sábado, 31 de julho de 2021

No 31. O Retrato do Rei. Ana Miranda. «E no dia seguinte uma rês podia valer três negras cozinheiras. Avaliava-se uma pistola como um queijo. No Inverno trocava-se um par de meias de lã por uma data num riacho aurífero. É a loucura, dona Mariana, a loucura!»

Cortesia de wikipedia e jdact

O contrato da carne

«(…) O rosto do barão continuava nítido em sua mente: bigodes e cabeleira farta, a testa estreita. Sob os olhos, bolsas membranosas, dobras e sulcos longitudinais como o dorso de uma lagarta. Uma rajada forte de vento fez bater a janela, assustando Mariana. Com um arrepio imaginou seu pai irrompendo na sala; não parava de pensar nele e sentia o rosto em chamas. Quis conversar com alguém. Aurora adormecera numa poltrona. Ouviu o ranger do portão e foi à janela. Tenório cruzava o alpendre, pisando com leveza no chão xadrez de granitos. Nuvens se aproximavam, prenunciando chuva. O mar parecia um enorme buraco sem fundo, cortado por rastos de pequenas embarcações de pesca. Luzes espaçadas tremulavam nas ruas. No jardim as boninas flutuavam com suas grandes flores de corolas brancas abertas.

Tenório viu a baronesa à janela e acenou. O que houve?, disse Mariana. Preciso falar-vos. Tenório subiu as escadas. Mariana acordou Aurora e mandou-a deitar-se no quarto. A criada, sonolenta, cumpriu a ordem murmurando como uma cabeça falante do relojoeiro Gastão. Perdão pela hora, disse Tenório, ao entrar na sala, ofegante. Mas é que estive andando atrás de informações. Cheirava a perfumes femininos, suor. As botas estavam sujas de areia. Tinha os olhos cansados e um sorriso culposo que mostrava dentes velhos manchados de vinho. Tive muito trabalho, mas consegui, disse Tenório. Depois andei em palácio, nas tabernas e na alfândega. Seu hálito fétido causou em Mariana uma sensação de repugnância. Não deveis ir para as Minas, disse o amanuense. Eles estão matando os portugueses. Quem está matando os portugueses? Andastes bebendo novamente? O problema, disse Tenório, recompondo-se para ser mais persuasivo, é que desde que descobriram o ouro, de todos os lugares do mundo homens ambiciosos e sem escrúpulos partiram para o Sertão dos Cataguases. A gente que mora lá não presta. E a que mora aqui? Quem presta? O homem é sempre o mesmo. Mas aqui há pessoas melhores.

Nas Minas habitavam soldados desertores, negros fugidos, homens que abandonavam suas famílias, tripulações amotinadas, mulheres desonestas, frades desfradados, lavradores que largavam suas terras. O lugar é muito perigoso, concluiu Tenório. E das três regiões, a mais inobediente é a das Gerais, onde está vosso pai. Essa região assim era chamada por não estar sujeita às leis que disciplinavam a distribuição das datas de mineração. Estabelecia-se a propriedade de uma jazida por posse, ou por prioridade. Mas eu preciso ver meu pai, disse Mariana. Se é pela herança, vossenhora não necessita partir, ela vos será entregue de qualquer maneira. Podemos mandar um procurador, com alguns escravos fortes. Eu mesmo posso ir. Ele está morrendo, senhor Tenório. Mariana sentou-se na poltrona, quase sem forças, dominada por uma sensação martirizante de que sua vida agora dependia de um gesto, o qual não sabia se seria capaz de fazer. O que dizer de um lugar onde uma cesta de biscoitos pode custar o mesmo que um cavalo?, disse Tenório.

E no dia seguinte uma rês podia valer três negras cozinheiras. Avaliava-se uma pistola como um queijo. No Inverno trocava-se um par de meias de lã por uma data num riacho aurífero. É a loucura, dona Mariana, a loucura!

Os que acumulavam grande quantidade do metal precioso, minerando, vendendo, fazendo contrabando, na sua maioria entregavam-se a deleites e regozijos. Gastavam seu dinheiro com mulheres, tabaco, aguardente, armas. Passavam os dias jogando e as noites a se embriagarem. Andavam escoltados por tropas armadas cometendo actos violentos e impunes. Há mulheres nas Minas? Quero dizer, senhoras?, damas?, perguntou Mariana. O que mais se vê são índias, negras ou mestiças vagando seminuas pelos arraiais, cobertas de pele e ouro, com os cabelos soltos, carregando fachos e dando urros, entregando-se a toda a sorte de excessos nos rituais de fornicação. Os homens sempre sabem onde achar essas mulheres, Tenório disse em tom confessional. Farejam-nas, assim como pressentem o ouro. Onde há ouro há mulheres de vida licenciosa. O lugar abrigava uma corja de errantes e vadios, de quadrilhas hostis, ferozes, gananciosas. Mesmo os principais viviam de lugar em lugar, como os filhos de Israel no deserto». In Ana Miranda, O Retrato do Rei, Editora Schwarcs, Companhia das Letras, 1991, ISBN 978-857-164-190-7.

 Cortesia de ESchwarcs/CdasLetras/JDACT

 JDACT, Ana Miranda, Literatura, Escrita, 

sexta-feira, 30 de julho de 2021

Rosa Lobato Faria. As Esquinas do Tempo. «A casa de banho não era mais casa de banho mas sim um quarto de vestir com um grande guarda-fatos cheio de vestidos antigos. A um canto imperava um lavatório de cerâmica…»

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«(…) Apalpou-se sem olhar e sentiu um tecido finíssimo, idêntico aos lençóis. Pôde perceber as rosinhas bordadas na gola, as nervuras do peitilho. Sentiu também que o tecido se lhe enredava nas pernas, como se de uma camisa de noite se tratasse. Tinha a certeza de ter vestido um pijama azul: casaco e calças. Mas quando ousou abrir os olhos e levantar a roupa e espreitar para dentro da cama, viu a longa saia cor-de-rosa cheia de babados. Foi ele, pensou. Está a fazer troça de mim. Mas quando olhou para a parede, resolvida a perder o medo e a pedir-lhe satisfações, o quadro não estava lá. Então, saltou da cama num pulo e dirigiu-se à casa de banho no intuito de tomar um duche frio que lhe devolvesse a sanidade. Mas aquilo que viu só piorou a situação. Em vez da retrete que instintivamente procurou, havia um penico alto, de esmalte, com pássaros pintados. A casa de banho não era mais casa de banho mas sim um quarto de vestir com um grande guarda-fatos cheio de vestidos antigos. A um canto imperava um lavatório de cerâmica na sua armação de ferro e paisagem cor de sangue, com árvores e passarinhos. O jarro igual estava pousado no chão, cheio de água. Na prateleira da armação havia escovas com cabo, um grande sabonete ovóide, uma luva turca. Dos lados pendiam duas toalhas de linho. Havia ainda um semicúpio de zinco com a respectiva toalha. As toalhas tinham uma linda barra bordada e eram debruadas a renda de um dos lados. Lavou-se como pôde e, ao inclinar-se para a bacia, verificou que em vez do seu habitual cabelinho curto, pintado de ruivo, tinha agora uma farta cabeleira castanha, levemente ondulada, que lhe chegava ao meio das costas.

Alucinada, abriu o armário do quarto onde, na véspera, tinha pendurado a roupa. Mas em vez do tailleur e blusa de seda que vestira para a palestra e dos jeans, t-shirt e blaser que reservara para viajar naquele dia, estavam dois vestidos compridos, um de seda azul e outro branco, de cassa. Sentiu-se agoniada. Pensou em vomitar para o balde por baixo do lavatório, fosse qual fosse o fantasma que viesse despejá-lo. A sua roupa interior desaparecera. Por baixo da camisa de noite cor-de-rosa tinha uma calçola pelo joelho, com um folho, do mesmo tecido e da mesma cor. Na cadeira, uma camisa de dia, de alças, e um corpete que não chegava a ser espartilho. Vestiu-se, isto é, na sua ideia mascarou-se, com o vestido de caça. Olhou-se bem no espelho. Só o rosto era o mesmo. Não tinha verniz nas unhas, agora cortadas rentes. As sobrancelhas não estavam arranjadas e algumas rugas, que já espreitavam ao canto dos olhos, tinham desaparecido. Mas eram os mesmos olhos azuis, sim, a mesma boca cheia, as mesmas maçãs do rosto um pouco salientes. O que faço agora?, pensou, já disposta, por não ter alternativa, a entrar no jogo. Confirmou o que já suspeitava: a mala de rodinhas com o resto das suas coisas, não estava lá. O candeeiro da mesinha-de-cabeceira também não. Era, no seu conjunto, uma partida muitíssimo bem pregada. Mas não lhe parecia que aquelas senhoras amáveis que a tinham recebido fossem capazes de uma loucura destas. Foi à janela e viu o mesmo muro de pedra que lhe parecera ver na véspera e, para além dele, árvores de fruto e vinha a perder de vista. Ninguém a tinha teletransportado para um castelo na Escócia.

Foi quando bateram à porta. Uma voz grave de mulher com forte pronúncia do norte, insistiu: menina Margarida, abra a porta! Que novidade é esta de se trancar? É a Lucinda, trago-lhe o pequeno-almoço. Vá lá, está a arrefecer! Abriu. A Lucinda entrou, fardada de cinzento até aos pés, crista, punhos e avental branco, cujo laço engomado deixava cair duas pontas aladas até aos calcanhares. Bom-dia, menina. Pensei que estivesse doente. E faça favor de não se trancar, porque se lhe dá o ataque a gente não lhe pode acudir. Pousou a bandeja de prata na mesinha ali posta, certamente para esse fim, e de onde o tabuleiro da véspera, o chá, os bolinhos caseiros haviam desaparecido. Agora tinha uma almoçadeira de porcelana com chocolate quente, pãezinhos onde a manteiga se derretia, duas taças com compotas diferentes, e uma grande fatia do que parecia ser pão-de-ló. Vá, toca a comer. A menina hoje não me parece lá muito boa. E é bom que esteja, porque vem o tal amigo do paizinho que quer escolher noiva. As manas já estão prontas. A menina Mariana já anda aos pulos e a menina Madalena está a ajudar a fazer um bolo para o chá. Despache-se Margaridinha, pela sua saúde, antes que a mãezinha venha cá ralhar. Já mando a Rosa arrumar o quarto. Quer que a penteie? Ou vai andar com essa gaforina a receber as visitas? Quero, disse Margarida, convencida de que aquilo era um filme onde teria de inventar as suas próprias deixas. Faz-me uma trança. Qual trança, qual carapuça. Vou pôr-lhe um laço de cetim amarelo que fica bem com os cabelos castanhos, tão lindos, que a menina tem. Puxo estes aqui para a frente, bem alisadinhos com o pente e prendo-os cá atrás com a fita. Amarelo, com o branco do vestido, fica bonito. Lucinda, que dia é hoje? Perguntou, enquanto a criada procurava numa gaveta cheia de fitas, ganchos e plumas. Que dia é hoje? Ora então a menina não sabe? É o quinze de Setembro. E está um calor que parece Agosto. Quem diria que daqui a nada é Outono. De que ano, Lucinda? Está a fazer pouco de mim? Só para ver se sabes. É o..., pois..., deixe cá ver, 1908. É isso. Não ando sempre a pensar que ano é, mas sei, pois. É isso. É o 1908. Foi este ano que mataram o Rei. Então Margarida percebeu que, como nos contos de fadas, tinha dormido cem anos, e viajado, durante o sono, no sentido inverso do tempo». In Rosa Lobato Faria, As Esquinas do Tempo, 2008, Porto Editora, 2008, ISBN 978-972-004-181-4.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, Rosa Lobato Faria, Literatura, O Saber,

As Esquinas do Tempo. Rosa Lobato Faria. «Um belíssimo homem, por sinal, que, ao contrário das fotografias da cómoda, parecia bem vivo e a olhava com olhos trocistas»

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«Margarida é uma jovem professora de Matemática. Um dia vai a Vila Real proferir uma palestra e fica hospedada num turismo de habitação, casa antiga muitíssimo bem conservada e onde, no seu quarto, está dependurado o retrato a óleo de um homem que se parece muito com Miguel, a sua recente paixão. Por um inexplicável mistério, na manhã seguinte Margarida acorda cem anos atrás, no seio da sua antiga família. Sem perder consciência de quem é, ela odeia esta partida do tempo. Mas aos poucos vai-se adaptando. Conhece o homem do quadro e apaixona-se por ele. Quando ele morre num acidente, Margarida regressa ao presente».

«Quando Margarida chegou à Casa da Azenha teve aquela sensação, não desconhecida mas sempre inquietante, de já ter estado ali. Não era verdade. Vinha pela primeira vez a Vila Real, com o intuito de fazer uma palestra sobre novas técnicas do ensino da Matemática e os organizadores, cujo convite a lisonjeara, tinham-na instalado num belo turismo de habitação em vez de no rotineiro hotel. Foi recebida por três senhoras de meia-idade que se disseram irmãs e que, por corredores que a Margarida pareceram labirínticos, a conduziram ao quarto. Durante o trajecto, afigurou-se-lhe que as senhoras mudavam constantemente de rosto e de imagem, isto é, a que lhe parecera gorda era agora magra, a que lhe parecera alta agora era baixa e a que fixou melhor, pois fora a que falara e tinha uma bata azul forte com flores brancas, estava agora de escuro, com um casaco de malha com aplicações.

Margarida pensou que estas alucinações se deviam ao vinho do Porto que a fizeram beber na pequena ceia que se seguira à palestra, e achou que uma boa noite de sono e a luz do dia a fariam rir desta maluqueira que lhe atravessava a mente. A baixinha, de novo alta, surgiu inesperadamente com bolos caseiros e chá de camomila, todas três em coro lhe desejaram boa-noite, esperando que tudo estivesse a seu gosto. Confusa, Margarida agradeceu e jurou que nada lhe faltava. Depois, fechou a porta à chave e preparou-se para dormir. Foi aí que sentiu o cheiro. Um cheiro talvez a remédio, talvez a malmequeres, talvez a creolina. Deu uma volta pelo quarto à procura da origem do cheiro e não encontrou nada que o justificasse. Reparou então que a cómoda, na parede fronteira à janela, estava coberta de fotografias que se pôs a analisar. Eram fotografias antigas, a preto e branco, amarelecidas mesmo, e representavam senhores e senhoras solenes e alguns meninos de canudos, com folhos a sair das mangas de veludo, calções abotoados abaixo do joelho, a perninha traçada mostrando a botina reluzente de graxa. Não havia crianças coloridas na praia, nem noivas de véus flutuantes, nem grupos risonhos de adolescentes. Ali não havia lugar a sorrisos. Todos sérios, todos austeros, provavelmente todos mortos. Margarida sentiu um arrepio ao pensar nisto. Apalpou o colchão e encantou-se com o minucioso bordado dos lençóis de cambraia. Verificou a luz da mesa-de-cabeceira e foi à casa de banho fazer a sua toilette nocturna. Tomou um duche delicioso, enxugou-se com uma toalha de óptima felpa. Voltou para o quarto nua, pendurou uns jeans e uma t-shirt que tirou da mala para vestir no dia seguinte. De repente sentiu-se incomodada, como se alguém a observasse. E percebeu. Na parede fronteira à cama estava um quadro a óleo representando um homem moreno. Um belíssimo homem, por sinal, que, ao contrário das fotografias da cómoda, parecia bem vivo e a olhava com olhos trocistas.

Ela conhecia o truque dos pintores que fazem com que as figuras dos quadros mirem os observadores para onde quer que estes se dirijam. Mas aquilo era de mais. Não se tratava dos olhos vazios e inexpressivos que já vira tantas vezes, mas de um olhar bem vivo, irónico, crítico, apreciador, o olhar de um homem que conhece e ama as mulheres, e instintivamente Margarida foi à mala buscar um pijama e vestiu-o. O que é que queres?, perguntou, desafiadora. E ouviu nitidamente uma voz masculina, grave, doce, responder: tudo. Ficou aterrada. Era muito estranho o que se passava ali. Meteu-se na cama, mas não conseguia despregar os olhos do quadro. Foi com mãos trémulas que tirou os brincos das orelhas e os pousou na mesinha-de-cabeceira, ao lado do castiçal. Castiçal? Claro, para quando faltasse a luz. Que pelos vistos nunca faltava, porque a vela era nova. E o homem a olhar para ela. Tudo, continuava a dizer, agora em silêncio. Tinha-a visto nua, o que poderia esconder-lhe? A não ser o desejo que de repente a assaltou, e acreditou que, durante o sono, ele desceria do quadro e viria violá-la, amá-la com todas as forças, aventura de uma noite com um desconhecido, um feiticeiro, um fantasma. Decidiu beber o chá de camomila para a ajudar a conciliar o sono. Saiu cautelosamente da cama, esforçando-se por não olhar para o quadro. Mas sentia os olhos dele como duas brasas. Queimando-lhe o corpo, os seios, o ventre, as coxas, queimando-lhe a alma como um sortilégio. O seu instinto feminino avisava-a de que não poderia contar aquilo a ninguém, nem a Mariana, sua irmã e melhor amiga, que iria chamar-lhe doida, muito menos ao Pedro, seu namorado de cada vez menos dias.

A verdade é que o homem do quadro parecia ter uma inquietante semelhança com a pessoa por quem estava apaixonada, mas, quando se está louco de amor por alguém, parece-nos ver esse alguém em toda a parte. O chá acabou por fazer efeito e dormiu até de manhã. Os lençóis de cambraia não guardavam qualquer sinal de violação ou de lutas amorosas, tão lisinhos e arrumados como se ninguém ali tivesse dormido. Margarida abriu os olhos e sentiu que qualquer coisa de muito estranho se passava consigo. Deixou-se ficar de olhos fechados, buscando a certeza de que não estava a enlouquecer. Para começar, não tinha o pijama vestido». In Rosa Lobato Faria, As Esquinas do Tempo, 2008, Porto Editora, 2008, ISBN 978-972-004-181-4.

Cortesia de PEditora/JDACT

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quinta-feira, 29 de julho de 2021

A Trança de Inês. Rosa Lobato Faria. «Mas eu não quero responder, não me quero tratar, só quero os teus olhos atlânticos, verdes, transparentes, senhores de todos os segredos, de todos os feitiços, de todas as paixões…»

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«Estou deitado sobre o lado esquerdo, de olhos fechados, imóvel, mas não estou adormecido nem sequer sonolento. É a minha posição de invocar-te, de poder esvaziar o espírito para receber a tua presença imaginária. Nesta imobilidade tomo muita consciência do meu corpo. O joelho direito pesa-me sobre o esquerdo. Osso com osso faz doer. Questão de dois centímetros, procuro uma almofadinha de músculo e fico bem. As mãos estão unidas, dedos juntos, palma contra palma, como um suplicante do século catorze. Unidas e entaladas entre a face esquerda e o colchão. Mas os dedos mindinho e anelar da mão direita começam a ficar ligeiramente dormentes. Não quero mexer-me mas tem de ser. Levanto a mão no ar, abro e fecho abro e fecho abro e fecho, pensar-se-ia que te digo adeus. Mas não. Nunca te direi adeus meu amor, e a mão volta para o seu lugar.

Agora podes vir. Quero que desmanches a tua trança, que espalhes os cabelos louros, frisados, imensos, sobre o meu rosto, que roces os teus seios nas minhas costas, que deslizes por cima de mim, que me inundes do teu singularíssimo perfume. Ele está a espreitar-me. Sei que está. Não preciso de abrir os olhos para sentir uma alteração na luz. Isto acontece quando ele cola a testa ao postigo de vidro fingido da minha cela para saber o que se passa aqui. Sei que ele está lá porque intercepta a luminosidade da manhã tentando certificar-se de que estou a dormir. Ele gosta que eu esteja a dormir para ter o prazer de me acordar com dois berros. Hesita. Tão quieto assim só bem desperto ou morto. Os adormecidos movem-se no sono, mastigam o cuspo, murmuram.

Enquanto o meu guarda-enfermeiro-carrasco espera que eu adormeça para me chamar em seguida, tu desvaneces-te, não queres testemunhas do nosso sagrado momento de amor. Voltarás mais tarde, talvez na primeira alvorada, para me embalares na tua nudez, na tua paixão, na tua piedade. Agora finjo que durmo. Volto-me com um resmungo, deixo cair um fio de baba pelo canto da boca. Ele entra. O doutorzinho está à tua espera, lazarento. Já ouvi falar deste novo médico que pergunta o mesmo a todos, foste violado pelo pai, abandonado pela mãe, sentes culpa na morte de um amigo. Não, não, não, respondem todos e ele fica num beco sem saída, não pode consubstanciar as suas teorias, não pode provar nada, não pode curar ninguém. Interroga-me num gabinete demasiado pequeno com o ar condicionado no máximo e tenho frio, não consigo pensar, dar respostas coerentes, quero estar nos teus braços, beijar a tua boca de ameixa doce e sumarenta como no tempo em que, e o doutorzinho, que idade tinha quando morreram os seus pais, como é que reagiu, sente-se culpado, e eu, ninguém morreu, nunca ninguém morre, só quem nós matamos na memória, no pensamento e no coração claro, mas não é isso, o que perguntamos é se, tenho frio, viu o seu pai morto, a sua mãe, algum irmão, diga-nos o que sentiu senhor Pedro Santa Clara. Não senti nada, fui eu que os matei no coração no pensamento e na memória, porque tenho a memória o pensamento e o coração ocupados com outras coisas tente lembrar-se, não me lixem os cor…, queríamos perceber a sua infância, estou cansado, alguém abusou, vá para o cara…, doutor, com o seu Freud desenterrado, o seu plural majestático e a sua psiquiatria de compêndio, tenho a certeza de que você é que levou no … aos seis anos, pra cima de mim não o senhor Santa Clara não precisa de me ofender, acalme-o, senhor enfermeiro, eu cala-te, cab…, se não queres ir para a cela à prova de som metido numa camisa-de-forças, o senhor doutor só te quer ajudar minha besta tenho frio, quero o colete-de-forças, este doutorzinho saído dos cueiros não percebe nada, não sabe quem eu sou pois, já sabemos que és o dom Pedro, maluco de mer…, responde ao senhor doutor, responde, responde, responde, responde.

Mas eu não quero responder, não me quero tratar, só quero os teus olhos atlânticos, verdes, transparentes, senhores de todos os segredos, de todos os feitiços, de todas as paixões, tira-me daqui, leva-me, embala-me, adormece-me, deixa-me pousar a cabeça no teu colo de garça, nas tuas coxas perfumadas, começo a gritar Inês, Inês, Inês, Inês, Inês, espetam-me uma injecção ao acaso no corpo que se debate e suavemente surges do nevoeiro com a tua trança luminosa, os teus seios de nácar, as tuas ancas de deusa e ao som de cantos gregorianos que enfeitam a penumbra, deixas que me apoie na seda dos teus ombros para atravessar, mísero, estropiado e chorando, as ogivas da minha solidão» In Rosa Lobato Faria, A Trança de Inês, 2006, Edições ASA, 2018, ISBN 978-989-234-187-3.

Cortesia de EASA/JDACT

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Nas Asas do Tempo. Diana Gabaldon. «Como ele era? Um sujeito grandalhão, Frank disse, franzindo a testa ao se recordar. E escocês, em trajes completos das Highlands…»

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«(…) Acho que está um pouco tempestuoso para um fantasma, disse. Eles não gostam de noites calmas e enevoadas em cemitérios? Frank riu um pouco timidamente. Bem, provavelmente foram apenas as histórias de Bainbridge e um pouco de xerez a mais do que eu deveria ter tomado. Nada de mais. Agora eu estava curiosa. O que você viu exactamente?, perguntei, sentando-me no banquinho da penteadeira. Indiquei a garrafa de uísque erguendo uma das sobrancelhas e Frank imediatamente foi servir dois drinques. Bem, na verdade, apenas um homem, começou, medindo uma dose para ele e duas para mim. Parado na rua lá fora. O quê? Do lado de fora desta casa? - perguntei com uma risada. -Então, deve ter sido um fantasma; não posso imaginar ninguém parado por aí em uma noite como essa. Frank inclinou o jarro de água sobre seu copo, depois olhou acusadoramente para mim quando não saiu nenhuma água. Não olhe para mim, disse. Você usou toda a água. Mas eu prefiro o uísque puro mesmo. Tomei um gole para demonstrar. Frank pareceu inclinado a dar um pulo no lavatório para pegar água, mas abandonou a ideia e continuou sua história, tomando pequenos goles cautelosamente, como se seu copo contivesse ácido sulfúrico ao invés do melhor uísque Glenfiddich de puro malte. Sim, ele estava na borda do jardim, deste lado, parado junto à cerca. Eu pensei, hesitou, olhando dentro do copo, achei que ele estava olhando para a sua janela.

Minha janela? Que extraordinário! Não pude conter um ligeiro estremecimento e atravessei o quarto para fechar as persianas, embora fosse um pouco tarde para isso. Frank seguiu-me, ainda falando. Sim, eu mesmo pude vê-la lá de baixo. Você escovava os cabelos e resmungava porque estavam arrepiados. Nesse caso, o sujeito provavelmente estava se divertindo, disse, asperamente. Frank sacudiu a cabeça, embora sorrisse e alisasse meus cabelos. Não, ele não estava rindo. Na verdade, ele parecia terrivelmente infeliz com alguma coisa. Não que eu tenha podido ver bem seu rosto; foi alguma coisa na maneira como estava ali parado. Eu vim por trás dele e, quando ele não se moveu, perguntei educadamente se poderia ajudá-lo em alguma coisa. Primeiro, ele agiu como se não me tivesse ouvido, e eu achei que talvez não tivesse mesmo, com o barulho do vento, então repeti o que dissera e estendi a mão para tocar seu ombro, chamar sua atenção, sabe. Mas antes que eu pudesse tocá-lo, ele girou repentinamente nos calcanhares, passou por mim e começou a descer a rua. Parece um tanto grosseiro, mas não muito próprio de um fantasma, observei, esvaziando meu copo. Como ele era? Um sujeito grandalhão, Frank disse, franzindo a testa ao se recordar. E escocês, em trajes completos das Highlands, com a bolsa de pêlos usada pelos escoceses na frente do kilt e um lindo broche de um veado correndo prendendo o xale xadrez. Quis perguntar-lhe onde o tinha conseguido, mas se afastou antes que eu tivesse a oportunidade. Dirigi-me à escrivaninha e servi outra dose de uísque.

Bem, não é uma aparência muito estranha para essa região, certo? De vez em quando vejo um homem vestido assim na vila. Nããão... Frank parecia duvidar. Não, não eram suas roupas que pareciam estranhas. Mas quando passou por mim, eu poderia jurar que ele estava suficientemente perto para esbarrar na manga do meu casaco, mas não o fez. Fiquei tão intrigado que me virei para observá-lo conforme se afastava. Ele desceu a Gereside Road, mas quase ao chegar à esquina, ele..., desapareceu. Foi quando comecei a sentir um calafrio na espinha. Talvez a sua atenção tenha sido desviada por um instante e ele simplesmente tenha mergulhado nas sombras. Há muitas árvores no fim da rua. Posso jurar que não tirei os olhos dele nem por um segundo, Frank murmurou. Ergueu os olhos subitamente. Já sei! Lembro-me agora porque eu o achei tão estranho, embora não tivesse percebido isso na hora. O quê? Eu estava ficando um pouco cansada do fantasma e queria passar para questões mais interessantes, como a cama. Estava ventando forte, mas as pregas, sabe, do saiote e do xale quadriculados, elas simplesmente não se mexiam, excepto com o movimento dos seus passos. Fitámo-nos». In Diana Gabaldon, Nas Asas do Tempo, 1991, Casa das Letras, LeYa, 2010, 2016, ISBN 978-972-461-974-3.

Cortesia das CdasLetras/JDACT

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quarta-feira, 28 de julho de 2021

Diana Gabaldon. Nas Asas do Tempo. «Muito romântico, pensei, e com certa presença de espírito desliguei o interruptor, de modo que uma volta repentina da luz não estragasse o clima em algum momento inoportuno»

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«(…) Depois de passar algum tempo na sala com a sra. Baird, numa conversa amena e nada desagradável, subi para o meu quarto, para aprontar-me antes de Frank chegar. Sabia que o limite dele era de duas taças de xerez e, portanto, esperava-o de volta logo. O vento começava a soprar forte e o próprio ar do quarto estava carregado de electricidade. Passei a escova nos cabelos, fazendo os cachos estalarem com a estática e saltarem, emaranhando-se furiosamente. Meus cabelos teriam que passar sem as cem escovadelas esta noite, decidi. Com as actuais condições do tempo, iria apenas escovar os dentes. Fios de cabelo grudavam-se no meu rosto, agarrando-se teimosamente enquanto eu tentava afastá-los para trás. Nenhuma água no jarro; Frank a usara, arrumando-se antes de sair para o seu encontro com o sr. Bainbridge, e não se dera ao trabalho de enchê-lo novamente na torneira do banheiro. Peguei o frasco de L’Heure Bleu e despejei uma boa porção na palma da mão. Esfregando rapidamente as mãos antes que o perfume se evaporasse, passei-as pelos cabelos. Despejei mais um pouco na escova e penteei os cachos para trás das orelhas. Bem. Assim estava melhor, pensei, girando a cabeça de um lado para o outro para examinar os resultados no espelho manchado. A humidade dissipara a electricidade dos meus cabelos, de modo que eles agora flutuavam em ondas brilhantes e pesadas à volta do meu rosto. O álcool evaporado deixara um perfume muito agradável no ar. Frank iria gostar, pensei. L'Heure Bleu era sua colónia favorita.

De repente o clarão de um relâmpago bem próximo, seguido imediatamente pelo estrondo de um trovão, fez com que todas as luzes se apagassem. Praguejando baixinho, comecei a tactear dentro das gavetas. Em algum lugar, eu vira velas e fósforos; a queda da energia eléctrica era uma ocorrência tão frequente nas Highlands que as velas constituíam um suprimento indispensável em todos os quartos de hotéis e hospedarias. Eu as vira até mesmo nos hotéis mais elegantes, onde eram perfumadas com madressilvas e apresentadas em castiçais de vidro fosco com pingentes brilhantes. As velas da sra. Baird eram bem mais utilitárias, velas brancas comuns, mas havia muitas delas, assim como três caixas de fósforos. Não estava inclinada a ser exigente quanto à elegância num momento como aquele. Coloquei uma vela no suporte de cerâmica azul sobre a penteadeira iluminada pelo relâmpago seguinte, depois acendi outras pelo quarto, até que todo o aposento fosse tomado por uma luminosidade suave e bruxuleante. Muito romântico, pensei, e com certa presença de espírito desliguei o interruptor, de modo que uma volta repentina da luz não estragasse o clima em algum momento inoportuno. As velas não haviam queimado mais do que um centímetro quando a porta abriu-se e Frank entrou como um furacão. Literalmente, porque a rajada de vento que o seguiu escadas acima apagou três velas.

A porta fechou-se atrás dele com uma pancada que apagou mais duas velas. Esforçando-se para enxergar na escuridão repentina, passou a mão pelos cabelos desalinhados. Levantei-me e reacendi as velas, admoestando-o brandamente sobre os modos bruscos de entrar num aposento. Foi somente ao terminar e me virar para perguntar-lhe se gostaria de um drinque que vi que ele parecia um pouco pálido e perturbado. O que foi?, perguntei. Viu um fantasma? Bem, sabe, ele disse devagar, não tenho certeza se não vi. Distraidamente, ele pegou minha escova e ergueu-a para arrumar seus cabelos. Quando a fragrância repentina de L'Heure Bleu atingiu suas narinas, franziu o nariz e colocou-a de volta sobre a penteadeira, voltando a atenção para o pente que carregava no bolso. Olhei pela janela, onde os olmos agitavam-se de um lado para o outro como manguais. Uma persiana aberta batia em algum lugar do outro lado da casa e ocorreu-me que talvez devêssemos fechar as nossas, embora o alvoroço lá fora fosse interessante de observar». In Diana Gabaldon, Nas Asas do Tempo, 1991, Casa das Letras, LeYa, 2010, 2016, ISBN 978-972-461-974-3.               

Cortesia das CdasLetras/JDACT

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Nas Asas do Tempo. Diana Gabaldon. «Bem, sabe, interpôs o tabelião, às vezes eu acho que possa ser uma corruptela de uma antiga palavra escocesa, na verdade, yeuk. Significa tentação, ânsia, desejo»

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«(…) Revirei os olhos, pressentindo uma nova explosão de conhecimento, mas a sra. Baird sorriu cordialmente e encorajou-o, dizendo que era verdade, ela havia estado no norte e visto a pedra Dois Irmãos e isso era escandinavo, não era? Os escandinavos visitaram essa costa centenas de vezes entre 500 e 1300 d.C, aproximadamente, Frank disse, olhando sonhadoramente para o horizonte, vendo barcos normandos na nuvem varrida pelo vento. Vikings. E trouxeram muitos de seus mitos com eles. É um país bom para mitos. As coisas parecem criar raízes aqui.

Nisso eu podia acreditar. O crepúsculo se aproximava, assim como uma tempestade. Na estranha luz sob as nuvens, até as casas totalmente modernas ao longo da rua pareciam tão antigas e sinistras quanto a desgastada pedra do povo picto que ficava a uns trinta metros de distância, guardando a encruzilhada que marcava há mil anos. Parecia uma boa noite para ficar em casa com as persianas fechadas.

Ao invés de permanecer confortavelmente sentada na sala de visitas da sra. Baird, vendo imagens estereoscópicas de Perth Harbor, entretanto, Frank preferiu comparecer ao seu compromisso com o sr. Bainbridge, um tabelião com interesse em registros históricos locais, para tomar um xerez. Lembrando-me do encontro anterior que tivera com o sr. Bainbridge, resolvi permanecer em casa com Perth Harbor.

Procure voltar antes da tempestade - disse a Frank, dando-lhe um beijo de despedida. - E dê lembranças minhas ao sr. Bainbridge. Humm, sim. Sim, claro. Cuidadosamente evitando meus olhos, Frank encolheu os ombros dentro do seu sobretudo e partiu, pegando um guarda-chuva do suporte junto à porta. Fechei a porta quando ele saiu, mas deixei-a destrancada para que ele pudesse entrar ao voltar. Dirigi-me languidamente de volta à sala de visitas, reflectindo que Frank iria sem dúvida fingir que não tinha mulher. Uma farsa à qual o sr. Bainbridge iria se unir alegremente. Não que eu, particularmente, pudesse culpá-lo.

No começo, tudo correra muito bem em nossa visita à casa do sr. Bainbridge na tarde do dia anterior. Eu me mostrara recatada, bem-educada, inteligente, mas modesta, elegante e discretamente vestida - tudo que a mulher perfeita do professor universitário deveria ser. Até o chá ser servido. Agora, virei a minha mão direita, examinando, com tristeza, a grande bolha que se estendia pela base dos quatro dedos. Afinal, não era culpa minha que o sr. Bainbridge, um viúvo, se contentasse com um bule barato de metal, ao invés de um bule adequado de louça. Nem que o tabelião, procurando ser gentil, tivesse me pedido para servir o chá. Nem que a luva de panela que ele me deu apresentasse uma parte gasta que permitiu que o cabo em brasa do bule entrasse em contacto direto com minha mão quando o segurei.

Não, concluí. Deixar cair o bule foi uma reacção perfeitamente normal. Deixá-lo cair no colo do sr. Bainbridge foi apenas um infeliz acidente; tinha que deixá-lo cair em algum lugar. Foi minha exclamação Pu… que pariu!, em voz mais alta do que o berro de dor do sr. Bainbridge que fez Frank me olhar enfurecido por cima dos pãezinhos. Quando se recuperou do choque, o sr. Bainbridge mostrou-se muito gentil, examinando minha mão e ignorando as tentativas de Frank de se desculpar pelo meu linguajar, alegando que eu servira num hospital de campanha por quase dois anos. Receio que minha mulher acabou pegando algumas, hã, expressões mais pitorescas dos ianques e de outros - Frank sugeriu com um sorriso nervoso.

É verdade, eu disse, cerrando os dentes enquanto envolvia minha mão com um guardanapo embebido em água. Os homens tendem a ser muito pitorescos quando se está tirando estilhaços do corpo deles. Com muito tacto, o sr. Bainbridge tentou desviar a conversa para o campo neutro da história dizendo que sempre se interessara pelas variações do que fora considerado discurso profano através dos tempos. Havia Gorblimey, por exemplo, uma corruptela recente da imprecação God blind me. Sim, é claro, disse Frank, aceitando de bom grado o desvio da conversa. Sem açúcar, obrigado, Claire. E quanto a Gadzooks? A parte Gad é perfeitamente clara, naturalmente vem de God, mas zook...

Bem, sabe, interpôs o tabelião, às vezes eu acho que possa ser uma corruptela de uma antiga palavra escocesa, na verdade, yeuk. Significa tentação, ânsia, desejo. Faria sentido, não? Frank concordou, balançando a cabeça e deixando seu pouco erudito topete cair na frente da testa. Empurrou-o para trás automaticamente. Interessante, disse, toda a evolução do sacrilégio. Sim, e continua a acontecer, disse, pegando cuidadosamente um cubo de açúcar com a pinça. É mesmo?, disse o sr. Bainbridge. A senhora encontrou algumas variações importantes durante a sua, hã, experiência na guerra? Ah, sim, disse. A minha favorita, aprendi com um ianque. Um homem chamado Williamson, de Nova York, eu acho. Ele a dizia toda vez que eu trocava seu curativo. E qual era? Jesus H. Roosevelt Cristo, disse, deixando o cubo de açúcar cair cuidadosamente no café de Frank». In Diana Gabaldon, Nas Asas do Tempo, 1991, Casa das Letras, LeYa, 2010, 2016, ISBN 978-972-461-974-3.                                                       

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Diário do conde de Sarzedas. Vice-rei do Estado da Índia (1655 -1656). Artur T. Matos. «Era urgente que Portugal enviasse meios para enfrentar a crise, sob pena de perder-se o Estado da Índia, concluía o vice-rei no final de uma reunião do Conselho da Fazenda»

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«(…) Acompanhemos o primeiro dia de trabalho do novo vice-rei, já instalado no seu palácio levantou-se às 5 horas, ouviu missa e, na sala real, deu audiência a todos os que lhe quiseram falar. Depois, querendo demonstrar o seu empenhamento pessoal nas armadas que se aprestavam, foi à Ribeira dar calor à armada da colecta e às que seguiriam de socorro para Ceilão e para o Norte, bem como a outros navios. Aproveitou para visitar, na Ribeira, a Casa da Fundição e a do Armazém. Regressou ao palácio para jantar. De tarde reuniu o Conselho de Estado, onde analisou as cartas remetidas de Ceilão em meados do mês anterior. Estuda agora a possibilidade de enviar, com urgência, reforços para esta ilha, bem como para Tivim, ameaçado pelas tropas do Idalxá. Manifesta também o desejo de se deslocar em breve a esta praça.

O conde de Sarzedas cumpre, diariamente, uma agenda bem preenchida de tarefas governativas. Recebe embaixadores, fidalgos, o capitão-mar da cidade, o da armada do Norte e os de outros navios, o patriarca da Etiópia e indigitado arcebispo de Goa, o inquisidor, os vigários-gerais das Ordens, sobretudo o de São Domingos, ou os simples religiosos. Dá audiência a diversas pessoas em simultâneo, incluindo, por vezes, elementos da nobreza. Atende, no seu palácio, capitães-mores e os procuradores de Damão e de outras cidades do Norte e do Sul, para além de muitas pessoas. Reúne-se, frequentemente, com o secretário de estado, com o vedar da Fazenda ou com os dois em conjunto, mas também com os ouvidores-gerais do Cível e do Crime, com os ministros da Relação, dos Contos e da Mesa do Desembargo do Paço. Convoca, com regularidade, o Conselho de Estado e o Conselho da Fazenda, que faz reunir na denominada Sala da Rainha, cujas actas são, em bom número, hoje conhecidas. Despacha petições, envia cartas e ordens para diferentes partes e sobre variadíssimos assuntos do Estado.

A Ribeira é um dos locais que o vice-rei visita assiduamente. O apresto dos navios para o socorro de Ceilão e dos que seguiriam para o Norte, ou a partida da armada dos periches (pequeno barco, do tipo canoa ou almadia, usado no Canará e Malabar) que acompanhava a cáfila com destino a Cambaia e o carregamento das naus do Reino, são as razões que sobretudo invoca para tais deslocações. Mas também o fabrico de amarras e âncoras foram motivo da presença de Rodrigo Silveira no mesmo local, em dois dias muito próximos. O Tribunal da Relação, a Casa dos Contos, a Matrícula, a Casa da Pólvora e a Mesa do Desembargo do Paço foram outras das instituições que algumas vezes receberam a visita do vice-rei. A 4 de Setembro vai a Tivim observar o andamento dos trabalhos de fortificação, pelo que teve de se levantar às 4 horas da manhã, regressando já noite dentro. A consciência da importância da sua presença em certos actos públicos de culto e, por certo, a sua condição de cristão, levou-o também a deslocar-se ao Convento da Madre de Deus em Daugim, por ocasião das festas da Natividade e da Imaculada Conceição, ao dos Agostinhos para a festa do Bom Jesus no primeiro de Janeiro e no dia do seu patrono e à festa de São Francisco de Assis, celebrada pelos Franciscanos no convento da cidade. Também honrou, em pessoa, os Carmelitas Descalços na festa da padroeira, Santa Teresa D’Ávila onde, aliás, se confessou, comungou e assistiu a um sermão. Na festividade de Santa Catarina, promovida anualmente pelo Senado de Goa, incorporou-se na procissão, como também participou em idêntico acto litúrgico e noutros, comemorativos da Restauração, na catedral.

A festa de São Francisco Xavier mereceria uma visita ao Convento do Bom Jesus, para ouvir a pregação em vésperas do dia comemorativo em honra do Apóstolo das Índias. Para sua grande consolação, o corpo do santo já lhe havia sido aqui mostrado, logo após a sua chegada a Goa. Na Igreja de São Caetano dos Teatinos, assistiu, em dia da Exaltação de Santa Cruz, aos actos solenes aí realizados, tendo sido padrinho de um judeu que se convertera ao cristianismo quando detido no cárcere da Inquisição (maldita) de Goa. Nesta azáfama diária que nem conheceu descanso ao domingo ou dia santo, três assuntos parecem ter dominado a agenda política do conde vice-rei nos pouco mais de quatro meses em que dela deixou registo o apresto das armadas que faziam o comércio regional e garantiam o abastecimento às guarnições das diversas fortalezas portuguesas o agravamento da situação militar, quer no território de Goa, quer, sobretudo, em Ceilão e onde os portugueses davam mostras de não poderem resistir por muito mais tempo e, por último, a falta de recursos humanos, navais e, mormente, financeiros, que permitissem remediar de imediato a difícil situação em que o Estado da Índia se encontrava. Era urgente que Portugal enviasse meios para enfrentar a crise, sob pena de perder-se o Estado da Índia, concluía o vice-rei no final de uma reunião do Conselho da Fazenda». In Artur Teodoro Matos, Diário do conde de Sarzedas, Vice-rei do Estado da Índia (1655 -1656), Lisboa, colecção Outras Margens, CNCDPortugueses, 2001, ISBN 972-787-052-X.

Cortesia de CNCDP/JDACT

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terça-feira, 27 de julho de 2021

Moça com Brinco de Pérola. Tracy Chevalier. «Ela agora está fora, foi fazer compras. Tanneke vai-lhe mostrar a casa e explicar suas tarefas. Sim, madame. Concordei»

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«(…) Nenhum era como eu esperava que ele pintasse. Mais tarde, descobri que eram todos de outros pintores, ele raramente mantinha seus quadros na casa. Além de artista era comerciante de arte, e havia quadros em quase todos os cómodos da casa, até no que eu dormia. No total, eram mais de cinquenta, embora o número variasse, conforme ele os vendia. Venha, não precisa ficar olhando. A mulher andou rápido por um comprido corredor que percorria um lado da casa até aos fundos. Fui atrás dela até virar de repente para um quarto à esquerda. Na parede em frente havia um quadro que era maior que eu. Mostrava Cristo na cruz, rodeado pela Virgem Maria, Maria Madalena e São João. Tentei não olhar, mas me impressionei com o tamanho e a cena. Meu pai tinha dito que os católicos não eram muito diferentes de nós. Mas nós não tínhamos aqueles quadros nas nossas casas, em igrejas nem em lugar algum. Eu ia ter que ver aquele quadro todos os dias. Sempre chamei aquele lugar de quarto da Crucificação. Nunca me senti bem lá. O quadro me deixou tão espantada que só percebi a mulher no canto quando ela falou. Bem, menina, algo novo para você ver, disse ela. Estava numa cadeira confortável fumando um cachimbo. Os dentes que seguravam o cachimbo tinham escurecido e os dedos estavam manchados de tinta. No resto, era impecável: seu vestido negro, sua gola de renda, sua touca branca engomada. O rosto enrugado era duro, mas seus olhos castanho-claros pareciam simpáticos.

Era o tipo da velha que parecia que ia viver mais tempo que todos. De repente, pensei: é a mãe de Catharina. Não era apenas por causa da cor dos olhos e da mecha castanha que escapou da touca, igual à filha. Tinha o jeito de alguém acostumado a lidar com pessoas menos capazes do que ela, de cuidar de Catharina. Entendi por que tinha sido levada para ela e não para a filha. Embora me parecesse olhar distraída, estava atenta. Quando apertou os olhos, percebi que sabia tudo que eu pensava. Virei a cabeça de forma que minha touca escondesse o meu rosto. Maria Thins deu uma baforada no cachimbo e riu. Está bem, menina. Aqui, seus pensamentos ficam para você. Quer dizer então que vai trabalhar para minha filha. Ela agora está fora, foi fazer compras. Tanneke vai-lhe mostrar a casa e explicar suas tarefas. Sim, madame. Concordei.

Tanneke tinha ficado ao lado da senhora e passou por mim. Segui-a, com os olhos de Maria Thins batendo nas minhas costas. Ouvi ela rir outra vez. Tanneke me levou primeiro para os fundos da casa, onde havia uma cozinha, uma lavandaria e duas despensas. A lavandaria abria para um pequeno pátio cheio de roupas brancas secando. Para começar, essa roupa precisa passar, disse Tanneke. Fiquei calada, embora parecesse que a roupa ainda não estava bem seca pelo sol do meio-dia. Ela me levou aos fundos e apontou um buraco no chão de uma das despensas, com uma escada para descer. Você dorme aqui, anunciou. Ponha suas coisas lá e venha.

Relutante, deixei minha trouxa cair naquele pequeno buraco sombrio, pensando nas pedras que Agnes, Frans e eu jogávamos no canal para acertar nos monstros. Minhas coisas fizeram um som surdo no chão sujo e me senti como uma macieira perdendo sua maçã. Segui Tanneke pelo corredor, para onde se abriam todos os quartos, muito mais quartos que em nossa casa. Ao lado do quarto da Crucificação, onde estava Maria Thins, na frente da casa, havia um quarto menor com camas de crianças, penicos, mesinhas e cadeirinhas com vários objectos de barro, castiçais, espevitadeiras e roupas, uma bagunça. As meninas dormem aqui, resmungou Tanneke, talvez sem graça com aquela confusão.

Voltou para o corredor e abriu a porta de um quarto grande, onde a luz vinha das janelas da frente e batia no chão de ladrilhos vermelhos e cinzentos. O grande cómodo. Aqui dormem o patrão e a senhora, disse ela. A cama de dossel tinha cortinas de seda verde. Havia outros móveis no quarto: um grande armário com entalhe de ébano, uma mesa de madeira branca encostada nas janelas com várias cadeiras de couro espanhol ao redor». In Tracy Chevalier, Moça com Brinco de Pérola, 1999, Bertrand Brasil, 2002, ISBN 978-852-860-957-8.

 

Cortesia de BertrandB/JDACT

Johannes Vermeer, Século XVII, JDACT, Pintura, Literatura,  

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Moça com Brinco de Pérola. Tracy Chevalier. «Os outros quadros eram de coisas mais conhecidas: pilhas de frutas, paisagens, navios no mar, retratos. Pareciam ser de vários pintores. Fiquei pensando qual deles seria do meu novo patrão»

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«(…) É melhor você estourar antes que batam no chão, sugeri. Senão, vai precisar limpar os ladrilhos outra vez. A mais velha abaixou a haste onde soprava. Quatro duplas de olhos me olharam de um jeito que não deixava dúvidas de que eram irmãs. Vi vários traços dos pais nelas: olhos acinzentados aqui, castanhos claros lá, rostos angulosos e movimentos impacientes. Você é a nova criada?, perguntou a mais velha. Mandaram a gente esperar você, interrompeu a menina ruiva, antes que eu pudesse responder. Cornélia, vai chamar Tanneke, mandou a mais velha. Vá você, Aleydis, disse Cornélia para a caçula, que arregalou os olhos para mim, mas não se mexeu. Eu vou. A mais velha deve ter achado que a minha chegada era importante, afinal. Não, eu vou. Cornélia pulou e correu na frente da irmã mais velha, deixando-me sozinha com as duas meninas mais caladas. Olhei para o bebé que batia braços e pernas no colo da menina. - É seu irmão ou irmã? Irmão, respondeu a menina com uma voz macia como um travesseiro de plumas. O nome dele é Johannes, mas nunca chame de Jan. Fez a recomendação como se fosse um refrão conhecido. Sei. E você, como se chama?

Lisbeth. E esta é Aleydis. A caçula sorriu para mim. As duas estavam arrumadinhas, de vestido marrom com aventais e toucas brancas. E sua irmã mais velha? Maertge, nunca chame de Maria. Nossa avó é Maria. Maria Thins. Esta casa é dela. O bebé choramingou. Lisbeth montou-o no joelho, para cima e para baixo. Olhei a casa. Sem dúvida, era maior que a nossa, mas não tanto quanto eu temia. Tinha dois andares e mais um sótão, enquanto a nossa tinha apenas um quarto e um pequeno sótão. Era uma casa de final de rua, com a Molenpoort de um lado, um pouco mais espaçosa do que as outras. Parecia menos apertada que muitas casas de Delft, que eram coladas umas às outras em estreitas fileiras de tijolo às margens dos canais, com suas chaminés e tectos inclinados reflectidos na água verde do canal. As janelas térreas da casa eram bem altas, e no primeiro andar havia três janelas juntas, em vez de duas como nas demais casas da rua.

Da casa, via-se a torre da Nova Igreja do outro lado do canal. Uma estranha vista para uma família católica, pensei. Uma igreja onde jamais entrariam. Então você é a criada, não?, ouvi alguém perguntar, atrás de mim. A mulher na porta tinha um rosto largo, com marcas da varíola que tivera há tempos. Seu nariz era grande e irregular e seus grossos lábios se apertavam formando uma boquinha. Os olhos eram azul-claros, como se ela tivesse um toque de céu neles. Estava de vestido marrom com camisa branca, uma touca bem apertada na cabeça e um avental não tão limpo quanto o meu. Ficou parada na porta de modo que Maertge e Cornélia tiveram de empurrá-la para ficar ao seu lado, olhando-me de braços cruzados como se esperassem um desafio. Ela já se sente ameaçada por mim, pensei. Se deixar, vai-me tiranizar. Meu nome é Griet, falei, olhando-a de frente. Sou a nova criada. A mulher mudou o peso do corpo de uma perna para a outra. Então é melhor entrar, concluiu logo. Afastou-se para o interior escuro para dar passagem na porta. Entrei. Sempre me lembro dos quadros, na primeira vez que entrei na sala da frente. Parei na porta, segurando minha trouxa, e olhei. Já tinha visto quadros, mas nunca tantos num só lugar. Contei onze. O maior era de dois homens, quase nus, lutando. Não identifiquei nenhuma história bíblica e achei que devia ser algum tema católico. Os outros quadros eram de coisas mais conhecidas: pilhas de frutas, paisagens, navios no mar, retratos. Pareciam ser de vários pintores. Fiquei pensando qual deles seria do meu novo patrão». In Tracy Chevalier, Moça com Brinco de Pérola, 1999, Bertrand Brasil, 2002, ISBN 978-852-860-957-8.

 

Cortesia de BertrandB/JDACT

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Memórias Secretas de Dona Carlota Joaquina. José Presas. «Esse livro se caracteriza, sobretudo, pela polémica com o abade de San Juan de la Pena, defensor do absolutismo e de Fernando VII»

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«(…) Merecia absoluta confiança da princesa. Pode-se dizer que foi ele quem conduziu sobre os ombros o pesado encargo de todas as negociações a fim de realizar os propósitos da infanta, tendo activa correspondência com os partidários de sua senhora e com vice-reis e demais autoridades coloniais. O marquês de Casa Irujo lhe imputa o facto de haver protegido no Rio de Janeiro os perseguidos pelo vice-rei de Buenos Aires. Isso, se realmente prejudicava os interesses da Espanha, favorecia os da princesa, posto que muitos desses perseguidos eram partidários seus. Por sua mediação, foram enviados importantes auxílios para Montevideu, sendo, para isso, burladas as intrigas de lord Strangford. Apesar das censuras dos historiadores argentinos à conduta de Presas, devemos reconhecer nele grande habilidade para a intriga e excelente perspicácia para observar as questões políticas. Esses dons representam o motivo que influi para que o embaixador inglês obtivesse, em 1812, a separação de Presas da princesa, seguindo ele para a Espanha no desempenho de missão especial. Sua vida, anos mais tarde, na Espanha, teve lances de certa sensação. Resolveu o ex-secretário de dona Carlota Joaquina fazer-se publicista, contribuir com a sua opinião para o esclarecimento das questões políticas e entrou logo a guerrear o absolutismo. O seu primeiro livro, impresso na casa Carlos Lawalle Sobrinho, em Bordeaux, circulou em 1817 e despertou grande celeuma, sendo proibido por decisão das autoridades policiais.

Aludindo a esse panfleto, cujo autor mereceria, no seu entender, pena de açoites, senão mesmo de fuzilamento, disse o alcaide de Madrid, Julian Cid Miranda: se Presas cai em meu poder, em menos de três dias eu o terei mandado à Plaza de la Cebada... Era o lugar em que os inimigos da realeza pagavam pela sua audácia. Presas teve, porém, a prudência de fugir para a França... Esse livro não era outro senão a Pintura de los males que há causado a la España el gobierno absoluto de los últimos reinados y de la necessidad del restablecimiento de las antiguas cortes por estamentos, o de una Carta Constitucional dada por el rey Fernando.

Além desse livro e destas Memórias secretas de Dona Carlota Joaquina, escreveu Presas um Juicio imparcial sobre las principales causas de la revolución de la América Española, y acerca de las poderosas razones que tiene la Metropoli para reconocer su absoluta independencia, um proyecto sobre el nuevo método de convocar lãs antiguas cortes de Espanã, conforme a las leyes fundamentales de la monarquia, y arreglado a las luces y circunstancias del dia; um panfleto político, Filosofía del trono y del altar del império y del sacerdocio, a que se seguiu outro: El triunfo de la verdad; e , por fim, uma Cronología de los sucesos más memorables ocurridos em todo el âmbito de la monarquia española, desde el año 1759 hasta 1836, este editado na Imprenta de M. Calero, em Madrid, em 1836, ao passo que todos os demais foram impressos em Bordeaux.

Imprimiu também, em 1815, antes de qualquer outro livro, uma Representación que eleva al Rey Nuestro Señor D.Fernando VII, por motivo das perseguições que sofreu em Granada, onde foi contador provincial, por parte de vários empregados por ser ligado à família reinante e, especialmente, à princesa do Brasil, de quem fora secretário. Em El triunfo de la verdad, publicou o ex-secretário de dona Carlota as cartas de Fernando VII a Napoleão Bonaparte, escritas em Valençay e nas quais o fraco soberano espanhol, num deplorável excesso de bajulação e covardia, felicitava o poderoso imperador dos franceses, usurpador de sua coroa e dos seus domínios, pelas brilhantes vitórias militares alcançadas... Esse livro se caracteriza, sobretudo, pela polémica com o abade de San Juan de la Pena, defensor do absolutismo e de Fernando VII». In José Presas, Memórias Secretas de Dona Carlota Joaquina, Edição do Senado Federal, volume 130, Brasília, 2013, ISBN 978-857-018-271-5.

Cortesia de ESenadoFederal/JDACT

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Memórias Secretas de Dona Carlota Joaquina. José Presas. «… como secretário de dona Carlota mereceu sempre lisonjas por parte desta, que apreciava e reconhecia nele as qualidades necessárias para o desempenho da sua difícil missão»

Cortesia de wikipedia e jdact

«As Memórias Secretas de dona Carlota Joaquina de José Presas constituem um dos livros mais pitorescos e mais ricamente informativos que se escreveram sobre o período regencial do Brasil. Essa obra, verdadeira raridade, que poucas bibliotecas actualmente possuem, nas suas duas únicas edições, uma tirada em Bordeaux, em 1830, na casa impressora Carlos Lawalle & Sobrinho, e outra em 1858, na Imprenta El Comércio, de Montevidéu, é citada unicamente por todos os historiadores que se ocuparam daquele importante período da nossa história ou da intriga desenvolvida pela princesa do Brasil para se apossar da coroa de rainha do Prata, em detrimento dos interesses de seu próprio irmão, o rei Fernando VII, da Espanha. Para alguns historiadores, como, por exemplo, Oliveira Lima, essa obra deve ser examinada sob prudente reserva. O depoimento de Presas é apaixonado e injusto, sem dúvida, em muitos passos. Isso, porém, não invalida a larga soma de informações que o livro possui sobre uma série de factos e episódios que interessam à história. Para outros, porém, o testemunho de Presas é digno de fé, merecedor de crédito. A julgar pela opinião da própria Carlota Joaquina, seu secretário deve merecer inteira fé, diz o sr. Tobias Monteiro, na sua nota à sua História do Império (Elaboração da Independência,  procurando dar forças a essa opinião com a transcrição da carta em que a princesa, recomendando-o a Fernando VII, dizia que era ele desprovido de toda a mentira e lisonja. Não pode, porém, prevalecer esse julgamento de dona Carlota sobre a atitude futura de José Presas. A princesa o teria, com toda a certeza, reformado totalmente... Preferimos, neste passo, a opinião de Oliveira Lima, que muito aproveitou, na sua obra D. João VI no Brasil, os subsídios de Presas. Podemos dizer, sem nenhum erro, que o retrato moral e físico da princesa, nessa obra se baseia quase que exclusivamente nos apontamentos das Memórias secretas de Dona Carlota Joaquina, também utilizados, em maior ou menor escala, em Duas grandes intrigas, de Alfredo Varela; A Corte de Portugal no Brasil, de Luís Norton; Carlota Joaquina, de César Silva; A Corte no Brasil, de A. C. d’Araújo Guimarães; Carlota Joaquina, de Assis Cintra; e D. João VI no Brasil, livro de Luís Edmundo que está sendo publicado fraccionadamente na imprensa.

Quem era esse singular personagem, que surgiu inesperadamente no Rio de Janeiro e se ligou, de tal forma, à história do período regencial no Brasil? São poucos os vestígios que deixou José Presas de si mesmo nos arquivos e bibliotecas. Os dicionários biográficos nada dizem sobre a sua existência, seu nascimento, sua origem, suas obras, sua morte. Omissão completa e inexplicável. Pouco conseguimos apurar sobre esse misterioso espanhol, hábil intrigante, arguto observador dos acontecimentos políticos, homem de muito engenho e habilidade, capaz de encher de sonhos vãos a cabeça da infanta Carlota, servi-la, enquanto possível, como secretário e homem de confiança e, em seguida, ainda obter, por sua real mercê, uma boa sinecura na Espanha, além da promessa de uma gorda pensão... O não pagamento dessa pensão foi a origem deste curioso livro, cheio de encarecimento dos serviços prestados e de ameaças de escândalo, caso não fosse o autor pago dos atrasados de dezassete anos de completo olvido...

Do pouco que se sabe ao seu respeito, consta o seu lugar de origem, a Catalunha. Meninote, ainda, José Presas fora para Buenos Aires, onde se educou sob os cuidados de seu tio e protetor, dom Francisco Sálvio Marull, que o internou, por sua conta, no Real Colégio de São Carlos. Terminado o curso de humanidades, Presas cursou a Universidade de Charcas, onde obteve o título de licenciado em leis. Estabeleceu-se, então, por conta própria, em Buenos Aires, com banca de advogado, fazendo-se chamar, de então por diante, dr. Presas. Quando a Inglaterra, tomando represálias contra a atitude política da Espanha em face de Napoleão, fez invadir Buenos Aires, Presas se declarou pelo partido inglês, convencido de que a dominação britânica era um facto consumado. Ao verificar-se a reconquista de Buenos Aires, com Santiago Liniers à frente, Presas foi preso como traidor, conseguindo, no entanto, fugir para o Rio de Janeiro. Nas Memórias secretas de Dona Carlota Joaquina o ardiloso catalão omite, por completo, esses interessantes detalhes...

A maneira pela qual chegou ao Rio e se colocou ao serviço da princesa, ele próprio no-la relata nesse trabalho. J. M. Rubio, na sua obra La infanta Carlota Joaquina y la politica de España en América, dá-nos algumas notas sobre as actividades de Presas: sua actuação como secretário de dona Carlota mereceu sempre lisonjas por parte desta, que apreciava e reconhecia nele as qualidades necessárias para o desempenho da sua difícil missão». In José Presas, Memórias Secretas de Dona Carlota Joaquina, Edição do Senado Federal, volume 130, Brasília, 2013, ISBN 978-857-018-271-5.

Cortesia de ESenadoFederal/JDACT

JDACT, José Presas, Literatura, Carlota Joaquina, Brasil, 

domingo, 25 de julho de 2021

Carlos Haag. A Mulher Que Amamos Odiar. «A traição teve um preço alto: Carlota foi colocada incomunicável, confinada no palácio como prisioneira, afastada dos amigos e dos pais e a sua correspondência…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O conhecimento que boa parte de nós tem sobre Carlota Joaquina (1775-1830) costuma ter densidade de um enredo histórico de escola de samba: é aquela espanhola bigoduda que odiava o Brasil e chacoalhou os sapatos ao sair daqui, para não levar nenhum grão de poeira do país. O filme de Carla Camurati tampouco ajudou muito: se ajudou o renascimento do cinema nacional, enterrou de vez a personalidade da soberana. O movimento liberal e as transformações sociais e políticas do século XIX exigiram reinvenções do passado como forma de legitimar um presente que se queria construir. Carlota Joaquina, rainha portuguesa que nunca perdeu a sua identidade espanhola, foi contra a vinda da família real ao Brasil, e declarou o seu regozijo com a volta a Portugal, que defendeu o absolutismo e se recusou a assinar a Constituição Liberal portuguesa, certamente não servia para subir ao pódio dos personagens dignos da memória nacional, explica a professora Francisca Nogueira Azevedo, autora do recém-lançado Carlota Joaquina na Corte do Brasil (Civilização Brasileira), um retrato surpreendente da rainha, que surge como uma política hábil, capaz de ir muito além do papel subalterno a que a corte lusitana constrangia as mulheres.

Não foi a intenção da pesquisadora fazer a reabilitação de sua figura histórica. Quis acompanhar a trajectória de vida de Carlota, preocupada com o universo feminino de seu tempo, com a produção historiográfica que delineou os estereótipos que marcam a sua memória e com sua actuação na esfera pública, onde, desde fins do século XVIII, ela assume um papel preponderante na política externa portuguesa, avalia a Francisca. Filha primogênita do rei Carlos IV, de Espanha, casou-se, com apenas 10 anos, com o futuro dom João VI. Embora um típico casamento diplomático que visava ao pacto entre as duas coroas ibéricas, nas cartas referia-se ao marido como um homem bom e honesto, culpando o grupo que os cercava pela desarmonia do casal, que, em 1806, chegou ao ápice com a chamada Conspiração do Alfeite. Vários documentos comprovam que dom João passou por um longo período de depressão, afastando-se completamente do poder. A corte portuguesa dividia-se, então, entre anglófilos e francófilos. O grupo de tendência francesa apoiou Carlota para que ela assumisse o poder, como regente no lugar do marido.

A traição teve um preço alto: Carlota foi colocada incomunicável, confinada no palácio como prisioneira, afastada dos amigos e dos pais e a sua correspondência passou a ser controlada pelo grupo político de dom João. É nesse espírito que se vê a bordo de um navio com destino à Colónia, onde, mal chegando, descobriu que os pais, monarcas da Espanha, estavam prisioneiros de Napoleão, com quem haviam estabelecido pouco antes uma aliança (condenada por Carlota com notável antecipação) que permitira a Bonaparte cruzar o território espanhol para invadir Portugal. O irmão de Carlota, Fernando VII, liderou um motim contra o pai e deu a Napoleão a chance de arrancar o trono dos espanhóis para colocar em seu lugar o irmão José Bonaparte. Assim, o problema maior de Carlota não era a Colónia, mas as condições em que veio para o Brasil, praticamente um exílio. As uas cartas revelam sua luta para, de início, não partir de Portugal e, depois, o seu desejo de voltar à Europa. Não encontrei nenhuma referência a um desprezo pelo Brasil, mas várias tentativas de sair da Colónia, diz Francisca.

Sem rei, os criollos dos vice-reinados espanhóis na América viram a chance de pôr fim à opressão dos Bourbon, movimento logo percebido por Carlota. No exílio colonial, ela decidiu lutar pela preservação do império de seu pai nos trópicos. Carlota queria a regência da Espanha e, a partir da sede da monarquia, em Buenos Aires, coordenar a resistência à invasão napoleónica e garantir para a dinastia dos Bourbon a coroa espanhola, ou seja, fazer o mesmo que dom João fez, diz a pesquisadora. Para tanto, reuniu o apoio de parte da nobreza espanhola e da portuguesa, descontente com a vinda da Corte ao Brasil, à ajuda intelectual do almirante-de-esquadra britânico no Rio, Sidney Smith, e enviou, em 1808, um manifesto à Espanha, no qual se coloca como a defensora dos direitos de sua família. Ganhou, com isso, na Colónia, pesados inimigos para seus planos de se tornar a regente exilada de Espanha. Entre eles, o chefe do gabinete de dom João, o conde de Linhares, que logo percebeu o perigo dessa acção para seus planos de estender o império português para as áreas ocupadas pela coroa espanhola. O conde tinha um aliado forte: lord Strangford, o embaixador inglês em Lisboa e desafecto de Smith. Strangford achava que o Brasil deveria ser um empório para as mercadorias inglesas, destinadas ao consumo de toda a América do Sul.

O embaixador espanhol no Rio também se irou com Carlota, pois tinha ordens expressas da junta que governava a Espanha de mantê-la longe das colónias de Prata. Afinal, as lembranças desagradáveis da última união entre as coroas ibéricas levava a considerar os infortúnios que viriam de uma nova soberania portuguesa sobre os hispânicos. Como se não bastasse, Carlota, apesar do que diziam seus desafectos, não era um homem… O sistema que ordenava a sociedade lusitana entre os séculos XVIII e XIX privava a mulher do convívio social, mantendo-a presa ao quotidiano doméstico. A atuação de Carlota na esfera pública, negociando acordos diplomáticos, articulando com parte da nobreza portuguesa para ascender ao poder a pleiteando a regência da Espanha, certamente transgredia o espaço determinado para as princesas consortes na corte bragantina, observa Francisca». In Carlos Haag, A Mulher Que Amamos Odiar, 2004, Edição 96, 2004, Wikipédia.

cortesia de wikipedia/jdact

JDACT, Carlos Haag, Conhecimento, Carlota Joaquina, 

sábado, 24 de julho de 2021

José Saramago. Memorial do Convento. «… foi enterrado um rapazito de quem não chegou a averiguar-se o nome e que levou acompanhamento completo, iam os pais, e os avós, e os tios, outros parentes, quando o infante Pedro chegar ao céu e souber destas diferenças, vai ter um grande desgosto»

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«(…) Mas Deus, ou quem lá no céu decide da duração das vidas, tem grandes escrúpulos de equilíbrio entre pobres e ricos, e, sendo preciso, até às famílias reais vai buscar contrapesos para pôr na balança, a prova é que, por compensação da morte desta criança, morrerá o infante Pedro quando chegar à mesma idade, e porque, querendo Deus, qualquer causa de morte serve, a que levará o herdeiro da coroa de Portugal será o tirarem-lhe a mama, só a infantes delicados isto aconteceria, que o filho de Inês Antónia, quando morreu, já comia pão e o mais que houvesse. Equilibrada a contagem, desinteressa-se Deus dos funerais, por isso em Mafra foi só um anjinho a enterrar, como a tantos outros sucede, mal se dá pelo acontecimento, mas em Lisboa não podia ser assim, foi outra pompa, saiu o infante da sua câmara, metido no caixãozito que os conselheiros de Estado levavam, acompanhado de toda a nobreza, e ia também el-rei, mais os irmãos, e se ia el-rei seria por dor de pai, mas principalmente por ser o falecido menino primogénito e herdeiro do trono, são as obrigações do protocolo, vieram descendo até ao pátio da capela, todos de chapéu na cabeça, e quando o caixão foi colocado nas andas que o haviam de transportar, descobriu-se el-rei e pai, e, tendo-se descoberto e coberto outra vez, voltou para o paço, são as desumanidades do protocolo. Lá seguiu o infante sozinho para S. Vicente de. Fora, com o seu luzido acompanhamento; sem pai nem mãe, à frente o cardeal, depois a cavalo os porteiros da maça, os oficiais da casa e títulos, a seguir iam os clérigos e moços da capela, menos os cónegos, que esses foram esperar o corpo a S. Vicente, todos de tochas acesas nas mãos, e logo a guarda em duas alas, adiante os seus tenentes, e agora sim, vem aí o caixão, coberto por uma riquíssima tela encarnada, que também cobre o coche de Estado, e atrás do caixão segue o duque de Cadaval velho, por ser mordomo-mor da rainha, cuja, se tem entranhas de mãe, estará chorando o seu filho, e, por ser dela estribeiro-mor, vai também o marquês das Minas, pelas lágrimas se lhe contará o amor, não pelos títulos que a servem, e os tais panos, mais os arreios e cobertas dos machos, ficarão para os frades de S. Vicente como é antigo costume, e pela serventia dos machos, que são dos ditos frades, foram pagos doze mil réis, é um aluguer como outro, não estranhemos, que machos não são os humanos, mesmo machos sendo, e também os alugam, e tudo isto junto faz pompa, circunstância e solenidade, pelas ruas por onde o funeral passa estão em alas os soldados, mais os frades de todas as ordens, sem excepção, além dos mendicantes como donos da casa que receberá o menino morto de desmame, privilégio que os frades muito merecem, como mereceram o convento que vai ser construído na vila de Mafra, onde há menos de um ano foi enterrado um rapazito de quem não chegou a averiguar-se o nome e que levou acompanhamento completo, iam os pais, e os avós, e os tios, outros parentes, quando o infante Pedro chegar ao céu e souber destas diferenças, vai ter um grande desgosto». In José Saramago, Memorial do Convento, Editorial Caminho, O Campo da Palavra, 27ª Edição, 1998, ISBN 972-21-0026-2.

 cortesia de Caminho/JDACT

Leituras, JDACT, José Saramago, O Saber, A Arte, Nobel da Literatura, 

sexta-feira, 23 de julho de 2021

José Saramago. Memorial do Convento. «Vem-te deitar comigo, que já comi o meu pão. Era ainda noite fechada, Baltasar acordou, puxou para si o corpo adormecido, morna frescura enigmática, ela murmurou o nome dele, ele disse o dela…»

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(…) O pai disse, Vendi a terra que tínhamos na Vela, não que a vendesse mal, treze mil e quinhentos réis, mas vai fazer-nos falta, Então porque a vendeu, Foi el-rei quem a quis, a minha e outras, E para que as quis el-rei, Vai mandar construir ali um convento de frades, não ouviste falar disso em Lisboa, Não senhor, não ouvi, Disse aí o vigário que foi por causa duma promessa que el-rei fez, se lhe nascesse um filho, quem agora pode ganhar bom dinheiro é o teu cunhado, vão precisar de pedreiros. Tinham comido feijões e couves, apartadas as mulheres e de pé, e João Francisco Sete-Sóis foi à salgadeira e tirou um bocado de toucinho, que dividiu em quatro tiras, pôs cada uma em sua fatia de pão e distribuiu em redor. Ficou a olhar alerta para Blimunda, mas ela recebeu a sua parte e começou a comer tranquilamente Não é judia, pensou o sogro. Marta Maria também olhara, inquieta, depois encarou o marido com severidade, como se estivesse a recriminá-lo pela astúcia. Blimunda acabou de comer e sorriu, não adivinhava João Francisco que ela teria comido o toucinho mesmo que fosse judia, é outra a verdade que tem de salvar. Baltasar disse, Tenho de procurar trabalho, e Blimunda também irá trabalhar, não podemos ficar às sopas, Para Blimunda não haja pressa, quero que ela fique aqui em casa por uns tempos, quero conhecer a minha filha nova, Está bem, mãe, mas eu preciso arranjar trabalho, Com essa mão a menos, que trabalhos farás, Tenho o gancho, pai, que é uma boa ajuda quando se está habituado, Será, mas cavar não podes, ceifar não podes, rachar lenha não podes, Posso tratar de animais, Sim, isso podes, E também posso ser carreiro para segurar a soga basta o gancho, a outra mão fará o resto, Filho, estou muito contente por teres voltado, E eu já devia ter voltado, pai. Nessa noite Baltasar sonhou que andava a lavrar com uma junta de bois todo o alto da Vela e que atrás dele ia Blimunda espetando no chão penas de aves, depois estas começaram a agitar-se como se fossem levantar voo, capaz a terra de ir com elas, surgiu o padre Bartolomeu Lourenço com o desenho na mão a apontar o erro que tinham cometido, vamos voltar ao princípio, e a terra apareceu outra vez por lavrar, estava Blimunda sentada e dizia-lhe, Vem-te deitar comigo, que já comi o meu pão. Era ainda noite fechada, Baltasar acordou, puxou para si o corpo adormecido, morna frescura enigmática, ela murmurou o nome dele, ele disse o dela, estavam deitados na cozinha, sobre duas mantas dobradas, e silenciosamente, para não acordarem os pais que dormiam na casa de fora, deram-se um ao outro.


«Ao outro dia vieram a festejar a chegada, e a conhecer a nova parenta, Inês Antónia, irmã de Baltasar, e o marido, que afinal se chama Álvaro Diogo. Trouxeram os filhos, um de quatro anos, outro de dois, só o mais velho vingará, porque ao outro hão-de levá-lo as bexigas antes de passados três meses». In José Saramago, Memorial do Convento, Editorial Caminho, O Campo da Palavra, 27ª Edição, 1998, ISBN 972-21-0026-2.

Cortesia de Caminho/JDACT

Leituras, JDACT, José Saramago, O Saber, A Arte, Nobel da Literatura,