terça-feira, 27 de julho de 2021

Moça com Brinco de Pérola. Tracy Chevalier. «Ela agora está fora, foi fazer compras. Tanneke vai-lhe mostrar a casa e explicar suas tarefas. Sim, madame. Concordei»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Nenhum era como eu esperava que ele pintasse. Mais tarde, descobri que eram todos de outros pintores, ele raramente mantinha seus quadros na casa. Além de artista era comerciante de arte, e havia quadros em quase todos os cómodos da casa, até no que eu dormia. No total, eram mais de cinquenta, embora o número variasse, conforme ele os vendia. Venha, não precisa ficar olhando. A mulher andou rápido por um comprido corredor que percorria um lado da casa até aos fundos. Fui atrás dela até virar de repente para um quarto à esquerda. Na parede em frente havia um quadro que era maior que eu. Mostrava Cristo na cruz, rodeado pela Virgem Maria, Maria Madalena e São João. Tentei não olhar, mas me impressionei com o tamanho e a cena. Meu pai tinha dito que os católicos não eram muito diferentes de nós. Mas nós não tínhamos aqueles quadros nas nossas casas, em igrejas nem em lugar algum. Eu ia ter que ver aquele quadro todos os dias. Sempre chamei aquele lugar de quarto da Crucificação. Nunca me senti bem lá. O quadro me deixou tão espantada que só percebi a mulher no canto quando ela falou. Bem, menina, algo novo para você ver, disse ela. Estava numa cadeira confortável fumando um cachimbo. Os dentes que seguravam o cachimbo tinham escurecido e os dedos estavam manchados de tinta. No resto, era impecável: seu vestido negro, sua gola de renda, sua touca branca engomada. O rosto enrugado era duro, mas seus olhos castanho-claros pareciam simpáticos.

Era o tipo da velha que parecia que ia viver mais tempo que todos. De repente, pensei: é a mãe de Catharina. Não era apenas por causa da cor dos olhos e da mecha castanha que escapou da touca, igual à filha. Tinha o jeito de alguém acostumado a lidar com pessoas menos capazes do que ela, de cuidar de Catharina. Entendi por que tinha sido levada para ela e não para a filha. Embora me parecesse olhar distraída, estava atenta. Quando apertou os olhos, percebi que sabia tudo que eu pensava. Virei a cabeça de forma que minha touca escondesse o meu rosto. Maria Thins deu uma baforada no cachimbo e riu. Está bem, menina. Aqui, seus pensamentos ficam para você. Quer dizer então que vai trabalhar para minha filha. Ela agora está fora, foi fazer compras. Tanneke vai-lhe mostrar a casa e explicar suas tarefas. Sim, madame. Concordei.

Tanneke tinha ficado ao lado da senhora e passou por mim. Segui-a, com os olhos de Maria Thins batendo nas minhas costas. Ouvi ela rir outra vez. Tanneke me levou primeiro para os fundos da casa, onde havia uma cozinha, uma lavandaria e duas despensas. A lavandaria abria para um pequeno pátio cheio de roupas brancas secando. Para começar, essa roupa precisa passar, disse Tanneke. Fiquei calada, embora parecesse que a roupa ainda não estava bem seca pelo sol do meio-dia. Ela me levou aos fundos e apontou um buraco no chão de uma das despensas, com uma escada para descer. Você dorme aqui, anunciou. Ponha suas coisas lá e venha.

Relutante, deixei minha trouxa cair naquele pequeno buraco sombrio, pensando nas pedras que Agnes, Frans e eu jogávamos no canal para acertar nos monstros. Minhas coisas fizeram um som surdo no chão sujo e me senti como uma macieira perdendo sua maçã. Segui Tanneke pelo corredor, para onde se abriam todos os quartos, muito mais quartos que em nossa casa. Ao lado do quarto da Crucificação, onde estava Maria Thins, na frente da casa, havia um quarto menor com camas de crianças, penicos, mesinhas e cadeirinhas com vários objectos de barro, castiçais, espevitadeiras e roupas, uma bagunça. As meninas dormem aqui, resmungou Tanneke, talvez sem graça com aquela confusão.

Voltou para o corredor e abriu a porta de um quarto grande, onde a luz vinha das janelas da frente e batia no chão de ladrilhos vermelhos e cinzentos. O grande cómodo. Aqui dormem o patrão e a senhora, disse ela. A cama de dossel tinha cortinas de seda verde. Havia outros móveis no quarto: um grande armário com entalhe de ébano, uma mesa de madeira branca encostada nas janelas com várias cadeiras de couro espanhol ao redor». In Tracy Chevalier, Moça com Brinco de Pérola, 1999, Bertrand Brasil, 2002, ISBN 978-852-860-957-8.

 

Cortesia de BertrandB/JDACT

Johannes Vermeer, Século XVII, JDACT, Pintura, Literatura,  

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Moça com Brinco de Pérola. Tracy Chevalier. «Os outros quadros eram de coisas mais conhecidas: pilhas de frutas, paisagens, navios no mar, retratos. Pareciam ser de vários pintores. Fiquei pensando qual deles seria do meu novo patrão»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) É melhor você estourar antes que batam no chão, sugeri. Senão, vai precisar limpar os ladrilhos outra vez. A mais velha abaixou a haste onde soprava. Quatro duplas de olhos me olharam de um jeito que não deixava dúvidas de que eram irmãs. Vi vários traços dos pais nelas: olhos acinzentados aqui, castanhos claros lá, rostos angulosos e movimentos impacientes. Você é a nova criada?, perguntou a mais velha. Mandaram a gente esperar você, interrompeu a menina ruiva, antes que eu pudesse responder. Cornélia, vai chamar Tanneke, mandou a mais velha. Vá você, Aleydis, disse Cornélia para a caçula, que arregalou os olhos para mim, mas não se mexeu. Eu vou. A mais velha deve ter achado que a minha chegada era importante, afinal. Não, eu vou. Cornélia pulou e correu na frente da irmã mais velha, deixando-me sozinha com as duas meninas mais caladas. Olhei para o bebé que batia braços e pernas no colo da menina. - É seu irmão ou irmã? Irmão, respondeu a menina com uma voz macia como um travesseiro de plumas. O nome dele é Johannes, mas nunca chame de Jan. Fez a recomendação como se fosse um refrão conhecido. Sei. E você, como se chama?

Lisbeth. E esta é Aleydis. A caçula sorriu para mim. As duas estavam arrumadinhas, de vestido marrom com aventais e toucas brancas. E sua irmã mais velha? Maertge, nunca chame de Maria. Nossa avó é Maria. Maria Thins. Esta casa é dela. O bebé choramingou. Lisbeth montou-o no joelho, para cima e para baixo. Olhei a casa. Sem dúvida, era maior que a nossa, mas não tanto quanto eu temia. Tinha dois andares e mais um sótão, enquanto a nossa tinha apenas um quarto e um pequeno sótão. Era uma casa de final de rua, com a Molenpoort de um lado, um pouco mais espaçosa do que as outras. Parecia menos apertada que muitas casas de Delft, que eram coladas umas às outras em estreitas fileiras de tijolo às margens dos canais, com suas chaminés e tectos inclinados reflectidos na água verde do canal. As janelas térreas da casa eram bem altas, e no primeiro andar havia três janelas juntas, em vez de duas como nas demais casas da rua.

Da casa, via-se a torre da Nova Igreja do outro lado do canal. Uma estranha vista para uma família católica, pensei. Uma igreja onde jamais entrariam. Então você é a criada, não?, ouvi alguém perguntar, atrás de mim. A mulher na porta tinha um rosto largo, com marcas da varíola que tivera há tempos. Seu nariz era grande e irregular e seus grossos lábios se apertavam formando uma boquinha. Os olhos eram azul-claros, como se ela tivesse um toque de céu neles. Estava de vestido marrom com camisa branca, uma touca bem apertada na cabeça e um avental não tão limpo quanto o meu. Ficou parada na porta de modo que Maertge e Cornélia tiveram de empurrá-la para ficar ao seu lado, olhando-me de braços cruzados como se esperassem um desafio. Ela já se sente ameaçada por mim, pensei. Se deixar, vai-me tiranizar. Meu nome é Griet, falei, olhando-a de frente. Sou a nova criada. A mulher mudou o peso do corpo de uma perna para a outra. Então é melhor entrar, concluiu logo. Afastou-se para o interior escuro para dar passagem na porta. Entrei. Sempre me lembro dos quadros, na primeira vez que entrei na sala da frente. Parei na porta, segurando minha trouxa, e olhei. Já tinha visto quadros, mas nunca tantos num só lugar. Contei onze. O maior era de dois homens, quase nus, lutando. Não identifiquei nenhuma história bíblica e achei que devia ser algum tema católico. Os outros quadros eram de coisas mais conhecidas: pilhas de frutas, paisagens, navios no mar, retratos. Pareciam ser de vários pintores. Fiquei pensando qual deles seria do meu novo patrão». In Tracy Chevalier, Moça com Brinco de Pérola, 1999, Bertrand Brasil, 2002, ISBN 978-852-860-957-8.

 

Cortesia de BertrandB/JDACT

Johannes Vermeer, Século XVII, JDACT, Pintura, Literatura, 

Memórias Secretas de Dona Carlota Joaquina. José Presas. «Esse livro se caracteriza, sobretudo, pela polémica com o abade de San Juan de la Pena, defensor do absolutismo e de Fernando VII»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Merecia absoluta confiança da princesa. Pode-se dizer que foi ele quem conduziu sobre os ombros o pesado encargo de todas as negociações a fim de realizar os propósitos da infanta, tendo activa correspondência com os partidários de sua senhora e com vice-reis e demais autoridades coloniais. O marquês de Casa Irujo lhe imputa o facto de haver protegido no Rio de Janeiro os perseguidos pelo vice-rei de Buenos Aires. Isso, se realmente prejudicava os interesses da Espanha, favorecia os da princesa, posto que muitos desses perseguidos eram partidários seus. Por sua mediação, foram enviados importantes auxílios para Montevideu, sendo, para isso, burladas as intrigas de lord Strangford. Apesar das censuras dos historiadores argentinos à conduta de Presas, devemos reconhecer nele grande habilidade para a intriga e excelente perspicácia para observar as questões políticas. Esses dons representam o motivo que influi para que o embaixador inglês obtivesse, em 1812, a separação de Presas da princesa, seguindo ele para a Espanha no desempenho de missão especial. Sua vida, anos mais tarde, na Espanha, teve lances de certa sensação. Resolveu o ex-secretário de dona Carlota Joaquina fazer-se publicista, contribuir com a sua opinião para o esclarecimento das questões políticas e entrou logo a guerrear o absolutismo. O seu primeiro livro, impresso na casa Carlos Lawalle Sobrinho, em Bordeaux, circulou em 1817 e despertou grande celeuma, sendo proibido por decisão das autoridades policiais.

Aludindo a esse panfleto, cujo autor mereceria, no seu entender, pena de açoites, senão mesmo de fuzilamento, disse o alcaide de Madrid, Julian Cid Miranda: se Presas cai em meu poder, em menos de três dias eu o terei mandado à Plaza de la Cebada... Era o lugar em que os inimigos da realeza pagavam pela sua audácia. Presas teve, porém, a prudência de fugir para a França... Esse livro não era outro senão a Pintura de los males que há causado a la España el gobierno absoluto de los últimos reinados y de la necessidad del restablecimiento de las antiguas cortes por estamentos, o de una Carta Constitucional dada por el rey Fernando.

Além desse livro e destas Memórias secretas de Dona Carlota Joaquina, escreveu Presas um Juicio imparcial sobre las principales causas de la revolución de la América Española, y acerca de las poderosas razones que tiene la Metropoli para reconocer su absoluta independencia, um proyecto sobre el nuevo método de convocar lãs antiguas cortes de Espanã, conforme a las leyes fundamentales de la monarquia, y arreglado a las luces y circunstancias del dia; um panfleto político, Filosofía del trono y del altar del império y del sacerdocio, a que se seguiu outro: El triunfo de la verdad; e , por fim, uma Cronología de los sucesos más memorables ocurridos em todo el âmbito de la monarquia española, desde el año 1759 hasta 1836, este editado na Imprenta de M. Calero, em Madrid, em 1836, ao passo que todos os demais foram impressos em Bordeaux.

Imprimiu também, em 1815, antes de qualquer outro livro, uma Representación que eleva al Rey Nuestro Señor D.Fernando VII, por motivo das perseguições que sofreu em Granada, onde foi contador provincial, por parte de vários empregados por ser ligado à família reinante e, especialmente, à princesa do Brasil, de quem fora secretário. Em El triunfo de la verdad, publicou o ex-secretário de dona Carlota as cartas de Fernando VII a Napoleão Bonaparte, escritas em Valençay e nas quais o fraco soberano espanhol, num deplorável excesso de bajulação e covardia, felicitava o poderoso imperador dos franceses, usurpador de sua coroa e dos seus domínios, pelas brilhantes vitórias militares alcançadas... Esse livro se caracteriza, sobretudo, pela polémica com o abade de San Juan de la Pena, defensor do absolutismo e de Fernando VII». In José Presas, Memórias Secretas de Dona Carlota Joaquina, Edição do Senado Federal, volume 130, Brasília, 2013, ISBN 978-857-018-271-5.

Cortesia de ESenadoFederal/JDACT

JDACT, José Presas, Literatura, Carlota Joaquina, Brasil,

Memórias Secretas de Dona Carlota Joaquina. José Presas. «… como secretário de dona Carlota mereceu sempre lisonjas por parte desta, que apreciava e reconhecia nele as qualidades necessárias para o desempenho da sua difícil missão»

Cortesia de wikipedia e jdact

«As Memórias Secretas de dona Carlota Joaquina de José Presas constituem um dos livros mais pitorescos e mais ricamente informativos que se escreveram sobre o período regencial do Brasil. Essa obra, verdadeira raridade, que poucas bibliotecas actualmente possuem, nas suas duas únicas edições, uma tirada em Bordeaux, em 1830, na casa impressora Carlos Lawalle & Sobrinho, e outra em 1858, na Imprenta El Comércio, de Montevidéu, é citada unicamente por todos os historiadores que se ocuparam daquele importante período da nossa história ou da intriga desenvolvida pela princesa do Brasil para se apossar da coroa de rainha do Prata, em detrimento dos interesses de seu próprio irmão, o rei Fernando VII, da Espanha. Para alguns historiadores, como, por exemplo, Oliveira Lima, essa obra deve ser examinada sob prudente reserva. O depoimento de Presas é apaixonado e injusto, sem dúvida, em muitos passos. Isso, porém, não invalida a larga soma de informações que o livro possui sobre uma série de factos e episódios que interessam à história. Para outros, porém, o testemunho de Presas é digno de fé, merecedor de crédito. A julgar pela opinião da própria Carlota Joaquina, seu secretário deve merecer inteira fé, diz o sr. Tobias Monteiro, na sua nota à sua História do Império (Elaboração da Independência,  procurando dar forças a essa opinião com a transcrição da carta em que a princesa, recomendando-o a Fernando VII, dizia que era ele desprovido de toda a mentira e lisonja. Não pode, porém, prevalecer esse julgamento de dona Carlota sobre a atitude futura de José Presas. A princesa o teria, com toda a certeza, reformado totalmente... Preferimos, neste passo, a opinião de Oliveira Lima, que muito aproveitou, na sua obra D. João VI no Brasil, os subsídios de Presas. Podemos dizer, sem nenhum erro, que o retrato moral e físico da princesa, nessa obra se baseia quase que exclusivamente nos apontamentos das Memórias secretas de Dona Carlota Joaquina, também utilizados, em maior ou menor escala, em Duas grandes intrigas, de Alfredo Varela; A Corte de Portugal no Brasil, de Luís Norton; Carlota Joaquina, de César Silva; A Corte no Brasil, de A. C. d’Araújo Guimarães; Carlota Joaquina, de Assis Cintra; e D. João VI no Brasil, livro de Luís Edmundo que está sendo publicado fraccionadamente na imprensa.

Quem era esse singular personagem, que surgiu inesperadamente no Rio de Janeiro e se ligou, de tal forma, à história do período regencial no Brasil? São poucos os vestígios que deixou José Presas de si mesmo nos arquivos e bibliotecas. Os dicionários biográficos nada dizem sobre a sua existência, seu nascimento, sua origem, suas obras, sua morte. Omissão completa e inexplicável. Pouco conseguimos apurar sobre esse misterioso espanhol, hábil intrigante, arguto observador dos acontecimentos políticos, homem de muito engenho e habilidade, capaz de encher de sonhos vãos a cabeça da infanta Carlota, servi-la, enquanto possível, como secretário e homem de confiança e, em seguida, ainda obter, por sua real mercê, uma boa sinecura na Espanha, além da promessa de uma gorda pensão... O não pagamento dessa pensão foi a origem deste curioso livro, cheio de encarecimento dos serviços prestados e de ameaças de escândalo, caso não fosse o autor pago dos atrasados de dezassete anos de completo olvido...

Do pouco que se sabe ao seu respeito, consta o seu lugar de origem, a Catalunha. Meninote, ainda, José Presas fora para Buenos Aires, onde se educou sob os cuidados de seu tio e protetor, dom Francisco Sálvio Marull, que o internou, por sua conta, no Real Colégio de São Carlos. Terminado o curso de humanidades, Presas cursou a Universidade de Charcas, onde obteve o título de licenciado em leis. Estabeleceu-se, então, por conta própria, em Buenos Aires, com banca de advogado, fazendo-se chamar, de então por diante, dr. Presas. Quando a Inglaterra, tomando represálias contra a atitude política da Espanha em face de Napoleão, fez invadir Buenos Aires, Presas se declarou pelo partido inglês, convencido de que a dominação britânica era um facto consumado. Ao verificar-se a reconquista de Buenos Aires, com Santiago Liniers à frente, Presas foi preso como traidor, conseguindo, no entanto, fugir para o Rio de Janeiro. Nas Memórias secretas de Dona Carlota Joaquina o ardiloso catalão omite, por completo, esses interessantes detalhes...

A maneira pela qual chegou ao Rio e se colocou ao serviço da princesa, ele próprio no-la relata nesse trabalho. J. M. Rubio, na sua obra La infanta Carlota Joaquina y la politica de España en América, dá-nos algumas notas sobre as actividades de Presas: sua actuação como secretário de dona Carlota mereceu sempre lisonjas por parte desta, que apreciava e reconhecia nele as qualidades necessárias para o desempenho da sua difícil missão». In José Presas, Memórias Secretas de Dona Carlota Joaquina, Edição do Senado Federal, volume 130, Brasília, 2013, ISBN 978-857-018-271-5.

Cortesia de ESenadoFederal/JDACT

JDACT, José Presas, Literatura, Carlota Joaquina, Brasil, 

domingo, 25 de julho de 2021

Carlos Haag. A Mulher Que Amamos Odiar. «A traição teve um preço alto: Carlota foi colocada incomunicável, confinada no palácio como prisioneira, afastada dos amigos e dos pais e a sua correspondência…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O conhecimento que boa parte de nós tem sobre Carlota Joaquina (1775-1830) costuma ter densidade de um enredo histórico de escola de samba: é aquela espanhola bigoduda que odiava o Brasil e chacoalhou os sapatos ao sair daqui, para não levar nenhum grão de poeira do país. O filme de Carla Camurati tampouco ajudou muito: se ajudou o renascimento do cinema nacional, enterrou de vez a personalidade da soberana. O movimento liberal e as transformações sociais e políticas do século XIX exigiram reinvenções do passado como forma de legitimar um presente que se queria construir. Carlota Joaquina, rainha portuguesa que nunca perdeu a sua identidade espanhola, foi contra a vinda da família real ao Brasil, e declarou o seu regozijo com a volta a Portugal, que defendeu o absolutismo e se recusou a assinar a Constituição Liberal portuguesa, certamente não servia para subir ao pódio dos personagens dignos da memória nacional, explica a professora Francisca Nogueira Azevedo, autora do recém-lançado Carlota Joaquina na Corte do Brasil (Civilização Brasileira), um retrato surpreendente da rainha, que surge como uma política hábil, capaz de ir muito além do papel subalterno a que a corte lusitana constrangia as mulheres.

Não foi a intenção da pesquisadora fazer a reabilitação de sua figura histórica. Quis acompanhar a trajectória de vida de Carlota, preocupada com o universo feminino de seu tempo, com a produção historiográfica que delineou os estereótipos que marcam a sua memória e com sua actuação na esfera pública, onde, desde fins do século XVIII, ela assume um papel preponderante na política externa portuguesa, avalia a Francisca. Filha primogênita do rei Carlos IV, de Espanha, casou-se, com apenas 10 anos, com o futuro dom João VI. Embora um típico casamento diplomático que visava ao pacto entre as duas coroas ibéricas, nas cartas referia-se ao marido como um homem bom e honesto, culpando o grupo que os cercava pela desarmonia do casal, que, em 1806, chegou ao ápice com a chamada Conspiração do Alfeite. Vários documentos comprovam que dom João passou por um longo período de depressão, afastando-se completamente do poder. A corte portuguesa dividia-se, então, entre anglófilos e francófilos. O grupo de tendência francesa apoiou Carlota para que ela assumisse o poder, como regente no lugar do marido.

A traição teve um preço alto: Carlota foi colocada incomunicável, confinada no palácio como prisioneira, afastada dos amigos e dos pais e a sua correspondência passou a ser controlada pelo grupo político de dom João. É nesse espírito que se vê a bordo de um navio com destino à Colónia, onde, mal chegando, descobriu que os pais, monarcas da Espanha, estavam prisioneiros de Napoleão, com quem haviam estabelecido pouco antes uma aliança (condenada por Carlota com notável antecipação) que permitira a Bonaparte cruzar o território espanhol para invadir Portugal. O irmão de Carlota, Fernando VII, liderou um motim contra o pai e deu a Napoleão a chance de arrancar o trono dos espanhóis para colocar em seu lugar o irmão José Bonaparte. Assim, o problema maior de Carlota não era a Colónia, mas as condições em que veio para o Brasil, praticamente um exílio. As uas cartas revelam sua luta para, de início, não partir de Portugal e, depois, o seu desejo de voltar à Europa. Não encontrei nenhuma referência a um desprezo pelo Brasil, mas várias tentativas de sair da Colónia, diz Francisca.

Sem rei, os criollos dos vice-reinados espanhóis na América viram a chance de pôr fim à opressão dos Bourbon, movimento logo percebido por Carlota. No exílio colonial, ela decidiu lutar pela preservação do império de seu pai nos trópicos. Carlota queria a regência da Espanha e, a partir da sede da monarquia, em Buenos Aires, coordenar a resistência à invasão napoleónica e garantir para a dinastia dos Bourbon a coroa espanhola, ou seja, fazer o mesmo que dom João fez, diz a pesquisadora. Para tanto, reuniu o apoio de parte da nobreza espanhola e da portuguesa, descontente com a vinda da Corte ao Brasil, à ajuda intelectual do almirante-de-esquadra britânico no Rio, Sidney Smith, e enviou, em 1808, um manifesto à Espanha, no qual se coloca como a defensora dos direitos de sua família. Ganhou, com isso, na Colónia, pesados inimigos para seus planos de se tornar a regente exilada de Espanha. Entre eles, o chefe do gabinete de dom João, o conde de Linhares, que logo percebeu o perigo dessa acção para seus planos de estender o império português para as áreas ocupadas pela coroa espanhola. O conde tinha um aliado forte: lord Strangford, o embaixador inglês em Lisboa e desafecto de Smith. Strangford achava que o Brasil deveria ser um empório para as mercadorias inglesas, destinadas ao consumo de toda a América do Sul.

O embaixador espanhol no Rio também se irou com Carlota, pois tinha ordens expressas da junta que governava a Espanha de mantê-la longe das colónias de Prata. Afinal, as lembranças desagradáveis da última união entre as coroas ibéricas levava a considerar os infortúnios que viriam de uma nova soberania portuguesa sobre os hispânicos. Como se não bastasse, Carlota, apesar do que diziam seus desafectos, não era um homem… O sistema que ordenava a sociedade lusitana entre os séculos XVIII e XIX privava a mulher do convívio social, mantendo-a presa ao quotidiano doméstico. A atuação de Carlota na esfera pública, negociando acordos diplomáticos, articulando com parte da nobreza portuguesa para ascender ao poder a pleiteando a regência da Espanha, certamente transgredia o espaço determinado para as princesas consortes na corte bragantina, observa Francisca». In Carlos Haag, A Mulher Que Amamos Odiar, 2004, Edição 96, 2004, Wikipédia.

cortesia de wikipedia/jdact

JDACT, Carlos Haag, Conhecimento, Carlota Joaquina, 

sábado, 24 de julho de 2021

José Saramago. Memorial do Convento. «… foi enterrado um rapazito de quem não chegou a averiguar-se o nome e que levou acompanhamento completo, iam os pais, e os avós, e os tios, outros parentes, quando o infante Pedro chegar ao céu e souber destas diferenças, vai ter um grande desgosto»

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«(…) Mas Deus, ou quem lá no céu decide da duração das vidas, tem grandes escrúpulos de equilíbrio entre pobres e ricos, e, sendo preciso, até às famílias reais vai buscar contrapesos para pôr na balança, a prova é que, por compensação da morte desta criança, morrerá o infante Pedro quando chegar à mesma idade, e porque, querendo Deus, qualquer causa de morte serve, a que levará o herdeiro da coroa de Portugal será o tirarem-lhe a mama, só a infantes delicados isto aconteceria, que o filho de Inês Antónia, quando morreu, já comia pão e o mais que houvesse. Equilibrada a contagem, desinteressa-se Deus dos funerais, por isso em Mafra foi só um anjinho a enterrar, como a tantos outros sucede, mal se dá pelo acontecimento, mas em Lisboa não podia ser assim, foi outra pompa, saiu o infante da sua câmara, metido no caixãozito que os conselheiros de Estado levavam, acompanhado de toda a nobreza, e ia também el-rei, mais os irmãos, e se ia el-rei seria por dor de pai, mas principalmente por ser o falecido menino primogénito e herdeiro do trono, são as obrigações do protocolo, vieram descendo até ao pátio da capela, todos de chapéu na cabeça, e quando o caixão foi colocado nas andas que o haviam de transportar, descobriu-se el-rei e pai, e, tendo-se descoberto e coberto outra vez, voltou para o paço, são as desumanidades do protocolo. Lá seguiu o infante sozinho para S. Vicente de. Fora, com o seu luzido acompanhamento; sem pai nem mãe, à frente o cardeal, depois a cavalo os porteiros da maça, os oficiais da casa e títulos, a seguir iam os clérigos e moços da capela, menos os cónegos, que esses foram esperar o corpo a S. Vicente, todos de tochas acesas nas mãos, e logo a guarda em duas alas, adiante os seus tenentes, e agora sim, vem aí o caixão, coberto por uma riquíssima tela encarnada, que também cobre o coche de Estado, e atrás do caixão segue o duque de Cadaval velho, por ser mordomo-mor da rainha, cuja, se tem entranhas de mãe, estará chorando o seu filho, e, por ser dela estribeiro-mor, vai também o marquês das Minas, pelas lágrimas se lhe contará o amor, não pelos títulos que a servem, e os tais panos, mais os arreios e cobertas dos machos, ficarão para os frades de S. Vicente como é antigo costume, e pela serventia dos machos, que são dos ditos frades, foram pagos doze mil réis, é um aluguer como outro, não estranhemos, que machos não são os humanos, mesmo machos sendo, e também os alugam, e tudo isto junto faz pompa, circunstância e solenidade, pelas ruas por onde o funeral passa estão em alas os soldados, mais os frades de todas as ordens, sem excepção, além dos mendicantes como donos da casa que receberá o menino morto de desmame, privilégio que os frades muito merecem, como mereceram o convento que vai ser construído na vila de Mafra, onde há menos de um ano foi enterrado um rapazito de quem não chegou a averiguar-se o nome e que levou acompanhamento completo, iam os pais, e os avós, e os tios, outros parentes, quando o infante Pedro chegar ao céu e souber destas diferenças, vai ter um grande desgosto». In José Saramago, Memorial do Convento, Editorial Caminho, O Campo da Palavra, 27ª Edição, 1998, ISBN 972-21-0026-2.

 cortesia de Caminho/JDACT

Leituras, JDACT, José Saramago, O Saber, A Arte, Nobel da Literatura, 

sexta-feira, 23 de julho de 2021

José Saramago. Memorial do Convento. «Vem-te deitar comigo, que já comi o meu pão. Era ainda noite fechada, Baltasar acordou, puxou para si o corpo adormecido, morna frescura enigmática, ela murmurou o nome dele, ele disse o dela…»

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(…) O pai disse, Vendi a terra que tínhamos na Vela, não que a vendesse mal, treze mil e quinhentos réis, mas vai fazer-nos falta, Então porque a vendeu, Foi el-rei quem a quis, a minha e outras, E para que as quis el-rei, Vai mandar construir ali um convento de frades, não ouviste falar disso em Lisboa, Não senhor, não ouvi, Disse aí o vigário que foi por causa duma promessa que el-rei fez, se lhe nascesse um filho, quem agora pode ganhar bom dinheiro é o teu cunhado, vão precisar de pedreiros. Tinham comido feijões e couves, apartadas as mulheres e de pé, e João Francisco Sete-Sóis foi à salgadeira e tirou um bocado de toucinho, que dividiu em quatro tiras, pôs cada uma em sua fatia de pão e distribuiu em redor. Ficou a olhar alerta para Blimunda, mas ela recebeu a sua parte e começou a comer tranquilamente Não é judia, pensou o sogro. Marta Maria também olhara, inquieta, depois encarou o marido com severidade, como se estivesse a recriminá-lo pela astúcia. Blimunda acabou de comer e sorriu, não adivinhava João Francisco que ela teria comido o toucinho mesmo que fosse judia, é outra a verdade que tem de salvar. Baltasar disse, Tenho de procurar trabalho, e Blimunda também irá trabalhar, não podemos ficar às sopas, Para Blimunda não haja pressa, quero que ela fique aqui em casa por uns tempos, quero conhecer a minha filha nova, Está bem, mãe, mas eu preciso arranjar trabalho, Com essa mão a menos, que trabalhos farás, Tenho o gancho, pai, que é uma boa ajuda quando se está habituado, Será, mas cavar não podes, ceifar não podes, rachar lenha não podes, Posso tratar de animais, Sim, isso podes, E também posso ser carreiro para segurar a soga basta o gancho, a outra mão fará o resto, Filho, estou muito contente por teres voltado, E eu já devia ter voltado, pai. Nessa noite Baltasar sonhou que andava a lavrar com uma junta de bois todo o alto da Vela e que atrás dele ia Blimunda espetando no chão penas de aves, depois estas começaram a agitar-se como se fossem levantar voo, capaz a terra de ir com elas, surgiu o padre Bartolomeu Lourenço com o desenho na mão a apontar o erro que tinham cometido, vamos voltar ao princípio, e a terra apareceu outra vez por lavrar, estava Blimunda sentada e dizia-lhe, Vem-te deitar comigo, que já comi o meu pão. Era ainda noite fechada, Baltasar acordou, puxou para si o corpo adormecido, morna frescura enigmática, ela murmurou o nome dele, ele disse o dela, estavam deitados na cozinha, sobre duas mantas dobradas, e silenciosamente, para não acordarem os pais que dormiam na casa de fora, deram-se um ao outro.


«Ao outro dia vieram a festejar a chegada, e a conhecer a nova parenta, Inês Antónia, irmã de Baltasar, e o marido, que afinal se chama Álvaro Diogo. Trouxeram os filhos, um de quatro anos, outro de dois, só o mais velho vingará, porque ao outro hão-de levá-lo as bexigas antes de passados três meses». In José Saramago, Memorial do Convento, Editorial Caminho, O Campo da Palavra, 27ª Edição, 1998, ISBN 972-21-0026-2.

Cortesia de Caminho/JDACT

Leituras, JDACT, José Saramago, O Saber, A Arte, Nobel da Literatura,

Memorial do Convento. José Saramago. «Entra, acendia-se dentro de casa uma candeia, Marta Maria ainda soluçava de mansinho, Minha mãe, esta é a minha mulher, o nome dela é Blimunda de Jesus»

 

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«(…) Regressou o filho pródigo, trouxe mulher, e, se não vem de mãos vazias, é porque uma lhe ficou no campo de batalha e a outra segura a mão de Blimunda, se vem mais rico ou mais pobre não é coisa que se pergunte, pois todo o homem sabe o que tem, mas não sabe o que isso vale. Quando Baltasar empurrou a porta e apareceu à mãe, Marta Maria, que é o seu nome, abraçou-se ao filho, abraçou-o com uma força que parecia de homem e era só do coração. Estava Baltasar com o seu gancho posto, e era um dó de alma, uma aflição ver sobre o ombro da mulher um ferro torcido em vez da concha que os dedos fazem, acompanhando o contorno do que cingem, amparo que o será tanto mais, quanto mais se amparar. O pai não estava em casa, andava no trabalho do campo, a irmã de Baltasar, única, casou-se e já tem dois filhos, chama-se Álvaro Pedreiro o homem dela, puseram-lhe o ofício no nome, caso não raro, que razões teria havido, e em que tempos, para que a alguns tivesse sido dado, ainda que só de alcunha, o apelido de Sete-Sóis. Não passara Blimunda de entreportas, à espera da sua vez, e a velha não a via, mais baixa que o filho, além de estar a casa muito escura. Moveu-se Baltasar para deixar ver Blimunda, era o que ele pensava, mas Marta Maria viu primeiro o que ainda não tinha visto, talvez apenas pressentido no frio desconforto do ombro, o ferro em vez da mão, porém ainda distinguiu o vulto à porta, pobre mulher, dividida entre a dor que a mutilava naquele braço e a inquietação doutra presença, de mulher também, e então Blimunda afastou-se para que cada coisa acontecesse a seu tempo e cá de fora ouviu as lágrimas e as perguntas, Meu querido filho, como foi, quem te fez isto, o dia ia escurecendo, até que Baltasar veio à porta e a chamou, Entra, acendia-se dentro de casa uma candeia, Marta Maria ainda soluçava de mansinho, Minha mãe, esta é a minha mulher, o nome dela é Blimunda de Jesus.

Deveria isto bastar, dizer de alguém como se chama e esperar o resto da vida para saber quem é, se alguma vez o saberemos, pois ser não é ter sido, ter sido não é será, mas outro é o costume, quem foram os seus pais, onde nasceu, que idade tem e com isto se julga ficar a saber mais, e às vezes tudo. Com a última luz do dia chegara o pai de Baltasar, de seu nome João Francisco, filho de Manuel e Jacinta, aqui nascido em Mafra, sempre nela vivendo, nesta mesma casa à sombra da igreja de Santo André e do palácio dos viscondes, e, para ficar a saber-se mais alguma coisa, homem tão alto como o filho, agora um tanto curvado pela idade e também pelo peso do molho de lenha que metia para dentro de casa. Desajoujou-o Baltasar, e o velho encarou com ele, disse, Ah, homem, deu logo pela mutilação, mas dela não falou, apenas isto, Paciência, quem foi à guerra, depois olhou para Blimunda, compreendeu que era a mulher do filho, deu-lhe a mão a beijar, daí a pouco estavam a sogra e a nora a tratar da ceia enquanto Baltasar explicava como tinha sido aquilo da batalha, a mão cortada, os anos de ausência, mas calando que estivera quase dois anos em Lisboa sem dar notícias, quando as primeiras e únicas só aqui tinham sido recebidas há poucas semanas, por carta que o padre Bartolomeu Lourenço ainda escrevera, enfim a pedido de Sete-Sóis, dizendo que estava vivo e ia voltar, ai a dureza de coração dos filhos, que estão vivos e fazem dos seus silêncios morte. Ficava por dizer quando tinha casado com Blimunda, se durante o tempo de soldado, se depois dele, e que casamento era esse, qual a eira e qual a beira, mas os velhos ou não se lembravam de perguntar ou preferiam não saber, subitamente conscientes do estranho ar da rapariga, com aquele cabelo ruço injusta palavra que a cor dele é a do mel, e os olhos claros, verdes, cinzentos, azuis quando lhes dava de frente a luz, e de repente escuríssimos, castanhos de terra, água parda, negros se a sombra os cobria ou apenas aflorava, por isso ficaram todos calados, era a altura de começarem todos a falar, Não conheci o meu pai, acho que já tinha morrido quando nasci, minha mãe foi degredada para Angola por oito anos, só passaram dois, e não sei se está viva, nunca tive notícias, Eu e Blimunda vamos ficar a viver aqui em Mafra, a ver se arranjo uma casa, Não vale a pena procurares, esta dá para os quatro, já cá viveu mais gente, e porque é que a sua mãe foi degredada, Porque a denunciaram ao Santo Ofício (maldito), pai, Blimunda não é judia nem cristã-nova, isto do Santo Ofício (maldito), do cárcere e do degredo foi coisa de visões que a mãe dela dizia que tinha, e revelações, e que também ouvia vozes, Não há mulher nenhuma que não tenha visões e revelações, e que não ouça vozes, ouvimo-las o dia todo, para isso não é preciso ser feiticeira, Minha mãe não era feiticeira, nem eu o sou, Também tens visões, Só as que todas as mulheres têm, minha mãe, Ficas a ser minha filha, Sim, minha mãe, Juras então que não és judia nem és cristã-nova, Juro, meu pai, Sendo assim, bem-vinda sejas à casa dos Sete-Sóis, Ela já se chama Sete-Luas, Quem lhe pôs o nome, O padre que nos casou, Padre que tal lembrança tem, não costuma ser fruta que se dê nas sacristias, e com esta todos riram, uns sabendo mais, outros rixentos. Blimunda olhou para Baltasar e ambos viram no olhar do outro o mesmo pensamento, a passarola desfeita pelo chão, o padre Bartolomeu Lourenço a sair o portão da quinta, montado na mula, a caminho da Holanda. Ficava no ar a mentira de não ter Blimunda costela de cristã-nova, se mentira era, quando destes dois sabemos o pouco caso que fazem de tais casos, por salvar maiores verdades se mente às vezes». In José Saramago, Memorial do Convento, Editorial Caminho, O Campo da Palavra, 27ª Edição, 1998, ISBN 972-21-0026-2.

Cortesia de Caminho/JDACT

Leituras, JDACT, José Saramago, O Saber, A Arte, Nobel da Literatura,

quinta-feira, 22 de julho de 2021

A Bagagem do Viajante. José Saramago. «O empregado estende-me o pires com a conta hipocritamente dobrada. Porque será que se dobram as contas? Por que será que falsificamos tudo? Há?»

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As Personagens Erradas

«(…) Calhou ter escolhido um daqueles restaurantes de preços médios, à vista, mas que facilmente se tornam ruinosos se caímos no engodo do tachinho de azeitonas ou do vinho de rótulo. Pedi já nem sei quê, talvez uma dessas comidas que a memória da infância teima em insinuar, como um tropismo, mas que são, invariavelmente, uma decepção melancólica. Desforro-me no vinho gelado, que abranda e reconforta, luz interior que percorre o corpo e deixa rastos cintilantes nas veias. Veio enfim o café

É o melhor momento da refeição, aquele em que se ergue a cabeça para olhar o que nos rodeia. Ali, era péssimo o que havia para ver: uma decoração extravagante, carregada de luminárias coloridas, de azulejos e mosaicos com motivos de tapeçaria rica, tectos forrados de lâminas de cortiça, e, em alcandorados canteiros, plantas de plástico, eternas, sem cheiro e abomináveis.

Pedi a conta, pedi rapidez, e enquanto a máquina registadora me preparava o enigma das abreviaturas, cifras, percentagens e somas fora do lugar, olhei para a minha esquerda, donde viera um arrastar ostensivo de cadeiras. Sentavam-se três mulheres de meia-idade, cinquenta-sessenta, uma delas imensa, transbordante, as outras baixinhas e amarrotadas. Odiei-as logo, por instinto. E adivinhei quem eram, o que eram, como eram. Eram as personagens erradas, aquelas que vivem por interposta imitação, as alienadas por opção. Tinham ido ao restaurante só para mostrar que fumavam. Fazendo maiúsculas com os gestos, tiraram das malas os maços e os isqueiros (todas tinham isqueiro) e puxaram dos cigarros ao mesmo tempo, masculinamente, sem inibições. Acenderam, lançaram grossas baforadas de fumo, pediram cafés, bagaços, conversaram. Uma delas disse que fumava dois maços por dia, e a gorda, com o ar de quem já por lá passou e agora se recata, foi de opinião que dois maços eram de mais, ao que a outra respondeu que não podia evitar, não podia, eram os nervos, sentia que estava viciada, paciência. Haviam aprendido a fumar dolorosamente, em casa, às escondidas, com violentos ataques de tosse, arrancos mortais, vómitos, náuseas, dores de cabeça, mas o sacrifício iria levá-las à afirmação definitiva de si mesmas, ao pódio dos vencedores, à dignidade dos homens. Agora vivem os dias à espera da hora da grande prova pública, ali no restaurante, com cafés, bagaços e cigarros, falando alto para nada se perder do exemplo. O empregado estende-me o pires com a conta hipocritamente dobrada. Porque será que se dobram as contas? Por que será que falsificamos tudo? Há? Ah, as onomatopeias. Pago e levanto-me, deixo umas moedas adicionais, também hipócritas, passo ao lado das mulheres, três parcas maléficas, três vezes três vezes três, noves fora, coisa nenhuma. Por que dobram as contas? Porque dobram? Porque se dobram as pessoas? Por que se dobram? Porquê?

 Um Braço no Prato

Este outro restaurante, aonde vou uma vez por outra, deve ser um dos lugares de Lisboa mais capazes de proporcionar uma suculenta análise sociológica. Nunca lá tinha entrado sozinho, mas desta vez aconteceu, de modo que a atenção doentiamente aguda que dou às coisas, sem ter que ocupar-se demasiado no quadrado branco da mesa, pôde circular como um filtro ao redor da sala, colhendo os exemplares mais merecedores de ponderação». In José Saramago, A Bagagem do Viajante, 1973, Editorial Futura, Editora Caminho, 1998, ISBN 978-972-212-339-6.

Cortesia de EFutura/ECaminho/JDACT

Crónica, Ensaio, JDACT, José Saramago, O Saber, Nobel,  

A Bagagem do Viajante. José Saramago. «… uma, em que provavelmente ainda estarei vivo; outra, em que talvez já não esteja; a terceira, em que não estarei de certeza. Até ao dia que for, trabalhar sempre, mesmo para coisas que não verei»

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E Agora, José?

«(…) Afasto para o lado os meus próprios pesares e raivas diante deste quadro desolado de uma degradação, do gozo infinito que é para os homens esmagarem outros homens, afogá-los deliberadamente, aviltá-los, fazer deles objecto de troça, de irrisão, de chacota-matando sem matar, sob a asa da lei ou perante a sua indiferença. Tudo isto porque o pobre José Júnior é um José Júnior pobre. Tivesse ele bens avultados na terra, conta forte no banco, automóvel à porta, e todos os vícios lhe seriam perdoados. Mas assim, pobre, fraco e bêbedo, que grande fortuna para São Jorge da Beira. Nem todas as terras de Portugal se podem gabar de dispor de um alvo humano para darem livre expansão a ferocidades ocultas. Escrevo estas palavras a muitos quilómetros de distância, não sei quem é José Júnior, e teria dificuldade em encontrar no mapa São Jorge da Beira. Mas estes nomes apenas designam casos particulares de um fenómeno geral: o desprezo pelo próximo, quando não o ódio, tão constantes ali como aqui mesmo, em toda a parte, uma espécie de loucura epidémica que prefere as vítimas fáceis. Escrevo estas palavras num fim de tarde cor de madrugada com espumas no céu, tendo diante dos olhos uma nesga do Tejo, onde há barcos vagarosos que vão de margem a margem levando pessoas e recados. E tudo isto parece pacífico e harmonioso como os dois pombos que pousam na varanda e sussurram confidencialmente. Ah, esta vida preciosa que vai fugindo, tarde mansa que não será igual amanhã, que não serás, sobretudo, o que agora és.

Entretanto, José Júnior está no hospital, ou saiu já e arrasta a perna coxa pelas ruas frias de São Jorge da Beira. Há uma taberna, o vinho ardente e exterminador, o esquecimento de tudo no fundo da garrafa, como um diamante, a embriaguez vitoriosa enquanto dura. A vida vai voltar ao princípio. Será possível que a vida volte ao princípio? Será possível que os homens matem José Júnior? Será possível? Cheguei ao fim da crónica, fiz o meu dever. E agora, José?

 

As Personagens Erradas

Não me correra bem o dia. Suponho que não há a quem pedir responsabilidades, mas gostaria muito que alguém me dissesse porque negras sortes certas manhãs vêm tão secas, tão inimigas, tão armadas de navalhas, e assim continuam até à noite, pena de prisão perpétua. Metemo-nos na noite como quem se enrola num casulo e pomo-nos a levantar as muralhas que o dia derrubou, deixando-nos frágeis, quebradiços, mais aflitos do que uma tartaruga voltada de barriga ao ar. (Outras comparações: peixe largado em seco, cobra de espinha partida, porco à mercê da castração). Saí para jantar, embora o amargo da bílis na boca me diminuísse de antemão o prazer do apetite. Segui rente aos prédios, que é o meu modo de me tornar invisível, pisando os primeiros lixos da noite, enquanto, deliberadamente, matava à nascença as ideias que preferiam caminhos coerentes. De passagem deitava olhares rápidos para dentro das tabernas e pastelarias que ofereciam televisão aos fregueses: sempre o mesmo ambiente de aquário, a mesma luz lívida das lâmpadas fluorescentes, os mesmos pescoços torcidos em ângulos iguais, os mesmos rostos esborratados ou de expressão fixa. A mesma aflição. Em dias assim não me salvo nem sou boa companhia. Gosto de saber que os amigos estão longe, que os inimigos não me encontram, e que nem uns nem outros me virão reclamar as provas da amizade e do ódio que são a moeda do nosso comércio. E se alguma coisa desejo realmente nestas ocasiões, é encontrar as palavras mínimas, brevíssimas, as onomatopeias, se possível, que me expliquem o mundo desde o começo. Porque, quanto ao futuro, posso marcar três datas para me distrair: uma, em que provavelmente ainda estarei vivo; outra, em que talvez já não esteja; a terceira, em que não estarei de certeza. Até ao dia que for, trabalhar sempre, mesmo para coisas que não verei». In José Saramago, A Bagagem do Viajante, 1973, Editorial Futura, Editora Caminho, 1998, ISBN 978-972-212-339-6.

Cortesia de EFutura/ECaminho/JDACT

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quarta-feira, 21 de julho de 2021

O Legado dos Templários. Steve Berry. «Stephanie encolheu-se de medo. Bernardo estava a cinco metros do seu esconderijo. Eu sei que está aqui, disse ele num tom rouco e profundo. O seu salvador chegou…»

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 Abbaye des Fontaines. Pirinéus Franceses.

Roskilde

«(…) Stephanie ouviu Malone chamá-la. Ainda bem que ele era incapaz de não se meter nos assuntos alheios. Continuava no interior da Capela dos Reis Magos, escondida atrás de um túmulo de mármore negro. Escutou tiros e compreendeu que Malone estava a fazer o que podia, tendo em conta que se encontrava em inferioridade numérica. Queria ajudá-lo, mas não estava armada. O máximo que podia fazer era dizer-lhe que estava bem. Todavia, antes de conseguir responder, avistou Bernardo através de outro gradeamento, de arma em punho. Quando o homem entrou na capela, o medo bloqueou-lhe todos os músculos do corpo. Malone circundou o coro. As pessoas continuavam a fugir da igreja, em pânico e aos gritos. Por certo alguém já teria chamado a Polícia. Só precisava de controlar os seus atacantes até a ajuda chegar. Saltou a cerca do claustro e viu um dos homens que alvejara ajudar outro e ambos saírem pela porta das traseiras. Aquele que começara o ataque não estava à vista e isso preocupava-o.Abrandou o passo e elevou a arma.

Stephanie encolheu-se de medo. Bernardo estava a cinco metros do seu esconderijo. Eu sei que está aqui, disse ele num tom rouco e profundo. O seu salvador chegou e, por isso, não vou ter tempo de tratar de si. Já sabe o que eu quero. Voltaremos a ver-nos. Era uma ideia que a arrepiava. O seu marido também não soube colaborar quando a mesma oferta lhe foi feita há onze anos. Sentiu-se provocada por aquelas palavras. Sabia que o melhor era manter-se em silêncio, mas não conseguiu. O que sabe sobre o meu marido? O suficiente. Mas deixemos esse assunto por agora. E ouviu-o afastar-se. Malone viu o homem do casaco de cabedal abandonar uma das capelas laterais. Pare!, gritou. O outro virou-se e apontou a arma. Malone mergulhou em direcção a uns degraus que levavam a outra sala. Três balas lascaram a pedra por cima da sua cabeça. Levantou-se de um salto, preparado para disparar, mas o homem estava a trinta metros de distância, e corria em direcção ao pórtico traseiro.

Stephanie, chamou. Estou aqui, Cotton. Viu a sua antiga chefe emergir da capela. O rosto calmo exibia uma expressão fria. Lá fora começavam a ouvir-se sirenes. É melhor sairmos daqui, disse Malone. Vão chover perguntas e tenho a sensação que não vai querer responder a nenhuma delas. Acertou, disse ela. Ia sugerir que usassem uma das outras saídas quando as portas principais se escancararam e a Polícia invadiu o interior da igreja. Ele ainda segurava a arma, que não passou despercebida. Os polícias assumiram posições de defesa e apontaram armas. Ele e Stephanie detiveram-se. Hen til den landskab. Nu, foi a ordem gritada. Para o chão. Já. O que disseram eles?, perguntou Stephanie. Que estamos metidos num grande sarilho». In Steve Berry, O Legado dos Templários, 2006, Publicações dom Quixote, 2007, ISBN 978-972-203-808-9.

 Cortesia PdomQuixote/JDACT

 JDACT, Literatura, Steve Berry, Templários,

O Legado dos Templários. Steve Berry. «As pessoas perceberam o que se passava e começaram a fugir dos seus lugares, correndo para o exterior pela porta das traseiras. Malone aproveitou a confusão para espreitar por cima dos bancos»

 

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Abbaye des Fontaines. Pirinéus Franceses.

Roskilde

«(…) Ao avistar as torres espiraladas da catedral, tocou no ombro do condutor e disse-lhe: Vagn, não te importas de me deixar sair? Vou ficar mais um pouco. Tens a certeza? Sim, lembrei-me agora que ainda tenho umas coisas para fazer.

Stephanie passou ao lado da nave e mergulhou ainda mais no interior da catedral. Para lá dos enormes pilares que se elevavam à sua direita, o serviço religioso continuava. Os saltos baixos dos sapatos faziam barulho no chão de pedra, mas apenas ela os escutava, graças ao som imponente do órgão. O caminho à sua frente rodeava o altar-mor e uma série de meias paredes e estátuas dividiam o claustro do coro. Olhou para trás e viu o homem que dizia chamar-se Bernardo a caminhar vagarosamente. Contudo, dos outros dois homens não havia nem sinal. Apercebeu-se de que não tardaria a chegar à entrada principal, mas do lado contrário do edifício. Apercebia-se, pela primeira vez, dos riscos que os seus agentes corriam. Ela nunca trabalhara no terreno, tal não fazia parte das suas funções mas aquela também não era uma missão oficial. Tratava-se de um assunto pessoal e oficialmente encontrava-se de férias. Ninguém sabia que ela viajara para a Dinamarca, à excepção de Cotton Malone e, tendo em conta a sua situação, esse anonimato estava a tornar-se um problema. Contornou o claustro.

O seu perseguidor mantinha uma pequena e discreta distância, sabendo por certo que ela não tinha para onde fugir. Stephanie passou por um lanço de escadas de pedra que desciam para outra capela lateral e, quinze metros à sua frente, viu os dois homens aparecerem no pórtico traseiro, bloqueando-lhe a saída da igreja. Atrás de si, Bernardo continuava a avançar. À sua esquerda ficava outro sepulcro, identificado como Capela dos Reis Magos. Correu para o interior. Dois túmulos de mármore que lembravam templos romanos ocupavam o interior. Escondeu-se atrás do que ficava mais recuado e foi assolada por uma enorme sensação de pânico ao aperceber-se da sua situação. Estava encurralada.

Malone correu para a catedral e entrou pela porta principal. À direita avistou dois homens, robustos, cabelos curtos e roupas discretas, parecidos com os que lhe haviam encostado uma arma às costas. Decidiu não correr mais riscos e meteu a mão por dentro do casaco para tirar a Beretta automática, a arma que todos os agentes do Magellan Billet usavam. Conseguira autorização para ficar com a arma depois da reforma e trouxera-a às escondidas para a Dinamarca, onde era ilegal possuir uma arma de fogo. Agarrou a coronha da pistola, colocou o dedo no gatilho e escondeu-a ao lado da coxa. Há mais de um ano que não empunhava uma arma. Era uma sensação que pensava pertencer ao passado e da qual não tinha muitas saudades. Porém, o voo de um homem para a morte chamara-lhe a atenção e viera preparado. Era assim que pensava um bom agente e esse tipo de atitude já lhe salvara a vida muitas vezes. Os dois homens estavam de costas para ele, com as armas à cintura e as mãos vazias. A música do órgão abafou a sua chegada. Malone aproximou-se e disse: que noite atarefada. Voltaram-se ambos e ele mostrou-lhes a arma. Vamos ser civilizados. Por cima do ombro de um dos homens avistou um terceiro, a cerca de trinta metros, que se dirigia calmamente na sua direcção. Quando o viu deslizar a mão para o interior do casaco de cabedal não ficou à espera e saltou para a esquerda, abrigando-se numa fila de bancos vazia. O disparo ecoou mais alto do que a música e a bala acertou nos bancos à sua frente. Os outros dois homens sacaram também das armas. Deitado, Malone disparou duas vezes. Os tiros ecoaram pela catedral, acompanhando a música. Um dos homens foi atingido e o outro fugiu. Malone ajoelhou-se e ouviu mais três disparos. Baixou-se e as balas voltaram a alojar-se nos bancos de madeira. Respondeu com mais dois tiros disparados na direcção do atirador solitário. O órgão parou de tocar.

As pessoas perceberam o que se passava e começaram a fugir dos seus lugares, correndo para o exterior pela porta das traseiras. Malone aproveitou a confusão para espreitar por cima dos bancos. Viu o homem do casaco de cabedal junto à entrada de uma das capelas laterais. Stephanie, chamou por cima do rebuliço. Não houve resposta. Stephanie, sou eu, Cotton Malone. Diga-me se está bem. Não obteve qualquer resposta. Rastejou até encontrar o transepto e depois levantou-se. O caminho à sua frente rodeava a igreja e conduzia ao outro lado. Os pilares que ladeavam o trajecto tornavam impossível um tiro certeiro e mais à frente o coro iria escondê-lo por completo. Assim, começou a correr em frente». In Steve Berry, O Legado dos Templários, 2006, Publicações dom Quixote, 2007, ISBN 978-972-203-808-9.

Cortesia PdomQuixote/JDACT

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Steve Berry. O Legado dos Templários. «Apanhara os seus perseguidores desprevenidos, o que só demonstrava que não passavam de amadores. E até era capaz de apostar que também não falavam dinamarquês»

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Abbaye des Fontaines. Pirinéus Franceses.

Roskilde

«(…) O homem parecia entender o desafio que ela constantemente lhe colocava. A senhora trabalha para o Departamento de Justiça dos Estados Unidos e está à frente de uma unidade conhecida como Magellan Billet, composta por doze advogados escolhidos por si, e que apenas a si prestam contas, e que tratam de assuntos, digamos, sensíveis. Cotton Malone trabalhou alguns anos para a senhora. Todavia, reformou-se o ano passado e agora é dono de uma livraria em Copenhaga. Se não fosse pelas infelizes acções do meu acólito, teria desfrutado de um simpático almoço com o sr. Malone e depois de se despedir dele ter-se-ia dirigido para aqui, para assistir ao leilão, o verdadeiro motivo que a trouxe à Dinamarca. Já chegava daquele jogo de faz-de-conta. Trabalha para quem? Para mim próprio. Duvido muito. Porquê? Anos de prática. O homem voltou a sorrir, o que a irritava. O diário, se faz favor. Não o tenho. Depois das atribulações de hoje, achei que o melhor seria guardá-lo num lugar seguro. É Peter Hansen quem o tem? Stephanie não respondeu. Pois, também não estava à espera que respondesse. A nossa conversa chegou ao fim. Virou-se para o gradeamento aberto e atravessou-o apressada. À sua direita, na direcção da porta principal, avistou dois homens com cabelo curto. Não eram os mesmos que a haviam abordado na casa leiloeira, mas soube de imediato de quem recebiam ordens. Voltou a olhar para o homem cujo nome não era Bernardo. Tal como aconteceu ao meu acólito na Torre Redonda, não tem por onde fugir. Vá-se lixar! Correu para a esquerda e desapareceu no interior da catedral.

Malone avaliou a situação. Encontrava-se numa praça pública, adjacente a uma rua movimentada. As pessoas entravam e saíam da casa leiloeira, enquanto outras esperavam que lhes trouxessem os carros do parque de estacionamento próximo. Era óbvio que a sua vigilância a Stephanie não passara despercebida e amaldiçoou-se por não ter sido mais cuidadoso. Todavia, decidiu que, ao contrário da ameaça proferida, os dois homens não arriscariam serem vistos. O seu objectivo era detê-lo e não eliminá-lo. Talvez a sua missão fosse impedi-lo de chegar à catedral, para que o que quer que estivesse a acontecer no seu interior se pudesse desenrolar sem a sua interferência. Isso significava que precisava de agir. Observou enquanto mais pessoas abandonavam o leilão. Uma dessas pessoas, um dinamarquês alto e magro, tinha uma livraria na Ströget, perto da loja de Peter Hansen. O empregado trouxe-lhe o automóvel. Vagn, chamou Malone, e afastou-se da pistola encostada às suas costas. O amigo voltou-se. Cotton, como estás?, cumprimentou o homem em dinamarquês. Malone avançou calmamente em direcção ao carro e olhou para trás, vendo o homem de cabelo curto esconder a arma por baixo do casaco. Apanhara os seus perseguidores desprevenidos, o que só demonstrava que não passavam de amadores. E até era capaz de apostar que também não falavam dinamarquês. Podias dar-me boleia até Copenhaga?, pediu. Claro. Ainda temos lugar. Entra. Abriu a porta de trás. Obrigado. A minha boleia ainda vai ficar mais um pouco e eu tenho de regressar. Assim que fechou a porta, acenou pela janela e viu a expressão confusa dos dois homens quando o automóvel passou. Não viste nada de interesse no leilão?, perguntou Vagn. Não, nada, respondeu Malone, desviando a atenção para o condutor. Nós também não, por isso decidimos vir embora e jantar mais cedo. Malone olhou para a mulher sentada ao seu lado. No banco da frente, seguia outro homem. Como não conhecia nem um nem outro, apresentou-se. Lentamente, o automóvel foi-se afastando das ruas estreitas de Roskilde em direcção à autoestrada de Copenhaga». In Steve Berry, O Legado dos Templários, 2006, Publicações dom Quixote, 2007, ISBN 978-972-203-808-9.

Cortesia PdomQuixote/JDACT

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terça-feira, 20 de julho de 2021

O Legado dos Templários. Steve Berry. «No topo da Torre Redonda, em Copenhaga, em torno do rebordo existe outro gradeamento. Também foi Fincke quem o desenhou»

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Abbaye des Fontaines. Pirinéus Franceses.

Roskilde

«(…) Não, não fui eu. Mas foi por essa razão que pedi para falar consigo. Tinha um representante a licitar por mim, porém, tal como lhe deve ter acontecido, fiquei chocado com a oferta final. Precisando de pensar um pouco, Stephanie deambulou pelo sepulcro real. Quadros gigantescos, emoldurados por elaborados trompe l'oeil, cobriam as magníficas paredes de mármore. Cinco caixões decorados, sob um enorme tecto em arco, ocupavam o centro. O homem apontou para os caixões. Cristiano IV é considerado um dos mais importantes monarcas da Dinamarca. Tal como Henrique VIII na Inglaterra, Francisco II em França e Pedro, o Grande, na Rússia, também ele mudou este país. A ssuas marcas estão por todo o lado. Ela não estava interessada em lições de história. O que deseja de mim? Deixe-me mostrar-lhe uma coisa. O homem caminhou até ao gradeamento na entrada da capela e ela seguiu-o. Conta a lenda que foi o próprio diabo quem desenhou este entrançado. O trabalho é de uma perfeição extraordinária. Inclui os monogramas do rei e da rainha e uma variedade imensa de criaturas fabulosas. No entanto, repare no fundo. Stephanie fez o que ele lhe pediu e viu uma frase gravada no metal trabalhado. Diz, Gaspar Fincke bin ich genannt, dieser Arbeit binn ich bekannt. O meu nome é Gaspar Fincke e devo a minha fama a este trabalho, traduziu o homem. Ela fitou-o.

E então?

No topo da Torre Redonda, em Copenhaga, em torno do rebordo existe outro gradeamento. Também foi Fincke quem o desenhou. Fê-lo baixo para que se pudessem ver os telhados da cidade, mas também facilita os saltos. Stephanie entendeu a mensagem. O homem que saltou hoje lá de cima trabalhava para si? Ele assentiu. Morreu porquê? Os soldados de Cristo travam as batalhas do seu Senhor em segurança, sem temor do pecado ao matar o inimigo, nem temendo o perigo da própria morte. Ele suicidou-se. Causar a morte, ou morrer em nome de Cristo, nada tem de criminoso, sendo antes merecedor de gloriosa recompensa. Não é capaz sequer de responder a uma pergunta. O homem sorriu. Estava apenas a citar um grande teólogo, que escreveu estas palavras há oitocentos anos. Trata-se de São Bernardo de Claraval. Quem é o senhor? Pode chamar-me Bernardo. O que deseja? Duas coisas. Uma delas é o livro que ambos perdemos no leilão. Todavia, reconheço que esse não me pode dar. A segunda é algo que está em seu poder e que lhe foi enviado há um mês. A expressão de Stephanie manteve-se inalterada. A quele era de facto um homem que estava a par dos seus assuntos. E que coisa é essa? Ah! Um teste. Uma forma de avaliar a minha credibilidade. Muito bem. O pacote que recebeu continha um diário que pertenceu ao seu marido, um caderno de apontamentos que ele guardou até ao dia da sua morte. Passei no teste? Ela não respondeu. Quero esse diário. E o que o torna assim tão importante. Não eram poucas as pessoas que achavam o seu marido um excêntrico, um homem muito estranho. A comunidade académica fazia pouco dele, assim como a imprensa. Para mim ele era um homem brilhante, capaz de ver coisas que passavam despercebidas à maioria das pessoas. Veja só o que ele conseguiu. Deu origem a todo o actual fascínio por Rennes-le-Château. O seu livro foi o primeiro a alertar o mundo para os mistérios locais. Vendeu cinco milhões de cópias em todo o mundo, o que é um grande feito. O meu marido vendeu muitos livros. Catorze, se não estou enganado, mas nenhum tinha a magnitude do primeiro, O Tesouro de Rennes-le-Château. Graças a ele, existem agora centenas de volumes publicados sobre o assunto. E o que o leva a pensar que tenho o diário do meu marido? Ambos sabemos que neste momento ele seria meu, não fosse pela interferência de um homem chamado Cotton Malone. Creio que em tempos trabalhou para si. A fazer o quê?» In Steve Berry, O Legado dos Templários, 2006, Publicações dom Quixote, 2007, ISBN 978-972-203-808-9.

Cortesia PdomQuixote/JDACT

JDACT, Literatura, Steve Berry, Templários

Aposta Indecente. Matilda Wright. «Que ideia, Martine! Só de ouvi-la falar em casamento já me sinto enfadado... Louis forçou um sorriso. Pense no que lhe digo»

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«(…) Muito provavelmente o velho tabelião era cliente de casas mais modestas ou podia tê-la conhecido numa casa de jogo, onde muitas dessas aventureiras que trabalhavam sem a protecção de uma madame e de um tecto fixo, iam todas as noites caçar os seus parceiros. Era isso, não havia dúvida e logo ali tomou uma decisão que, definitivamente, lhe resolveria vários problemas. Sozinho esta noite, meu belo marquês?,  perguntou Martine que, entretanto, se aproximou sem que Louis percebesse. A Cléa está ocupada... Há outras moças disponíveis. Estou sem paciência para escolher, Martine. Talvez esteja ficando velho ou talvez este não seja um bom dia. Talvez esteja ficando apaixonado, meu senhor! Ouvi dizer que uma tal madame Bosquet o traz muito ocupado. É o que se diz?, Louis sorriu e Martine notou que havia tristeza nos seus belíssimos olhos azuis. Louis, Louis..., conheço-o há quantos anos? Vinte? Era um rapazinho quando o seu pai o trouxe aqui pela primeira vez. Estimo-o como estimei o seu pai e conheço-o melhor do que muitos dos seus amigos. Procure uma jovem no seu meio que lhe dê filhos e uma vida familiar agradável, que lhe permita perpetuar os seus títulos e a sua fortuna... Que ideia, Martine! Só de ouvi-la falar em casamento já me sinto enfadado... Louis forçou um sorriso. Pense no que lhe digo. É agradável a sua vida. Tem dinheiro, posição, amigos e as mais belas mulheres de Paris aos seus pés, mas nenhuma à sua espera quando chega em casa. Os anos passam, meu amigo, e esse vazio que se lê nos olhos se tornará mais e mais profundo. Acredite em mim, sei do que falo. O embaixador da Bélgica entrou nesse momento e Martine despediu-se de Louis para recebê-lo. Uns minutos depois, sem esperar pelos amigos que, entretanto, tinham subido para os quartos com as suas amantes, o marquês de Villeclaire pediu a um criado que chamasse o seu cocheiro e saiu. Quando chegou em casa avisou Maurice, que como sempre ainda o esperava, que dentro de dois dias partiria para o Loire.

Acompanho-o, senhor? Sim, por favor, Maurice. Alguma providência que quer que eu tome? Terá convidados? Nada de especial, o costume. Não nos demoraremos mais do que uma semana. Duas, no máximo. Louis deitou-se pensando no corpo esguio e suave de Catherine Duvernois. No seu pescoço de cisne, nos seus cabelos escuros. Teve vontade de tê-la ali, na sua cama, de lhe percorrer o corpo com os dedos, descobrindo as formas que se escondiam debaixo daqueles vestidos gastos e desajeitados. Imaginou como seriam duros os seus seios e, naqueles segundos antes de adormecer, de olhos fechados, na escuridão do seu quarto, fantasiou que lhe prendia com um braço a cintura fina, que descia a mão até ao centro do seu ser e a excitava delicadamente, fazendo-a gemer e abrir as pernas, pronta para o receber. O sexo de Louis ganhava vida própria e abriu-lhe a porta para uma noite de sonhos deliciosos em que Catherine, nua, se sentava sobre ele e o conduzia num acto de amor selvagem e louco, elevando e baixando o tronco para que o p… de Louis entrasse e saísse d…, cada vez mais depressa, enquanto ele lhe agarrava as ná… com uma das mãos e, com a outra, lhe acariciava os se…, soltos, afastava os longos cabelos da face e percorria a boca com um dedo, introduzindo-o depois na boca, explorando-a, como se a pene… duplamente. Acordou confuso, recordando o sonho em todos os pormenores e achando até estranho não a encontrar ali deitada, abraçada a ele… Que loucura, pensou Villeclaire ao acordar. E voltou a sentir que o sexo lhe endu… e que desejava ardentemente Catherine.

Catherine Duvernois arrumou os seus parcos haveres mesmo antes de saber qual seria o seu destino. Fosse o que fosse que o marquês de Villeclaire decidisse sobre ela, sabia que estava vivendo os últimos dias naquela casa. Não teria saudades desses cinco anos em que viveu encerrada naquele casarão frio e decrépito, tendo de suportar os maus modos daquele velho desagradável de quem agora era viúva, a falta de dinheiro, a má comida, a solidão, a impertinência dos criados que a tratavam como uma igual, o desprezo com que as outras mulheres a olhavam nas raríssimas vezes em que saía, sem nunca ir muito longe, para comprar botões ou linhas para remendar a sua roupa velhíssima, os olhares de piedade dos caixeiros quando entrava numa loja, deixando-a a um canto, para ser atendida mesmo depois de outras senhoras que chegavam a seguir dela. Estava cansada daquela vida. Aos vinte e dois anos sentia-se, muitas vezes, uma velha. Desejara tantas vezes a morte naqueles dias duros de Inverno em que as correntes de ar daquela casa a prostravam, cheia de febre, sem ninguém que tivesse a caridade de lhe levar um chá». In Matilda Wright, Aposta Indecente, 2011, Editor Livros d’Hoje, Publicações dom Quixote, 2011, ISBN 978-972-204-776-0.

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