quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Os Dias da Febre. João Pedro Marques. «Alguns dias depois, as tropas do Porto revoltaram-se contra o usurpador, mas a revolta foi esmagada»

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Carlos Cabral
«(…) Sim, isso é verdade, reconheceu Carlos, fixando os olhos na bola e desferindo uma tacada seca e certeira. Eu não nego que possa haver um perigo para as liberdades, mas esse perigo parece-me distante. O perigo é iminente, disse, quase num brado, o que primeiro falara. Para já, quero concentrar-me no meu curso, continuou Carlos, como se não tivesse ouvido o amigo. Se o perigo que tanto receiam se concretizar, então eu juntar-me-ei ao Batalhão Académico. Mas não o fez, no imediato, ainda que o perigo se tivesse materializado, como os amigos temiam. O infante Miguel dissolveu a câmara dos Deputados e, depois, convocou cortes à moda antiga, que o confirmaram como rei, assim se consumando a usurpação e o fim do que restava do liberalismo (a Câmara dos Deputados foi dissolvida em Março de 1828 e as Cortes convocadas em 6 de Maio desse ano). Alguns dias depois, as tropas do Porto revoltaram-se contra o usurpador, mas a revolta foi esmagada. Derrotados pelos miguelistas e desmoralizados pela deserção da maior parte dos seus chefes, que fugiram para Inglaterra a bordo do navio Belfast, os homens que formavam o exército liberal passaram para a Galiza e foi só a muito custo, e no meio de grandes provações, que conseguiram seguir para França ou Inglaterra, onde já estavam vários refugiados portugueses.
Carlos Cabral seguiu todos estes acontecimentos à distância, assistindo à desorganização que minara o esforço e a coesão dos liberais. Lamentou os colegas que partiam em condições difíceis para um exílio cuja duração era indeterminada. Mas, interiormente, felicitou-se pela clarividência e o bom senso que o tinham levado a permanecer em Coimbra, apostando na finalização da sua formação jurídica e resistindo a um mar avisado impulso romântico que o teria condenado ao exílio ou a pior sorte. Sabia, claro, que os amigos lhe reprovavam a falta de generosidade. Inicialmente, essa reprovação incomodara-o por sentir, lá no íntimo, que era justificada e durante meses perguntara a si próprio se teria uma deficiência, uma lacuna da alma, que o inferiorizasse perante os outros. Mas esse sentimento de possível inferioridade durara pouco. Carlos rapidamente percebeu que a suposta lacuna era, na verdade, uma vantagem, uma superioridade relativamente a todos os que se perdiam em exaltações e melancolias.
O fim dos seus estudos coincidiu com o reinício da guerra no território português. Efectivamente, após quatro anos de exílio, os liberais tinham obtido um comandante na pessoa de Pedro, que abdicara da Coroa brasileira, algum dinheiro, uma pequena esquadra e um número de homens suficiente para desembarcarem perto do Porto e ocuparem a cidade, o que fizeram no Verão de 1832 (o desembarque no Mindelo e ocupação do Porto ocorreu a 9 de Julho de 1832). Contudo, este primeiro triunfo não teve sequência e os liberais ficaram enquistados no Porto porque o resto do país não se levantou em seu auxílio». In João Pedro Marques, Os Dias da Febre, Porto Editora, 2010, ISBN 978-972-004-098-5.

Cortesia de PEditora/JDACT 

Catarina de Habsburgo. Rainha de Portugal. Yolanda Scheuber. «Povoados de saudades e de sombras, entraram nos meus sonhos, e, apesar de se repetirem com frequência, nunca de forma tão obstinada como se abateram sobre mim naqueles tristes dias…»

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«(…) Bebendo diariamente daqueles ideais, o menino sonhou a partir de então transformar-se no valente rei que todos desejavam que fosse e que levasse o seu país ao esplendor máximo. Em 1557, sua mãe, a princesa Joana, por recomendação do seu confessor Francisco Borja, fundou em Madrid o mosteiro das Clarissas, Nossa Senhora da Consolação, Convento das Descalças Reais, situado no mesmo palácio onde ela nascera e fora baptizada. Ali se recolheu e levou até à morte uma vida dedicada com total entrega ao serviço de Deus. Tristemente, a 7 de Setembro de 1573, partiu para a eternidade. Sebastião não derramou uma única lágrima porque nunca chegou a conhecê-la, apesar de eu, para que a amasse, nunca tivesse deixado de lhe falar dela. Também eu, na intimidade desta casa do Senhor, me sinto mais perto da minha família perdida... Já nem o meu esposo nem os meus nove filhos estão neste mundo, assim como nenhum dos meus irmãos. A eles falo através de Deus quando rezo e a eles me parece ouvir quando leio a sua palavra na Bíblia.
Recordo como se fosse hoje o dia em que transpus os portões deste claustro. Respirava-se aqui dentro uma atmosfera diferente, eram os aromas da paz e da alegria profunda de estar sempre com a mente posta em Deus, afastada do mundo. Aqui sente-se o estado de graça. Tanto a prioresa como o resto das monjas são mulheres piedosas, sinceras e devotas, naturais, verdadeiras..., que nunca deixam de pisar a terra sem cuidar dos pobres e desvalidos. Henrique, o cardeal, reinou em nome de Sebastião até à memorável data de 1568, em que meu neto, com catorze anos, tomou posse efectiva do trono e assumiu os destinos do reino.
O jovem monarca já tem nove anos de reinado pessoal. Dentro de seis dias fará vinte e três anos. Por muito poucos dias de diferença, nunca pudemos celebrar juntos os nossos aniversários. Para que fosse evidente que o meu desejo era viver recolhida dentro deste mosteiro, renunciei a tudo o que era mundano e ordenei que me conduzissem até aqui. A prioresa preparou com agrado uns claustros espaçosos para meu alojamento. Jurei interiormente, ao transpor o umbral, permanecer em clausura e nunca mais voltar a atravessá-lo em vida, a menos que algum funeral familiar o exigisse. Desde a morte do meu esposo, visto o meu corpo de negro e trago o rosto sombreado pela dor, dor que não posso arrancar da minha alma, por ter presenciado a morte de todos os meus filhos... O convento faz parte, desde esse ano, dos muitos lugares que deram acolhimento ao meu corpo e à minha alma ao longo de toda a existência. Nesta solidão em que me encontro, também se filtram habitualmente notícias políticas e, com elas, os meus pesares normalmente crescem.
Não foi por influência de ninguém, mas por decisão própria, que decidi viver e morrer neste sítio. Com ansiedade procurei este ambiente ao ficar sozinha e encarei-o com agrado, como quem aceita a tarefa que tem de realizar até ao último instante sem fazer mais perguntas; entre outras razões porque o desejo fervorosamente, ou talvez por este único motivo. E compreendi por fim, sem que a minha mente talvez o entendesse, que não é preciso lutar contra a solidão quando a velhice bate à porta, porque e um objectivo vão.
Saí do convento, não vos resguardeis dentro dele ou dentro de vós, ouvi muitas vezes dizer a voz da consciência. Não vos protegeis mais. Se escondeis os vossos olhos para que não os magoe o Sol, mais de mil vezes havereis de vos ofuscar com os seus raios. Já é tempo de provardes o vosso próprio remédio, o alívio não vos virá de fora. Podeis procurá-lo, não vos detendes, nem sequer é preciso que vos movais. Tudo está dentro de vós. Foi nos meses em que acabara de chegar ao mosteiro que surgiram os primeiros pesadelos. Povoados de saudades e de sombras, entraram nos meus sonhos, e, apesar de se repetirem com frequência, nunca de forma tão obstinada como se abateram sobre mim naqueles tristes dias de princípios de 1563. Nesses sonhos apenas eu existia. Quero dizer que só me via a mim mesma junto de um labirinto de atalhos que se abriam, confusos, e que me conduziam sempre para o nosso palácio de Sintra, onde já ninguém habitava, ou por vezes para os mesmos aposentos onde eu residira e por cujas janelas penetravam, imperativas, as primeiras escuridões da tarde. À medida que os pesadelos se repetiam, as minhas noites iam-se tornando mais penosas; esforçava-me durante o dia por afastar da mente aqueles pensamentos carregados de preocupações, mas eles, adiados e não mortos, apareciam novamente todas as noites, mostrando-me as imagens esbatidas dos meus filhos». In Yolanda Scheuber, Catarina de Habsburgo, Rainha de Portugal, Ediciones Nowtilus, 2011, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2013, ISBN 978-972-462-077-0.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Catarina de Habsburgo. Rainha de Portugal. Yolanda Scheuber. «Após várias noites de vigília, pálida e com olheiras, tomei a decisão. A minha sobrinha Maria foi a primeira a sabê-lo. Depois, chamei Sebastião…»

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«(…) O principezinho, alheio a tudo o que à sua volta acontecia, sorriu à mãe quando ela o beijou naquela triste despedida e depois, entre os meus braços, voltou a sorrir-me, talvez intuindo que eu iria tornar-me, a partir daquele dia, sua mãe substituta. Joana partiu,o escondendo o pranto dos olhos sob as dobras de um véu negro e com as mãos sufocou os soluçs. Eu, longe de me consolar com a clara manifestação de inocente carinho de meu neto, desfiz-me em prato sobre o morno peito do pequeno órfão. O principezinho acariciou com os dedos o meu toucado em jeito de terno bálsamo. Ao voltar a olhar para ele, os seus claros olhos trouxeram-me a recordação indelével de meu amado filho recentemente falecido. Durante muitos dias, não pude deixar de pensar na simultaneidade dos nossos destinos. Ambos havíamos perdido os nossos progenitores antes de nascer e, em obediência às ordens dos reinos, éramos obrigados a permanecer onde estávamos, só que eu tinha tido a imensa sorte de continuar ao lado da minha adorada mãe, e ele, a riqueza de gozar de uma liberdade que a nós sempre fora negada.
Depois da morte de meu esposo, recordo que assumi a regência agarrada a ele, com integridade e coragem, como se naquele bem-amado principezinho pudesse abraçar todos os meus filhos mortos. A sua mãe nunca mais o pôde voltar a ver, apenas o viu crescer através dos retratos que todos os anos eu mandava pintar aos retratistas da corte, entre eles o português Cristóvão Morais, enviando-os para Espanha. Ela respondia-lhe com presentes que enviava através de Cristóvão Moura, cavaleiro português que fora para Castela como menino da princesa Joana, quando a princesa regressou de Portugal.
Passado o tempo, a dor e o esgotamento levaram-me a abandonar o palácio, em 1562, procurando o único consolo que podiaencontrar, mais perto de Deus, dentro deste convento. Teria gostado de continuar ao lado de meu neto, de o criar e educar com todo o amor de mãe de que sou capaz, até que atingisse a maioridade, mas quando fez oito anos senti que estava na altura de me afastar. Perdera as forças. As amarguras começavam a vergar-me e a minha vida apenas ressumava resignação e cansaço. Foi então que compreendi que era preciso deixar o caminho livre para que outro ocupasse o meu lugar. Verifiquei que já não me sentia capaz de continuar com a minha tarefa de mãe substituta. Estava na hora de ceder o lugar a outra pessoa mais forte do que eu, que pudesse guiar o principezinho pelo caminho certo da formação, tanto física como espiritual, para que, chegada a altura, fosse um monarca bom, digno e amado pelo povo.
Creio que o conseguiu. O seu ideal de grandeza sempre o levou com verdadeiro entusiasmo a procurar os mais altos valores, aqueles que possam tornar reais os maiores sonhos dos Portugueses. Preparou-se com grande esforço e fervorosa fé cristã e creio que Deus o iluminou e amparou até ao dia de hoje. No entanto, por vezes penso que o seu excessivo idealismo e o seu misticismo lhe podem causar grandes desgostos. A sua decisão de não contrair matrimónio espanta-me e inquieta-me ao mesmo tempo. Não deseja casar-se para que ninguém ou nada influencie a sua preparação como monarca. Treinado na arte da guerra e nas virtudes cavaleirescas, sonhou desde criança com a glória de Portugal, e o reino adora-o tanto como eu. Na solidão deste claustro, devo confessar que foi muito duro para mim afastar-me dele. Mas, acreditem, não tinha forças para continuar, todos temos o nosso tempo para servir os outros, mas o meu esgotou-se.
Após várias noites de vigília, pálida e com olheiras, tomei a decisão. A minha sobrinha Maria foi a primeira a sabê-lo. Depois, chamei Sebastião, fui-lhe dizendo devagar, como um condenado quando se confessa, tentando prolongar o tempo que ainda lhe resta para a sua execução, à procura do perdão. Ambos me compreenderam. Com grande alívio no meu coração, renunciei à tutela do menino em favor do cardeai Henrique e entrei nesta santa casa antes de terminar o ano do Senhor de 1562. Fi-lo, não com a ideia de ser uma monja, mas como forma de me isolar do mundo e de permanecer mais tempo em oração do que em tarefas e esforços. Creio que nesses dias tomei a decisão mais acertada da minha vida. Eram tempos difíceis para o reino e para a minha alma. Em Março, um exército marroquino tomara a praça de Mazagão e o reino, que já vira com tristeza Portugal abandonar, entre 1541 e 1549, as praças de Agadir, Azemur, Safi, Alcácer Ceguer e Arzila no país marroquino, viu no pequeno herdeiro a sua própria salvação». In Yolanda Scheuber, Catarina de Habsburgo, Rainha de Portugal, Ediciones Nowtilus, 2011, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2013, ISBN 978-972-462-077-0.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

Catarina de Habsburgo. Rainha de Portugal. Yolanda Scheuber. «Quando o meu esposo, João III, faleceu, no ano do Senhor de 1557, todos os nossos filhos já tinham morrido. Com apenas três anos e estando sob os meus cuidados, o meu neto Sebastião…»

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«(…) No dia em que decidi entrar nele, as monjas acolheram a minha chegada com imensa alegria, consideraram que era uma grande honra eu as ter preferido. No entanto, a minha corte experimentou um profundo pesar, pois entendeu-o como um abandono da minha parte. E Portugal transformou-se a partir de então no alvo da política imperial dos Habsburgo, ao passar a minha regência, sobre o único herdeiro possível da Casa de Avis, o meu pequeno neto, o rei Sebastião, para o meu cunhado, o cardeal Henrique, irmão do meu esposo. Desejava recolher-me em solidão para rezar. Precisava disso quando tomei a decisão de o fazer e continuo a precisar ainda hoje; ou, por outras palavras, só desejei ser rainha para acompanhar o meu fiel esposo no difícil caminho da governação, mas, ao ficar viúva, não desejava continuar a ser soberana. À minha volta fui tecendo valas de silêncio e oração, e também de reflexão; aquilo a que aspirava era a amarrar-me à alma dos que mais amei e que já não são vivos. Apesar dos possíveis reparos que originava a minha decisão indeclinável de abandonar o mundo para me recolher no mosteiro, fiz saber por todo o reino que renunciava à regência do meu neto. Fazia-o porque já não desejava governar em seu nome, nem me encontrava com as forças necessárias para reger em seu lugar devido à minha idade. O único horizonte dos meus olhos nesses tempos era o convento, como quando era criança, e o único espaço onde se detinha o meu olhar eram os velhos muros de uma fortaleza abandonada.
Quando o meu esposo, João III, faleceu, no ano do Senhor de 1557, todos os nossos filhos já tinham morrido. Com apenas três anos e estando sob os meus cuidados, o meu neto Sebastião herdou o trono lusitano. O pequeno principezinho parecia estar condenado à felicidade e à boa esperança. Nascera a 20 de Janeiro de 1554, sob a protecção de São Sebastião, e, apesar de ter chegado ao mundo dezoito dias depois da morte do pai, o meu querido filho João Manuel, todo o Portugal o considerou um dom do céu, pelo que, para evitar o receio de a Lusitânia acabar por ser um território espanhol, o reino exultante o aclamou como Sebastião, o Desejado.
A sua mãe, a princesa Joana, arquiduquesa de Áustria e infanta de Espanha, era a filha mais nova do meu irmão, o imperador Carlos V que, com a intenção de abdicar do trono, a mandou visitar Espanha com urgência, a 17 de Maio desse ano, deixando o herdeiro aos meus cuidados. A jovem tinha apenas dezanove anos quando assumiu a regência daquele reino, a 12 de Junho de 1554. (Fê-lo porque seu irmão e herdeiro, o príncipe Filipe, viúvo da nossa filha Maria Manuela, tinha de partir para Inglaterra para desposar Maria I. Durante cinco anos, exerceu em seu nome a administração do governo. Amiga pessoal do fundador da Companhia de Jesus, Ignacio Loyola, e de quem fora na minha infância meu pajem em Tordesilhas, Francisco Borja, seu confessor, contou sempre com um apoio incondicional quando teve de assumir a regência.) E, assim, o pequeno infante, sem ter ainda feito quatro meses, teve de ser abandonado pela mãe, pois, ao ser herdeiro legítimo de Portugal, não a pôde acompanhar no seu destino.
Recordo a trágica tarde em que, com lágrimas nos olhos, Joana beijou com ternura, pela última vez, a testa do filho e deixou o menino entre os meus enlutados braços. Obrigada pelas urgências do império, o seu coração partiu-se em dois. A gravidade das circunstâncias encurtou o tempo da despedida. Eu considerei-o um triunfo pessoal do meu irmão e, na tarde em que Joana me anunciou a sua partida, invadiu-me uma profunda dor por ela e pelo menino». In Yolanda Scheuber, Catarina de Habsburgo, Rainha de Portugal, Ediciones Nowtilus, 2011, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2013, ISBN 978-972-462-077-0.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

O Estranho Caso de Sebastião Moncada. João Pedro Marques. «… um tal Leonardo, o homem que tinha assassinado o marquês de Loulé à paulada, em Salvaterra de Magos, ao que constava…»


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O Mistério da Foz
«(…) Ora, esse era um sentimento perigoso, à época, e trouxe-lhe grandes dissabores. O primeiro deles foi uma pendência com um tal Leonardo, o homem que tinha assassinado o marquês de Loulé à paulada, em Salvaterra de Magos, ao que constava, a mando ou com a anuência do próprio infante Miguel. O crime horrorizou os homens bem formados mas nada se fez para o castigar, até ao dia em que o tal Leonardo, convencido da sua impunidade, decidiu gabar-se do que fizera à porta de uma taberna e Mateus, que por ali passava em patrulha, lhe deu voz de prisão. O homem resistiu, armou zaragata, mas foi dominado e arrastado até ao quartel da Rua do Salitre.
Aquela acção policial foi louvada pelos superiores e pela imprensa liberal, porém, logo se moveram influências na penumbra dos gabinetes e Leonardo foi solto. Nas semanas seguintes Mateus teve por diversas vezes de se bater para escapar a emboscadas que lhe armavam nas vielas de Lisboa. Numa delas foi ferido por uma feia punhalada, perdeu muito sangue e esteve várias semanas hospitalizado. Ainda que tivesse conseguido salvar a vida, ficou bem ciente de que era uma pessoa marcada para os partidários do então exilado Miguel. E era-o numa cidade onde matar um homem se fazia por dez réis de mel coado.
Essa evidência devia ter feito dele uma pessoa mais discreta e cautelosa. Mas Mateus tinha no cumprimento do dever a bússola orientadora da sua vida e não mudou de atitude nem de caminho. De volta ao serviço continuou a actuar contra as violências e os abusos, viessem de onde viessem. Até certa altura, os sucessivos comandantes da Guarda, que estimavam o seu zelo e a sua rectidão salomónica, deram cobertura aos seus actos, mas em 1828 tudo isso mudou quando Miguel, regressado a Portugal, usurpou o trono e dissolveu as Cortes. A violência ganhava asas, o cacete fervia nas ruas, e começaram a multiplicar-se pelo reino fora as agressões aos malhados (liberais), as suas prisões arbitrárias e, até, as suas execuções. O tio de Trancoso, um dos mais notórios liberais da Beira, foi preso, os seus bens confiscados e acabou por morrer na prisão de Almeida.
Mateus sentiu a morte do tio como uma nova tragédia na sua vida, todavia não quis entendê-la como um sinal de alarme. Ao invés de muitos outros liberais que fugiram do reino, ele recusou a emigração não porque tivesse medo da vida noutro país, mas porque o dever lhe impunha que permanecesse ali. Não sabia ao certo que dever era esse. Talvez uma obrigação para com a imagem que tinha de si próprio; talvez o respeito da memória e da vontade do tio. O facto é que ficou num Portugal onde já não havia espaço para pessoas como ele. Temerário e teimoso, voluntariamente indiferente às nuvens negras que se acumulavam no horizonte, persistiu na sua já lendária rectidão e foi castigado por viárias vezes, despromovido para o posto de tenente e transferido para o Porto, onde não voltara desde a tragédia da Ponte das Barcas.
Chegou à cidade na manhã em que se enforcavam dez liberais. As forcas tinham sido levantadas na Praça Nova e os tambores rufavam, cavernosos, tenebrosos, chamando as pessoas ao suplício. Estava um dia cinzento e caía uma chuva miudinha, que não demovia o povo imenso que se juntara na praça, seguindo tudo com olhos ávidos e cruéis. Na orla daquele recinto apinhado dezenas de senhoras guarneciam as janelas de primeiro e segundo andar, espreitando por detrás de leques, num misto de horror e de curiosidade mórbida.
E Mateus ali ficou a cumprir a sua primeira missão policial no Porto, de dentes cerrados, com a roupa encharcada colada ao corpo, maldizendo a sua índole demasiado respeitadora da lei e a estúpida escolha da carreira militar. Foi nesse estado de desconforto físico e de revolta interior que viu os condenados descerem da Relação, em cortejo, carregando as tumbas da Misericórdia que lhes acolheriam os cadáveres. Lenta e metodicamente as forcas desempenharam a sua negra função e à uma da tarde a tragédia estava consumada. Depois de mortos, as cabeças dos enforcados foram separadas do tronco para serem pregadas e expostas em postes altos, como ele já vira fazer em Lisboa aos estudantes enforcados no Cais do Tojo. E, ao presenciar aquele espectáculo macabro, sentiu uma angústia indizível». In João Pedro Marques, O Estranho Caso de Sebastião Moncada, Porto Editora, 2014, ISBN 978-972-004-495-2.

Cortesia de PortoEditora/JDACT

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

O Estranho Caso de Sebastião Moncada. João Pedro Marques. «Mateus Vilaverde acabou por ganhar um asco visceral aos corcundas (forma como os liberais se referiam aos miguelistas) e à sua violência infrene»

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O Mistério da Foz
«(…) Fosse por que razão fosse, deu esse passo com tal entusiasmo e empenho que, um ano volvido, já cingia uma banda de alferes. Nesse primeiro momento de recompensa, Mateus congratulou-se por ter dado aquele rumo à sua vida. Era, então, muito atraído pelo luzimento da vida militar e o brio e o mérito com que desempenhava as missões de que o incumbiam, fizeram com que, em breve, chegasse a tenente e, alguns anos depois, a capitão, o mais jovem capitão do regimento. Como prémio pelos bons serviços prestados foi transferido para a Guarda Real de Polícia, ficando a comandar a 4.a Companhia, à qual cabia a patrulha da parte norte de Lisboa e subúrbios.
Sentiu-se honradíssimo com aquele comando. Estavam na Guarda Real os melhores soldados, os mais fortes e mais firmes, e ele fez por merecê-los. Mas os tempos eram difíceis e os mares encapelados. Corria, então, a Primavera de 1822 e os dias revolviam-se na agitação política decorrente da revolução. O rei viera do Brasil no Verão anterior, mas a sua chegada não apaziguara o ódio entre realistas e constitucionais. Pelo contrário, acirrara-o pois na comitiva que, acompanhava o monarca vinham muitos inimigos do espírito liberal, como dona Carlota Joaquina, a megera de Queluz, ou o infante Miguel, que cedo se tornou o chefe da contra-revolução. E, com os meses a passar, o inevitável braço-de-ferro começou a pender para os miguelistas, o que Mateus muito lamentou, ainda que não fosse um liberal assumido. A bem dizer, a política nunca lhe interessara. Na idade em que muitos dos seus camaradas de armas já tinham paixões e convicções ele tinha apenas vagas curiosidades e nenhuma comoção política parecia suficientemente forte para provocar vibrações nos seus nervos. Em seu redor os países explodiam em revoluções e pronunciamentos, os povos reivindicavam liberdades, igualdades, sufrágios, constituições, muitos dos seus colegas liam e decoravam os discursos das assembleias, os escritos de Mirabeau e as doutrinas dos filósofos que preparavam as revoluções, mas ele não costumava perder tempo a pensar nisso. Para quê? Os homens eram todos falsos e venais, fossem eles absolutistas ou constitucionais, e ele já vira como até as mais generosas ideias liberais podiam alienar-se e transfigurar-se em armas tão impiedosas como as baionetas de Soult. A letra da lei era a única coisa em que podia depositar uma confiança cega e ele, um incréu, seguia a legislação civil e os regulamentos militares com uma devoção quase religiosa.
O tio dissera-lhe um dia: ser livre é ser amante da ordem e escravo da lei. Nós não somos livres à maneira dos tigres. Somos livres como homens racionais o devem ser: na obediência da lei, Mateus, na obediência da lei!
Mantivera essa máxima e as leis passaram a ser, a par dos sentimentos que o faziam superar-se ou comover-se, as únicas âncoras da sua existência. Coração e lei iam imprimindo os mapas muitas vezes contraditórios que orientavam os seus rumos; o resto pouco lhe interessava. Todavia, a luta política daqueles dias tumultuosos passava-se à sua frente, debaixo dos seus olhos, e era-lhe impossível não ver que os malhados (designação que os miguelistas davam aos liberais) procuravam seguir a lei e que os seus opositores a violavam e deformavam, sem olhar a meios. Foi, portanto, por razões morais e afectivas que Mateus Vilaverde acabou por ganhar um asco visceral aos corcundas (forma como os liberais se referiam aos miguelistas) e à sua violência infrene». In João Pedro Marques, O Estranho Caso de Sebastião Moncada, Porto Editora, 2014, ISBN 978-972-004-495-2.

Cortesia de PortoEditora/JDACT

Por Amor a uma Mulher. Domingos Amaral. «Por isso, esperaram que o Sol regressasse, o que aconteceu passado algum tempo, tendo o dia voltado a ser o que era e as estrelas desaparecido»

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Coimbra. Julho de 1117
«(…) Mem não era uma coisa nem outra, era as duas ao mesmo tempo, ou nenhuma delas. O pai era muçulmano, mas não ligava a rezas, embora gostasse de falar na Bíblia, e a mãe, apesar de cristã, morrera há tanto tempo que Mem já não se recordava do dia em que entrara numa igreja pela última vez.
Como ele não respondeu, a velha concluiu: sois moçárabe. Olhando para o corpo morto, declarou: o vosso pai não pode ficar assim. Como não temos com que enterrá-lo, teremos de queimá-lo.
Mem deu o seu aval com um aceno de cabeça. A mulher percebeu que ele estava demasiado impressionado para se conseguir aproximar do pai, por isso disse: deixai estar, eu faço isso.
O rapaz viu-a rodar o corpo do pai, de forma a que ficasse com as costas no chão, e endireitar as pernas e os braços, juntando as primeiras e alinhando os segundos junto ao tronco. De seguida, viu-a pegar na cabeça com cuidado e colocá-la junto ao pescoço, de onde fora abruptamente separada, colocando duas pedras, uma de cada lado da cabeça, para que esta não rodasse.
Terminado este meticuloso trabalho, a velha perguntou: quereis rezar, dizer umas palavras? Mem continuava incapaz de falar. A mulher entendeu as suas limitações e desatou a deitar por cima do corpo do pai um pó que trazia num saco, enquanto murmurava uma ladainha incompreensível, numa língua que Mem desconhecia, talvez um cantar do Levante.
Quando acabou este ritual, questionou-o: sabes porque está tão escuro e o Sol ficou castanho? Explicou que a Lua passava em frente do Sol, roubando-lhe os raios e a luz. E declarou que era melhor só queimarem o pai quando o Sol voltasse, pois os deuses não recebiam bem os mortos durante aquele milagre, achavam que eles eram capazes de roubar a luz e temiam-nos. Com um suspiro, Mem concordou, era melhor os deuses não terem medo do pai, queria que ele ficasse em paz para toda a eternidade. Por isso, esperaram que o Sol regressasse, o que aconteceu passado algum tempo, tendo o dia voltado a ser o que era e as estrelas desaparecido.
Nesse momento, a mulher executou um gesto rápido e o corpo do pai de Mem pegou fogo imediatamente, e ficaram a vê-lo arder. Depois, a mulher despediu-se de Mem, dizendo que tinha de ir queimar os outros corpos. Indicou-lhe onde estavam as suas roupas, à beira-rio, e antes de partir sugeriu que ele devia dirigir-se a Coimbra, havia lá gente que lhe daria trabalho. Sois filho de um bom almocreve, um dia sereis como ele.
Parece que ainda o oiço perguntar, espantado: Lourenço Viegas, eu nesse dia só me interrogava! Como conhecia ela o meu pai? Sabia que era almocreve! Mem disse-me que ainda pensou em segui-la, mas não o fez, pois queria ficar junto do pai até ao fim. Horas mais tarde, quando o corpo já era um monte de cinzas e ele já não tinha mais lágrimas nos olhos, Mem seguiu o conselho da velha mulher e dirigiu-se à cidade. No dia em que recordámos os três esta história, Zaida sorriu-nos e disse: foi a bruxa que nos ligou uns aos outros». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.
                                         
Cortesia de CdasLetras/JDACT

Por Amor a uma Mulher. Domingos Amaral. «Contudo, não parecia triste ou zangada, apenas curiosa. Ao vê-lo, acercou-se, apoiada no seu cajado. Reparou no corpo e na cabeça degolada, e suspirou»

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Coimbra. Julho de 1117
«(…) Por mais anos que Mem vivesse, nunca iria esquecer aquele momento. Os joelhos falharam-lhe, viu a cabeça do pai a voar, cortada pela violência do golpe dado pelo monstro. Um jacto de sangue espirrou e o corpo mole do pai, já sem vida, tombou para o lado, enquanto Mem sentia uma dor violenta no peito, uma dor que não o abandonara ainda horas depois. O medo de morrer impedira-o de gritar. Ficara em silêncio, cerrando os dentes, pois, se fizesse algum ruído, o carrasco vestido de branco, a poucos metros, teria ouvido. Viu-o cirandar de um lado para o outro, procurando mais doentes, e depois dar meia-volta e desaparecer. Ainda ouviu berros, mais longe, até que tudo caiu no mais sinistro silêncio. Não se ouvia um gemido, um lamento de um moribundo. Aquele fantasma sanguinário matara todos os doentes, mais de trinta, em pouco tempo, como se fosse uma praga letal que ceifava vidas, idêntica às das histórias bíblicas que o pai lhe contava.
Durante horas, Mem permaneceu totalmente paralisado de choque e pavor, e foi só quando o Sol já ia bem alto que se aproximou do cadáver do pai. Contraindo-se em espasmos, viu a cabeça afastada do corpo, o sangue escuro espalhado na terra e não conseguiu avançar. Desatou a chorar. A única pessoa de quem gostava estava morta. De um momento para o outro, quando nada o fazia prever, aparecera um demónio branco que o degolara. Mem não sabia o que fazer. Estava nu, nem se lembrava onde entrara no rio e largara a roupa, e não queria deixar o pai ali, para ser roído pelos bichos, a apodrecer ao sol. Mas também não tinha forças para o enterrar, nem nada com que fazer um fogo para o cremar. Era apenas uma criança de doze anos, não estava preparado para aquela provação, e limitou-se a ficar ali, ajoelhado, as lágrimas escorrendo-lhe pela cara.
A dada altura, o mundo escureceu, e ele deduziu que era o que acontecia quando morria alguém de quem gostávamos muito. Aquilo era mesmo estranho, parecia que estava a anoitecer a meio do dia. Então, Mem olhou em volta e viu melhor: o que se passava não era dentro dele, mas sim fora dele. Ergueu os olhos para o Sol e notou que ele desaparecera atrás de uma bola castanha, escurecendo o dia. E ao lado, no céu, existiam estrelas. Seria um milagre? Deus e Alá a tirarem a luz ao mundo? Mem estava perplexo. O pai nunca lhe falara em nada assim. De repente, ouviu um barulho, alguém a aproximar-se. Era uma mulher já envelhecida, com a cara cheia de rugas e verrugas. Feia, estava vestida de preto, com um capuz da mesma cor a cobrir-lhe a cabeça. Contudo, não parecia triste ou zangada, apenas curiosa. Ao vê-lo, acercou-se, apoiada no seu cajado. Reparou no corpo e na cabeça degolada, e suspirou. Sois cristão ou árabe?, perguntou». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.
                                         
Cortesia de CdasLetras/JDACT

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Por Amor a uma Mulher. Domingos Amaral. «O pai saía de trás de uma pequena oliveira, a sorrir para Mem, pois ouvira o assobio, e ia dizer qualquer coisa quando o carniceiro…»

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Coimbra. Julho de 1117
«(…) Chegaram à cidade nessa mesma noite, junto com as tropas, e durante aqueles vinte dias o pai transformou-se em cozinheiro. Abu Zhakaria descobrira que ele fazia boas açordas, bom escabeche e saborosas almôndegas, e obrigava-o a trabalhar a dobrar. Apesar de exausto, o pai poupava Mem dos esforços mais pesados. Prometi à vossa mãe, no dia da morte dela, que ides chegar homem inteiro! Não deixo que eles vos rebentem com as costas à vergastada! Para Mem, o pai era mais do que um pai, era o seu único amigo. Conversavam sobre as cidades que visitavam, as manias dos fregueses, o que se passava na taifa de Badajoz, que dominava Santarém e Lisboa, ou no Condado Portucalense, onde mandava uma mulher chamada Teresa, que era filha de Afonso VI. E, nessa manhã, o pai morrera à sua frente e Mem estava perdido.
Na véspera, os berberes tinham insinuado que fora o almocreve quem deitara veneno na água, mas isso era absurdo, como todos perceberam quando o pai também adoeceu. Um dos chefes berberes obrigou os doentes a afastarem-se para uma zona junto ao rio, dizendo que assim não contaminariam os saudáveis. O pai, encolhendo os ombros, dissera a Mem que não se preocupasse. Porém, durante a última noite, Mem verificara que o pai continuava na mesma, mas havia outros que pareciam em muito mau estado. Tinham febre e o seu número aumentava, alarmando os que os vigiavam.
Pela manhã, mal o Sol nasceu, um dos berberes havia ordenado aos doentes que se fossem lavar ao rio, mesmo os que tinham febre, e que obrassem por lá, o mais afastados possível. Via-se que os guerreiros estavam com medo e queriam-nos longe. O pai já não tinha vómitos, embora ainda sentisse dores. Sorrindo, sugerira a Mem que fosse nadar, enquanto ele fazia as suas necessidades. Nunca ficava à vontade nestes momentos, e o rapaz viu-o procurar uns arbustos, para se poder aliviar atrás deles. Mem tirara a camisa de linho, os calções e as alpercatas, e lançara-se ao rio. A água não estava muito fria e ele sabia nadar, por isso deu umas braçadas, sentindo-se límpido e puro, cercado por aquela água saborosa. Ficou uns minutos por ali, a boiar, o cérebro vazio, só os seus sentidos a apreciarem o momento.
Quando se ergueu e olhou para e margem, percebeu que algo de estranho estava a acontecer, pois viu um homem alto, todo vestido de -branco, com uma alfange na mão a degolar um doente. Observou-o a dar mais uns passos, e quando outro doente, nu, sair: da água, o carrasco branco avançou e, gesto brusco, fez-lhe saltar a cabeça com uma rapidez impressionante. Depois correu, deu um salto por cima da vegetação, e matou outro enfermo. Com puro pânico, Mem olhou para os arbustos, atrás dos quais estava o pai, nos seus afazeres íntimos. O torcionário de branco começara a eliminar os doentes, um a um, e o terror do rapaz cresceu quando o viu aproximar-se da zona para onde o pai fora. Mem desatou a nadar, mas agora fazia-o contra a corrente, e por isso demorava mais. Ainda pensou em gritar, para chamar a atenção do pai, mas temia que o maldito de branco o ouvisse e viesse direito a ele, por isso só nadou.
Quando chegou à margem, encontrava-se mais longe do pai, vinte metros acima, e estava cansado do esforço. Levantou-se e tentou correr, vendo que o matador de branco acabara de degolar outro desgraçado, numa elevação apenas a cinco metros do arbusto onde o pai estava. O coração de Mem começou a bater desordenadamente, o pai ia ser atacado! Decidiu arriscar. Levou dois dedos à boca, imitando o assobio usual do seu progenitor quando chamava pelos jumentos. De seguida, escondeu-se atrás de um arbusto, pois o facínora ouvira-o e virara a cara na sua direcção, limpando a espada de sangue. Quando, instantes mais tarde, Mem espreitou entre os ramos, o seu corpo paralisou, atingido pelo medo mais profundo que alguma vez sentira. O pai saía de trás de uma pequena oliveira, a sorrir para Mem, pois ouvira o assobio, e ia dizer qualquer coisa quando o carniceiro saltou para junto dele e elevou o alfange, puxando o braço atrás». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.
                                         
Cortesia de CdasLetras/JDACT

O Espião de João II de Portugal. Deana Barroqueiro. «Tem o nome antigo das nossas rainhas, sussurra Schaban, deslumbrado pela recordação do rosto encantador, enxergado momentos antes»

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O corsário de Malabar

«(…) Desafio! Desafio!, reclamam os corsários, batendo com os pés e as armas como o rufar de um tambor. Que é isso?, pergunta Pêro. Que querem fazer? Lutar pelas donzelas, mas quem irá defendê-las? Timoja ergue de novo a mão a pedir silêncio. Seja, então, o Desafio. Que venha o escrivão. O homem que fizera o registo do saque acerca-se deles trazendo um estojo com estiletes de ferro e umas olas metidas entre duas talas de pau, como uma encadernação, trespassadas com um cordel e atadas para não se espalharem. Pêro vê escrever pela primeira vez nas folhas de palma usadas como papel, onde o escrivão grava os caracteres da sua letra, ao de leve, para não trespassarem ao outro lado da folha. O capitão dirige-se às prisioneiras. Aceitai o vosso destino, moças, com sorte e ajuda podeis alcançar a liberdade. Vinde para junto de mim e dizei os vossos nomes. Só a muito custo as assustadas donzelas se soltam dos braços das suas protectoras para obedecerem a Timoja, vindo postar-se diante dele. Chems ed Douha, diz a árabe de olhos de azeviche e Pêro sorri com mágoa ao ouvir o poético nome de Sol da Manhã. Gulnare, Flor da Romãzeira, um nome apropriado à donzela que se assemelha a uma iluminura. Nurunnihar, fala a outra persa, de pele cor de marfim e porte de princesa.
Tem o nome antigo das nossas rainhas, sussurra Schaban, deslumbrado pela recordação do rosto encantador, enxergado momentos antes. Como nos contos de As Mil e Uma Noites! Quem as pretende?, pergunta Timoja, enquanto o escrivão grava os nomes das donzelas na ola. Três punhais vêm cravar-se na cobertura diante de Nurunnihar e dois outros aos pés de Gulnare e de Chems ed Douha, e os corsários aplaudem em delírio os companheiros dispostos a bater-se pelo prémio. Quem as defende? Faz-se de novo silêncio e dois homens vêm pôr-se ao lado das prisioneiras persas. Pais ou tios, como se pode adivinhar pela idade e aparência, pacíficos mercadores que pouco conhecem de armas e combates, mas se oferecem para lutar por elas até à morte. Ninguém se apresenta em defesa de Chems ed Douha. Com quem viaja a árabe?, pergunta Timoja ao grupo dos viajantes. A mulher que protege a moça responde-lhe, a medo, sem sair do seu lugar: Al-Qadi é o tutor da menina, meu senhor, mas nunca se serviu de uma arme e, assi atagantado (ferido com tagante) vai morrer dos açoites.
O corsário ignora-a e fala aos dois persas, aconselhando-os com cortesia: não sois homens de peleja e o Desafio deve ser justo. As suas leis permitem a escolha de defensores, se o ofendido não souber combater, for idoso ou fraco. Aqui não conhecemos ninguém que o possa fazer, diz o pai de Nurunnihar, com desalento. Qualquer um pode oferecer-se para lutar, anuncia o capitão bem alto a fim de ser ouvido em todo o zambuco, seja corsário, passageiro ou tripulante. Escravo ou homem livre. Timoja dá-nos a ocasião por que esperávamos, diz Schaban, e grita: Schaban Bubaka defende Nurunnihar! Ali Moumen luta por Chems ed Douha!, brada o escudeiro, no mesmo instante, sem hesitar.
Timoja sorri, como se os dois homens tivessem correspondido àquilo que esperava deles. Os corsários fazem surriada e Mir Bubaka geme, escondendo o rosto entre as mãos, pois o filho desafiara o grupo mais numeroso de contendores. Sidi Ahmar aceita o Desafio por Guinare, oferece-se o jovem lugar-tenente do navio. Aproximem-se os defensores. Os corsários cortam as amarras das pernas de Schaban e Pêro e conduzem-nos, com chistes e ameaças de morte, para junto do oficial do zambuco, diante de Timoja. O escrivão regista os seus nomes, a seguir aos dos competidores. Aceitais estes homens como vossos paladinos?, pergunta aos mercadores que se curvam num agradecimento ante o persa e o moço oficial. Aceitamos, com toda a nossa gratidão». In Deana Barroqueiro, O Espião de D. João II, na Demanda dos Segredos do Oriente e do Misterioso Reino do Preste João, Ésquilo, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-809-258-8.
Cortesia de Ésquilo/JDACT

O Espião de João II de Portugal. Deana Barroqueiro. «Fizera-se um silêncio pesado de ameaças, apenas ferido pelo choro das moças, no horror de se verem disputadas como peças de um saque»

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O corsário de Malabatr
«(…) Como se chama a estriga? Brisa da Madrugada - responde, com um suspiro, afastando-se com ela sob um coro de gargalhadas. Capitão, e as outras mulheres?, quer saber o lugar-tenente, quando o riso sossega. Se calhar, também têm jóias escondidas... Elas entregaram os cofres e as bolsas, diz Timoja com secura. O que fizeste aos outros serviu de lição. Queremos ver o que escondem! As mulheres são nossas. Temos esse direito! Tirem-lhes os véus! Dispam-lhes os panos!, bradam muitas vozes. Sim! Sim! Queremos vê-las! Pêro pressente a inquietação de Timoja ao ouvir o clamor dos piratas e compreende que o capitão procurara, com o entremez (de cariz cómico) da matrona e os castigos de alguns mercadores, satisfazer os instintos dos seus homens e gastar-lhes a fúria sem grandes custos em vidas, mas os corsários ainda não estão fartos.
Senhoras, estais a ouvi-los?, diz Timoja, dirigindo-se às seis mulheres. Tirai o vosso roubend e soltai o hyader, se não quereis que vo-los tirem à força. Por entre protestos indignados dos prisioneiros, que os piratas contêm a custo com pancadas e ameaçando-os com as armas, as seis mulheres soltam os mantos e retiram os véus, baixando as cabeças para ocultar a vergonha. Duas moças persas e uma árabe no melhor da sua juventude e beleza são um espectáculo capaz de tocar qualquer coração, mesmo os acostumados a bater mais ao som de guerra que de amor. Brilhantes como azeviche, as cabeleiras soltam-se dos barretes de tela de ouro que sustêm o véu e envolvem-nas como um manto de seda, emoldurando os rostos muito brancos das persas e moreno da árabe, onde se rasgam os mesmos olhos negros de um veludo de Meca. As outras três mulheres, de idade madura e honesta condição, são decerto mães ou governantas das donzelas, como o indicam os cuidados com que as rodeiam e os olhares de escândalo e ódio lançados aos corsários.
Como são belas!, murmura Schaban, contorcendo as cordas dos pulsos. Malditos sejam! Que lhes vão fazer? Não sei! Podem querer vendê-las ou ficar com elas. Não sei! Como posso ajudá-las, assim atado de pés e mãos? Não desesperes, que enquanto há vida há esperança, acode Pêro, voltando a sua atenção para Timoja e as prisioneiras. Quereis o adorno do nariz da minha Nurunnihar?, inquire com altivez a dama persa. Tomai-o e deixai a donzela cobrir o rosto, se tendes alguma honra em vossos corações. As duas moças levam a mão à argola de ouro muito bem lavrada, presa à asa do nariz, mas Timoja faz-lhes sinal para a deixar no lugar. Cobri-vos, ordena-lhes e, apesar dos protestos dos seus homens, as mulheres velam os rostos das donzelas e escondem a formosura dos seus corpos no sudário dos mantos.
As mulheres são parte do saque, meu capitão, desafia o piloto corsário. Quatro são velhas e as três moças não chegam para todos. Pensais em vendê-las? O melhor quinhão para os mais bravos, protesta o homem de tronco nu, coberto de escaras, avançando para o grupo. Tenho primazia na escolha... Eu fui o primeiro na abordagem, grita um tomba-lobos, barrando-lhe o passo, de sabre desembainhado. Ousas disputar-me o galardão? Não sois os únicos interessados, rosna Marakkar, metendo-se entre ambos. As fêmeas devem ser sorteadas, alvitra um mocetão que aguça o punhal contra a lâmina de uma espada curta. Ou irem a leilão. Timoja que decida. Querem as donzelas para eles!, murmura Schaban. Com os ânimos assim acesos, se Timoja recusar, arrisca-se a um motim.
Fizera-se um silêncio pesado de ameaças, apenas ferido pelo choro das moças, no horror de se verem disputadas como peças de um saque. Timoja ergue a mão para falar e todos os olhos se pregam nele, os gestos tensos, à espera. Pêro admira o moço corsário pelo poder que tem sobre esta chusma, curtida no medo e na morte, que lhe obedece com uma fé cega, quando ele a conduz ao assalto de um navio ou povoação. Combatestes bem e mostrastes como no Malabar ainda há homens livres que lutam para libertar a sua nação do jugo dos usurpadores estrangeiros. Tendes direito a uma parte do saque, sendo a outra parte destinada, como sabeis, a construir mais navios e manter esquadras cada vez mais fortes para expulsar os mouros das nossas terras. Por isso, jurámos que o nosso corso seria nobre, sem mortes desnecessárias e sem violações ou ofensas a donzelas e mulheres honestas. No entanto, se persistis em querer as prisioneiras, mesmo contra minha vontade e o nosso juramento, tereis de lutar por elas, segundo as leis da nossa nação, lançando os vossos desafios a quem as deseje defender. Como vai ser?» In Deana Barroqueiro, O Espião de D. João II, na Demanda dos Segredos do Oriente e do Misterioso Reino do Preste João, Ésquilo, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-809-258-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

O Estranho Caso de Sebastião Moncada. João Pedro Marques. «Mateus Vilaverde tinha nascido em 1800, ali mesmo no Porto. O pai, comerciante de largo trato, soubera erigir e manter uma casa farta…»

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O Mistério da Foz
«(…) Soltou um grito agudo quando um dos rapazes lhe acertou acidentalmente uma pedrada numa perna. Ai, canalha.., ides ver, ides ver, ameaçou, de punho cerrado. Mas logo retomou a sua conversa com Vilaverde: só se for a criada... Quem? A criada do senhor Bessa. Mora ali abaixo e estava prenhe. Dizem que está de cama. Está, está, confirmou alguém do grupo de vizinhos, que, entretanto, se acercara. Então, cá pra mim foi o amásio dela que fez este lindo serviço, sentenciou Eufrásia. Vilaverde assentiu com a cabeça e concluiu, virando-se para o cabo de polícia que o acompanhava: bom, já temos uma suspeita. Interroguem a criada. Eu não tenho mais nada a fazer aqui. Fez um aceno enquanto subia para a sela e já com o cavalo em andamento atirou um rápido cumprimentos ao senhor comissário, afastando-se sem olhar para trás.
O cabo arrebitou a arma e fez uma continência desajeitada. Era um homem esquelético e idoso que parecia deslocado, quase grotesco, naquele arremedo de saudação militar. Vilaverde lamentava aquela gente tosca que, sem remuneração alguma, se prestava a patrulhar as ruas infestadas de criminosos. E lamentava ainda mais os homens velhos que, ali no Porto, eram usados para o serviço da noite. Quando o sol se punha lá iam aqueles pobres de Cristo nas suas rondas, ao ritmo do seu passo arrastado e escudados nas suas armas ferrugentas, sem fechos nem pederneiras. Às vezes eram espancados e roubados. Ser cabo de polícia era um mau negócio para o bolso e para o corpo porque as isenções oferecidas pela lei não compensavam as agruras do serviço.
Os comissários de bairro também não ganhavam nada com a função, mas desses ele não tinha qualquer pena. Eram uns completos inúteis que o chamavam por tudo e por nada, para investigar e deslindar as coisas mais óbvias e comezinhas. Infelizmente não tinha outro remédio senão comparecer à chamada. Havia dois anos que estava, por ordem superior, em missão especial ao serviço da Polícia do Porto, subordinado ao Juiz do Crime e disponível para actuar em qualquer parte da cidade e arredores, da Campanhã até à Foz e da Ribeira à Igreja da Lapa. E que trabalho duro e insano, o seu! Para além da investigação criminal, no terreno, cabia-lhe verificar os relatos que periodicamente os comissários dos bairros enviavam à autoridade superior. Estava farto daqueles papéis ensebados, escritos com má caligrafia e fórmulas repetitivas, e ainda mais farto das vidas sórdidas que eles devassavam e expunham. Já tinha a sua conta de homens esfaqueados e de mulheres espancadas ou abusadas. Ainda anteontem vira morrer nos braços do facultativo a pequena Rosa, uma menina loura e triste que vivia na Bainharia. Dizia-se que o pai abusava dela e Mateus chegara a apertar com o homem e a interrogar os vizinhos.
Mas todos negaram e as suspeitas adormeceram até ao momento em que o chamaram de urgência, juntamente com o médico. Rosinha desfazia-se em sangue, pois o pai dera-lhe uma mezinha qualquer para afazer desmanchar. Uma mulher da vida chamou-o de uma porta com ditos e provocações: tenho aqui uma coisa para ti, lindinho. Olha qu’isto é melhor que seda... Ele ignorou-a e pôs o cavalo a trote, afastando-se dali. Não gostava da Rua de Santa Catarina. Mesmo nos dias luminosos aquelas casas cinzentas entremeadas de granito, nos sítios onde ainda não se edificara, tinham um ar lúgubre, demasiado pesado e escuro para quem queria começar bem o dia. Aquela rua era triste e ele estava cansado de tristezas, saturado da miséria humana com que quotidianamente lidava ali no lodo da sociedade. E, em bom rigor, nada daquilo lhe competia. Apesar do pomposo título de inspector, e de lhe terem permitido manter a farda, o cavalo e um impedido às ordens, a sua era uma missão menor e menorizante, um castigo encapotado a que a sua vida o levara e continuava a levar.

Mateus Vilaverde tinha nascido em 1800, ali mesmo no Porto. O pai, comerciante de largo trato, soubera erigir e manter uma casa farta, acolhedora, confortável, e foi num ambiente próspero e carinhoso que ele viveu até aos nove anos de idade. De súbito, sem pré-aviso, todo o mundo feliz e despreocupado da sua infância ruiu como um castelo de cartas quando as tropas de Soult invadiram a cidade e os seus pais e irmãos se perderam no desastre da ponte das Barcas. Acolhido em Trancoso por um tio materno, coronel de milícias, passou os anos seguintes a dissipar o pungente luto no ar áspero das serranias e a fazer-se homem, sob a enérgica orientação daquele parente de grande coração e imponentes bigodes marciais. Aos dezasseis anos foi para Lisboa assentar praça como cadete no Regimento de Cavalaria 1, aquartelado em Alcântara. O tio encorajou-o a dar esse passo e ele deu-o sem saber exactamente porquê. Talvez para se livrar de Trancoso, que era, podia jurá-lo, uma das mais tristes vilas de Portugal. Ou então, para agradar ao tio para quem os valores militares se sobrepunham a quaisquer outros. Ou, se calhar, para exorcizar, na atmosfera dos quartéis, o desastre de guerra que marcara tão cruelmente a sua vida. Não sabia». In João Pedro Marques, O Estranho Caso de Sebastião Moncada, Porto Editora, 2014, ISBN 978-972-004-495-2.

Cortesia de PortoEditora/JDACT

O Estranho Caso de Sebastião Moncada. João Pedro Marques. «Eufrásia, que chegava ávida de atenção, estacou como se tivesse embatido numa parede. Mas depressa se recompôs, varreu a decepção do rosto…»

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O Mistério da Foz
«(…) O inspector Vilaverde conduziu o cavalo, a passo, pela Rua de Santa Catarina e quando chegou à casa vinte e oito desmontou, sem pressas. Juntara-se ali uma pequena multidão atraída pela desgraça e ele ordenou ao cabo de polícia que dispersasse a gente que rodeava o cadáver. Era um recém-nascido, parecia de tempo e a sua carinha inocente e engelhada, estava aterradoramente lívida. O inspector pôs-se de cócoras e esteve alguns segundos a observar o solo, como um camponês que meditasse sobre as duras incertezas dos seus torrões. Depois, pegou com cuidado naquele corpo pouco maior do que a sua mão e com um dedo indicador ergueu-lhe o queixinho, vencendo a rigidez da nuca. Havia uma marca avermelhada em redor do pescoço que sugeria um estrangulamento. Aquela pobre alminha nascera viva e fora assassinada aos primeiros respiros. E, pior ainda, as várias equimoses indicavam que tinha sido batida ou, pelo menos, atirada violentamente para aquele pátio.
Mateus Vilaverde ergueu-se devagar com um esgar de repulsa na cara. Era um homem relativamente magro, de corpo flexível e bastante mais alto do que os circundantes, e talvez por isso parecesse que não mais parava de se erguer. O cabelo, curto e negro, reforçava-lhe o ar descrente e a tristeza atormentada no olhar. Usava o uniforme de tenente da Guarda Real de Polícia, casaca azul, calça branca e bota alta, que complementava com um chapéu claro, de aba larga. Uma faixa de algodão, de um vermelho pálido, já desbotado, cingia-lhe a cintura e, sobre ela, um cinto de cabedal de onde pendia uma pistola. Acendeu um cigarro, que arrumou displicentemente a um canto da boca, e esteve alguns segundos de pálpebras fechadas, virado para o sol da manhã. Gostava de ficar assim com o fumo a subir-lhe pela cara e a causticar-lhe a pele, enquanto deixava que a luz avermelhada lhe atravessasse as pálpebras e viesse aquecer-lhe as ideias. Não precisava de ver mais nada para imaginar o que ali se passara. Daí para a frente seria apenas o desfiar das perguntas de rotina: sabes quem fez isto?, perguntou, descerrando os olhos e virando-se para o dono da casa.
O homem fitou-o com ar assustado. Era uma criatura baixa e soprada, de barriga rotunda, barba por fazer e aspecto muito sujo. Abriu os braços num misto de impotência e de ignorância, e respondeu: não, senhor. Eu cá não sei, meu senhor. Pensa bem... Não viste gente por aqui? Não ouviste barulhos? O homem encolheu os ombros e oscilou a cabeça de um lado para o outro, como se negasse, mas confidenciou que ouvira qualquer coisa no quintal, um baque, um ruído, uma restolhada, mas não ligara. Só há pouco é que vimos o santinho aqui no chão. A Eufrásia estava à minha beira, disse, indicando a mulher. Eufrásia era uma figura volumosa, de gestos largos, carrapito oleoso e bigodeira negra, quase masculina. Contava as coisas com grande minúcia, como se tivesse presenciado tudo, passo a passo, e de tempos a tempos lançava as mãos à cabeça e atroava os ares com lamúrias e gritos exaltados. Junto a ela, em semicírculo, um grupo numeroso de vizinhos inteirava-se da ocorrência. Alguns escutavam a mulher com a indiferença de quem já se habituara aos dramas do quotidiano. Outros, sorviam-lhe as palavras, indignavam-se com o que ouviam, davam opiniões. Mais afastado, um bando de rapazes ria e atirava pedras aos gatos, alheio às preocupações dos adultos.
Eufrásia chega-te aqui, mulher. Ora conta tu, ordenou-lhe o marido. Obedecendo ao chamamento, ela virou costas aos vizinhos e dirigiu-se ao inspector numa corridinha pesadona. Trazia um brilho voraz no olhar e vinha pronta a recomeçar a sua narrativa desde o princípio. Mas Vilaverde não precisava de uma nova versão daquele triste acontecimento e, para atalhar caminho, perguntou-lhe directamente, enquanto apagava o cigarro: vossemecê sabe quem foi? Eufrásia, que chegava ávida de atenção, estacou como se tivesse embatido numa parede. Mas depressa se recompôs, varreu a decepção do rosto e limpando as mãos ao avental, negou, com toda a veemência da sua voz esganiçada: eu não, Jesus, credo! Se eu soubesse quem era matava-a. Eu desgraçava-me, mas matava-a com estas mãos, prometeu, mostrando as mãos vermelhas e rudes, de dedos sapudos, muito abertos. Fazer isto ao santinho... Ai, valha-me Deus, Virgem Santa... Aqui na rua não há gente dessa, não senhor!» In João Pedro Marques, O Estranho Caso de Sebastião Moncada, Porto Editora, 2014, ISBN 978-972-004-495-2.

Cortesia de PortoEditora/JDACT

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Aos Olhos de Deus. José Manuel Saraiva. «… finalmente, exclamou triunfante: são oitenta e quatro libras e vinte e sete soldos! É este o valor que tendes de pagar à chancelaria…»

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«(…) O cardeal Sadoleto sorriu de escárnio, fez uma curta pausa, meneou a cabeça várias vezes e questionou-o sobre o sentido exacto daquela frase. Foi isso mesmo, monsenhor, estive com ela sim, mas por pouco tempo. Mas introduzistes o membro erecto no corpo dela, não foi? Foi, respondeu, quase a chorar. Até vos satisfazerdes... Sim, confessou ainda, num tom sussurrado, após demorados instantes. O velho cardeal levantou-se da cadeira, benzeu-se, Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, rodopiou sobre si mesmo com os olhos virados ao Céu, e de seguida, com o dedo apontado na direcção de Petrini, que entretanto se ajoelhara a seus pés, de mãos postas, proclamou: pecastes, meu filho, pecastes! Pequei sim, monsenhor, e por isso estou aqui a rogar a salvação da minha alma. E tendes dinheiro? Tenho, respondeu ele de imediato, já com a voz mais firme. Sem mais palavras, o confessor voltou-se para o confesso, fez-lhe um gesto com a mão anelada para que se mantivesse de joelhos e, sempre em silêncio, saiu da sala. Mas não demorou. Trago aqui a tarifa da chancelaria apostólica da nossa cúria, proclamou o cardeal secretário, elevando ao alto, e antes de regressar à cadeira, três folhas de pergaminho que fora buscar à antecâmara do Papa. É a lista com a venda de indulgências concebida pelo Santo Padre e aprovada pelo consistório. Abanando várias vezes a cabeça, Petrini foi concordando. Como sabeis, a lista ainda não entrou oficialmente em vigor e, quando entrar, competirá ao bondoso monge dominicano Johannes Tietzel fazer uso dela, pô-la em prática...
Eu sei, garantiu o outro. Pois bem, meu filho, dado que os delitos que cometestes são muitos e muito graves, deveis desde já dar o exemplo, comprando à chancelaria o perdão pelos vossos crimes. E quanto me custa isso? O clérigo confessor olhou em silêncio para a lista, acompanhou a leitura com a ponta de um dedo até se deter no artigo correspondente a um dos pecados cometidos por Petrini. E então leu em voz alta:

Todo o eclesiástico que incorrer em pecado carnal, quer seja com freiras, com primas, sobrinhas ou afilhadas, ou enfim com qualquer outra mulher, será absolvido mediante o preço de sessenta e sete libras e doze soldos.

Aqui tendes o primeiro!, proclamou Sadoleto, antes de continuar a pesquisa, sempre sorridente. E aqui está o outro, quase gritou, de tanto entusiasmo.

Pelo assassinato de um irmão, de uma irmã, do pai ou da mãe o praticante pagará dezassete libras e quinze soldos.

De seguida, o confessor semicerrou os olhos, fixou-os no tecto do aposento em estado de pura abstracção, fez as contas de cabeça, enganou-se várias vezes e, finalmente, exclamou triunfante: são oitenta e quatro libras e vinte e sete soldos! É este o valor que tendes de pagar à chancelaria apostólica de Sua Santidade. Sim, monsenhor, concordou o bispo, levando de imediato a mão à bolsa escondida sob as suas vestes. Uma vez liquidada a dívida, que resgatou o eclesiasta dos pecados cometidos, Francesco soergueu-se, esfregou os joelhos para os aliviar da dor, abraçou emocionado o velho cardeal, deu-lhe um beijo na face e prometeu, num tom de voz esforçadamente perturbado, que jamais voltaria a ofender a Deus ou a desprezar os mandamentos da Santa Madre Igreja. E juntos, enfim, como dois irmãos do pecado à descoberta dos caminhos da redenção, oraram em coro um Pater noster.
Agora ide em sossego, meu filho. Ide na santa paz de Deus, já limpo de espírito e das impurezas demoníacas. Que o Senhor vos ilumine, pois. Aménela de Sant’Angelo a ler as Escrituras e a rezar a Deus, e quando não lia nem rezava deslocava-se às vielas imundas e fétidas da cidade ao encont, respondeu o outro. E benzeu-se. No mês que se seguiu, Francesco Petrini revelou-se um bispo exemplar, um eclesiasta devotado apenas à Igreja, ao Altíssimo e ao Papa. Passava horas numa capro dos pobres e dos mendigos para os confortar ou lhes fornecer alimentos. A tamanho fervor a Deus Pai Todo-Poderoso e a tanta devoção aos outros, sobretudo aos mais desfavorecidos, ninguém ficava indiferente». In José Manuel Saraiva, Aos Olhos de Deus, Oficina do Livro Editor, 2008, ISBN 978-989-555-364-8.
                                                                                                                 
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Aos Olhos de Deus. José Manuel Saraiva. «Não a violastes? Quereis dizer que o vosso pai vos acusou de um crime que não cometestes?, prosseguiu Sadoleto, antes de lhe transmitir um avisado conselho…»

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«(…) Desejava que nada faltasse aos visitantes, que fossem atendidos com alardo, glória e emoção; mas também queria que os organizadores do préstito soubessem gerir os respectivos gastos com parcimónia, alguma inteligência e muita imaginação. Chegada pois a hora, não esqueceu o conselho que lhe fora dado anos antes pelo pai quando, ainda muito jovem, subiu ao cardinalato: gasta mais dinheiro na manutenção de um estábulo bem montado e criados de classe superior do que em pompa e circunstância. Ora, talvez por isso, no dia catorze de Fevereiro, durante uma reunião do consistório, constituído por vinte e cinco cardeais, alguns muito jovens, o chefe da cristandade foi claro nos seus objectivos:

Cabe-nos receber a comitiva do bondoso Manuel, piíssimo rei de Portugal, com o testemunho da nossa infinita gratidão, a nossa fé em Cristo e em Deus Pai Todo-Poderoso, mas devemos ser contidos nas despesas do programa. As libras estão muito caras e a cúria precisa delas.

Nesse conclave, destinado praticamente à discussão dos principais aspectos relativos aos festejos, o Papa decidiu nomear um bispo de sua confiança, Francesco Petrini, para dirigir o grupo, entretanto já formado, de acompanhamento da realização das cerimónias protocolares, nas suas vertentes religiosa e profana. Francesco Petrini, de vinte e nove anos, era reconhecido como um dos clérigos mais espertos e crentes do governo da Santa Sé; mas era igualmente tido como um dos maiores pecadores daquele conselho de ministros do culto. Além de libertino, corrupto, e malfeitor, o bispo era ainda assassino. Dois meses antes de o Papa o escolher para orientar o grupo de trabalho, que incluía mais de duas dezenas de romanos e cinco portugueses, Petrini matou o pai a golpes de machado só por ele o ter visto a espancar e a roubar um comerciante do bairro onde morava, depois de lhe violar a filha. O assassínio causou na altura um enorme alvoroço entre a vizinhança e o autor, temendo o castigo de Deus, ou, pior ainda, qualquer acto de vindicta por parte de familiares das vítimas, correu à pressa a refugiar-se no castelo de Sant’Angelo, para aí, a coberto do poder imune dos hábitos talares, pedir o perdão ao Sumo Pontífice por interposto eclesiástico da cúria romana.
Que fizestes, meu filho!?, perguntou-lhe o cardeal Sadoleto, um dos mais fiéis secretários do Papa, depois de Petrini falar da perseguição a que estava sujeito por parte dos moradores do bairro. Matei sem querer o meu extremoso pai por me ter acusado injustamente, à frente de populares, de violar a filha de um comerciante, amigo dele. Sentado na poltrona do aposento, desconfortável e frio, o cardeal Sadoleto ia rodando com a ponta dos dedos o anel de sinete da mão direita, ao mesmo tempo que ouvia com aparente atenção os queixumes de Petrini. E foi só isso, meu filho?, voltou a perguntar o outro, com um sorriso cínico no rosto. Matastes o vosso pai sem querer, apenas por ele ter visto e criticado o cometimento de um grave pecado que, bem sabeis, merece o castigo do Altíssimo?
Também me acusou, e de igual maneira sem motivo, de roubar o comerciante, acrescentou o confesso, com os olhos presos ao chão. Oh, Santo Deus!, exclamou o cardeal Sadoleto. Fez o sinal da cruz sobre o rosto, com a cabeça curvada rezou em silêncio uma avé-maria, e só então voltou a fazer outra pergunta. Que quereis agora, meu filho? O perdão de Deus e a absolvição de Sua Santidade, monsenhor, respondeu sem pestanejar o jovem bispo. Salodeto colocou a mão direita no peito, sobre o coração, e sempre com a voz calma e pausada continuou interrogativo: matastes o vosso pai, espancastes e roubastes o comerciante, violastes-lhe a filha e ainda assim vos quereis livrar desses pecados de inspiração demoníaca? Não violei a mulher, defendeu-se o bispo atabalhoadamente, alarmado com tantas acusações.
Não a violastes? Quereis dizer que o vosso pai vos acusou de um crime que não cometestes?, prosseguiu Sadoleto, antes de lhe transmitir um avisado conselho: peço que não vos esqueçais de que o perjúrio é também um delito grave e condenável, que ofende a Deus Nosso Senhor e à Santa Madre Igreja. Nesse momento Francesco Petrini voltou a baixar os olhos, tentou a custo emocionar-se e, em tom sumido, concedeu: sim. Estive com a mulher. E então? Foi só por pouco tempo, desculpou-se». In José Manuel Saraiva, Aos Olhos de Deus, Oficina do Livro Editor, 2008, ISBN 978-989-555-364-8.
                                                                                                                 
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