trabalha como condutor de ambulância nas docas. Muito perigoso. Durante um bombardeamento perdeu um olho e um dedo.
- Nessim? Estava estupefacto. O homenzinho agitou a cabeça com importância. Esta novidade, esta imagem imprevisível do meu amigo, atingiu-me como uma bala. Santo Deus, exclamei, e o barbeiro agitou outra vez a cabeça como para aprovar o bem fundado da minha exclamação. Um duro golpe, concordou. É a guerra, Darley. Depois, bruscamente, um pensamento mais agradável atravessou-lhe o espírito e o seu sorriso de bebé alastrou-se de novo, um sorriso que reflectia somente os valores materiais do Levante. Travando-me o braço, prosseguiu: mas a guerra tem também as suas vantagens. Corto o cabelo a todo o exército. A minha barbearia está sempre cheia. Três salões, doze empregados! Há de ver, é estupendo. Como diz o nosso amigo Pombal: você agora faz a barba aos mortos enquanto eles ainda estão vivos. E soltou uma risadinha silenciosa e distinta. Pombal continua em Alexandria?» In Lawrence Durrell, O Quarteto de Alexandria, Clea, 1960, Publicações dom Quixote, tradução de Daniel Gonçalves, 1960/1961, 2012, ISBN 978-972-205-110-1.

Cortesia PdQuixote/JDACT

O Quarteto de Alexandria. Clea. Lawrence Durrell. «Meditava assim, preguiçosamente estendido numa rocha plana sobranceira ao mar, roendo uma laranja, perfeitamente envolvido numa solidão que em breve seria devorada pela cidade, pelo sonho tórpido de uma Alexandria aquecendo-se ao sol…»

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«(…) Tinha afinal readquirido a paz de espírito. Este punhado de dias azuis antes de partir, considerava-os um tesouro que me inebriava na sua simplicidade, e os toros de oliveira ardendo na velha lareira, em que o retrato de Justine seria o último objecto a ser embalado, lançavam sombras dançantes sobre a mesa, sobre as cadeiras e sobre o vaso de esmalte azul com os primeiros cíclames. Que tinha a cidade a ver com tudo isto, uma Primavera egeia oscilando entre o Inverno e os primeiros rebentos brancos das flores de amendoeira? Não passava de um mundo e significava pouco, rabiscado nas margens de um sonho ou repetido na mente à música coloquial do tempo, que não passa do desejo expresso em palpitações do coração. E, embora me fosse infinitamente caro, não me sentia com forças para ficar; essa cidade que eu odiava (ousava agora reconhecê-lo) propunha-me algo de diferente, uma nova perspectiva da experiência que me tinha marcado. Devia voltar a vê-la uma vez mais para me tornar capaz de abandoná-la definitivamente, de me libertar. Se falei do tempo é porque o escritor em que me ia tornando aprendia finalmente a habitar esses espaços desertos que faltam ao tempo, começava por assim dizer a viver entre as oscilações do pêndulo. O presente permanente, que é a verdadeira história dessa anedota colectiva, o espírito humano; visto que o passado morreu e o futuro é representado apenas pelo medo e pelo desejo, que é então este instante fugidio e não mensurável a que é impossível escapar? Para o vulgo, o chamado presente é igual a um sumptuoso repasto que as fadas nos apresentam... ,afastando-o antes de termos tempo de saboreá-lo. Tal como o fantasma de Pursewarden, esperava poder em breve afirmar com sinceridade: não escrevo para aqueles que nunca perguntaram a si próprios: onde começa a vida real?
Meditava assim, preguiçosamente estendido numa rocha plana sobranceira ao mar, roendo uma laranja, perfeitamente envolvido numa solidão que em breve seria devorada pela cidade, pelo sonho tórpido de uma Alexandria aquecendo-se ao sol, como um velho réptil, na luminosidade do grande lago acobreado. Os mestres sensualistas abandonando os corpos aos espelhos, aos poemas, aos bandos de rapazinhos e de mulheres, à agulha hipodérmica, ao cachimbo de ópio, à morte viva dos beijos sem desejo. Imaginando e percorrendo novamente essas ruas, eu descobria que elas davam não apenas a medida da história humana mas toda a escala biológica das afecções do coração, desde os delírios de Cleópatra, pintados nos frescos (estranho ter sido aqui, perto de Taposíris, que a vinha foi descoberta), até à hipocrisia beata de Hipátia (folhas de vide ressequidas, beijos de mártir). E que estranhos visitantes: Rimbaud, estudante da Via Escarpada, passou por aqui com o cinto recheado de ouro. E todos esses outros intérpretes de sonhos, políticos e eunucos foram como um bando de pássaros de brilhante plumagem. Indeciso entre a piedade, o desejo e o temor, eu via toda a cidade desdobrar-se diante de mim, habitada pelos rostos dos meus amigos e personagens. Sabia que devia repetir a experiência e de uma vez para sempre. Mas foi uma estranha partida, cheia de surpresas, o mensageiro, por exemplo, um corcunda num belo fato de seda fulgurante, rosa na botoeira e lenço perfumado na manga! E a súbita animação da aldeia que tinha até então, por delicadeza, ignorado a nossa existência, com excepção de Athena, que uma vez por outra nos oferecia um peixe, um jarro de vinho ou alguns ovos coloridos, que trazia escondidos na mantilha vermelha. Também a ela entristecia a nossa partida; na sua velha máscara enrugada e severa corriam as lágrimas quando olhava para a nossa modesta bagagem. Mas não os deixarão partir sem um gesto de hospitalidade, repetia obstinadamente. A aldeia não vai consentir que se vão assim sem mais nem menos. Iam oferecer-nos um banquete de despedida!
Quanto à criança eu tinha repetido com ela todas as fases dessa viagem (de toda a sua vida, em boa verdade), graças às ilustrações de uma história de fadas. Ela sentava-se ao meu lado estudando as ilustrações e escutando atentamente. Nunca se cansava de ouvir; estava mais do que preparada para tudo aquilo, estava quase impaciente até por ir tomar o seu lugar na galeria de retratos que tinha desenhado para ela. Estava impregnada de todas as cores confusas desse mundo quimérico ao qual havia pertencido outrora de direito e que ia reencontrar, um mundo povoado daquelas presenças: o pai, sombrio príncipe pirata, a madrasta, rainha despótica... Ela é como na carta? Sim. A rainha de espadas. E chama-se Justine? Sim. No retrato ela está a fumar. Acha que gostará mais de mim do que o meu pai, ou menos? Hão de gostar os dois de ti. Para lhe fazer compreender isso tive de socorrer-me do mito e da alegoria, essa poesia das incertezas infantis. Tinha-lhe ensinado de cor essa parábola de um Egipto que ia revelar-lhe bruscamente (elevados às dimensões de deuses ou magos) os retratos da família, dos antepassados. Não é a vida um conto de fadas que perde os seus poderes mágicos quando crescemos? Que importa! Ela estava desde já embriagada com a imagem do pai. Sim, compreendo tudo». In Lawrence Durrell, O Quarteto de Alexandria, Clea, 1960, Publicações dom Quixote, tradução de Daniel Gonçalves, 1960/1961, 2012, ISBN 978-972-205-110-1.

Cortesia PdQuixote/JDACT

Mountolive. O Quarteto de Alexandria. Lawrence Durrell. «… tinha a cabeça constantemente inclinada sobre a espádua; vista a certa luz lembrava aquelas máscaras carnavalescas que são levadas na ponta de varas. Resta acrescentar que Leila amava-o»

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«(…) Narouz ainda respondeu com uma gargalhadinha mefistofélica. Que hei de fazer?, disse ela com uma resignação irónica enquanto o intendente se aproximava com dois cavalos. Montaram e tomaram o caminho de casa. Mandando o intendente avançar adiante com a lanterna, Leila aproximou o seu cavalo do cavalo de Mountolive, para que os seus joelhos se tocassem e para que o contacto dos seus corpos apaziguasse em parte a sede dos sentidos. Eram amantes havia apenas dez dias, mas para o jovem Mountolive esses dez dias tinham sido uma eternidade de alegria e desespero. A sua educação inglesa não o tinha preparado para as subtilezas do sentimento. A despeito da sua juventude tinha já assimilado perfeitamente todas as preciosas lições que lhe haviam de permitir viver em boa sociedade sem graves problemas; mas às suas emoções pessoais tudo quanto podia opôr era o silêncio taciturno de uma sensibilidade nacional quase completamente anestesiada: uma educação à base de reticências e falsos pudores. Educação e sensibilidade raro se encontram a par, embora a lacuna se possa ocultar sob as regras do bem viver e das conveniências. Da paixão tinha apenas conhecimentos literários; enunciava opiniões quando o tema caía em conversa; mas considerara-a sempre uma realidade estranha ao seu destino; e agora lá estava ela, animando secretamente a sua vida de escolar precocemente amadurecido, vivendo uma vida autónoma por detrás da fachada de boas maneiras e das actividades quotidianas, das conversas e das amizades do dia a dia. Nele o humano dera frutos antes de o próprio homem interior ter florescido. Leila voltara-o do avesso como se volta um velho saco, espalhando o conteúdo em confusão. Mountolive admitiria sem dificuldade não passar de um franganote que já tinha entretanto esgotado todas as suas reservas. Descobria quase com indignação que tinha finalmente encontrado qualquer coisa por que se sentia até capaz de morrer, qualquer coisa cuja própria crueza continha em si uma mensagem alada que feria vivamente o seu espírito. Mesmo nas trevas sentia-se corar. Era absurdo. Amar era absurdo, era como ser derrubado. Que diria sua mãe, pensava ele, se os visse assim cavalgando entre os vultos das palmeiras, perto do lago onde se reflectia o crescente da Lua, de joelhos colados? Sentes-te feliz?, murmurou ela, e Mountolive sentiu os lábios de Leila acariciarem-lhe o pulso.
Os amantes não podem dizer nada que já não tenha sido dito e calado um milhão de vezes. Os beijos foram inventados para traduzir esses mil nadas em ferimentos. Mountolive, repetiu ela. Meu querido David. Sim... Estás tão tranquilo. Julgava que dormias. Mountolive enrugou a testa, pesquisando a sua natureza íntima. Estou a reflectir, respondeu. Sentiu novo beijo no pulso. Querido! Querida! Continuaram assim, de joelhos colados, e depressa avistaram a casa, solidamente construída no meio de uma rede de diques e canais de água doce que fragmentava o estuário. O ar pulsava agitado pelas asas dos morcegos. Todas as varandas do primeiro andar se encontravam vivamente iluminadas; o inválido, na cadeira de rodas, o olhar ciumento cravado na noite, esperava-os. Atingido por uma doença obscura que o ia matando aos poucos, o marido de Leila via a doença agravar a grande diferença de idades que os separava; enquanto ela tinha apenas quarenta anos, e ninguém lhos dava, ele ia para além dos sessenta A enfermidade encerrava-o num sudário de cobertores de onde emergiam duas mãos longas e trémulas. As suas feições rudes e taciturnas encontravam-se reproduzidas no filho mais novo e tinha a cabeça constantemente inclinada sobre a espádua; vista a certa luz lembrava aquelas máscaras carnavalescas que são levadas na ponta de varas. Resta acrescentar que Leila amava-o. Leila amava-o. No silêncio da sua mente, Mountolive nunca era capaz de pronunciar esta frase sem guinchar como um papagaio. Como era possível? Interrogava-se mil vezes. Como era possível?
Ouvindo o tropear dos cavalos no pátio, o marido fez rolar a cadeira e aproximando-se da balaustrada perguntou timidamente: és tu, Leila? A sua voz era a de uma criança muito velha, pronta para ser ferida pelo sorriso quente que ela lhe lançou para o alto, pela bela voz de contralto que lhe respondia confundindo a submissão oriental com aquela espécie de consolação que só uma criança e capaz de compreender. Querido. E subiu a correr a escadaria para beijá-lo. Aqui estamos, sãos e salvos. Mountolive desmontava lentamente, ouvindo o suspiro de alívio do doente. Demorava-se a apertar uma correia para não ver o beijo que trocavam. Não era ciumento, mas a incredulidade verrumava-o e feria-o. Nessa ocasião odiava a sua juventude, a sua tacanhez e o sentimento de ter sido violado. como sucedera tudo aquilo? Sentia-se a um milhão de quilómetros da Inglaterra. Separara-se do seu passado como uma serpente após a muda. A noite estava cheia de aromas fragrantes de jasmim e rosa. Mais tarde, se ela viesse procurá-lo ao quarto, encontrá-lo-ia imóvel, mudo e incapaz de pensar, tomando nos braços aquele corpo estranhamente jovem, quase sem desejo nem remorsos; sentia os olhos fecharem-se como um homem imóvel debaixo de uma cascata gelada. Subiu lentamente a escada; graças a ela, sabia agora que era belo e aprumado». In Lawrence Durrell, O Quarteto de Alexandria, Mountolive, 1958, Publicações dom Quixote, tradução de Daniel Gonçalves, 1960/1961, 2012, ISBN 978-972-205-110-1.

Cortesia PdQuixote/JDACT

sábado, 12 de dezembro de 2015

Mountolive. O Quarteto de Alexandria. Lawrence Durrell. «A voz de Leila atravessou afectuosamente as águas para censurá-los e Narouz suspirou deliciado. Apanhámos milhões de peixes, gritou Nessim. Ela estava à beira do embarcadouro, silhueta apenas mais sombria que a noite»

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«(…) Atenção!, gritou Narouz. Não se mexa. A água estava espessa como cola e corpos prateados começaram a surgir saltando na escuridão para recaírem no amálgama lamacento. Os círculos de luzes encontraram-se, confundiram-se, e o cerco fechou-se; houve então um chapinhar ininterrupto de formas obscuras que remergulhavam na água efervescente, contorcendo-se, e escapando-se das redes agora reunidas e já transbordantes, como sapatinhos de Natal, com os corpos nervosos dos peixes. O pânico começava a apoderar-se deles e enrugavam a superfície da água com os seus saltos precipitados, salpicando as lanternas balbuciantes e vindo cair finalmente dentro dos batéis, colheita nervosa de escamas geladas e de caudas palpitantes. Os seus sobressaltos de agonia eram tão excitantes como o bater de tambores. Partiam risos de todos os lados enquanto as redes se apertavam. Mountolive distinguia os árabes, com o grande manto branco apertado na cintura, segurando-se com as mãos às proas negras, atirando lentamente para diante as redes entrelaçadas. A luz iluminava-lhes as coxas morenas. A noite estava prenhe da sua alegria bárbara.
E então produziu-se novo e inesperado fenómeno, o céu, tal como as águas, começou a tornar-se espesso. As trevas povoaram-se de vultos estranhos, pois os gritos e os ruídos tinham despertado os habitantes das margens, pelicanos, flamingos, gralhas e maçaricos, que se aproximavam em bandos desordenados, vindos dos canaviais para participar no festim, lançando gritos agudos e descrevendo audaciosas figuras aéreas para apanhar o peixe no voo. A atmosfera e a água fervilhavam de vida enquanto os pescadores começavam a armazenar a sua presa no fundo dos batéis ou voltavam as redes para despejar uma catadupa de corpos prateados no fundo do barco. Os timoneiros depressa ficaram com os pés ocultos por uma multidão de corpos contorcendo-se numa agonia desesperada. Havia de sobra para os homens e para as aves, e, ao passo que os maiores pernaltas do lago abriam e fechavam as asas tímidas como velhas sombrinhas coloridas, os maçaricos mergulhavam com a rapidez do raio, excitados pela fome e pela carnagem, em voos suicidas, indo alguns quebrar o pescoço nas tábuas dos barcos, indo outros enterrar o bico na carne morena de um pescador, rasgando-lhe uma perna ou o rosto, na sua avidez terrificante. Os salpicos da água, os gritos roucos, o bater dos bicos e das asas e o matraquear frenético dos tamborins emprestavam à cena um inesquecível esplendor que evocava no espírito de Mountolive antigos frescos faraónicos de luz e de trevas.
Alguns homens lutavam contra as aves, batendo o ar com bastões, de tal modo que no meio do montão de peixes descobriam-se por vezes penas de todas as cores, de magníficos cambiantes, e bicos quebrados de onde pingava o sangue sobre as escamas prateadas. Em menos de uma hora os batéis ficaram cheios até à borda. Nesse momento Nessim passou junto deles e gritou-lhes: temos de nos ir embora! Estendeu a mão apontando para uma lanterna que formava na margem uma doce gruta de luz, no interior da qual se distinguiam os flancos sedosos de um cavalo e o recorte denteado de palmeiras. A minha mãe está à nossa espera, acrescentou Nessim, sorrindo. Debruçou-se e o seu belo rosto apareceu aureolado por um jacto deluz que o envolveu. Era dotado daquela beleza bizantina de que se encontram numerosos exemplos nos frescos de Ravena, rosto em forma de amêndoa, olhos negros, feições puras. Mas Mountolive via através do rosto de Nessim a face de Leila, sua mãe, que tanto se parecia com ele.
Narouz!, gritou em voz rouca, porque o irmão tinha saltado à água para prender uma rede. Narouz! Era difícil fazer-se ouvir naquela confusão. Temos de nos ir embora. E os dois batéis viraram de bordo e apontaram para o embarcadouro onde Leila os esperava pacientemente com os cavalos, ouvindo o zumbido persistente dos mosquitos. Um fino crescente erguera-se no céu. A voz de Leila atravessou afectuosamente as águas para censurá-los e Narouz suspirou deliciado. Apanhámos milhões de peixes, gritou Nessim. Ela estava à beira do embarcadouro, silhueta apenas mais sombria que a noite, e as suas mãos encontraram-se por um instinto perfeito e inconsciente. O coração de Mountolive começou a palpitar desordenadamente quando ela o ajudou a saltar. Mas assim que os dois irmãos se encontraram em terra, Narouz bradou: vamos ver quem chega primeiro a casa, Nessim! Precipitando-se para os cavalos partiram a galope, às gargalhadas, e Leila soltou um grito de prudência: tenham cuidado! Mas já eles iam longe do molhe, cujas tábuas elásticas deixaram a vibrar». In Lawrence Durrell, O Quarteto de Alexandria, Mountolive, 1958, Publicações dom Quixote, tradução de Daniel Gonçalves, 1960/1961, 2012, ISBN 978-972-205-110-1.

Cortesia PdQuixote/JDACT

Quarteto de Alexandria. Balthasar. Lawrence Durrell. «E então o seu olhar surpreendeu o retrato de Justine que Clea me tinha oferecido numa existência anterior. O retrato que foi interrompido por um beijo, disse ele. Como é bom tornar a vê-lo, como é bom! Sorriu».

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) E foi maravilhoso ouvi-lo rir uma vez mais. Mas agora as suas palavras tinham-me mergulhado numa impaciência, num desejo de estudar as suas entrelinhas, de rever, não o meu livro (que para mim nunca teve qualquer importância posto que nunca será publicado), mas a minha visão da cidade e dos seus habitantes. Porque a minha Alexandria pessoal se tornou, neste isolamento, tão cara como uma filosofia de introspecção, quase uma monomania. Sentia-me tão comovido que nem sabia que dizer-lhe. Fique connosco, Balthasar... fique por algum tempo... Partimos dentro de duas horas, disse ele, e acrescentou palpando o maço de papéis: isto poderá provocar-lhe febre e visões. Excelente, respondi-lhe, é justamente o que preciso. Nós somos todos criaturas reais, disse ele, a despeito daquilo que você tentou fazer connosco, pelo menos aqueles de nós que ainda se encontram vivos. Melissa, Pursewarden, esses nada podem contestar porque estão mortos. Pelo menos é o que se pensa. É o que se pensa. As melhores respostas vêm sempre do além-túmulo.
Sentámo-nos e começámos a falar do passado mas com certo constrangimento. Balthasar já tinha jantado a bordo e tudo quanto me foi possível oferecer-lhe foi uma taça do bom vinho da ilha que ele saboreou lentamente. Mais tarde pediu-me para ver a filha de Melissa, e conduzi-o através do caramanchão de loureiros até à janela iluminada pelo fogo onde a vimos a dormir, muito bela, mamando gravemente no dedo. Os olhos sombrios e cruéis de Balthasar enterneceram-se enquanto a contemplava, de respiração suspensa. Um dia, disse ele em voz baixa, Nessim quererá vê-la. Mais breve do que você julga. Começou já a falar dela, a mostrar curiosidade. Com a idade sentirá necessidade da criança, não se esqueça do que eu lhe digo. E citou em grego esta frase: No princípio os jovens, tal como a vinha, apoiam-se sobre os tutores dos mais velhos, que sentem prazer em suportar sobre eles os dedos doces e meigos; mais tarde são os velhos que se apoiam nos belos corpos dos jovens para descer o rio da morte.
Conservei-me calado. Agora era o próprio quarto que respirava, e não os nossos corpos. Você tem vivido aqui na solidão, observou Balthasar. Mas numa esplêndida, numa desejável solidão. Sim. Invejo-o sinceramente. E então o seu olhar surpreendeu o retrato de Justine que Clea me tinha oferecido numa existência anterior. O retrato que foi interrompido por um beijo, disse ele. Como é bom tornar a vê-lo, como é bom! Sorriu. É como escutar uma frase musical que nos é querida, que sabemos de cor, e que desperta uma emoção que se pode constantemente renovar, que nunca nos falha. Não disse nada. Não me atrevia. Ele voltou-se então para mim. E Clea?, disse por fim, na voz de quem se dirige a um eco. Respondi: não tenho notícias dela há dois anos, ou mais. O tempo aqui não conta. Espero que se tenha casado, que tenha ido para outro país, que tenha filhos e seja conhecida como pintora..., tudo o que de melhor se lhe possa desejar. Balthasar olhou para mim curiosamente e sacudiu a cabeça: não, disse ele, mas sem acrescentar mais nada. Já passava bastante da meia-noite quando do meio das oliveiras ocultas na treva subiram as vozes dos marinheiros que o chamavam. Acompanhei-o à praia, triste por vê-lo partir tão depressa. Um escaler esperava-o com um marinheiro aos remos. O homem disse qualquer coisa em árabe. O mar primaveril estava tentadoramente tépido depois de um dia de sol descoberto e, quando Balthasar entrou no escaler tomou-me a fantasia de segui-lo nadando até ao navio ancorado a menos de duzentos metros da praia. Foi o que fiz e fiquei a flutuar diante do costado para vê-lo subir a escada do portaló enquanto içavam o escaler. Cuidado com a hélice, gritou-me ele. Afaste-se antes do motor começar a trabalhar... Esteja descansado». In Lawrence Durrell, Quarteto de Alexandria, 1958, Balthazar, tradução de Daniel Gonçalves, 1960/1961, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-205-110-1.

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Quarteto de Alexandria. Balthasar. Lawrence Durrell. «Visão emocionante para um exilado como eu, recluso no espírito como todos os escritores, uma espécie de veleiro dentro de uma garrafa navegando para parte nenhuma…»

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«(…) O pequeno caramanchão de loureiros, debaixo dos plátanos, eis o meu gabinete de trabalho. Depois da criança ir para a cama, sentava-me aqui, à velha mesa carcomida pela maresia, à espera do visitante, sem acender a lâmpada de parafina enquanto ele não passava. Era o único dia da semana cujo nome eu aqui conhecia, quinta-feira. Pode parecer uma tolice, mas numa ilha tão desprovida de atracções, esperava aquela visita semanal como uma criança espera um feriado escolar. Sabia que o barco trazia cartas mas teria que aguardar um dia inteiro pelo correio. Mas nunca via o pequeno vaporzinho desaparecer sem um sentimento de melancolia. E depois de desaparecer acendia a lâmpada com um suspiro e voltava aos meus papéis. Escrevo devagar e penosamente. Pursewarden, falando uma vez sobre a arte de escrever, confiou-me que a dor que acompanha geralmente essa tarefa se deve ao receio que o artista tem de enlouquecer; avance sem medo e diga a si próprio que não se lhe dá ficar doido e verá como tudo se torna mais fácil. (Ignoro que dose de verdade existe nessas palavras, mas o legado em dinheiro que me deixou tem-me sido útil, e ainda restam algumas libras, entre mim e os demónios das dívidas e do trabalho). Descrevo esta diversão semanal com certa riqueza de pormenores porque foi justamente neste quadro que Baltasar, numa noite de Junho, me apareceu de uma forma tão inesperada que me surpreendeu, eu ia escrever aturdiu, não há aqui ninguém com quem falar, mas me surpreender. Nessa noite sucedeu uma espécie de milagre. O vaporzinho, em vez de desaparecer como de costume, descreveu abruptamente um arco de cento e cinquenta graus e entrou na enseada onde se imobilizou no casulo aveludado das suas luzes para lançar no charco dourado que ele próprio criara, a longa e lenta corrente da âncora que é como o próprio símbolo da busca da verdade. Visão emocionante para um exilado como eu, recluso no espírito como todos os escritores, uma espécie de veleiro dentro de uma garrafa navegando para parte nenhuma, e fiquei a observar a manobra como talvez outrora um índio observou a chegada às praias do Novo Mundo da primeira nau branca.
A escuridão, o silêncio, eram agora quebrados pelo chape-chape irregular dos remos; e depois, decorrido muito tempo, pelo martelar de solas citadinas sobre os calhaus. Uma voz rouca indicou o caminho. Silêncio. Enquanto acendia a lâmpada e regulava a mecha tentando libertar-me do encantamento em que me lançara esta quebra de normalidade, a face grave e sombria do meu amigo, tal como a aparição de um fauno dos Infernos, materializou-se entre os grossos ramos dos mirtos. Ficámos com a respiração suspensa a olhar um para o outro, sorridentes, na luz amarelada da candeia: a severa cabeleira anelada de Assírio, a barba de Pã. Não, homem..., sou autêntico!, exclamou Baltasar com uma gargalhada, e abraçámo-nos furiosamente. Balthasar! O Mediterrâneo é um mar absurdamente pequeno; as dimensões da sua história fazem-nos pensar ilusoriamente que se trata de um vasto mar, o que na realidade não sucede. Alexandria, a verdadeira e a imaginária, não dista mais de algumas milhas marítimas para o sul.
Ia a caminho de Esmirna, disse Balthasar, de onde tencionava remeter-lhe isto. Depositou sobre a velha mesa martirizada o enorme maço manuscrito que eu lhe tinha enviado, um imenso volume de folhas amarrotadas, sobrecarregadas de frases e de parágrafos inteiros entre as linhas e consteladas de interrogações. Sentando-se à minha frente com o seu ar mefistofélico, disse num tom mais baixo, hesitante: Debati comigo próprio durante muito tempo se devia falar-lhe em certas coisas que anotei no seu manuscrito. Às vezes parece-me uma loucura e uma impertinência tê-lo feito. Afinal de contas interessávamos-lhe como pessoas ou como personagens? Ignorava-o. E ainda ignoro. Estas páginas podem fazer-me perder a sua amizade sem acrescentarem nada ao seu conhecimento. Pintou a cidade, pincelada após pincelada, sobre uma superfície curva, mas qual era o seu objecto, a poesia ou os factos? Se eram os factos então há coisas que deve saber. Ainda não tinha explicado aquela sua surpreendente aparição, tão ansioso se mostrava por tratar do motivo principal da sua visita. Mas, notando a minha surpresa diante da nuvem de pirilampos que flutuava na baía, sorriu: O navio parou devido a uma avaria nas máquinas. Levará algumas horas a consertar. É da frota de Nessim. O capitão é Hasim Kohly, um velho amigo: talvez se lembre dele? Não? Bem, pela sua descrição calculei mais ou menos onde você vivia; mas ser desembarcado à sua porta, isso é que, com franqueza...!» In Lawrence Durrell, Quarteto de Alexandria, 1958, Balthazar, tradução de Daniel Gonçalves, 1960/1961, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-205-110-1.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

Justine. Quarteto de Alexandria. Lawrence Durrell. «Ela soltou um ligeiro suspiro, como para manifestar que a minha resposta a pusera à vontade e sentou-se acendendo um cigarro, fumava tabaco francês, aspirando pequenas fumaças que lançava para o espaço em fios azulados…»

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«(…) Fazia frio cá fora e eu ia passando pelas lojas da Rua Fouad, fortemente iluminadas. Diante de uma mercearia, vi uma pequena caixa de azeitonas com o nome Orvieto no rótulo, e, tomado bruscamente pela nostalgia do bom lado do Mediterrâneo, entrei na tenda; comprei a caixa; pedi que a abrissem, e sentando-me numa mesa de mármore, sob a lúgubre claridade suja, comecei a devorar a Itália, a sua carne queimada pelo sol, o seu solo fecundo, as suas vinhas ilustres. Sentia que Melissa nunca seria capaz de compreender este meu estado de espírito. Seria obrigado a mentir, dizendo que tinha perdido o dinheiro. Não vi imediatamente o comprido carro que ela tinha deixado na rua sem parar o motor. Entrou na lojeca com um ar brusco e decidido e disse, com aquele tom de autoridade que possuem as lésbicas e que as mulheres ricas usam quando se dirigem a pessoas manifestamente pobres: que entende por natureza antinómica da ironia?, ou qualquer coisa desse género, e que não me ocorre agora à memória. Não conseguindo arrancar-me do meu sonho italiano, ergui a cabeça com ar aborrecido e vi-a, nos três espelhos que guarneciam três das paredes, debruçar-se para mim, o rosto sombrio e um pouco assustador, simultaneamente perturbado e cheio de uma arrogante reserva. Naturalmente eu já tinha esquecido tudo quanto podia ter dito sobre a natureza da ironia e tudo o mais, e respondi-lhe isso mesmo com um ar de indiferença que não era totalmente fingido. Ela soltou um ligeiro suspiro, como para manifestar que a minha resposta a pusera à vontade e sentou-se acendendo um cigarro, fumava tabaco francês, aspirando pequenas fumaças que lançava para o espaço em fios azulados que ficavam suspensos na luz crua da sala. Não sabia que atitude adoptar diante da franqueza com que ela me olhava e que eu considerava algo embaraçosa, era como se ela estivesse a avaliar o uso que poderia extrair da minha pessoa. Gostei da maneira como se referiu aos versos que ele escreveu sobre a cidade, disse ela. Fala bem o grego. Naturalmente é escritor.
Naturalmente, respondi eu. É sempre doloroso não se ser conhecido. Parecia inútil prosseguir neste caminho. Sempre tive horror às conversas literárias. Ofereci-lhe uma azeitona que ela aceitou; cuspiu o caroço, como um gato, na sua mão enluvada e deixou-o ficar, como se o tivesse esquecido. Disse, então: Gostaria de apresentá-lo a Nessim, meu marido. Quer vir? Um polícia tinha aparecido à porta, manifestamente intrigado com o automóvel abandonado. Foi essa a primeira vez que eu entrei na grande casa de Nessim com as suas estátuas, as suas palmeiras e os seus nichos, os seus Courbet, os seus Bonnard e tudo o mais. Era, simultaneamente, magnífico e medonho. Justine subiu vivamente a escadaria monumental, detendo-se apenas para transferir o caroço de azeitona do bolso do seu casaco para um vaso da China, chamando Nessim em todos os tons. Fomos de sala em sala, povoando-as de sons. A resposta veio do grande estúdio no sótão, e precipitando-se para ele, como um cão, ela atirou-se, metaforicamente, aos pés do marido, ficando ligeiramente para trás a abanar alegremente a cauda. Tinha conseguido apanhar-me.
Nessim estava sentado no último degrau de um escadote e preparava-se para ler, mas começou a descer lentamente, observando-nos com toda a atenção. A sua timidez não sabia como reagir diante das minhas roupas modestas, dos meus cabelos encharcados e da minha caixa de azeitonas, e eu próprio não podia dar-lhe qualquer explicação da minha presença, visto que ignorava, até, o motivo por que me tinham trazido ali. Compadeci-me dele e ofereci-lhe uma azeitona; sentámo-nos e acabámos as azeitonas falando, se bem me lembro, de Orvieto, que nenhum de nós conhecia, enquanto Justine ia pelos aperitivos. É uma grande consolação para mim recordar este primeiro encontro. Nunca me senti mais perto deles, quero dizer, mais perto do casal que eles formavam; pareciam-me, então, esse animal ideal de duas cabeças que o casamento pode produzir. Vendo a luz quente e benevolente que brilhava nos olhos de Nessim, compreendi, recordando-me dos escandalosos rumores que corriam acerca de Justine, que tudo quanto ela pudesse ter feito, mesmo aquilo que aos olhos do mundo pudesse passar por repreensível ou chocante, tinha, num certo sentido, sido feito por amor dele. O amor de Justine por seu marido era como uma pele dentro da qual ele se encontrava, tal como Hércules em menino; e os esforços que ela fazia para se realizar não a tinham afastado dele, muito pelo contrário». In Lawrence Durrell, Quarteto de Alexandria, 1957, Justine, tradução de Daniel Gonçalves, 1960/1961, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-205-110-1.

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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Justine. Quarteto de Alexandria. Lawrence Durrell. «Ela passava por ter tido um grande número de amantes; e Nessim passava por um ‘mari complaisant’. Tinha-os visto dançar juntos em diversas ocasiões, ele esguio, com uma cintura fina de mulher, e bonitas mãos…»

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«(…) Nessim estava de mal com a cidade, mas como a sua considerável fortuna o punha diariamente em contacto com os negociantes locais, estes demonstravam a seu respeito uma indulgência risonha, como a que se adopta para com um pobre de espírito. E se entrávamos no seu gabinete, esse sarcófago todo de móveis tubulares e em vitrais, não era raro encontrá-lo sentado, como um órfão, diante da secretária (coberta de campainhas, polés e candeeiros), comendo pão preto e lendo Vasari, enquanto com ar distraído ia assinando letras e recibos. Levantava então para o visitante o rosto pálido em forma de amêndoa, esforçando-se por sorrir, mas nem sempre logrando sair do seu universo secreto, com um olhar quase suplicante. E, contudo, sob esta aparência amável e desinteressada, ocultava-se uma impiedosa lucidez, e os seus empregados surpreendiam-se ao descobrir que, a despeito do seu ar ausente, não ignorava o menor facto respeitante aos seus negócios, e que as transacções que conduzia eram sempre fundadas num inesperado bom-senso comercial. Os empregados consideravam-no uma espécie de oráculo, no entanto (diziam, suspirando e dando de ombros), parecia não dar a esse facto a menor importância! Não dar importância ao ganho, eis o que para os alexandrinos é o expoente máximo da loucura.
Conheci-os de vista durante muito tempo antes de nos encontrarmos, como, de resto, conhecia toda a gente na cidade! De vista e igualmente de reputação, dado que a sua maneira de viver, altiva, desenvolta e sem condescender com as convenções, tinha tornado o casal notório entre os nossos provinciais. Ela passava por ter tido um grande número de amantes; e Nessim passava por um mari complaisant. Tinha-os visto dançar juntos em diversas ocasiões, ele esguio, com uma cintura fina de mulher, e bonitas mãos de dedos afilados; a cabeça adorável de Justine, o ângulo muito pronunciado do seu nariz árabe e os olhos translúcidos, dilatados pela beladona, lançando em torno olhares de pantera semidomesticada. Depois, um dia, eu aceitei proferir uma conferência sobre o poeta da cidade no Atelier des Beaux-Arts, espécie de clube onde os amadores habilidosos podiam conviver, alugar estúdios, etc. Aceitei, unicamente porque isso me proporcionava um pequeno ganho suplementar e porque, aproximando-se o Outono, Melissa tinha necessidade de um novo casaco. Mas foi uma tarefa dolorosa, e eu sentia o velho perto de mim, assediando, por assim dizer, as ruelas obscuras, em torno da sala de conferências, e impregnando-as com o perfume dos seus versos inspirados nos amores de miséria, e, contudo, fecundos, que ele experimentara, amores que talvez tivesse pago, amores fugazes a que o seu estro conferia vida e eternidade, e com que demorada paciência e ternura ele tinha fixado o minuto adventício e fixado todos os seus cambiantes! Que impertinência a minha falar sobre um ironista que, com tanta naturalidade e delicadeza, fez das ruas e dos bordéis de Alexandria o objecto da sua obra! E, o que é mais, falar diante de um público que não é constituído por marçanos de mercearia e pequenos empregados, que ele imortalizou, mas por dignas damas da sociedade para quem a cultura que ele representava era uma espécie de banco de sangue: elas tinham vindo receber a sua transfusão. Algumas tinham perdido uma tarde de bridge, para me ouvir, sabendo perfeitamente que não se sentiriam transportadas, mas simplesmente estupefactas.
Tudo quanto me lembro de ter dito é que me sentia perseguido pelo seu rosto, o rosto docemente triste da última fotografia; e quando a onda de esposas dos bons burgueses se escoou pela escadaria de pedra, perdendo-se nas ruas húmidas onde os seus automóveis esperavam, descobri, no momento de deixar a sala, que para trás ficara uma estudante solitária das paixões e das artes. Estava sentada no fundo da sala, pensativa, de pernas cruzadas, numa atitude masculina, fumando um cigarro. Não olhava para mim, mas fixava o soalho em frente dos seus pés com um ar vulgar. Senti-me lisonjeado, pensando que pelo menos uma pessoa tinha compreendido as minhas dificuldades. Peguei na gabardina e na pasta húmida e lancei-me para as ruas varridas por uma chuvinha fina e penetrante que o vento do litoral fustigava. Tomei o caminho de casa onde Melissa a essa hora teria posto a mesa, coberta com uma folha de jornal, depois de ter mandado Hamid buscar o assado ao padeiro, porque não tínhamos forno». In Lawrence Durrell, Quarteto de Alexandria, 1957, Justine, tradução de Daniel Gonçalves, 1960/1961, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-205-110-1.

Cortesia de PdQuixote/JDACT