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quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

A Fortaleza de Alpalhão. Francisco S. Lobo. «… dentro da dicta çerca estaa huu patio xvij varas e meya de longo. e xiij e meya de largo muy chãao e bem feito. e ao canto do dito patio e çerca estaa ha dita torre…»


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Legenda:

Planta do Castelo de Alpalhão, século XVI;

Altura da Torre de Menagem, 12 varas;

Altura das Muralhas, 5 varas;

Altura dos Cubelos, 8 varas;

Largura das Muralhas, 1 vara e 1 pé;

(Segundo Duarte d’Armas)

«A espessura dos muros laterais era de uma vara e um pé, sendo a sua altura de cinco varas. A Torre de Menagem comunicava com os aposentos sobradados, destinados à residência do alcaide. Nessa torre, nos Cubelos e em volta dos muros havia um grande número de Troneiras ou Bombardeiros, que eram aberturas por onde, nas horas de luta, se disparavam os tiros de artilharia.

Em volta da fortaleza acumulava-se, a nascente, sul e poente, o casario da povoação. A norte, erguia-se a Igreja, de estilo românico no local onde está a actual Matriz. No reinado de João III o castelo apresentava bom aspecto e bom aposentamento.

João IV mandou guarnecer a vila da muralhas que foram concluídas no reinado de Afonso VI, em 1660. Tanto o Castelo como as muralhas, foram destruídas em Junho de 1704 durante a Guerra da Sucessão, pelo Franco-Espanhol, comamdado pelo duque de Berwick e por Filipe V de Espanha, quando se dirigia de Castelo Branco para Portalegre.

Alpalhão, a par de Salvaterra do Extremo, são casos únicos de esquecimento e perda de memória do património construído. Não estamos certos que no século XIX fossem ainda visíveis

as ruínas mas em 1758 o vigário afirmava que, à excepção de uma parede o castelo medieval estava em razoáveis condições de conservação. Um texto de 1874, escrito por Pinho Leal, indica que (o castelo e os muros) estão completamente desmantelados…

Os desenhos de 1509 representam um castelo de forma quadrada, guarnecido com uma torre de menagem de secção também quadrada. A ausência de ameias nos muros é tão regular que deve corresponder a uma intenção de beneficiar o sistema defensivo. A existência tão profusa de troneiras de uma forma que faz lembrar o Castelo de Vimioso é, aliás, um sinal de que havia uma preocupação de manter a fortificação em condições de se defender.

No Tombo da Comenda de Alpalhão, elaborado por frei Francisco capelão do rei, notário e escrivão da visitação, em 1505, procede-se à seguinte descrição do castelo:

Tem na vila huua torre alta e forte. toda de pedra e cal de fundo acima. bem ameada e de booa largura .e tem dous sobrados igualmente corregida. oliuellada de castanho em três painees e cuberta de telha. e tem no sobrado de baixo huua janella d asentos com suas portas ainda booas contra ho norte. e no sobrado de cima tem quatro janelas d asentos com suas portas cada huua em sua quadra. e huua chaminee de dous fogos. em cada sobrado seu fogo. leua de longo çinquo uaras e meya bem medidas e çinquo de largo escassas. e sobem pera ho sobrado de çima per dentro da torre per huua escaada de madeira bem corregida. contra ho ponente. tem huua salla sobradada e oliuellada de castanho em três painees .e tem huua janella ao norte e outra ao sul ambas d asentos com suas portas booas e nouas. e ao ponente tem huua boa chaminee leua esta sala de longo sete uaras e meya e çinquo e meya de largo. e desta salla sobem pera ho primeiro sobrado da torre per huua escaada de madeira de poucos degraaos. sobem a esta salla per huua escaada de pedra que em cima tem huu tauoleiro argamassado com seu peitoril alto. cuberto de oliuel muito bem obrado e telhado em quatro aguas. ha qual salla e çinquo ameyas da dita torre. fernam da silua comendador da ficta comenda mandou fazer toda de nouo. debaixo da dicta sala vay huua logea com dous portaaes de cantaria bem feitos. huu de serujntia da dita logea grande e outro pequeno que uay pera huu quintal e tem ainda outro portal na parede da torre e he outrosi de cantaria. ho que todo o dito fernam da silua mandou fazer. aalem da dita salla estas huua casa que ora serue de cozinha terrea. e tem huua grande e booa chaminee. leua de longo çinquo haras e meya e três e meya de largo. ha qual cozinha ho dicto comendador mandou fazer de nouo. contra ho ponente tem huua casa de estrebaria com suas manjadoiras. todo nouo e bem feito bem madeirada e cuberta de telha que leua .xviij. varas de longo e quatro de largo. ha qual ho dicto comendador outrosi de nouo mandou fazer. contra ho norte estaa outra casa que serue de çeleiro. toda ladrilhada per baixo com suas tulhas de madeira bem feitas e bem repartidas bem madeirada e cuberta de telha e leua oito varas e meya de longo e três de largo. com seu portal de pedraria e suas portas bem fechada. E logo junto do dicto çelleiro outra casa parede em meyos. pera apousentamento de homens e he do tamanho do dito çeleiro. e seu portal de cantaria com booas portas. has quaaes casas ho dicto comendador outrosi mandou fazer. a rredor do dicto apousentamento estaa huua cerca nouamente começada de fazer e estaa jaa de noue couados d alto.cinquo palmos de grossura e tem tres cubelos nos três quantos da mesma altura e grossura com suas bonbardeiras de pedraria. e tem huu grande portal de pedraria bem obrado com suas portas nouas e fortes. e bem fechadas. huu dos ditos três cubelos que estaa ao ponente fez o dito comendador em huu chãao que comprou ha qual çerca e culbelos. ho dicto comendador mandou fazer de nouo. dentro da dicta çerca estaa huu patio xvij varas e meya de longo. e xiij e meya de largo muy chãao e bem feito. e ao canto do dito patio e çerca estaa ha dita torre. e aalem della e da dita salla e cozinha estaa huu quintal que ho dicto comendador fez ha maior parte em huu chãao que comprou e deu aa hordem. no qual quintal estam .xv. limeiras e duas larangeiras e xj pees de parreiras e três pereiros e três amexieiras e huua figueira e parte ao norte com ha dita salla e torre. e das outras bandas com casas de pedro lopez e de ioham uelho e de estejam afonsso e com ho cubello do muro. Leua de longo xxxiiij varas e oito de largo.

In Jerónimo M. Canatátio, Al-Palh’am, História e Património, Associação dos Amigos dos Castelos, Alpalhão, Online.

Com a amizade de José de Caldeira Martins

Cortesia de Al-Palh’am/JDACT

 JDACT, Alentejo, Alpalhão, José Caldeira Martins, Cidadania, Francisco S. Lobo, Jerónimo Canatário, Conhecimento,

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

A Fortaleza de Alpalhão. Francisco S. Lobo. «Caminhando ao longo da Rua do Castelo, que nasce perto da Igreja Matriz. Podemos localizar a entrada para o interior do quarteirão (espaço que possivelmente, delimita a antiga fortificação). Esta faz-se pelo acesso que nos conduz à Torre do Relógio»



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Com a devida vénia a José Caldeira Martins

«Sem vestígios evidentes confirmados no seio do povoado que o absorveu e em contraste com a memória das imagens que Duarte d’Armas nos legou, o Castelo de Alpalhão (fortaleza) parece perdido na bruma do tempo…

Os desenhos de 1509 de Duarte d’Armas são de uma força e beleza tal que nos encorajam a tentar identificar a antiga implantação e o traçado no terreno deste .pequeno castelo de planície. Isso iria valorizar a antiga vila medieval e repor a identidade perdida. A definição rigorosa do sítio exige o estudo das paredes das casas antigas situadas em torno do local a investigar e  sondagens nos seus quintais. Haverá, estamos certos, vestígios materiais dos muros do recinto no tecido da malha urbana da antiga vila.

Numa época em que se começa a generalizar a importância da memória histórica dos aglomerados, é oportuno fazer um esforço para que Alpalhão tira partido dessa mais valia…

Onde se Situaria?

Caminhando ao longo da Rua do Castelo, que nasce perto da Igreja Matriz. Podemos localizar a entrada para o interior do quarteirão (espaço que possivelmente, delimita a antiga fortificação). Esta faz-se pelo acesso que nos conduz à Torre do Relógio. Subindo ao alto da torre é visível em seu redor o espaço livre dos quintais das casas. É aqui que devemos procurar vestígios que nos ajudem a localizar o espaço correspondente ao terreiro interior do castelo medieval.

Ao correr do olhar não há nada que chame em especial a atenção e possa ser identificado seguramente como elemento construtivo da fortificação. O embasamentosobrelevado da torre terá pertencido bao castelo…

Torre do Relógio

Localiza-se no centro da vila, no local onde estaria edificado o Castelo de Alpalhão. É um edifício banal do começo do século XVIII, tem forma quadrangular, tendo um pequeno eirado com espaldares e corucheis. Conta com quatro olhais com arcos de volta redonda e cúpula cónica esquinada. Sobe-se por uma pequena escadaria assente sobre os restos da antiga torre do castelo. Conservação  regular.

Erguido em 1300, no reinado do monarca Dinis esta fortaleza tinha uma forma rectangular, quase quadrada, tendo no ângulo de sudoeste A Torre de Menagem, também rectangular, com doze varas de altura e três andares ou pavimentos. Em cada um dos restantes ângulos tinha um Cubelo de forma circular, abobadado , com a altura de oito varas».

(Continua)

 In Jerónimo M. Canatátio, Al-Palh’am, História e Património, Associação dos Amigos dos Castelos, Alpalhão, Online.

Com a amizade de José de Caldeira Martins

 Cortesia de Al-Palh’am/JDACT

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quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Termas de S. Pedro do Sul. A. Nazaré Oliveira. «No lado poente da planta, assinala o ..Camarote de […], mas, não obstante os pormenores a que desce, não diz quem era este dom Fernando. E nenhum dos autores que têm escrito sobre as Termas levanta este problema»

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O Hospital Real das Caldas de Lafões
«(…) A provedoria de Aires Almeyda Sousa foi longa, pois, em 1616, vinte anos depois da nomeação, era ainda provedor, como se lê no frontispício da Chronographia Medicinal das Caldas de Alafoens, que Pires Sylva dedica a Duarte d'Almeida Sousa, filho primogénito de Aires Almeyda. Nos Almeydas da Cavalaria continuou a administração, terminando com Gonçalo Almeyda Sousa Sá, a quem João V concedeu a mercê, em 1713. Passou a administração para os corregedores, como provedores ou contadores da Fazenda. O Corregedor era o inspector do Hospital e o Juiz do Couto era o sub-inspector.

Com a extinção do concelho de Lafões, o Banho foi integrado no então criado concelho de S. Pedro do Sul e a administração das Caldas passa para a Câmara deste concelho, por portaria de 12 de Novembro de 1839. Mais tarde, a propriedade do Estabelecimento das Caldas foi confirmada por Carta de Lei de 21 de Maio de 1878 e, novamente, por Alvará de 17 de Fevereiro de 1910. Com os dados de que dispomos, vejamos as características e modo de funcionamento do Hospital Real das Caldas de Lafões. Tinha características próprias que lhe advinham do facto de ser um hospital termal. De algum modo, Manuel I, ao criar este hospital, seguiu o exemplo da irmã, a rainha viúva dona Leonor, fundadora do Hospital das Caldas da Rainha, guardadas as devidas diferenças de proporção entre os dois hospitais. Sabe-se que vários hospitais do reino vieram a ter Regimentos inspirados no das Caldas da Rainha. É bem possível que, entre eles, se encontre o de Lafões, com maioria de razão por ser um hospital termal.
Já vimos que a carta de nomeação do primeiro provedor (1502), pelas obrigações que nela estavam consignadas, pode considerar-se o primeiro regimento para a administração do Hospital. No manuscrito da Biblioteca da Ajuda, o Desembargo do Paço, em 1592, limita-se a repetir as mesmas obrigações. Só um século depois, em 1696, com a publicação da … Chronographia Medicinal das Caldas de Alafoens…, temos notícia detalha da da orgânica do Hospital. O autor, médico das Caldas, descreve, até ao pormenor, o seu modo de funcionamento. Começa com a descrição da piscina onde o rei se banhou, pelo que ficou conhecida por .Piscina dom Afonso Henriques, . Dela fez a planta, que tem sido reproduzida por quantos têm abordado este tema.
E nós a reproduzimos também, acrescentando-lhe os pontos cardeais e confrontações, para melhor clarificação.
No lado poente da planta, assinala o ..Camarote de […], mas, não obstante os pormenores a que desce, não diz quem era este dom Fernando. E nenhum dos autores que têm escrito sobre as Termas levanta este problema. Não se trata do rei Fernando I. Não se conhece qualquer notícia de que lá tenha estado. Se tal tivesse acontecido, Pires Sylva não deixaria de o tratar por rei. Também não cremos que se trate de Fernando Pedro, aquele senhor de Lafões referido no foral de 1152. Se tal fosse, o autor da ...Chronographia…, não omitiria Pedro, já que, no texto, sempre o trata por Fernando Pedro, que, de resto, como vimos, já era morto quando veio o Rei. A designação de Camarote de dom Fernando, deve ser mais tardia. Poderia, talvez, referir-se ao 2.º duque de Viseu. É apenas uma hipótese. O próprio Sylva escreveu: por morte de dom Henrique, que succedeo aos 1460. Foi seruido o Senhor Affonso V dar o senhorio do Concelho, & Caldas de Alafoens a seu irmão o Serhor dom Fernartdo, Infante, e Condestavel de Portugal, e Mestre das Ordens de Christo, I Santiago.
A planta não assinala o antigo banho das mulheres, mas Sylva descreve-o. Seria, quasi subterraneo e a ele se passaria por uma porta, nas costas do banho dos homens e se desceria por uma escada de pedra. Janelas de grades que descobriam um e outro banho, ao tempo transformadas em portas, mostrão (?) que ouve nas casas, junto ao banho das mulheres, alguma casa particular, donde alguma Pessoa Real, por evitar a prolixidade das continencias, & cortesias uia, sem ser vista, o modo de tomar banhos…» In António Nazaré Oliveira, Termas de S. Pedro do Sul, Antigas Caldas de Lafões, Palimage Editores, Viseu, 2002, ISBN 972-857-538-6.

Cortesia de PalimageE/JDACT

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Termas de S. Pedro do Sul. A. Nazaré Oliveira. «... como a administraçaõ das Caldas he sem lucro algum, & ocupação grave, que divertia os Collegiaes do seu estudo, pediraõ a ElRey lhes désse em seu lugar a Capella de Álmoster…»

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O Hospital Real das Caldas de Lafões
«(…) Manuel d'Azevedo Almeyda era filho de Sebastião Rodrigues Azevedo e Isabel d'Almeyda, da Casa da Cavalaria, pelo que, com ele, a provedoria voltou à família dos Almeydas, após a breve interrupção, no tempo do Cardeal-Rei. Em 14 de Outubro de 1592, o Desembargo do Paço repete todas as obrigações dos administradores das Caldas, nomeadamente das quatro camas para os pobres; de sustentar à sua custa um Banheiro que tinha o cuidado de temperar as águas aos enfermos; de cada um dos 24 homens repartidos pelos 24 casais ter disponível uma cama, ao preço de dois reais por noite, para quem viesse aos banhos; um clérigo para dizer missa e todos os ornamentos necessários ao culto; pagar a lâmpada acesa onde estavam os enfermos; reparar o Hospital de todas as ruínas e danificações.
Aqui se fala em 24 casais, o que não condiz com os 22 do Tombo de João V. Como vimos, é na carta de mercê a Fernão Lopes d'Almeyda que se estipula aquela obrigação dos 24 homens privilegiados, ainda que não se refira o número de casais. Mas tudo parece indicar que os 24 homens correspondiam aos 24 casais que constituiriam o Reguengo do Hospital. A ser assim, há lacuna no Tombo de João V. Teriam escapado dois casais a quem o organizou. Posteriormente, Filipe II deu a administração ao Real Colégio de S. Paulo em Coimbra, o que levou a Câmara de Lafões a levantar embargo, com base no facto de a haver possuído no tempo do Cardeal-Rei. O Colégio venceu o litígio, em 1611. Mas, pouco tempo depois, renunciou, devido aos cuidados de tal administração, não compensados por lucro tão reduzido. Pires Sylva refere-o, nos seguintes termos: ... como a administraçaõ das Caldas he sem lucro algum, & ocupação grave, que divertia os Collegiaes do seu estudo, pediraõ a ElRey lhes désse em seu lugar a Capella de Álmoster, o que ElRey lhes concedeo liberalmente (…) ficou a administração devoluta aos Juizes de fóra do dito Concelho [de Lafões] , como Ouvidores da Villa, & Caldas do Banho, atè ao tempo em que o Senbor Rey Pedro II, fez mercè, & doaçaõ della a Ayres Almeyda Sousa, senhor da mesma casa da Cavallaria, & descendente dos possuidores do mesmo couto, & Villa do Banho.
Foi a mercê concedida por alvará de 4 de Janeiro de 1676, seguida de carta de doação de 28 de Fevereiro do mesmo ano. Nesta data, Pedro era ainda Príncipe Regente e não Rei, como afirmam Pires Sylva e todos quantos o repetem. De resto, como pode ler-se na carta, Pedro intitula-se Príncipe, ainda que como rei actuasse: … D. Pedro (…) Faço saber (...) que por parte de Áires Almeida Sousa Sá, Fidalgo da Minha Casa Me Foi apresentado um Alvará por mim assinado (...) Eu o Principe (...) Hei por bem fazer-lhe mercê (...) da Villa e Coito dos Banhos (...) sendo seu provedor como fazia até agora o Juiz de Fora do Concelbo de Lafões, como Ouvidor da dita Villa e Coito, e como foram os antepassados do Suplicante.
Sabe-se por uma escritura datada de 26 de Fevereiro de 1684 que, durante esta provedoria, foi o Hospital sujeito a obras de ampliação: … em a Quinta da Cavalaria, junto à vila de Vouzela, do concelho de Lafões, nas casas da dita Quinta, onde eu Tabelião fui, estando aí presentes Aires Almeida Sousa, Fidalgo da Casa de Sua Majestade, Senhor da Vila e Couto dos Banhos e Provedor do Hospital das Caldas e Vila dos ditos Banhos, (...) e bem assim Manuel Ferreira (...) e António Lourenço Novo, moradores no lugar de S. Miguel do Outeiro, do termo da cidade de Viseu (…) e logo por eles foi dito (…) que ele dito Aires Almeida Sousa mandara pôr a pregão as quatro casas que se vão a fazer no Hospital dos Banhos na forma dos apontamentos que estão nos autos de arrematação da dita obra, (...) ele dito Manuel Ferreira se obriga a fazer a dita obra (...) e dá-la feita e acabada até ao fim de Setembro o primeiro que vem deste presente ano (...) e em preço e quantia de Noventa e cinco mil réis que tanto consta do auto de arrematação em que foi arrematada esta obra de pedraria». In António Nazaré Oliveira, Termas de S. Pedro do Sul, Antigas Caldas de Lafões, Palimage Editores, Viseu, 2002, ISBN 972-857-538-6.

Cortesia de PalimageE/JDACT

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

A Fonte das Bicas. Centro de Estudos Documentais do Alentejo. João Miguel Simões. «Além dos vereadores da Câmara e do ouvidor da comarca de Vila Viçosa, estiveram também presentes nesta reunião os procuradores do povo e o sargento-mor engenheiro José Álvares Barros…»

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A amizade de AMG e MM

A construção da monumental Fonte das Bicas
«(…) A 12 de Junho de l781, reuniram-se os vereadores da Câmara com o Doutor José Matos Pereira Godinho, juiz de fora de Sousel, que na altura servia como ouvidor da comarca de Vila Viçosa, para resolver a situação da nova fonte do Rossio:

por elle (ouvidor) foi apresentada huma ordem passada pello tribunal da Junta da Sereníssima Casa de Bargança expedida em exclusão do que Sua Magestade tomou na comsulta que se lhe avia feito sobre as comtrovécias que tem avido do estado em que se axão as águas da Fonte dos Finados no Rexio de Baxo desta villa, mamdando que se registace com a cópia do Alvará de mil setecentos e oito que e por cópia vem junto à mesma ordem para que assim se pudesse dar a sua execução tudo o que a mesma ordem detremina.

Além dos vereadores da Câmara e do ouvidor da comarca de Vila Viçosa, estiveram também presentes nesta reunião os procuradores do povo e o sargento-mor engenheiro José Álvares Barros, autor do projecto da Fonte das Bicas. A sua função aqui era dar um parecer técnico sobre a melhor decisão a recair na obra da nova fonte:

E llogo pellos Vereadores actuais com asistência dos Procuradores do povo que para este fìm se avião comvocado; como também sendo mais prezente o Sargento Mor Emgenheiro José Álvares Barros chamado para dar o seu parecer sobre o plano que se devia seguir na execussão da referida obra.

Decidiram os representantes do povo que, tendo em conta a decisão do rei de conceder livre uso das águas, se devia construir uma nova fonte no Rossio de Baixo, já que a antiga era desproporcionada e tecnicamente defeituosa, havendo a necessidade de rebaixar a canalização para permitir um melhor escoamento:

Por huns e outros foi dito ao dito Menistro gue, vista a determinação de Sua Magestade e feculdade que nella se lhe dá para o livre uso das águas da dita fonte, avião acentado que, em utilidade do bem público, se devia por em prática a obra seguinte: primeiramente que, como a arca que prezentemente existe hé disforme na grandeza e na fundura com o grande peso de sete palmos de água, que se fazia necessário rebaxar o cano da antgua saída na altura de três palmos que hé o que premite o declívio do terreno aonde se ade formar a nova fonte, xafaris e logo comtemplado na ordem que dista da arca antígua duzentos e vinte palmos, em cujo sítio se pos huma baliza na prezença do dito Ministro e dos oficiais da Câmara e procuradores do Povo que todos, na manham do prezente dia se instruirão e capacitarão do terreno e plano que devião seguir na asistência do dito sargento-mor Engenheiro que praticando sobre o mesmo terreno o calcusso e medição nescessária se acentou no referido rebaxo dos três palmos da água para fazer o declívio no sítio da Baliza, em que se ade fazer a fonte, xafaris.

Contudo, segundo o sargento-mor engenheiro José Álvares Barros, a obra de rebaixamento das canalizações não era possível de se executar na antiga fonte:

E logo, regulada esta obra pello risco que o dito sargento-mor fica pondo em limpo em beneplácito e aprovação dos ditos oficiais a Câmara e procuradores do Povo, e por acentar segundo lhe menistrava a sua arte não se poder executar no referido cítio a mencionada obra com utilidade do público sem o rebate ao menos dos ditos três palmos.

Assim, fechou-se a antiga fonte e fez-se um chafariz provisório que servisse a população. Pelo que nos revelam os documentos, a antiga fonte era perigosa, tendo ocorrido aí imfelicidades, muito provavelmente afogamentos, devido à profundidade do tanque. A água que brotava da fonte também não vinha nas melhores condições, tendo-se feito uma nova canalização:

E para se dar providência imterina ao uso da água da dita fonte em benefício do Público, se detreminou se abrice o alicerce por onde se deve formar o cano em direitura no cítio da baliza na A, digo, da baliza e se puzece água a correr na altura em que ade ficar para que pendurada por huma bica se possa utilizar a Povo, tapando-ce a arca antígua afim de se evitarem os perigos e imfelicidades que tem acomtecido e se utilize o Público da dita água durante a obra pella grande nescessidade que della tem pura e não com a immundice com que se axa, e que as sobras se regalarão, comcluída a dita obra.

Assim, com a construção de uma nova fonte, convenientemente projectada, evitar-se-ia a falta de água, melhorar-se-ia a sua qualidade e inovar-se-ia a canalização, de modo a conciliar os interesses da população com os interesses de Maria Vitória Moraes Monis Melo, que tinha do seu lado a provisão régia e a decisão do tribunal da Casa de Bragança que lhe dava o direito a usufruir dos restos da água da Fonte dos Finados. A Fonte das Bicas surgia, assim, como uma obra de engenharia que necessitaria de um esforço acrescido por parte do município. Desta forma, na vereação de 4 de Julho de 1781, decidiu a Câmara Municipal vender os direitos sobre os pastos dos olivais, águas, vertentes para a serra não só este anno, mas também o vindouro para com o produto melhor se poder fazer a obra que se pertend e fazer». In João Miguel Simões, A Fonte das Bicas, Centro de Estudos Documentais do Alentejo, Edições Colibri e CEDA, Lisboa, 2002, ISBN 972-772-344-6.

Cortesia de Colibri/JDACT

A Fonte das Bicas. Centro de Estudos Documentais do Alentejo. João Miguel Simões. «Assim que a câmara municipal decidiu construir a nova fonte, deve ter cortado o abastecimento da água da nascente à horta de Diogo Melo, recebendo logo uma petição de Maria Vitória Moraes…»

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A amizade de AMG e MM

A importância da água na vila de Borba e os antecedentes da Fonte das Bicas
«(…) Como a canalização feita por Francisco Morais Barreto levava toda a água para o Rossio, tornando inútil a Fonte dos Finados, construiu-se aí a nova fonte. Contudo, o referido Diogo Melo foi intimado a pagar as despesas da obra, sob pena de lhe serem confiscados os bens em Borba, facto que muito provavelmente acabou por acontecer. A nova fonte, construída no local onde hoje se encontra a Fonte das Bicas, foi construída por Bartolomeu Lopes Cordeiro, pela quantia de 24 800 réis.
A questão em volta da nova fonte, que continuava a chamar-se de Fonte dos Finados, apesar de se ter afastado da igreja Matriz, deve ter suscitado alguma polémica, já que, a l9 de Junho de 1754, a Câmara de Borba recebeu uma ordem do rei para se juntar em assembleia a nobreza e povo do concelho para estes se pronunciarem se a fonte era realmente útil ou não. A resposta seguiu para Lisboa, a 7 de Setembro de 1754, apesar de não sabermos qual o seu conteúdo. Da nova Fonte dos Finados só encontramos notícias em 1772, quando, na vereação de 13 de Maio desse ano, se determinou reparar grande parte das fontes do concelho. No caso desta fonte, decidiu-se acrescentar a sua bacia:

Nesta (vereação) detreminarão se (...) acresentace três quartos (?) na Bacia das Bicas da fonte da igreja.

Foram estes os factos que antecederam a construção da actual Fonte das Bicas. A sua referência torna-se importante porque estes condicionaram a concepção da obra de arte que hoje se admira em Borba. A sua configuração funcional e a sua localização resultaram de todo este conturbado processo, que se arrastou ao longo dos anos, onde os interesses de particulares se sobrepunham aos interesses da Câmara e do povo. Será precisamente esta questão que está subjacente à reedificação monumental da Fonte do Rossio, conhecida como Fonte das Bicas, já que é um símbolo do poder da Câmara Municipal, enquanto defensora do bem comum e dos interesses do povo.

A construção da monumental Fonte das Bicas
O primeiro passo para a edificação da actual Fonte das Bicas foi um pedido da Câmara da vila de Borba ao rei, pedindo a autorização para construir o monumento. Na época, reinava ainda o monarca José I, que mandou, como era tradição, que a Câmara reunisse em assembleia a nobreza e povo de Borba para estes se pronunciarem sobre a real necessidade de se construir a referida fonte. Esta reunião teve lugar a 6 de Agosto de 1775 e:

por todos uniformememte foi dito que esta obra hé munto util pella decencia em que se axão as fontes desta villa e que a sua despeza não duvidão se fassa pellas sobras das Ruas do País e asignarão.

Contudo, o dinheiro destinado às Ruas do País não era suficiente e, a 4 de Janeiro de 1778, em nova assembleia municipal com a nobreza e povo de Borba, decidiu-se vender parte dos bens da Câmara:

Nesta, a voz do porteiro foi chamada a Nobreza e Povo para responderem se convinhão na obra que se pertende fazer da fonte do Rexio desta villa e se consentem que a sua despeza se fassa pellos sobejos dos Bens de Raís visto a pobreza do concelho.

Assim que a câmara municipal decidiu construir a nova fonte, deve ter cortado o abastecimento da água da nascente à horta de Diogo Melo, recebendo logo uma petição de Maria Vitória Moraes Monis Melo em que solicitava que as sobras da fonte lhe fossem restituídas, comprometendo-se a reconstruir a fonte do Rossio. A referida senhora conseguira uma provisão expedida pelo Tribunal da Sereníssima Casa de Bragança que lhe dava razão:

Nesta foi aprezentada huma petição de Donna Maria Vitória Moraes Mello pella qual pertende que em vertude das provizois expedidas pello tribunal do Sereníssimo Estado de Bargança se lhe mamde restituir as sobras da água da Fonte dos Finados obrigando-ce a perparar a fonte como antes hera.

In João Miguel Simões, A Fonte das Bicas, Centro de Estudos Documentais do Alentejo, Edições Colibri e CEDA, Lisboa, 2002, ISBN 972-772-344-6.

Cortesia de Colibri/JDACT

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

A Fonte das Bicas. Centro de Estudos Documentais do Alentejo. João Miguel Simões. «Visto o referido e ter o sobredito mais utilidade na mudança deste xafaris para as ágoas da dita Fonte dos Finados do que em faze-llo de novo…»

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A amizade de AMG e MM

A importância da água na vila de Borba e os antecedentes da Fonte das Bicas
«(…) Catarina Matilde, a obra feita para restituir a água aos populares:

e assim com o procuradro deste povo e atendendo ao bem comum e a se tre faltado as condisois do dito alvará que em todo se devia cumprir requeria que mandasem notificra Catherina Matilde veuva do mesmo pera que em tremo de trinta dias mande fazre o chafaris e tanque na froma disposto em o dito alvará com cominassão de que não o fazendo de se mandra demolri a dita fonte como justa, digo, fonte pondo-se esta no mesmo estado que de antes estava seu chafaris.

Três anos passaram e Catarina Matilde nada fez para restituir a água ao povo e construir a fonte a que seu marido se havia obrigado. A Câmara fez uma nova notificação, a l2 de Agosto de 1744, tendo esta sido entregue em mão pelo escrivão do município, Diogo Sande Vasconcellos Corte Real. Contudo, a referida senhora não deve ter reagido bem à nova notificação da Câmara, já que se registou nas actas que se lhe tirará o dito ógoa yisto a rebeldia. A obra feita por Francisco Morais Barreto foi demolida para se restituir a água ao povo e entregou-se as contas à referida Catarina Matilde. Quem ficou encarregue de fazer a cobrança da dívida foi o juiz de fora, mais uma vez devido à rebeldia da senhora. Em 1753, a questão da fonte que Francisco Morais Barreto deveria ter construído volta a aparecer nas sessões da Câmara. A consequência de todo o processo foi que o chafariz construído pelo defunto fora demolido e a Fonte dos Finados continuava seca, continuando o povo sem ter a água a que tinha direito, possivelmente por se não ter remodelado as canalizações subterrâneas que levavam a água para as hortas:

consta que o sobredito tenha feito hum xafaris próximo do lagar de Diogo Francisco desta villa (...) o qual de prezente se acha demolido e com a fonte daonde lhe corria a ágoa para o mesmo totalmente seca.

A Câmara entendeu que se devia intimar os actuais proprietários da horta que recebia as águas da Fonte dos Finados a construir o chafariz definido na provisão régia:

hum xafaris com três bicas e hum tanque grande para beberem as bestas e seo lavadouro.

O actual proprietário era Diogo Melo, morador na cidade de Évora, que recebeu uma carta do município intimando-o a construir a fonte, sob pena de lhe serem tiradas as águas que lhe abasteciam a horta. Como, provavelmente, Diogo Melo nunca tinha ouvido falar nesta obrigação, nem respondeu à carta da Câmara de Borba. Os vereadores, perante a falta de água, decidiram aproveitar as canalizações feitas por Francisco Morais Barreto, transferindo a Fonte dos Finados para o Rossio de Baixo, construindo-lhe as três bicas, o tanque e o lavadouro, como estava estipulado pelo alvará régio:

Visto o referido e ter o sobredito mais utilidade na mudança deste xafaris para as ágoas da dita Fonte dos Finados do que em faze-llo de novo, como hé obrigado, acordaram os sobreditos vereadores que na forma da dita provizam e à vista do referido se devia por emposo a obra seguinte: mudouce o dito xafaris que se acha sem água para lugar mais conviniente que pudece receber as ágoas da dita Fonte dos Finados, fazendo-o no mesmo três bicas e juntamente hum tanque e no fim deste outro tanque que posa servir de lavadouro e que deste deve entam ser feito o cano que posa receber as sobras destas ágoas para dellas se utilizar o sobredito para a sua orta.

A Câmara não cortou o abastecimento de água à horta de Diogo Melo, apenas fez cumprir a disposição já antiga que obrigava à construção de uma fonte com mais capacidade e infra-estruturas». In João Miguel Simões, A Fonte das Bicas, Centro de Estudos Documentais do Alentejo, Edições Colibri e CEDA, Lisboa, 2002, ISBN 972-772-344-6.

Cortesia de Colibri/JDACT

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

No 31. As Forcas do Distrito de Portalegre. Parte XII. «Com boa visibilidade para a vila e sobranceira à estrada para Ouguela, esta forca aparece referida numa planta da vila de Campo Maior, datada do século XVII»

jdact

«(...)
Campo Maior
A forca de Campo Maior situava-se no cerro denominado actualmente por Cabeça Gorda, onde se levanta um marco geodésico. A curta distância para Su1 do marco, observa-se uma irregular plataforma de terra que teria servido de patíbulo, local onde se teria erguido a forca de Campo Maior. Com boa visibilidade para a vila e sobranceira à estrada para Ouguela, esta forca aparece referida numa planta da vila de Campo Maior, datada do século XVII.
O loca1 onde se situava a forca possui as seguintes coordenadas UTM, obtidas por GPS: X - 0666682; Y - 4321137.


Localização da forca de Campo Maior

Planta de Campo Maior, assinalando-se com o nº 33 o Sítio da Forca

Marco geodésico da Cabeça Gorda, junto do qual se localizava a forca

Cano
A forca do Cano situava-se na Tapada da Forca, a norte do núcleo mais antigo da vila, no prolongamento da Travessa dos Nocturnos, a cerca de 300 metros do actual limite da povoação. Da forca, hoje já nada subsiste. A Tapada da Forca é uma parcela de terra agrícola aplanada, numa cota levemente elevada à vila.
A Tapada da Forca possui as seguintes coordenadas UTM, obtidas por GPS:
X - 0607590; Y - 4314113.


Localização da forca do Cano

Tapada da Forca

Castelo de Vide
A forca de Castelo de Vide situava-se no Outeiro da Forca, na linha de cumeada que se situa a SE da vila e que acompanha a estrada que liga esta vila a Marvão. No local da forca, existe ainda hoje uma rua denominada Outeiro da Forca. Por informação oral, a forca de madeira estaria levantada em frente ao velho moinho que ainda hoje aí se conserva. Contudo, esta informação parece-nos algo estranha, considerando que a idade do moinho o faria contemporâneo da utilização da forca e não nos parece que fossem consentâneas as duas coexistências em espaço tão reduzido.
Provavelmente, a forca situar-se-ia algumas dezenas de metros para SE do moinho, para os lados da Matosa.
O local provável da forca de Castelo de Vide possui as seguintes coordenadas UTM, obtidas por GPS: X - 0633656; Y - 4363855».


Localização da forca de Castelo de Vide

Moinho no Outeiro da Forca

Rua do Outeiro da Forca


In Jorge Oliveira e Ana Cristina Tomás, As Forcas do Distrito de Portalegre, 140 anos após a abolição da Pena de Morte, Edições Colibri, 2007, ISBN 978-972-772-767-4.

Cortesia de EColibri/JDACT

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

As Forcas do Distrito de Portalegre. Parte XI. «Torna-se estranha esta informação, quando a muito curta distância se situa Nisa, a sede de concelho, e aí se levantava também uma forca»

jdact

Cabeço de Vide
«A forca de Cabeço de Vide é a que se encontra em melhor estado de conservação, de todas as conhecidas no distrito de Portalegre. A sua não destruição intencional terá ficado a dever-se à extinção do concelho de Cabeço de Vide, no século XIX, e à prolongada indefinição da jurisdição municipal deste território, que era disputado entre Alter do Chão e Fronteira. Pensamos que a principal causa da destruição da maioria das forcas se ficou a dever a deliberações camarárias, logo após a abolição da pena de morte, em 1867.
A forca de Cabeço de Vide é formada por dois pilares em alvenaria. O do lado sul, que se encontra completo, é encimado por uma pirâmide que se sobrepõe a um paralelepípedo. A altura, desde o actual solo ao vértice da pirâmide, é de 333 centímetros, e a largura média dos pilares é de 77 centímetros. O afastamento entre os dois pilares é de 222 centímetros. Na face poente dos dois pilares, a cerca de 130 centímetros do solo, abrem-se dois orifícios simétricos, de secção quadrangular, com cerca de 15 cm de lado e uma profundidade que quase atinge a face oposta dos pilares. Estes orifícios destinar-se-iam a montar uma qualquer estrutura, provavelmente de madeira, com o objectivo de apoiar o condenado antes de ser suspenso pelo pescoço. Nas faces internas dos dois pilares, na base das pirâmides, identificam-se dois orifícios quadrangulares com cerca de 20 cm de lado, destinados a apoiar a trave de madeira que suportaria os enforcados.
Os dois pilares, obtidos em pedra e argamassa, terão sido, na origem, totalmente rebocados e, atendendo a alguns leves sinais ainda visíveis, terão sido, igualmente, caiados. No solo, junto à face nascente da forca, parece existirem sinais de um murete que avançaria dos pilares e limitaria um curto espaço de terreno. Eventualmente, este murete destinar-se-ia a resguardar os corpos dos condenados, quando em morte perpétua, dos animais necrófagos. Atendendo ao aterro que se verifica junto aos pilares da forca, uma eventual escavação arqueológica viria a possibilitar a compreensão desta estrutura.
A forca de Cabeço de Vide, como todas as outras, implanta-se na face nascente de uma colina sobranceira à vila e nas imediações da estrada principal, não muito distante do antigo Rossio. A forca de Cabeço de Vide assinala-se na Carta Militar de Portugal e encontra-se envolta em lendas que os mais idosos da vila constantemente repetem. Possui as seguintes coordenadas UTM, obtidas por GPS: X - 0621196;Y - 4332920.


Localização da forca de Cabeço de Vide


Forca de Cabeço de Vide


Cacheiro
Houve a informação que, nas imediações de S. Matias do Cacheiro, povoação situada a curta distância de Nisa, existia um local denominado Cabeço da Forca. Na pequeníssima povoação de Cacheiro, que nunca foi sede de concelho, imediatamente nos indicaram onde se situava o lugar da forca. A cerca de 1500 metros para nascente da povoação, num suave outeiro, ali se teria erguido, quando era preciso, uma forca. Segundo informação recolhida entre os idosos que à soalheira de uma tarde de Primavera se sentavam à porta da igreja de S. Matias, soubemos que noutros tempos, quando o juiz por ali passava e havia criminosos presos, enforcavam-nos no alto do cabeço para que todos vissem. Torna-se estranha esta informação, quando a muito curta distância se situa Nisa, a sede de concelho, e aí se levantava também uma forca. Contudo, com a  presença do topónimo e as afirmações peremptórias dos mais idosos da povoação, deslocámo-nos ao sítio da forca, onde nada foi possível observar que se relacionasse com o monumento.
Pelas informações locais, esta forca seria de madeira. O local possui as seguintes coordenadas UTM, obtidas por GPS: X - 0611184;Y - 4379709.


Localização da forca de Cabeço da Forca do Cacheiro


Cabeço da Forca


In Jorge Oliveira e Ana Cristina Tomás, As Forcas do Distrito de Portalegre, 140 anos após a abolição da Pena de Morte, Edições Colibri, 2007, ISBN 978-972-772-767-4.

Cortesia de EColibri/JDACT

As Forcas do Distrito de Portalegre. Parte X. «Para a construção desta antena, foi destruída, na face poente e Norte, uma estrutura de alvenaria, de forma quadrangular…»

jdact

Barbacena
«A forca de Barbacena situava-se na margem esquerda da Ribeirinha, a nascente do castelo. O local é hoje um amplo largo junto a oficinas de mecânica. Por informação oral, sabemos que a forca era de madeira. Dela hoje já nada resta.
O local possui as seguintes coordenadas UTM, obtidas por GPS: X – 0648232; Y – 4314182.


Localização da forca de Barbacena


Local onde se implantava a forca


Belver
A forca de Belver situava-se no topo de um cerro sobranceiro à vila, a norte da ermida da Sra do Pilar. O local foi profundamente afectado pela instalação de uma antena de telefones móveis. Para a construção desta antena, foi destruída, na face poente e Norte, uma estrutura de alvenaria, de forma quadrangular, que poderia ter pertencido ao patíbulo onde se levantaria a forca. Atendendo à quantidade de pedras com argamassas que aí ainda se conservam, é provável que esta forca fosse de pedra e cal.
A forca de Belver possui as seguintes coordenadas UTM, obtidas por GPS: X – 0589804; Y – 4372601.


Localização da forca de Belver


Vista de Belver e topo do Outeiro da Forca, vendo-se a estrutura destruída


In Jorge Oliveira e Ana Cristina Tomás, As Forcas do Distrito de Portalegre, 140 anos após a abolição da Pena de Morte, Edições Colibri, 2007, ISBN 978-972-772-767-4.

Cortesia de EColibri/JDACT

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Os Teatros de Lisboa. 1874. Júlio C. Machado. «Ninguém se vestia melhor do que elle nas peças d’epocha, ninguém melhor do que elle tirava partido das cores, da elegância das attitudes, da propriedade dos accionados»

Bordalo Pinheiro e jdact

De acordo com o original

D. Maria
«(…) E, como assim acontecesse, a Soller começou a ser a senhora Josepha Soller Assis. Este Assis, António Maria Assis, era um soffrivel actor de alta-comedia, e nascera dotado de quasi todas as condições que constituem o galã de theatro. Era alto, elegante, extremamente sympathico de phisionomia, e com bons olhos. Havia-se estrelado em theatros particulares, e só em 1844 se arriscou a theatros públicos no drama em cinco actos, O infanticidio ou a ponte de S. Cloud. Tinha vinte e dois annos então. No theatro normal, o seu reportório foi sempre o mais escolhido e o mais litterario, e, de ordinário, capricho do acaso ou iniciativa dos auctores, teve este artista papeis em que fazia a cada passo declarações de amor..., a sua mulher! Garrett gostou muito d'elle no seu fr. Luiz de Sousa, e este é decerto o maior louvor para a memoria do artista.
Comquanto a natureza fosse cruel para com a Soller, baixinha, sem voz, sem olhar, sem elegância, o trabalho, que é um segundo talento, valleu-lhe e elevou-a. Chegou a ser notável, grande. Mas, a estrella da felicidade foi-se apagando para ella a pouco e pouco; vieram as guerras e misérias dos bastidores; a melancholia de se encontrar preterida, o despeito de ver que lhe roubavam as flores da sua coroa, não poderia deixar de ter influencia no seu destino; deshabituada do palco pelos longos intervallos em que se encontrou afastada d'elle, sempre que reaparecia em scena, ia como que receiosa, indecisa, timida, hesitante, tremula! Tinha ainda altitudes, gestos, meneios de cabeça, admiráveis; quando representava com Emilia das Neves, ainda erguia a fronte soberbamente, como sacudindo o peso da oppressão que nos últimos tempos lha curvava! Havia thesouros de vingança a trahirem-se nas suas mãos que se encrespavam, nos seus nervos que tremiam sob a immobilidade fria de uma resolução implacável!
Disse adeus difinitivo ás glorias de acordar o enthusiasmo; o publico insaciável e inconstante nos seus prazeres, não se preoccupou sequer um instante com a desgraça d’esse antigo idolo. Sentia e impressionava-se quando declamava! Não era uma vaidosa recitação mais ou menos modulada pelos lábios; era a voz que se quebra, as fibras que palpitam, um anno de vida gasto em dez minutos! Era o ódio, o furor, a revolta, a aspiração á liberdade, as mais devoradoras paixões humanas concentradas n’um frágil corpo de mulher! Se os auctores attendessem ao melhor género do seu talento, se o theatro não a desconsiderasse afastando-a da scena, o publico haveria tido mais occasiões de applaudir senão a esbelta e alegre Ciganinha, ao menos a pallida e melancholica Luiza do Casal das giestas!
Onde havemos de collocar o nosso Rosa, João Anastácio, que apparece hoje tão raras vezes no tablado, e ora n‘um theatro, ora n’outro, sem se perceber bem se elle ainda é do teatro de D. Maria, se é de qualquer theatro de Lisboa ou Porto, ou se não é já de theatro algum? Rosa tem sido um artista importante, mexendo um pouco em tudo, e dotado de uma quantidade de prendas, só comparável á da menina do conto que o pae queria casar: isto canta, isto toca, isto dança, isto borda, isto faz doce!...
Assim, Rosa actor! Chega a parecer a ladainha: Rosa mystica! Rosa ebúrnea! Rosa pulcra! D’essa variedade de talentos tirou por muitas vezes os melhores segredos para a composição do seu personagem. Ninguém se vestia melhor do que elle nas peças d’epocha, ninguém melhor do que elle tirava partido das cores, da elegância das attitudes, da propriedade dos accionados, das combinações engenhosas de caracterisação.
Depois, como sabia sempre com perfeição os seus papeis, tornava-se completamente senhor da acção e verdadeiramente attingia por vezes as proporções de artista de primeira ordem. A doença e a rabuge principiaram a querer moel-o. Elle tem-as moido a ellas. Ainda eu era pequeno já elle voltava dos Pyreneos onde fora tratar-se. Desde então, lá tem tido artes de entreter seus males e por ahi o vemos, com grande alegria nossa, ir passeando a sua enfermidade e o seu mau humor. Não há affectação n’aquelle estado. Soffre effectivamente com as alternativas do tempo, e duas ou três nuvens paradas no azul do ceu prejudicam-o mais do que se pode calcular». In Júlio César Machado, Os Teatros de Lisboa, Ilustrações de Bordalo Pinheiro, Livraria Editora Mattos Moreira, 1874, PN 2796 L5M25, Library Mar 1968, University of Toronto.


Cortesia de LEMMoreira/1874/Bordalo Pinheiro/JDACT