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sábado, 7 de outubro de 2023

Amantes dos Reis de Portugal. Paula Lourenço, Ana Cristina Pereira e Joana Troni. «Foi, pois, uma relação que durou bastante tempo, pelo que não se trataria apenas de uma simples aventura... arriscamo-nos a supor que haveria algum sentimento de afecto»

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O feitiço da Ribeirinha

«Maria Pais Ribeira, de afamada formosura, descendia de uma linha de nobres próximos à corte e aos reis de Portugal, e da relação com o rei ficou esta linhagem ainda mais perto da Casa Real.

Rodrigo Sanches, Gil Sanches, Nuno Sanches, Maior Sanches, Teresa Sanches e Constança Sanches foram os frutos desta fecunda ligação amorosa. À semelhança de seus outros filhos bastardos, Sancho I entregou-os a criar em casas de membros da nobreza tradicional muito próxima do monarca.

Foi, pois, uma relação que durou bastante tempo, pelo que não se trataria apenas de uma simples aventura... arriscamo-nos a supor que haveria algum sentimento de afecto.

Que Maria Pais conseguira seduzir o rei, disso não parece haver dúvidas. O papa Inocêncio III chamou-a de feiticeira por este encantamento que prendia Sancho I, que sua casa todos os dias visitava.

Diz-se que era branca de pele, de fulvos cabelos, bonita e sedutora e que não só cativara o rei, mas também os nobres da sua corte. Sancho I deu à Ribeirinha, em 1209, a Vila do Conde, doação esta que foi confirmada em 1217 por Afonso II, seu filho e rei.

Um dos episódios mais conhecidos da Ribeirinha foi o seu rapto a+ós a morte do seu amante, Sancho. Vinha de Coimbra após o enterro do monarca, triste e lacrimosa pela morte do homem com quem tivera seis filhos, quando Gomes Lourenço de Alvarenga fintou a guarda que o irmão de Maria Pais havia destacado para a sua segurança e a raptou. Lavou-a Leão, fora da influência da família, mas não do rei português Afonso II, que terá solicitado a Fernando III de Leão que não deixasse este assunto sem resolução». In Paula Lourenço, Ana Cristina Pereira, Joana Troni, Amantes dos Reis de Portugal, 2008, Editora Esfera dos Livros, 2011, ISBN 978-989-626-136-8.

Cortesia de EEsferadosLivros/JDACT

JDACT, Paula Lourenço, Ana C. Pereira, Joana Troni, História, Cultura e Conhecimento, Escrita, Aspectos da Vida Quotidiana, 

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Amantes dos Reis de Portugal. Paula Lourenço, Ana Cristina Pereira e Joana Troni. «Como vivo em grande cuidado por meu amigo que ei alongado. Muito me tarda o meu amigo na Guarda! Ai eu coitada! Como vivo em grande desejo…»

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As amantes

«Os filhos bastardos e estas duas amantes foram contemplados no testamento do rei, indicador da importância que teriam para o monarca que, enquanto pai, assumia as suas responsabilidades. Também cuidará do futuro do neto da sua filha ilegítima, Teresa Sanches, Fernando.

Uma amante régia ascendia a um estatuto que lhe conferia privilégios que se prolongavam, sobretudo, pelos seus filhos. Assim' casar com uma mulher que fora amante do rei não era desprestigiante. Pelo contrário, e assim se entende os casamentos que ambas fizeram com homens da corte de Sancho I.

Maria Aires de Fornelos, filha de Aires Nunes de Fornelos, casou com Gil Vasques Soverosa, filho de Vasco Fernandes, alferes-mor do reino.

Da sua ligação com o monarca não mais sabemos do que dados biográficos. Desta união nasceram Martim Sanches de Portugal, conde de Trastâm ara, e Urraca Sanches. Ao que tudo indica, foram entregues, para que os criasse, a Marinha Viegas, figura ligada à importante família Riba Douro. O filho que tiveram, Martim Sanches, disputará o trono com o legítimo herdeiro da coroa, o futuro Afonso II.

O feitiço da Ribeirinha

A Ribeirinha eta filha de Urraca Nunes de Bragança e de Paio Moniz de Ribeira e Cabreira, que foi alferes-mor de Sancho I a partir de 1199, o que poderá ter sido a razão da aproximação entre os dois amantes. De acordo com a tradição, foi neste-preciso ano que Sancho I, em viagem pelas terras da Guarda, ficou enfeitiçado por Maria Pais Ribeiro. Ou então em Coimbra se aceitarmos a sugestão do conde de Sabugosa: nos Paços, a par da Sé de Coimbra, em noites de sarau, quando o luar batia em cheio nas varandas e terraços da Alcáçova e iluminava a paisagem mórbida do Mondego, enquanto os rouxinóis namorados palravam nos salgueiros, as rãs coaxavam idílios amorosos nas represas dos rios, e, lá dentro, nas salas, as jogralezas arqueavam provocantemente os corpos nas danças lascivas.

Esta paixão foi imortalizada em versos da suposta autoria de Sancho I. Escritos ou não pelo monarca, certo é que esta relação não passava despercebida à sociedade de então:

Ai eu coitada!

Como vivo em grande cuidado

por meu amigo que ei alongado.

Muito me tarda

O meu amigo na Guarda!

Ai eu coitada!

Como vivo em grande desejo

Por meu amigo que tarda e não vejo!

Muito me tarda

O meu amigo na Guarda!»

In Paula Lourenço, Ana Cristina Pereira, Joana Troni, Amantes dos Reis de Portugal, 2008, Editora Esfera dos Livros, 2011, ISBN 978-989-626-136-8.

Cortesia de EEsferadosLivros/JDACT

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Amantes dos Reis de Portugal. Paula Lourenço, Ana Cristina Pereira e Joana Troni. «Conquistou Silves após um cerco que durou dois meses, com a ajuda dos cruzados que tinham arribado ao reino. Não foi um processo pacífico, pois os cruzados…»

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Um rei com um temperamento inconstante. Sancho I

«Depois de ver reconhecida a sua dignidade régia por bula papal, Sancho I teve que lidar com complicadas situações ao longo do seu reinado, desde maus anos agrícolas às sucessivas crises de fome, peste e, claro, as guerras. De um lado estava a questão da divisão das Hispânias pelos herdeiros de Afonso VII e, do outro, a ameaça do império almóada, sempre presente.

Foi um rei empenhado em todos os assuntos do seu reino. Conhecia bem os problemas, as necessidades e a realidade do seu país. De facto, estivera, durante tantos anos, à frente dos seus destinos e convivera de perto, pelo menos desde 1169, com os altos oficiais do reino. Povoou as terras de fronteira para as manter e mostrar a soberania portuguesa e entregou a sua defesa e conquista dos territórios em seu redor às ordens militares.

Foi também durante o seu reinado que as questões entre Braga e Compostela e os intermináveis conflitos entre a Sé de Coimbra e o Mosteiro de Santa Cruz tiveram lugar. Várias vezes, na sequência destes problemas, o monarca foi excomungado e o seu reino interditado. Sancho I tinha um temperamento inconstante, que se foi revelando com maior intensidade à medida que ia envelhecendo. Acessos de raiva eram frequentes, indo ao ponto de perpetrar grandes vinganças,  como se viu em Silves.

Conquistou Silves após um cerco que durou dois meses, com a ajuda dos cruzados que tinham arribado ao reino. Não foi um processo pacífico, pois os cruzados, ocupando a cidade, fecharam as portas para que nenhum muçulmano a pudesse abandonar e dedicaram-se ao saque e espoliação de bens e pessoas. Recusaram-se a dar a Sancho I a sua parte em Silves, o domínio da própria cidade e a posse dos aprovisionamentos em víveres. O monarca, enfurecendo-se, entrou na cidade e expulsou à força os cruzados.

A amargura chegaria mais tarde, com a perda de Silves, o que teve um impacto grande. Não podia perder mais território do que aquele que lhe fora legado por seu pai. A partir daqui, era importante investir em pactos de aliança e políticas matrimoniais para minorar as hipóteses do reacender da guerra entre os reis cristãos peninsulares.

As amantes

Algumas descrições, não coevas, referem que Sancho I era de estatura média e que tinha o rosto grande, a boca grossa e grande, os olhos pretos grandes, cabelo de cor castanho-escura quase preta e tinha barba. Afinal, em nada parecido com seu progenitor, que era alto, de rosto perfeito com olhos e cabelo castanho-claros.

Era um homem que gostava da caça, de correr touros e do convívio com os cortesãos. Nos serões passados na corte não faltava o vinho, os poemas e os jograis. E, claro, as mulheres.

Sancho I foi pai de 19 filhos. A sua fertilidade enquanto progenitor foi excepcional, da relação com a sua mulher, dona Dulce, teve 11 filhos. Para além de dona Dulce, a mulher legítima, são-lhe conhecidas duas amantes: Maria Pais Ribeira, a conhecida Ribeirinha, e Maria Aires de Fornelos, senhora da nobreza média. Delas teve também uma significativa prole. A primeira foi mãe de seis filhos, ao passo que a segunda gerou dois.

Ao que parece, estas ligações amorosas tiveram lugar após a morte da rainha, ou seja, entre 1198 e 1211., mas foram, provavelmente, também concomitantes. Estas amigas do rei tinham o seu lugar na corte e acompanhavam-no para onde se deslocava» In Paula Lourenço, Ana Cristina Pereira, Joana Troni, Amantes dos Reis de Portugal, 2008, Editora Esfera dos Livros, 2011, ISBN 978-989-626-136-8.

Cortesia de EEsferadosLivros/JDACT

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