sábado, 18 de agosto de 2018

A Bagagem do Viajante. José Saramago. «Em todo o caso, há situações de tal modo absurdas (ou que o pareceriam vinte e quatro horas antes), que não se pode censurar a ninguém um instante de desconforto total, um segundo em que tudo dentro de nós pede socorro…»

jdact

A Velha Senhora dos Canários
«(…) Se fosse uma pessoa, diria dele que não dá confiança. Tão sensível ao medo como o companheiro, exprime-o lutando a frio. E se o agarro, sacode-se sem parar, inconformado. Logo que se apanha a salvo, atira um grito de cólera enquanto espaneja as penas desalinhadas. Não vai mais longe a minha relação com estas aves. Uma ou duas vezes por semana dou-lhes meia dúzia dos meus segundos, distraidamente. Sei que não me estimam nem respeitam, sobretudo desde o dia em que vi a dona dos canários tratar deles, com gestos tão firmes e serenos, que as aves não esvoaçavam: limitaram-se a mudar de lugar, também serenamente, permitindo que a mão rugosa e sábia retirasse o comedouro e o bebedouro de faiança branca e os repusesse frescos e cheios, com os mesmos gestos sossegados. E a porta das gaiolas fechou-se com um pequeno estalido de mola protectora. Por isto que vi, posso imaginar certas horas na casa silenciosa. A dona dos canários vive sozinha. É já muito velha, mas firme como os seus gestos, e anda sem ruído, calma, eficiente. Tem quase sempre um fito, um pequeno trabalho que a ocupa, mas, com tanta idade, tem também horas de pausa, que seriam repouso se não fossem antes contemplação de um passado que se amplia constantemente, abrangendo, além da vida própria, também as múltiplas vidas que por muito ou pouco tempo interferiram na sua.
Então, a senhora dos canários vai sentar-se numa cadeira da marquise, com as mãos abandonadas no regaço, meio abertas e voltadas para cima como cascas de amêndoa, como barcas encalhadas. Fica muito direita, enquanto as recordações começam a afluir em vagas mansas que a submergem e escorrem por ela, pelos olhos brandos, pelas faces ainda lisas entre os sulcos fundos das rugas, até caírem nas mãos que são como taças de um jardim fechado. A casa, nestes momentos, parece cobrir-se de musgo. Um dos canários lança um trinado tímido. O outro responde. E como na casa nada se mexe e a senhora olha fixamente não se sabe o quê, as aves arremetem um canto interminável, rio sonoro que alastrasse em mil braços numa planície de silêncio. A senhora não se move. Talvez não ouça os pássaros, mas eles cantam, cantam, cantam.

E Agora, José?
Há versos célebres que se transmitem através das idades do homem, como roteiros, bandeiras, cartas de marear, sinais de trânsito, bússolas, ou segredos. Este, que veio ao mundo muito depois de mim, pelas mãos de Carlos Drummond Andrade, acompanha-me desde que nasci, por um desses misteriosos acasos que fazem do que viveu já, do que vive e do que ainda não vive, um mesmo nó apertado e vertiginoso de tempo sem medida. Considero privilégio meu dispor deste verso, porque me chamo José e muitas vezes na vida me tenho interrogado: e agora? Foram aquelas horas em que o mundo escureceu, em que o desânimo se fez muralha, fosso de víboras, em que as mãos ficaram vazias e atónitas. E agora, José? Grande, porém, é o poder da poesia para que aconteça, como juro que acontece, que esta pergunta simples aja como um tónico, um golpe de espora, e não seja, como poderia ser, tentação, o começo da interminável ladainha que é a piedade por nós próprios.
Em todo o caso, há situações de tal modo absurdas (ou que o pareceriam vinte e quatro horas antes), que não se pode censurar a ninguém um instante de desconforto total, um segundo em que tudo dentro de nós pede socorro, ainda que saibamos que logo a seguir a mola pisada, violentada, se vai distender vibrante e verticalmente afirmar. Nesse momento veloz tocara-se o fundo do poço. Mas outros Josés andam pelo mundo, não o esqueçamos nunca. A eles também sucedem casos, desencontros, acidentes, agressões, de que saem às vezes vencedores, às vezes vencidos. Alguns não têm nada nem ninguém a seu favor, e esses são, afinal, os que tornam insignificantes e fúteis as nossas penas. A esses, que chegaram ao limite das forças, acuados a um canto pela matilha, sem coragem para o último ainda que mortal arranco, é que a pergunta de Carlos Drummond Andrade deve ser feita, como um derradeiro apelo ao orgulho de ser homem: e agora, José?
Precisamente um desses casos me mostra que já falei demasiado de mim. Um outro José está diante da mesa onde escrevo. Não tem rosto, é um vulto apenas, uma superfície que treme como uma dor contínua. Sei que se chama José Júnior, sem mais riqueza de apelidos e genealogias, e vive em São Jorge da Beira. É novo, embriaga-se, e tratam-no como se fosse uma espécie de bobo. Divertem-se à sua custa alguns adultos, e as crianças fazem-lhe assuadas, talvez o apedrejem de longe. E se isto não fizeram, empurraram-no com aquela súbita crueldade das crianças, ao mesmo tempo feroz e cobarde, e o José Júnior, perdido de bêbedo, caiu e partiu uma perna, ou talvez não, e foi para o hospital. Mísero corpo, alma pobre, orgulho ausente. E agora, José?» In José Saramago, A Bagagem do Viajante, 1973, Editorial Futura, Editora Caminho, 1998, ISBN 978-972-212-339-6.

Cortesia de EFutura/ECaminho/JDACT

A Bagagem do Viajante. José Saramago. «… ainda transportam consigo o prestígio dos tempos em que marquês era logo abaixo de duque, e este a seguir a rei. Por isso, chamamos àquelas varandas marquises…»

jdact

De Quando Morri Virado ao Mar
«(…) Foram muitos quilómetros assim. Por várias vezes parei e decidi não dar mais um passo. Mas logo a ardência me obrigava a levantar-me. Dos lados das arribas, nem uma sombra. O sol queimava-as de frente agora, e continuava a verrumar-me a nuca. Perdi a consciência. Andava como um autómato, já sem suor, com a pele sequíssima, excepto as grossas gotas que se formavam nas fontes e corriam devagar, viscosas, pelo rosto abaixo. Toda a tarde se passou assim. O sol principiava a baixar quando atingi a povoação que devia ser a minha primeira etapa. Ali podia alimentar-me, matar a sede, descansar numa sombra. Mas nada disto fiz. Calcei-me como num sonho, gemendo com dores nos pés queimados, e meti-me à estrada, que, em curvas dobradas, subia as arribas. Parei uma vez ainda, meio perdido, olhando do alto o mar que se mudava numa cor escura. Continuei a subir, e achei-me fora da estrada, sem saber como, a meter por entre pedras até à beira da altíssima arriba a pique. O chão inclinava-se perigosamente, antes de se furtar na vertical.
Foi ali que decidi passar a noite. Deitei-me com os pés para o lado do mar e do desastre, enrolei-me na manta e, a arder da febre do sol, fechei os olhos. Adormeci e sonhei. Quando tornei a abrir os olhos, o sol roçava já o horizonte. Que faço eu aqui?, perguntei em voz alta. E foi em movimentos de pavor que reuni as coisas e voltei à estrada, fugindo. Enquanto andava, ia pensando que ali eu não era eu, que o meu corpo ficara morto virado ao mar, no alto da arriba, e que o mundo estava todo cheio de sombras e confusão. A noite apanhou-me na margem do rio, com uma cidade diante que eu não reconhecia, como as torres ameaçadoras dos pesadelos. Ainda hoje, tantos anos passados, me pergunto que vulto de mim terá ficado disperso na brancura das areias ou imobilizado em pedra na arriba cortada pelo vento. E sei que não há resposta.

A Velha Senhora dos Canários
Se não fosse o ancestral respeito que nos tolhe familiaridades diante dos grandes deste mundo, chamaríamos marquesas àquelas varandas cobertas e envidraçadas que geralmente os arquitectos instalam nas traseiras dos prédios, concluindo assim o perímetro isolador das casas e facilitando, quantas vezes, a resolução dos problemas de dormida da criada ou de um parente que veio da província. Mas as marquesas, agora poucas e de pouca influência para fora dos círculos intangíveis da sociedade, ainda transportam consigo o prestígio dos tempos em que marquês era logo abaixo de duque, e este a seguir a rei. Por isso, chamamos àquelas varandas marquises, que significa o mesmo, mas disfarçado de francês. Realmente não seria correcto dizer, em casa de marquesa, que a marquesa estava mal arrumada ou a precisar de espanador: põe-se no lugar da marquesa a marquise, e é logo como quem fala doutra coisa. As palavras têm destas habilidades.
Mal me viria, porém, e mal empregado o espaço desta página, se hoje me desse só para falar de tais coisas. A marquise não é mais do que uma varanda protegida do sol e da chuva, e as marquesas, se vivem, vivem nas salas da frente, sem nada terem que ver com estes canários que, na marquise, começam justamente agora a dar sinal da sua presença. Um deles tem a asa esquerda ligeiramente descaída, pesa-lhe, e inclina a cabeça de modo a ver-me melhor. Olho-me miniaturizado no círculo brilhante que de vez em quando se cobre, de baixo para cima, com uma rápida pálpebra acinzentada. Meto um dedo entre os arames da gaiola e suporto as bicadas débeis com que a ave recebe a invasão. Irá esvoaçar assustada quando a mão inteira pairar lá dentro, como um dragão. Então o coração agita-se aterrorizado e as asas atiram pancadas contra os arames. E se a mão se transforma em ninho e envolve a ave como um casulo, o contacto dá-lhe calma, embora interrompida por sobressaltos pouco convictos. O outro canário é mais novo. Prefere o poleiro alto, ou o baloiço, e ali, de cabeça erguida, fazendo oscilar bruscamente as penas longas da cauda, tem a vida toda à sua frente, e sabe-o. Se repito a manobra de introduzir os dedos pelos arames, dispara uma bicada única, violenta, e afasta-se ao longo do poleiro, com o ar de ter ganho a batalha logo na primeira escaramuça». In José Saramago, A Bagagem do Viajante, 1973, Editorial Futura, Editora Caminho, 1998, ISBN 978-972-212-339-6.

Cortesia de EFutura/ECaminho/JDACT

A Bagagem do Viajante. José Saramago. «Passei-a para o ombro direito e, tropegamente, a camisa caiu na areia escaldante. Fiquei a olhá-la, como se nunca a tivesse visto, enquanto as correias me vincavam o ombro»

jdact

E Também aqueles Dias
«(…) Começámos a subir para Santarém quando o sol nascia. Estivemos na feira toda a manhã e parte da tarde. Não vendemos os bácoros todos. Por isso tivemos de regressar também a pé, e foi aí que aconteceu aquilo que não tornou mais a acontecer. Por cima de nós formou-se um anel de nuvens que quase ao sol-pôr enegreceram e começaram a largar chuva, e então por muito tempo andámos sem que uma gota nos apanhasse, enquanto à nossa volta, circularmente, uma cortina de água nos fechava o horizonte. Por fim as nuvens desapareceram. A noite vinha devagar entre as oliveiras. Os animais faziam aqueles ruídos que parecem uma interminável conversa. Meu tio, à frente, assobiava devagarinho. Por causa de tudo isto me veio uma grande vontade de chorar. Ninguém me via, e eu via o mundo todo. Foi então que jurei a mim mesmo não morrer nunca.

De Quando Morri Virado ao Mar
Deixei a lagoa pelo meio da manhã, quando o sol limpara já todo o céu. Sobre a água, que as rápidas aragens mal agitavam, não tinham ficado vestígios da neblina cerrada que, no amanhecer, cobrira toda a superfície. Valera a pena acordar cedo e ver o nevoeiro rolar sobre a lagoa em flocos soltos, como se cuidadosamente o sol os varresse até nada mais ficar entre a água e o céu azul. Arrumei os petrechos, atirei-os para as costas, e, descalço, comecei a longuíssima caminhada pela praia fora, entre o bater das ondas e a panorâmica vagarosa das arribas vermelhas.
A maré enchia, mas havia ainda extensas toalhas de areia molhada e dura, por onde era fácil caminhar. O sol estava quente. De cabeça descoberta, o corpo um pouco inclinado para compensar o peso da mochila, marchava em passo certo, como era meu hábito, procurando esquecer-me de que as pernas me pertenciam, deixando-as viver da sua vida própria, do seu movimento mecânico. Foi assim que sempre gostei de caminhar, vinte ou trinta quilómetros sem um descanso, apenas o rápido sorvo na bica de uma fonte, e ala. Também não parei para almoçar: faltava-me o apetite por tanto sol que apanhara nos dias anteriores, faltava-me sobretudo a paciência para cozinhar na praia. Limitei-me a comer duas laranjas que se desfaziam em doçura. Trincava as cascas ao mesmo tempo que a polpa e cuspia para longe os caroços, como um garoto feliz. Quando as correias da mochila deram em cortar-me a pele queimada, tirei a camisa, fiz dela uma rodilha, que acomodei no ombro esquerdo, e ali assentei o peso. Segui para diante, aliviado das dores.
O sol ardia com mais fogo. Sentia-o nas costas como a palma de uma mão esbraseada, ao passo que começava a nascer e a irradiar uma espécie de adormecimento na nuca. O suor arrepiava a pele naquele sítio. Aproximei-me da rebentação e esfreguei a cara, os ombros, a nuca. Atirei chapadas de água para as costas. A mochila aumentara de peso. Passei-a para o ombro direito e, tropegamente, a camisa caiu na areia escaldante. Fiquei a olhá-la, como se nunca a tivesse visto, enquanto as correias me vincavam o ombro. Cheguei mesmo a dar alguns passos, e foi preciso um grande esforço para compreender que devia voltar para trás e levantá-la do chão. Senti-me esquisito, pairando no ar, e esta sensação não me deixou, nem mesmo quando me sentei e deixei cair de costas. Havia dentro de mim uma náusea um pouco embaladora que me obrigou a rolar para um lado. O sol estivera a dar-me nas pálpebras fechadas: entre os meus olhos e o céu havia uma cortina rósea, a cor delgada do sangue que me corria confusamente dentro do corpo. Passou-me o rápido pensamento de que estava a sentir os primeiros efeitos de uma insolação. Inquieto, levantei-me de golpe, sacudi-me como um cão, e recomecei a caminhada. Entretanto, a maré empurrara-me para a areia seca, que vibrava sob o calor. Das arribas vinha o zumbido de milhares de insectos que o sol endoidecia. Nas pausas da rebentação, a zoada, áspera como um rangido de serra circular, atordoava-me e acentuava a sensação de náusea que não me deixara». In José Saramago, A Bagagem do Viajante, 1973, Editorial Futura, Editora Caminho, 1998, ISBN 978-972-212-339-6.

Cortesia de EFutura/ECaminho/JDACT

A Bagagem do Viajante. José Saramago. «Fomos buscar os porcos e descemos ao vale, cautelosamente, porque havia silvas e barrocos, e os animais estranhavam a matinada e perdiam-se facilmente»

jdact

E Também aqueles Dias
«(…) E houve também aqueles dois gloriosos dias em que fui ajuda de pastor, e a noite de permeio, tão gloriosa como os dias. Perdoe-se a quem nasceu no campo, e dele foi levado cedo, esta insistente chamada que vem de longe e traz no seu silencioso apelo uma aura, uma coroa de sons, de luzes, de cheiros miraculosamente conservados intactos. O mito do paraíso perdido é o da infância, não há outro. O mais são realidades a conquistar, sonhadas no presente, guardadas no futuro inalcançável. E sem elas não sei o que faríamos hoje. Eu não o sei. Meus avós tinham decidido, porque a venda dos bácoros havia sido fraca, que o resto das ninhadas seria vendido na feira de Santarém, por melhor preço e sem mais gasto de dinheiro. Porque o caminho seria andado a pé, quatro léguas de campo, a passo de porco pequeno, para que os animais chegassem à feira com sorte de comprador. Perguntaram-me se eu queria ir de ajuda com o tio mais novo, e eu disse que sim, nem que fosse de rastos. Ensebei as botas para a caminhada e escolhi no alpendre o pau que mais jeito dava aos meus doze anos esgalgados. Sempre foram caladas as minhas alegrias, e por isso não soltei os gritos que me estavam no peito, que até hoje não pude deixar sair.
Começámos a jornada a meio da tarde, meu tio atrás, com o cuidado de não deixar perder nenhum bácoro, eu à frente, levando a marrã nos calcanhares. Imaginava-me como uma figura de proa avançando pelas estradas e caminhos como sabia que faziam nos mares os barcos de piratas de que falavam os meus livros de aventuras. Uma vez por outra, meu tio revezava-me e eu tinha de comer o pó que as patinhas miúdas dos animais levantavam do caminho. No meio deles, mãe verdadeira de alguns e emprestada de todos os outros, a marrã conservava-os unidos. Era quase noite fechada quando chegámos à quinta onde ficaríamos para o dia seguinte. Metemos os animais num barracão e comemos o farnel leve, perto de uma janela iluminada, porque não tínhamos querido entrar (ou não nos deixaram?). Enquanto comíamos, veio um criado dizer-nos que poderíamos dormir na cavalariça. Deu-nos duas mantas lobeiras e foi-se embora. Soltaram-se os cães, e nós não tivemos mais remédio que ir dormir. A porta da cavalariça ficaria aberta toda a noite, e assim nos convinha, pois teríamos de sair pela madrugada, muito antes de nascer o sol, para chegarmos a Santarém no principiar da feira.
A nossa cama era um extremo da manjedoura que acompanhava toda a parede do fundo. Os cavalos resfolgavam e davam patadas no chão empedrado, coberto de palha. Deitei -me como num berço, enrolado na manta, respirando o cheiro forte dos cavalos, toda a noite inquietos, ou assim me pareciam nos intervalos do sono. Sentia-me cansado, com os pés moídos. A escuridão era quente e espessa, os cavalos sacudiam as cabeças com força, e o meu tio dormia. Os ruídos da noite passavam por sobre o telhado. Adormeci como um santo: assim minha avó diria se ali estivesse. Acordei quando meu tio me chamou, madrugada alta. Sentei-me na manjedoura e olhei para a porta, com os olhos piscos de sono e deslumbrados por uma luz inesperada. Saltei para o chão e vim ao pátio: na minha frente estava uma lua redonda e enorme, branca, entornando leite sobre a noite e a paisagem. Era tudo branco refulgente onde a lua dava e negro espesso nas sombras. E eu que só tinha doze anos, como já ficou dito, adivinhei que nunca mais veria outra lua assim. Por isso é que hoje me comovem pouco os luares: tenho um dentro de mim que nada pode vencer.
Fomos buscar os porcos e descemos ao vale, cautelosamente, porque havia silvas e barrocos, e os animais estranhavam a matinada e perdiam-se facilmente. Depois tudo se tornou simples. Seguimos ao longo de vinhas maduras, por um caminho coberto de pó que a frescura da noite mantinha rasteiro, e eu saltei ao meio das cepas e colhi dois grandes cachos que meti na blusa enquanto corria os olhos em redor, a ver se o guarda aparecia. Voltei ao caminho e dei um cacho ao meu tio. Fomos andando e comendo os bagos frios e doces, que pareciam cristalizados, de tão duros». In José Saramago, A Bagagem do Viajante, 1973, Editorial Futura, Editora Caminho, 1998, ISBN 978-972-212-339-6.

Cortesia de EFutura/ECaminho/JDACT

Contos e Fantasias Maria Amália Carvalho. «Porque não tornara ela a vê-lo? Tinha-lhe esquecido perguntar por ele, fora muito ingrata... E sem raciocinar aquele impulso estranho, parou…»

jdact

«(…) São os passarinhos que andam a arranjar-se para se deitarem a dormir dentro dos seus ninhos, costumava dizer Tadeu. E ela ria-se virando a cabeça muito esperta para a cúpula do castanheiro, a ver se descobria como se faz a toillete nocturna dos passarinhos. Entrara, por fim, na sala. Havia grupos aqui e ali. Graves políticos que discutiam, financeiros de abdómen volumoso, matronas severas, rapazes elegantes, e no meio de tudo um bando de raparigas alegres, garridas, a chilrearem, a rirem e a cochicharem entre si, contentes da nova companheira que lhes chegava de longe, mas muito mais contentes ainda daquela atmosfera festiva e perfumada que as envolvia. No meio desse grupo encantador é que ela estava de pé. Um corpo deliciosamente modelado, de uma graça franzina e toda moderna. Tinha um vestido de foulard muito justo, muito elegante, e no meio dos rolos do seu crespo cabelo louro aninhava-se uma rosa vermelha, uma rosa cor de sangue.
Os olhos azuis, altivos e desdenhosamente fixos lembravam... Os olhos metálicos da sua mãe. Pois era aquela a sua Margarida?! Era. Não lhe restava a menor dúvida. Apesar de todas as diferenças tinha-a conhecido logo. A sua límpida testa de criança um pouco curta, indício de obstinação e de capricho; a sua boca pequenina, até alguma coisa dos seus gestos antigos, tudo trouxe ao coração de Tadeu uma lufada de saudades irresistível. Correu para ela como doudo, atravessou pelo meio de toda aquela gente, sem a menor timidez, sem o menor receio, sem notar sequer o espanto que a sua cómica aparição tinha excitado. As raparigas que faziam um círculo em torno de Margarida separaram-se numa súbita explosão de risadinhas, e ela, olhando muito fixa para Tadeu, exclamou rindo, rindo sem poder mais: Ih! Credo, primo Tadeu, que casaca!... Que figura!... Pelo amor de Deus vá já tirar essa casaca e venha depois! E ria, ria sem disfarce, enquanto ele com os braços quebrados, o rosto estúpido, a fisionomia espavorida, sentia dentro da sua pobre alma sem consolo esfacelar-se, desfazer-se, diluir-se em lágrimas de fel a última esperança da sua vida!
Três dias depois, Margarida, que se esquecera completamente daquele insignificante episódio em que Tadeu figurara, encontrou-o por acaso na Baixa, onde andava fazendo compras com a sua mãe, ao lado de Henrique, que para o distrair tinha ultimamente fingido precisar absolutamente da sua companhia. Margarida saía de uma loja e ia a saltar ligeira, elegante com a sua graça parisiense para dentro do coupé delicioso que, de propósito para a filha, o marquês tinha encomendado meses antes à casa Binder, e que dois finos cavalos ingleses esplendidamente ajaezados faziam voar pelas ruas da nossa pacata Lisboa. A vista de Tadeu despertou-lhe umas poucas de ideias que ainda não lhe tinham ocorrido. Lembrou se, por exemplo, de que não o vira mais, desde o instante em que ele se apresentara à frente dela com uns transportes ridículos e uma toillete horrorosa, na sala povoada pelas suas novas amigas, tão irónicas, tão cruelmente maliciosas...
Porque não tornara ela a vê-lo? Tinha-lhe esquecido perguntar por ele, fora muito ingrata... E sem raciocinar aquele impulso estranho, parou, esperou numa atitude de coqueterie irresistível que os dois amigos se aproximassem, visto que ambos caminhavam na direcção em que ela estava, e estendendo a Tadeu a sua mão esguia e fina, a sua mão de loura, enluvada de pelica cor de bronze, disse com uma expressão de finura e malícia intraduzível: então seu ingrato! Não me tem querido aparecer! Por onde tem andado? E ficou a olhar para ele, como quem espera alguma coisa, interrogadora, fascinante, sempre aristocrática. A marquesa, que já estava dentro do trem, murmurou levemente enfastiada: então, Margarida, ficamos aqui?... E Tadeu corando, balbuciando, resmoneava confusamente uma banal desculpa. Margarida saltou por fim o estribo que o criado conservava desdobrado, envolvendo num olhar magnético dos seus cintilantes olhos azuis, a bela e viril figura de Henrique Sousa, que presenciara mudo aquela cena inexplicável». In Maria Amália Vaz de Carvalho, Contos Fantasias e Reflexões (da primeira mulher a ingressar na Academia das Ciências de Lisboa), 1880, Luso Livros, Nova Forma de Ler, ePub, Uma História Verdadeira, Wikipedia.

Cortesia de LLivros/JDACT

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Contos e Fantasias Maria Amália Carvalho. «Tinha-o tornado uma máquina de fazer contas, contas de somar, de repartir, de multiplicar, o inferno! Não pudera ir, mas esperava vê-la logo que ela chegasse…»

jdact

«(…) Ganhava o pão que comia. Era um escriturário humilde, mas tinha direito a dizer que não dependia de ninguém.
No dia em que Tadeu soube que Margarida ia chegar, a sensação que fez vibrar todo o seu ser, foi violenta de mais para que possa ser descrita. Acudiram-lhe em tropel, desordenadamente, numa confusão louca, todas as lembranças do passado, todas as queridas visões daqueles nove anos de êxtase que ele vivera. Estava tudo intacto num cantinho luminoso da sua alma, onde ele não entrava com medo de fazer fugir as avezinhas azuis que eram as suas saudades. Margarida! Bebé! A sua alegria! A loura cabecinha encaracolada, os olhos cor de azul, límpidos, transparentes, cristalinos, como um céu de Primavera! Os pequeninos braços gordos e nédios! A boquinha risonha! A voz musical, uma voz de cotovia acordando os ecos da alvorada! Todo aquele conjunto de graças ia ser dele outra vez. Com que delicia sôfrega ele não beijaria os pezinhos da sua fada pequenina e loura! Como lhe contaria tudo que tinha passado longe dela! As saudades sem consolo, as lágrimas que chorara, as humilhações que sofrera no meio daqueles perversos de faces rosadas e imberbes, que se tinham constituído em algozes da sua fraqueza e do seu desamparo! Oh! Amá-la-ia tanto e tanto, que ela havia de dar-lhe por força um bocadinho de afecto, e esse bocadinho só bastaria a torná-lo mais feliz do que um rei.
Margarida! E ao repetir baixinho com um calafrio de prazer este nome querido, via saltar num raio de sol uma figurinha esbelta, graciosa, de fato muito curto e muito simples, um vestido branco, um cinto azul, um bibe de cercadura bordada, onde as amoras colhidas por ele tinham posto uma mancha vermelha, com os espessos cabelos louros em anéis soltos, e uma risada a vibrar ainda em torno dela como um rosário de pérolas que se desfiasse dentro de um cofre de cristal. Henrique julgou que ele endoidecia, e Joaninha com a sua voz velada, onde havia uns toques de doçura maternal, dizia-lhe: mas olhe que ela é uma senhora! Já não pode ser a mesma. Não tenha uma esperança que vai converter-se-lhe em martírio! A minha Margarida, repetia ele alheado, meio louco! A minha filhinha adorada! Nunca tive uma alegria que dela me não viesse! Todos me tratavam mal, só ela gostava de mim e me queria sempre ao seu lado. Hás-de vê-la, meu Henrique, verás se há no mundo uma criança mais linda, mais mimosa, é uma fada, é uma pérola, é a minha única amiga neste mundo!
No dia seguinte à hora em que uma brilhante festa de família, uma espécie de baile muito íntimo, reunia nas salas do marquês todos os parentes, aliados e amigos que vinham solenizar a chegada da sua filha e herdeira, Tadeu na pequenina sala de jantar de Henrique, dobrado sobre o peitoril da janela numa postura de desolação e de abandono, soluçava baixinho, ao pé de Joaninha, que tentava em vão consola-lo. Estava de casaca, coitadinho; Joana não seria capaz de rir do desgraçado, mas como a casaca lhe ficava mal! Tinha-se vestido para assistir ao jantar. Antes do jantar não conseguira ver Margarida. A sra. Margarida vinha muito cansada, estava no seu quarto. Dormia. Não havia maneira de a acordar.
Eis as secas respostas que as criadas, aquelas perversas, tinham dado ás suplicas frenéticas do pobre Tadeu. Enquanto a ir ao encontro dela como tanto sonhara, não tinha podido. O seu tio, agora que lhe descobrira algum préstimo, muito secundário, é verdade, mas um préstimo em todo o caso, abusava dele horrorosamente. Tinha-o tornado uma máquina de fazer contas, contas de somar, de repartir, de multiplicar, o inferno! Não pudera ir, mas esperava vê-la logo que ela chegasse, vê-la só, poder beijar-lhe as mãos, a testa, os cabelos, os pés! Vesti-la toda de beijos como dantes! E depois sabia que também ela havia de ter saudades! Que também se havia de lembrar muito do seu amigo, do seu Tadeu, do seu cão fiel! Estava impaciente, estava no ar. Mas quando teve a certeza de que só a veria na sala, foi vestir-se logo, envergou uma casaca do seu pai que este mandara arranjar para ele, uma casaca muito larga, já fora da moda, de pano azulado. Que lhe importava! Ia vê-la! Vê-la era o céu. Vinha-lhe à lembrança aquele ninho de melros que apanhara um dia, sabe Deus com que trabalho, para lhe dar, e o dia em que ela lhe pedira a lua com um gravidade tão cómica, apontando para o tanque, e o balouço que ambos tinham projectado fazer, e as hisrias que ele lhe contava debaixo do castanheiro à tarde, enquanto a música do piano suspirava ao longe, e havia no ar uns rumores indefinidos de que ela lhe perguntava a explicação». In Maria Amália Vaz de Carvalho, Contos Fantasias e Reflexões (da primeira mulher a ingressar na Academia das Ciências de Lisboa), 1880, Luso Livros, Nova Forma de Ler, ePub, Uma História Verdadeira, Wikipedia.

Cortesia de LLivros/JDACT

Deslumbrante. Madeline Hunter. «Na verdade, não pensara nem um pouco nelas. Agora, estava uma ao seu lado numa cama, num quarto onde não deveriam estar juntos e sozinhos»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Pior, com aquela imobilidade toda, tinha a certeza de que ela também não dormia. Nenhuma mulher com um beijo tão puro conseguiria descansar tendo um homem no mesmo quarto, muito menos a um centímetro de distância, do lado de lá de um pedaço de tecido.  A mesma pureza indicava, claro, que quaisquer especulações seriam uma idiotice. Sem mencionar que o braço mal se mexia. Forçou a sua mente a se desviar do tecido e da mulher que estava por trás e que ajudava a aquecer a cama tão bem. Fixou o olhar para baixo, para as botas, no fogo baixo, até aquele calor delicioso no sangue se extinguir. Sem distracção, o braço começou novamente a latejar como um tambor do inferno. Os pensamentos processaram a rapidez com que a noite se transformara numa catástrofe. Admirava a coragem de miss Kelmsleigh de se atrever a se encontrar com Dominó, mas uma boa dose de irritação fervilhava na sua cabeça ao rever os acontecimentos da noite. Se tivesse ficado quietinha em Londres, como qualquer outra mulher, ele poderia ter conseguido executar o plano, e saber a verdade acerca da conspiração do Gabinete do Material. Teria sido agradável poder oferecer uma resolução ao irmão. Em vez disso, ia ser um inferno.
Em nenhum momento deixou de reparar na presença dela ao seu lado. Provavelmente ela também não se esqueceu de que ele estava ali. Um estado de alerta mútuo afectava o ambiente do quarto. De nada servia reconhecer a sua existência, nem o quanto os acontecimentos que a noite havia criado acentuava a intimidade forçada. Tampouco serviria pensar nos beijos. Mas a presença dela, palpável, persistia em trazê-los à sua mente, para repetido desconforto do corpo. Presumira que era experiente no jogo quando começara a brincar com ela. Erro seu, como em várias outras suposições da noite. A surpresa e o assombro dela haviam cativado demais. Arrastando-o. Aparentemente, inocência conseguia ser muito apelativa. Aqueles beijos o encantaram e não os esqueceria durante um longo tempo. Ela o distraíra tanto que o verdadeiro Dominó já estava no meio do quarto quando um dos dois percebeu que já não estavam a sós.
Tentou recordar o que conseguia sobre o intruso, mas tudo se resumia a um borrão indefinido de instinto e defesa. Via apenas o chapéu, escuro, baixo, com uma aba larga. Suspeitava, mas não tinha certeza, de que o homem que comprava cerveja quando ele questionara o estalajadeiro estava com um chapéu como aquele. Se aquele homem fosse o Dominó, teria ouvido as indicações para o quarto sem que ele mesmo tivesse que pedir ao estalajadeiro. Por mais que tentasse se sentir irritado com ela, durante as horas em que ficaram à espera não conseguiu. Os beijos tinham muito a ver com aquilo. Também simpatizava com o desejo dela de limpar o nome do pai. Compreendia o amor filial e os sacrifícios que podia requerer. Devia admitir que a sua imprudente missão era justificável, mesmo tendo sido em vão. Horatio Kelmsleigh não gerara um filho que lutasse pelo seu nome, por isso um filha havia assumido o papel.
Começou a pensar naquilo que sabia acerca da família do homem, além do que descobrira naquela noite sobre Audrianna. Sebastian vira o funeral de Kelmsleigh, enterrado em solo não consagrado devido ao suicídio. Tinham ido poucas pessoas. Um homem caído em desgraça tinha poucos amigos. Vira a viúva de vestido crepe preto. Estava acompanhada de duas moças. Uma a agarrava, ficando praticamente debaixo do braço da mãe. A outra estava a uma distância que já sugeria algum isolamento emocional. Ele estava um pouco afastado do pequeno grupo e, além do cabelo escuro, nada mais despertara a sua atenção nas mulheres. Fora espiar naquele dia por pensar que os outros conspiradores podiam estar presentes, como amigos ou colegas. Os poucos homens que se encontravam à volta da sepultura perceberam a sua atenção, não as mulheres. A perda daquelas mulheres não se limitara a um pai e marido. Os meses que se seguiram foram provavelmente difíceis ao nível financeiro e social para as Kelmsleigh. Na verdade, ele não se detivera sobre as consequências que a investigação e a morte pudessem ter para aquelas inocentes. Na verdade, não pensara nem um pouco nelas. Agora, estava uma ao seu lado numa cama, num quarto onde não deveriam estar juntos e sozinhos. Cruzou as pernas. Pensou se o juiz de paz seria sensato ou mesquinho». In Madeline Hunter, Deslumbrante, Edições ASA, 2013, ISBN 978-989-232-372-5.

Cortesia de EASA/JDACT

Deslumbrante. Madeline Hunter. «Depois, deitou completamente vestido, de bota e tudo, do lado da cama que ficara exposto pela sua obra com as cortinas. Suou muito, literalmente, para evitar sequer tocar na nuvem de tecido que a protegia»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Me poupar? Não tem como evitar o escândalo, seja quem for, se souberem que estávamos nós dois sozinhos. A sua posição só me dará mais visibilidade. Esse tipo de escândalo é o de menos. Na verdade, seria melhor se o magistrado visse o que aconteceu como uma confusão de amantes. Porque quando ele souber que é filha de Horatio Kelmsleigh, vai pensar que conseguiu achar uma forma de se encontrar aqui comigo para me matar e vingar o seu pai. Ela quis rir daquela previsão tão dramática. Só que, num ápice, viu a sórdida cena através dos olhos do estalajadeiro. Lord Sebastian estava certo. A sua identidade proporcionaria uma interpretação diferente, muito pior, dos acontecimentos da noite.  O pensamento deixou-a enjoada. Nunca deveria ter saído da obscuridade segura que encontrara na casa de Daphne. Nunca deveria ter-se rebelado contra a reviravolta infeliz que a vida dera, ou ser estúpida a ponto de achar que conseguiria alterar o curso do destino. Lord Sebastian apontou para a cama.
Não temos forma de saber quando chegará. Vamos arrumar tudo para conseguir descansar um pouco com privacidade enquanto eu planeio a melhor maneira de evitar que seja levada por tentativa de assassinato. Ele fechou as cortinas da cama com o braço bom. Depois levantou a bainha de um lado e pô-la a meio da cama para formar um túnel, estreito mas decente, para lhe proporcionar alguma privacidade. Entre, miss Kelmsleigh, e tente dormir. Não a incomodarei. Está em perfeita segurança. Ela observou demoradamente a cama. E onde você ficará? Do outro lado da cortina. Seria perfeitamente inconveniente. Nós já passamos da fase das conveniências, não acha?
Fez uma careta de resignação. Envolveu-se no xaile, levantou um canto da cortina e desapareceu por trás dela. Estavam aprisionados, de todas as maneiras, e não havia espaço para cerimónias. Ele não podia passar a noite sentado na cadeira com aquele braço e provavelmente também não permitiria que o fizesse cedendo a cama a ele. Deitou-se de lado, encolhida, e fechou os olhos. Apesar da exaustão, seu corpo parecia a corda esticada de um arco. Não parava de ouvir os pequenos ruídos da movimentação dele no quarto.
Em seguida, afundou-se no colchão, do outro lado da cortina esvoaçante. Sentiu a presença dele aquecendo-a, apesar de não se tocarem em parte nenhuma. Tentou dormir. Era impossível. Ele estava logo ali. Imaginou aproximando-se dela e... A ideia deixou-a chocada. Assim como a reacção de seu corpo. Tentou dirigir os pensamentos para outras coisas, para a mãe e Sarah, para o pai. Até para Roger. Nada daquilo foi de grande ajuda. Em vez disso, a intimidade da situação saturava o quarto, tornando-se impositiva. Era pior do que estar numa carruagem apinhada de estranhos. Nessa situação podia fingir que eles não estavam lá e ignorar a proximidade física, que em qualquer outra ocasião seria malquista. E todos continuavam a ser estranhos uns aos outros, mesmo se algum gostasse de falar, porque a conversa não era sobre nada importante. No fim da viagem desapareciam, assim como a intimidade, como se nada tivesse acontecido. Lord Sebastian não desapareceria. De manhã teria de enfrentá-lo e não podia fingir que nada daquilo ocorrera. Também não era nenhum estranho, e a conversa dele tratara de coisas muito importantes. E ele a havia beijado. E ela permitira. Era aquilo que a deixava verdadeiramente assustada e, sim, na expectativa. Dera motivos para pensar que se ele se aproximasse poderia não se importar. Era isso que aprofundava aquela consciência que tinha do corpo que estava ao lado, ali, daquela forma tão escandalosa, alarmante, permanente.
Ele também não dormiu. Sabia. Por isso não se atreveu a se mexer. Nem um pouquinho, a noite toda. Sebastian esperou quinze minutos sentado na cadeira de madeira com o braço latejando. Depois, deitou completamente vestido, de bota e tudo, do lado da cama que ficara exposto pela sua obra com as cortinas. Suou muito, literalmente, para evitar sequer tocar na nuvem de tecido que a protegia. Simplesmente descansar o ombro e o braço ajudava. Ou talvez ter uma presença feminina tão perto o distraísse do ferimento. Assim como a maioria dos homens, talvez mais do que a maioria, tendia a ter fantasias sensuais. Sorriu pesarosamente ao notar que por dentro sinais de excitação o excitavam, só de ouvir a débil respiração dela. Que pena! Ali estava ele, vestido com casaco e bota, na situação mais casta que era possível criar em tal desastre, e ainda assim o corpo o incitava a especular sobre as possibilidades». In Madeline Hunter, Deslumbrante, Edições ASA, 2013, ISBN 978-989-232-372-5.

Cortesia de EASA/JDACT

Deslumbrante. Madeline Hunter. «Conduziu meu pai à sepultura com a perseguição, lord Sebastian. O senhor e os outros membros do parlamento, que não paravam de falar daquela pólvora»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Audrianna também se agitara. Os acontecimentos e conversas recentes pediam uma explicação. Mencionou um esquema maior, lord Sebastian. O que quis dizer com isso? Não acredito que o seu pai tenha sido culpado de negligência. Não acredito que a pólvora ruim que deixou os soldados indefesos tenha sido um acidente. A resposta dele deixou-a perplexa. Insinuava que o pai dela enviara deliberadamente a pólvora ruim para a frente de combate. Como se atreve?! Não basta que ele tenha sido injustamente, sentido infeliz a ponto de se desesperar? Acusá-lo agora de... Era dele a última verificação da qualidade numa longa linha de verificações. A distribuição nunca se faria sem a assinatura dele. Fosse por descuido ou conspiração, por alguma razão as atenções se voltaram para ele, miss Kelmsleigh. Lamento, mas esta é a verdade. O insulto deixou-a com vontade de bater nele. Limpou o ferimento com mais força enquanto lágrimas de raiva turvavam a visão. Não, não é essa a verdade. Está enganado. O meu pai não teve culpa de absolutamente nada. Subitamente, a mão dele fechou-se sobre a mão dela que limpava. O toque dele sugeria que ela estava machucando mais do que percebia e que, agora, ele apenas a fazia parar. Contudo, o toque firme da mão dele por cima da sua e a aproximação do rosto que permanecia estóico produziu um inesperado surto de intimidade. O desânimo que sentira com as insinuações dele sobre seu pai misturou-se com uma nova surpresa. Compreendeu que ele segurava a sua mão daquela forma para reconfortá-la.
Ninguém fez aquilo antes. Não desde que o escândalo rebentara. Nem a mãe, que ficara tão perturbada, primeiro com a preocupação, depois com o desgosto. Roger, certamente não. Nem sequer Daphne, a prima, que tratara todo o episódio como um livro cuja capa deveria ficar fechada para sempre. Agora aquele homem, a quem só faltara entregar a corda ao seu pai para ele se enforcar, fazia uma pequena tentativa de acalmá-la. Devia repelir o toque dele e ignorar o seu esforço. Devia dizer-lhe que não queria ser consolada, e ainda menos por ele. Em vez disso, ficou sem conseguir mexer-se durante certo tempo. Fechou os olhos e aceitou o gesto humano da preocupação dele, sentindo-a fluir como água cálida no corpo. Permitiu que tocasse o seu coração e acalmasse a agitação que sentia. Ignorou a peculiaridade da origem do reconforto por precisar tão desesperadamente do seu bálsamo. Ele segurou a sua mão e tirou o trapo ensanguentado que segurava. Pegou um pano limpo.
Ajude-me a amarrar isto, por favor, para que eu possa vestir-me para o nosso convidado. Com as mãos trémulas e as dele segurando o pano, ela enrolou o braço. Depois ele colocou-se de pé. De repente, tinha aquele tórax nu à frente do nariz. Uma consciência aguda daquele peito, da textura da pele e da força, desenhada em sombras profundas pela luz do fogo, deixou-a atordoada durante um longo momento. Forçou-se a olhar para cima e olhando a forma como espiava o seu corpo. Sentiu-se muito vermelha e quente. Afastou-se e deu as costas, para que não visse o embaraço. Não havia nada censurável na maneira como ele a olhara. Nada de insinuante nem lascivo. A expressão fora de longe mais chocante do que isso. Vira o próprio fascínio que ele sentira e o reconhecimento silencioso de algum segredo partilhado. Confiança, igualmente, como se soubesse que era digno de ser olhado, mas curiosidade também, como se o interesse dela fosse menos previsível do que o de mulheres anteriores. Ouviu-o se vestindo, e depois o movimento da cadeira. Miss Kelmsleigh.
Ela obrigou-se a virar e a olhar para ele. Tinha um aspecto decente agora. Além da camisa e o colete, vestia também a capa de montar cinza-escura que tirara quando havia entrado. O lenço tinha sido muito bem atado, se considerasse a dor que provavelmente sentira ao mexer o braço. Miss Kelmsleigh, lamento a morte do seu pai. Lamento a sua dor e lamento que a minha busca da verdade tenha magoado a sua família. Ainda assim, esta noite ou amanhã de manhã o juiz de paz do condado vai levantar algumas questões embaraçosas. Devo pedir que confie em mim e que me permita responder em nome dos dois.  A referência à morte do pai inflamou a raiva que a lançara naquela viagem miserável. Sentia-se grata por aquele momento de consolação, mas, na verdade, aquilo não mudava nada.
Conduziu meu pai à sepultura com a perseguição, lord Sebastian. O senhor e os outros membros do parlamento, que não paravam de falar daquela pólvora. Não aceitavam nenhuma explicação e insistiram em que o Gabinete do Material de Guerra encontrasse um bode expiatório para condenar em praça pública. Acho que seria estupidez da minha parte confiar em si. É compreensível que veja as coisas assim. No entanto, eu sou a única protecção que pode ter a este respeito. A minha palavra de cavalheiro, o título do meu irmão e a minha posição no governo podem poupá-la». In Madeline Hunter, Deslumbrante, Edições ASA, 2013, ISBN 978-989-232-372-5.

Cortesia de EASA/JDACT

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

A Princesa Determinada. Catarina de Aragão. Philippa Gregory. «Pensei que os vossos pais haviam derrotado os mouros. Não esperei vê-los transformados em vossos modelos. Catarina ignorou o insulto com um leve rodar de cabeça»

jdact

Palácio de Dogmersfield. Hampshire. Outono de 1501
«(…) Tenho de sair, consegui apenas o mais breve dos adiamentos da pena e sei que ele me espera do outro da porta e já demonstrou, de modo bastante persuasivo, que se não for ter consigo a montanha virá a Maomé, e serei novamente envergonhada. Afasto dona Elvira, como aia não pode proteger-me neste momento, e dirijo-me à porta do quarto. Os meus empregados estão petrificados, como escravos enfeitiçados num conto de fadas, por este comportamento extraordinário vindo de um rei. O coração pulsa-me nos ouvidos e eu conheço o embaraço de uma rapariga, por ter ele se apresentar em público, mas também o desejo de um soldado de deixar que a batalha comece, a avidez de conhecer o pior, mas mais de encarar o perigo do que de lhe escapar. Henrique de Inglaterra quer que conheça o filho, diante do seu grupo de acompanhantes, sem cerimónias, sem dignidade, como se não passássemos de um bando de camponeses. Assim seja. Não vai encontrar uma princesa da Espanha a recuar por medo. Cerro os dentes, e sorrio como a minha mãe me ensinou. Aceno para o meu arauto, que está tão espantado como o resto dos meus companheiros. Anunciai-me, ordeno-lhe. Com o rosto branco de susto, ele abre a porta. A Infanta Catarina, princesa da Espanha e Princesa de Gales, grita. Esta sou eu. Este é o meu momento. Este é o meu grito de guerra. Dou um passo em frente.

A Infanta Espanhola, de rosto exposto ao olhar de todos os homens, permaneceu na ombreira escurecida da porta e depois entrou na sala, apenas uma pequena chama de cor em ambas as faces denunciava a sua provação. Ao lado do pai, o príncipe Artur engolia em seco. Era bastante mais bonita do que ele imaginara, e um milhão de vezes mais altiva. Estava vestida com um roupão de veludo negro, que se abria para revelar uma camisa de dormir cor de pele, com um decote quadrado e profundo, cobrindo os seus seios fartos, ao pescoço, trazia várias fiadas de pérolas, o cabelo castanho, libertado da trança, caía-lhe pelas costas numa enorme onda de vermelho dourado. Na cabeça, trazia uma mantilha de renda preta atirada determinadamente para trás, esboçou uma grandereverência e voltou a levantar-se de cabeça bem erguida, graciosa como uma bailarina. Peço perdão por não estar preparada para vos saudar, disse em francês. Se soubesse que viríeis, estaria preparada.
Surpreende-me que não tenhais ouvido o barulho, respondeu o rei. Eu estava a discutir à vossa porta, há quase dez minutos. Julguei que fossem duas sentinelas a gritar, disse friamente. Artur conteve um suspiro de horror perante a impertinência; mas o seu pai observava-a com um sorriso, como se tratasse de uma nova potra que revelasse um espírito prometedor. Não. Era eu; estava a ameaçar a vossa dama de companhia. Lamento ter sido obrigado a forçar a entrada. Ela inclinou a cabeça. Era a minha aia, dona Elvira. Lamento se foi desagradável convosco. O seu inglês não é muito bom. Não deve ter percebido o que pretendíeis. Eu queria ver a minha nora e o meu filho queria ver a noiva, e eu espero que uma princesa inglesa se comporte como uma princesa inglesa, e não como uma maldita rapariga confinada a um harém. Pensei que os vossos pais haviam derrotado os mouros. Não esperei vê-los transformados em vossos modelos. Catarina ignorou o insulto com um leve rodar de cabeça». In Philippa Gregory, Catarina de Aragão, A Princesa Determinada, Livraria Civilização Editora, 2006, ISBN 978-972-262-455-8.
                                                                                      
Cortesia CivilizaçãoE/JDACT

A Princesa Determinada. Catarina de Aragão. Philippa Gregory. «Deu um passo em frente. A ama desesperada quase se pôs de joelhos. A sua modéstia... Ela tem alguma marca horrível?, perguntou, dando voz aos seus receios mais profundos»

jdact

Palácio de Dogmersfield. Hampshire. Outono de 1501
«(…) Minha senhora, ou aceitais as minhas ordens ou recebereis a minha ordem de despedimento. Não me interessa. Agora, trazei a rapariga cá fora ou eu juro pela minha coroa que entro e, se a apanho despida na cama, não vai ser a primeira mulher que vi em situação semelhante. Mas é melhor ela rezar para ser a mais bonita. A aia espanhola empalideceu bastante com o insulto. Escolhei, disse o rei friamente. Não posso ir buscar a Infanta, respondeu com teimosia. Deus meu! Está decidido! Dizei-lhe que vou entrar, agora mesmo. Ela andou para trás como uma vaca furiosa, o rosto branco de choque. Henrique deu-lhe alguns momentos para se preparar e, em seguida, enganou-a, entrando atrás dela. O quarto estava iluminado apenas por velas e pela luz da lareira. Os cobertores da cama estavam puxados para trás, como se a rapariga se tivesse levantado à pressa. Henrique teve a noção da intimidade, de estar no seu quarto, com os lençóis ainda quentes, o seu cheiro que permanecera no espaço fechado, antes de olhar para ela. Estava de pé, ao lado da cama, uma mãozinha pálida em cima do pilar de madeira gravada. Tinha uma capa azul escura sobre os ombros, e a camisa de dormir branca enfeitada por renda valiosa espreitava pela abertura da frente. O seu forte cabelo castanho, entrançado para dormir, caía-lhe pelas costas abaixo, mas o seu rosto estava completamente protegido por uma mantilha de renda preta, colocada à pressa. A dona Elvira colocou-se entre a rapariga e o rei. Esta é a Infanta, disse. Usará o véu até ao dia do casamento. Não com o meu dinheiro, retorquiu Henrique Tudor amargamente. Quero ver o que comprei, obrigado. Deu um passo em frente. A ama desesperada quase se pôs de joelhos. A sua modéstia... Ela tem alguma marca horrível?, perguntou, dando voz aos seus receios mais profundos. Alguma cicatriz? Ficou marcada da varíola e não me disseram? Juro que não! Silenciosamente, a rapariga estendeu a mão pálida e retirou a bainha ornamental de renda do seu véu. A ama suspirou em protesto, mas não pôde fazer nada para impedir a princesa de levantar o véu, e de o lançar para trás. Os seus olhos azuis claros fixaram o rosto enrugado e irritado de Henrique Tudor sem hesitações. O rei analisou-a e suspirou de alívio pela sua aparência.
Era muito bonita: um rosto suave, redondo, um nariz direito e longo, uma boca cheia, carnuda, sensual. Pôde ver que o seu queixo estava levantado; o seu olhar era desafiador. Não era uma dama a tremer, temendo ser violada. Era uma princesa lutadora, cheia de dignidade, mesmo no seu mais assustador momento de embaraço. Ele fez uma vénia. Sou Henirque Tudor, rei da Inglaterra, afirmou. Ela fez uma reverência. O rei deu um passo em frente e apercebeu-se de que ela estava a controlar-se para não recuar. Segurou-a firmemente pelos ombros, e beijou-lhe uma bochecha morna e macia, e depois a outra. O perfume do seu cabelo e o odor quente do seu corpo invadiram-no, e sentiu o desejo a pulsar na sua virilha e têmporas. De imediato, recuou e largou-a. Sede bem-vinda a Inglaterra, disse. Pigarreou. Perdoareis a minha impaciência em ver-vos. O meu filho também vem a caminho, para vos visitar.
Perdoai-me, disse geladamente, falando num francês perfeito. Só fui informada de que Vossa Graça insistia na honra desta visita inesperada há alguns momentos. Henrique conteve-se um pouco perante a chicotada de mau-humor por ela demonstrado. Tenho o direito... Ela encolheu os ombros, um gesto totalmente espanhol. Claro. Tendes todos os direitos sobre mim. Perante as palavras ambíguas e provocadoras, tomava novamente consciência da proximidade dela: da intimidade do pequeno quarto, a cabeceira da cama enfeitada com ricos tecidos, os lençóis convidativamente empurrados para trás, a almofada que ainda tinha a marca da sua cabeça. Era um cenário de violação, não de saudações reais. Voltou a sentir um fluxo secreto de desejo. Vejo-vos lá fora, disse abruptamente, como se fosse culpa dela o facto de não conseguir livrar-se daquela imagem, de como seria possuir aquela beleza imaculada que comprara. Como seria se a tivesse comprado para si, em vez de ser para o filho? Com todo o prazer, respondeu friamente. O rei saiu do quarto bruscamente, e quase foi contra o príncipe Artur, que andava, ansiosamente, de um lado para o outro, diante da porta. Louca, comentou.
O príncipe Artur, pálido de nervos, afastou a franja loura do rosto e permaneceu imóvel, sem dizer nada. Assim que puder, mando aquela aia embora, disse o rei. E todos os outros. Ela não pode criar uma Espanha pequena na Inglaterra, meu filho. O país não tolera isso, e eu seguramente também não aceitarei. As pessoas não se opõem. Os aldeões parecem adorar a princesa, sugeriu Artur, suavemente. A escolta dela diz... Porque ela usa um chapéu ridículo. Porque é estranha: espanhola, invulgar. Porque é jovem e, resumiu, bonita. É?, suspirou. Quer dizer: é bonita? Não acabei de entrar para me certificar? Mas nenhum inglês vai tolerar qualquer disparate espanhol, quando deixar de ser novidade. Nem eu. Este é um casamento para fortalecer uma aliança; não para adular a sua vaidade. Quer lhes agrade, quer não, ela vai casar convosco. Quer vos agrade quer não, ela vai casar convosco. Quer lhe agrade quer não, ela vai casar convosco. E é bom que venha aqui fora já ou eu não vou gostar dela, e isso é a única coisa que pode fazer diferença». In Philippa Gregory, Catarina de Aragão, A Princesa Determinada, Livraria Civilização Editora, 2006, ISBN 978-972-262-455-8.
                                                                                      
Cortesia CivilizaçãoE/JDACT

A Princesa Determinada. Catarina de Aragão. Philippa Gregory. «Estou a dizer-vos que não podeis entrar! Mesmo que fosseis o Rei da Inglaterra em pessoa, não poderíeis entrar. Eu sou o Rei da Inglaterra, afirmou Henrique Tudor, pouco contente»

jdact

«(…) Traímos a nossa palavra em três meses, expulsando os Judeus e ameaçando os Muçulmanos. Todos têm de se converter à Fé Verdadeira e, depois, se houver alguma sombra de dúvida, ou qualquer suspeição contra eles, a sua fé será testada pela Santa Inquisição (maldita). É a única forma de construir uma nação: através de uma fé. É a única forma de criar um povo a partir da grande diversidade que fora Al-Andalus. A minha mãe mandou construir uma capela na sala do conselho e, onde antes estava escrito. Entrai e perguntai. Não temais procurar a justiça, porque aqui a encontrareis, na bela escrita árabe, reza a um Deus mais inflexível e intolerante do que Alá; e já ninguém vem aqui procurar justiça. Mas nada pode mudar a natureza do palácio. Nem sequer o som dos pés dos nossos soldados a marcharem sobre o chão de mármore pode ameaçar a secular sensação de paz. Pedi a Madilla que me ensinasse o que dizem as inscrições fluidas em todas as divisões, e a minha preferida não é a que se refere à promessa de justiça, mas as palavras escritas no Pátio das Duas Irmãs, que diz: alguma vez haveis observado tão belo jardim?, e depois respondem a si mesmas: nunca vimos um jardim com tal abundância de fruta, tão doce nem tão perfumada: não é verdadeiramente um palácio, nem sequer como aqueles que conhecemos em Cordova ou Toledo. Não é um castelo, nem um forte. Foi construído inicialmente e sobretudo como um jardim, com salas de um luxo sofisticado, para que fosse possível viver ao ar livre. É uma série de pátios concebidos tanto para flores como para pessoas. Um sonho de beleza: paredes, azulejos, pilares fundindo-se com flores, escadas, fruta e vegetação. Os mouros acreditam que um jardim é um paraíso na Terra e gastaram fortunas, ao longo dos séculos para conceber este al-Yanna: a palavra que significa jardim, lugar secreto e paraíso. Sei que o adoro. Apesar de ser uma criança, sei que este é um local excepcional; que nunca encontrarei um lugar tão bonito. E mesmo sendo criança, sei que não posso ficar aqui. É a vontade de Deus e a vontade da minha mãe que eu deixe al-Yanna, o meu lugar secreto, o meu jardim, o meu paraíso. Seria meu destino encontrar o lugar mais belo do mundo inteiro quando tenho apenas seis anos, e, depois, deixá-lo quando tivesse quinze; com tantas saudades de casa como Boabdil; como se a felicidade e a paz não passassem de um breve período na minha vida.

Palácio de Dogmersfield. Hampshire. Outono de 1501
Estou a dizer-vos que não podeis entrar! Mesmo que fosseis o Rei da Inglaterra em pessoa, não poderíeis entrar. Eu sou o Rei da Inglaterra, afirmou Henrique Tudor, pouco contente. E ou ela sai imediatamente, ou eu entro e o meu filho entra a seguir. A Infanta já avisou o rei de que não pode vê-lo, disse a aia secamente. Os nobres da sua corte foram ter com o rei para lhe explicar que ela se encontra em reclusão, como senhora da Espanha. Achais que o rei da Inglaterra cavalgaria pela rua abaixo, quando a Infanta se recusou a recebê-lo? Que tipo de homem pensais que ele é? Exactamente como este, afirmou e lançou o punho com o enorme anel de ouro na direcção do seu rosto. O conde de Cabra entrou no vestíbulo apressado, reconhecendo imediatamente o homem magro de quarenta anos que estava a ameaçar a aia da Infanta com um punho cerrado, com alguns empregados assustados e gritou: o rei!
Ao mesmo tempo, a aia reconheceu a nova insígnia da Inglaterra, as rosas combinadas de York e Lancaster, e retraiu-se. O conde deteve-se e fez uma grande vénia. É o rei, sussurrou, com a voz abafada por estar a falar com a cabeça entre as pernas. A aia soltou um suspiro de horror e mergulhou numa profunda reverência. Levantai-vos, disse o rei bruscamente. E ide buscá-la. Mas ela é a Princesa da Espanha. Nossa Graça, respondeu a mulher levantando-se, mas com a cabeça ainda inclinada. Deve permanecer em reclusão. Não pode ser vista por vós antes do dia do casamento. É a tradição. Os seus nobres foram explicar-vos... É a vossa tradição. Não é a minha tradição. E uma vez que ela é minha nora no meu país, sob as minhas leis, vai obedecer à minha tradição. Ela recebeu uma educação bastante cuidada, modesta e adequada... Então, vai ficar muito chocada quando encontrar um homem furioso no quarto. Minha senhora, sugiro-vos que a tragais aqui imediatamente. Não o farei. Vossa Graça. Eu recebo ordens da própria rainha da Espanha, e ela encarregou-me de me certificar de que era prestado todo o respeito à Infanta e de que o seu comportamento era sempre...» In Philippa Gregory, Catarina de Aragão, A Princesa Determinada, Livraria Civilização Editora, 2006, ISBN 978-972-262-455-8.
                                                                                      
Cortesia CivilizaçãoE/JDACT

O Legado dos Templários. Steve Berry. «Ao longo dos séculos, milhares de irmãos tinham enfrentado o mesmo fim e era impensável que o grão-mestre não seguisse a tradição»

jdact

«(…) Embora a declaração tivesse sido proferida sem qualquer emoção, fez-se um momento de silêncio. Viajamos juntos para Roskilde?, perguntou Hansen, tendo aparentemente entendido que não iria conseguir arrancar qualquer informação dela. Eu encontro-me consigo lá. Mal posso esperar. Stephanie saiu do escritório e Malone recuou no seu esconderijo, e virou o rosto quando ela passou. Ouviu a porta do escritório de Hansen bater e aproveitou a oportunidade para voltar à entrada da loja. Stephanie abandonou a livraria e virou à esquerda. Ele esperou um pouco e depois seguiu-a por entre os transeuntes em direcção à Torre Redonda.
Não olhou para trás uma única vez. Parecia nem sequer conceber que alguém pudesse estar interessado nas suas andanças. Contudo, devia estar preocupada com essa possibilidade, principalmente depois do que acontecera com o homem da faca. Interrogou-se porque não estaria ela atenta e alerta. Era certo que não era uma operacional, mas também não era parva. Ao chegar à Torre Redonda, em vez de virar à direita e dirigir-se à Höjbro Plads, onde se situava a livraria de Malone, continuou em frente, e depois de andar mais três quarteirões, entrou no Hotel d'Angleterre. Ficou a vê-la entrar. Sentia-se magoado por saber que ela desejava comprar um livro na Dinamarca e não lhe pedira ajuda. Era óbvio que não o queria envolver no assunto. Na verdade, depois do que sucedera na Torre Redonda, ela parecia nem sequer querer falar com ele. Olhou para o relógio. Passava um pouco das dezasseis e trinta. O leilão tinha início às dezoito horas e Roskilde ficava a meia hora de automóvel. Não planeara estar presente, pois o catálogo que lhe tinham enviado não continha nada de interessante. Mas isso já não era importante. Stephanie estava a agir de modo estranho, até para ela, e uma voz familiar na sua cabeça, voz essa que o mantivera vivo durante doze anos como agente do governo, dizia-lhe que ela ainda ia precisar dele.

Abbaye des Fontaines. Pirinéus Franceses. 17h00
O senescal ajoelhou-se ao lado da cama para confortar o seu mestre moribundo. Rezara durante semanas para que aquele momento não chegasse mas em breve, depois de ter dirigido sabiamente a Ordem durante vinte e oito anos, o velho homem deitado na cama ganharia um merecido lugar no céu junto dos seus antecessores. Infelizmente, para o senescal os tumultos do mundo físico continuariam e ele temia esse panorama. A divisão era espaçosa e as antigas paredes de pedra e madeira não exibiam quaisquer sinais da passagem do tempo, apenas as vigas de pinho do tecto haviam escurecido. Uma janela solitária, como um olho melancólico, deixava ver o exterior e emoldurava a beleza de uma queda-d’água que contrastava com a robustez cinzenta da montanha. A luz baça do crepúsculo começava a fazer crescer os cantos do quarto. O senescal pegou na mão do mestre e reparou que esta estava fria e mole. Está a ouvir-me, mestre?, perguntou em francês. As pálpebras cansadas abriram-se. Ainda não morri, mas já não falta muito. Já ouvira outros que no leito de morte haviam proferido afirmações semelhantes e sempre se interrogara se o corpo simplesmente se exauria, deixando de ter forças para obrigar os pulmões a respirar ou o coração a bater, a morte invadindo aos poucos os territórios da vida. Apertou-lhe a mão com mais força. Irei sentir a sua falta. Os lábios finos esboçaram um sorriso. Foste um bom aprendiz, tal como eu previra. Foi por isso que te escolhi. Os dias vindouros trarão muitos conflitos. Estás preparado. Tratei de tudo para que assim fosse. Ele era o senescal, o sucessor do grão-mestre. A sua ascensão fora rápida, demasiado rápida para alguns, e apenas a firme liderança do mestre abafara o descontentamento. Mas a morte em breve viria reclamar o seu protector e ele temia que a revolta se instalasse logo de seguida. Não há garantias que eu vos suceda. Subestimas as tuas qualidades. Respeito o poder dos seus adversários.
O silêncio encheu o quarto, permitindo que as cotovias e os melros se escutassem do outro lado da janela. Olhou para o seu mestre. Vestia uma bata azul-celeste salpicada de estrelas douradas. Apesar das linhas faciais parecerem mais acentuadas com a proximidade da morte, exibia ainda algum fulgor. Do queixo pendia-lhe uma barba longa, emaranhada e grisalha, as mãos e os pés estavam retorcidos pela artrite, mas o brilho dos olhos não se tinha apagado. Sabia que os vinte e oito anos de liderança tinham ensinado muita coisa ao agora cansado cavaleiro-guerreiro. A lição mais importante de todas fora porventura a de mostrar uma máscara de civilidade, mesmo perante a morte. O médico confirmara o cancro há alguns meses. Tal como a Regra exigia, permitiu-se que a doença avançasse ao seu ritmo, aceitando-se desse modo as consequências naturais da acção de Deus. Ao longo dos séculos, milhares de irmãos tinham enfrentado o mesmo fim e era impensável que o grão-mestre não seguisse a tradição». In Steve Berry, O Legado dos Templários, 2006, Publicações dom Quixote, 2007, ISBN 978-972-203-808-9.

Cortesia PdomQuixote/JDACT