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quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

No 31. A Solidão dos Números Primos. Paolo Giordano. «A erva do prado ainda estava húmida da cacimba da noite. Michela saltitou atrás dele, sujando as suas botinhas de camurça branca…»

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O Princípio de Arquimedes (1984)

«(…) Vai pegar na bola e não a dá a ninguém, exactamente como faz na escola, pensava Mattia. Olhou para a gémea, que tinha olhos iguais aos seus, nariz igual ao seu, cor de cabelos igual à dos seus e um cérebro de deitar fora, e, pela primeira vez sentiu um ódio autêntico. Pegou-lhe pela mão para atravessar a avenida, onde os carros passam a maior velocidade. Foi ao atravessar que lhe veio uma ideia. Largou a mão da irmã, coberta pela pequena luva de lã e achou que não era justo. Depois, enquanto ladeavam o parque, mudou de ideia outra vez e convenceu-se de que jamais alguém viria a saber. É só por algumas horas, pensou. Só desta vez. Mudou bruscamente de direcção, puxando Michela por um braço, e entrou no parque. A erva do prado ainda estava húmida da cacimba da noite. Michela saltitou atrás dele, sujando as suas botinhas de camurça branca, novinhas em folha, na lama.

No parque não se via ninguém. Com aquele frio a vontade de passear passaria a qualquer pessoa. Os dois gémeos chegaram a uma zona arborizada equipada com três mesas de madeira e um grelhador de carne para piqueniques. No primeiro ano escolar ficaram por ali a almoçar, numa manhã em que as professoras os haviam levado a passear para apanharem folhas secas, com que depois fariam horríveis centros de mesa para oferecer aos avós no Natal. Michi, ouve-me bem, disse Mattia. Estás-me a ouvir? Com Michela era sempre necessário certificar-se de que aquele seu estreito canal de comunicação estava aberto. Mattia esperou por um aceno de cabeça da irmã. Muito bem. Então, eu agora, tenho de me ir embora durante algum tempo, está bem? Mas não demoro muito, é só meia hora, explicou-lhe. Para dizer a verdade nem era preciso, já que para Michela meia hora ou um dia inteiro fazia pouca diferença. A doutora tinha dito que o desenvolvimento da sua percepção espaciotemporal estagnara numa fase pré-consciente e Mattia compreendera muito bem o que queria dizer.

Ficas aqui sentada e esperas por mim, disse à gémea. Michela fitava o irmão com seriedade e não disse nada, pois não sabia responder. Não deu sinal de ter compreendido verdadeiramente mas, por instantes, os seus olhos acenderam-se e Mattia, por toda a vida, pensou naqueles olhos como olhos de medo. Afastou-se alguns passos da irmã, caminhando ao contrário para continuar a olhar para ela e assegurar-se de que não o seguia. Só os caranguejos é que caminham dessa maneira, havia-lhe ralhado a mãe certa vez, e acaba sempre que vão bater nalgum sítio. Estava a quinze metros e Michela já não olhava para ele, compenetrada que estava a tentar arrancar um botão do seu casaco de lã. Mattia voltou-se para a frente e começou a correr, apertando na mão o saco com o presente. Dentro da caixa, mais de duzentos cubinhos de plástico batiam uns contra os outros e pareciam querer dizer-lhe alguma coisa. Olá, Mattia, recebeu-o a mãe de Riccardo Pelotti abrindo a porta. E a tua irmã? Está com um pouco de febre, mentiu Mattia.

Oh, que pena, disse a senhora, que não parecia nada ter pena. Afastou-se para o deixar entrar. Ricky, chegou o teu amigo Mattia. Vem cumprimentá-lo, gritou na direcção do corredor. Riccardo Pelloti surgiu com uma derrapagem no pavimento e a sua expressão antipática. Deteve-se por um segundo a olhar Mattia e procurou vestígios da atrasada. Depois, aliviado, disse olá. Mattia levantou o saco com o presente debaixo do nariz da senhora. Onde ponho isto?, perguntou. O que é?, perguntou Riccardo, desconfiado. É um Lego. Ah. Riccardo pegou no saco e desapareceu de novo pelo corredor». In Paolo Giordano, A Solidão dos Números Primos, 2008, tradução de José Serra, Bertrand Editora, Lisboa, 2013, ISBN 978-972-251-834-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, Paolo Giordano, Literatura, Escrita, Saber,

quinta-feira, 7 de maio de 2020

A Solidão dos Números Primos. Paolo Giordano. «A mãe dos gémeos ficou logo agitada e levou ambos à Benetton para os vestir com roupa nova dos pés à cabeça. Passaram por três lojas de brinquedos, mas Adele não parecia muito convicta»

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O Princípio de Arquimedes (1984)
«(…) Então, Mattia punha-se de pé, levantando a cadeira para não a arrastar pelo chão e colocava-se atrás de Michela, que girava a cabeça de um lado para o outro e esbracejava, agora, com tanta rapidez que ele até tinha medo que os braços se lhe despegassem do corpo. Mattia pegava-lhe nas mãos e delicadamente fechava-lhe os braços no peito. Agora já não tens asas, segredava-lhe ao ouvido. Michela ainda demorava alguns segundos a deixar de tremer. Ficava fixada em algo de inexistente durante alguns segundos, e depois recomeçava a torturar os seus desenhos como se nada fosse. Mattia sentava-se de novo no seu lugar, cabisbaixo e de orelhas vermelhas de embaraço e a professora prosseguia com a explicação. No terceiro ano os gémeos ainda não tinham sido convidados para nenhuma das festas de aniversário dos seus colegas. A mãe apercebeu-se do facto e pensara resolver a situação dando uma festa por ocasião dos anos dos gémeos. À mesa o senhor Balossino havia rejeitado a proposta dizendo por amor de Deus Adele, a coisa já é suficientemente penosa como está. Mattia havia suspirado de alívio e Michela deixara cair o garfo pela décima vez. Nunca mais se voltou a falar no assunto.
Depois, numa manhã de Janeiro, Riccardo Pelotti, aquele que tinha cabelos ruivos e lábios de babuíno, aproximou-se da carteira de Mattia. Olha, a minha mãe disse que também estás convidado para a minha festa de anos, disse, num fôlego e a olhar para o quadro. E ela também, acrescentou, apontando para Michela que alisava cuidadosamente a superfície da carteira, como se fosse um lençol. A cara de Mattia começou a formigar de emoção. Respondeu obrigado, mas Riccardo, aliviado do peso, já se havia afastado. A mãe dos gémeos ficou logo agitada e levou ambos à Benetton para os vestir com roupa nova dos pés à cabeça. Passaram por três lojas de brinquedos, mas Adele não parecia muito convicta.
Mas o Riccardo gosta de quê? Será que vai gostar disto?, perguntava ela a Mattia, avaliando um puzzle de mil e quinhentas peças. E eu é que sei?, respondia o filho. Bom, é teu amigo. Deves saber quais os brinquedos de que ele gosta. Mattia pensou que Riccardo não era bem seu amigo, facto que não conseguiria explicar à mãe. Limitou-se a encolher os ombros. Por fim, Adele escolheu a nave da Lego, a caixa maior e o brinquedo mais caro da loja. Mamã, é muito, protestou o filho. Não é nada. E vocês são dois. Não vais querer fazer má figura. Mattia sabia muitíssimo bem que, com ou sem Lego, má figura era coisa que faziam sempre. Com Michela era impossível o contrário. Sabia muitíssimo bem que Riccardo só os convidara para a sua festa de anos porque os pais a tal o haviam obrigado. Michela colar-se-ia a ele do princípio ao fim da festa, verteria a laranjada em cima dele e, depois, pôr-se-ia a choramingar, como fazia sempre que estava cansada. Mattia, pela primeira vez, achou que seria melhor ficar em casa. Aliás, achou que seria melhor que Michela ficasse em casa. Mamã, disse, incerto. Adele procurava o porta-moedas na carteira. Sim? Mattia respirou fundo. A Michela tem mesmo de ir à festa?
Adele imobilizou-se de repente e espetou os olhos nos do filho. A menina da caixa observava a cena com olhar indiferente, de mão estendida sobre o tapete rolante à espera do dinheiro. Michela misturava os pacotes de rebuçados no expositor. As faces de Mattia aqueceram, preparando-se para receber uma bofetada, que acabou por não aparecer. É claro que tem de ir, limitou-se a dizer a mãe, encerrando a questão. Podiam ir sozinhos até casa do Riccardo. Eram apenas dez minutos a pé. Às três em ponto Adele empurrou os gémeos para fora de casa. Vá, vão-se lá embora, que já é tarde. Não se esqueçam de agradecer aos pais dele. Depois, virou-se para o Mattia. Fica de olho na tua irmã. Sabes bem que há certas porcarias que ela não pode comer. Mattia anuiu. Adele despediu-se de ambos com um beijo na cara, o de Michela mais demorado. Ajustou-lhe os cabelos por baixo do travessão e disse divirtam-se. Durante o trajecto para casa de Riccardo os pensamentos de Mattia eram ritmados pelo chocalhar das peças do Lego, que se mexiam dentro da caixa como uma pequena maré, batendo nas paredes de cartão de um lado e depois no outro. Atrás de si, alguns metros mais além, Michela tropeçava para manter a passada, arrastando os pés sobre a camada de folhas caducas coladas ao asfalto. O ar estava parado e frio.
Vai deixar cair as batatas fritas todas no chão, pensou Mattia. Vai pegar na bola e não a dá a ninguém. Queres-te despachar?, disse à gémea, que se acocorara no meio do passeio e com um dedo torturava uma minhoca do tamanho de um dedo. Michela olhou para o irmão como se o visse pela primeira vez depois de muito tempo. Sorriu-lhe e correu ao seu encontro apertando a minhoca entre o polegar e o indicador. Que nojo. Deita-a fora, ordenou Mattia, recuando. Michela olhou de novo para a minhoca e pareceu questionar-se. Como é que teria ido parar às suas mãos. Depois, deixou-a cair e esboçou uma corrida desajeitada para apanhar o irmão que já se afastara alguns passos». In Paolo Giordano, A Solidão dos Números Primos, 2008, tradução de José Serra, Bertrand Editora, Lisboa, 2013, ISBN 978-972-251-834-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT

terça-feira, 28 de abril de 2020

A Solidão dos Números Primos. Paolo Giordano. «Os dois gémeos estavam na primeira carteira. Michela passava o dia inteiro a colorir desenhos, ultrapassando meticulosamente as linhas…»

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O Princípio de Arquimedes (1984)
«(…) Quando os dois gémeos ainda eram pequenos e Michela fazia uma das suas, como lançar-se pelas escadas num andador ou então entalar uma ervilha numa narina, sendo depois necessário levá-la às urgências para lha tirarem com pinças especiais, o pai dirigia-se sempre a Mattia, o primeiro a nascer, e a mãe dizia-lhe que tinha o útero demasiado pequeno para os dois. Sabe-se lá o que é que vocês fizeram dentro daquela barriga, dizia. Acho que à força de dar pontapés à tua irmã lhe provocaste algum dano sério. Depois ria-se, ainda que não houvesse nada que rir. Levantava a Michela pelo ar e mergulhava a barba nas suas faces macias. Mattia, de lá de baixo, olhava. Também se ria e deixava que as palavras do pai fossem absorvidas como que por osmose sem realmente as compreender. Deixava que se depositassem no fundo do estômago, formando uma camada espessa e viscosa, como borras de vinhos envelhecidos durante muito tempo. As gargalhadas do pai transformaram-se num sorriso tenso quando, aos vinte e sete meses de idade, Michela ainda não balbuciava uma só palavra. Nem sequer mãe, cocó, óó ou ão-ão. Os seus gritinhos desarticulados provinham de um sítio tão solitário e deserto que o pai, de todas as vezes, se arrepiava todo.
Aos cinco anos e meio uma terapeuta da fala de óculos espessos pôs à frente de Michela um paralelepípedo de madeira com as incisões de quatro formas diferentes, uma estrela, um círculo, um quadrado e um triângulo, e as respectivas formas coloridas que se inseriam nos buracos. Michela observava-as maravilhada. A estrela para onde vai, Michela?, perguntou a terapeuta da fala. Michela baixou os olhos sobre o jogo e não tocou em nada. A doutora pôs-lhe a estrela na mão. Para onde vai esta Michela?, perguntou.
Michela olhava para todo o lado e para nenhures. Enfiou uma das cinco pontas amarelas na boca e pôs-se a mordê-la. A terapeuta da fala tirou-lhe a mão da boca e repetiu a pergunta pela terceira vez. Michela, faz o que a senhora doutora te diz, caramba, resmungou o pai, que não conseguia mesmo estar sentado no sítio onde lhe haviam dito que devia estar. Senhor Balossino, por favor, disse a doutora, num tom conciliador. Às crianças temos de dar o tempo necessário. Michela levou o tempo necessário. Um minuto completo. Depois emitiu um gritinho dilacerante, que tanto podia ser de alegria como de desespero, e enfiou a estrela no buraco do quadrado.

Para a eventualidade de Mattia ainda não ter percebido sozinho que a irmã tinha algo de errado, os colegas da turma acharam por bem elucidá-lo, por exemplo, a Simona Volterra, a qual, no primeiro ano, quando a professora lhe disse Simona, este mês vais ser colega de carteira da Michela, se revoltou cruzando os braços e dizendo ao colega do lado não quero nada estar ao lado daquela ali.
Mattia havia deixado que Simona e a professora discutissem durante algum tempo e depois dissera à professora, eu posso ficar ao lado de Michela. Ficaram todos aliviados:  aquela ali, Simona, a professora. Todos, menos Mattia. Os dois gémeos estavam na primeira carteira. Michela passava o dia inteiro a colorir desenhos, ultrapassando meticulosamente as linhas e colorindo ao acaso. A pele dos meninos de azul, o céu de vermelho, as árvores todas de amarelo. Empunhava os lápis como um martelo da carne e carregava de tal maneira na folha que chegava a rasgá-la uma em cada três vezes. Ao lado dela, Mattia aprendia a ler e a escrever. Aprendia as quatro operações aritméticas e foi o primeiro da turma a saber fazer contas de dividir com dois algarismos. A sua cabeça parecia uma engrenagem perfeita do mesmo modo misterioso que a da irmã parecia tão defeituosa. Por vezes, Michela começava a mexer-se na cadeira e a esbracejar desafinadamente como uma borboleta apanhada numa armadilha. Os seus olhos embaciavam-se e a professora fitava-a, mais amedrontada do que ela, com a vaga esperança de que aquela atrasada pudesse realmente levantar voo, de uma vez por todas. Nas filas de trás alguns riam-se e outros faziam chhh». In Paolo Giordano, A Solidão dos Números Primos, 2008, tradução de José Serra, Bertrand Editora, Lisboa, 2013, ISBN 978-972-251-834-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT

domingo, 26 de abril de 2020

A Solidão dos Números Primos. Paolo Giordano. «Sem aquele nevoeiro talvez alguém a conseguisse ver lá do alto. Uma mancha verde estendida no fundo de um canal, a poucos passos de onde na Primavera…»

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O Anjo da Neve
«(…) Bem que o pai lhe dizia aprende a olhar para onde vais. Se ela se recordasse que na neve fresca o peso não deve ser posto à frente e se, eventualmente, Eric, alguns dias antes, lhe tivesse regulado melhor aquelas juntaras e se o pai tivesse insistido um pouco mais em dizer mas a Alice pesa vinte e oito quilos, não estarão demasiado apertadas assim? O salto não foi assim tão alto. Alguns metros, o tempo suficiente para sentir um pouco de vazio no estômago e nada debaixo dos pés. Logo de seguida Alice já estava de cabeça no chão, de esquis espetados na vertical, que tinham levado a melhor sobre o perónio. Não sentiu muitas dores. Não sentiu quase nada, a dizer a verdade. Apenas a neve que se lhe enfiara por baixo do cachecol e dentro do capacete e que queimava em contacto com a pele.
Os braços foram a primeira coisa que mexeu. Quando era mais pequena e acordava quando tinha nevado, o pai embrulhava-a em roupa e depois levava-a para baixo. Caminhavam até ao meio do pátio, depois, de mãos dadas, contavam um, dois e três e deixavam-se cair para trás, como um peso morto. O pai dizia-lhe, agora faz o anjo, e Alice mexia os braços para cima e para baixo e, quando se levantava e olhava para o seu perfil gravado no manto branco, parecia mesmo a sombra de um anjo de asas abertas. Alice fez o anjo na neve, assim, sem motivo especial, apenas para demonstrar a si própria que ainda estava viva. Conseguiu virar a cabeça para um lado e recomeçar a respirar, ainda que lhe parecesse que o ar que inalava não chegava precisamente lá onde deveria chegar. Tinha a estranha sensação de não saber como é que as suas pernas se tinham virado. A estranhíssima sensação de já não as ter. Tentou levantar-se, mas não conseguiu.
Sem aquele nevoeiro talvez alguém a conseguisse ver lá do alto. Uma mancha verde estendida no fundo de um canal, a poucos passos de onde na Primavera recomeçaria a correr um pequeno rio e o primeiro calor faria brotar morangos silvestres, que se esperares o tempo suficiente ficam doces como rebuçados e num dia és capaz de encher um cesto deles. Alice gritou por ajuda, mas a sua vozinha débil foi logo engolida pelo nevoeiro. Tentou levantar-se de novo, pelo menos virar-se, mas não houve nada a fazer. O pai dissera-lhe que quem morre congelado, instantes antes de esticar o pernil sente grande calor e tem vontade de se despir, de modo que quase todos os que morrem de frio são encontrados de cuecas. E ela ainda por cima tinha as cuecas todas sujas.
Começou a perder sensibilidade também nos dedos. Tirou uma luva, soprou-lhe para dentro e depois voltou a meter o punho fechado para se aquecer. Fez o mesmo também com a outra mão. Repetiu aquele gesto ridículo duas ou três vezes. São as extremidades que te lixam, dizia-lhe sempre o pai. Os dedos dos pés e das mãos, o nariz, as orelhas. O coração faz de tudo para ter o sangue para si e deixa congelar o resto. Alice imaginou os seus dedos a tornarem-se azuis e depois, lentamente, também os braços e as pernas. Pensou no coração que bombeava cada vez com mais força e procurava reter o calor restante. Ficaria de tal maneira rígida que se passasse por ali um lobo partia-lhe um braço simplesmente caminhando por cima dela.

Devem andar à minha procura.
Sabe-se lá se existem mesmo lobos por aqui.
Já não sinto os dedos.
Se não tivesse bebido leite.
Peso à frente, pensou.
Não, os lobos hibernam.
Eric deve estar furioso.
Não me apetece nada entrar naquelas competições.
Não digas tolices, sabes muito bem que os lobos não hibernam.

Os seus pensamentos tornaram-se progressivamente mais ilógicos e circulares. Lentamente, o sol mergulhou por trás do monte Chaberton fingindo que não se passava nada. A sombra das montanhas alongou-se sobre Alice e o nevoeiro tornou-se negro». In Paolo Giordano, A Solidão dos Números Primos, 2008, tradução de José Serra, Bertrand Editora, Lisboa, 2013, ISBN 978-972-251-834-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT

domingo, 19 de abril de 2020

A Solidão dos Números Primos. Paolo Giordano. «Pois, porquê? Pensando bem era melhor a hipótese de ter perdido o passe. Não voltara a subir porque o homem do teleférico não deixara. Alice sorriu, satisfeita com a sua história»

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O Anjo da Neve
«(…) Já deve ter ido para o skilift, aquela pateta, respondeu um rapazito em vez dela. Alice ouviu um vociferar. Alguém disse, vamos a outrem que tinha frio por estar parado. Tanto podiam estar ali em baixo a poucos metros como ainda junto à saída do teleférico. Os sons enganam, ressaltam nas montanhas, afundam-se na neve. Ora bolas para ela…, vamos ver, disse Eric. Alice contou lentamente até dez, embargando a vontade de vomitar que o emplastro mole a escorrer-lhe pelas coxas lhe causava. Assim que chegou a dez começou do princípio e contou até vinte. Já não se ouvia ruído algum. Pegou nos esquis e carregou-os nos braços até à pista. Levou algum tempo a perceber como teria que os pôr para estar perpendicular à linha de pendência máxima. Com um nevoeiro do género nem se percebe para que lado se está virado. Enganchou as botas nos esquis e apertou as juntaras. Desceu a viseira e cuspiu nela por dentro para a desembaciar. Podia descer ao vale sozinha. Não queria saber se Eric andava à procura dela no cume do Fraiteve. Ela não queria estar dentro daquelas meias-calças todas borradas um segundo a mais do que o necessário. Pensou no percurso. Nunca descera sozinha, mas, enfim, metera-se sozinha no teleférico e fizera aquela pista dezenas de vezes.
Começou a descer estilo limpa-neve, era mais prudente, e de pernas alargadas tinha a sensação de estar menos borrada. Ainda no dia anterior Eric lhe havia dito se te vejo a fazer mais alguma curva estilo limpa-neve juro que te ato os dois tornozelos. Ela tinha a certeza de que Eric não gostava dela. Devia achá-la uma caguinchas. E os factos, no fim de contas, davam-lhe razão. Eric também não gostava do pai dela pois, todos os dias, no fim da aula, o moía com um milhão de perguntas. Então, como é que vai a nossa Alice, então estamos a melhorar, então, temos uma campeã, então, quando é que começam as competições, então, isto, então, aquilo. Eric fixava sempre um ponto por cima dos ombros do pai dela e respondia que sim, não, ou então, com longos eh.
Alice via a cena toda a passar-lhe pela viseira cheia de nevoeiro, enquanto descia lentamente, sem conseguir enxergar mais que a ponta dos esquis. Só quando ia parar à neve fresca é que percebia que era o momento de curvar. Pôs-se a cantarolar uma canção para se sentir menos só. De vez em quando passava a luva pelo nariz para enxugar o pingo. Peso atrás, espeta o bastão e gira. Apoia-te nas botas. Agora, peso à frente, percebes? Pe-so-à-fren-te, sugeriam-lhe Eric e o pai. O pai ter-se-ia zangado com ela, como uma fera. E ela tinha de arranjar uma mentira. Uma história que se aguentasse de pé sem falhas ou contradições. Não sonhava sequer contar-lhe aquilo que realmente lhe havia acontecido. O nevoeiro, isso mesmo, era culpa do nevoeiro. Ia atrás dos outros na pista do slalom gigante quando o passe de esqui se soltara do blusão. Aliás, não. O passe não se solta do blusão de ninguém. É preciso ser-se mesmo muito idiota para o perder. É melhor o cachecol. O cachecol caíra-lhe do pescoço e ela voltara atrás para o ir buscar, mas os outros não esperaram por ela. Chamara-os vinte vezes mas eles nada, tinham desaparecido no nevoeiro e, então, ela voltara para o vale à procura deles. E por que é que não voltaste a subir, perguntar-lhe-ia o pai.
Pois, porquê? Pensando bem era melhor a hipótese de ter perdido o passe. Não voltara a subir porque o homem do teleférico não deixara. Alice sorriu, satisfeita com a sua história. Não tinha uma falha. Já nem se sentia tão suja. Aquela coisa deixara de pingar. Provavelmente ficou congelada, pensou. Iria passar o resto do dia colada à televisão. Tomaria um duche, vestiria roupa lavada e enfiaria os pés nas suas pantufas felpudas. Ficaria no quentinho o tempo todo se tivesse tirado ligeiramente os olhos dos esquis, aquele pouco suficiente para ver a faixa alaranjada que dizia Pista encerrada». In Paolo Giordano, A Solidão dos Números Primos, 2008, tradução de José Serra, Bertrand Editora, Lisboa, 2013, ISBN 978-972-251-834-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT

segunda-feira, 7 de maio de 2018

A Solidão dos Números Primos. Paolo Giordano. «Eric chamou-a de novo, Alice não respondeu. Enquanto estivesse ali em cima o nevoeiro escondê-la-ia»

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O Anjo da Neve
«(…) Não se via um palmo à frente dos olhos quanto mais sol que rebenta as pedras. Estava tudo branco, só branco, em cima, em baixo, de lado. Era como estar envolvidos num lençol. Era o exacto oposto da escuridão, mas Alice tinha medo na mesma. Deslizou para a beira da pista de esqui em busca de um montinho de neve fresca onde pudesse aliviar-se. Os seus intestinos fizeram um ruído de máquina de lavar a louça a entrar em acção. Voltou-se para trás. Já não via Giuliana, por isso, Giuliana não a podia ver a ela- Subiu a encosta alguns metros, pondo os esquis em espinha de peixe, como a obrigava a fazer o pai quando pôs na cabeça que tinha que a ensinar a esquiar. Para cima e para baixo na pista de esqui infantil, trinta a quarenta vezes num só dia. Subia em passo de escadinhas e descia em estilo limpa-neve, pois que comprar o passe de esqui para uma só pista era desperdício de dinheiro, sem contar que, deste modo, também treinava as pernas.
Alice desapertou os esquis e deu mais alguns passos. Enterrou as botas até meio da barriga das pernas. Finalmente estava sentada. Deixou de reter a respiração e relaxou os músculos. Uma agradável descarga eléctrica propagou-se pelo corpo todo para depois se aninhar nas pontas dos pés. Deve ter sido o leite, seguramente foi o leite. Deve ter sido também por ter as nádegas quase congeladas por estar sentada na neve a mais de dois mil metros de altitude. Nunca tal lhe acontecera, pelo menos que ela recordasse. Nunca, nem uma vez. Aliviou-se pernas abaixo. Não chichi. Não só. Alice borrou-se toda, às nove em ponto de uma manhã de Janeiro. Borrou-se nas cuecas e nem sequer se apercebeu. Pelo menos até ouvir a voz de Eric vinda de um ponto indefinido dentro do banco de nevoeiro, a chamar por ela. Levantou-se num ápice e foi nesse momento que sentiu algo de pesado nas entrepernas das calças. Instintivamente tocou no rabo, mas as luvas tiraram-lhe a sensibilidade. De qualquer modo, não era preciso, pois já percebera tudo. E agora, que faço, questionou-se.
Eric chamou-a de novo, Alice não respondeu. Enquanto estivesse ali em cima o nevoeiro escondê-la-ia. Podia baixar as calças do fato de esqui e limpar-se com neve, ou então, ir ter com Eric e segredar-lhe ao ouvido o que lhe acontecera. Podia dizer-lhe que tinha de regressar à aldeia pois estava a doer-lhe o joelho. Ou então, borrifar-se para o sucedido e esquiar mesmo naquele estado, tendo o cuidado de ser sempre a última da fila. Mas, ao invés, deixou-se simplesmente ficar ali, atenta a não mexer um só músculo, protegida pelo nevoeiro. Eric chamou-a pela terceira vez. Mais alto». In Paolo Giordano, A Solidão dos Números Primos, 2008, tradução de José Serra, Bertrand Editora, Lisboa, 2013, ISBN 978-972-251-834-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT

domingo, 24 de abril de 2016

A Solidão dos Números Primos. Paolo Giordano. «No teleférico Alice fez, par com Giuliana, a filha de um dos colegas do pai. Durante o percurso não falaram. Não sentiam uma pela outra nem simpatia nem antipatia. Não tinham nada em comum…»

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O Anjo da Neve

«(…) Deixava-se ficar assim sentada âté que o pai batesse com força à porta da casa de banho e gritasse então minha menina, quando é que acabamos que já estamos atrasados também hoje? Mas não servia de nada. Assim que chegava ao primeiro teleférico ficava de tal maneira apertada que se via obrigada a desenganchar os esquis, a pôr-se de cócoras na neve fresca, um pouco afastada dos outros, a fingir que apertava as botas enquanto fazia chichi. Amontoava um pouco de neve junto às pernas mantidas apertadas e mijava se toda. Dentro do fato de esqui, nas meias-calças, enquanto todos os colegas olhavam para ela e Eric, o professor, dizia como sempre estamos à espera da Alice. É mesmo um alívio, dava por si a pensar todas as vezes, com aquela bela tepidez que se derretia entre as pernas enregeladas. Seria um alívio. Se não estivessem todos ali a olhar para mim, pensava Alice. Mais tarde ou mais cedo vão perceber. Mais tarde ou mais cedo vou deixar uma mancha amarela na neve. Vão gozar todos comigo, pensava. Um dos pais aproximou-se de Eric e perguntou-lhe se naquele dia não estava demasiado nevoeiro para subir até lá acima. Alice apurou o ouvido, cheia de esperança, mas Eric exibiu o seu sorriso perfeito. O nevoeiro está só aqui, disse. No cume está um sol que até rebenta as pedras. Coragem, toda a gente a montar.

No teleférico Alice fez, par com Giuliana, a filha de um dos colegas do pai. Durante o percurso não falaram. Não sentiam uma pela outra nem simpatia nem antipatia. Não tinham nada em comum a não ser o facto de não quererem estar ali, naquele momento. O ruído que se ouvia era o vento a varrer o cume de Fraiteve, ritmado pelo escorrer metálico do cabo de aço em que Alice e Giuliana estavam penduradas, de queixo enfiado na gola do casaco para se aquecerem com a respiração. É o frio, não estás realmente apertada, repetia Alice a si própria. Mas quanto mais o cume se aproximava mais o aguilhão que trazia na bexiga penetrava na carne. Aliás, era algo mais que isso. Desta vez ela estava mesmo prestes a não aguentar mais. Não, é apenas o frio, não podes fazer chichi agora. Acabaste de fazer há pouco, anda lá. Uma golfada de leite rançoso subiu-lhe à epiglote. Alice engoliu-o de novo com nojo. Estava aflita, aflita de morrer. Há mais duas estâncias antes do refúgio. Não aguento tanto tempo assim, pensou. Giuliana levantou a barra de segurança e ambas deslocaram o rabo um pouco para a frente para descerem. Quando os esquis tocaram no chão Alice deu um impulso com a mão pata se separar da cadeirinha». In Paolo Giordano, A Solidão dos Números Primos, 2008, tradução de José Serra, Bertrand Editora, Lisboa, 2013, ISBN 978-972-251-834-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A Solidão dos Números Primos. Paolo Giordano. « Leva-os com as pontas para a frente, senão ainda matas alguém, disse-lhe o pai. No fim da temporada o Clube de Esqui oferecia-te um crachá com estrelinhas em relevo. Cada ano uma estrelinha a mais…»

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O Anjo da Neve
«Alice Della Rocca odiava a escola de esqui. Odiava despertar às sete e meia da manhã também nas férias de Natal e odiava o pai que a fitava ao pequeno-almoço enquanto por baixo da mesa fazia dançar a perna nervosamente, como que a dizer despacha-te. Odiava as meias-calças de lã que lhe picavam as pernas, as luvas que não lhe deixavam mexer os dedos, o capacete que lhe esmagava as faces e premia com o ferro no queixo e, depois, aquelas botas, sempre demasiado apertadas, que a faziam caminhar como um gorila. Então, bebes o leite ou não? insistiu, de novo, o pai. Alice emborcou três dedos de leite a ferver, que lhe queimou primeiro a língua, depois o esófago e o estômago. Muito bem. Hoje vais mostrar quem és, disse-lhe. E eu sou quem, pensou ela. Depois, empurrou-a para a rua, mumificada no fato verde de esqui pejado dos emblemas e adereços fluorescentes dos patrocinadores. Àquela hora a temperatura rondava os 10º negativos e o sol era apenas um disco um pouco mais cinzento que o nevoeiro envolvente. Alice sentia o leite a revirar-lhe o estômago enquanto mergulhava na neve de esquis ao ombro, pois os esquis é preciso carregá-los sozinha, até que não sejas de tal maneira boa que alguém os carregue por ti.
Leva-os com as pontas para a frente, senão ainda matas alguém, disse-lhe o pai. No fim da temporada o Clube de Esqui oferecia-te um crachá com estrelinhas em relevo. Cada ano uma estrelinha a mais, desde que tinhas quatro anos e eras suficientemente alta para enfiar entre as pernas a cadeirinha do skilift até quando fazias nove e a cadeirinha já a conseguias agarrar sozinha. Três estrelas de prata e, depois, mais três de ouro. Cada ano um crachá para te dizer que estavas um pouco mais preparada, que estavas um pouco mais próxima das competições que tanto aterrorizavam Alice. Já na altura pensava nas competições e ainda só tinha três estrelas.
O local de encontro era junto ao teleférico às oito e meia em ponto, para a abertura da estância de esqui. Os colegas de Alice já lá estavam, formando uma espécie de círcu1o, todos iguais como soldadinhos, atabafados no uniforme e entorpecidos pelo sono e pelo frio. Espetavam os bastões na neve e apoiavam-se neles, ancorando-se nas axilas. De braços pendurados pareciam inúmeros espantalhos. Ninguém tinha vontade de falar e Alice muito menos. O pai deu-lhe duas palmadas demasiado fortes no capacete, quase parecia querer espetá-la na neve. Dá cabo deles. E lembra-te: o peso para a frente, percebes? Pe-so-pa-ra-a-fren-te, disse-lhe. O peso para a frente, respondeu o eco na cabeça de Alice. Depois, ele afastou-se, soprando para dentro dos punhos cerrados, ele que rapidamente voltaria para o quentinho da casa para ler o jornal. Dois passos e o nevoeiro engoliu-o. Alice deixou cair os esquis no chão de um modo que se o seu pai a tivesse visto certamente lhas daria ali mesmo, à frente de todos. Antes de enfiar as botas nos esquis, bateu-lhes na sola com o bastão para sacudir os pedaços de neve encrostados.
Estava um pouco aflita. Sentia o chichi a empurrar a bexiga, como um alfinete espetado dentro da barriga. Também hoje não iria aguentar, tinha a certeza. Todas as manhãs a mesma coisa. Depois do pequeno almoço fechava-se na casa de banho e fazia força, fazia força, para esvaziar o chichi todo. Deixava-se ficar na sanita a contrair os abdominais até sentir, devido ao esforço, uma pontada na cabeça e ter a impressão de que os olhos se lhe escapuliam das órbitas, como a polpa da uva morangueira se apertares a casca. Abria ao máximo a torneira da água para que o pai não ouvisse os barulhos. Empurrava cerrando os punhos, para espremer até à última gota». In Paolo Giordano, A Solidão dos Números Primos, 2008, tradução de José Serra, Bertrand Editora, Lisboa, 2013, ISBN 978-972-251-834-5.

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