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domingo, 13 de abril de 2025

Enquanto Salazar Dormia. Domingos Amaral. «… às vezes dá a outra metade, prometida. Então, nos dias seguintes, os criados de mesa dos hotéis telefonam…»

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Mary

«(…) Vindo de Madrid, nos próximos dias chegaria a Lisboa um homem, de seu nome Nubar Gulbenkian, filho de um milionário arménio. Ficaria instalado no Aviz, o melhor hotel da cidade. O homem traria informações sobre dois pilotos ingleses da RAF, que estavam a atravessar clandestinamente a Espanha. Mary teria de os fazer entrar em Portugal, sem a PVDE notar, e de os fazer seguir para Londres. Não posso ser eu a falar com o Nubar, explicou Mary. Isso seria desmascará-lo. É um importante apoio nosso, mas tem de permanecer secreto. Se os nazis o descobrem é um desastre. Porquê? Mary olhou para mim, como se a calcular o quanto podia contar. O Nubar é um excêntrico. Passeia-se em Lisboa a pé, com uma bengala, seguido uns metros atrás pelo seu Rolls Royce, que guarda na garagem do Aviz. A sua excentricidade é um bom disfarce. Deu uma curta gargalhada, e acendeu outro cigarro: sabes o que contam dele? Sempre que se senta à mesa dos restaurantes dos hotéis, em Lisboa ou no Estoril, rasga uma nota ao meio e dá metade ao criado que o está a servir, prometendo-lhe a outra metade para o final da refeição, se considerar que foi bem servido.

Como é imprevisível, às vezes dá a outra metade, outras esquece-se, ou não dá a metade prometida. Então, nos dias seguintes, os criados de mesa dos hotéis telefonam uns para os outros, à procura da metade da nota que lhes falta, a ver se algum dos outros a tem! Rimo-nos. Naquela época, Lisboa era também um porto de abrigo de muitos milionários europeus, fugidos à guerra, e a cidade fascinava-se com as características de tão ilustres visitantes. Como é que ele sabe que pode confiar em mim?, perguntei. Mary enviaria a Nubar uma mensagem através de um criado do Hotel Aviz. Era outra característica de Lisboa: os criados dos hotéis eram verdadeiros pombos-correios, além de fontes preciosas de informação. O problema era que alguns também trabalhavam para os nazis.

É um dos nossos, murmurou. Uma certa excitação invadira-me. Sentia-me a ser posto à prova. Mary, contudo, tomou a emoção por receio. Não há perigo nenhum, Jack Gil. É só entrares no hotel, pedires para falar com o homem, e depois transmitires-me o que ele te disser. Não há pistolas fumegantes, nem nazis a espreitar nos corredores. Foi a minha vez de dar uma gargalhada: és muito persuasiva! Mirou-me através do seu copo de brandy, e a sua cara surgiu-me deformada pelo vidro e pelas pedras de gelo: confio em ti, Jack Gil. Não sei bem porquê. Ou talvez saiba... Talvez saibas? Desviou o copo, fazendo contacto visual comigo: sabes segurar muito bem nas saias de uma mulher. E isso é razão para confiares num homem? Mary levantou-se e caminhou pela sala na direcção da janela. Lá fora, o ciclone aumentara de intensidade. As portadas exteriores das janelas batiam com força contra a parede, produzindo um ruído desagradável.

Está feio, comentou Mary, observando a rua, e repetiu o que dissera horas antes no carro. Deve ser por isso que hoje não há ninguém a ver ninguém. Era como se o facto de não existir ninguém a observá-la a libertasse da opressão. Foi talvez nesse momento que percebi que era muito infeliz em Lisboa. A sua solidão comoveu-me. Com o passar dos meses viria a confirmar que, sem filhos e com um casamento moribundo, Mary estava à beira de um colapso. Achas que Salazar está a dormir?, perguntou ela, mudando de novo o rumo da conversa. Passava da meia-noite. Dizia-se que Salazar dormia pouco, mas era provável que àquela hora estivesse deitado. Acho que sim. Mary sorriu: um ditador nunca dorme. Pode ser neutral, mas não dorme»» In Domingos Amaral, Enquanto Salazar Dormia, 2006, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-174-6.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Lisboa, Espionagem,

sábado, 31 de agosto de 2024

No 31. Por Amor a uma Mulher. Domingos Amaral. «Em Toledo, o seu destino estava traçado. A sua única possibilidade era uma imediata fuga, e fora isso que fizera»

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NOTA: Afonso Henriques, nascido em 1109, filho do conde Henrique e de dona Teresa, neto de Afonso VI de Leão e primo direito de Afonso VII. Tem uma relação amorosa com Elvira Gualter, da qual nasceram duas filhas, Urraca e Teresa Gualter; e outra com Chamoa Gomes, de quem tem dois filhos, Fernando e Pedro Afonso. Será reconhecido com rei de Portugal, em 1143, em Zamora.

Coimbra, Maio de 1126

«Nesse momento, Fátima olhou para a irmã Zaida, com um sorriso triunfante, mas a outra fez-lhe uma careta. Sem ligar às diatribes silenciosas das filhas, Zulmira prosseguiu: Para mais, Afonso VI nunca ajudou meu avô Al-Mutamid. Tempos depois, chegou a segunda notícia fatal: Sevilha fora também tomada pelos almorávidas de Yusuf, e Al-Mutamid tinha sido levado preso para Marraquexe, onde morreria.

A minha raiva tornou-se gigantesca, confessou Zulmira. Ainda mais enfurecida ficou quando Afonso VI se passou a intitular o «Imperador das Duas Religiões», argumentando que o seu herdeiro legítimo, o príncipe Sancho, era tão cristão como muçulmano. Era o cúmulo da afronta!, exclamou.

Como Zulmira viria a descobrir, não era a única a ter tais sentimentos. Os nobres e os bispos de Castela e Leão abominavam aquela farsa da união das duas religiões, e a hostilidade ao varão do imperador crescia, contaminando Dona Urraca e Dona Teresa, iradas por terem sido ultrapassadas por Sancho na linha sucessória.

Certo dia, quando Zulmira passeava pelas ruas de Toledo, dois homens obrigaram-na a segui-los. Fora levada a uma casa e, num ambiente escuro, tinham-lhe proposto um sinistro acordo. Desafiaram-na a matar o meio-irmão Sancho, coisa que ela podia fazer facilmente, pois circulava à vontade na corte. Em troca, o grupo dos conspiradores garantia-lhe proteção contra a fúria de Afonso VI. Zulmira suspirou e depois disse:

Não posso jurar, pois não lhes vi bem as caras, mas suspeito de que entre aquelas pessoas estavam Dona Urraca e Dona Teresa. Zaida levou a mão à boca, compreendendo o perigo que ainda corria a mãe. Se um dia a reconhecesse, Dona Teresa podia mandar matá-la! Há nove anos, em Coimbra, achei que ela me identificara, mas depois percebi que não, recordou Zulmira. Mas outros podem fazê-lo, por isso não fui a Ricobayo nem a Toledo, e fingi doenças. .

Fascinada pelo intrigante golpe palaciano, Fátima perguntou se a mãe havia tentado matar o seu meio-irmão, mas Zulmira contou que, saída daquela obscura casa, rapidamente chegara à crua conclusão de que, fizesse o que fizesse, morreria. Se matasse Sancho, seria eliminada, ou pelo vingativo imperador, no caso de ser descoberta, ou pelos conspiradores, para garantirem que não os denunciava. Mas, se não matasse Sancho, os conspiradores também não a iam deixar viver. Em Toledo, o seu destino estava traçado. A sua única possibilidade era uma imediata fuga, e fora isso que fizera». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, A Arte, Literatura,

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Domingos Amaral. Por Amor a uma Mulher. «Disse que se chamava Elvira e sorriu levemente quando Ramiro lhe perguntou onde podia encontrar uma montada. Ides roubar um cavalo? Não era boa ideia, explicou, amanhã seria procurado como ladrão»

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NOTA: Afonso Henriques, nascido em 1109, filho do conde Henrique e de dona Teresa, neto de Afonso VI de Leão e primo direito de Afonso VII. Tem uma relação amorosa com Elvira Gualter, da qual nasceram duas filhas, Urraca e Teresa Gualter; e outra com Chamoa Gomes, de quem tem dois filhos, Fernando e Pedro Afonso. Será reconhecido com rei de Portugal, em 1143, em Zamora.

Viseu, Domingo de Páscoa, Abril de 1126

«(… ) Nem isso fez recuar o príncipe, que reafirmou, convicto: É como vos digo. Só irei a Ricobayo se me casar com Chamoa. Preocupado, Fernão Peres murmurou: Isso é a guerra. Que seja, ripostou Afonso Henriques. E se a temeis, minha mãe sabe como pará-la. De cabeça perdida, a rainha enfureceu-se e apontou o dedo ao filho: Ainda não chegou o vosso tempo. Chamoa vai casar com Paio Soares e ireis a Ricobayo! São as minhas ordens, sou a rainha! Afonso Henriques, cada vez mais furioso, ripostou com desdém: Não, minha mãe, não sois uma rainha. Sois apenas uma condessa mentirosa, e não farei o que me ordenais! Irado, deu meia-volta e saiu, fechando a porta com estrondo. Na sala, deu de caras com as suas irmãs, Bermudo e as três mouras. Urraca Henriques ainda tentou acalmá-lo, dizendo: Meu irmão, não vos zangueis com nossa mãe!

Porém, o descontrolo apoderou-se dele. Aproximou-se de uma arca e com um gesto brusco levantou-a e atirou-a à parede. Depois, num acesso de cólera imparável, pegou num banco corrido e lançou-o contra a porta do quarto da mãe. De seguida, dirigiu-se a uma mesa, onde estavam inúmeras escudelas de barro, e varreu-as com o braço para o chão, onde se desfizeram em cacos. As únicas pessoas que se aproximaram foram Sancha Henriques e Fátima, mas logo que as viu perto o príncipe ergueu o braço e preparava-se para o descer quando Fátima, entredentes, o provocou: Não lutais com mulheres, já sabeis que perdeis.

Aquela antiga lembrança pareceu desequilibrá-lo e, enfurecido, deu meia-volta e saiu do quarto. Desceu as escadas a correr, pregando no final um violento pontapé na porta, que saltou das dobradiças. A sua fúria parecia impossível de estancar, e atravessou o pátio às biqueiradas em barris e fardos de palha. Por fim, entrou de rompante na casa onde pernoitava e logo saiu de volta, com uma espada na mão. Colérico, vergastou o alpendre, sulcando as vigas de madeira, e trespassou mais barris e fardos, desvairado e aos urros: Canalhas, malditos! Só perante a chegada de meu pai, Egas Moniz, o meu melhor amigo acalmou e suspendeu aquelas brutais investidas. Eu estava na varanda, e vi-o a arfar e a ranger os dentes. Meu pai e ele ficaram a olhar um para o outro calados, como se soubessem que um novo tempo, conturbado e perigoso, iria começar. Depois, estranhamente sereno, Afonso Henriques disse a meu pai, antes de entrar em casa: Preparai-vos para a guerra.

Meu pai ficou no alpendre, pensativo, a mirar a habitação da rainha, no interior da qual se via ainda a luz trémula das velas. Depois, minha prima Raimunda apareceu, vinda do escuro onde se escondia para todos espiar, e quando se preparava para entrar meu pai apenas lhe disse: Hoje não, deixai-o sozinho.

Viseu, Domingo de Páscoa, Abril de 1126

Quando se soube da sua partida, suspeitei de que Ramiro decidira fugir do pai. É evidente que ele teria preferido mil vezes que Chamoa casasse com o príncipe, pois assim ficaria longe dela, e o seu coração não sofreria tanto. Com aquela decisão da rainha, sentia-se a enlouquecer. Não podia regressar à Maia, seria incapaz de ver Chamoa nas mãos e na cama do seu progenitor. Ao planear a sua escapada, confessou-me tempos mais tarde, lembrara-se de Gondomar. Ouvira-o dizer que partiria de Viseu no domingo e a ideia de se juntar à Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo pareceu-lhe a única saída. Ao fazê-lo, aproximava-se perigosamente do segredo da relíquia, que só seu pai conhecia. Naquela noite, Ramiro levou apenas o arco e as flechas, e correu pelas ruas, saindo por uma das portas da muralha. Já na estrada, além de vários mendigos que se arrastavam, gemendo enregelados, viu uma mulher, que caminhava à sua frente. Era alta e forte, e estava enrolada num manto, para se proteger do frio da noite. Ao ouvir passos, virou-se para ver quem a seguia e Ramiro perguntou-lhe pelos homens de Gondomar. Acho que já partiram, informou ela.

Disse que se chamava Elvira e sorriu levemente quando Ramiro lhe perguntou onde podia encontrar uma montada. Ides roubar um cavalo? Não era boa ideia, explicou, amanhã seria procurado como ladrão. Curiosa, Elvira questionou-o: Porque quereis fugir? Num arremesso de honestidade só possível perante estranhos, Ramiro contou-lhe a verdade. A normanda suspirou, desalentada. Quem me dera ir convosco, mas eles só levam homens. Intrigado, Ramiro perguntou-lhe se estava enamorada de alguém, mas ela apenas encolheu os ombros. Ninguém me quer». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, A Arte, Literatura, Conhecimento, 

Domingos Amaral. Por Amor a uma Mulher. «Dona Teresa também teria de se apresentar, bem como o seu filho, herdeiro do Condado Portucalense. Não o fazer seria um insulto, um desafio que só poderia trazer desgraças aos ausentes»

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NOTA: Afonso Henriques, nascido em 1109, filho do conde Henrique e de dona Teresa, neto de Afonso VI de Leão e primo direito de Afonso VII. Tem uma relação amorosa com Elvira Gualter, da qual nasceram duas filhas, Urraca e Teresa Gualter; e outra com Chamoa Gomes, de quem tem dois filhos, Fernando e Pedro Afonso. Será reconhecido com rei de Portugal, em 1143, em Zamora.

 

Viseu, Domingo de Páscoa, Abril de 1126

«(… ) Na cama, seminus, estavam Fernão Peres Trava e a rainha, nos seus jogos amorosos, mas nem essa visão deteve Afonso Henriques. Porque me haveis mentido?, gritou. O seu berro ouviu-se pela casa toda. À porta do quarto da rainha juntou-se um preocupado grupo, que incluía as duas irmãs do príncipe, Urraca e Sancha Henriques, bem como o marido da primeira, Bermudo, e ainda as três mouras. Como vos atreveis?, replicou dona Teresa. Fernão Peres Trava saltou da cama e enrolou-se num manto escarlate, protegendo o seu exposto corpo. Afonso Henriques ignorou-o e os seus olhos fixaram-se na mãe, que se cobrira rapidamente com um cobertor de seda.

Porque me haveis traído?, perguntou. Dona Teresa parecia confundida. De que falais? Então, Afonso Henriques recordou a conversa da véspera e Fernão Peres Trava pasmou-se. A rainha não lhe dera a conhecer as promessas trocadas. Aflita, sentindo-se a perder a confiança do amante, dona Teresa declarou: Disse-vos que tinha dúvidas sobre a lealdade de Paio Soares! Nunca vos prometi nada! Hoje de manhã, o Fernão conversou com o Paio e tudo ficou esclarecido! O seu amante relaxou, aliviado. Porém, Afonso Henriques berrou: Mentira! Haveis dito que não iam casar, que Chamoa seria minha! Apontou para Fernão Peres e prosseguiu: Agora, que ele está aqui, falta-vos coragem! Foi ele quem vos fez mudar de ideias! O vosso amante é mais importante do que o vosso filho! O Trava, enrolado no seu manto, falou pela primeira vez. Príncipe, se já eram conhecidas as intenções de vossa mãe em casar Chamoa com Paio Soares, porque a haveis seduzido? Com habilidade manipuladora, o nobre galego tentava inverter a situação, mas o príncipe não o deixou.

E como podia saber das vossas ideias? Acaso me informaram delas? Governais o Condado na vossa cama! Casais os meus melhores amigos e nem sequer me consultais! Atrapalhado pelas duras acusações de Afonso Henriques, o casal de amantes não reagiu, e ele continuou: Mas isto, isto é muito mais grave! Fui falar convosco ontem! Pedi-vos que cancelassem o casamento de Chamoa com Paio Soares! Disse-vos que me enamorara dela! Não vos interessam os meus pedidos? Com uma voz serena e pausada, e depois de um curto silêncio, Fernão Peres tentou chamar o príncipe à razão. Afonso VII ameaçou Toronho! Casar Chamoa com Paio Soares anula esse desejo bélico, sem ofender o novo rei. Já o vosso casamento com Chamoa seria perigoso, pois Toronho passaria a ser pertença do Condado Portucalense, e não do rei de Leão, Castela e Galiza! Desejais uma guerra com vosso primo? Mantendo o mesmo tom de voz calmo, o nobre galego admitiu: Não podeis enfrentá-lo, não tendes força para tal. A Galiza e o Condado terão de unir-se devagar, passo a passo, a vossa pressa é má conselheira.

Irritado com as insinuações do Trava, de que ele era impetuoso, mas pouco inteligente, Afonso Henriques gritou-lhe: Decerto julgais que sou estúpido? Todo o Condado conhece a vossa vontade de ter um filho varão! É por isso que quereis tempo! O receio de perder Toronho é uma miserável desculpa! Com asco estampado no rosto, o príncipe exclamou: Afonso VII tem mais com que se preocupar do que com Toronho! Se me casasse com Chamoa e lhe fosse prestar vassalagem a Ricobayo, meu primo esquecia qualquer agravo! Na cara de Fernão Peres nasceu um misto de admiração e espanto. Por um lado, surpreendia-o o conhecimento que o príncipe tinha das intenções íntimas da mãe; por outro, admirava os seus raciocínios rápidos sobre os supostos desejos de Afonso VII. A surpresa venceu a admiração, pois sorriu levemente e murmurou: Estais bem informado. Suspeito de que andais a espiar a rainha. Dona Teresa, indignada, explodiu: Meu Deus, e chamais-me traidora! Afonso Henriques ignorou este contra-ataque e enfrentou a mãe. Se não for cancelado o casamento de Chamoa com Paio Soares, não vou a Ricobayo prestar vassalagem ao meu primo! Dona Teresa mostrou-se verdadeiramente espantada. O que dizeis?, balbuciou. Estais louco?

A cerimónia de coroação de Afonso Raimundes como Afonso VII estava marcada para breve, e já chegara a Viseu a notícia de que o novo rei exigira aos principais nobres de Leão, Castela e Galiza, que se dirigissem a Ricobayo, onde lhe teriam de prestar vassalagem. Dona Teresa também teria de se apresentar, bem como o seu filho, herdeiro do Condado Portucalense. Não o fazer seria um insulto, um desafio que só poderia trazer desgraças aos ausentes». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, A Arte, Literatura, 

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Já Ninguém Morre de Amor. Domingos Amaral. «… sem saber que com esse acto fundava uma estirpe nova e endiabrada, os Palma Lobo, brancos com sangue negro, marcados para sempre por enormes pénis, que ao longo das suas existências lhes iriam dar tanto profundas alegrias…»

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Roberto Antunes Palma Lobo, 1881-1916

«Ao terminar a leitura deste caso, julguei que o contributo do médico inglês para a minha investigação terminara ali. Engano meu. O caso seguinte era a descrição do recém-nascido, em especial dos seus inesperados atributos físicos. Roberto Antunes, o primeiro homem da estirpe dos Palma Lobo, era dotado de um pirilau enorme.

Há mais de vinte anos que conhecia Salvador, e já o vira nu em muitas ocasiões, desde banhos de mar a aventuras de grupo com mulheres. Portanto, sabia que Salvador era um privilegiado da natureza. Julgo mesmo que a origem da sua felicidade era uma alegria primária e básica que lhe vinha do facto de ter o sexo poderoso e generoso. Ao longo da vida, desde a adolescência, Salvador aproveitara a vantagem que tinha sobre os outros homens. O seu pénis era motivo de ciumeiras e zangas entre raparigas. Houve épocas em que elas faziam fila para poderem tocar naquele magnífico exemplar, naquele totem da virilidade. E ele satisfazia-lhes a curiosidade.

Sim, eu sabia disso. O que eu não sabia era que esse património era hereditário, um sinal de família, um dote do sangue e da genética. Só ao ler o relato do dr. Charles Scholes, descrevendo o enorme e escuro membro de um recém-nascido que viera ao mundo em 1881, é que compreendi a génese do orgulho sexual do meu amigo.

O médico inglês, que seguira a saúde da criança até ela ter três anos, idade com que foi enviada para Portugal para casa de uma avó, ficara impressionado pelo tamanho invulgar do músculo masculino do pequenino Roberto Antunes Palma Lobo. Descrevia-o como uma anormalidade numa criança tão jovem. E acrescentava que dispunha de fáceis reflexos, ficando erecto com rapidez.

Contudo, as novidades não se limitavam a esta observação. O dr. Charles Scholes reconhecia que fora devido a este inesperado facto que se esclarecera a misteriosa gravidez de Efigénia. Quando, umas semanas depois da morte da mãe, voltara à casa para examinar a saúde do bebé, o inglês ouvira uma criada negra, que amamentava o menino, comentar que com um pénis daquele tamanho ele só podia ser obra do Kalanga, um criado que trabalhava nos jardins da casa. O rapaz, um negro de vinte e tal anos, era alto e viçoso, falava mal o português e começou por negar ao médico que tivesse cometido qualquer pouca-vergonha com dona Efigénia, que Deus a tinha. Além disso, o bebé era branco como a mãe, e, portanto, não podia ser filho de um negro. Quem não ficou satisfeita com esta explicação foi a velha criada, que espremeu o Kalanga até ele acabar por reconhecer o que fizera a Efigénia.

Na noite da trágica morte de Roberto Carvalho Lopo, quando ele chegara gravemente ferido a casa, Efigénia passara várias horas desmaiada, devido à comoção. Ficara deitada na cama do seu quarto, longe da sala, onde estavam os outros criados. A janela do quarto estava aberta, pois fazia muito calor nessa noite. O Kalanga vira a patroa deitada, seminua e sem sentidos, e subira-lhe uma urgência pelo corpo. Entrou no quarto e, de forma apressada, baixou as calças e entrou dentro da patroa desmaiada, que nem se mexeu. O acto foi rápido, mas pelos vistos suficiente para deixar uma semente nas entranhas de Efigénia. O mistério da sua gravidez impossível estava resolvido.

Afinal, Efigénia não era uma adúltera aldrabona, como o outro livro a descrevia, e fora mesmo violada, engravidando enquanto estava desmaiada, e morrendo sem saber quem era o pai da criança. Porém, talvez o dr. Scholes não tivesse contado oralmente a história da mesma forma que a escrevera, pois o episódio comentava-se anos mais tarde como uma anedota, sendo a senhora descrita na sátira local como a Desmaiada.

Pouco mais havia a fazer em Moçambique. Aproveitei os últimos dias na cidade para visitar o cemitério onde estavam enterrados Efigénia Palma e Roberto Lobo, lado a lado, como marido e mulher que sempre foram em vida. Tirei umas fotografias à campa para juntar ao meu trabalho e, na tarde desse mesmo dia, ainda consegui visitar a casa apalaçada onde os trisavôs de Salvador tinham vivido e morrido, e cujos proprietários eram agora uns sul-africanos. Fotografei o quarto de Efigénia, que dava para o jardim, tendo em primeiro plano a grande janela por onde entrara o furtivo Kalanga, para possuir em segredo uma mulher desmaiada, sem saber que com esse acto fundava uma estirpe nova e endiabrada, os Palma Lobo, brancos com sangue negro, marcados para sempre por enormes pénis, que ao longo das suas existências lhes iriam dar tanto profundas alegrias como cavadas tristezas...

São agora onze da noite neste hospital de Lisboa, onde aguardo com tranquilidade a chegada do fim da vida do meu melhor amigo Salvador. Está muito calor e não sei mais quanto tempo vou ter de esperar. As enfermeiras de batas verdes vão passando por mim e dizem: Não há novidades... Nada? Nada». In Domingos Amaral, Já Ninguém Morre de Amor, Oficina do Livro, 2008, ISBN 978-972-461-802-9.

Cortesia de OficinadoLivro/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Literatura, Amor,

Já Ninguém Morre de Amor. Domingos Amaral. «… o maior segredo, e parecia torturada de angústia, à beira de perder a razão. Como explicação, o dr. Scholes avançava com a hipótese de Efigénia estar grávida do marido há mais tempo do que pensava»

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Roberto Antunes Palma Lobo, 1881-1916

«Reflecti alguns minutos sobre o que lera, e continuei depois à procura de outras referências, mas naquele livro não encontrei mais. Abri então o segundo livro, uma descrição sobre a colónia portuguesa que habitava a capital moçambicana nos últimos trinta anos do século XIX. O português era um pouco gongórico e nem sempre muito objectivo, mas o relato parecia-me fidedigno. No entanto, ao longo das primeiras cento e cinquenta páginas não encontrei nenhuma referência útil. Até que, inesperadamente, o autor se refere jocosamente à história de uma tal Desmaiada, que morrera ao dar à luz um filho, e que jurava não saber quem era o pai da criança.

Seria Efigénia a Desmaiada?

Umas páginas à frente, o cronista voltava a falar na Desmaiada, desta vez no âmbito de um capítulo sobre miscigenação com os locais. Segundo ele, uma senhora de nome Efigénia Palma, casada com um pirata português que morrera assassinado, tentara convencer a colónia de que não sabia de quem engravidara! O relato prosseguia, recordando que o marido da senhora em causa morrera mais de nove meses antes do nascimento do filho, e que ela sempre dissera que desmaiara na noite da morte do marido, e que alguém, misteriosamente, a tinha engravidado, aproveitando-se do facto de ela estar desfalecida.

Como era óbvio, o cronista não acreditava naquela versão, e acrescentava que, nove meses mais tarde, tornou-se evidente que o pai dela era um criado de Efigénia. A criança tinha marcas de raça negra, em locais pouco próprios, como reparara o médico, o sr. dr. Charles Scholes. Fora ele quem, depois de interrogar os criados, descobrira ter sido um deles, um tal Kalanga, que engravidara a senhora.

Fiquei boquiaberto com a descrição. Pelos vistos, aquele episódio era motivo de chacota na época, sendo apresentado como exemplo de uma trapaça feminina. Efigénia era descrita como uma mistificadora inventiva, que tentara esconder as suas relações adúlteras com um obscuro empregado negro. O único pormenor que não ficava esclarecido eram as marcas evidentes de raça negra, em locais pouco próprios. De que falava o cronista? Nas imagens que vira de Roberto Antunes não existiam essas evidências, e obviamente que aquela referência a locais pouco próprios era sugestiva de que se tratava de marcas que provavelmente não seriam captadas pela objectiva de nenhum fotógrafo...

Como desvendar esta nova questão? Não havia mais nada nos dois livros que me pudesse elucidar sobre pormenores desta natureza. No dia seguinte, devolvi ao professor Chivunga os dois exemplares emprestados. Agradeci-lhe a ajuda, e fiz um pequeno resumo das descobertas. Ao ouvir o nome do dr. Charles Scholes, o historiador franziu a testa: Um inglês, não era? Dirigiu-se ao seu computador, enquanto ia dizendo: Esse nome não me soa estranho. Deixe-me aqui fazer uma pequena busca... Sentou-se e teclou o nome do inglês. Esperei até que ele exclamou: Cá está! O que descobriu? Há um livro escrito pelo próprio médico. São os relatos dos casos que tratou enquanto viveu em Moçambique. É em inglês, mas há um exemplar na Biblioteca Nacional. Sabe onde é?

Na manhã do dia seguinte, sentei-me na grande sala da biblioteca, com o livro do médico inglês aberto à minha frente. Era um inventário dos principais casos que tinha tratado durante a sua estada em Lourenço Marques, entre 1875 e 1885. Listava uma profusão de doenças e centenas de pacientes. Malárias, cóleras, sífilis, tuberculoses e muitas outras mazelas eram descritas com algum pormenor, bem como partos, apendicites ou outras operações.

A dada altura, o dr. Charles Scholes narra a morte de Roberto Carvalho Lobo, confirmando que ele sucumbira na sequência dos ferimentos de balas, num pulmão e no abdómen, perdendo muito sangue. Quando chegara a sua casa, já nada havia a fazer pelo pobre homem, a não ser aguardar a sua morte. Numa curta nota final, o dr. Scholes referia que uma comoção muito forte se apoderara da esposa, Efigénia, tendo ela desfalecido e perdido os sentidos durante toda a noite.

Uns meses depois, uma nova entrada no livro dedicava-se a Efigénia. O médico, cuja escrita espelhava a surpresa que o episódio lhe deixara no espírito, fora chamado de novo à casa da senhora, para certificar a sua inesperada gravidez. Efigénia, que andava de luto, confessara-lhe que se tratava de uma gravidez impossível, pois ela não dormira com o marido nos últimos meses antes da sua morte. Portanto, não podia estar grávida! Embora espantado com aquele relato, o dr. Scholes confessava que Efigénia lhe parecera honesta e profundamente perturbada por aquele estranho facto, quase se comparando a Nossa Senhora, que concebera por milagre. Pedira-lhe, aliás, o maior segredo, e parecia torturada de angústia, à beira de perder a razão. Como explicação, o dr. Scholes avançava com a hipótese de Efigénia estar grávida do marido há mais tempo do que pensava.

Trinta páginas à frente, o dr. Scholes fazia o relato do parto da criança. Notando que fora uma gravidez complexa, que enfraquecera muito uma mãe cujo espírito já estava debilitado pela angústia de não compreender como concebera, o dr. Scholes relembrava a extrema complexidade do nascimento da criança, que demorara muito tempo a dar a volta dentro da barriga da mãe, provocando a esta várias hemorragias e muita dor. Para mais, nascera com o cordão umbilical enrolado ao pescoço, o que quase a asfixiara e muito contribuíra para o enfraquecimento da mãe. Efigénia foi vítima de inúmeras infecções e acabaria por falecer apenas vinte e quatro horas depois do nascimento do filho, para grande desalento do dr. Scholes». In Domingos Amaral, Já Ninguém Morre de Amor, Oficina do Livro, 2008, ISBN 978-972-461-802-9.

Cortesia de OficinadoLivro/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Literatura, Amor, 

Já Ninguém Morre de Amor. Domingos Amaral. «Próximo do Natal de 1880, o negociante zangou-se com os seus associados piratas, pois estes andavam-lhe a destruir os lucros, atacando os seus barcos em alto mar»

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Roberto Antunes Palma Lobo, 1881-1916

«Recordei as palavras de Salvador naquela tarde em Grândola: Há quem duvide de que o meu trisavô fosse o pai da criança... Provavelmente, a suspeita nascera devido a este estranho registo.

Pedi a dona Fátima que me fotocopiasse as três certidões, não sem antes reparar num pormenor. Nos três registos, a testemunha era a mesma, um tal dr. Charles Scholes, decerto o médico que assistira àquelas situações extremas. Era costume os registos serem feitos por um médico naqueles tempos?, perguntei a dona Fátima. Não sei, meu filho.

Contei-lhe a história e ela sorriu e fez um ar matreiro. Debruçou-se no balcão, rechonchuda e alegre, aproximou a sua cara da minha e disse-me, baixando a voz, como se me fizesse uma confidência secreta: Sabe, meu filho, não eram só as pretas que engravidavam dos brancos, às vezes as portuguesas também tinham filhos dos pretos... Para mais, o marido morrera... Ergueu as sobrancelhas: Podia ser um empregado da casa. Acha, perguntei. O que lhe valeu foi ter morrido ao dar à luz, comentou ela. - Caso contrário, teria sido uma escandaleira...

Dona Fátima deu uma gargalhada divertida e lá foi, bamboleando as suas formas redondas, até à máquina fotocopiadora. Quando regressou, entregou-me as fotocópias e desejou-me sorte. Se precisar de alguma coisa mais, meu filho, volte cá, que eu estou sempre às ordens!

Saí do edifício excitado. A acreditar no registo oficial, o primeiro dos Palma Lobo não era na verdade Lobo, pois não era filho do marido de Efigénia, mas sim de um negro, o que fazia nascer naquela família uma linhagem bastarda e, tal como Salvador insinuara, vagamente pecaminosa... A lenda dos Palma Lobo arrancava com um episódio arrasador, espectacularmente picante! Apeteceu-me de imediato telefonar para Portugal, para relatar ao meu amigo as novidades, mas ele pedira-me que não actuasse assim, e portanto fui nessa noite sair em Maputo, sozinho e bem-disposto, com a sensação de que estava na posse de um verdadeiro segredo de família. Mal eu sabia que era apenas o primeiro de muitos...

Quem seria o misterioso Kalanga que colocara a sua semente no ventre da trisavó Efigénia? Passei a noite às voltas na cama, a pensar neste intruso. Nas cartas do bisavô Roberto, que lera em Lisboa, não existiam referências a nenhum Kalanga. E, nas fotografias que vira, não notara nas suas feições nenhum vestígio da raça do seu suposto pai. Era moreno, mas não tinha a tez especialmente escura, nem traços fisionómicos que indicassem ser filho de um negro. Seria possível que nunca se tivesse sabido quem era o seu verdadeiro pai? Mas, então, como explicar a vaga suspeita de Salvador? Quem descobrira o pecado original dos Palma Lobo?

A meio da manhã do dia seguinte, recebi um telefonema do professor Agostinho Chivunga. O historiador explicou-me, na sua voz forte e pausada, que descobrira alguns livros que me podiam interessar e sugeriu que passasse pelo seu gabinete da universidade a meio da tarde. Assim fiz. Quando lá cheguei, aquele homem enorme entregou-me dois antigos livros. O primeiro intitulava-se Relato das Ocorrências Marítimas nas Costas de Moçambique, 1860-1890, e o segundo tinha como título A Vida Social e Política na Colónia de Moçambique entre 1870 e 1900. Agostinho Chivunga explicou que ambos os autores eram portugueses que tinham vivido em Lourenço Marques na época e, portanto, os relatos deviam ser fidedignos. E acrescentou: Penso que nos dois casos há algumas pequenas referências à família Palma Lobo. Regressei ao hotel e deitei-me na cama do meu quarto, decidido a devorar os dois manuscritos. Comecei pelas ocorrências marítimas. Tratava-se de uma descrição do comércio nas costas da colónia, com referências às embarcações, à actuação dos barcos de guerra dos variados países, e também aos piratas. Pude confirmar que a sua presença era habitual, e que produziam elevados estragos à navegação. A dada altura, o meu coração agitou-se quando se me deparou uma referência a um contrabandista famoso chamado... Roberto Carvalho Lobo.

O trisavô de Salvador era um mercador que vivia em Moçambique, por volta de 1880. Negociava com os pescadores, com as tribos da costa, com os alemães da Tanzânia e os bóeres da África do Sul. Numa prosa nada abonatória, o autor do livro relatava que Roberto se metia em trafulhices e escaramuças e era muito dado à bebida. Com pouco mais de trinta anos casara com uma portuguesa nascida na Beira, chamada Efigénia, de quem não tinha filhos. Viviam em Lourenço Marques, mas Roberto andava quase sempre no mar, nos seus comércios. Próximo do Natal de 1880, o negociante zangou-se com os seus associados piratas, pois estes andavam-lhe a destruir os lucros, atacando os seus barcos em alto mar.

Já em 1881, o conflito agrava-se. Certo dia, Roberto Carvalho Lobo sai de casa armado, acompanhado por um grupo de colaboradores, aparentemente para desafiar os piratas. Três dias mais tarde, de noite, regressou a casa ferido e a sangrar, em grande sofrimento. Segundo o livro, o médico foi chamado de urgência, mas quando chegou já eram poucas as esperanças de salvar Roberto. Tinha os pulmões perfurados por balas e morreu às primeiras horas da madrugada do dia 28 de Janeiro, pondo fim a uma proveitosa carreira de contrabandista, pois, como o cronista relatava, vivia num belo palacete na zona sul da cidade, comprado com os ganhos dos seus lucrativos comércios». In Domingos Amaral, Já Ninguém Morre de Amor, Oficina do Livro, 2008, ISBN 978-972-461-802-9.

Cortesia de OficinadoLivro/JDACT

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domingo, 11 de fevereiro de 2024

Já Ninguém Morre de Amor. Domingos Amaral. «… a indicação era a de que o seu pai biológico não era Roberto Carvalho Lobo, mas sim um tal Kalanga, certamente um africano e personagem de quem nunca ouvira falar»

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Roberto Antunes Palma Lobo, 1881-1916

«Isso é muito interessante. Ao longo do século XIX, a costa de Moçambique era regularmente atacada por piratas. Tinham o seu covil na ilha de Madagáscar, e actuavam em todo o oceano Índico, desde a Etiópia até à África do Sul. Eram de muitas nacionalidades. Havia ingleses, franceses, holandeses, espanhóis, portugueses, mas também muitos negros, indianos e até chineses e malaios. A maior parte eram bandidos fugidos do seu país natal, e viviam em comunidades sem leis nem regras. Atacavam as costas de África e os barcos de mercadorias, pilhando e saqueando, para terror das populações e dos viajantes. A marinha inglesa, a alemã e até um pouco a portuguesa tentavam dar-lhes luta, mas aquelas paragens não eram prioritárias para a defesa de nenhum império, e só os abalos no comércio marítimo é que provocavam alguma preocupação nos governos.

É perfeitamente possível, se ele fosse um mercador, que tivesse entrado em confrontos com os piratas... Subitamente, levantou-se e caminhou na direcção de uma estante. Há qualquer coisa escrita sobre os piratas... Vi-o examinar as lombadas de alguns livros, mas depois parou e olhou para o relógio. Vou ter de procurar à tarde, agora não tenho muito tempo, tenho um almoço marcado...

Prometeu que me falaria, mas saí da universidade sem entusiasmo. Não avançara nas minhas buscas. Regressei ao hotel para almoçar e, depois de mais um banho refrescante na piscina, apanhei um táxi para a Conservatória Central de Maputo, onde iria procurar as certidões de nascimento do bisavô de Salvador, bem como as certidões de óbito da sua trisavó, Efigénia Antunes Palma, e do seu trisavô, Roberto Carvalho Lobo, todas datadas de 1881.

A Conservatória ficava num edifício cinzento e sombrio, com uma arquitectura de linhas planas, em estilo soviético, influenciado pela ligação do regime de Samora Machel ao comunismo depois da independência de 1974. Nas paredes exteriores ainda se podiam ver alguns buracos de balas, vestígios da guerra civil que assolara o país nas décadas de 80 e 90, e que colocara frente a frente a Frelimo e a Renamo.

Havia pouca gente nos corredores, e descobri a sala dos registos através dos sinais nas paredes. Entrei e dirigi-me ao balcão, onde algumas pessoas esperavam para ser atendidas. Quando chegou a minha vez, uma funcionária negríssima, muito gorda e muito simpática, informou-me que se chamava Fátima.

O que você deseja, meu filho, perguntou. Anotou num pequeno papel branco o ano de 1881 e sumiu-se por uma porta, não sem antes me dizer: Espere um pouco, meu filho. Quinze minutos depois, dona Fátima voltou carregada com dois velhos livros de capa castanha, que cheiravam a mofo e estavam cobertos de pó. Meu filho, há muitos anos que ninguém lhes tocava. Por sorte não se perderam com a guerra. Ainda bem...

Abriu o primeiro livro à minha frente. Agora, meu filho, você procura. Depois, se precisar, eu tiro umas fotocópias... Dona Fátima afastou-se e foi atender outro homem, a quem também chamou meu filho. Comecei a examinar o livro das certidões de óbito de 1881. A primeira a aparecer foi naturalmente a do trisavô de Salvador. Roberto Carvalho Lobo falecera a 28 de Janeiro de 1881, e a causa do óbito assinalada era ferimento mortal com arma de fogo. Nada era dito sobre as restantes circunstâncias da morte.

Marquei a página e prossegui folheando o livro. No dia 31 de Outubro, nove meses e três dias após o óbito do marido, Efigénia morria também em casa, devido a complicações depois do parto de um nascituro do sexo masculino. Nada de novo, portanto.

Passei ao segundo livro, o dos nascimentos de 1881, e confirmei que, no mesmo dia em que a mãe morrera, 31 de Outubro de 1881, nascera o bisavô Roberto Antunes Palma Lobo, o primeiro onde os dois nomes, Palma e Lobo, se haviam juntado. Só que, se quanto ao nome da mãe não havia novidade, era filho de Efigénia Antunes Palma, quanto ao nome do pai havia uma surpresa. O que lá estava escrito era Kalanga. Assim, sem mais nem menos. Embora o rapaz tivesse sido registado com o novo nome de família, Palma Lobo, a indicação era a de que o seu pai biológico não era Roberto Carvalho Lobo, mas sim um tal Kalanga, certamente um africano e personagem de quem nunca ouvira falar». In Domingos Amaral, Já Ninguém Morre de Amor, Oficina do Livro, 2008, ISBN 978-972-461-802-9.

Cortesia de OficinadoLivro/JDACT

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Já Ninguém Morre de Amor. Domingos Amaral. «Só quando referi que o trisavô de Salvador tinha sido morto por piratas é que ele se alvoroçou: Piratas? Sim, piratas. Foi assassinado»

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Roberto Antunes Palma Lobo, 1881-1916

«O meu amigo pousou as fotografias na mesa e recomeçou a abrir caixotes. Passámos as três horas seguintes separando o que interessava e me seria útil. Fizemos três montinhos. Um para o bisavô, outro para o avô e outro para o pai de Salvador. Em cada um havia fotografias, livros de despesas do monte, cartas recebidas, agendas de vários anos, postais, escrituras. Os montinhos mais pequenos eram o do pai de Salvador, pois vivera pouco tempo no monte, e o do bisavô. O do avô Álvaro era enorme.

Do meu pai, há mais coisas em Lisboa. Amanhã vamos lá. Sugeri que podíamos começar por ler as cartas recebidas pelo bisavô, mas Salvador foi peremptório na negação. Não queria que eu estivesse com ele enquanto fazia o meu trabalho. Vais ler e investigar e só quando acabares é que falamos. É assim que tem de ser.

Regressei nesse dia a Lisboa com a mala cheia de caixotes velhos, carregado de memórias dos Palma Lobo. Sentia-me como uma espécie de arqueólogo de papel. Nessa mesma noite, li com curiosidade as cartas que o bisavô Roberto tinha recebido. A maioria eram de pêsames, a lamentar a morte da mulher, Josefina. Havia uma ou outra, provavelmente de comparsas políticos, que referiam a esperança de que, estando viúvo, ele regressasse a Lisboa e às lides da República.

Contudo, não existiam naquelas missivas informações relevantes sobre o nascimento do primeiro Palma Lobo. Teria mesmo de viajar até Moçambique.

Os oito dias que passei em Maputo trouxeram descobertas surpreendentes. Instalei-me no Hotel Polana e apanhei bom tempo, conseguindo mesmo dar uns mergulhos na piscina todas as tardes, enquanto bebia um gin tónico. Não tinha as expectativas elevadas quanto aos resultados da minha investigação histórica. Afinal, o nascimento de Roberto Antunes Palma Lobo acontecera no longínquo ano de 1881, e era improvável que conseguisse encontrar registos dessa época. Talvez as certidões de nascimento e de óbito dos seus pais, eventualmente as campas no cemitério, mas esperava pouco mais.

Para compreender Moçambique no final do século XIX, decidi procurar um historiador que me pudesse descrever os hábitos da colónia portuguesa, e telefonei para a Faculdade de História da Universidade local. Sugeriram-me que falasse com o professor Agostinho Chivunga e passaram-me a chamada. Uma voz grossa apareceu do outro lado da linha. Cordial, o professor acedeu a receber-me no dia seguinte, ao final da manhã, no seu gabinete. Era um homem muito alto e esguio, talvez com cerca de um metro e noventa.

Levantou-se para me cumprimentar e parecia desengonçado, com dificuldade em controlar os seus longos braços e pernas, como se fosse uma marioneta. Devia ter mais de sessenta anos e era quase careca, apenas com alguns vestígios de cabelo grisalho nas patilhas e na nuca.

Expliquei o que me trazia ali. Simpático, o professor Agostinho Chivunga fez-me um resumo da situação política da colónia e da sua economia incipiente e primária na segunda metade do século XIX. Quando lhe perguntei onde poderia encontrar referências sobre os Palma Lobo, confessou que o nome não lhe dizia nada. Não haviam sido pessoas famosas na época, nem tinham ocupado cargos na administração portuguesa da colónia. Sugeriu que eu procurasse na Conservatória Central de Maputo, e prometeu fazer uma pequena busca na biblioteca.

Só quando referi que o trisavô de Salvador tinha sido morto por piratas é que ele se alvoroçou: Piratas? Sim, piratas. Foi assassinado». In Domingos Amaral, Já Ninguém Morre de Amor, Oficina do Livro, 2008, ISBN 978-972-461-802-9.

Cortesia de OficinadoLivro/JDACT

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sábado, 13 de janeiro de 2024

Enquanto Salazar Dormia. Domingos Amaral. «Carminho apareceu a meio da tarde com o cabelo cortado curto, imitando o penteado à refugiada. (…) Estranhei a mudança. A sua cara bonita, os olhos castanhos tranquilos, a boca fina, o seu pequeno nariz, ganhavam uma nova luz. Recordo-me bem do alvoroço em que fiquei ao vê-la»

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Mary

«Michael revelou-se desapontado: É pouco. Depois descobriu um pequeno motivo de alegria: Olha, o Novidades! Vá lá, pelo menos temos o Cerejeira e a Igreja. Cristo está connosco. Para o animar, enumerei mais alguns títulos que me pareciam pro-ingleses: O Diário de Lisboa, o República, e os dois do Porto, o Primeiro de Janeiro e o Comércio do Porto. E as revistas... Sim, confirmou Michael. A Guerra Ilustrada e O Mundo Gráfico. São as únicas mesmo bem feitas! Na realidade, não eram revistas portuguesas: O Mundo Gráfico era americana e A Guerra Ilustrada uma tradução do original inglês. Ambas muito populares, tinham excelente qualidade gráfica. O meu amigo rematou: Metade são nossos, metade são dos nazis! Estranho país este. Mas a tua Carminho que cante obrigado, Portugal, ela que vá cantando...

Embora a censura do regime vigiasse a imprensa, a divisão de opiniões reflectia o estado do país. Em 1941, Portugal estava rachado ao meio nas suas simpatias. Famílias, povo, imprensa, círculos do poder, dividiam-se entre o partido anglófilo e o partido germanófilo, ambos em luta pela alma e pela simpatia dos portugueses. Continuámos a andar e passámos em frente do Hotel Avenida Palace. Michael não olhou para o edifício, mas encostou-se a mim, baixou a voz e disse, em tom conspirativo: Há um corredor secreto que liga o cais dos comboios do Rossio a um dos andares superiores do hotel. Assim, os alemães conseguem entrar sem terem de passar pelo controlo da polícia.

Não fazia ideia como ele sabia tais coisas, e absorvia as histórias, deslumbrado com os seus conhecimentos da vida secreta lisboeta. Vais agora ao Aviz?, perguntou. Olhei para o relógio. Eram seis e meia. Ficara de estar às sete no hotel, para me encontrar com Nubar. É melhor apanhares um táxi, sugeriu Michael. Olhei na direcção do Marquês de Pombal e observei a Avenida da Liberdade, barulhenta e tumultuosa. Dali até ao Aviz era um longo caminho. Se fosse a pé não chegaria a horas. E tu?, perguntei.

Não te preocupes. Tenho a minha faca nova. Apertámos as mãos, bem-dispostos. Ele perguntou: Já viste a nova secretária lá da Embaixada, a Rita? Não. Veio com o Ralph. Novo chefe, nova miúda. Sorri: É gira? Michael deu um sonoro assobio: Gira é pouco. Olho azul, cabelo loiro, bela poitrine! Bompernasse? Rimos. Do melhor que tenho visto nos últimos meses, afirmou. Melhor que a belga?

A belga era uma entidade mitológica para nós. Chamada Stephanie, tínhamo-la conhecido em Agosto de 1940, à porta da Pastelaria Suíça, atarantada com o calor, à procura de uma pensão. Passámos uma tarde na esplanada a conversar com ela, enfeitiçados, a olhar para aquela cara loira, para aquelas pernas enormes, para aqueles peitos volumosos. Mas, apesar de ambos a termos levado a uma pensão na Alexandre Herculano, nenhum a tinha conquistado. A belga adquirira assim um estatuto único: deusa inacessível, corpo divino, mulher belíssima, termo de comparação permanente, nostalgia de um romance nunca consumado.

Não, disse Michael, fingindo uma tristeza profunda. Melhor que a belga já não se fabrica. Rimos outra vez. Reanimado, o meu amigo rematou: Mas a Rita é uma truta! Tenho de a conhecer! Um dia destes passo por lá só para a ver! Michael aproveitou para me espetar uma bandarilha no cachaço: Vais tentar ser, uma vez na vida, o primeiro e não o último da lista?

Definitivamente, o meu caso com Mary tinha-o incomodado. Continuava a tentar desviar-me dela. Primeiro Carminho, agora Rita. Encolhi os ombros e dirigi-me para a paragem de táxis. Uns momentos depois, ouvi-o chamar: Jack! Virei-me. Deparou-se-me o seu olhar sério, a cara fechada, e uma voz preocupada, que me disse: Cuidado com o coronel…

O que se passou entre mim e Carminho? Depois de 54 anos, em frente ao Condes e à paragem onde naquela tarde de Março apanhei o táxi para o Hotel Aviz, continuo sem resposta para tal pergunta.

No dia do espectáculo por ela organizado, Carminho apareceu a meio da tarde com o cabelo cortado curto, imitando o penteado à refugiada. A moda trazida pelas estrangeiras, depois de vilipendiada pela alta sociedade lisboeta, era agora imitada pelas raparigas portuguesas.

Estranhei a mudança. A sua cara bonita, os olhos castanhos tranquilos, a boca fina, o seu pequeno nariz, ganhavam uma nova luz. Recordo-me bem do alvoroço em que fiquei ao vê-la. Quando, um ano antes, conhecera Carminho num jantar no Hotel Palácio, sentira-me atraído pela sua serenidade, a paz que a sua companhia me proporcionava. Carminho não era daquelas mulheres que enche uma sala. Pelo contrário: era discreta, tímida, escondia-se de qualquer tipo de protagonismo e falava pouco.

Ao mudar o penteado, parecia querer mudar de personalidade. Ficava mais bonita e desejável, mas perdia o recato e isso assustou-me. Lembro-me de que senti um forte desejo e que a tentei beijar. Naquele dia, ainda estava convencido de que sentia amor por ela. Não, aqui não, vem aí o meu pai. Carminho afastou-se, recusando o meu beijo, embora no olhar brilhante revelasse contentamento com a minha manifestação. O general na reserva Joaquim Silva entrou na sala. Os seus cabelos, completamente brancos, estavam penteados para trás, luzidios devido à brilhantina. A testa alta recuperava-lhe o porte imponente que se via nas fotografias dos seus tempos de juventude, espalhadas pela casa. Vinha vestido com a sua farda de gala, impecavelmente engomada. Era um homem vaidoso, sempre bem barbeado e perfumado». In Domingos Amaral, Enquanto Salazar Dormia, 2006, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-174-6.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

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Enquanto Salazar Dormia. Domingos Amaral. «Paz sim, mas sossego?, irritou-se Michael. Aos judeus, colocam-lhes um J no passaporte e, se puderem deixam-nos na fronteira! Aos refugiados, quando não os podem mandar imediatamente para o navio, a caminho do Brasil e da América, enviam-nos para as praias!»

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Mary

«A afirmação tinha um duplo sentido, pois ele andava a namoriscar uma secretária da Embaixada americana, Janice. É bonita, disse eu, enquanto passava um dedo sobre a lâmina. Cuidado, não te cortes, avisou. É tão afiada que a casca das maçãs fica fina como uma folha de papel.

Admirei a arma e depois devolvi-a ao meu amigo, que a recolocou no coldre com cuidado, guardando o conjunto no bolso interior do casaco. Deu novo gole na aguardente e pousou o copo. Baixou a voz:

Os alemães andam a queixar-se cada vez mais ao capitão Lourenço. A semana passada, um padre do Barreiro foi chamado à PVDE. Acusaram-no de fazer sermões contra a Alemanha. Reflecti. Se eles chegavam ao ponto de perseguir padres, fazer o mesmo ao coronel Bowles era fácil. Michael afastou-se do balcão e eu segui-o. Quando saímos para a rua, perguntou-me: E como vai a Carminho?

Michael nunca antes me perguntara por Carminho. Estaria a fazê-lo apenas porque se sentira enciumado com o meu caso com Mary? Ou estaria a tentar proteger-me, recordando-me a minha noiva oficial para me afastar de uma relação com Mary, que comportava riscos, devido às imprudências do coronel? Fomos ontem ao cinema, a Carminho, a irmã e eu. Fomos ver a estreia de Rebecca, do Alfred Hitchcock. Estavam lá o Lawrence Olivier e a mulher, a Vivien Leigh, que vieram de propósito cá para fazer publicidade ao filme. Michael não ficou impressionado. Era comum, naqueles tempos, virem a Lisboa muitos famosos de Hollywood. A mando da censura, os jornais davam enorme destaque às suas estadas, com o óbvio propósito de distrair a população. Ela tem andado bastante ocupada - continuei. Organizou uma festa para as vítimas do ciclone, e conseguiu que alguns estrangeiros participassem. Até a Josephine Baker cantou!

Os artistas estrangeiros não podiam actuar em Portugal, tal como os refugiados estavam impedidos de trabalhar. Porém, o general na reserva Joaquim Silva, pai de Carminho, era amigo de Salazar, e movera as suas influências. Assim, uma excepção foi concedida, e o público ouviu a voz de Josephine Baker, uma célebre cantora da Broadway, que fugira de Paris depois de ter sido acusada de espionagem pela Gestapo. E viva Salazar, ironizou Michael.

Como correu bem, continuei, a Carminho quer organizar mais espectáculos. Falou com umas pessoas do jornal O Século, e formaram uma comissão. Do Século? Esse é dos nossos, comentou Michael, entusiasmado. Sabes o que se passou lá? Contou-me que um dos jornalistas enchera as instalações de emblemas da RAF e bandeirinhas portuguesas e inglesas, com o ámen do director. Para o meu amigo, era uma pequena mas saborosa vitória. Acrescentei que a comissão já tinha uma canção pronta, um hino para os espectáculos:

O título é: Obrigado, Portugal! Michael estacou de repente: Obrigado, Portugal? Obrigado, Portugal, porquê? Abri os braços: Então não estamos a receber bem os refugiados? Michael abanou a cabeça, desagradado: Jack, não me insultes. Não repitas a propaganda de Salazar. Ripostei: Propaganda? Ora essa, então não somos o único país da Europa onde eles podem viver em paz e sossego? Paz sim, mas sossego?, irritou-se Michael. Aos judeus, colocam-lhes um J no passaporte e, se puderem deixam-nos na fronteira! Aos refugiados, quando não os podem mandar imediatamente para o navio, a caminho do Brasil e da América, enviam-nos para as praias! Para a Ericeira, para a Costa de Caparica, para a Figueira da Foz. Pelo menos apanham sol, e tomam banhos de mar!, exclamei.

Michael recomeçou a andar, indignado: E os que ficam por aqui são depenados! Até para irem à casa de banho nos cafés têm de pagar! Os donos das pensões cobram-lhes fortunas, e os senhorios pedem um dinheirão por um quartito! Já para não falar num apartamento mobilado! Infelizmente, era verdade. Muitos portugueses lucravam com a situação dos refugiados. Às vezes, mal chegavam às fronteiras, compravam-lhes a preços insultuosos as jóias, os casacos, até as roupas. Obrigado, Portugal, repetiu Michael, com desdém. E os vistos, e os bilhetes? Há imensos que são enganados pelas agências: pagam mais de 50 contos pelos bilhetes e pelos vistos e ficam a ver os navios partir sem eles!

Suspirou fundo. Estávamos a passar em frente de um quiosque, a caminho dos Restauradores. Michael parou e observou os jornais. Olha para isto! Vês como os nazis são fortes neste país? Repara nisto, e apontou com o dedo para as bancas. O Sinal, A Voz, A Acção é tudo deles! A Esfera também! O Diário de Notícias e o Diário da Manhã, a mesma coisa, tal como aqueles ali, e apontou para o Diário Popular e o Jornal de Notícias, resmungando: Tudo boche. E nós, o que é que temos? Apontei noutra direcção: Bem, temos o Anglo Portuguese News! E não disseste que O Século era dos nossos?» In Domingos Amaral, Enquanto Salazar Dormia, 2006, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-174-6.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

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sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Casamento de Sonho. Domingos Amaral. «Hoje, também os pais sofrem disso, e ficam tão ou mais desesperados do que as mães, pois perderam a capacidade de imaginar o mundo sem os filhos, e nesse vazio nasce-lhes uma perturbação…»

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Prólogo

Rafael, Dezembro de 2012

«Como dois noivos numa festa de casamento, valsando ao som do Danúbio Azul, a economia e o amor movem-se juntos e ao mesmo ritmo. Se a música acelera, em crescendo, a economia puxa pelo amor e há mais casamentos românticos e filhos a nascer. Mas, quando o par abranda, é porque a economia se retraiu primeiro e o amor logo a segue, murchando também.

Se na economia crescem os rendimentos, no amor crescem os rebentos; mas, se na economia nascem as dívidas, no amor nascem as dúvidas, ninguém mais pensa em procriar e multiplicam-se (terrível costume!) as separações dolorosas e as acesas disputas sobre dinheiros e patrimónios.

Para a maior parte dos seus amigos e para as respectivas famílias, a separação de Leonardo e Constança justificou-se com essa racionalidade fria e foi a queda da economia que precipitou o desmoronar do amor, como se o final daquele casamento não passasse do resultado lógico de uma equação matemática.

Houve quem tenha dito que o casal entrou em rotura devido à desgraça das empresas de Leonardo, ou porque Constança não se soube adaptar ao fim dos luxos, coisas assim. Na mágoa dorida e raivosa dela, e até na escandalosa infidelidade dele, foram sempre encontrados motivos financeiros de justificação, como se a degradação geral das emoções e dos desejos de ambos, os seus conflitos abertos, as suas abismais decepções ou os seus erros vulgares fossem meras consequências do desarranjo geral da economia do país e do mundo, e não existisse uma causa mais profunda, um pecado original mais impuro e imundo, que explicasse tantos e tão perturbadores estragos.

Rafael, amigo de ambos e que neste momento está sentado na cadeira de um avião, sabe que esse segredo antigo existe e mancha aquela história de amor; sabe que o falhanço daquele casamento não se explica apenas culpando a economia pela destruição do amor. Contudo, é o único que o sabe e por isso tem uma narrativa alternativa, diferente da dos outros familiares e amigos, e por isso também é o único que, além de se sentir triste, se sente culpado. Sentado a seu lado está o seu melhor amigo, Leonardo, que nem fala. Não sorri à hospedeira, não olha sequer pela janela do avião, que vai descolar em breve da pista do aeroporto da Portela. A sua imaginação espiritual encontra-se contaminada pela incerteza, teme as consequências de um acidente no Brasil e teme pela mulher (ou ex-mulher?, como defini-la, se eles se separaram, mas nunca se divorciaram?). Mais do que isso, teme pela saúde dos seus filhos, e reza em silêncio.

Já Rafael recorda muito e culpa-se. Ao longo da viagem até Salvador, criará dentro do coração a certeza de que podia ter evitado o que se passou, o que se está a passar e até o que se virá a passar, que ele ainda não sabe o que é, mas que irá acontecer. Sente que, se tivesse contado o segredo que conhece mais cedo, talvez o destino de todos fosse diferente. Ambos estão atormentados. E, no entanto, ainda ontem à noite os dois alimentavam esperanças de que as coisas se começassem a compor no casamento de Leonardo. Ainda ontem, a vida dele parecia prestes a terminar uma volta inteira sobre si própria, como se ele viajasse num cesto de uma roda gigante, que agora o trazia de volta ao ponto de felicidade original de onde partira.

Durante o voo para o Brasil, Rafael irá recordar o ciclo de vida daquele casamento: o mito da felicidade inicial, a festa fantástica na quinta de Constança, o nascimento dos filhos, as primeiras decepções e desavenças e depois a rotura, a separação, e aquela fuga imprevisível de Constança para o Brasil, com o seu novo amor; que deixou Leonardo a morrer de saudades dos filhos durante o ano inteiro de 2012. Um homem sem filhos é um homem amputado, e assim viveu Leonardo mais de trezentos dias. Era como se existisse nele aquela angústia antiga e milenar, perante a ausência dos filhos, que na história da humanidade fora quase sempre prerrogativa das mães. Hoje, também os pais sofrem disso, e ficam tão ou mais desesperados do que as mães, pois perderam a capacidade de imaginar o mundo sem os filhos, e nesse vazio nasce-lhes uma perturbação próxima da loucura, uma saudade trágica e doente, que os desequilibra.

Depois, de surpresa, nascera a reaproximação entre o casal. Nos últimos tempos, à medida que se aproximava o Natal de 2012, Constança mudara. Muitas vezes, é isso que concluiu Rafael, as mulheres veem a vida através dos olhos dos homens que amam. Enquanto ela amou João, o outro, o que a levou para o Brasil, para ela Leonardo era um traste, um patife, um crápula. Quando o outro a começou a abandonar, lá longe, no Brasil, logo o anterior amor, o marido (ou ex-marido?), recuperou as suas renovadas cores». In Domingos Amaral, Casamento de Sonho, Casa das Letras, 2014, ISBN 978-972-462-237-8.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

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