domingo, 21 de outubro de 2018

Correspondência. António J Saraiva e Luísa Dacosta. «O que haveria para lá do Marão? Segundo o primo Jorge, que já tinha ido ao Porto, pouca coisa: mais casas e mais ruas. Só?! Estranhara»

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«(…) Outra tarefa fundamental gira à volta da Inquisição (maldita) e seus processos ante-kafkianos, iluminando o caso de Manuel Fernandes de Vila Real, quando pede colaboração activa a Luísa Dacosta (um frete, diz ele), em termos de bibliografia inexistente em Paris. Ela providencia, ainda, jornais, revistas e tabaco Português Suave, ou envia fotografias da família. Entre mil desculpas, recebe um lembrete, que estendemos ao leitor: tome nota, a minha Amiga é a pessoa a quem mais escrevo. Donde, a importância desta correspondência para melhor conhecer Saraiva e parte do nosso mundo até 20 de Dezembro de 1965.
A pouco e pouco, vamos percebendo que, entre Estética e Política, sobressai uma Moral, demonstrado que fica o desnivelamento entre o progresso técnico e o progresso moral. Não é só o engodo das civilizações orientais; Saraiva tem à mão prenúncios de Maio de 68, a que assiste, retomando em Maio e a Crise da Civilização Burguesa (1970) o debate aqui esboçado sobre a Burguesia e o Progresso. Em ambos os textos, conclui que, a existir transformação do mundo, será obra de uma mudança espiritual. As 60 missivas (incluindo a que vai em anexo) foram cedidas por Luísa Dacosta, passando de Leonor Curado Neves ao actual editor literário, que as transcreveu e anotou. Os sublinhados surgem em itálico. Procedemos a desdobramentos, completámos palavras, houve rara actualização ortográfíca (Ant. - António; c. - cada; gr. - grande; Hist. - História; mãi - mãe; m/ - minha; mt - muito; p. - para; pq - porque; quási - quase; s/ - sua; tb - também; etc.). Conclui-se de algumas ausências (postais, sobretudo), perdidas ou interceptadas. Também perdida ficou alguma, ou ficaram algumas, de 1966, talvez nas mãos daquela nossa malograda Amiga, porquanto refere uma carta enviada a Luísa Dacosta a 8 de Dezembro de 1966, em António José Saraiva e Óscar Lopes: Correspondência. O tríptico epistolar fechará com a correspondência de António José Saraiva dirigida a Teresa Rita Lopes.

Luísa Dacosta, nome civil, Maria Luísa Saraiva Pinto dos Santos, nasceu em Vila Real (16 de Fevereiro de 1927), cujo tempo, longe, evocou em 2004:

Houve um tempo, em que uma montanha azul, de um azul amassado com violetas, fechava o horizonte do quintal, mesmo quando empoleirada na japoneira, seu mastro de aventuras, sonhava entre o perfume das rosas e dos lilases. Longe, na infância... Na minha primeira infância o mundo não existia, fora dos mapas ou do globo terrestre. Não havia telefone, nem rádio, nem televisão. Só os grandes liam o jornal e lhe recortavam o Pim Pam Pum, às quintas-feiras. Assim, às vezes no meio do sonho ou das leituras, que a prendiam, quando estirada no ramo da japoneira, pensava no que a esperaria para lá do Marão, quando saísse do confinamento, aconchegante, da cidadezinha, onde todos se conheciam e ninguém era anónimo, nem mesmo os pobres. [...] O que haveria para lá do Marão? Segundo o primo Jorge, que já tinha ido ao Porto, pouca coisa: mais casas e mais ruas. Só?! Estranhara. Não podia acreditar. O primo Jorge, companheiro de brincadeiras, devia estar enganado e olhara apressadamente. Mesmo no Porto, sabia pelo pai, havia ópera e concertos. Na altura o seu compositor preferido era Grieg, porque um primo tocava ao piano a canção de Solveig e o que a tentava eram outros horizontes mais vastos e uma liberdade, que poria fim àquela estreiteza, ritual e repetitiva, de todos os anos. Natal, Janeiras, Reis, matança do porco, S. Brás, onde as namoradas compravam ganchas, que imitavam o báculo do santo, para o seu rapaz. Seguia-se o Carnaval e a festa do colégio. Depois da mi-carême, vinha a Páscoa, o folar e o enterro, anual, do Senhor. O santo António, dia da cidade , trazia a feira anual e maior, com barracas, circo e fogo-de-artifício farto e, logo depois, a dos pucarinhos de Bisalhães, pelo S. Pedro. Com o Verão havia música no coreto do Jardim da Carreira e faziam-se preparativos para as férias na Póvoa de Varzim. […]

In António José Saraiva e Luísa Dacosta, Correspondência, edição de Ernesto Rodrigues, Gradiva, Lisboa, 2011, ISBN 978-989-616-455-3.

Cortesia de Gradiva/JDACT

Correspondência. António J Saraiva e Luísa Dacosta. «Basta pensar que é possível inventar palavras que não correspondem a realidades da existência, e que, por outro lado, é possível utilizar as regras operatórias»

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«(…) Alguns desses nomes fortes são burocratas da literatura e nomeia-os, quando a ortodoxia enrijece, em 1962. Afasta-se de vez, no seu neo-realismo teórico que não resistiu ao relatório Krutschov (1956) e ao silêncio cúmplice do Partido, em 1963. Aproveita para se retratar, moral e intelectualmente:

Na minha ordem de valores actual, ponho acima de tudo a pureza e a espontaneidade e considero como o mal maior o jesuitismo e o carreirismo. A pior corrupção é a corrupção do carácter individual. [...] Na mentira e na cumplicidade com a mentira nada se pode construir. Minha querida Amiga, a realidade é coisa imensamente complicada e inesperada. A obrigação dos intelectuais criadores é pensá-la toda, e o pensamento só é válido quando é de raiz e quando tem a coragem de pôr tudo em causa. Uma coisa é o pensamento, outra coisa é a ideologia. Os pensadores autênticos ficaram sós e sós ficarão. Mas a afirmação deles nem por isso é menos válida. Se não têm repercussão no imediato, têm-na nos períodos largos da história.

No esforço de separação das águas, a ironia é traço recorrente, igualmente aplicada aos feitos lusíadas e internacionais, que a comunicação de massas veicula (Le Monde, sobretudo). Espectador atento aos quatro cantos do mundo, resume o novidoso mês de Abril de 1961 em seus altos de Guerra Fria e na conquista do espaço, repercute o golpe do exército francês na Argélia, diverte-se com a tentativa de derrubar Salazar, cuja coerência não evitará a perda das colónias. Ao regular desânimo e solidão do quarto vazio soma-se a dispersão de quem anda sempre a correr:

Mas tenho um problema grave de dispersão. Acabo por não fazer nada com profundidade. Realismo, Marxismo, Jesuítas, Inquisição (maldita), Escravatura, Alienação, como é que tudo isto pode caber num saco? Sou, ao mesmo tempo, um jornalista, um ensaísta e um amador de investigação, e, ainda por cima, gosto de viver à flor da pele, tomar banhos de sol e nadar (ou fingir). E, para complicar mais as coisas, gosto de dormir 8 ou 9 horas por dia. (22-VI-1964)

O atraso nas respostas fica também a dever-se à invencível falta de tempo, que o deixa infeliz. Sobrepaira a vontade de uma grande carta, dando-lhe novidades importantes; infelizmente, é sujeito com vários fios de vida entre as mãos, mas cada um deles é independente dos outros e não resolve os problemas dos outros. Vivo em fatias sobrepostas e impermeáveis entre si.
Assim, a instabilidade de emprego no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), com renovação anual do contrato, o sonho de ir para o Brasil e preocupações familiares ou do coração não explicam tudo. Encontros e desencontros com oposicionistas mais ou menos grados na emigração acrescentam à amargura e dissipação; no intervalo, certos retratos, inclusive de intelectuais sorbonnards e manifestantes de rua, podem surpreender-nos.
Quanto ao labor científico, há um problema obsidiante: [...] qual é o conteúdo real dessas coisas que as pessoas têm na cabeça e a que chamam ideias? Isto exprime-se, também, como a relação entre ideologia e prática, sujeita a regras que constituem o que designa por 2.º sistema de sinalização, e, tomando-o como ensinamento para o seu presente, aplica ao empreendimento maior que o leva de Paris a conferências na província: António Vieira, a escravatura negra e o império teocrático luso-jesuítico. Seria este o verdadeiro 5.º império, no qual testaria a seguinte hipótese:

Basta pensar que é possível inventar palavras que não correspondem a realidades da existência, e que, por outro lado, é possível utilizar as regras operatórias de forma a construir combinações inteiramente irreais. Ora, como sinais que são, as palavras são condicionantes, condicionam o nosso comportamento. A partir desta ideia, queria eu construir uma teoria do estilo escolástico-barroco (p. ex., certos sermões do padre António Vieira, e, sobretudo, os seus escritos messianistas). Esse estilo concretizar-se-ia pela sua pretensão de se substituir à realidade e de pretender criar um condicionamento que afaste da realidade as pessoas condicionadas.

In António José Saraiva e Luísa Dacosta, Correspondência, edição de Ernesto Rodrigues, Gradiva, Lisboa, 2011, ISBN 978-989-616-455-3.

Cortesia de Gradiva/JDACT

A Arqueologia do Saber. Michel Foucault. «Na medida em que se trata de definir um método de análise histórica que esteja liberto do tema antropológico, vê-se que a teoria que vai ser esboçada agora se encontra, com as pesquisas já feitas…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) É a mesma função conservadora que se encontra em actividade no tema das totalidades culturais, pelo qual se criticou e depois distorceu Marx, no tema de uma busca do originário, que se opôs a Nietzsche antes de se querer transpô-lo, e no tema de uma história viva, contínua e aberta. Denunciaremos, então, a história assassinada, cada vez que numa análise histórica, e sobretudo se se trata do pensamento, das ideias ou dos conhecimentos, virmos serem utilizadas, de maneira demasiado manifesta, as categorias da descontinuidade e da diferença, as noções de limiar, de ruptura e de transformação, a descrição das séries e dos limites. Denunciaremos um atentado contra os direitos imprescritíveis da história e contra o fundamento de toda a historicidade possível. Mas não devemos nos enganar: o que tanto se lamenta não é o desaparecimento da história, e sim a supressão desta forma de história que era em segredo, mas totalmente referida à actividade sintética do sujeito; o que se lamenta é o devir que deveria fornecer à soberania da consciência um abrigo mais seguro, menos exposto que os mitos, os sistemas de parentesco, as línguas, a sexualidade ou o desejo; o que se lamenta é a possibilidade de reanimar pelo projecto o trabalho do sentido ou o movimento da totalização, o jogo das determinações materiais, das regras de prática, dos sistemas inconscientes, das relações rigorosas mas não reflectidas, das correlações que escapam a qualquer experiência vivida; o que se lamenta é o uso ideológico da história, pelo qual se tenta restituir ao homem tudo o que, há mais de um século, continua a lhe escapar. Acumulamos todos os tesouros de outrora na velha cidadela desta história; acreditamos que ela fosse sólida; sacralizamo-la; fizemos dela o lugar último do pensamento antropológico; acreditamos poder aí capturar até mesmo aqueles que se tinham encarniçado contra ela; acreditamos poder torná-los guardiões vigilantes. Mas os historiadores desertaram há muito tempo dessa velha fortaleza e partiram para trabalhar noutro campo; percebe-se mesmo que Marx ou Nietzsche não asseguram a salvaguarda que se lhes tinha confiado. Não se deve mais contar com eles para proteger os privilégios, nem para afirmar, uma vez mais, e, entretanto, só Deus sabe se se teria necessidade disso na aflição de hoje, que a história, pelo menos ela, é viva e contínua; que ela é, para o tema em questão, o lugar do repouso, da certeza, da reconciliação, do sono tranquilizado.
Neste ponto se determina uma empresa cujo perfil foi traçado por Histoire de la folie, Naissance de la clinique, Les mots et les choses, muito imperfeitamente. Trata-se de uma empresa pela qual se tenta medir as mutações que se operam, em geral, no domínio da história; empresa onde são postos em questão os métodos, os limites, os temas próprios da história das ideias; empresa pela qual se tenta desfazer as últimas sujeições antropológicas; empresa que quer, em troca, mostrar como essas sujeições se puderam formar. Estas tarefas foram esboçadas numa certa desordem, e sem que a sua articulação geral fosse claramente definida. Era tempo de lhes dar coerência, ou, pelo menos, de colocá-las em prática.
Não se trata de transferir para o domínio da história, e singularmente da história dos conhecimentos, um método estruturalista que foi testado noutros campos de análise. Trata-se de revelar os princípios e as consequências de uma transformação autóctone que está em vias de se realizar no domínio do saber histórico. É bem possível que essa transformação, os problemas que ela coloca, os instrumentos que utiliza, os conceitos que aí se definem, os resultados que ela obtém, não sejam, até certo ponto, estranhos ao que se chama análise estrutural. Mas não é essa análise que aqui se encontra, especificamente, em jogo.
Não se trata (e ainda menos) de utilizar as categorias das totalidades culturais (sejam as visões de mundo, os tipos ideais ou o espírito singular das épocas) para impor à história, e apesar dela, as formas da análise estrutural. As séries descritas, os limites fixados, as comparações e as correlacções estabelecidas não se apoiam nas antigas filosofias da história, mas têm por finalidade colocar novamente em questão as teleologias e as totalizações.
Na medida em que se trata de definir um método de análise histórica que esteja liberto do tema antropológico, vê-se que a teoria que vai ser esboçada agora se encontra, com as pesquisas já feitas, em uma dupla relação. Ela tenta formular, em termos gerais (e não sem muitas rectificações e elaborações), os instrumentos que essas pesquisas utilizaram ou criaram para atender às necessidades da causa. Mas, por outro lado, ela se reforça com os resultados então obtidos para definir um método de análise que esteja isento de qualquer antropológico. O solo sobre o qual repousa é o que ela descobriu. As pesquisas sobre a loucura e o aparecimento de uma psicologia, sobre a doença e o nascimento de uma medicina clínica, sobre as ciências da vida, da linguagem e da economia, foram tentativas de certa forma cegas: mas elas se esclareciam sucessivamente, não somente porque precisavam, pouco a pouco, do seu método, mas porque descobriram, neste debate sobre o humanismo e antropologia, o ponto da sua possibilidade histórica». In Michel Foucault, A Arqueologia do Saber, 1969, tradução Luiz Neves, Editora Forense Universitária, Rio de Janeiro, 2008, ISBN 978-852-480-344-7.
                                                       
Cortesia de FUniversitária/JDACT

A Arqueologia do Saber. Michel Foucault. «… a fazer dele um historiador das totalidades e a reencontrar nele o propósito do humanismo; somos levados a interpretar Nietzsche nos termos da filosofia transcendental e a rebaixar a sua genealogia…»

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«(…) Há uma razão para isso. Se a história do pensamento pudesse permanecer como o lugar das continuidades ininterruptas, se ela unisse, continuamente, encadeamentos que nenhuma análise poderia desfazer sem abstracção, se ela tramasse, em torno do que os homens dizem e fazem, obscuras sínteses que a isso se antecipam, o preparam e o conduzem, indefinidamente, para o seu futuro, ela seria, para a soberania da consciência, um abrigo privilegiado. A história contínua é o correlato indispensável à função fundadora do sujeito: a garantia de que tudo que lhe escapou poderá ser devolvido; a certeza de que o tempo nada dispersará sem reconstituí-lo numa unidade recomposta; a promessa de que o sujeito poderá, um dia, sob a forma da consciência histórica, se apropriar, novamente, de todas essas coisas mantidas a distância pela diferença, restaurar o seu domínio sobre elas e encontrar o que se pode chamar sua morada. Fazer da análise histórica o discurso do contínuo e fazer da consciência humana o sujeito originário de todo o devir e de toda prática são as duas faces de um mesmo sistema de pensamento. O tempo é aí concebido em termos de totalização, onde as revoluções jamais passam de tomadas de consciência.
Sob formas diferentes, esse tema representou um papel constante desde o século XIX: proteger, contra todas as descentralizações, a soberania do sujeito e as figuras gémeas da antropologia e do humanismo. Contra a descentralização operada por Marx, pela análise histórica das relações de produção, das determinações económicas e da luta de classes, ele deu lugar, no final do século XIX, à procura de uma história global em que todas as diferenças de uma sociedade poderiam ser conduzidas a uma forma única, à organização de uma visão do mundo, ao estabelecimento de um sistema de valores, a um tipo coerente de civilização. À descentralização operada pela genealogia nietzschiana, o tema opôs a busca de um fundamento originário que fizesse da racionalidade o telos da humanidade e que prendesse a história do pensamento à salvaguarda dessa racionalidade, à manutenção dessa teleologia e à volta, sempre necessária, a este fundamento. Enfim, mais recentemente, quando as pesquisas da psicanálise, da linguística, da etnologia, descentraram o sujeito em relação às leis do seu desejo, às formas da sua linguagem, às regras da sua acção, ou aos jogos dos seus discursos míticos ou fabulosos, quando ficou claro que o próprio homem, interrogado sobre o que era, não podia explicar a sua sexualidade e o seu inconsciente, as formas sistemáticas da sua língua ou a regularidade das suas ficções, novamente o tema de uma continuidade da história foi reactivado: uma história que não seria escansão, mas devir; que não seria jogo de relações, mas dinamismo interno; que não seria sistema, mas árduo trabalho da liberdade; que não seria forma, mas esforço incessante de uma consciência em se recompor e em tentar readquirir o domínio de si própria, até as profundezas das suas condições; uma história que seria, ao mesmo tempo, longa paciência ininterrupta e vivacidade de um movimento que acabasse por romper todos os limites. Para tornar válido este tema que opõe à imobilidade das estruturas, ao seu sistema fechado, à sua necessária sincronia, a abertura viva da história, é preciso, evidentemente, contestar nas próprias análises históricas o uso da descontinuidade, a definição dos níveis e dos limites, a descrição das séries específicas, a revelação de todo o jogo das diferenças. Somos, então, levados à antropológica de Marx, a fazer dele um historiador das totalidades e a reencontrar nele o propósito do humanismo; somos levados a interpretar Nietzsche nos termos da filosofia transcendental e a rebaixar a sua genealogia no plano de uma pesquisa do originário; finalmente, somos levados a deixar de lado, como se jamais tivesse aflorado, todo este campo de problemas metodológicos que a história nova propõe hoje. Pois se era tido como certo que a questão das descontinuidades, dos sistemas e das transformações, das séries e dos limiares, se colocava em todas as disciplinas históricas (e nas que dizem respeito às ideias ou às ciências tanto quanto nas que dizem respeito à economia e às sociedades), como se poderia opor, com qualquer aspecto de legitimidade, o devir ao sistema, o movimento às regulações circulares, ou, como se diz era uma irreflexão bem ligeira, a história à estrutura?» In Michel Foucault, A Arqueologia do Saber, 1969, tradução Luiz Neves, Editora Forense Universitária, Rio de Janeiro, 2008, ISBN 978-852-480-344-7.
                                                       
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As Palavras e as Coisas. Michel Foucault. «Um pouco como se a conveniência espacial tivesse sido rompida, e os elos da cadeia, desatados, reproduzissem os seus círculos longe uns dos outros»

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«(…) Primeiro, a convenientia. Na verdade, por esta palavra é designada com mais força a vizinhança dos lugares que a similitude. São convenientes as coisas que, aproximando-se umas das outras, vêm a emparelhar-se; tocam-se nas bordas, as suas franjas se misturam, a extremidade de uma designa o começo da outra. Desse modo, comunica-se o movimento, comunicam-se as influências e as paixões, e também as propriedades. De sorte que, nessa articulação das coisas, aparece uma semelhança. Dupla, desde que se tenta destrinchá-la: semelhança do lugar, do local onde a natureza colocou as duas coisas, similitude, pois, de propriedades; pois, neste continente natural que é o mundo, a vizinhança não é uma relação exterior entre as coisas, mas o signo de um parentesco ao menos obscuro. E, depois, desse contacto nascem por permuta novas semelhanças; um regime comum se impõe; à similitude como razão surda da vizinhança, superpõe-se uma semelhança que é o efeito visível da proximidade. A alma e o corpo, por exemplo, são duas vezes convenientes: foi preciso que o pecado tivesse tornado a alma espessa, pesada e terrestre, para que Deus a colocasse nas entranhas da matéria. Mas, por essa vizinhança, a alma recebe os movimentos do corpo e se assimila a ele, enquanto o corpo se altera e se corrompe pelas paixões da alma. Na vasta sintaxe do mundo, os diferentes seres se ajustam uns aos outros; a planta comunica com o animal, a terra com o mar, o homem com tudo o que o cerca. A semelhança impõe vizinhanças que, por sua vez, asseguram semelhanças. O lugar e a similitude se imbricam: vê-se crescer limos nos dorsos das conchas, plantas nos galhos dos cervos, espécies de ervas no rosto dos homens; e o estranho zoófito justapõe, misturando-as, as propriedades que o tornam semelhante tanto à planta quanto ao animal. São signos de conveniência. A convenientia é uma semelhança ligada ao espaço na forma da aproximação gradativa. É da ordem da conjunção e do ajustamento. Por isso pertence menos às próprias coisas que ao mundo onde elas se encontram. O mundo é a conveniência universal das coisas; há tantos peixes na água quanto sobre a terra animais ou objectos produzidos pela natureza ou pelos homens (não há peixes que se chamam Episcopus, outros Catena, outros Priapus?); na água e sobre a superfície da terra, tantos seres quantos os há no céu e aos quais correspondem; enfim, em tudo o que é criado, há tantos quantos se poderiam encontrar eminentemente contidos em Deus, Semeador da Existência, do Poder, do Conhecimento e do Amor. Assim, pelo encadeamento da semelhança e do espaço, pela força dessa conveniência que avizinha o semelhante e assimila os próximos, o mundo constitui cadeia consigo mesmo. Em cada ponto de contacto começa e acaba um elo que se assemelha ao precedente e se assemelha ao seguinte: e, de círculos em círculos, as similitudes prosseguem retendo os extremos na sua distância (Deus e a matéria), aproximando-os, de maneira que a vontade do Todo-Poderoso penetre até os recantos mais adormecidos. É essa cadeia imensa, estendida e vibrante, essa corda da conveniência, que Porta evoca num texto de sua Magia natural: No tocante à sua vegetação, a planta convém com a besta bruta e, por sentimento, o animal brutal com o homem, que se conforma ao resto dos astros por sua inteligência; essa ligação procede tão apropriadamente que parece uma corda estendida desde a primeira causa até as coisas baixas e ínfimas, por uma ligação recíproca e contínua; de sorte que a virtude superior, expandindo os seus raios, chegará a tal ponto que, se lhe tocarmos uma extremidade, tremerá e fará mover o resto. A segunda forma da similitude é a aemulatio: uma espécie de conveniência, mas que fosse liberta da lei do lugar e actuasse, imóvel, na distância. Um pouco como se a conveniência espacial tivesse sido rompida, e os elos da cadeia, desatados, reproduzissem os seus círculos longe uns dos outros, segundo uma semelhança sem contacto. Há na emulação algo do reflexo e do espelho: por ela, as coisas dispersas através do mundo se correspondem. De longe, o rosto é o émulo do céu e, assim como o intelecto do homem reflecte, imperfeitamente, a sabedoria de Deus, assim os dois olhos, com a sua claridade limitada, reflectem a grande iluminação que, no céu, expandem o Sol e a Lua; a boca é Vénus, pois que por ela passam os beijos e as palavras de amor; o nariz dá a minúscula imagem do cetro de Júpiter e do caduceu de Mercúrio. Por esta relação de emulação, as coisas podem imitar-se de uma extremidade à outra do universo sem encadeamento nem proximidade: por sua reduplicação em espelho, o mundo abole a distância que lhe é própria; triunfa assim sobre o lugar que é dado a cada coisa. Desses reflexos que percorrem o espaço, quais são os primeiros? Onde a realidade, onde a imagem projectada? Frequentemente não é possível dizê-lo, pois a emulação é uma espécie de geminação natural das coisas; nasce de uma dobra do ser, cujos dois lados imediatamente se defrontam. Paracelso compara essa duplicação fundamental do mundo à imagem de dois gémeos que se assemelham perfeitamente, sem que seja possível a ninguém dizer qual deles trouxe ao outro a sua similitude». In Michel Foucault, As Palavras e as Coisas, 1966, Livraria Martins Fontes Editora, 1981, 2000, ISBN 853-360-997-3.

Cortesia de LMFontesE/JDACT

sábado, 20 de outubro de 2018

Um Toque de Vermelho. Sylvia Day. «Adrian apanhou-os em pleno voo com um movimento absurdamente veloz. Dentro da cabine, ele assumiu o seu lugar num dos assentos que ficavam virados para trás»

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«Phineas está morto. A notícia atingiu Adrian Mitchell como um soco no estômago. Trémulo, agarrado ao corrimão, ele deu meia-volta na escada e encarou o serafim que vinha subindo logo atrás. Nessa nova situação, Jason Taylor assumiria o antigo posto de Phineas como o segundo no comando da cadeia hierárquica de Adrian. Quando? Como? Jason não teve dificuldade em acompanhar o passo sobre-humano de Adrian em direcção ao topo do prédio. Há mais ou menos uma hora. O facto foi reportado como um ataque vampiresco. Ninguém percebeu que havia um vampiro por perto? Como assim, por…? Foi isso que eu perguntei também. Mandei Damien ir até lá investigar. Chegaram ao último patamar. O segurança que ia à frente abriu a pesada porta de metal, e Adrian pôs os óculos escuros antes de sair sob o sol do Arizona. Ele observou a reacção de desagrado do segurança diante do calor implacável e ouviu um resmungo de reclamação do outro segurança, que protegia a rectaguarda. Criaturas reféns dos seus instintos, eles eram bastante susceptíveis a estímulos físicos, ao contrário dos serafins e vampiros. Adrian nem notou a mudança de temperatura, a perda de Phineas tinha feito o seu sangue gelar. Um helicóptero estava à espera logo adiante, com as hélices girando pelo ar opressivamente seco e carregado de poeira. Na lateral da aeronave, havia a inscrição Mitchell Aeronáutica e o logo alado da empresa de Adrian. Então tem dúvidas. Ele preferiu concentrar-se nos detalhes, porque aquele não era o momento de deixar transparecer a sua fúria. Por dentro, estava sendo consumido pela perda do seu melhor amigo e braço direito. Mas, como líder dos Sentinelas, ele não podia demonstrar as suas emoções em público. A morte de Phineas certamente causaria alvoroço entre as fileiras da sua unidade de elite de serafins. Os Sentinelas recorreriam a ele como exemplo de fortaleza e liderança. Um deles sobreviveu ao ataque. Apesar do som do motor do helicóptero, Jason não precisou levantar a voz para ser ouvido. Os seus olhos azuis também estavam descobertos, deixando o par de óculos escuros no topo da cabeça. Achei meio..., suspeito o facto de Phineas estar investigando o crescimento da matilha do lago Navajo e sofrer uma emboscada no caminho de volta. E depois um dos cães consegue sobreviver e diz que foi um ataque vampiresco?
Fazia séculos que Adrian utilizava os cães como seguranças para os Sentinelas e como cães pastores a fim de conduzir os vampiros a determinadas áreas. No entanto, alguns sinais de descontentamento entre os cães mostravam que era hora de reavaliar a sua estratégia. Eles haviam sido criados com o único objectivo de servir à sua unidade. Caso fosse necessário, Adrian os faria lembrar do pacto firmado pelos seus ancestrais. Eles corriam o risco de se transformar em vampiros sem alma, sugadores de sangue, mas poderiam ser poupados caso se comprometessem a cumprir sua antiga função. Alguns achavam que a sua dívida já havia sido paga pelas gerações anteriores e tinham dificuldade em aceitar o facto de que este mundo fora feito para os mortais. Eles jamais conseguiriam viver no meio aos humanos. O único lugar possível para eles era o que Adrian tinha designado para eles. Um dos seguranças abaixou-se e adentrou a turbulência criada pela hélice do helicóptero. Ao chegar à aeronave, abriu a porta. Os poderes de Adrian o protegeram do vendaval, permitindo que seguissem em frente sem esforço. Ele olhou para Jason. Preciso interrogar o que sobreviveu ao ataque. Vou dizer isso para Damien. O vento atingiu os cachos dourados do tenente, mandando os seus óculos escuros pelos ares.
Adrian apanhou-os em pleno voo com um movimento absurdamente veloz. Dentro da cabine, ele assumiu o seu lugar num dos assentos que ficavam virados para trás. Jason sentou-se no outro. Mas eu sou obrigado a perguntar: para que serve um cão de guarda que não consegue proteger nada? Talvez devesse sacrificá-lo, para servir de exemplo. Se a culpa for mesmo dele, esse cão vai preferir morrer. Adrian jogou os óculos escuros no colo do seu tenente. Mas, até descobrirmos o que aconteceu, ele é uma vítima, e a minha única testemunha. Vou precisar dele para pegar e punir quem fez isso. Os dois guardas posicionaram-se nos assentos em frente. Um era baixo e atarracado. O outro tinha quase a altura de Adrian. O mais alto ajustou o cinto e falou: a parceira daquele cão morreu tentando proteger Phineas. Se ele pudesse fazer alguma coisa para evitar, certamente teria feito. Jason abriu a boca para falar. Adrian o silenciou com um aceno de mão. Então é Elijah». In Sylvia Day, Um Toque de Vermelho, 2011, Editora Schwarcz, Editora Paralela, Companhia das Letras, 2013, ISBN 978-856-553-029-3.

Cortesia de ES/EP/CdasLetras/JDACT

O Cego de Sevilha. Robert Wilson. «Este não gostou do filme, disse Felipe. Não se deve ver o que não se é capaz de aguentar, disse Jorge debaixo da mesa. Nunca gostei de filmes de terror…»

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«(…) ... E ter-se atirado em histeria à porta do apartamento do conserje, terminou Calderón, irritado com a interrupção de Falcón. Levou um certo tempo até conseguir extrair algum sentido das palavras dela e depois chamou o 091. O conserje veio aqui em cima? Não até à chegada do primeiro carro-patrulha, que veio selar a cena do crime. A porta estava aberta? Sim. E a criada... Onde está agora? Está sob o efeito de sedativos, no Hospital de la Virgen de la Macarena. Inspector Ramírez... Diga, inspector-chefe... Todas as conversas entre Falcón e Ramírez começavam assim. Era a maneira de Ramírez lembrar ao inspector-chefe que tinha vindo de Madrid e ficado com o lugar que ele, Ramírez, sempre presumira que iria ser seu. Peça ao subinspector Pérez para ir ao hospital e, assim que a criada... Já sabemos o nome dela? Dolores Oliva. Assim que ela reaja... Ele que lhe pergunte se viu alguma coisa estranha... Bem, sabe o que tem de perguntar. E indague quantas voltas deu à chave para abrir a porta e quais foram precisamente os seus movimentos antes de encontrar o corpo. Ramírez repetiu tudo ao subinspector. Já sabemos do paradeiro da sra. Jiménez e das crianças? Perguntou Falcón. Julgamos que estejam no Hotel Cólon. Na calle Bailén? Perguntou Falcón. Era o hotel de cinco estrelas em que ficavam todos os toreros, apenas a cinquenta metros da sua... Da casa do seu falecido pai... Uma não coincidência. Mandamos um carro lá, disse Calderón. Queria concluir o levantamento do cadáver logo que possível e remover o corpo para o Instituto Anatómico Forense antes de trazermos a sra. Jiménez aqui.
Falcón anuiu. Calderón deixou-os. Os dois peritos da Policia Científica; Felipe, beirando os cinquenta e cinco anos, e Jorge, quase nos trinta entraram, murmurando bom dia. Falcón olhou fixamente para o plugue do televisor caído no chão e decidiu não mencionar o facto. Fotografaram a sala e, entre eles, começaram a reconstituir um cenário. Entretanto, Jorge tirava impressões digitais de Jiménez e Felipe polvilhava o móvel da TV/vídeo e as duas capas de vídeos vazias. Estavam de acordo quanto à posição normal do aparelho e o facto de Jiménez olhar para ele habitualmente sentado numa cadeira reclinável de pele, cuja base giratória, quando deslocada, deixava uma marca circular no chão de madeira. O assassino tinha imobilizado Jiménez, retirado a cadeira de pele, que não se adequava aos seus propósitos, e ido buscar uma das cadeiras de espaldar alto, de modo a poder erguer o corpo com um único movimento de rotação. O assassino amarrou, em seguida, os pulsos de Jiménez aos braços da cadeira, lhe descalçou as meias, enfiou-as na boca e lhe prendeu os tornozelos. Em seguida, manobrou a cadeira, fazendo-a avançar alternadamente sobre as pernas, até ficar na posição ideal.
Os sapatos dele estão aqui debaixo, disse Jorge, apontando para o vão da mesa. Um par de mocassins cor de vinho com berloques franjados. Falcón apontou para uma zona desgastada no soalho em frente da cadeira de pele. Ele gostava de tirar os sapatos e sentar-se diante do televisor a esfregar os pés no chão de madeira. Enquanto via filmes pornográficos, disse Felipe, polvilhando uma das capas de vídeo. Este se chama Cara ou C… E a posição da cadeira? Perguntou Jorge. Para quê mudar tanta mobília de lugar? Javier Falcón avançou para a porta, voltou-se e abriu os braços para os investigadores. Impacto máximo. Um verdadeiro homem do espectáculo, concordou Felipe. Esta capa tem La Familia Jiménez, escrito a caneta de feltro vermelha e há um cassete no aparelho com o mesmo título e a mesma caligrafia. Não parece excessivamente aterrador, disse Falcón e todos olharam para o terror sublinhado a sangue em Raúl Jiménez, antes de retomarem o trabalho.
Este não gostou do filme, disse Felipe. Não se deve ver o que não se é capaz de aguentar, disse Jorge debaixo da mesa. Nunca gostei de filmes de terror, disse Falcón. Eu também não, disse Jorge. Não aguento tanta... Tanta...Tanta o quê? Perguntou Falcón, surpreso por estar interessado. Não sei... Normalidade, aquela portentosa normalidade. Todos nós precisamos de um pouco de medo para nos estimular, disse Falcón, admirando a gravata vermelha que trazia, com o suor a perolar-lhe outra vez a testa. Ouviu-se uma pancada debaixo da mesa, quando a cabeça de Jorge bateu na parte interior do tampo. Mer… Sabem o que é isto? Disse Jorge, recuando para fora do vão da mesa. É um naco da língua de Raúl Jiménez. Silêncio dos três homens. Meta-a num saco, disse Falcón. Não vamos encontrar nenhuma impressão digital, disse Felipe». In Robert Wilson, O Cego de Sevilha, 2003, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2004, ISBN 978-972-202-615-5.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

A Bolsa e a Vida Jacques Le Goff. «Para evitar qualquer anacronismo, se quisermos tentar analisar o fenómeno medieval da usura numa perspectiva económica, é preciso reter estas duas observações de Polanyi…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A usura designa uma multiplicidade de práticas, o que dificultará o estabelecimento de uma fronteira entre o lícito e o ilícito nas operações que admitem juros. Esta distinção, difícil mas necessária, entre usura e juro, esta horrível fascinação por um animal multiforme, ninguém melhor as sentiu do que Ezra Pound no século XX.

O mal é a Usura, neschek a serpente
neschek cujo nome é conhecido, a corruptora,
além da raça e contra a raça a corruptora
Toxos hic mali medium est
Aqui está o centro do mal, ígneo inferno sem sossego,
A gangrena corrompendo todas as coisas, Fafnir o verme,
Sífilis do Estado, de todos os reinos,
Excrescência do bem comum,
Fazedora de quistos, corruptora de todas as coisas,
Escuridão, a corruptora,
Má gémea da inveja,
Serpente das sete cabeças, Hidra,
penetrando em todas as coisas.

Mas há também Usura, a usura em si, denominador comum de um conjunto de práticas financeiras proibidas. A usura é a arrecadação de juros por um emprestador nas operações que não devem dar lugar ao juro. Não é portanto a cobrança de qualquer juro. Usura e juro não são sinónimos, nem usura e lucro: a usura intervém onde não há produção ou transformação material de bens concretos. Thomas de Chobham começa a sua exposição sobre a usura com estas considerações: em todos os outros contratos posso esperar e receber um lucro (lucrum), assim se eu lhe tivesse dado alguma coisa poderia esperar um contradom (antidonum), isto é, uma réplica ao dom (contra datam) e poderia esperar receber, visto que fui o primeiro a lhe dar. Do mesmo modo, se eu lhe tivesse dado em empréstimo as minhas vestes ou o meu mobiliário poderia receber um preço por eles. Por que não aconteceria o mesmo se eu lhe tivesse dado em empréstimo o meu dinheiro (denarios meos)? Tudo está aí: é o estatuto do dinheiro, na doutrina e na mentalidade eclesiásticas da Idade Média, que é a base da condenação da usura. Não me entregarei aqui a um estudo propriamente económico, que deveria aliás levar em conta a maneira, muito diferente da nossa, pela qual são percebidas as realidades que hoje isolamos para fazer dela o conteúdo de uma categoria específica: a económica. O único historiador e teórico moderno da economia que nos pode ajudar a compreender o funcionamento do económico na sociedade medieval parece-me ser Karl Polanyi (1886-1964).
Para evitar qualquer anacronismo, se quisermos tentar analisar o fenómeno medieval da usura numa perspectiva económica, é preciso reter estas duas observações de Polanyi e dos seus colaboradores. A primeira, extraída de Malinowski, diz respeito ao domínio do dom e do contradom:

na categoria das transações, que supõem um contradom economicamente equivalente ao dom, encontramos um outro facto desconcertante. Trata-se da categoria que, de acordo com as nossas concepções, deveria praticamente confundir-se com o comércio. Não é nada disso. Ocasionalmente, a troca se traduz pelo vaivém de um objecto rigorosamente idêntico entre os parceiros, o que tira assim da transação toda a finalidade ou toda significação económica imaginável! O simples facto de um porco voltar ao seu doador, mesmo por via indirecta, troca de equivalentes, em vez de orientar-se na direcção da racionalidade económica, demonstra ser uma garantia contra a intrusão de considerações utilitárias. A única finalidade da troca é estreitar a rede de relações reforçando os laços de reciprocidade.

Na verdade, a economia ocidental do século XIII não é a economia dos indígenas das ilhas Trobriand no início do século XX; mas, se é mais complexa, a noção de reciprocidade domina a teoria das trocas económicas numa sociedade fundada nas redes de relações cristãs e feudais». In Jacques Le Goff, A Bolsa e a Vida, 1986/1989/2004, Editorial Teorema, 2006, ISBN 978-972-695-683-9.

Cortesia de ETeorema/JDACT

Alterações urbanísticas em Faro e Olivença na 2.a metade do seculo XV. Amândio Barros. «No caso de Faro, as modificações na sua fisionomia urbana enquadram-se perfeitamente nas solicitações crescentes da actividade comercial e marítima sobre a qual funda a sua estrutura e funções»

Cortesia de wikipedia e jdact

Nota: Comunicação apresentada às III Jornadas de História Medieval do Algarve e Andaluzia, realizadas em Loulé, entre 25 e 27 de Novembro de 1987

«(…) Estamos perante uma situação de crescimento do tecido urbana de uma povoação em direcção ao exterior, a formação e valorização do arrabalde de, cuja existência, citando Rita Costa Gomes demonstra sobretudo, a vitalidade da vida urbana, a criação de novos pólos de crescimento fora do reduto amuralhado. Com todas as cautelas que. para o período medieval a expressão exige, deparamos com o esboço de um plano urbanístico intencional (na última década do século XIV, no Porto, é pensada e começada a Rua Nova). Criava-se uma praça, um ponto quente (point chaud) da vida urbana na expressão de Jacques Le Goff e que Orlando Ribeiro considera um dos traços mais característicos da estrutura urbana portuguesa.
Depois, dava-se a indicação precisa do local onde deviam ser construídas as casas, e as dimensões que deveriam ter: 20 côvados (aproximadamente 14 metros), o que parece ser de enormes dimensões para a época. Por fim, registe-se a indicação de que deveriam ser habitadas por oficiais, o que nos poderá sugerir a tentativa de formação, em Olivença, de urn arruamento de honrados mesteirais que poderiam beneficiar da posição privilegiada junto à praça já que, ainda segundo Rita Costa Gomes a utilização comercial dos edifícios destinados a habitação era(...) muito comum, pois ao abrigo dos portais instalavam-se as mercadorias a vender, em ruas frequentadas. Segundo os homens-bons tal aconteceria, … sendo a dicta cava feita em casas e povoadas e em espicial de oficiaes que servissem e aproveitassem e honrassem a villa e moradores della.
E Pedro Lopes caberia nos requisitos? Parece que sim, já que segundo a exposição (naturalmente comprometida), ele era mui boom oficiall de seu oficio e mui omildoso benino e de muitas e boas condiçoes e com seu oficio em todo o que bem podia servia e honrrava os boons. Que fosse mui boom oficiall do seu oficio é algo que não nos atrevemos a contestar. Omildoso e benino, porem, serão qualificativos talvez excessivamente benevolentes. De facto, quatro anos decorridos ele voltava a dirigir-se ao Rei, mas desta vez o assunto era mais melindroso: um tal Muriel Rodrigues apresentara uma querela dele às justiças régias, dizendo que o albardeiro o ferira na cabeça, com uma espadeirada, e com todas as agravantes de uma agressão fria e premeditada (de proposito, em vindicta e revindicta, sobre ameaça e segurança). Pedro Lopes fugiu de cas a, mas sentindo-se inocente, obteve uma carta de segurança, e citou o queixoso, que preferiu desistir da acusação. Só que entretanto o nosso homem desrespeitou as obrigações de quem andava por carta de segurança, arriscando-se a ser preso. E voltou a fugir. Da petição que dirigiu ao Rei fazia parte, como mandavam as normas, um perdão do queixoso, que se afirmava já de boa saúde, e lhe perdoava pelo amor de Deus (eventualmente acrescido de uma indemnização menos espiritual). O soberano perdoa-lhe a acusação de agressão e a quebra da carta de segurança, a honra da morte e paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, e mediante a multa de 800 reais que o esmoler do Rei, fr. Gil, arrecadou na arca da Piedade. Parece-nos ainda importante sublinhar o processo de enraizamento, que torna o albardeiro vizinho de plena direito: um casamento recente, na vila, e o plantio de vinhas.
No caso de Faro, as modificações na sua fisionomia urbana enquadram-se perfeitamente nas solicitações crescentes da actividade comercial e marítima sobre a qual funda a sua estrutura e funções. Dos sete capítulos que a vila requereu ao rei Afonso V três deles dizem respeito ao tema deste trabalho. Os restantes quatro capítulos tocam assuntos de ordem económica e administrativa. No primeiro, a vereação farense requer que não seja de nomeação régia o cargo de corretor, por quanto esto soo pertencia a elles; após uma votação local com favas, o Rei da-lhe urn parecer favorável.
O quarto capitulo diz respeito à administração militar. A vereação protesta contra a nomeação perpétua de um anadel dos besteiros, ordenada por Afonso Furtado requerendo que nam possa ser anadel dos besteiros salvo de cinquo em cinquo annos e que seja besteiro o que ouver de seer. 0 Rei adia a decisão até consultar o oficial envolvido, para não acontecer o que era frequente: por nom darmos hüa causa contra outra». In Amândio Barros, Alterações urbanísticas em Faro e Olivença na 2.a metade do seculo XV, mestrado de História Medieval, FLUP, Comunicação apresentada às III Jornadas de História Medieval do Algarve e Andaluzia, realizadas em Loulé, entre 25 e 27 de Novembro de 1987.
                                   
Cortesia de FLUP/JDACT

Alterações urbanísticas em Faro e Olivença na 2.a metade do seculo XV. Amândio Barros. «Pedro Lopes, albardeiro de Olivença, apresenta, em 1464, ao rei Afonso V (aproveitando a estada deste, nesse ano, na vila de Elvas) uma carta da vereação da dita vila, de 1462…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Nota: Comunicação apresentada às III Jornadas de História Medieval do Algarve e Andaluzia, realizadas em Loulé, entre 25 e 27 de Novembro de 1987

«(…) A segunda fase de alteração da fisionomia urbana de Olivença, corresponde, em grande medida, ao movimento geral dos concelhos, na execução de obras de interesse municipal, como a reconstrução de muralhas ou ainda a pavimentação de ruas, a formação de novos mercados, o arranjo de pontes, cadeias e estradas, na melhoria das condições da vida municipal, durante a segunda metade do século XV. A maior complexidade da vida urbana provocou também a necessidade de elaboração de uma legislação municipal mais eficiente e a criação de cargos camarários permanentes que pudessem responder mais eficazmente às novas solicitações. Neste processo aparecem-nos então, regularmente os vedores das obras.
Ainda durante o século XV, mas com raízes na centúria precedente, a intervenção régia nos concelhos foi um dos vectores que mais alterações provocou na fisionomia de grande parte dos centros portugueses.
O rei (e citamos de novo Oliveira Marques) para começar, investiu em propriedade urbana, sobretudo nas cidades do Sul, comprando, recebendo em foro, escambando e até roubando casas e quintas pertencentes a vilões, nobres e eclesiásticos. Desta maneira foi-se formando o património régio, ou seja, os bens de raiz, rústicos e urbanos, pertencentes à Coroa, que são, potencialmente fontes de rendimento, e ainda certos direitos de algum modo a eles comparados, na medida em que são fontes de rendimentos. Integravam ainda o património regia diversas propriedades e direitos: para alem das dízimas e das sisas, as receitas das alfândegas e das taracenas, entre outros. Assim, grande parte das alterações no traçado urbano de uma povoação só seria possível desde que devidamente autorizada pelo monarca. Vejamos o primeiro caso.
Pedro Lopes, albardeiro de Olivença, apresenta, em 1464, ao rei Afonso V (aproveitando a estada deste, nesse ano, na vila de Elvas) uma carta da vereação da dita vila, de 1462, pela qual é autorizado a construir hüuas casas na cava, o antigo fossa do castelo, na altura seco, (o que quer dizer que, em termos militares ele já não tinha tanta importância), junto à torre de menagem. Este documento dá-nos algumas informações sobre qual seria a situação da vila de Olivença em termos urbanos, nessa época.
Em primeiro lugar, é visível que a população da vila estava a crescer, pois um dos argumentos justificativos deste pedido é o de que a dicta villa era tambem melhor pavorada e já não tinha espaço (intra-muros) onde pudessem construir casas. Outro elemento que pode ajudar a comprovar esta ideia reside no facto de se ter começado a aproveitar o fosso do castelo (a cava) pois havia algum tempo por ordem real, parte dele, des a Madanella atee a entrada da rua da Esnogua, estava transformado em praça e atupido, quer dizer, não era permitido construir aí.
De qualquer modo, a outra parte da cava, des a tenda do ferrador d'arrador atee o castelo de menajem, estava por tupir e era aí que se iria processar a construção. Este facto evitaria um outro tipo de problema (grave) com que a vila de Olivença se confrontava: a poluição. Com efeito, a cava, sendo necessariamente um local baixo e para mais desabitado, atraía as pessoas que, quando se queriam desembaraçar das imundícies, para aí as lançavam. Desta maneira estamos perante aquilo que Jean-Pierre Leguay considera la gravite d'une pollution domestique et collective qui, meme si elle parait plus naturelle que la nôtre, plus organique ou minerále que chimique et industrielle n'en demeure pas moins redoutable pour une communauté.
No entanto, e tal como aconteceu em todas as povoações da Europa dos finais da Idade Media, a comunidade oliventina tomou consciência do perigo que poderiam representar para a saúde publica estas estrequeiras e çujidade. A primeira acção tomada para obviar a esse problema foi então promover a ocupação daquela zona». In Amândio Barros, Alterações urbanísticas em Faro e Olivença na 2.a metade do seculo XV, mestrado de História Medieval, FLUP, Comunicação apresentada às III Jornadas de História Medieval do Algarve e Andaluzia, realizadas em Loulé, entre 25 e 27 de Novembro de 1987.
                                   
Cortesia de FLUP/JDACT

O Anatomista. Federico Andahazi. «Numa época feita de nomes, de singularidades, Mateo Colombo usava o seu nome como quem carrega um lastro. Como evitar o forçoso lugar nas sombras…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Os últimos alunos que transitavam junto à janela do claustro de Mateo Colombo ficavam nas pontas dos pés e olhavam para o interior; então o anatomista podia ouvir os murmúrios e as risadinhas maliciosas daqueles que, até ontem, tinham sido seus alunos, e mesmo dos que poderiam ter chegado a tornar-se seus fiéis discípulos. Podia vê-los. Embora talvez devesse dar graças pela sua sorte, Mateo Colombo amaldiçoou o dia em que saiu de sua Cremona natal. Amaldiçoou o dia em que o seu actual algoz, o reitor, decidiu colocá-lo à frente da cadeira de anatomia e cirurgia. E amaldiçoou o dia em que, quarenta e dois anos antes, nascera.
Il Chirologi, como diziam os seus conterrâneos, Il Cremonese, no seu exílio em Pádua, Mateo Realdo Colombo havia estudado Farmácia e Cirurgia na Universidade em que agora estava preso. Foi o mais brilhante discípulo de Leoniens, primeiro, e de Vesalio, depois. Quando partiu, em 1542, para fazer escola na Alemanha e na Espanha, o próprio mestre Vesalio sugeriu ao reitor, Alessandro Legnano, que o seu discípulo cremonense herdasse a cátedra. Ainda muito jovem, Mateo Colombo ganhou, por direito, o título de Maestro dei maestri. Para orgulho de Alessandro Legnano, o catedrático cremonense descobriu as leis da circulação pulmonar antes do seu colega, o inglês Harvey, que injustamente recebeu os louros. Muitos o consideraram lunático quando afirmou que o sangue se oxigena nos pulmões e que não existem orifícios no tabique que divide as duas metades do coração, atrevendo-se a refutar o próprio Galeno. E, por certo, aquela era uma afirmação perigosa: um ano antes, Miguel Servet vira-se obrigado a fugir da Espanha quando declarou, no seu Christianismi Restitutio, que o sangue era a alma da carne, anima ipsa est sanguis. A sua tentativa de explicar em termos anatómicos a doutrina da Santíssima Trindade levou-o às fogueiras de Genebra, onde o queimaram com lenhos verdes para prolongar a agonia. Mas os louros da descoberta de Mateo Colombo iriam, cem anos depois, para o inglês Harvey, que, como assinalou Hobbes em De Corpore, foi o único anatomista que viu a sua doutrina ser aceita em vida.
Mateo Colombo era, eminentemente, italiano; filho da plástica, da gala e do ornamento. Filho pródigo daquela Itália na qual tudo, das cúpulas das catedrais até ao copo no qual o lavrador bebia, dos afrescos que enfeitavam os palácios até à foice com que o camponês ceifava, dos capitéis bizantinos das igrejas até ao cajado do pastor, tudo era de uma feitura prodigiosa. Daquela mesma feitura era o espírito de Mateo Colombo; da mesma graça ornamental, da amável gentilezza italiana. Tudo estava animado pelo hálito de Leonardo: o artesão era artista; o artista, cientista; o cientista, guerreiro; e o guerreiro, de novo, artesão. Saber também era, além do mais, saber fazer com as mãos. Caso faltem exemplos, o próprio papa Eugénio I havia cortado com as suas próprias mãos a cabeça de um prefeito um pouco díscolo. Com a mesma mão com que deslizava a pena pelo caderno de capa de pele de cordeiro, Mateo Colombo sabia empunhar o pincel e preparar os óleos com os quais pintou os mais esplêndidos mapas anatómicos; era capaz, se quisesse, de pintar como Signorelli ou o próprio Michelângelo. No seu autorretrato, apresentou-se como um homem de traços finos porém enérgicos; os olhos negros e a barba escura e espessa revelavam, talvez, uma ascendência moura. A testa, alta e proeminente, era emoldurada por dois cachos que desciam até aos ombros. Segundo o seu próprio testemunho, tinha mãos delicadas e pálidas, cujos dedos, longos e finos, conferiam-lhe uma elegância que se diria quase feminina. Segurava o escalpelo entre o indicador e o polegar. O autorretrato não foi apenas um fiel testemunho da sua fisionomia, mas também da sua obsessão; olhando-se bem, pois é francamente difícil perceber, em baixo do bisturi, na base inferior do quadro, pode-se distinguir, em meio a uma bruma difusa, o corpo nu e inerte de uma mulher. A pintura lembra outra, sua contemporânea: o São Bernardo de Sebastiano del Piombo; a desproporção entre a beatitude da expressão do santo e sua atitude, a enfiar o cajado no corpo de um demónio, é a mesma que transparece no gesto do anatomista afundando o escalpelo na carne feminina. Uma expressão de triunfo.
Numa época feita de nomes, de singularidades, Mateo Colombo usava o seu nome como quem carrega um lastro. Como evitar o forçoso lugar nas sombras a que o seu ilustre xará o submetia? Mateo Colombo estava condenado à paródia, à zombaria fácil dos detractores. A sua obra, decerto, não foi menos extraordinária que a do seu homónimo. Ele também descobriu a sua América e, como ele, soube da glória e da desgraça. E soube da crueldade. Mateo Colombo, ao fundar a sua colónia, não teve mais escrúpulos nem piedade que Cristóvão. O madeiro da haste fundadora não estaria fincado nas tépidas areias do trópico, mas no centro das terras descobertas que reclamou para si: o corpo da mulher». In Federico Andahazi, O Anatomista, 1997, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 1998,  ISBN 978-972-232-362-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

O Anatomista. Federico Andahazi. « Sentiu remorsos pelo seu Leonardino. Talvez devesse dar graças pela sorte que tinha; por certo seria muito pior ocupar uma cela fria e asquerosa no presídio de Santo António»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O corvo e o seu amo sabiam quem era quem. E por isso mesmo nutriam um mútuo e velado receio. Leonardino, esse era o nome que o amo lhe dera, nunca pousava confiante no ombro do seu senhor; mantinha uma distância mínima entre as suas patas e a estola, elevando-se com um bater de asas curto e regular. O amo também não se fiava do companheiro. Um e outro, ambos sabiam disso, compartilhavam o mesmo espírito inquisitivo de indagar o que se oculta por trás da carne. Ouviu-se a segunda badalada e o amo continuava sem aparecer. Algo estranho estava acontecendo, o corvo podia adivinhar. Todos os dias, Leonardino, pousado na balaustrada da escadaria da morgue, acompanhava atentamente os movimentos do amo, as mãos que guiavam sabiamente o escalpelo; então, ao ver o sangue que surgia por trás do fino sulco que a lâmina deixava na sua passagem, Leonardino se balançava da esquerda para a direita e emitia um grasnido de satisfação. Por mais que tenha tentado, o amo não conseguira fazer com que Leonardino comesse da sua mão. Na verdade, não faltavam motivos para temer: o corvo sabia de quem era a tripa que o amo lhe oferecera no dia anterior, reconhecia o cheiro daquele gato que, até ontem, sentava-se confiante no colo do homem que o esvaziara por dentro para dissecá-lo com a mesma mão que o acariciava e lhe dava de comer.
Leonardino..., cantarolava o amo enquanto se aproximava lentamente do corvo, com o braço estendido brandindo uma tripa. Leonardino..., repetia, e, à medida que avançava um passo, o corvo retrocedia outro. Leonardino não olhava para a tripa; sentia o cheiro dela, mas não olhava. Mantinha os olhos fixos nos do amo, que, ao que tudo indica, pareciam-lhe mais apetitosos que aquele pedaço de intestino. Então o homem jogava-lhe a tripa, e o corvo a segurava no bico com uma voracidade longamente contida. Naquela manhã, contudo, ninguém apareceu na arcada. Soava a terceira badalada quando o corvo teve certeza de que o seu amo não compareceria ao encontro quotidiano. Desgostoso e faminto, alçou voo rumo a Veneza.
O nome do amo era Mateo Realdo Colombo e, decerto, tinha naquela manhã de Inverno do ano 1558 motivos muito bons para não comparecer ao encontro habitual que o reunia todos os dias, antes da missa, com o seu Leonardino. Encerrado entre as quatro paredes do claustro na Universidade de Pádua, Mateo Colombo escrevia. Se me assiste o direito de dar nome às coisas por mim descobertas, chamarei isso de Amor ou Prazer de Vênus, anotou Mateo Colombo, e dessa maneira concluiu o arrazoado que estivera redigindo durante a noite inteira. No mesmo instante em que fechou o grosso caderno de capas de pele de cordeiro, escutou as badaladas que chamavam para a missa. Esfregou as pálpebras; tinha os olhos vermelhos e as costas cansadas. Olhou para a pequena vigia que se elevava por cima da sua escrivaninha e comprovou que a vela junto ao caderno ardia agora inutilmente. Mais além, sobre as cúpulas da catedral, o sol começava a aquecer o ar e a evaporar pouco a pouco o orvalho que reverdecia o relvado do jardim em que a Universidade se erguia. Do outro lado do pátio chegava o perfume do incenso recém-aceso da capela, que por momentos se alternava, segundo dispusesse o vento, com os aromas hospitaleiros da fumegante chaminé da cozinha. E à medida que o sol se levantava por sobre as telhas da arcada, na mesma proporção ia crescendo o morno alvoroço que chegava da Piazza dei Frutti. Os gritos dos lojistas e o pregão dos vendedores ambulantes, os balidos das ovelhas oferecidas por dois ducados, como vociferavam as camponesas que desciam para a cidade, contrastavam com o monástico silêncio imposto pelo toque do sino a convocar para a missa.
Ainda sonolentos, esfregando as mãos para atenuar o frio e soltando vapor branco pela boca, os alunos saíam dos pavilhões para a arcada que circundava o pátio central, convergindo todos numa fila que se iniciava na entrada do pequeno átrio da capela. De pé junto ao pároco, Alessandro Legnano, o reitor da Universidade, controlava com unção a ordem e impunha o silêncio por meio de olhares severos dirigidos para aqui e acolá, ou, se fosse o caso, com um pigarro directamente dedicado aos contraventores. Antes de ouvir a última badalada, Mateo Colombo levantou-se e caminhou até a porta. Só quando girou a maçaneta e verificou que a porta do claustro estava trancada por fora, lembrou que aqueles sinos não dobravam mais para ele. O cansaço da noite em claro e, mais que isso, a força do hábito, que toda a manhã o conduzia até à capela depois de uma breve visita à morgue, fizeram-no esquecer que agora, por disposição dos Superiores Tribunais, estava preso no seu próprio claustro. Sentiu remorsos pelo seu Leonardino. Talvez devesse dar graças pela sorte que tinha; por certo seria muito pior ocupar uma cela fria e asquerosa no presídio de Santo António. Talvez devesse dar graças ao Tribunal e ao reitor pelo facto de não estar de pés e mãos acorrentados e poder ver o morno sol de Inverno através da pequena vigia do claustro. Certamente, as acusações que lhe eram imputadas mereciam o maior dos rigores: heresia, perjúrio, blasfémia, bruxaria e satanismo. Por muito menos do que tais acusações os punidos eram encarcerados. Agora mesmo, do seu claustro, podia ouvir os passantes insultando, em meio a cusparadas, os réus exibidos nos pelourinhos da praça. E não passavam de ladrões de quinquilharias». In Federico Andahazi, O Anatomista, 1997, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 1998,  ISBN 978-972-232-362-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

O Amante de lady Chatterley. D. H. Lawrence. «Passava sem as ver, e elas fixavam-na como se fosse uma figura de cera a andar. Quando Clifford tinha de lidar com elas, era altivo e desdenhoso…»

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«(…) Connie estava habituada a Kensington, ou às colinas da Escócia, ou às dunas do Sussex: esta era a sua Inglaterra! Com o estoicismo dos jovens, aceitou imediatamente a fealdade extrema, desumana dos Midlands de carvão e ferro. Era incrível, e não valia a pena pensar nisso. Das divisões sombrias de Wragby ela ouvia o chocalhar dos crivos na mina, o barulho do motor do guindaste, o estalido das camionetas em manobras e o desgarrado e enrouquecido apito das locomotivas de carvão. O silo do poço de Tevershall estava a arder havia anos, e custaria milhares para o extinguir. Por isso tinha de arder. E quando o vento soprava desse lado, o que era frequente, a casa enchia-se do cheiro pestilento da combustão sulfurosa do excremento da terra. Mas, mesmo nos dias sem vento, havia sempre o cheiro a qualquer coisa debaixo da terra: enxofre, ferro, carvão ou ácido. E até sobre as rosas do Natal se fixava a fuligem persistente e inconcebivelmente, como se fosse um maná negro de um céu maldito. Bem, assim era, estava escrito como todo o resto. Era terrível, mas para quê resistir? Não era possível, tinha de se continuar. A vida como sempre. No céu baixo e negro da noite havia manchas vermelhas de fogo que iluminavam, oscilavam, tornando-se nítidas, cresciam e contraíam-se, como queimaduras que fazem sofrer. Eram as fornalhas. A princípio fascinaram Connie, mas sentia ao mesmo tempo pavor, tinha a impressão de estar a viver debaixo da terra, depois habituou-se a elas. De manhã chovia sempre.
Clifford dizia que gostava mais de Wragby do que de Londres. Aquela região tinha uma determinação própria, inflexível, e os habitantes eram corajosos. Connie perguntava a si mesma se teriam algo mais: olhos e espírito não tinham com certeza. As pessoas eram tão pálidas, disformes, tristes e hostis como a terra. Só na dureza do seu dialecto e no malhar das botas mineiras, ferradas, quando em grupo se arrastavam no asfalto em direcção a casa vindos do trabalho, havia qualquer coisa de terrível e de misterioso. Não houve boas-vindas para o jovem fidalgo, nem festa, nem delegação, nem mesmo uma simples flor. Somente uma viagem húmida de carro através de uma estrada sombria e húmida, que desaparecia por entre as árvores tristes e reaparecia na vertente do parque, onde carneiros cinzentos e húmidos pastavam, até chegar ao cimo do monte, onde a casa estendia a sua fachada castanho-escura e a governanta e o marido esperavam, como caseiros indecisos, prontos a balbuciar as boas-vindas. Não havia comunicação entre Wragby Hall e a aldeia de Tevershall, nenhuma. Nem saudações, nem reverências. Os mineiros apenas olhavam, os comerciantes tiravam os bonés a Connie como a uma pessoa conhecida e baixavam a cabeça desajeitadamente a Clifford. E era tudo. Havia um abismo intransponível e um tranquilo ressentimento de parte a parte. Ao princípio, Connie sentiu-se afectada com os laivos constantes de ressentimento que a aldeia manifestava. Depois tornou-se insensível e passou a ser como um tónico aquilo com que era obrigada a viver. Ela e Clifford não eram de modo nenhum impopulares, mas pertenciam a uma espécie diferente da dos mineiros.
Havia um abismo intransponível, uma brecha indescritível, talvez como riem sequer exista no sul de Trent. Mas nos Midlands e o Norte industrial havia um abismo tal que era impossível uma comunicação. Fica no teu lugar que eu fico no meu! Uma estranha recusa do pulso comum da humanidade. No entanto, a aldeia gostava de Clifford e de Connie, num plano abstrato. Na carne, de cada lado era Deixem-me em paz. O reitor era um homem simpático, de cerca de sessenta anos, sempre ocupado com os seus deveres, e reduzido como pessoa quase a uma insignificância pelo silencioso deixem-me em paz dos aldeões. As mulheres dos mineiros eram quase todas metodistas, os mineiros não eram nada. Mas até o uniforme oficial do clérigo era o suficiente para ocultar a realidade de que ele era um homem como qualquer outro. Não, ele era o senhor Ashby, uma espécie de obrigação automática, para pregar e orar. Esta teimosia, tendência de pensar sempre Somos tão boas como tu, lady Chatterley, nos primeiros tempos confundia e desorientava Connie profundamente. A amabilidade curiosa, desconfiada, falsa, com que as mulheres dos mineiros lhe correspondiam; e o tom estranhamente ofensivo de valha-me Deus! Agora sou alguém, porque a lady Chatterley falou comigo! Mas ela que não pense que vale mais do que eu que ela sempre ouvia vibrar nas vozes, quase aduladoras, das mulheres, eram impossíveis de suportar. Era impossível de transpor esta barreira. Era irremediável e ofensivamente não conformista. Clifford deixava-as em paz, e ela aprendeu a fazer o mesmo. Passava sem as ver, e elas fixavam-na como se fosse uma figura de cera a andar. Quando Clifford tinha de lidar com elas, era altivo e desdenhoso, impedindo imediatamente toda a cordialidade. Na realidade era sempre assim com pessoas de outra classe. Mantinha-se firme sem fazer qualquer tentativa de conciliação. O povo não gostava nem desgostava dele, apenas fazia parte das coisas como a própria mina e Wtagby». In D. H. Lawrence, O Amante de lady Chatterley, 1928, Relógio D’Água Editores, Ficções, 2011, ISBN 978-972-708-848-1.
                  
Cortesia de RD’ÁguaE/JDACT

O Amante de lady Chatterley. D. H. Lawrence. «Os três tinham afirmado que viveriam sempre juntos. Mas, agora, Herbert estava morto, e sir Geofrey queria que Clifford casasse. Geoffrey mal tocava no assunto»

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«(…) Eram honestas em relação ao problema dos Tommies, e à ameaça de recrutamento e à escassez de açúcar e de caramelos para as crianças. Evidentemente, que por este estado de coisas as autoridades estavam a laborar ridiculamente num erro. Mas Clifford não podia tomar isto muito a peito; para ele, as autoridades eram ridículas não por causa dos caramelos ou dos Tommies. E as autoridades sentiam-se ridículas e comportavam-se de uma forma bastante ridícula, e tudo aquilo pareceu durante algum tempo uma festa em casa de um louco. Até que as coisas chegaram a este ponto no continente, e Lloyd George vinha salvar a situação na ilha. Isto ultrapassava os limites do ridículo, os jovens irreverentes deixaram de rir. Em 1916 Herbert Chatterley foi morto; assim, Clifford passou a ser o herdeiro. Até com isso ficou aterrorizado, a sua importância como filho de sir Geoffrey e senhor de Wragby estava tão arraigada nele que não se podia libertar. E, apesar de tudo, sabia também que isto era ridículo aos olhos do imenso mundo em agitação. Agora era herdeiro e responsável por Wragby. Era uma situação terrível e esplêndida e, ao mesmo tempo, talvez, profundamente absurda. Geoffrey não compreendia o absurdo de tudo aquilo. Era pálido e tenso, reservado, obstinadamente decidido a salvar o seu país e a sua posição, fosse Lloyd George quem fosse. Estava tão isolado, tão separado daquela Inglaterra que era a verdadeira Inglaterra, tão profundamente incapacitado, que tinha mesmo boa opinião de Horatio Bottornley. Geoffrey lutava pela Inglaterra e por Lloyd George como os seus antepassados tinham lutado pela Inglaterra e por São Jorge, e nunca compreendeu que havia uma diferença. Assim, sir Geoffrey deitava as suas árvores abaixo e defendia Lloyd George e a Inglaterra, a Inglaterra e Lloyd George. E queria que Clifford casasse e lhe desse um herdeiro. Clifford reconhecia que o pai era um anacrónico incurável, mas o único ponto em que estava mais evoluído era exactamente no sentido de ridículo em relação a todas as coisas, e no imenso ridículo da sua própria posição. Porque, quer fosse desejado ou indesejado, assumiu a baronia e Wragby com a maior seriedade. O entusiasmo alegre da guerra desaparecera. Morrera. Havia demasiada morte e horror. Um homem precisava de apoio e de conforto, tinha necessidade de uma âncora num mundo seguro. Um homem precisava de uma esposa. Os Chatterley, dois irmãos e uma irmã, por estranho que pareça, tinham vivido sempre isolados, fechados em conjunto em Wragby, apesar de todas as suas relações pessoais. Uma sensação de isolamento reforçara os laços de família, uma sensação de fragilidade da sua posição, de carência de defesas, apesar do título e da propriedade, ou talvez por causa disto. Viviam afastados desse Midlands industrial no qual tinham passado as suas vidas. Viviam afastados das pessoas da sua classe, pelo carácter instável, obstinado, taciturno, de sir Geoffrey, o pai, de quem escarneciam, mas a quem eram muito sensíveis.
Os três tinham afirmado que viveriam sempre juntos. Mas, agora, Herbert estava morto, e sir Geofrey queria que Clifford casasse. Geoffrey mal tocava no assunto, falava muito pouco. Mas a insistência silenciosa, melancólica, de que assim deveria ser fora para Clifford difícil de suportar. Mas Emina disse Não! Era dez anos mais velha do que Clifford e sentia que o casamento dele seria uma deserção e uma traição a tudo aquilo por que tinham lutado os jovens da família. Apesar disso, Clifford casou com Connie e teve o seu mês de lua-de-mel com ela. Foi no terrível ano de 1917, e viviam tão intimamente como duas pessoas que se mantêm unidas num navio prestes a afundar-se. Ele era virgem quando casou e a parte sexual não tinha para ele grande significado. Eram tão íntimos, ele e ela, independentemente disso! E Connie sentiu-se feliz com essa intimidade que estava para além do sexo, para além da satisfação do homem; Clifford, de qualquer forma, interessava-se menos por essa satisfação do que a maior parte dos homens. Não, a intimidade era mais profunda, mais pessoal do que isso, e o sexo era apenas um acidente, ou um complemento, um desses processos curiosamente obsoletos, orgânicos, que persistem na sua própria inépcia, mas não são na realidade necessários. Connie, porém, queria filhos, quanto mais não fosse para a proteger contra a cunhada Emina. Mas, nos princípios de 1918, Clifford foi reenviado para Inglaterra aos poucos, e não haveria filhos. E sir Geoffrey morreu de desgosto.
Connie e Clifford foram para Wragby no Outono de 1920. Miss Chatterley, indignada ainda com a deserção do irmão, tinha saído de casa e vivia num pequeno apartamento em Londres. Wragby era uma casa comprida, baixa e antiga de pedra castanha, principiada a construir nos meados do século XVIII e sucessivamente aumentada, sem no entanto ter um estilo definido. Edificada numa elevação no meio de um parque antigo e belo com carvalhos, mas podia-se ver a pouca distância a chaminé da hulheira de Tevershall, com as suas nuvens de vapor e fumo e, na distância húmida e enublada da colina, a aldeia de Tevershall toscamente dispersa, uma aldeia que começava quase nos portões do parque e se estendia numa grande extensão sinistra, feia e profundamente esmagadora: casas, filas de pequenas casas de tijolo, miseráveis, pequenas, enegrecidas, com telhados pretos de ardósia, com ângulos pontiagudos e de aspecto sombrio, intencional e inexpressivo». In D. H. Lawrence, O Amante de lady Chatterley, 1928, Relógio D’Água Editores, Ficções, 2011, ISBN 978-972-708-848-1.

Cortesia de RD’ÁguaE/JDACT