segunda-feira, 17 de maio de 2021

Laurence Gardner. A Linhagem do Santo Graal. «De modo geral, já se reconhece que os capítulos iniciais do Antigo Testamento não representam o começo da história do mundo, como parecem sugerir. Mais precisamente, eles contam a história de uma família…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Ídolos pagãos do cristianismo

«(…) A nova era da construção de impérios começava com uma luta indigna por domínio territorial. O Reich alemão foi fundado em 1871, com a amálgama de estados até então separados. Outros estados se juntaram para formar o Império Austro-Húngaro. O Império Russo expandiu-se consideravelmente e, na década de 1890, o Império Britânico já ocupava nada menos que um quinto de toda a massa territorial do globo. Aqueles eram os dias dos resolutos missionários cristãos, muitos dos quais enviados da Inglaterra da rainha Vitória. Com a estrutura religiosa gravemente ferida em casa, a Igreja procurava uma justificativa no exterior. Os missionários viviam particularmente ocupados na Índia e na África, onde as pessoas já tinham as próprias crenças e nunca tinham ouvido falar de Adão. Mais importante, porém: nunca tinham ouvido falar de Charles Darwin! Na Inglaterra, um novo estrato intermediário na sociedade emergira dos empregadores da Revolução Industrial. Essa próspera classe média deixou a verdadeira aristocracia e a classe governamental muito longe do alcance do povo, efectivamente criando uma estrutura de classes, um sistema de divisões no qual todos tinham seu lugar designado. Os chefes e comandantes se refestelavam em empreendimentos arcádicos, enquanto os mercadores oportunistas competiam por espaço em meio ao consumo exacerbado. Os homens da classe trabalhadora aceitavam seu estado servil, com hinos de aliança, um sonho de Esperança e Glória, e um retrato da sua sacerdotisa tribal, Britannia, acima da lareira. Os estudiosos da história sabiam que não tardaria até que os impérios começassem a mirar uns aos outros, e previam o dia em que os poderes concorrentes se digladiariam em feroz oposição. O conflito começou quando a França se empenhou em recuperar a Alsácia-Lorena da ocupação alemã, enquanto as duas guerreavam pelas reservas de ferro e carvão do território. A Rússia e o Império Austro-Húngaro se enfrentavam em luta pelo domínio das Bálcãs e havia disputas resultantes de ambições colonialistas na África e noutros lugares. O pavio foi aceso em Junho de 1914, quando um nacionalista sérvio assassinou o arquiduque Fernando, herdeiro do trono austríaco. Nesse ponto, a Europa explodiu numa grande guerra, fortemente instigada pela Alemanha. As hostilidades foram dirigidas contra a Sérvia, Rússia, França e Bélgica, e a contra[1]ofensiva era liderada pela Inglaterra. A luta durou mais de quatro anos, chegando ao fim com uma revolta na Alemanha, quando o imperador (Kaiser) Guilherme II fugiu do país.

(…)

Na verdade, é imperativo conhecermos a origem histórica e o ambiente de Jesus para compreendermos os factos de seu casamento e sua paternidade. À medida que avançarmos, muitos leitores estarão pisando em solo totalmente novo, mas que já existia antes de ser acarpetado e escondido por aqueles cuja motivação era suprimir a verdade para reter o controle. Só quando removermos a carpete do disfarce estratégico, teremos sucesso na nossa busca pelo Santo Graal.

Linhagem dos Reis

De modo geral, já se reconhece que os capítulos iniciais do Antigo Testamento não representam o começo da história do mundo, como parecem sugerir. Mais precisamente, eles contam a história de uma família que se tornou uma raça compreendendo várias tribos, uma raça que se tornou à nação hebraica. Se Adão foi o primeiro de uma espécie, então ele deve ter sido o progenitor dos hebreus e das tribos de Israel. De facto, como descreve o livro, ele foi o primeiro de uma linhagem predestinada de governantes sacerdotais. Dois dos mais intrigantes personagens do Antigo Testamento são José e Moisés. Cada um teve um papel importante na formação da nação hebraica e ambos têm identidades históricas que podem ser examinadas independentemente da Bíblia. Em Génesis 41: lemos como José se tornou Governador do Egipto: disse o faraó a José: administrarás a minha casa, e à tua palavra obedecerá todo o meu povo; somente no trono eu serei maior que tu... Desse modo, fê-lo governar sobre toda a terra do Egipto. Referente a Moisés, em Êxodo 11:3, descobrimos também que: Moisés era muito famoso na terra do Egipto, aos olhos dos oficiais do faraó e aos olhos do povo. Entretanto, a despeito do status e de toda a proeminência, nem José nem Moisés aparecem em qualquer registo egípcio sob os seus nomes bíblicos. Os anais de Ramsés II (c.1304-1237 a.C.) especificam que o povo semita se assentou na terra de Gósen, explicando que também para lá se dirigiram os semitas vindo de Canaã, em busca de alimento. Mas porque os escrivães de Ramsés mencionariam esse povoado do delta do Nilo em Gósen? De acordo com a cronologia padrão da Bíblia, os hebreus foram para o Egipto uns três séculos antes da época de Ramsés e fizeram o seu êxodo por volta de 1491 a.C., muito antes que ele chegasse ao trono. Assim, diante desse registo em primeira mão, vemos que a cronologia padrão da Bíblia está incorrecta». In Laurence Gardner, A Linhagem do Santo Graal, 1996, 2001, Editor Madras, ISBN 978-857-374-882-6.

Cortesia de EMadras/JDACT

JDACT, Laurence Gardner, Literatura, Religião,

Laurence Gardner. A Linhagem do Santo Graal. «É fácil vermos hoje que a História Universal de 1779 estava errada. Sabemos que o mundo não foi criado em 4004 a.C.. Sabemos também que Adão não foi o primeiro homem na Terra?»

Cortesia de wikipedia e jdact

Ídolos pagãos do cristianismo

«(…) No decorrer de nossa jornada, confrontaremos um número de afirmações que podem, a princípio, parecer assustadoras, mas isso costuma acontecer quando se traz a história de volta às suas bases, pois a maioria das pessoas é condicionada a aceitar determinadas interpretações da história como factos. Muito do que aprendemos de história é por meio de propaganda estratégica, seja ela motivada pela Igreja ou por política. Tudo é parte do processo de controle; separa os mestres dos servos e os fortes dos fracos. A história política tem sido escrita por seus mestres: os poucos que decidem o destino e a sina dos muitos. A história religiosa não é diferente, pois seu desígnio é implementar o controle pelo medo do desconhecido. Dessa forma, os mestres religiosos retiveram sua supremacia à custa de devotos que genuinamente buscam iluminação e salvação. Quanto à história política ou religiosa, é evidente que os ensinamentos estabelecidos chegam às raias do fantástico, mas mesmo assim raramente são questionados. Quando estes são menos do que fantásticos, porém, costumam parecer tão vagos que quase não fazem sentido, se examinados em qualquer nível de profundidade. Em termos bíblicos, nossa busca do Graal começa com a Criação, conforme definida no livro do Génesis. Em 1779, um consórcio de livreiros de Londres publicou uma obra gigantesca com 42 volumes, Universal History, que viria a ser muito reverenciada e que afirmava, com grande grau de convicção, que o trabalho de Criação de Deus começou em 21 de Agosto de 4004 a.C. Surgiu, então, um debate a respeito do mês exacto, pois alguns teólogos achavam que 21 de Março seria uma data mais precisa. Todos concordavam, porém, que o ano estava correcto, e aceitavam que só seis dias tinham passado entre o nada cósmico e o surgimento de Adão. Na época da publicação, a Inglaterra se via em plena Revolução Industrial. Era um período instável de extraordinárias mudanças e desenvolvimentos, mas, assim como no acelerado ritmo dos avanços da actualidade, pagou-se um preço. As preciosas artes e técnicas de outrora se tomaram obsoletas diante da produção em massa, e a sociedade se reagrupava para acomodar uma estrutura comunitária com base na economia. Uma nova estirpe de vencedores emergia, enquanto a maioria da população cambaleava num ambiente desconhecido que nada tinha a ver com os costumes e padrões da sua educação. Certo ou errado, esse fenómeno é chamado de Progresso, e o seu critério inflexível é aquele preceito do naturalista inglês Charles Darwin: a sobrevivência do mais forte. O problema é que as chances de sobrevivência das pessoas costumam diminuir quando elas são ignoradas ou exploradas pelos seus mestres: aqueles mesmos pioneiros que forjam a rota do progresso, auxiliando (mas não garantindo) apenas a sobrevivência própria. É fácil vermos hoje que a História Universal de 1779 estava errada. Sabemos que o mundo não foi criado em 4004 a.C.. Sabemos também que Adão não foi o primeiro homem na Terra? Essas noções arcaicas já estão ultrapassadas; mas para as pessoas no fim do século XVIII, essa impressionante história era o produto de homens mais esclarecidos do que a maioria e, portanto, presumivelmente correcta. Vale a pena, portanto, fazermos a nós mesmos a seguinte pergunta, neste estágio: quantos factos aceitos pela ciência e pela história actualmente também serão considerados ultrapassados à luz de futuras descobertas? Dogma não é necessariamente verdade; é apenas uma interpretação fervorosamente divulgada da verdade, com base nos factos disponíveis. Quando novos factos influentes são apresentados, o dogma científico muda naturalmente, mas isso é raro de acontecer com o dogma religioso. Neste livro, estamos particularmente interessados nas atitudes e ensinamentos de uma Igreja Cristã que não presta atenção a descobertas e revelações, e que ainda mantém boa parte do dogma incongruente que remonta a tempos medievais. Como observou astutamente H. G. Wells no início da década de 1900, a vida religiosa das nações ocidentais subsiste numa casa da história construída sobre areia. A teoria da evolução de Charles Darwin em The Descent of Man, em 1871 não causou nenhum dano pessoal a Adão, mas a ideia de que ele seria o primeiro ser humano caiu por terra. Como todas as formas de vida orgânica no planeta, os humanos evoluíram por mutação genética e selecção natural, no decorrer de centenas de milhares de anos. O anúncio de tal facto encheu de horror a sociedade, orientada pela religião. Alguns simplesmente se recusavam a aceitar a nova doutrina, mas muitos caíram no desespero. Se Adão e Eva não eram os pais primordiais, não havia Pecado Original e, portanto, o próprio motivo do perdão não tinha fundamento! A maioria entendera de maneira completamente errada o conceito de Selecção Natural. As pessoas deduziam que, se a sobrevivência era restrita aos mais fortes, então o sucesso devia depender de superar o próximo! Estava nascendo uma nova geração, céptica e cruel. O nacionalismo egotista florescia como nunca antes na história, e as divindades domésticas eram veneradas como, no passado, adoravam-se os deuses pagãos. Símbolos de identidade nacional (como Britannia e Hibernia) se tomaram novos ídolos do Cristianismo. Dessa base insalubre se gerou uma doença imperialista, e os países mais fortes e avançados reivindicaram o direito de explorar as nações menos desenvolvidas». In Laurence Gardner, A Linhagem do Santo Graal, 1996, 2001, Editor Madras, ISBN 978-857-374-882-6.

Cortesia de EMadras/JDACT

JDACT, Laurence Gardner, Literatura, Religião, 

Laurence Gardner. A Linhagem do Santo Graal. «Com o passar dos séculos, uma contínua conspiração governamental e da Igreja tem prevalecido acima do legado messiânico»

Cortesia de wikipedia e jdact

«A Linhagem do Santo Graal é uma notável realização na área de pesquisa genealógica. São raros os historiadores familiarizados com factos tão bombásticos quanto os expostos neste livro. As revelações são absolutamente fascinantes e, sem dúvida, serão apreciadas por muitos como verdadeiros tesouros de iluminismo. Nelas se encontra a história vital daquelas questões fundamentais que ajudaram a dar forma à Igreja Cristã na Europa e nos Estados das Cruzadas. Talvez algumas pessoas considerem de natureza herética alguns aspectos deste livro. É direito de qualquer indivíduo acalentar tal visão, uma vez que as exposições inerentes são um tanto alheias à tradição ortodoxa. Contanto, permanece o facto de que Chevalier Labhràn penetrou as profundezas dos manuscritos disponíveis e dos dados arquivais de qualquer domínio convencional. O conhecimento desvelado resultante é apresentado de maneira muito articulada, interessante e apaixonante. Esta obra traz uma incrível visão dos séculos de alianças governamentais estratégicas, junto a engodos e intrigas inerentes. Durante cerca de dois mil anos, os destinos de milhões de pessoas têm sido manipulados por personalidades singulares, frequentem ente caprichosas, que pervertem as aspirações espirituais de nossa civilização. Com riqueza de detalhes, o autor removeu as constrições do interesse tendencioso para relatar numerosas histórias suprimidas de nossa herança. Fazendo isso, ele ressuscita a história politicamente silenciada de uma dinastia real resoluta que a Igreja há muito se esforça por extinguir, para garantir interesses próprios. Agora, nesta nova era de entendimento, que a verdade prevaleça e que a Fênix resulta mais uma vez». In Prefácio

«Após a Revolta dos Judeus em Jerusalém, no I século da era cristã, os senhores romanos teriam destruído todos os registos a respeito do legado de David da família de Jesus, o Messias. A destruição, porém, nunca foi completa, e alguns documentos relevantes foram guardados pelos herdeiros de Jesus, que trouxeram a herança messiânica do Médio Oriente para o Ocidente. Como confirma a Enciclopédia Eclesiástica de Eusébio, bispo de Cesareia, esses herdeiros eram chamados de Desposyni (antigo termo grego para do Mestre), um título sagrado reservado exclusivamente para aqueles da mesma descendência familiar de Jesus. Eles tinham o legado sagrado da Casa Real de Judá, uma linhagem dinástica existente ainda hoje. No decorrer deste livro, estudaremos a extraordinária história dessa linhagem soberana, desvendando um detalhado relato genealógico do Sangue Real Messiânico (o Sangréal) em descendência directa de Jesus e seu irmão Tiago. Contudo, para abordarmos esse tema, teremos de considerar primeiramente as histórias bíblicas do Antigo e do Novo Testamento sob uma perspectiva diferente daquela normalmente transmitida. Não estaremos reescrevendo a história, mas remodelando relatos conhecidos, levando a história de volta à sua base original, em vez de perpetuar os mitos de estilo estratégico daqueles cujos interesses são tendenciosos. Com o passar dos séculos, uma contínua conspiração governamental e da Igreja tem prevalecido acima do legado messiânico. Essa tendência aumentou quando a Roma Imperial desviou o curso do Cristianismo para servir a um ideal alternativo, e continua até ao presente. Muitos eventos históricos aparentemente não relacionados foram, na verdade, capítulos da mesma e contínua supressão da linhagem. Das guerras judaicas do 1º século d.C., passando pela Revolução Americana do século XVIII e além, as maquinações têm sido perpetuadas por governos europeus e ingleses, em colaboração com a Igreja Católica Romana e a Igreja Anglicana. Nas suas tentativas de restringir o direito nato real de Judá, os Altos Movimentos cristãos instalaram vários regimes próprios, tal como a própria Casa de Hanover, da Grã-Bretanha, SaxeCoburg, Gotha. Essas administrações foram forçadas a apoiar doutrinas religiosas específicas, enquanto outras foram depostas por pregar a tolerância religiosa. Agora, na entrada de um novo milénio, é hora de reflexão e reforma no mundo civilizado, e para a realização dessa reforma é apropriado considerar os erros e os sucessos do passado. Para essa finalidade, não há registo melhor do que o existente nas crónicas do Sangréal. A definição Santo Graal apareceu pela primeira vez na Idade Média, como um conceito literário, baseado (como veremos mais adiante) numa série de erros de interpretação por parte de escrivães. O termo derivava imediatamente como uma tradução de Saint Grail e das antigas formas San Graal e Sangréal. A antiga Ordem do Sangréal, uma Ordem dinástica da Casa Real Escocesa de Stewart, era directamente aliada à continental Ordem Europeia do Reino de Sion, e os cavaleiros de ambas as Ordens eram adeptos do Sangréal, que define o verdadeiro Sangue Real (o Sang Réal) de Judá: a A Linhagem do Santo Graal.

[…]

In Laurence Gardner, A Linhagem do Santo Graal, 1996, 2001, Editor Madras, ISBN 978-857-374-882-6.

Cortesia de EMadras/JDACT

JDACT, Laurence Gardner, Literatura, Religião,

domingo, 16 de maio de 2021

Maria Amália Carvalho. Contos e Fantasias. «As poucas pessoas que o veem ou o desprezam por ser absolutamente insignificante ou têm por ele a comiseração que inspira um idiota»

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«(…) Neste momento Margarida entrava pelo quarto de Tadeu, pálida como um cadáver, com os grandes olhos dilatados numa expressão de indescritível pavor. Agarrou-se-lhe ao braço e disse lhe baixo, numa voz estrangulada e rouca: Henrique chegou da quinta. Eu não o esperava. Contava que ele viesse amanhã. No meu gabinete há uma pessoa que deve sair sem que o meu marido a veja. Ouves? Estou perdida... Estava perdida mas lembrei-me de ti… Salva-me... Não me digas nem uma palavra, prosseguiu vendo que ele ia falar. Uma demora de segundos perde-me sem remissão. E saiu com o seu passo miudinho, o seu passo chic, aprendido de passagem nos boulevards de Paris. Tadeu saiu do quarto, e quando voltou a entrar ali, acompanhava-o um rapaz muito pálido, de bigode louro, cabelo cuidadosamente frisado e toilette irrepreensível. Não trocaram uma palavra. Tadeu apontou-lhe para uma cadeira, fechou a porta do quarto à chave e sentou-se junto da janela, que dava sobre o jardim. Era em plena Primavera. Pela janela aberta entrava um perfume vago e subtil, um perfume de rosas, de madressilva e de baunilha em flor. Ouvia-se o rir e o chilrear das duas crianças, e entre as ramarias entrelaçadas dos grandes arbustos exóticos, Tadeu viu passar com os seus meneios serpentinos, o seu vestido branco, a sua cabeladura douro, a figura esbelta de Margarida pendida ao braço do esposo com quem falava baixinho. Foi a última visão que teve dela. Uma visão de perfídia felina e de felina formosura.

Deixe-se estar quieto. Não vê que não pode sair deste quarto senão à noite? Pronunciou a voz enrouquecida de Tadeu. E sem dar mais atenção ao seu odioso hóspede, pôs-se a arranjar papéis, uma trouxa de roupa, algumas velhas relíquias, os retratos dos seus dois pequeninos, dos seus netos como ele lhes chamava. Depois despregou da parede as duas fotografias de Henrique e de Margarida. A dele beijou-a, e guardou-a com as dos pequeninos. A dela... Aproximou-a de uma vela que acendera e deixou-a arder até que ficaram só cinzas. Estava medonhamente lívido.

Era noite: sentiu o rumor conhecido da hora de jantar, esperou que o criado viesse chamá-lo e respondeu-lhe: diga aos senhores que jantem. Eu hoje estou convidado fora, não os posso acompanhar. Olhou para o homem que ali estava na mudez estúpida dos malvados, que são ridículos, e disse-lhe: venha daí. Saíram juntos. Tadeu nunca mais voltou; não pôde. Pediu a esmola de um agasalho à irmã de Henrique, e achou meio de fazer num escritório cópias que lhe rendem três tostões diários! Disso come e disso se veste. Fingiu-se ofendido com Henrique por uma dúvida mesquinha de contas, que este nunca chegou a perceber. Aceitou o papel degradante do ingrato que morde a mão que o socorreu. Ninguém pôde nunca arrancar-lhe nem uma palavra do seu segredo. Tem 35 anos e dão-lhe setenta. As poucas pessoas que o veem ou o desprezam por ser absolutamente insignificante ou têm por ele a comiseração que inspira um idiota.

O Tio Sebastião

Não havia coisa que mais alegrasse o tio Sebastião, um velhito que conheci numa aldeia perto de Braga, do que falarem-lhe no filho que estudava em Coimbra. Sorriam-se-lhe os olhos, e um contentamento intraduzível espelhava-se-lhe no rosto. Quando lhe elogiavam o carácter, o talento, a bondade e a aplicação do rapaz, ele fingia que não acreditava, dizia que não era tanto assim… E repetia: favores, meu amigo, favores... Mas lá no íntimo agradecia aquilo tudo, e tinha vontade de apertar nos braços a pessoa que falava com tamanho louvor do filho estremecido. Quando ele descobria o seu fraco, era quando lhe elogiavam na presença outro rapaz, outro estudante. Sim, sim, mas como o meu! Não é porque o rapaz seja meu filho, mas disse-me o prior, e olhe que o prior não é tolo nenhum, pois disse-me o prior que o meu pequeno era o melhor estudante que andava nas aulas de Braga, que lho tinham dito os próprios mestres. Aquilo tem uma memória! E então ler! Às vezes estava horas e horas a ouvi-lo, dava gosto. O talho da letra já foi melhor, isso foi, mas o prior, a quem eu disse isto, consolou-me, dizendo-me que todos os doutores tinham má letra. Assim será, mas as primeiras cartas que o pequeno me escreveu, quando foi para o estudo, podem mostrar-se:.. Quer você ver uma dessas cartas?...

Toda a gente da aldeia gostava do velho, e não havia uma só pessoa que para o lisonjear, ao encontrá-lo, lhe não perguntasse pelo filho. Obrigado, vai bom! E com um sorriso doce, enternecido e caricioso envolvia o da pergunta. O tempo das férias, sobretudo as do Natal, que é quando se mata o porco, e se fazem filhós, e se conversa animadamente em volta da lareira, era ansioso e impacientemente esperado pelo velho; todas as noites ia ao reportório, que tinha à cabeceira da cama, e pondo uma cruz no dia que findara, dizia jubiloso: é de menos um! Na véspera da chegada do filho, era uma azáfama, um revolver as velhas arcas de onde se exala um forte cheiro de maçãs camoesas, e um andar tudo numa poeira naquela casa. Esta cama não tem roupa bastante, Joana, dizia para a criada; vá buscar mais um cobertor!» In Maria Amália Vaz de Carvalho, Contos Fantasias e Reflexões (da primeira mulher a ingressar na Academia das Ciências de Lisboa), 1880, Luso Livros, Nova Forma de Ler, ePub, Uma História Verdadeira, Wikipedia.

Cortesia de LLivros/JDACT

Academia das Ciências de Lisboa, Contos, JDACT, Maria Amália Vaz de Carvalho,

Contos e Fantasias Maria Amália Carvalho. «Quando Tadeu pensava que podia uma fatalidade qualquer separá-lo dos seus dois anjos, desatava a chorar como um perdido na solidão do seu quarto»

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«(…) Não era bem amor, era uma fascinação, uma embriaguez, uma destas doenças que exercem no cérebro a sua acção paralisadora.  Margarida que nenhuma força superior tentava dominar, dera expansão completa a todos os caprichos da sua colorida e quente fantasia. Adorava o luxo, as coisas de arte, a música, as flores raras, frequentava muito o alto mundo onde era requestadíssima, vivia na perpétua idolatria de si própria, que a pouco e pouco a inutilizava para os graves deveres da vida. Tadeu no meio da sua cega e embrutecedora adoração obedecia-lhe como um escravo. Só ele sabia as despesas colossais, as extravagâncias principescas daquela pequenina pessoa, activa, graciosa, fantasista como um poeta oriental.

Mas economizava ridiculamente em todas as verbas, para que ela, a rainha, a pérola, a Margarita dos seus sonhos doutro tempo não franzisse um minuto a sua testa curta, a sua testa de teimosa, na contrariedade de um desejo insaciado. E ela estava tão habituada à submissão e à humildade daquele pária, que o tratava como um traste, um objecto seu, com o qual não tinha de mostrar o mínimo constrangimento, a mínima atenção afectuosa. Tadeu, quero isto! Tadeu, quero aquilo! Tadeu, vi hoje na loja de F. um adereço de um conto de réis. Se o não mandar buscar até amanhã vendem-no. Eu quero-o. Não me deixes ficar sem ele. Fazias-me chorar!

Não lhe pedia a lua como em outro tempo, mas quantas vezes lhe pedia coisas quase tão inacessíveis como a lua! Margarida tinha dois filhos. Um menino e uma menina. Dois querubins. Mais meigos do que a mãe nunca fora, mais dóceis, mais tranquilos, tendo no olhar a serenidade melancólica do olhar do seu pai! Tadeu envelhecido, de uma velhice precoce que assombrava os que o tinham conhecido na infância, tinha por essas duas crianças um louco amor de avô. Aqueles quatro seres eram a sua vida. Fundia-os a todos na mesma adoração apaixonada e tímida. Vivia deles e para eles.

Henrique era o seu respeito. Margarida o ídolo do seu passado, os dois querubins louros, a única esperança suave do seu futuro. Sacrificar-se, esquecer-se, abnegar de si, eis o modo obscuro e sublime pelo qual ele sabia querer! Mas os dois pequeninos que não eram turbulentos nem cruéis, tinham nas suas caricias inconscientes o bálsamo poderoso, o bálsamo divino para as chagas ocultas daquele coração que a vida ulcerara tanto e tanto.

Desde algum tempo que Tadeu andava inquieto. Com o seu faro finíssimo de rafeiro fiel pressentia no ar um perigo desconhecido, alguma coisa de misterioso e de sinistro, que ouvia rugir ao longe como no fundo de uma voragem. Na aparência todos viviam tranquilos: Henrique sempre bom, sério, pensativo, de uma indulgência de forte, de uma doçura de herói. Margarida sempre buliçosa, inquieta, cheia de desejos infantis, de caprichos, de alegrias ruidosas ou de melancolias súbitas que ás vezes no silêncio da sala fofa e discreta pareciam a Tadeu um grito de alarme na monotonia do deserto. As criancinhas... Sempre os seus mais doces amores, aqueles de que nunca lhe proviera uma amargura. Quando Tadeu pensava que podia uma fatalidade qualquer separá-lo dos seus dois anjos, desatava a chorar como um perdido na solidão do seu quarto.

Ele estava sentado ao pé da mesa. Primeiro estivera fazendo contas, as despesas da casa, agora pendia-lhe a cabeça embevecido num vago pensamento. Sem saber explicar porquê, naquele dia lembravam-lhe tantas coisas do seu passado!... Sentia dentro de si uns vagos assomos de revolta, lembrando-se das humilhações que padecera, dos tratos com que lhe tinham enfraquecido o corpo e atrofiado a inteligência. Depois... Na sua vida, até ali obscura e dolorosa, surgia de repente envolta nas rendas brancas do seu berço uma visão deliciosa, uma pequena fada, a sua amiguinha, a sua Margarida f... Como fora feliz com ela e por amor dela... Contudo... Pensando bem... Para essa felicidade quimérica fora ele quem fornecera todos os elementos. Ela nunca vira no pobre Tadeu senão um instrumento dos seus caprichos, um escravo das suas vontades... Em todas as delícias com que dourara a sua vida não havia uma só que fosse nascida da vontade de ser-lhe boa, útil, consoladora!... E verdade, murmurava o pobre doudo, é verdade! Ela nunca teve coração! E suspendeu se como que aterrado daquela blasfémia». In Maria Amália Vaz de Carvalho, Contos Fantasias e Reflexões (da primeira mulher a ingressar na Academia das Ciências de Lisboa), 1880, Luso Livros, Nova Forma de Ler, ePub, Uma História Verdadeira, Wikipedia.

Cortesia de LLivros/JDACT

Academia das Ciências de Lisboa, Contos, JDACT, Maria Amália Vaz de Carvalho,

sábado, 15 de maio de 2021

Rosa Brava. José Manuel Saraiva. «Deslocada do sereno ambiente onde nasceu, cresceu e foi educada, Maria Teles, irmã da senhora do morgado de Pombeiro, começava a sentir cada vez mais e maiores dificuldades de adaptação a Lisboa e ao movimento da corte»

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«(…) Apesar do pouco tempo que dom Fernando levava de reinado, começavam portanto a ser já muitas as críticas da nobreza e do clero, sobretudo do alto clero, ao comportamento irresponsável, mandrião e mulherengo do monarca; mas mais e pior do que essas eram as que, embora por motivos diferentes, provinham da arraia-miúda, de cujo universo faziam parte a peonagem, os rendeiros, os colonos, os servos, os assalariados rurais, os mesteirais, os mercadores-ambulantes e os pobretões. Na realidade, era o povo a principal vítima dos medonhos abusos de poder e jurisdição dos grandes senhores; era ele que por não ter ninguém que o protegesse chegava a clamar pela sua própria venda aos mouros para não continuar na sujeição a que se via obrigado. Alarmado com a perspectiva do desastre para o país no caso de as notícias sobre a hipotética aliança do monarca com a infanta se confirmarem, João Lourenço Cunha soltou a certa altura em voz alta, de si para si, um sofrido desabafo: isto vai mal! Claro que não era o eventual casamento de dom Fernando que o inquietava, pela absoluta certeza de que a cada homem cabia a liberdade da escolha ou o desígnio da imposição, sobretudo se fosse rei, mas sim as consequências decorrentes do consórcio dos dois irmãos. Quanto ao resto, mais propriamente sobre as queixas do povo que se ouviam por toda a parte, não se ralava. Pelo contrário. Considerava até que dom Fernando estava a ser demasiado brando com a plebe, improcedendo assim as políticas de rigor e autoridade dos antecessores Afonso IV, seu avô, e dom Pedro, seu pai. Para o morgado, ambos tinham dado um excelente exemplo de governação ao associarem novas disposições legais aos regulamentos já subscritos pelos monarcas anteriores, permitindo a sacerdotes e a magistrados que, a coberto do poder das suas vestes talares, negras e medonhas, aplicassem severas medidas sentenciais como a decapitação pela espada, a amputação dos pés, das mãos, do nariz e das orelhas, o britamento dos dentes, a extracção da língua ou mesmo a combustão. No seu desvairado entendimento, tornava-se indispensável frenar o povo, moderar-lhe os impulsos, mantê-lo no lugar onde por alguma razão Deus o pusera, e dar-se continuidade à escola de dom Pedro, esse bem-aventurado Justiceiro que nunca abriu brechas na sociedade ao não consentir quaisquer fidúcias à arraia-miúda nem deixar o alto e baixo cleros arrogarem-se uma autoridade para além da que lhes era admitida.

Foi, pois, a pensar em tudo isto, sobre o que lhe disseram em Coimbra acerca do rei dom Fernando e sobre o que sabia do modo como o rei dom Pedro exercera anteriormente o seu poder, severo e nivelador, punindo com as próprias mãos os desmandos de ricos e pobres, plebeus e poderosos, nobres e clérigos, judeus e vagabundos, almirantes e bispos, que João Lourenço Cunha adormeceu, por fim, no banco defronte à lareira já quase em extinção, ausente da mulher e cansado da viagem. E nem o lúgubre piar dos mochos e das corujas, que naquela noite de vento lhe rondavam a casa como anúncio de morte ou de tragédia, o despertou do sono profundo em que caíra.

Deslocada do sereno ambiente onde nasceu, cresceu e foi educada, Maria Teles, irmã da senhora do morgado de Pombeiro, começava a sentir cada vez mais e maiores dificuldades de adaptação a Lisboa e ao movimento da corte. Tinham passado cinco meses apenas sobre o dia em que deixou Barcelos, mas ainda assim um longo período para uma mulher habituada a ser servida, e nunca a servir os outros. É certo que se afeiçoara a dona Beatriz, de quem era camareira e se tornara entretanto moderada confidente, mas as saudades da Beira e a nostalgia do passado excediam em tudo o que a surpreendia e se lhe revelava. No Paço ou nas residências reais da alcáçova e de Santo Elói já ela havia visto muita gente venerável, lentes, magistrados, arcebispos, donzelas de linhagem e fidalgos de valia, e conhecido pessoalmente até o execrável Diogo Lopes Pacheco, um dos assassinos de Inês de Castro, frequentador assíduo da corte, senhor de Trancoso e um dos mais notáveis políticos do reino, Álvaro Pais, vedor-mor da chancelaria, dom Martinho, bispo de Lisboa, o enfezado Nun'Álvares Pereira, e três dos quatro irmãos do monarca: dom Afonso, dom Dinis e o bastardo dom João, mestre de Aviz. Faltava-lhe conhecer apenas dom João Castro». In José Manuel Saraiva, Rosa Brava, Oficina do Livro, 2005, ISBN 978-989-555-113-2.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

JDACT, José Manuel Saraiva, Literatura, Cultura e Conhecimento,

José Manuel Saraiva. Aos Olhos de Deus. «… quando regressardes, não vos esqueçais de trazer essa Raquel, a judia vossa amiga, à minha corte. Gostava de a conhecer»

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«(…) Das margens do Tejo troava já nessa altura uma gritaria infrene. E ela foi crescendo à medida que o cortejo, entretanto formado, se deslocava lentamente do local da celebração eucarística para o cais de embarque, num percurso aproximado de quinhentos passos. À frente seguiam o arcebispo com a cruz de ferro e um jovem fidalgo com o estandarte branco e carmesim dos Cavaleiros da Ordem de Cristo, benzido na oblação pelo arcebispo Martinho; logo atrás, enquadrado por dezenas de pajens vestidos de veludo e seda púrpura, caminhava el-rei Manuel I de espada à cinta e na cabeça desgrenhada a coroa de ouro embutida a diamantes e outras pedras preciosas; na esteira do soberano, por ordem de importância, marchavam o embaixador Tristão Cunha, o orador Diogo Pacheco, o magistrado João Faria, o moço de escrivaninha Garcia Resende, o guarda do elefante, Nicolau Faria, e os capitães e capitães-mor das cinco naus. Os filhos de Tristão Cunha, Nuno, Simão e Pero Vaz, os consignatários do alto clero convidados pelo imperante, os amados nobres de Sua Alteza e os restantes membros da comitiva à cúria romana, num total de duzentos, completavam o desfile cuja chegada ao cais foi saudada pela multidão em delírio, soltando berros à desgraça e à alegria, vivas ao rei e ao papa e, como de costume, morras aos judeus e aos hereges. Uma salva de artilharia, mandada disparar pelo almirante-mor do reino, marcou a chegada do cortejo ao molhe onde Sua Alteza, arrebatado por um sentimento de felicidade jamais sentida, procedeu à entrega do estandarte ao comandante da esquadra.

Que o vento vos leve e o vento vos traga na santa paz de Deus!, disse o rei no momento em que depositava o pavilhão nas mãos do oficial. E, comovido, acrescentou: tenho a certeza de que esta não será a viagem mais audaciosa das que já haveis realizado até hoje; mas é seguramente uma das mais notáveis, senão mesmo a mais notável das que empreendestes como marinheiro. Carregado de orgulho e de vaidade, o capitão ajoelhou-se aos pés do soberano, beijou-lhe as botas enlameadas, voltou a aprestar-se e respondeu num tom forte, definitivo: obrigado, meu senhor, pela honra de me haverdes escolhido para comandar a flotilha. E juro por Deus, aqui mesmo, em nome do vosso interesse e dos interesses de Portugal, fazer chegar sem mácula à cúria de Roma todos os bens que decidistes enviar a Sua Santidade. Deus vos ouça, bem-aventurado capitão!, acrescentou o rei, enquanto olhava para o interior da nau que transportava o elefante.

Ele está a ouvir-nos, garantiu o arcebispo, à parte, em voz baixa. Sob o clamor torrencial da caterva cada vez mais histérica, exuberante, Manuel I despediu-se de todos, um por um, com solenidade e distanciamento, deixando para último o seu amigo dom Diogo Pacheco a quem, como de costume, estreitou o corpo num abraço intenso e breve. Tão breve quanto o tempo que levou a segredar-lhe: quando regressardes, não vos esqueçais de trazer essa Raquel, a judia vossa amiga, à minha corte. Gostava de a conhecer. Diogo Pacheco não sorriu, nem respondeu. Apenas curvou a cabeça e disse com ar sério, num tom quase sumido: que Deus vele pela vossa saúde, meu rei e meu senhor! Meia hora mais tarde, já o monarca tinha aliviado a cabeça da pesada coroa e a comitiva se acomodado no ventre infecto das naus, foi dada a ordem de partida pelo capitão da esquadra, no tombadilho da proa do primeiro navio: afastar pranchas das escotilhas, gritou. As pranchas foram afastadas. Soltar amarras, largar velas, voltou a berrar com mais vigor, ainda. As amarras foram soltas. Uma nova salva de artilharia, a que sucedeu o toque dos sinos de todos as igrejas da cidade, marcou o fim da cerimónia em terra. Do sudoeste levantara-se, entretanto, um vento forte e frio como punhais. Eram onze horas da manhã». In José Manuel Saraiva, Aos Olhos de Deus, Oficina do Livro Editor, 2008, ISBN 978-989-555-364-8.

Cortesia de OdoLivroE/JDACT

JDACT, José Manuel Saraiva, Literatura, Cultura e Conhecimento, 

Aos Olhos de Deus. José Manuel Saraiva. «Recuperado do susto, tranquilizado posteriormente pelo seu médico particular e bom amigo, o soberano quis dar a todos um sinal de confiança e vigor físico…»

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«(…) Nesse dia não houve jogos de péla, nem lançamento de foguetes, nem cortejo real entre a Sé e o cais, sequer manifestações iguais ou idênticas às que marcaram, dias antes, a chegada a Lisboa das naus da Índia. A festa concentrou-se essencialmente nas margens do rio, numa extensão que uniu a zona dos paços reais à praia de Nossa Senhora de Belém. E foi em Nossa Senhora de Belém, ao ar livre, num espaço lamacento e irregular, quase defronte ao local onde decorriam as obras de construção do mosteiro dos Jerónimos, que o arcebispo de Lisboa presidiu a uma missa em glória a Deus e à Virgem, em honra do papa e do rei, e, por questões de economia, de homenagem aos ilustres enviados do monarca português à cúria romana. A oblação durou duas horas e só não demorou mais tempo porque Sua Alteza teve, a dado momento, um ligeiro achaque, com certeza por causa do frio e de uma noite mal dormida, ou pelo choque da emoção, ou, hipótese também provável, por todas as circunstâncias associadas.

Recuperado do susto, tranquilizado posteriormente pelo seu médico particular e bom amigo, o soberano quis dar a todos um sinal de confiança e vigor físico: desajeitou dos ombros o manto de carmesim rendilhado a peloticas de ouro, ergueu a espada ao céu para disfarçar o sobressalto e bradou com a voz firme, poderosa: Deus está com o rei dos portugueses! Todos responderam em coro: e os portugueses estão com o rei! Amén, agradeceu. Amén, rejubilaram os fiéis. Junto ao altar-mor improvisado, assente em troncos aplainados de madeira coberta por uma espessa camada de gravilha e areia grossa, o arcebispo Martinho Costa assistia comovido àquela súbita manifestação de culto ao rei e de fé em Cristo. De abraços abertos, ligeiramente arqueados, como se quisesse com esse gesto de exagerado amaneiramento envolver os crentes no mesmo espasmo de amor e redenção, o clérigo semicerrou os olhos e, com lágrimas deslizando sobre o rosto, exultou: Deus seja louvado! Louvado seja o Senhor!, responderam outra vez os fiéis, emocionados.

O espaço para a celebração da missa havia sido reservado exclusivamente a Sua Alteza Real, a um restrito grupo de fidalgos da sua imensa corte, talvez os mais próximos, os mais queridos, aos membros do alto clero da simpatia do soberano, aos ilustres representantes do rei na comitiva ao Papa e aos capitães e capitães-mor dos navios com destino a Roma. Os restantes, pilotos e sota-pilotos, mestres e contramestres, pajens e despenseiros, barbeiros e cirurgiões, artífices e carpinteiros, marinheiros e grumetes – foram colocados à parte e mantidos a considerável distância da selecta assistência, pelos guardas do imperante. Acabámos de assistir a um milagre, continuou o prelado do cimo do púlpito, afirmando-se na ideia de que Deus estava ali, observador, vigilante, sempre atento a qualquer investida demoníaca contra o sucesso da empresa do piíssimo Manuel I, se não mesmo contra a saúde e o bem-estar do soberano. Ao ouvirem as palavras do clérigo, carregadas de certeza, emoção e fé, os homens ajoelharam-se de imediato na terra lamacenta para rezar o Pater noster, todos de mãos postas, numa comovente união de afecto e testemunho. E até o monarca, depois de o alferes-mor da corte lhe ter estendido aos pés um manto emprestado na mesma hora por um monge hieronimita que assistia o arcebispo, se prosternou como os outros e, como os outros, orou pela salvação própria e agradecimento ao Altíssimo. Finda a oração, já com os fiéis de novo aprestados, o arcebispo Martinho Costa ainda tentou prosseguir a litania, mas o barulho era tanto e tamanho o desalinho da multidão que apenas se limitou a proferir um simples voto: ide em paz e segurança! Que o Senhor vos acompanhe à Cidade Santa e lá possais encontrar de boa saúde o sapientíssimo e Santíssimo Padre, clementíssimo Leão, magnânimo príncipe da cristandade. Amén, acrescentaram alguns devotos, os que ainda conseguiram ouvir as últimas palavras do arcebispo. Ad perpetuam rei memoriam concluiu o eclesiástico, desenhando no espaço o sinal da cruz com a mão direita. E a missa acabou». In José Manuel Saraiva, Aos Olhos de Deus, Oficina do Livro Editor, 2008, ISBN 978-989-555-364-8.

Cortesia de OdoLivroE/JDACT

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sexta-feira, 14 de maio de 2021

A Biblioteca Perdida. AM Dean. «Emily ficou olhando a folha criptografada, completamente intrigada. Aquilo tudo tinha toda a aparência de um conjunto de… pistas. Sua confusão silenciosa diante da estranha página»

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Minnesota

«(…) Talvez tenha escrito sobre esse assunto. Enquanto ele estava falando, a máquina de fax começou a funcionar com uma sequência abrupta de bipes e cliques. Emily se levantou da cadeira e caminhou até à mesinha onde ela estava. De uma coisa eu sei, observou Welsh. Ele descobria coisas em qualquer lugar aonde fosse. E, como você diz, passou um grande tempo no Egipto. Então, talvez haja alguma ligação, se tiver interesse em pesquisá-la. Mas quaisquer que fossem os interesses dele, eles agora estão acabados. Aquilo não era humor negro de primeira classe, mas pelo menos era preciso. No momento seguinte, uma folha de papel começou a aparecer na bandeja da máquina de fax. Quando uma segunda folha entrou no alimentador, Emily puxou a primeira de um rolo lento e a ergueu no nível dos olhos. Embora a qualidade fosse ruim e o fundo da carta estivesse ligeiramente cinzento em virtude do scaneamento em preto e branco do que Emily suspeitava ser a cor creme da carta original, o conteúdo era claramente legível. À medida que ela lia, seu corpo ia ficando cada vez mais tenso.

A força com que Emily segurava o papel era quase suficiente para rasgá-lo. Pegou a segunda folha que surgia na máquina de fax. Sua mente ficou intrigada diante do que se apresentava. Uma única linha de texto era seguida por um emblema desconhecido. Abaixo dele, três frases que não mostravam nenhuma relação óbvia entre si estavam listadas.

Duas para Oxford e uma para mais além.


Igreja da Universidade, a mais antiga de todas; Orar, entre duas Rainhas; Quinze, se for de manhã.

Emily ficou olhando a folha criptografada, completamente intrigada. Aquilo tudo tinha toda a aparência de um conjunto de…  pistas. Sua confusão silenciosa diante da estranha página só foi interrompida quando ouviu Welsh se aproximando. Ele tinha observado o olhar intenso de Emily enquanto as folhas saíam da máquina, e tinha decidido ver o que estava absorvendo tão completamente a atenção dela. Quando Emily o ouviu se aproximando, segurou os papéis contra o peito. Que foi? O que foi que desviou sua atenção tão de repente?, perguntou. O que você tem aí? Está tudo bem? Não é nada, não, repetiu Emily, não sei. Pelo menos o último comentário era totalmente verdadeiro. Com sua pulsação continuando a acelerar, Emily, de repente, sentiu-se desconfortável na presença dos seus colegas. Será que eles deveriam ver aquilo? Sem saber exactamente porquê, ela ansiava por privacidade. Sinto muito, preciso ir. Sem olhar nos olhos deles e sem esperar uma resposta, Emily dobrou as páginas que segurou na mão e saiu da sala; a porta bateu depois que ela saiu». In AM Dean, A Biblioteca Perdida, 2012, Editora Prumo, 2012, ISBN 978-857-927-298-1.

Cortesia de EPrumo/JDACT

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AM Dean. A Biblioteca Perdida. «Como foi que conseguimos que ele viesse para cá?, perguntou Emily, interrompendo aquela temporária frivolidade. Ainda estava chocada demais para fazer brincadeiras…»

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Minnesota

«(…) Vocês se importam se eu me sentar convosco?, perguntou. Suponho que estejam falando sobre Arno. Simplesmente não posso acreditar. Nós também não, respondeu Preslin, mexendo a cabeça num gesto acolhedor. Mas eventos dramáticos não são exactamente estranhos para Arno Holmstrand. E o único académico que eu conheço que consta na lista de terroristas feitas por três países diferentes, por causa do tempo que passou no Oriente Médio. Os EUA, a Grã-Bretanha e a Arábia Saudita o consideram uma pessoa de interesse. E o gabinete do Reitor recebeu uma ligaçãozinha telefónica bacana do Departamento de Segurança Interna quando ele veio para cá, querendo saber se nós conhecíamos o passado interessante dele, acrescentou Welsh. Nós falamos para eles que sim, continuou Preslin, que tinha trabalhado por dois semestres num cargo burocrático da universidade antes de retomar a sua função predominantemente docente. Mas acrescentamos que o velho tinha recebido honras em cinco países, tinha sido condecorado pela rainha da Inglaterra com a Ordem do Império Britânico e possuía títulos honorários de sete universidades diferentes.

Emily listou na sua cabeça os nomes que conhecia devido à imensa publicidade que tinha sido gerada em torno da nomeação de Holmstrand. As condecorações penduradas nas paredes da sala dele vinham de Stanford, Notre Dame, Cambridge, Oxford, Edinburgh, Sorbonne e da Universidade do Egipto. E esses eram apenas os que Holmstrand mencionava quando lhe perguntavam. Provavelmente havia uma enorme lista de outras instituições. Mas parece que o governo não achou que isso tinha importância, continuou Preslin. E independentemente de quantas vezes nós lhes disséssemos que o trabalho no Oriente Médio era arqueológico, eles viviam voltando ao ponto. Dava p’ra pensar que escavação arqueológica era um código para acampamento terrorista no vocabulário do governo. Olha, talvez seja mesmo, acrescentou Welsh. Os dois homens deram uma gargalhada sombria.

Como foi que conseguimos que ele viesse para cá?, perguntou Emily, interrompendo aquela temporária frivolidade. Ainda estava chocada demais para fazer brincadeiras, mesmo que fosse numa espécie de homenagem amigável. Nós não conseguimos, respondeu Welsh. Nós podemos ser uma instituição de primeira linha, mas não chegamos nem aos pés das universidades onde Holmstrand costumava actuar. Ele veio porque quis vir. A proposta partiu dele. Ele disse que queria paz e tranquilidade depois de suas aventuras, e desejava voltar às suas raízes numa cidade pequena. Carleton o atraiu, e ele nos escreveu. Ele até se mostrou disposto a aceitar um salário de iniciante, já que não era pelo dinheiro que estava querendo vir para cá.

Não, eu não imaginaria que fosse, disse Emily. Ela deixou que se passasse um momento de silêncio. O conteúdo da carta de Arno não lhe saía da cabeça. Sabem se Holmstrand tinha alguma coisa a ver com a Biblioteca de Alexandria?, perguntou finalmente, não podendo conter a sua curiosidade. Os olhares que vieram dos dois colegas expressavam surpresa. Nenhum dos dois esperava que a conversa tomasse esse rumo. A biblioteca antiga? A biblioteca perdida? O que quer dizer? Não tenho a certeza. Sei que ele estava profundamente envolvido com assuntos egípcios. Mas será que ele pesquisava particularmente a Biblioteca de Alexandria? Será que a estudava? Escrevia sobre ela? Preslin coçou o queixo. Não que eu saiba, respondeu. Mas o homem publicou quase 30 livros. Quem sabe?» In AM Dean, A Biblioteca Perdida, 2012, Editora Prumo, 2012, ISBN 978-857-927-298-1.

Cortesia de EPrumo/JDACT

JDACT, AM Dean, Literatura, Mistério,

A Biblioteca Perdida. AM Dean. «Emily firmou a voz. A carta, Mike, trata da morte dele. Ele a escreveu antes de ser morto, sabendo que seria morto»

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Minnesota

«(…) Assassinado? No gabinete dele. Levou três tiros. Ela fez uma pausa e, sem querer, deu um tom ainda mais dramático ao que estava contando. Meu Deus, Emily , sinto muito! As palavras consoladoras de Michael eram sinceras, mas havia alguma hesitação nelas. Algo além de uma preocupação protectora e masculina chamava a sua atenção. Na verdade eu não o conhecia de facto, comentou Emily. Havia alguma falsidade nas suas palavras. Ela não conhecia Arno, mas sabia dele, admirava-o, acompanhava-o de longe. E estava sentindo muito a sua perda, independentemente do que deixasse transparecer ao telefone. Isso não faz tanta diferença, prosseguiu Michael. Quem atirou nele? Ninguém sabe. As investigações estão em curso. Há polícias por todo o campus. Dizem que parece ter sido um serviço profissional. As indicações são de um assassinato. Emily respirou fundo e engoliu em seco. E a coisa toda fica mais esquisita. Ela fez uma pausa para que Michael a sondasse, fizesse perguntas, mas ele permaneceu calado e, então, ela continuou. Hoje pela manhã, encontrei uma carta no meu gabinete. Escrita à mão, entregue pessoalmente. De Arno Holmstrand.

Emily firmou a voz. A carta, Mike, trata da morte dele. Ele a escreveu antes de ser morto, sabendo que seria morto. O silêncio continuava do outro lado da linha. E esta é a parte em que você realmente não vai acreditar. A carta me deu instruções para ligar para um determinado número de telefone que ele havia escrito no verso, sem nenhum nome a acompanhar. E aqui estou eu, falando com você. Finalmente, Michael falou. Na verdade, Emmy, acredito em tudo o que você disse. Ela se assustou. Jura? Juro. Porque eu voltei da minha corrida matinal há uns 20 minutos, e debaixo de minha porta havia um envelope. De cor creme e com meu nome escrito nele com tinta marrom. Emily ficou paralisada, sem saber que sentido dar ao que ouvia. Não pode ser. Mas é, interpôs Michael. Dentro dele há uma carta de Arno Holmstrand. Emily não conseguia conter sua incredulidade. O que diz a carta? Pouca coisa, respondeu Michael. Ela pôde ouvi-lo desdobrando uma folha de papel, preparando-se para ler a carta. Prezado Michael. Emily vai ligar esta manhã. Espere ao lado do telefone. Abra o segundo envelope e leia para ela o que está dentro dele quando ela ligar.

Segundo envelope? A confusão aumentava a cada segundo. Dentro do primeiro, com essa cartinha, tem um segundo envelope. Com o seu nome escrito nele, confirmou Michael. Porque ele está escrevendo para você? E por meu intermédio? Como nós estamos envolvidos na vida dele? Não tenho a menor ideia, Mike. Estou tentando entender, fez uma pausa. Esse segundo envelope…, você o abriu?, indagou Emily, agora no auge da tensão. Claro que abri, respondeu ele. Você acha que eu ia cruzar os braços e ficar sentado esperando? Apesar da tensão do momento, Emily não pôde evitar um leve sorriso. O costumeiro entusiasmo de Michael não tinha sido sufocado por aqueles acontecimentos estranhos. E…? E talvez você não venha para Chicago, fez uma pausa e, dessa vez, o silêncio dramático era inteiramente proposital. Dentro do envelope tem um e-ticket. Holmstrand reservou para você um voo para Londres. Esta noite. Londres?

O raciocínio de Michael agora estava rápido demais. Ele ultrapassou a confusão dela. Qual é o número do fax da sua sala, Emmy. Ela piscou, tentando recuperar a lucidez e disse automaticamente o número que sabia de cor, da máquina de fax da secretaria do departamento. Porque quer esse número?, perguntou por fim. Porque nesse segundo envelope, além da passagem, há também duas folhas de papel. Meu scanner está quebrado, então não dá para lhe enviar uma cópia por e-mail. Mas com certeza vai querer ver o que ele deixou para si.

Dez minutos mais tarde, Emily aguardava ansiosa ao lado da máquina de fax da secretaria do Departamento de Religião, a algumas portas de distância de seu gabinete. A linha exclusiva para mensagens de fax não tinha um toque audível e, por isso, ela estava ao lado da máquina, esperando que ela despertasse e produzisse cópias digitais das duas páginas que Michael havia prometido enviar nos próximos minutos. Sentados em torno de uma mesa de trabalho estavam dois colegas professores de religião. Como se poderia esperar, estavam discutindo o caso Holmstrand. Não, foram três, insistiu Bill Preslin, um dos professores de hebraico, corrigindo o outro homem. Você esqueceu a Arábia Saudita. É mesmo? Eu não fazia ideia, o outro homem era David Welsh, especialista do departamento em religiões da América do Sul. Emily foi até a mesa e se sentou. Dali, podia ficar vigiando a máquina de fax». In AM Dean, A Biblioteca Perdida, 2012, Editora Prumo, 2012, ISBN 978-857-927-298-1.

Cortesia de EPrumo/JDACT

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quinta-feira, 13 de maio de 2021

D. Fernando I. 2º duque de Bragança. Maria Barreto D’Ávila. «A bastardia de Afonso garantia a Nuno Álvares Pereira a proximidade desejada com a casa real mas independência quanto bastasse»

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Com a devida vénia à Mestre Maria Barreto D’Ávila

Vida e Acção Política

«(…) O condestável casara, muito jovem, com dona Leonor de Alvim, viúva de Vasco Gonçalves Barroso. A sua condição de viúva parece justificar este matrimónio algo atípico, dado a precoce idade de dom Nuno (que tinha dezasseis anos quando casou) e o estatuto económico superior da noiva, já que as viúvas constituíam, no mercado matrimonial, uma segunda escolha, uma opção desvalorizada. Deste casamento, o condestável teve apenas uma filha, dona Beatriz.

Quando o condestável enviuvou em 1387, João I propôs-lhe novo matrimónio, desta feita com dona Beatriz Castro, filha de Álvaro Pires Castro que, curiosamente, fora o primeiro condestável do Reino, nomeado por dom Fernando, em 1382. Viúvo cobiçado, detentor de uma enorme fortuna, talvez a maior do Reino nessa altura, e com apenas uma filha, era natural que Nuno Álvares Pereira voltasse a casar. Contudo, o condestável recusou terminantemente a proposta do rei. Seria o início da sua vida casta e ascética. O seu marcante desempenho durante a crise dinástica, que lhe havia granjeado importantes doações de terras e títulos, sobretudo confiscados aos familiares e principais aliados de dona Leonor Teles, tornara-se algo perigoso para o novo rei, que se arrependera, em parte, das grandiosas doações que fizera. Nuno Álvares Pereira era o único nobre no Reino com uma hoste capaz de lhe fazer frente.

Dona Beatriz, herdeira da imensa fortuna do seu progenitor, era uma noiva muito almejada. O rei, arrependido, via na união de dona Beatriz com um dos seus filhos uma solução de compromisso e uma forma dos bens por ele doados regressarem à Coroa. Por seu lado, o condestável via na ligação à família real uma estratégia para potenciar, ainda mais, o seu poder. Todavia as negociações não foram fáceis. O monarca pretendia casar a herdeira do condestável com o sucessor do trono, o príncipe dom Duarte, significativamente mais novo do que dona Beatriz. Contudo, não era essa a pretensão do condestável, que dava primazia à construção de uma casa senhorial independente da casa real. Do ponto de vista de Nuno Álvares Pereira, o objectivo central a atingir com o casamento da filha seria o da constituição de uma casa senhorial que perpetuasse a sua linhagem e a sua memória. A solução foi encontrada em dom Afonso, filho natural de João I, significativamente mais velho do que os infantes seus irmãos e de idade muito similar a dona Beatriz. A bastardia de Afonso garantia a Nuno Álvares Pereira a proximidade desejada com a casa real mas independência quanto bastasse. É interessante notar que, apesar de Nuno Álvares Pereira ter conseguido a construção de uma casa que o veria sempre como o fundador, quer a nível patrimonial quer ao nível do capital simbólico, os seus descendentes nunca adoptaram o seu apelido, Pereira. Pelo contrário, estes, à semelhança da família real, de quem também descendiam (ainda que por via bastarda), não utilizavam apelido. Dom Afonso nasceu entre os anos de 1370 e 1377, filho de Inês Pires e de João I, na altura, mestre de Avis, no castelo de Veiros, em Estremoz. Foi ali criado por sua mãe e mais tarde em Leiria por Gomes Martins Lemos, conselheiro régio. Desta união, que nunca foi legitimada, nasceria também uma filha, dona Beatriz, futura condessa de Arundel.

A existência dos dois filhos naturais de dom João foi mantida em segredo durante o atribulado período da crise sucessória, tendo apenas sido dada a conhecer após a subida ao trono do pai. Quando, em 1387, João I casou com dona Filipa de Lencastre os bastardos régios foram admitidos na corte por iniciativa da rainha. Dona Filipa manteve sempre uma boa relação com os seus enteados: dom Beatriz casaria com um parente seu, o conde de Arundel, em Inglaterra, e dom Afonso estava presente em Odivelas, com o seu pai e irmãos, aquando da morte da rainha, vítima de peste, no ano de 1415. A sua mãe, Inês Pires, ingressou por altura do enlace de João I com dona Filipa de Lencastre, no Convento de Santos-o-Velho, tendo sido a sua 12ª Comendadeira. Os filhos tinham direito a visitá-la e pensa-se que dona Beatriz terá mesmo vivido no convento com a mãe até ter atingido a idade núbil». In Maria Barreto D’Ávila, D. Fernando I. 2º duque de Bragança, Vida e Acção Política, Dissertação de Mestrado, FCSHumanas, UNLisboa, 2009.

Cortesia de FCSH/UNL/JDACT

Casa de Bragança, Cultura e Conhecimento, História, JDACT, Maria Barreto D’Ávila, Política,

quarta-feira, 12 de maio de 2021

D. Fernando I. 2º duque de Bragança. Maria Barreto D’Ávila. «Apesar de ser usual, por uma questão de comodidade, referirmo-nos aos três condes de Barcelos, Ourém e Arraiolos como casa de Bragança…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia à Mestre Maria Barreto D’Ávila

Vida e Acção Política

«(…) Contudo, durante muito tempo a biografia foi considerada como um modelo historiográfico menor, mais ligado à apologia do que a uma análise isenta e rigorosa. Também em Portugal, a biografia foi até muito recentemente um género desconsiderado. A Colecção Reis de Portugal dirigida por Roberto Carneiro e com coordenação científica de Artur Teodoro Matos e João Paulo Oliveira Costa, veio mudar este panorama. Estas biografias régias trouxeram novas perspectivas à historiografia portuguesa, tornando-se obras fundamentais para a compreensão da história do nosso país. Brevemente será também publicada uma biografia do infante dom Henrique, intitulada Henrique, o infante, da autoria de João Paulo Oliveira Costa. Tendo em vista a elaboração de um estudo biográfico sobre dom Fernando, 2.º duque de Bragança e considerando que os estudos precedentes sobre a casa de Bragança deixaram algumas problemáticas em aberto, foi nosso objectivo proceder à recolha de dados prosopográficos de dom Fernando e à caracterização do seu pensamento político tentando destrinçar o seu comportamento diferenciado em relação ao seu pai e irmão, para além das outras principais figuras políticas suas contemporâneas, quanto à política do Reino. Outras linhas de análise foram trilhadas através do exame da sua participação nos projectos expansionistas no Norte de África, da evolução do seu património e da sua estratégia de perpetuação da linhagem da sua casa. Para tal foi indispensável caracterizar tanto o contexto sociopolítico em que dom Fernando viveu como o seu âmbito familiar.

As fontes utilizadas na elaboração desta tese compuseram-se, na sua grande maioria, de documentação da chancelaria régia, seguindo-se alguma documentação do Arquivo da Casa de Bragança. Contudo, as fontes mais interessantes para a caracterização do pensamento político de dom Fernando são os inúmeros conselhos por ele redigidos, assim como as Crónicas de João I, Duarte I e Afonso V. No entanto, há lacunas na documentação que não nos permitiram analisar certos aspectos biográficos de dom Fernando. Infelizmente, com excepção da Chancelaria de Afonso V, não existem mais documentos relativos ao período em que o conde de Arraiolos assumiu a capitania da praça de Ceuta, pelo que não possuímos relatos dos acontecimentos políticos e militares desse período, o que nos impede de identificar os nobres que o acompanharam durante a sua capitania. Também os anais dedicados a Ceuta são parcos em informações acerca do governo de dom Fernando, relatando apenas o episódio da sua vinda ao Reino durante o agudizar dos conflitos entre o duque de Bragança, seu pai, e o infante dom Pedro. As fontes utilizadas também não nos permitiram entrar na esfera privada de dom Fernando. Este estudo, tal como o nome indica, incidirá, portanto, maioritariamente na vertente política do indivíduo biografado.

Apesar de ser usual, por uma questão de comodidade, referirmo-nos aos três condes de Barcelos, Ourém e Arraiolos como casa de Bragança, nesta dissertação tentaremos evitar esta designação para o período anterior a 1442, data em que dom Afonso, conde de Barcelos, acedeu ao ducado brigantino. Aliás, apesar de por vezes agirem conjugadamente, numa óbvia solidariedade familiar, os três condes são titulares de casas que coabitam em simultâneo, mas que são independentes. É nosso entender que a maior dependência será sempre entre o conde de Ourém, filho primogénito, e o seu pai, o conde de Barcelos. A prová-lo temos o episódio ocorrido durante a regência do infante dom Pedro aquando da criação do ducado de Bragança. Pai e filho estavam interessados nas terras brigantinas e dom Pedro resolveu a querela entregando o ducado ao conde de Barcelos, tendo a justificação para a sua decisão recaído no facto de que, sendo o primogénito, o conde de Ourém herdaria, ainda que a médio prazo, as propriedades do pai.

Dom Fernando, secundogénito, ficava de fora desta equação. A sua casa, a de Arraiolos/Vila Viçosa, seria totalmente independente das outras duas até à morte do irmão e sua consequente nomeação como herdeiro da casa de Bragança. Esta dissertação terá, portanto, como objectivo analisar a actuação de dom Fernando enquanto chefe da casa de Arraiolos/Vila Viçosa e, posteriormente, enquanto segundo duque de Bragança.

O legado de Nuno Álvares Pereira

A consolidação da nova dinastia de Avis e a vitória dos seus partidários sobre a facção castelhana deu azo à emergência de uma nova nobreza composta, na sua grande maioria, por filhos segundos e membros de linhagens inferiores que se haviam destacado militarmente no apoio ao mestre de Avis. O maior beneficiado destes nobres foi, sem dúvida alguma, dom Nuno Álvares Pereira nascido em 1360, filho bastardo de Álvaro Gonçalves Pereira, prior do Hospital, e de Iria Gonçalves do Carvalhal». In Maria Barreto D’Ávila, D. Fernando I. 2º duque de Bragança, Vida e Acção Política, Dissertação de Mestrado, FCSHumanas, UNLisboa, 2009.

Cortesia de FCSH/UNL/JDACT

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terça-feira, 11 de maio de 2021

Prisioneira da Inquisição. Theresa Breslin. «O capitão do navio, que ouvira a conversa, sugeriu: se não encontrarmos uma galé entre aqui e a primeira terra avistada, vamos amarrá-lo na âncora e baixá-lo com ela»

Cortesia de wikipedia e jdact

Saulo

A chegada da Inquisição (maldita). 1490 - 1491

«(…) Mas eu não estava morto, embora, por muitos dias e muitas noites após deixar Las Conchas, tivesse desejado estar. Os soldados em pouco tempo dispersaram a multidão que se juntara do lado de fora da propriedade de dom Vicente Alonzo Carbazón. Então o tenente deu um puxão na ponta da corda e me arrastou para fora do portão e através da estrada. Seus soldados nos seguiram, dando-me chapadas e chutos o caminho todo na direcção da zona portuária até encontrarem o navio no qual compraram passagens. Gostaria de não ter de me preocupar em procurar uma galé para levá-lo como escravo, comentou o tenente, quando tropecei e caí ao subirmos a prancha. Não quero esse tipo de escória comigo quando nos juntarmos aos exércitos do rei e da rainha. Podemos jogá-lo ao mar com o lixo, quando deixarmos o porto, sugeriu um dos soldados. O tenente grunhiu.

Talvez o cadáver flutue até à praia e revele o que fiz. Não arriscarei enfurecer aquele magistrado, caso ele descubra que matei o rapaz após ele decidir que a sua vida seria poupada. O capitão do navio, que ouvira a conversa, sugeriu: se não encontrarmos uma galé entre aqui e a primeira terra avistada, vamos amarrá-lo na âncora e baixá-lo com ela. Deu uma piscadela. Podemos dizer que ele ficou preso na corda e foi arrastado por cima da murada. Ele me agarrou pelo cabelo, puxou-me pelo convés e me arremessou para o interior de um dos porões, onde caí violentamente, batendo braços, pernas e a cabeça contra fardos e caixas de carga, até parar sobre um chão de madeira maciça. Mal havia recuperado o fôlego quando a abertura foi trancada e a luz se extinguiu. Aquele era um novo terror para mim. Eu nunca estivera numa escuridão total; o sangue aumentou repentinamente atrás dos meus olhos enquanto tacteava loucamente com os braços estendidos para encontrar algo para me apoiar. O navio estremeceu quando os marinheiros se prepararam para partir. Subitamente o mundo se movimentou debaixo dos meus pés e o universo inteiro deslizou. Minha mente se agitou, pois eu nunca estivera num barco. As velas rangeram, e começamos a deixar o porto.

Quando o vento aumentou, as ondas nos arrebataram e a espinha do navio arqueou contra o mar. Aterrorizado pelo poder primitivo dos elementos, fui jogado de um lado a outro, gritando na escuridão, enquanto o navio subia e então caía, era erguido e baixado pela mão de uma criatura gigantesca. Vomitei, emborcando várias e várias vezes, até a ânsia vazia contrair meu estômago com dores excruciantes, e caí no chão, exausto, e permaneci ali, choramingando. Não havia como diferençar luz do dia da escuridão. Privado da visão, os ruídos que eu ouvia soavam altos na minha cabeça, a correria de ratos e os gemidos e rangidos do casco de madeira à medida que este forçava seu caminho pela água. Eu achava que as pranchas rachariam, se fariam em pedaços, e eu seria lançado nas profundezas, e gritava vergonhosamente pela minha mãe e pelo meu pai morto.

E, dentro do fermento de minha mente, eu os vi de novo: minha mãe deixada sozinha, doente e moribunda, e meu pai, o corpo balançando no fim de uma corda. O tempo piorou, o navio se arremessava e ondulava, e os enormes caixotes e fardos da carga começaram a se movimentar. Temia ser esmagado. Rastejei até encontrar um espaço entre as escoras, no qual me enfiei, ao longo das costelas do navio. Ali me segurei enquanto, lá fora, as ondas batiam fazendo estrondos, procurando uma maneira de me esmagar. Permaneci sem me mexer pelo que me pareceu dias, até ficar tão fraco que mal conseguia erguer a cabeça. Foi o soldado ruivo, aquele que mostrara piedade para com meu pai puxando-lhe as pernas para diminuir a sua derradeira agonia, quem, enfim, abriu a escotilha. Uma corda desceu tombando, e ele veio com ela para me dar uma olhada. Então berrou para alguém que estava na parte de cima à espera de informações: ele está vivo! Voltou minutos depois com uma moringa de água.

Por duas vezes, você enganou a morte, afirmou, enquanto abria a minha boca à força e despejava água pela minha garganta abaixo, pois o certo era ter morrido aqui por falta de água. Subiu novamente e voltou com um pedaço de pão e uma pele cheia de um azedo vinho tinto. Quebrando o pão em pedaços, molhava-o no vinho e observava enquanto eu tentava engolir. Grunhiu ao me ajudar a ficar de pé. Talvez você tenha nascido sob uma estrela especial. Uma pequena galé mercante espanhola fora avistada no horizonte. O tenente não se importava se eu estava vivo ou não: mesmo se estivesse semimorto, ele teria me jogado por cima do costado, mas agora via uma possibilidade de me trocar por alguma bebida alcoólica. Um barril de vinho barato foi o quanto eu valia. E, mesmo assim, com relutância. Foi mais com um espírito de apaziguamento que o capitão da galé concordou com a troca, pois os soldados mantiveram suas armas apontadas para o barco menor. Bem afundada na água, sem alojamentos cobertos para os ocupantes, a galé era dotada apenas parcialmente de convés, com um grosseiro pano de vela mastreado como toldo na popa, fechado de ambos os lados para protecção contra a fúria dos elementos.

Havia um canhão de pequeno porte montado na frente, e, embora poucos tripulantes carregassem facas nos cintos, eles seriam facilmente dominados por um navio maior equipado com canhões e homens armados. A negociação foi feita em minutos, e o destino decretou que eu me tornasse um rato de galé. O soldado ruivo foi-me buscar para me fazer subir ao convés. A escotilha se abriu novamente, e o sol brilhou no meu rosto. Olhei para cima com os olhos semicerrados enquanto a corda descia. Se não consegue subir sozinho pela corda, segure na ponta que eu puxo, sugeriu ele, mas não de um modo indelicado. Cambaleei adiante para agarrar a ponta oscilante da corda. Algo cintilou na luz. Presa entre as amarras de um fardo havia uma faca. Era comprida e de lâmina estreita: do tipo que uma mulher usaria para descascar legumes. Posteriormente, descobri que era do tipo usado por funcionários do governo para cortar os cordões durante o processo de afixar o selo da aduana em mercadorias tributáveis. A faca devia ter ficado presa enquanto a carga era inspecionada antes de ser levada para o navio. Alcancei-a, e, num instante, estava em minha mão. Mas onde escondê-la?» In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião,