segunda-feira, 8 de março de 2021

As Benevolentes. II Guerra Mundial. Jonathan Littell. «… derrubados, varridos, misturados numa interminável faixa calcinada de pilhas irregulares ao longo dos acostamentos. Mais além, bosques resplandeciam sob a luz esplêndida do Outono»

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Toccata

«(…) O dr. Korherr, que compilava estatísticas para o Reichsführer-SS Heinrich Himmler, chegou a pouco menos de dois milhões em 31 de Dezembro de 1942, mas reconhecia, quando pude discutir com ele em 1943, que seus números de partida eram pouco confiáveis. Enfim, o respeitabilíssimo professor Hilberg, especialista na questão e que dificilmente teria pontos de vista sectários, pró-alemães pelo menos, chega, ao fim de uma demonstração cerrada de dezanove páginas, à cifra de 5.100.000, o que corresponde grosso modo à opinião do finado Obersturmbannführer Eichmann. Aceitemos então os números do professor Hilberg.

Agora, a matemática. O conflito com a URSS durou das três horas da manhã de 22 de Junho de 1941 até, oficialmente, as 23h01 de 8 de Maio de 1945, o que perfaz rês anos, dez meses, dezasseis dias, vinte horas e um minuto, ou seja, arredondando, 46,5 meses, 202,42 semanas, 1.417 dias, 34.004 horas, ou 2.040.241 minutos (contando o minuto suplementar). Para o programa dito da Solução Final, ficaremos com as mesmas datas; antes, nada fora decidido nem sistematizado, as perdas judaicas são fortuitas. Associemos agora um conjunto de cifras ao outro: para os alemães, isso dá 64.516 mortos por mês, ou seja, 14.821 mortos por semana, ou 2.117 mortos por dia, ou 88 mortos por hora, ou 1,47 morto por minuto, isto em média para cada minuto de cada hora de cada dia de cada semana de cada mês de cada ano, tudo durando três anos, dez meses, dezasseis dias, vinte horas e um minuto. Para os judeus, incluindo soviéticos, temos cerca de 109.677 mortos por mês, ou seja, 25.195 mortos por semana, ou 3.599 mortos por dia, ou 150 mortos por hora, ou 2,5 mortos por minuto para um período idêntico. No lado soviético, finalmente, isso nos dá uns 430.108 mortos por mês, 98.804 mortos por semana, 14.114 mortos por dia, 588 mortos por hora, ou 9,8 mortos por minuto, período idêntico. Ou seja, para o total global no meu campo de actividade, médias de 572.043 mortos por mês, 131.410 mortos por semana, 18.772 mortos por dia, 782 mortos por hora e 13,04 mortos por minuto, todos os minutos de todas as horas de todos os dias de todas as semanas de todos os meses de cada ano do período dado, ou seja, para memorizar, três anos, dez meses, dezasseis dias, vinte horas e um minuto. Que os que zombaram desse minuto suplementar de facto um pouco pedante considerem que isso dá assim mesmo 13,04 mortos a mais, em média, e, se forem capazes, imaginem treze pessoas de seu círculo mortas num minuto. Podemos também efectuar um cálculo definindo o intervalo de tempo entre cada morte: isso nos dá em média um morto alemão a cada 40,8 segundos, um morto judeu a cada 24 segundos e um morto bolchevique (incluindo os judeus soviéticos) a cada 6,12 segundos, ou seja, isso para o conjunto do mencionado período. Agora vocês estão em condições de efectuar, a partir desses números, exercícios concretos de imaginação. Peguem por exemplo um relógio e contem um morto, dois mortos, três mortos etc. a cada 4,6 segundos (ou a cada 6,12 segundos, a cada 24 segundos ou a cada 40,8 segundos, se tiverem uma preferência definida), tentando imaginar, como se estivessem à sua frente, alinhados, estes um, dois, três mortos. Vocês verão, é um bom exercício de meditação.

Ou peguem outra catástrofe, mais recente, que os tenha afectado intensamente, e façam a comparação. Por exemplo, se forem franceses, considerem a pequena aventura argelina, que tanto traumatizou seus concidadãos. Vocês perderam ali 25.000 homens em sete anos, incluindo os acidentes: o equivalente a pouco menos de um dia e treze horas de mortos na frente do Leste; ou cerca de sete dias de mortos judeus. Não estou contabilizando, evidentemente, os mortos argelinos: como vocês não tocam no assunto, digamos, nunca em seus livros e programas, eles não devem significar muito para vocês. Entretanto vocês mataram dez para cada um de seus próprios mortos, esforço respeitável mesmo comparado ao nosso. Paro por aqui, poderíamos continuar por muito tempo; convido-os a prosseguirem sozinhos, até que o chão se abra sob seus pés. Quanto a mim, não preciso de nada disso: há muito tempo o pensamento da morte está mais próximo de mim que a veia do meu pescoço, como diz essa belíssima frase do Corão. Se um dia vocês conseguissem me fazer chorar, minhas lágrimas desfigurariam seu rosto. A conclusão de tudo isso, se me permitem outra citação, a última, prometo, é, como dizia muito bem Sófocles: o que se deve preferir a tudo é não ter nascido. Schopenhauer, por sinal, escrevia claramente a mesma coisa: Seria melhor que não existisse nada. Como há mais sofrimento que prazer sobre a terra, toda satisfação é apenas transitória, criando novos desejos e novas aflições, e a agonia do animal devorado é maior que o prazer do devorador. Sim, eu sei, isso dá duas citações, mas a ideia é a mesma: na verdade, vivemos no pior mundo possível. Tudo bem, a guerra terminou. E depois aprendemos a lição, não vai acontecer mais. Mas vocês estão mesmo seguros de terem aprendido a lição? Têm certeza de que não acontecerá de novo? Têm mesmo certeza de que a guerra terminou? De certa maneira, a guerra nunca terminou, ou então só terminará quando a última criança nascida no último dia de combate for enterrada sã e salva, e mesmo assim ela continuará, em seus filhos e depois nos deles, até que finalmente a herança se dilua um pouco, as recordações sejam desfiadas, e a dor, amenizada, ainda que nesse momento todos já tenham há muito esquecido e tudo esteja relegado ao lote das histórias de antigamente, boas sequer para assustar as crianças, e ainda menos os filhos dos mortos e daqueles que houverem desejado sê-lo, mortos, esclareço.

[…]

Tínhamos lançado uma ponte flutuante na fronteira. Bem ao lado, esparramadas nas águas cinzentas do Bug, ainda vinham à tona vigas retorcidas da ponte metálica dinamitada pelos soviéticos. Nossos batedores haviam montado a nova numa noite, diziam, e Feldgendarmes impassíveis, cujas placas em meia-lua irradiavam fagulhas de sol, organizavam a circulação com desenvoltura, como se ainda estivessem em casa; disseram-nos para esperar. Contemplei o grande rio preguiçoso, os pequenos bosques tranquilos do outro lado, a multidão na ponte. Depois foi a nossa vez de passar, e logo em seguida começava uma espécie de avenida de carcaças de material russo, caminhões queimados e amassados, tanques rasgados como latas de conserva, trens de artilharia enrugados como fetos, derrubados, varridos, misturados numa interminável faixa calcinada de pilhas irregulares ao longo dos acostamentos. Mais além, bosques resplandeciam sob a luz esplêndida do Outono». In Jonathan Littell, As Benevolentes, 2006, Publicações Dom Quixote, Alfragide, 2014, ISBN 978-972-203-304-6.

Cortesia PdomQuixote/JDACT

Conhecimentos, II Guerra Mundial, JDACT, Jonathan Littell, Memória Viva, Mulher, 

Os Cavaleiros de São João Baptista. Domingos Amaral. «O rapaz levantou-se outra vez e mostrou-lhe uma fotografia recente. Tia e sobrinho sentados no mureto da pousada de Alcácer do Sal, com o rio e o céu ao fundo»

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A Fundação. Sábado, 16 de Junho de 2002

«(…) Não!, interrompeu Armando, sentando-se de repente. A tia nunca me faria uma coisa dessas, dizer que ia aparecer, combinar tudo e depois abalar para outro lado! Aconteceu alguma coisa, decerto! Consumido, voltou a levantar-se. O inspector lembrou o carro, também desaparecido. O rapaz referiu que a vizinha vira a tia entrar para o carro e partir. Nem o carro nem as chaves tinham regressado à casa, explicou ele, dizendo que a tia deixava as chaves numa pequena salva prateada, numa mesinha à entrada de casa, onde não estavam. Júlio César acendeu outro cigarro e deu uma passa. O rapaz sentou-se outra vez. A sua tia conduz bem? Também pensei logo num acidente. Deus me livre... Mas falei para os hospitais: Alcácer, Setúbal. E confirmei na GNR. Não havia registo nenhum de acidente com um Opel Corsa, que é o carro dela. Nem ninguém nas urgências. Graças a Deus..., disse o rapaz, com alívio. Júlio César fez um ligeiro compasso de espera. Será que ele se ia levantar outra vez? O outro não o fez. O inspector disse então: não quero desmoralizá-lo, tenho que voltar a telefonar para esses locais, e para a GNR.O rapaz levou as mãos à cabeça. Vou precisar de mais alguns dados, disse Júlio César e pediu a morada da senhora e a matrícula do carro.

O rapaz levantou-se outra vez e mostrou-lhe uma fotografia recente. Tia e sobrinho sentados no mureto da pousada de Alcácer do Sal, com o rio e o céu ao fundo. Elvira era uma mulher de cara larga e sorriso bonito. Gorducha, de braços e peitos fortes, transpirava saúde. Não era o perfil habitual de uma desaparecida. Júlio César sentiu uma ligeira impressão no estômago, o primeiro sinal suspeito do seu corpo. Não gostou. O rapaz sentou-se. O inspector foi telefonar. Nada na GNR, nada nas urgências. Nada também na morgue de Setúbal. Do carro, nenhum sinal. Pediu para ser avisado, se fosse caso disso. Voltou à sala e olhou o relógio. Eram quase sete e meia.

Só tenho medo de que a tia esteja para aí numa ribanceira..., gemeu Armando, levantando-se e indo até ao fundo da salinha. Nestas ocasiões..., perorou Júlio César. Aconselhamos as pessoas a não serem nem demasiado optimistas, nem demasiado pessimistas. Acendeu outro cigarro. Elvira não tinha companheiro conhecido, nem amigos ou familiares por perto, tirando o sobrinho. Faltava o dinheiro... A sua tia tem posses? Posses como?, perguntou o rapaz, sentando-se de novo. Quer dizer, vive bem, tem dinheiro? A casa é dela? Não, é alugada. Que eu saiba, não tem mais nada, além do carro, já com uns cinco anos. Talvez guarde algum dinheiro no banco, não sei. Nunca falei disso com ela.

Disse-o com naturalidade. Júlio César sentiu que era verdade, que o sobrinho não fazia ideia se a tia tinha muito ou pouco. Conferiu o relógio. Mais uns minutos e chegava o turno da noite para o substituir. Não tinha nada para fazer a seguir. Podia ir com Armando a casa da mulher. Sabia que não era o procedimento habitual, mas ele não tinha muita paciência para formalidades. Levantou-se: saio agora às oito. Posso ir consigo a casa da sua tia. Nada oficial, mas... Encontraram-se meia hora depois à entrada de Alcácer, junto a uma bomba da Galp. Como o sobrinho dissera, a casa da senhora estava limpa, numa ordem própria de uma mulher solitária. Júlio César examinou a sala e os quartos. Nada nas gavetas: nem cartas, nem diários secretos. Na pequena cozinha, uma ou duas mensagens coladas no frigorífico, coisas que ela teria de ir buscar à pastelaria ou à lavandaria. Na sala, chamou-lhe a atenção um livrinho de telefones. Folheou-o: a maior parte dos números eram da região de Alcácer, mas havia um ou outro de Lisboa, e alguns de telemóveis». In Domingos Amaral, Os Cavaleiros de São João Baptista, 2004, Leya, BIS, 2015, ISBN 978-989-660-373-1.

Cortesia de Leya/BIS/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Templários, Literatura, Conhecimento, 

domingo, 7 de março de 2021

Santos Guerreiros e Mártires. Paula P. Costa e Joana Lencart. «… linha norte do rio Tejo, com especial concentração junto a Tomar, na zona da Beira Interior e de Trás-os-Montes, ambas perto da fronteira com Castela»

Cortesia de wikipedia e jdact

Da violência ao culto. Espiritualidade devocional da Ordem de Cristo (1462-1536)

A violência como elemento definidor

«(…) A tradição de culto em torno de personagens guerreiros sobrevive para além dos tempos em que a guerra de reconquista era uma constante e projecta-se para tempos futuros. As continuidades ao longo do tempo em matéria devocional seriam muitas, como se pode perceber. Nesta medida, não surpreende a referência a este conjunto hagiográfico em tempos de transição entre a Medievalidade e a Modernidade e mesmo posteriores.

Cronologia e fontes documentais

A Ordem de Cristo foi fundada, em Portugal, em 1319, na sequência da supressão da Ordem do Templo, tornando-se sua herdeira patrimonial, como já salientamos. Ao património fundiário recebido dos Templários, a Ordem de Cristo foi acrescentando bens e igrejas que aglutinou em comendas ou adjudicou à mesa mestral, resultantes de doações régias e particulares. Estas circunstâncias históricas contribuem para o perfil territorial da nova instituição. A sua grande exposição ao poder régio far-se-ia sentir também ao nível de algumas opções relacionadas com a gestão dos bens que a Ordem geria. Por exemplo, em 1411, o rei João I dotara a Casa do Infante Henrique com um património que geograficamente se situava na mesma área, ou em zonas contíguas, ao da Ordem de Cristo. Assim se compreende que, em 1420, o infante Henrique tenha recebido de seu pai a administração desta Ordem.

A expansão ultramarina representará também uma dilatação do património da Ordem de Cristo, em virtude de o infante Henrique ter sido o seu principal promotor na primeira metade do século XV. Em consequência, em 1456, Nicolau V entrega à Ordem o domínio e jurisdição espiritual sobre todas as terras descobertas e a descobrir ao longo da costa africana. Sem que as fontes documentais que utilizamos tragam qualquer informação neste sentido, convém ter presente a propagação de referentes devocionais por intermédio dos freires em território além mar, miscigenando-os com tradições locais. A Ordem de Cristo, desde o início reflectiu uma ligação estreita com a Coroa que se intensificou e até chegou a fundir-se.

A partir de 1495, a governação da Ordem é assumida pelo próprio rei Manuel I, na continuidade da sua actuação como Mestre-Governador já desde 1484. A cronologia seleccionada para este trabalho está balizada entre 1462 e 1536, anos que correspondem aos registos de visitações conhecidos para a Ordem de Cristo, entre os meados dos séculos XV e XVI (Costa, 2012: 415-437, altura esta em que se verificaram transformações de fundo relacionadas com a incorporação definitiva das Ordens de Cristo, de Santiago e de Avis na Coroa. Foram identificados registos, com informação de carácter hagiográfico, para os anos 1462, 1505, 1507 e 1536. Se das visitações feitas até à década de 60 do século XV não se conhecem os respectivos relatórios resultantes da actividade dos visitadores, para o período indicado (1462-1536) são vários os textos conhecidos e que vão reportando uma situação muito estável ao longo do tempo. Por seu turno, os registos que se conservam de meados dos anos 30 do século XVI são particularmente interessantes, pois foram produzidos no âmbito da reforma da Ordem encomendada pelo rei a fr. António de Lisboa. Em 74 anos foram visitadas cerca de meia centena de localidades, dispersas territorialmente numa área que corresponde à linha norte do rio Tejo, com especial concentração junto a Tomar, na zona da Beira Interior e de Trás-os-Montes, ambas perto da fronteira com Castela. Este conjunto espelha completamente a área de implantação da Ordem de Cristo. Em certos casos, as visitações reincidem nos mesmos locais. Entre estes, apenas se contabilizaram uma vez os santos patronos e os que adornavam os diversos altares das respectivas igrejas, capelas e ermidas. Outras vezes, apesar de se conhecer a localidade visitada, não é nomeado qualquer templo, pelo que não puderam ser incluídos neste estudo». In Paula P. Costa e Joana Lencart, Da violência ao culto: santos guerreiros e mártires na espiritualidade devocional da Ordem de Cristo (1462-1536), Roda da Fortuna. Revista Eletrónica sobre Antiguidade e Medievo, 2019, Volume 8, Número 1, ISSN: 2014-7430.

Cortesia de Roda da Fortuna/ Revista Eletrónica sobre Antiguidade e Medievo/JDACT

JDACT, Paula Pinto Costa, Joana Lencart, Cultura e Conhecimento, 

Domingos Amaral. Os Cavaleiros de São João Baptista. «… com alguma doença, como diz ser o caso da sua tia, o desaparecimento é raro. Normalmente esquecem-se de avisar a família que iam a algum lado...»

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A Fundação. Sábado, 16 de Junho de 2002

«(…) Anda a treinar para tubarão?, perguntara o professor Bernardino. Será que estava a vender a alma ao Diabo? A sua ambição profissional justificava isto? Seria o desejo por Mariana que o toldava, mantendo-o agarrado a um emprego tão duvidoso? E onde raio se tinha metido ela? A voz de Gloria Gaynor começou a entoar I Will Survive, seguindo a play list habitual dos casórios. Na pista, os seus amigos Inês e Francisco dançavam alegres. Mas a ele não lhe apeteceu.

A Fundação. Domingo, 17 de Junho de 2002

Bolos de arroz, disse o rapaz, levantando-se. A tia traz-me sempre bolos de arroz... Hoje não trouxe. Foi aquela referência aos bolos de arroz que quebrou a animosidade entre eles. Com o inspector Júlio César era assim: se lhe estragavam um pacato Domingo, passado tranquilamente no piquete da Polícia Judiciária (PJ) de Setúbal, antipatizava com as pessoas. Mas calhava existir um interesse comum, e sentia logo uma ligação cósmica que o fazia simpatizar com elas. Era o caso dos bolos de arroz. Se o rapaz tivesse dito palmiers, ou éclairs, nada teria mudado. Mas bolos de arroz eram bolos de arroz... O rapaz Parecia regressado da praia, de calções e sandálias, areia colada aos pés. Talvez vinte e cinco anos, pensou o inspector. Magro, nariz achatado, bigodinho cortado rente, brinco na orelha direita, cabelo encaracolado, castanho-escuro. Um olhar nervoso, preocupado, um tom de voz de criança mimada a quem haviam provocado uma inesperada desilusão. A tia desapareceu, queixou-se, coçando a orelha com a mão, lembrando ao inspector o cãozito rafeiro da vizinha, que passava os dias a coçar as pulgas.

Júlio César tentou uma rota de fuga. Não desejava acabar mal o Domingo, caramba. O procedimento normal é avisar a GNR. O rapaz alvoroçou-se, indignado: já fui à GNR de Alcácer... Porque é que ninguém quer fazer nada neste país? Típico dos portugueses: não se faz o que eles querem e põem logo o país em causa! O inspector, irritação a crescer nos pêlos do pescoço, ainda pensou em justificar a suposta inércia dos compatriotas com o calor. A tia não desaparecia assim! Não vê que o carro dela também desapareceu? Vejo, vejo, pensou Júlio César, e levas um grito se continuas a falar assim comigo, ó campista charrado! Mas, é claro, não o disse. Na corporação eram ensinados a atender o público com cortesia. Mesmo quando o público lhes mexia com os nervos. Olhou para o relógio de soslaio. Seis e meia. O turno só iria acabar às oito. Que seca monumental! Pensou em mandá-lo embora. Foi aí que o rapaz falou nos bolos de arroz. Normalmente a tia passava pela pastelaria. Hoje não passou. Aliás, eu fui lá a casa dela, por volta das três da tarde. Toquei à campainha e ninguém respondeu... Júlio César olhou para ele: gosta de bolos de arroz?

O rapaz confirmou com a cabeça. Portanto, só podia ser boa pessoa. Júlio César suspirou e decidiu dar-lhe uma oportunidade. Dirigiu-o para uma pequena sala, levando um bloco e um lápis. Acendeu um SG Filtro. Ofereceu um. O rapaz não quis fumar. Sentou-se do lado de lá da mesa e esperou, mexendo na orelha, repetindo o movimento canino. Conte-me lá o que se passou. O rapaz relatou o costume familiar: almoço com a tia ao Domingo, de quinze em quinze dias, ao qual ela nunca faltara em cinco anos. Nervoso, o rapaz levantou-se. Quando foi a última vez que falou com ela?, perguntou Júlio César, indicando que ele se devia sentar. Ontem.

O rapaz sentou-se e contou: falara com a tia pelo telefone, por volta das três da tarde. Combinara o almoço de Domingo para a uma e um quarto, como sempre. A tia ia à missa do meio-dia e depois ia ter com ele. A vizinha do lado dissera-lhe que a tinha visto a sair ontem, por volta das cinco e pouco, mas não voltara a vê-la. O rapaz tornou a levantar-se. Como é que sabe que ela não está em casa?, perguntou Júlio César. Disse que tinha tocado, mas... Sente-se por favor. Entrei em casa. O rapaz sentou-se de novo. Há coisa de dois anos, contou, a tia dera-lhe uma chave da casa, que nunca usara até hoje. Não havia nada fora do lugar, contou o rapaz. A cama feita, a casa aspirada. A tia aproveitava os sábados de manhã para limpar a casa, pois passava a semana a limpar as dos outros. Trabalha em casa de quem?, perguntou Júlio César, notando que o rapaz dizia a tia como se fosse apenas uma palavra.

O rapaz levantou-se de novo. Não sabia bem os nomes, explicou: a tia trabalhava em duas ou três casas, em Alcácer, e também num monte. Mas não ao sábado. Ao sábado a tia nunca trabalhava para fora. Júlio César lembrou-se de que nem sabia o nome dele. Desculpe, como se chama? Armando José Barreiros. O inspector apontou o nome e depois ordenou: okay. Agora sente-se. O rapaz sentou-se. Júlio César perguntou o nome da tia. Elvira dos Santos Barreiros. É irmã do meu pai, esclareceu o rapaz, mexendo de novo na orelha. Nos últimos tempos, não notou nada de estranho no comportamento da sua tia? Não lhe ouvira nem lamúrias nem revelações. O rapaz voltou a levantar-se. Júlio César suspirou. Mais valia desistir de o mandar sentar. Deve ser para isto que serve o sistema nervoso, pensou, antes de comentar: se não são pessoas com problemas, com alguma doença, como diz ser o caso da sua tia, o desaparecimento é raro. Normalmente esquecem-se de avisar a família que iam a algum lado...» In Domingos Amaral, Os Cavaleiros de São João Baptista, 2004, Leya, BIS, 2015, ISBN 978-989-660-373-1.

Cortesia de Leya/BIS/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Templários, Literatura, Conhecimento,   

Os Cavaleiros de São João Baptista. Domingos Amaral. «… prove ao cliente que o dinheiro não desapareceu, dê por onde der. Sentira um arrepio na espinha. Recordou as perguntas da noite: não tem dúvidas morais?, perguntara Liliana»

 

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A Fundação. Sábado, 16 de Junho de 2002

«(…) Então, doutor João Pedro, tem o trabalho pronto na segunda-feira? A voz forte do Dr. Marcos Portugal soara atrás dele, assustando-o e interrompendo as suas recordações. Ao virar-se, quase entornou o whisky com gelo que o barman lhe estendia. Boa noite, disse atabalhoado. O olhar vivo e frio do dr. Marcos Portugal fixou-o, enquanto lhe apertava a mão com força. Quero o dossiê organizado sem falta na segunda. O tipo está feroz. Concordou, submisso. Tinha dúvidas sobre o trabalho, mas não era o momento oportuno para esclarecimentos. Venha, quero apresentar-lhe uma pessoa, comandou o dr. Marcos Portugal. João Pedro seguiu-o até à mesa, onde se sentava a bela mulher loira, esplendorosa no seu vestido vermelho.

Liliana, quero que conheças um dos nossos mais promissores investimentos... Foi assim que o dr. Marcos Portugal o apresentou: como se ele fosse uma acção, um título do Tesouro. Depois de beijar a diva loura, João Pedro sentou-se, observando a sala. Ecoavam os primeiros acordes de uma valsa e, como de costume, a noiva abandonou o seu lugar na mesa principal e foi à procura do seu pai, para abrir o baile. Depois de passar uns minutos gabando a sua última compra, um Mercedes fantástico, o dr. Marcos Portugal levantou-se: falamos na segunda, às oito e meia. João Pedro deixou-o afastar-se. Acendeu um cigarro. Na pista, a noiva dançava com o pai, o dr. Campos Neves, sócio de Marcos Portugal. Inês chamava-o com gestos e João Pedro começou a levantar-se, mas Liliana deteve-o, colocando-lhe um braço sobre o seu: gosta de trabalhar com ele? Olhou-a nos olhos. Que raio de pergunta era aquela? É intenso. Abrasivo, respondeu João Pedro, defensivo. Ela sorriu, enigmática. Depois, levou à boca o copo de vinho branco e sorveu um pouco. Voltou a sorrir e perguntou: nada de dúvidas morais? João Pedro deu uma passa no seu cigarro. O Danúbio Azul, habitual valsa de abertura nos casamentos, chegava ao clímax, e muitos pares de convidados avançavam para a pista, depois de o pai da noiva a ter passado para as mãos do seu recentíssimo marido. Sou advogado, não sou padre, respondeu. Liliana fez uma careta e brincou: parece tenso... É sempre assim na presença de mulheres bonitas?

Passou-lhe um pensamento pelo cérebro: só quando são as escort girls do meu patrão. Da sua mesa, Inês chamava-o, agitando os braços. Ou só fica tenso quando elas são as concubinas do seu patrão? João Pedro ficou siderado. Ela deu uma gargalhada: quase que se consegue ouvir o seu cérebro a trabalhar: o que é que ela quer? E se vai contar tudo ao boss? E se disser a palavra errada, a sua vida profissional vai pelo ralo, não é? João Pedro fez um sorriso forçado. Liliana acendeu um cigarro, inalou e depois comentou: as pessoas têm medo dele... Você também tem medo dele? O que era aquilo? Quem era esta mulher? Lionel Ritchie começou a cantar Ali Night Long e, na pista de dança, cresceu a excitação, como se as pessoas estivessem a viver o momento mais divertido das suas vidas. Medo? Porquê? Sem lhe ligar, Liliana levantou-se e depois baixou-se na direcção dele, de modo que as suas caras ficaram muito próximas: ora aí está um bom mistério para entreter os seus neurónios... João Pedro viu-a a afastar-se, abanando as ancas. Quem era esta mulher? Seria mesmo uma escort girl? Mas, pela forma como falava, dir-se-ia que conhecia a vida do escritório. Que tipo de jogo era aquele? Deixou-se ficar sentado, a digerir as dúvidas. Mariana continuava sem dar sinais de vida. Ainda pensou em perguntar ao pai por ela. Mas não era boa ideia: pai e filha não se davam bem.

Recordou o caso que tinha em mãos: uma operação de fuga ao fisco. A fortuna de um construtor civil posta a salvo. Vários milhões a voarem pelo ciberespaço, de off-shore em off-shore. E os nomes, estranhos, das empresas: Abraxas, Cifra Atbash, Leviktikon, Templer One, Agnus Mix, Salomon et al, Baph-Omet. Pareciam nomes históricos, religiosos, medievais. Lembrou-se das referências do professor Bernardino aos Templários e do murmúrio que ouvira sobre Marcos Portugal ser maçon, ou templário (quem comentara? O professor Bernardino?). Correu a tenda com olhar, procurando o historiador. No bar e nas mesas não existia sinal dele, nem da sua pequenina mulher. Na pista, onde uma turba desordenada imitava os movimentos corporais dos Village People e cantava o YMCA, também não descobriu o enorme viking. Arrependeu-se da forma abrupta como o abandonara, agora que tinha interesse em falar com ele. O seu pensamento regressou à operação fiscal. Fora montada há um ano, antes de João Pedro ser contratado. Só que a coisa complicara-se: o cliente acusava agora o escritório de o ter prejudicado seriamente. À primeira vista, Parecia grave. O dr. Marcos Portugal dera-lhe ordens precisas: prove ao cliente que o dinheiro não desapareceu, dê por onde der. Sentira um arrepio na espinha. Recordou as perguntas da noite: não tem dúvidas morais?, perguntara Liliana». In Domingos Amaral, Os Cavaleiros de São João Baptista, 2004, Leya, BIS, 2015, ISBN 978-989-660-373-1.

Cortesia de Leya/BIS/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Templários, Literatura, Conhecimento, 

sábado, 6 de março de 2021

Poesia. Luísa Sobral. «Antes de ti, só existi cansado e sem nada p’ra dar. Meu bem, ouve as minhas preces…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Amar Pelos Dois

«Se um dia alguém perguntar por mim
Diz que vivi p’ra te amar
Antes de ti, só existi
Cansado e sem nada p’ra dar

Meu bem, ouve as minhas preces
Peço que regresses, que me voltes a querer
Eu sei que não se ama sozinho
Talvez, devagarinho, possas voltar a aprender

Meu bem, ouve as minhas preces
Peço que regresses, que me voltes a querer
Eu sei que não se ama sozinho
Talvez, devagarinho, possas voltar a aprender

Se o teu coração não quiser ceder
Não só ter paixão, não quiser sofrer
Sem fazer planos do que virá depois
O meu coração pode amar pelos dois»

Poema de Luísa Sobral, in Universal Music Publishing Group

Cortesia de UMPGroup/JDACT

JDACT, Luísa Sobral, Poesia, Cultura e Conhecimento,

sexta-feira, 5 de março de 2021

Poesia. Thiago Gimenes e Thaila Araújo. «Quando foi que partiu, nem percebi o tempo passar; se fez sol ou se fez frio, nem percebi. Faltou o seu olhar…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Faltavam Seus Olhos

«Quando foi que partiu
Nem percebi o tempo passar
Se fez sol ou se fez frio
Nem percebi
Faltou o seu olhar

Então corri sem me cansar
Eu não dormi, nem quis acordar
Eu não pensei, nem vou pensar
Não vou sorrir, nem vou chorar
Faltavam seus olhos
P’ro mundo eu enxergar

Quando foi que partiu
Nem percebi o tempo passar
Se fez sol ou se fez frio
Nem percebi
Faltou o seu olhar

Então corri sem me cansar
Eu não dormi, nem quis acordar
Eu não pensei, nem vou pensar
Não vou sorrir, nem vou chorar
Faltavam seus olhos
P’ro mundo eu enxergar

Então corri sem me cansar
Eu não dormi, nem quis acordar
Eu não pensei, nem vou pensar
Não vou sorrir, nem vou chorar
Faltavam seus olhos
P’ro mundo eu enxergar»

Poema de Thiago Gimenes e Thaila Araújo

Cortesia de Musixmatch/Wikipedia/JDACT

JDACT, Thiago Gimenes, Thaila Araújo, Poesia, Brasil, 

quinta-feira, 4 de março de 2021

Santos Guerreiros e Mártires. Paula P. Costa e Joana Lencart. «Desde a formulação da sua matriz conceptual no século XII, as Ordens Militares foram associadas à concretização da guerra santa sobretudo em zonas periféricas do espaço europeu…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Da violência ao culto. Espiritualidade devocional da Ordem de Cristo (1462-1536)

«A Ordem de Cristo, desde a sua fundação no século XIV, reflectiu uma espiritualidade devocional que incluía o culto dos santos guerreiros e mártires, reflexo da sua matriz religiosa e militar, herdada já dos Templários. As fontes utilizadas para este estudo são os registos de visitações feitos às igrejas da Ordem de Cristo, entre 1462 e 1536. Através destes apontamentos, é possível reconstituir os santos venerados nas igrejas e ermidas, bem como nas capelas e nos altares no interior desses templos, em cerca de meia centena de localidades. Os santos guerreiros e mártires são particularmente cultuados em lugares associados à sede conventual e à defesa da fronteira, tanto muçulmana como castelhana». In Resumo

Da violência ao culto. Espiritualidade devocional da Ordem de Cristo (1462-1536)

A violência como elemento definidor

«A Ordem de Cristo é uma Ordem Militar com a singularidade de ter sido criada apenas no século XIV, mais concretamente em 1319. O contexto histórico imediato desta criação é a supressão da Ordem do Templo em 1312. Numa leitura mais ampla, porém, conseguem-se identificar causas que não se ligam exclusivamente à vontade de perpetuar a herança matricial dos Templários. A própria bula fundacional da Ordem de Cristo aponta para um programa de acção ligado à ideologia da cruzada tardia e à sua aplicação à área do estreito de Gibraltar, onde a pirataria e o corso convidavam à participação activa de Portugal. Assim, percebe-se que os interesses económicos não sejam os únicos subjacentes a esta opção e que emerjam, em simultâneo, objectivos no domínio político, religioso e cultural que se reflectem na evolução histórica da Ordem de Cristo. O seu quadro devocional não é imune a estas questões.

Desde a formulação da sua matriz conceptual no século XII, as Ordens Militares foram associadas à concretização da guerra santa sobretudo em zonas periféricas do espaço europeu, desde o Oriente Latino, à Península Ibérica Pimenta, e ao Báltico. A assunção da violência como elemento definidor de uma matriz espiritual reforça a novidade das Ordens Religioso-Militares e faz delas instituições de grande utilidade sociopolítica na cronologia em questão. Nos moldes definidos, a actuação militar foi incorporada como factor de distinção programática destas instituições face a outras Ordens Religiosas, como as Monásticas, e como factor de salvação dos freires que nelas professavam. Favorecida por esta conjuntura, a violência é incorporada na teologia cristã e legitimada como factor de pacificação, sem que isto encerrasse forçosamente um paradoxo. Ou seja, sobretudo, no quadro da história dos territórios do Oriente Latino e da Península Ibérica, a violência era canalizada para a conquista de novos espaços, que gradualmente se convertiam em territórios organizados e com traços de tendente estruturação estatal.

Tendo em consideração estas circunstâncias, importa perceber o modo como a Ordem de Cristo manifestava esta religiosidade guerreira nos seus templos e como a transpunha para o nível devocional. Uma leitura restrita sobre os santos directamente relacionados com a actividade guerreira inclui como os mais representativos S. Sebastião, Santiago, S. Miguel e S. Jorge. A avaliação da expressão deste grupo hagiográfico entre a Ordem de Cristo é potenciada pela inclusão de outros elementos marcantes de uma sociedade em que a guerra fazia parte da sua imagem de marca e modelava comportamentos. A alusão frequente a santos que tinham conhecido o martírio como forma de punição, e em simultâneo de salvação, pode constituir um elemento de reflexão interessante no quadro da teologia da violência, típica do mundo medieval em que nos centramos. A própria realidade histórica da Península Ibérica, em que a reconquista foi tida como o motor fulcral, coloca em evidência a necessidade de estudos do perfil do que agora desenvolvemos.

No ocidente peninsular, em paralelo com o desenvolvimento da reconquista, ocorreu a valorização de Santiago de Compostela enquanto grande centro devocional. A lenda de Santiago é repleta de significados e reconhece ao santo vários atributos e representações. No contexto histórico em que nos situamos, a de Santiago Mata-Mouros é a mais emblemática. Trata-se, de facto, de uma síntese entre a violência e o culto, adaptada ao contexto histórico peninsular de modo particular». In Paula P. Costa e Joana Lencart, Da violência ao culto: santos guerreiros e mártires na espiritualidade devocional da Ordem de Cristo (1462-1536), Roda da Fortuna. Revista Eletrónica sobre Antiguidade e Medievo, 2019, Volume 8, Número 1, ISSN: 2014-7430.

Cortesia de Roda da Fortuna/ Revista Eletrónica sobre Antiguidade e Medievo/JDACT

JDACT, Paula Pinto Costa, Joana Lencart, Cultura e Conhecimento,

segunda-feira, 1 de março de 2021

Poesia. António Ramos Rosa. «Jamais a nuvem se dissipa mesmo quando a claridade ofusca. Como se fosse preciso adormecer nela como sobre os ombros do mundo…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Todo aquele que abre um livro

«Todo aquele que abre um livro entra numa nuvem
ou para beber a água de um espelho
ou para se embriagar como um pássaro ingénuo
A sôfrega retina
vai-se tornando felina e inflada
e os seus liames tremem entre o júbilo e agonia
Um livro é redondo como uma serpente enrolada
e formado de fragmentos onde lateja o sangue
[ de um pulso
que já não é de um autor que nunca o foi
e que será sempre o ritmo do que está a nascer
irrigando o nada e os terraços sobre os abismos
Nunca o livro se completa embora o redondo
[ o circunde
e o mova para o seu interior sem nunca o envolver
Jamais a nuvem se dissipa mesmo quando
[ a claridade ofusca
Como se fosse preciso adormecer nela como sobre
[ os ombros do mundo
para acompanhar o fluxo ingenuamente novo
com os delicados diademas de fogo e espuma
O livro ora é de veludo ora de bronze
e os seus traços abrem janelas ou terraços
sobre o corpo latente como um arbusto entre pedras
Se a palavra vibra como um meteoro ou desliza
[ como uma anémona
ou não é mais do que uma estrela de areia
a sua proa sulca o incessante intervalo
entre o ardor de incompletos liames
e a estátua aérea que se eleva à sua frente
e continuamente se forma e se deforma
por não ser nada e ser o alvo puro
de um movimento ingénuo sonâmbulo e incerto».

Poema de António Ramos Rosa

 

A Casa

«A tua voz é vegetal e eleva-se com o vento.
Quero demorá-la, fazer dela uma casa
ou um tronco. Que seja a minha noite
com um ardor de eternidade. E a sabedoria
de estar entre plantas tranquilas.
Tudo estará comigo perto de uma nascente
e eu mover-me-ei entre nocturnas veias
e sobre as pedras lisas.
Vejo os barcos da sombra entre as constelações
e estou perto, estou perto. A minha casa é aqui».

Poema de António Ramos Rosa, in O Não e o Sim (1990)

Cortesia de Textos de Poesia/Wikipedia/JDACT

JDACT, António Ramos Rosa, Poesia, Cultura, A Arte da Escrita,  

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Objecto Quase. José Saramago. «Esta queda não é uma qualquer queda de Chaplin, não se pode repetir outra vez, é única e por isso excelente, como quando juntos estiveram os feitos de Adão e as graças de Eva»

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«(…) E não antecipemos, embora saibamos que a cadeira se vai partir: mas não é ainda, primeiro há-de o homem sentar-se devagar, nós, os velhos, dão-nos a lei os trémulos joelhos, há-de pousar as mãos ou agarrar com força os braços ou abas da cadeira, para não deixar descair bruscamente as nádegas enrugadas e o fundilho das calças no assento que lhe tem suportado tudo, como é escusado especificar, que todos somos humanos e sabemos. Pelo lado da tripa, esclareça-se, porque este velho há muitas e também diversas razões, e antigas elas são, para duvidar da sua humanidade. No entanto, está sentado como um homem. Ainda não se recostou. O seu peso, mais um grama menos um grama, está igualmente distribuído no assento da cadeira. Se não se mexesse, poderia ficar assim a seu alvo até ao pôr do Sol, altura em que o Anobium costuma recobrar forças e roer com vigor novo. Mas vai mexer-se, mexeu-se, recostou-se no espaldar, pendeu mesmo um quase nada para o lado frágil da cadeira. E ela parte-se.

Parte-se a perna da cadeira, rangeu primeiro, depois dilacerou-a a acção do peso desequilibrado, e num repente a luz do dia entrou deslumbrante pela galeria de Buck Jones, iluminando o alvo por causa da conhecida diferença entre as velocidades da luz e do som, entre a lebre e a tartaruga, a detonação ouvir-se-á mais tarde, surda, abafada como um corpo que cai. Demos tempo ao tempo. Não está mais ninguém na sala, ou quarto, ou varanda, ou terraço, ou; enquanto o som da queda não for ouvido, somos nós os senhores deste espectáculo, podemos até exercitar o sadismo de que, como o médico e o louco, temos felizmente um pouco, de uma forma, digamos já, passiva, só de quem vê e não conhece ou in lume rejeita obrigações sequer só humanitárias de acudir. A este velho não.

Vai a cair para trás. Aí vai. Aqui, mesmo em frente dele, lugar escolhido, podemos ver que tem o rosto comprido, o nariz adunco e afiado como um gancho que fosse também navalha, e se não se desse o caso de ter aberto a boca neste instante, teríamos o direito, aquele direito que tem toda e qualquer testemunha ocular, que por isso diz eu vi, de jurar que não há lábios nela. Mas abriu-a, abre-a de susto e surpresa, de incompreensão, e assim é possível distinguir, embora com pouca precisão, dois rebordos de carne ou larvas pálidas que só pela diferença de textura dérmica se não confundem com a outra palidez circundante. A barbela estremece sobre a laringe e mais cartilagens, e o corpo todo acompanha a cadeira para trás, e no chão já rolou para o lado, não longe, porque todos devemos assistir, o pé da cadeira partido. Espalhou uma poeira amarela aglomerada, verdade que não muita, mas bastante para em tudo isto nos comprazermos na imaginação duma ampulheta cuja areia se constituísse escatologicamente das dejecções do coleóptero: por onde se vê a que ponto seria absurdo meter aqui Buck Jones e o seu cavalo Malacara, isto supondo que Buck mudou de cavalo na última estalagem e monta agora o cavalo de Fred. Deixemos porém este pó que não é sequer enxofre, e que bem ajudaria o cenário se o fosse, ardendo com aquela chama azulada e soltando aquele seu malcheiroso ácido sulfuroso, ó rima. Seria uma óptima maneira de o inferno aparecer assim como tal, enquanto a cadeira de belzebu se parte e cai para trás arrastando consigo satanás, asmodeu e legião.

O velho já não segura os braços da cadeira, os joelhos subitamente não trémulos obedecem agora a outra lei, e os pés que sempre calçaram botas para que se não soubesse que são bifurcados (ninguém leu a tempo e com atenção, está lá tudo, a dama pé de cabra), os pés já estão no ar. Assistiremos ao grande exercício ginástico, o mortal para trás, muito mais espectacular este, embora sem público, do que os outros vistos em estádios e jamores, do alto da tribuna, no tempo em que as cadeiras ainda eram sólidas e o Anobium uma improvável hipótese de trabalho. E não está ninguém que fixe este momento, o meu reino por uma polaroid, gritou Ricardo III, e ninguém lhe acudiu porque pedia cedo de mais. O nada que temos em troca deste tudo de mostrar o retrato dos filhos, o cartão de sócio e a vera imagem da queda. Ai estes pés no ar, cada vez mais longe do chão, ai aquela cabeça cada vez mais perto, ai Santa Comba, não santa dos aflitos, santa padroeira sim daquele que sempre os afligiu. As filhas do Mondego a morte escura ainda por agora não choram. Esta queda não é uma qualquer queda de Chaplin, não se pode repetir outra vez, é única e por isso excelente, como quando juntos estiveram os feitos de Adão e as graças de Eva. E por nela termos falado, Eva doméstica e serviçal, mandante na proporção, benfeitora de desempregados se sóbrios, honestos e católicos, buraco de martírio, poder medrado e merdado à sombra deste Adão que cai sem maçã nem serpente, onde estás?» In José Saramago, Objecto Quase, 1978, Porto Editora, 2015, ISBN 978-972-004-655-0.

Cortesia de PortoE/JDACT

JDACT, José Saramago, Literatura, Política, Cultura, Nobel, MLCT,

A Bicicleta que Fugiu dos Alemães. Domingos Amaral. «Infelizmente, não via parisienses da segunda estirpe e era nesse momento que lhe nascia na alma uma nova vaga, mais racional e compreensiva: os citoyens estavam em pânico…»

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Paris, 4 de Junho de 1940

«(…) Durante as horas seguintes, Carol vagueou por Paris numa apatia entristecida. Nem a Hirondelle revelou a habitual magia e, pela primeira vez, não se sentiu a voar. Aliás, a maior parte do tempo levara a bicicleta pela mão ou sentara-se num banco qualquer, nas Tulherias, nos Campos Elísios, mais tarde em frente à Catedral de Nôtre-Dame, a matutar, deprimida. Não estava apaixonada por Jean-Luc, ele não lhe tinha partido o coração, a questão não era essa! Numa primeira vaga de raiva, concluiu que aquela separação inesperada agravava a sensação dolorosa por ser um manifesto da mudança radical de Paris. Jean-Luc era um símbolo francês, um exemplo de falta de resiliência, de vertigem medrosa e de uma mesquinha ausência de solidariedade. Tal como no romance de Victor Hugo, Os Miseráveis, no presente também existiam os fugitivos e os lutadores que construíam barricadas nas ruas! Jean-Luc pertencia ao grupo dos primeiros.

Infelizmente, não via parisienses da segunda estirpe e era nesse momento que lhe nascia na alma uma nova vaga, mais racional e compreensiva: os citoyens estavam em pânico e, tendo familiares nas províncias, era natural colocarem-se a uma distância segura dos panzers. Jean-Luc fora lúcido, se não partisse hoje de comboio, poderia não o conseguir fazer depois. Após essa curta acalmia, uma terceira onda de emoções levantava-se, crispada e barulhenta, denegrindo o amigo por a haver ignorado, por não mostrar sequer a decência e o cavalheirismo de a informar. Ela não teria revertido a decisão dele, nem esperado uma sugestão para o acompanhar. Mas fugir como um tolo? Caramba, não se viam ainda botifarras nazis nos boulevards e Jean-Luc nem sequer era judeu, comunista, ou soldado, não estava no topo das preocupações alemãs!

De repente, a minha prima lembrou-se da opinião de Polly sobre os franceses e deu por si a concordar com a americana. Andavam aterrados e o desaparecimento intempestivo de Jean-Luc provava-o. Não que o namorado apresentasse falta de apetite sexual, essa parte não validava a teoria de Polly, mas…

Um pensamento intrometeu-se e o coração magoado de Carol acelerou a batida. E se estivesse grávida? Jean-Luc fora-se embora sem qualquer preocupação com essa minúscula probabilidade! Esquecera-a sem lhe dar sequer um romântico beijo de despedida, na gare, como no final dos filmes americanos. Porém, a minha prima dera-se e, mesmo com as precauções tomadas, podia sempre existir um percalço! Na universidade, conhecia pelo menos duas alunas que haviam engravidado sem querer. Aquela dor na barriga, que já sentira várias vezes, seria um pequeno embrião a germinar? Enxotou a tolice. Não estava grávida, o sentimento de abandono é que a fazia pensar assim. A única conclusão certa era a de que o namorado não prestava, ponto final. Decidida, começou a desconstruí-lo. Que parvo, sempre com a boca torta de nojo, ao vê-la comer mexilhões! O odor dele também lhe repugnava, mas o pior era mesmo o cabelo, oleoso, lambido e raramente lavado. Isso e a incapacidade para dar uns passos de dança. Não tinham mesmo nada a ver um com o outro, aquela fora uma mera ligação entre dois solitários, fraca e ténue!

Até na cama era maçador, um aspirante a médico sem qualquer curiosidade pela anatomia feminina. Nem por uma vez a beijara nos mamilos ou lá em baixo e possuía-a sempre deitado em cima dela, que abria as pernas e pronto, um calorzinho no ventre e já está! Agora que pensava nisso, nunca ficara por cima, a tal posição de que Polly tanto gostava. Aliás, o lendário prazer explosivo de que as outras mulheres falavam, que se devia procurar como se fosse o Santo Graal dos romances da Távola Redonda, nunca Carol o encontrara! Jean-Luc era um banal iniciador, sem prática ou jeito, que nem sequer ascendia ao nobre estatuto de ter sido o seu primeiro homem. A dado momento, tanta era a sua irritação que até olhou com brusquidão para a Hirondelle quando esta tombou com o vento, talvez por estar mal encostada ao banco. Levantou-se, furiosa, prestes a brindar com palavrões a bicicleta, como se esta fosse uma extensão de Jean-Luc. Porém, um raio de lucidez atravessou-a: não seriam justos tais desatinos, a Hirondelle nunca lhe falhara, nem um mísero furo tivera em dois anos, revelara-se um monumento de resiliência. Enquanto Paris a abandonava, a fiel bicicleta continuava com ela! Então, levantou-a do chão e acarinhou-a, passando a palma da mão direita no selim. Se algo parecido com amor existia no seu coração, era por aquela bicicleta!» In Domingos Amaral, A Bicicleta que Fugiu dos Alemães, Casa das Letras, 2019, ISBN 978-989-780-124-2.

Cortesia CdasLetras/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Literatura, Paris, 

Enquanto Salazar Dormia. Domingos Amaral. «Sentámo-nos ao balcão da pastelaria. Michael puxou de um maço de cigarros, ofereceu-me um e acendeu outro. Depois perguntou: a Mary quer que tu a ajudes? Sim»

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Lisboa, 22 de Junho de 1995

Mary

«(…) Estava perplexo. Mary era uma mulher experiente e vivaça, mas nunca esperei um currículo tão vasto. Chamou-te cobarde? A pergunta de Michael atingiu-me como um tiro no peito. Mary tinha dito aquilo na intimidade, não era possível ele saber. A não ser que..., fosse um hábito de Mary. Consciente de ter acertado em cheio, o meu amigo riu-se: sempre a mesma Mary. Faz isso com todos. Insulta-nos, provoca-nos, e depois trepa por nós a cima. Diz-me, Jack, a Mary pediu que a montasses? Corei. Michael deu uma gargalhada e depois gritou, no meio do Rossio: bem-vindo ao clube dos namorados da Mary! Fingiu ter um copo na mão, ergueu o braço e executou um brinde à minha saúde, com pompa e circunstância. Era um patife teatral, o meu amigo! Desatou a rir e o seu riso contagiou-me, e pouco depois já eu ria às gargalhadas. As pessoas que passavam por nós também riam, divertidas. A custo, recuperámos a seriedade, e Michael avisou: o problema é esse, Jack. Muitos homens na cama, muitos segredos que deixam de o ser. Nestes tempos, é preciso ter cuidado. Os alemães têm amigos por todo o lado.

O lembrete de Michael soou-me exagerado. Desconhecedor do furtivo mundo da espionagem, tinha a atrevida ignorância de duvidar. Ela pareceu-me mais preocupada com o coronel... Diz que ele anda a falar com os comunistas, contrapus. Com ela é que ele não fala muito, resmungou Michael. O meu amigo começou a andar na direcção da Suíça e segui-o. A pastelaria, onde a afluência de refugiados obrigara a abrir uma esplanada para a rua, fora baptizada pelos portugueses de Bompernasse, pois podiam observar-se por lá muitas e belas pernas de mulheres estrangeiras. Francesas, belgas, holandesas, judias da Alemanha ou da Polónia, calçavam soquettes, saíam à rua sem meias, luvas ou chapéus, e penteavam o cabelo curto, à refugiada. Aliviadas por terem escapado à guerra, aos black outs, às bombas ou às perseguições da Gestapo, viviam Lisboa como um oásis, um nirvana de paz e felicidade, e mostravam as pernas ao sol, lendo revistas e fumando cigarros, numa animação estranha aos costumes lusitanos.

À frente da Suíça, um agitado grupo de portugueses discutia a recente ocupação de Timor pelos japoneses. Deviam ser funcionários públicos, saídos do emprego há pouco. Alguns tinham na lapela cruzes de Lorena, emblema da França Livre, outros emblemas da RAF inglesa, que usavam com orgulho apesar das multas da PSP. A 20 metros do grupo, dois circunspectos homens de casaco cinzento, provavelmente da PVDE, vigiavam o ajuntamento para evitar o descambar das polémicas. Cá estão os nossos amigos, resmungou Michael. Diversas vezes me confessara a embirração que nutria pelos agentes da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, a PVDE, que considerava gente de segunda categoria. Mal formados, quase todos originários da PSP, não falavam línguas, e Michael descrevia-os como paus-mandados, capazes de incomodar, perseguir e torturar, sem saberem distinguir um francês dum polaco. Porém, embora reconhecesse que existiam influências germânicas e do fascismo italiano na PVDE, Michael considerava que a Gestapo não dominava a polícia de Salazar. Explicara-me que o capitão Agostinho Lourenço, o chefe da PVDE, não era pro-nazi mas sim um neutro, que cumpria estritamente as ordens de Salazar. Para o meu amigo, havia na PVDE homens mais perigosos do que o chefe, como o tenente Marrano, que Michael considerava um filho da pu…, formado na Alemanha pela Gestapo, um sinistro esbirro a quem dava gozo perseguir os judeus e os comunistas.

Sentámo-nos ao balcão da pastelaria. Michael puxou de um maço de cigarros, ofereceu-me um e acendeu outro. Depois perguntou: a Mary quer que tu a ajudes? Sim. E tu queres ajudá-la, ou só queres continuar a montá-la? Sorri: as duas coisas. Ele riu-se. Acenou ao empregado atrás do balcão e pediu duas aguardentes. O homem veio, pousou dois copos, encheu-os e retirou-se. O problema não é a ajuda que vais dar, disse ele. O problema é ajudá-la a ela, à mulher do James. Permaneci calado. Michael prosseguiu, revelando-me uma novidade: ontem chegou um tipo novo a Lisboa. Ralph Jones. Para pôr ordem na casa. Fez uma pausa, depois de dar um trago na aguardente, e baixou o tom de voz, como que a conferir gravidade ao que ia dizer. O coronel Bowles é perigoso. Olhei para ele: por causa dos comunistas? Michael franziu as sobrancelhas, dando-me a entender que não era local para falar em tal tema. Mudou de assunto e perguntou: queres ver a minha nova faca? Tirou do bolso do casaco um coldre, e mostrou-me a faca. A lâmina era afiada, brilhante, límpida como um espelho onde os nossos copos se reflectiam. Segurou-a pelo cabo de madeira trabalhada e afirmou orgulhoso: é uma Randall, igual às que o exército americano usa. Mandei-a vir de lá. Gosto de americanas...» In Domingos Amaral, Enquanto Salazar Dormia, 2006, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-174-6.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Lisboa, Guerra Mundial, Literatura, Conhecimento,

sábado, 27 de fevereiro de 2021

A História Secreta do Ocidente. Nicholas Hagger. «Estamos focalizando o período que vai da Reforma até o início do século XX. Depois da longa estabilidade das Idades Médias dominadas pela Igreja, quando havia heresias…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Este livro conta a história de como a revolução mundial brotou dos últimos 550 anos. É o primeiro livro a examinar as raízes da revolução mundial e a contar a história submersa dos eventos que deram forma ao nosso tempo, a história que não aparece nos livros de história ou nos jornais. A que tipo de Nova Ordem Mundial tendem as civilizações norte-americana e europeia? Para entender o movimento revolucionário mundial nos nossos dias, é vital obter uma visão aprofundada da Nova Ordem Mundial como processo moldado pelo impacto de sucessivas revoluções. Até onde é preciso retroceder em busca das revoluções que culminaram na Revolução da Nova Ordem Mundial? Retrocedendo, a Revolução Russa tem uma ligação causal com a Revolução da Nova Ordem Mundial, assim como a Revolução Imperialista do século XIX. Ambas se originaram no clima criado pelas revoluções Americana e Francesa. O clima que criou essas revoluções não teria ocorrido sem as três revoluções protestantes anteriores: a da Reforma, a Puritana e a Gloriosa.

Estamos focalizando o período que vai da Reforma até o início do século XX. Depois da longa estabilidade das Idades Médias dominadas pela Igreja, quando havia heresias, cruzadas, dinastias familiares e conflitos pelo poder, as revoluções se multiplicaram. A Renascença foi uma revolução cujo início pode ser fixado em 1453. Em 1485, a investida de Henry Tudor na Inglaterra não deixou de ser uma revolução. Em 1494, os Medici foram depostos, fugiram de Florença e Savonarola instituiu uma breve república democrática. Seus sermões contra a corrupção papal inspiraram a Reforma, que começou com Lutero, expandiu-se nos anos 1530 para a Inglaterra, onde Thomas Cromwell levou a cabo uma revolução social, e para a França através de Calvino, dividindo a Cristandade. Para ser bem compreendida, a Reforma tem que ser vista como uma revolução que tinha por detrás a acção de uma mão oculta. A Contrarreforma dos anos 1550 ampliou mais ainda a separação entre católicos e protestantes. A chamada revolução ceciliana (de William Cecil) no governo da Inglaterra durante o reinado de Elizabeth I criou uma nova visão imperialista, enquanto a Revolução Puritana posterior dominou o século XVII. A Restauração foi uma contrarrevolução contra os puritanos. Então veio a Revolução Gloriosa: o católico Jaime II foi expulso do trono e a Inglaterra finalmente se tornou protestante, aumentando ainda mais a divisão na Cristandade. Mais uma vez, uma organização secreta agia nos bastidores.

No século VIII, a Revolução Americana chocou a Inglaterra, o que levou quase imediatamente à Revolução Francesa e à chamada Idade da Razão. Organizações secretas estavam em acção por trás dessas duas revoluções. Do revolucionarismo nasceu o Romantismo (em si mesmo uma revolução), enquanto a nova religião da Razão gerou a Revolução Industrial, que impulsionou o (segundo) Império Britânico e o Império Germânico. Nesse cenário, houve supostas revoluções na Europa em 1830, 1848 e 1871. Na Rússia, houve muita actividade revolucionária na segunda metade do século XIX, culminando com a Revolução de 1917 e o advento de Staline. Organizações Secretas estavam em acção.

No século XX, uma sucessão de mudanças leva a uma revolução mundial. Durante 550 anos, as revoluções influenciadas por associações secretas se sucederam, como um terremoto depois do outro, uma maré depois da outra. Todas essas revoluções começaram com uma ideia oculta, embora a comunicação social as faça parecer meramente políticas. Em todas, o idealismo estimulado nos primeiros dias se corrompeu na prática.

Qual é o significado dos mais recentes acontecimentos da revolução mundial que está ocorrendo agora? Para compreendê-lo, temos que voltar ao passado e examinar as principais revoluções dos últimos 550 anos para ver se emerge um padrão que também esteja por trás dos mais recentes acontecimentos.

Nosso método será começar há 550 anos e formar um quadro progressivo da influência das organizações secretas sobre cada revolução, uma a uma, o que nos permitirá compreender o tempo presente. À medida que passarmos de uma revolução à outra, examinaremos cada um dos quatro estágios de nossa dinâmica revolucionária, que é um conceito inteiramente novo. Avançaremos em ordem cronológica, seleccionando os acontecimentos necessários para que a dinâmica revolucionária seja revelada, mas também os que possam fornecer um quadro da revolução e uma percepção do seu significado. Isso pode envolver algum detalhamento. Esse detalhamento é essencial, pois o que falta na nossa compreensão dessas revoluções é o seu significado. Os acontecimentos não se perderam: foram deixados pela maré da História, como cascas de siri, algas ou pedregulhos numa praia, mas a maré de significado retrocedeu. Para entender a presente revolução mundial, temos que redescobrir o conhecimento perdido que suscitou os acontecimentos das revoluções passadas, o que só pode ser feito reinterpretando de maneira nova os detalhes relativos a esse conhecimento perdido que mais se destacam. Tendo recapturado a dinâmica revolucionária de uma revolução por meio dos seus principais acontecimentos e do seu significado perdido, vamos então nos deter para reflectir e nos reconectar ao nosso tema principal». In Nicholas Hagger, A História Secreta do Ocidente, 2005, Editora Cultrix, 2011, ISBN 978-853-161-103-2.

Cortesia de ECultrix/JDACT

JDACT, Nicholas Hagger, Literatura, Narrativa, 

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Domingos Amaral. Por Amor a uma Mulher. «Estava aterrada ao perceber que o seu amado príncipe se fascinara por aquela galega loira e sardenta. E mais ficou quando o escutou questionar a mãe…»

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Lanhoso, Março de 1120

«(…) Os seres humanos fod… muito quando se sentem vencedores, mas para a minha investigação o mais relevante foi descobrir que também o arcebispo Gelmires já sabia da relíquia, naquela época, e já a desejava encontrar, tal como a rainha Urraca. Os planos de ambos contra o Condado Portucalense e a independência do novo reino de Portugal eram antigos...

Guimarães, Março de 1120

Em Lanhoso, na manhã seguinte à secreta conversa entre as duas irmãs, o arcebispo Gelmires mandou retirar as suas tropas, alegando graves crimes cometidos por Urraca, e partiu para a fronteira fluvial do Minho, acampando aí, à espera do desenrolar de uma conspiração que julgava dominar. Perante tal desfeita, a rainha Urraca perdeu a relutância que na véspera ainda tivera e convenceu-se de que Gelmires a traíra mais uma vez. Em vez de atacar Lanhoso, como esperava o prelado de Compostela, propôs a paz a dona Teresa, e logo ali foi assinado um tratado entre as duas filhas de Afonso VI, que, embora não cedesse à mais nova o ambicionado trono da Galiza, lhe garantia a posse dos territórios fronteiriços de Tui a Zamora.

Em inesperada concórdia, dona Urraca e seus homens retiraram pela mesma estrada que seguira Gelmires, e foram dar com ele ainda acampado. Furiosa, a rainha de Leão e Castela mandou prender o arcebispo traidor. Quanto a nós, portucalenses, regressámos a Guimarães acompanhados pelo príncipe, embora notando que Fernão Peres nos tratava com secura. Só viríamos a perceber que iríamos ser hostilizados pelo galego já na cidade, onde apareceu igualmente Gomes Nunes Pombeiro, acompanhado pela mulher e pelas filhas. Com o tratado assinado, o senhor de Toronho estava aliviado: nem Tui fora saqueada, nem teria de prestar vassalagem a Urraca! Notava-se-lhe tal alegria que logo disponibilizou as suas meninas para casarem com nobres portucalenses. Porém, Fernão Peres rejeitou a ideia.

É cedo para isso, rosnou. Roma não paga a traidores!, citou o Trava, enquanto a rainha, ao seu lado, abanava a cabeça, em concordância. A curiosa Chamoa perguntou qual o significado daquela expressão, mas o tio mandou as crianças brincarem para o pátio do castelo, dizendo que aquelas não eram conversas para ter à frente delas. Já cá fora, Maria e Chamoa saltaram ao eixo até que pouco tempo depois surgiram no pátio Gomes Nunes e Elvira Trava, que com um ar preocupado pegaram na mão das filhas e partiram. Foi a primeira vez que o meu melhor amigo viu Chamoa Gomes, e a primeira vez que vi a minha Maria. Estávamos também no pátio, mas eu, mais do que curioso com as moças, sentia-me intrigado, pois desconhecia porque se desagradara o Trava. Já Afonso Henriques, apenas me perguntou: quem é aquela, a loira?

Os cabelos cor de mel de Chamoa, o seu sorriso encantador, os seus belos olhos verdes e as suas profusas sardas haviam-no encantado. A prima Raimunda revelou-me que foi nesse dia que sentiu uma primeira pontada de ciúme, enquanto me ouvia esclarecer: são as sobrinhas do Trava, de Tui. Estava aterrada ao perceber que o seu amado príncipe se fascinara por aquela galega loira e sardenta. E mais ficou quando o escutou questionar a mãe, já de novo na sala: podemos ir a Tui? Lembro-me de ter visto dona Teresa franzir a testa e resmungar: a Tui? Não há lá nada de jeito, a não ser ursos! Ides é para Lamego, com quem vos trouxe!

Embora ainda fôssemos crianças, percebi perfeitamente que ela se referia a meu pai e meu tio, e recordo que o príncipe se virou para a mãe com um olhar inquisidor. Todos havíamos já notado uma clara animosidade desde a partida de Lanhoso, mas só ali percebemos que o sentimento de traição e deslealdade que se apoderara da rainha e do seu amante, por terem sido abandonados pelos portucalenses em Lanhoso, teria graves consequências. Pouco depois, a rainha informou que meu pai e meu tio seriam afastados do governo do Condado e que Paio Soares continuaria na Maia. O meu melhor amigo não ficou satisfeito, pois não queria abandonar a mãe, e com alguma esperança acercou-se dela para lhe expor um pedido. Incomodada, dona Teresa revirou os olhos». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

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